Sábado, 4 de Novembro de 2017
NIASSALÂNDIA . VIII

MULOLAS DO TEMPO – 04.11.2017 - Nós e o mundoHoje, acordei bordado em lentejoulas marafadas do sul do M´Puto.

Niassalândia é o meu país.

Por

sambacatá2.jpgT´Chingange 

Assim é! Acordei com uma zoada nos ouvidos; uma comichão suave com apitos de cascavel. Já é habitual colocar cotonetes com água oxigenada e um pouco de água morna mas ao agachar-me na procura dos cotonetes vi o milongo da Ana Arrais feito de muitas ervas do Nordeste brasileiro. Foi quando pensei que este milongo feito de sambacaetá, deveria fazer bem à minha dormência e comichão fungosa dos meus ouvidos.

sambacatá.jpg Vai daí, pus em uma tampinha um pouco de água oxigenada misturada com este samba-caetá e, à medida que a água oxigenada crepitava gostosamente em meus ouvidos fui rodando os cotonetes no sentido dos ponteiros do relógio, não fosse o diabo tecê-las; pois! Numa coisa assim tão corriqueira pode suceder o imprevisto. Levantei-me e fui sentar-me à frente da televisão, liguei-a mas com o zumbido dos ouvidos e pensamentos a voar recordei coisas da minha mutamba.

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Bom! Pude ver-me pelo espelho da vidraça virada a sul - a minha t´xipala na forma de um ET com duas hastes saindo das orelhas. Entre esta visão cómica e cósmica, presenciada na primeiríssima pessoa nem dei muita atenção às inchadas notícias que davam avondo de pormenores extras, da incerta independência da Catalunha.

sambacatá3.jpgNestes propósitos vi-me a apanhar antes do nascer do sol a tal planta de samba-caetá junto aos muros do fundo da Praia do Francês. Ana recomendou que teria de arrancar estas ervas antes da kúkia (sol) sair grande e redonda do lado nascente – lado do mar. Teria de ser daquelas que crescem bem ao la do das urtigas, sítios sombreados. E, assim foi! Dias depois fui ao mercado de abastecimento de Maceió, um mercado das calamidades ou um Tira-Biquíni da Luua para comprar um especial álcool de cereais que ela pediu.

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Junto com mais plantas, Ana fez aquele milongo com aquele álcool. Tenho de referir que lá em casa dela na rua Camarão, sempre a via botar um frasco deste milongo nas narinas e snifar longamente tal preparo de cor castanha. E, foi por vontade minha que ela me deu a cheirar nesse então, este milongo; penetrou bem pelas vias nasais, cérebro e cerebelo refrescando a áurea do meu ser. Senti-me fresco, audaz e curioso.

sambacatá5.jpg Disse-lhe que também queria aquele produto. Daí eu ter diligenciado tudo para obter tal cazumbi, produto que uso quando me lembro porque tenho as narinas entupidas e também para eliminar os biliões de fungos que pululam nas minhas ventas. Depois disto fui fazer duas torradas. Já tostadas, rego-as com azeite de oliva de Borba, graduação 0.4 e, esponjo nelas a cayenna pépper que um amigo me recomendou lá na África do Sul.

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Foi-me dito e repetido que é boa para regular a tensão arterial, porque dilata os vasos sanguíneos e outros edecéteras que por ora não interessa mencionar. Abrindo uma cápsula tomei seu gosto; uiui, uiqué, muito mais forte que o jindungo que normalmente tomava fazendo-me até transpirar o cocuruto do meu templo.

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Mas, não é tudo! As torradas são também barradas com óleo de coco para me livrar doutras mazelas que até o tempo me fez esquecer. Só lembro terem mencionado que meus ossos deixariam de ficar estaladiços como os da Catarina Eufémia. Mas, se pensam que isto é tudo esperem, mais um pouco! Um raizeiro de Maceió, aconselhou-me a tomar o tal de ipê-roxo para durar até aos 333 anos. Não o levei muito a sério mas, pelo sim pelo não, tomo esta bolunga à mistura com o borututu

pião3.jpg Pois, da gente com mais de cinquenta anos, que tenha vindo de Angola, quem não se lembrará de ter sempre lá em casa uma garrafa de água do Bengo com raízes de borututu na geleira, frigorifico ou recolhendo da selha gota-a-gota a água que ali se deitava para purificação. Tudo isto era para preservar contra doenças de biliosa, do aparelho urinário e rins; assim dizia o raizeiro doutor Kimbanda de nome Sambo.

