LU.ANDA,... AI.IÚ.É
É só espuma patrão
Juca Kat´chipemba falava dos antigamente, naquele linguajar próprio de quem só sabe falar, das cuesas que lhe mexiam na cabeça e que não estava mesmo certo; a todo o momento jurava que, sim patrão, jura mesmo, o país num anda.
E, eu ali estava, bem por demais, debaixo daquela mulembeira; nos frente era só capim e, lá muito no longe, despois dos embondeiros e os mato cheio de bissapas, se viam as luzes do lusco-fusco de Luanda.
No despois do almoço de cacússu com mandioca, por ali ficamos, só falando e rindo no catravés doutros tempos, de quando nós éramos candengues e garrávamos rabo-de-junco juntos e, dávamos berrida nos lagarto pintado de colonialista, vermelho e verde, sempre sustando a gente nos pedra junto dos cajueiros e os maboque que garrávamos na estrada de Catete!
Aka! (...) Patrão, tem saudade daqueeeele tempo, jura mesmo! (...) Agora esta terra só tem kissonde rico! No resto, tudo nas maioria, é mesmo pobre.
Juca, sempre sobreviveu das lagoa do Lifune, nas pescaria n´dele e, despois das confusão da independência e guerra cus búfalo e Unitas, foi para o kafunfo trabalhar cus feijão mas, a vida por demasiado, só lhe chorou.
Juca tem a minha idade mas as rugas fazem-no muito, por demais, mais velho. Naqueles entretantos longínquos, eu era o menino da xitaca, lá das cassoneiras e girangolos das n´nhacas mas, com o tempo virei patrão; do que ele me relatou à sua maneira sobre o como é agora, passo a resumir sem aqueles trejeitos de quem sempre comeu pirão com a mão.
Entre o Maculusso e a Nossa senhora do Carmo, já noite, pausa para o café na casa do Zeca Portuga das Ingombotas; no quintal das farras de antigamente, despejei o que me roía a alma, conversa puxa palavra e foi saindo.
De quando em vez o galo maluco do vizinho Candinho esganiçava o canto bem no alto daquela carcaça velha duma GMC, toda cagada de branco.
- Esta terra tem demasiados pobres, está num estado lastimoso de atraso e descultura, gente endinheirada que simplesmente, só tem dinheiro, gente com muito dinheiro e só são “ricos” no nome.
Umas pausas e uns goles de café da Gabela a intercalar o meu directo discurso.
- Exibem o que dizem ser seu com a propriedade dos outros.
- Os endinheirados não usufruem de sossego porque vivem obcecados de poderem ser roubados; quando não é produto de roubo, é-o de negociatas do esquema ilícito.
- Gente enriquecida no roubo é adversa à ordem policial pois que, a haver ordem, estariam todos na cadeia. Eles enriqueceram graças à desordem.
Zeca Portuga só abanava a cabeça. Em curtos espaços mudava os costados no tamarindo; via-se que estava desassossegado e temeroso.
- O gozo dos novos-ricos é ter um carro mais cintilante do que o do vizinho. Quando se amolgam nas estradas que os colonos deixaram, agora esburacadas e convexas dizem, a culpa, (…) é do Portuga.
- Os novos-ricos, novos governantes, compram grandes casas para serem vistas pelos olhos de quem passa, dos amigos que consolidam a inveja ao nível mais sofisticado de Kazumbi, na mistura de água de cu lavado com a de lavar defunto.
Zeca assustou-me abrindo os braços copiando em gargalhada o galo do Candima.
- É isso mesmo, sundiamenos, isto merece uma cuca e foi-se. Surgiu num repentemente com duas canecas repletas de frescura dizendo enquanto tomava assento. Continua, disse.
- A inveja destes camundongos, tem espuma como esta cerveja cuca tirada à pressão. É mesmo só espuma!
- Estes sambizangas, coleccionam donzelas m´boas como gado, têm amantes aos montes mas, vivem na desconfiança. No meio do fausto as amantes esgueiram-se pelos fundos e o traidor vira traído.
- É isso mesmo, pigarreou o Zeca descontinuando o meu discurso. São todos uns cabrões empertigados! Concluiu.
- Sem garantia de segurança, os novos-ricos, rodeiam-se de guarda-costas, somam aparências de elite de imitação falsificada; sendo “os pilha galinhas do povo” dão-se ares de que “lutam pelo progresso”.
- Nacionalistas falsos, retaliam ao menor beliscão, pois eles, são os guardiões da nação e das doações que o mundo dá. As doações viram negócio em fardos vendidos ao povo no Roque Santeiro, tira bikini e outros mercados de calamidades.
- Um polícia no Puto multa um Mantorras e, logo no outro dia caçam a carteira a seis guetas brancos, sabes, os albinos. Isto parece brincadeira!
- É isso mesmo, vociferou o Zeca, são uns filhos da puta!
Descompassado pelo entusiasmo do Zeca tentei abrandar as minhas insinuações; ainda tinha de organizar as malambas, arrumar as bikuatas para regressar ao Puto, dar umas gasosas e assegurar o meu lugar na TAAG, das palancas negras.
O erário público é deles, lambuzam-se no fascínio de uns bens de ostentação; um faz-de-conta como crianças que nunca crescem. Ai-iú-é !
Para terminar dei uma de moralista, de quando eu acreditava que aquela Angola era de todos nós, mas agora Angola só é Luanda e, Luanda é deles; Luanda é a Mutamba e, os Ricos vão para a Mussutulândia. Trocaram o Caxito, Kifangondo ou Cacuaco pela ilha. Dizem que lno Cacuaco só tem mosquito.
- Angola, é a sua quinta. Nela dissolvem com petulância a dignidade dos seus antepassados; a Ginga, o Mangumbe, o Ekuikui, o Cangandala, o N´dalatando e o fiote Bumelambuto. Eles nem querem saber!
- Em Outubro, o das eleições,... alguma coisa vai ter de mudar povo! Olho neles!
Dito isto despedi-me da Dona Zéfinha que cabismuda se manteve quase sempre presente.
- Mungueno, repeti acenando a mão disponível.
Rumei para casa, subi a avenida das acácias rubras depois do largo ex- Serpa Pinto, passei o largo da Maianga em direcção à antiga António Barroso e fiquei por ali no Rio Seco, antigo Malhoas.
Ainda quero rever o meu amigo Juca Kat’chipemba num outro quadro e, após as chuvas, que é quando o pó levanta um cheiro especial e umas formigas se vem meter por debaixo dos pés, fazendo uma caminhada crocante, como agora se diz.
Adormeci na interrogação persistente.
- Será que Angola vai continuar cada vez mais na mesma numa revolução cheia de espuma?
O Soba T´chingange
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