FÁBRICA DE LETRAS DOKIMBO
ENTRE PARÁ E PORÓ
SAMBA . BAIRRO DE LUANDA
Lá no bairro Malhoas construímos uma jangada de banga!
Das tarefas dignas, o Pica era o rouba-pregos, o Capicua era o desvia-tábuas, o Cocho Necas era o amarrador-mor, nosso Capitão-mor. Ao fim de alguns dias rebocamos a jangada para as águas pouco profundas lá no matope da Samba a uns dois quilometros.
A inauguração da jangada foi uma autentica desgraça; nada sabíamos do Titanic, mas este acto desconseguido foi p´ra nós mais marcante. A vaidade dos quatro subiu toda naquele estrado de jangada e, claro, o equilíbrio trambulhou-nos
O nosso orgulho, afogou-se ali naquelas águas baixas da Samba; concluí que o código da minha tirocinada capitania, se esfumou na ânsia grandiosa daquela juventude.
Como é que eu iria atravessar aquele mar da Samba?
Foram projectos grandiosos de juventude e, com o correr dos anos, já na fase de empedernida clarividência concluí na vida que não basta querer fazer, antes disso é necessário fazer querer!
Tempos de pitangas e cigarras chamando quentura em acácia rubra. Anos mais tarde voltei ali e, já não encontrei coqueiros, casuarinas nem palmeiras no contraste; o morro tinha sido alisado, desordenadamente a cidade crescera até ali ao nosso mar; este simplesmente, já não existia. Em seu lugar erguia-se um foguetão, em homenagem a um prócere em jeito de mausoléu.
Uma homenagem a Agostinho Neto.
O amaranhado caserio de ruas sem ordem, repleto de velhas chapas, papelões e restos de tugi, tinham tomado o nosso mar. Já não havia mangue, nem carangueijos e, a ilha de areia branca tinha simplesmente desaparecido. Como foi possível?
Havia gente ajudando cães, gatos e moscas basculhando nas dixitas de toda a cidade; Não adianta procurar nos mwangolês brigadistas, generalistas, capitãnistas do porquê uns têm tudo demais e, muitos outros, tudo de menos.
Neste entretanto, o rouba-pregos Pica ja era general do MPLA, O Necas sobrevivia na penumbra dos arrabaldes de Coimbra do Puto, o Zorba Capicua era um aposentado da Polícia Judiciária e eu, burrifafa o sonho em terras de N´Dongo e de N´Gola.
Lá, já não posso dizer ... terra à vista!!!...
Taparam-me o sonho.
Glossário: banga - estilo, bassula - queda fintada , bisgava - agarrava com bisgo, colava, catinga -suor, cheiro activo de transpiração, funge - comida de mandioca, mangue - vegetação de água salobra, matope - lodo (Moçambique), mwangolês- os donos de Angola mulembeira - árvore que dá uma espécie de pequenos figos, puto - petiz, rapaz ladino, Rabo de Junco - pássaro, tugi - merda, dejectos, Dixita - lixeira, Samba – lugar, bairro de Luanda, (Angola).
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