FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
" CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA"
Por
O Soba T´Chingange
A palavra "Quilombo" tem origem nos termos "kilombo" (Quimbundo) ou "ochilombo" (Umbundo), presente também em outras línguas faladas ainda hoje por diversos povos Bantus que habitam a região da Guine, Congo, Zaire, Angola e quase toda a África Austral. Eram conjuntos de libatas, cubatas ou embalas de pouso utilizadas por exploradores ou nômades em seu deslocamento. Era um lugar aonde os funantes, descansavam após andarem dias pelo mato recolhendo mel, cera, marfim e outros produtos adquiridos no interior de África. Os negociantes portuguêses que, abandonando a costa maritima, iam comercializar mato afora, ajudados por seus auxiliares pombeiros ou moçambazes que falavam a língua dos índigenas, utilizavam os kilombos para descansarem. No Brasil o quilombo era um local de refúgio dos escravos, africanos e afros descendentes (negrose mestiços), havendo entre eles minorias indígenas e marginais brancos a “contas com a justiça” e um ou outro indigente matuto ali acolhido; o mais famoso na História do Brasil foi o de Zumbi dos Palmares. Aqui, genericamente, o termo "quilombo" ganhou o sentido de comunidades autónomas de escravos fugitivos.
Kilombo
No Brasil, mais propriamente no estado nordestino de Alagoas, no correr do tempo qualquer representação teatral de índole popular entre afro descendentes, maioritariamente negros, suas danças dramáticas, arraiais ou folguedos com autos de representação carnavalesca, chaganças, reisadas ou umbigadas, em tempos de festa ou natal, atribuíram o nome de dança dos quilombos ou simplesmente quilombos. Foram estes folguedos ao ritmo de dança de semba com sua coreografia tribal, da primitiva massemba que originou o samba actual com derivações no chanxado e mais modernamente o chamado kuduro. Os muitos redutos de negros fugidos dos engenhos de açúcar e fazendas de cacau aonde se encontravam em cativeiro, disseminaram-se por todo o Brasil como na Paraiba, Maranhão, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo ou Mato Grosso mas, foi em Alagoas na Serra da Barriga que se congregaram em sociedade e governo que de certo modo, guardavam os antigos sistemas organizativos africanos que foi o Quilombo dos Palmares. Embora a escravidão no Brasil tenha sido oficialmente abolida em 13 de maio de 1888, alguns desses agrupamentos chegaram aos nossos dias, por via do seu isolamento. Outros transformaram-se em localidades, como por exemplo Ivaporunduva, próximo ao rio Ribeira de Iguape, no estado de São Paulo.
Sanzala
Na realidade actual, um kilombo, é um conjunto de casas dispersas aleatoriamente, em um aglomerado próximo de casas feitas em taipa e cobertas a capim rodeadas de currais e galinheiros ou mesmo paliça para rebanhos de ovelhas ou cabras e também currais para alojar muares ou outro gado; animais que dão o sustento a cada casa, a conjugar com os produtos da lavra ou n´haka em terras mais húmidas junto a alguma nascente ou borda de rio. Aqui, a vivência, seja em Angola ou Brasil não difere muito daquilo que hoje se chama de zanzala ou kimbo que, quando situadas na periferia de uma cidade tomam o nome de musseque ou favela; no fundo, são efectivamente os escravos modernos, fornecendo mão-de-obra barata aos senhores da selva em cimento; é tão-somente uma outra forma de escravatura, mais livre, mas sendo os verdadeiros serviçais ou a “arraia-miúda”da urbe que reaproveitando desperdício dos ricos constroem seus bairros de lata ou “bidonville”.
Musseque
Quando a caravela de Martim Afonso de Sousa aportou à agora cidade de S. Vicente, no Brasil, lá por volta de 1531, contam as crónicas desses primórdios que já encontrou chalupas de negros cativos a serem comercializados mas, esta prática nesse então era tão vulgar, não dando azo a se fazer reparo como hoje. Sabe-se, isso sim, porque constam dos escritos, que um tal de Jorge Bixorda lá pelos anos de 1531, iniciou o carregamento regular de negros para o Brasil, a partir de África; deduz-se que tenham saído da bacia do Congo ou Zaire pois os portugueses já aí tinham entrepostos comerciais e uma boa relação com nobres locais. Talvez tenha sido o primeiro empresário negreiro a levar mão-de-obra para os engenhos de cana-de-açúcar.
(Continua...)
Da lavra ou n´haka de
O Soba T´Chingange
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