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São tantas as mistelas que tomo à mistura com barbas de milho e mezinhas da minha avô que que nunca saberei ao certo qual, a que melhor me faz. Isto deve ser uma propensão do meu ADN por parte do meu tio Guerra, um famoso curandeiro de cortar a dor ciática, que recebia gente de todo o Portugal no eirado da Senhora do parto de Barbeita, lá nas terras altas da Beira do M´Puto, um genuíno Turdetano.

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:41
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Terça-feira, 4 de Abril de 2017
MUXOXO . L

TEMPO CINZENTOS – 03.04.2017A vida é feita de acasos. Na natureza dos dias de hoje, não é o mais inteligente que vence na vida mas sim aquele que melhor se adapta a ela… A continuar desta forma seremos no futuro, todos ladrões…

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange

A vida da gente é feita de acasos; de coisas pequenas que mudam nosso destino como uma vírgula minúscula altera um texto. Cada um de nós tem isto embebido em sua estória de vida e, por isso se diz que, esta ilusão é de um minuto ou uma centelha dele e, as coisas sucedem num agora, num lugar de hora certa ou errada conforme a sorte, conforme seus guias de guarda invisíveis que num dado instante o são e num dado instante deixam de o ser.

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Pois quantas vezes, por se estar no lugar e hora errada, se têm um dissabor ou uma alegria que tudo muda no percurso de nosso enredo de vida, nosso fado! Habituado a viajar, um dia e, estando eu no Algarve do M´puto saí de casa com o propósito de em Armação de Pêra e, junto do amigo Mogo, inscrever-me em um dos passeios romeiros que habitualmente ele organizava.

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No ano anterior tinha ido com a família à Festa do Cavalo em Gerês de La Frontera de Espanha, uma cidade situada bem perto da Cidade costeira de Cádis na Andaluzia. Porque gostamos do passeio, falou-se em casa que seria bom voltar a rever aquelas figuras de gitanos com adornos e prendas, suas cavalgadas em carroças enfeitadas a caminho de “El Rocio” e la virgem del Carmo, sua Santa protectora mui querida.

ÁFRICA4.jpgBem! Chegado à retrosaria do Mogno em Armação e depois dos cumprimentos, respondeu-me que naquele ano de 2005 o grupo de romeiros de “El Rocio” os Tugas, iam para o Brasil. Bem! Foi-me pormenorizada de como seriam esses quinze dias em Maceió, falou das praias e edecéteras; conseguiu assim despegar as tentações do subconsciente com coqueiros a abanar no vento fresco do pensamento.

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Acabei por me inscrever; que lhe daria a confirmação depois de conversar com a Ibib, minha parceira de tentações tropicais. E, foi assim que troquei o El Rocio de Gerês, festa “del cavallo” pelo Nordeste Brasileiro. Logologo minha mulher disse: Pois, é quase ali ao pé, mesmomesmo, quasequase a mesma coisa! Ibib já habituada aos meus entretantos disse: que remédio! E lá fomos nós no tempo aprazado para a terra dos papagaios.

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Isto para verem como desacontecem as coisas dum plano, vida esfarrapada de pequenos hífens pregados a nós como um destino. Que se lixe, e lá vamos, e lá fomos; a vida são três dias e temos de gozá-la enquanto se pode! Para além do mais sou cidadão do mundo e não me vou pregar na cruz dum qualquer país feito Cristo, mesmo que esse país se chame M´Puto. Já que me trambicaram uma vez, traíram e venderam a preço zero, mais vezes virão e, aos poucos, suavemente roerão minha própria cruz.

carmen1.jpg Os pequenos mas, acontecem assim quase inadvertidamente predestinando nossos amanhãs, com políticos desclassificados fazendo-nos escravos de leis fabricadas ao seu propósito. Vamos tocar isto para a frente, o que tiver de acontecer, vai suceder e novas perspectivas surgirão, novas gentes, novas entidades, novos desafios. E fomos; e ficamos…

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E, porque parar é morrer damos impulsão á nossa vontade na peugada da estória do Lampião, das várias sagas, do assucar, do cacau, do sisal, do café, do leite de coalho e das sobrevivência construídas de pau de arara, a pique e tabique ou taipas de criar escaravelhos. E, assim de romeiros de “El Rocio” de Andaluzia, espanhola, entre gitanos, viramos romeiros ao padre Cícero do Juazeiro do Norte do Ceará feitos matutos.

