FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
ENTRE PARÁ E PORÓ
NAVIO UIGE . A IDA
Entre Pará e Paró fica a minha terra, a terra do sabiá. Tem palmeiras, casuarinas, coqueiros, acácias e cigarras barulhentas que nas noites quentes namoram o luar.
Repimpei espigado na ternura tardia dum amor que o mar lambeu, com Sol e sombra, azul e branco, muito calor, muito ardor.
Após a esquina e mais outro cotovelo vem o cipó no quintal da minha avó. Chamava-se Madalena Topeta, de cara grande e ventas largas cobertas por um lenço cinzento e bolas brancas em luto preto; Avó Topeta metia-me medo com o irmão de nome Guerra que era austero bruto e, curandeiro quimbanda do Puto; daquele quintal saíam cheiros fortes de combinações, mezinhas, rezas e manigâncias de manjerico com arrudia.
Como eu me lembro!… desse cheiro de ervas e, da figura grande desse meu tio Guerra...assustadora de mirrar miúdos, como o homem do saco, amigo do lobo mau.
Cresci em espanto a ver o rio grande no fundo do vale e a serra branca de neve para lá dos montes intermédios. A Serra da Estrela.
Do mar, que não via, tinha um escuro medo indefinido... simplesmente!
Atravessei esse mar mais tarde. Deslumbrei-me na imensidão e voei, voei como um sabiá... e felizei-me.
Mesclado entre o lusco e o fusco do tempo, com paracuca, fui crescendo rodeado de catinga com funge. Na sombra da mulembeira do Catambor bisgava rabos de junco.
Encardindo na tez depois duma eternidade olho uma foto amarelada a relembrar a minha mocidade; havia nela uma felicidade de inocência que no correr dos anos foi desbotando. Entre a maturidade e os desvarios, registaram-se-se capítulos de puto pilha galinhas, salta muros, fisga celestes, canários, periquitos e siripipis.
Como qualquer criança também tinha um bairro e a rua daquele, quando chovia era um rio feito de água de verdade trambulhando no zinco e adobe, latas ao rebolão que entravam no meu portão.
Quando chovia era a valer; o céu desabava e, naquela rua que virava rio, eu...eu era mais que um simples capitão d'areia, tirocinava-me como o meu tio Guerra.
Um dia, eu e os demais miúdos do rio seco do Malhoas cheios de devaneios, resolvemos construir uma jangada. Juntamos tábuas com cordame de sisal, tambores sem uso e outras quinquilharias de luminosidade e fingimentos de motor, pau de mastro e outros trastes de fundo de obra em execução.
( Continua... II )
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