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Transpirando vírgulas no meu texto de vida feita de malambas, de palavras, revejo-me aventureiro indo de balsa até às piscinas naturais da Pajuçara, mar verde-esmeralda. Entre coqueiros posso ver da minha varanda as muitas velas triangulares com seu garrido colorido entre a língua branca das ondas batendo nos recifes, nos corais bonitos da baia com muita mais do que os sete coqueiros da praia cor esmeralda.

arte1.jpg Estes acasos não são exclusivamente meus; D. João VI fez do Brasil a sede de um Império empurrado por Napoleão, mantendo-o unido; dando títulos aos senhores do dinheiro a troco de grandes somas para formar o banco do Brasil; Por acaso os nobres, Condes, Visconde, Duques e Marqueses passeavam suas vaidades no peito mostrando suas medalhas. Também eles viviam uma fantasia com futilidades e muito devaneio à margem do povo, dos escravos e ricaços que engordavam riquezas vendendo gente como peças. Quem não tinha título mas algum dinheiro tornou-se Coronel, Major e lguns outros ficaram doutores…

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E quis a estória que de infortúnios se fizesse moda e arte! Durante a viagem de Portugal até o Brasil os piolhos tomaram conta das cabeças das damas; a tal ponto que tiveram de as rapar! Verdade! Desceram primeiro em São Salvador com turbantes ornamentais em suas cabeças sem algum cabelo. As mulheres baianas acharam estranha aquela moda e adoptaram-na logo pois que vinha da europa civilizada. E, foi assim que surgiram os turbantes enfeitados como o da mais recente Carmem Miranda com frutas tropicais. Como digo a estória de todos nós é feita de acasos. Naquele tempo ainda não havia o conhecido “kitoco” o tal de mata piolhos. Assim teria de ser! E, assim o foi!

carn1.jpg A vida é feita mesmo de pequenos nadas, de serras paradas à espera de movimento. Coqueiros ondulando com o vento, o mesmo que trouxe as caravelas. O vento de à bolina, mais tarde as naves feitas aviões, que vão e vêm unindo traços e culturas; falas e linguajares com sotaques variados. Agora, em terras de Vera Crus estão-me surgindo papagaios, esticando-me os ossos, as dores, muxoxos de minhas atribuladas vontades. Um dia, isto vai ter de parar…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:31
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Sábado, 1 de Abril de 2017
MALAMBAS . CLXVIII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . 01.04.2017 - Amai-vos uns aos outros, mas só se for pra valer…

MALAMBA: É a palavra.

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

O homem produz cultura tal como a abelha produz mel mas, enquanto a abelha tem defesa aos anticorpos, doenças e vírus pelo seu eficiente própolis, o homem fica subserviente à boa sorte tomando antibióticos que decerto lhe farão mal a outro qualquer órgão que não aquele visado. O homem fica assim sujeito à análise, à crítica e ao comentário que nem sempre é do inteiro agrado do progenitor da ideia ou do conceito; estamos falando de cultura, entenda-se! Surgem assim os pontos de vista que sendo muitos e 

propolis1.jpg Uns temas surgirão absurdos para alguns, enquanto outros o acharão interessantes. Hoje após me ter levantado, bebi minha dose habitual de cloreto de magnésio  chá de canela de velho e, porque ando com uma fissura no lábio, deitei directamente no lábio e língua umas quantas gotas de própolis de Alagoas. Uma das gotas caiu na bacia de louça branca, cerâmica polida; tentei limpá-la com simples água e nada de nada!  

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Esfreguei com insistência e só quando usei álcool etílico é que a mancha vermelha saiu embora a custo. Foi a partir daqui que rebusquei nos meus alfarrábicos rascunhos e recursos de conhecimento especial me inteirei a fundo do valor deste eficaz antibiótico. O própolis vermelho é um extracto produzido a partir de uma seiva encontrada no rabo-de-bugio, uma vegetação dos manguezais do estado alagoano do Brasil. Este ouro rubro, como é conhecido por muitos pesquisadores, atrai a atenção da comunidade científica de diversas partes do mundo.

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O registro do própolis vermelho confirma que o produto possui propriedades diferentes dos outros doze tipos de própolis já catalogados no Brasil. A saliva das abelhas, transforma a seiva encontrada nos mangues numa espécie de "cimento", utilizada para revestir a colmeia. Rica em vários compostos, o própolis vermelho tem surpreendido pelas propriedades activas em acções antibacterianas, antifúngicas, antivirais, anti-inflamatórias, além de alto poder cicatrizante e acção antioxidante, actuando na prevenção do envelhecimento precoce.

propolis2.jpg A seiva do própolis vermelho, vem demonstrando resultados positivos no controle de diabetes, hipertensão, câncer e HIV. Em relação ao diabetes, a própolis regula o controlo da glicose no sangue. Na hipertensão, atua como vasodilatador (aumenta os vasos sanguíneos), melhorando o fluxo do sangue; tem servido como complemento no tratamento do câncer, porque ajuda a eliminar os radicais livres, que estão ligados aos processos degenerativos do organismo.

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Nas pesquisas de HIV, a seiva tem impedido que o vírus se reproduza nas células, diminuindo os sintomas da síndrome. Outra qualidade do própolis vermelho: a seiva é um poderoso conservante natural de alimentos. Pois então!  A partir de agora vou misturar no café ou no cloreto de magnésio 10 gotas para me livrar desta porcaria dos comprimidos da tensão que me tiram do sério com luto antecipado e sem pressão no Nero, meu imperador de nervo teso. Daqui para a frente vou ser o meu próprio médico como a abelha o é de si mesma!

propolis3.jpg Minha imunidade aumentou consideravelmente! Pode ser coincidência, mas desde que comecei a usar, não tive mais nenhum resfriado, virose, ou amigdalite, essas malezas que sempre aparecem com o tempo. Andei aí uns dias a espirrar àtoa, axim, axim, axim com  mais treze cópias e ranho moncoso mas, com o própolis foi trigo limpo!  Mas o melhor mesmo é que já dou cambalhotas no espaço de minha cama e, até já ato os sapatos na maior ligeireza do acto. Ando assim a reconciliar-me com as simples coisas da natureza numa relação de vida química com os outros vários seres cuidando minhas anatomias desmilinguidas.

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Isto porque para falarmos do futuro, mesmo sendo um futuro que já nos sentimos a percorrer, o que dele dissermos, sempre será um produto de síntese pessoal embebido de imaginação. A abelha já tem o seu curso de vida; nós, pessoas, também o temos mas, enquanto nos confundimos entre o “ser ou não ser eis a questão”; elas as abelhas só fornecem à humanidade os mecanismos de reacções químicas. Bom! Elas, as abelhas, em verdade não têm cordões de sapatos para atar! E, quando elas se forem, nós também iremos!

propolis4.jpg Andamos nós a analisar feromonas, previsões e metodologias obtendo respostas que mesmo sendo subjectivas farão parte dos ensinamentos, nem sempre sendo os mais perfeitos ou correctos. E, surgirão teorias, reacções de transferências de electrões, dos protões e coisas do domínio da reactividade química. Sempre haverá ocasiões em que os cientistas, analistas ou inventores terão a boa sorte de deparar com problemas cujo significado e solução têm um alcance muito superior ao que inicialmente supunham. Pena é que descuidem a natureza recorrendo a laboratórios que nos entopem as veias, inventando necessidades fúteis.  

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É aqui que me deparo com uma nova teoria, de que nenhum matemático ainda falou porque desprezam esse factor que vem do Deus da natureza. Juntarei de modo próprio à “teoria da incerteza”, à “teoria do medo”, à “teoria da sorte”, uma outra: a “teoria da simplicidade” ou porque não “ a “teoria da descomplicação”.   

propolis6.jpg Tudo terá um equilíbrio dinâmico por influências mútuas, ora positivas, ora negativas e, que irão desde o conhecimento científico passar ao psicológico, e só então de inventação como coisa possível e, por último ao reconhecimento social. Ando a tentar definir-me como idiota e, sabem que mais, gozo muito com isto! Como a terra antes que ela me coma! Quanto ás abelhas, o certo é de que quando elas se extinguirem, esta humanidade a que pertencemos, acabará também.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:57
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017
NIASSALÂNDIA . V

MULOLAS DO TEMPO – 07.02.2017- Saboreando nosso chá das seis ou talvez sete, nos pós meridiano, já no cair da noite cálida de Maceió…

Niassalândia é o meu país.

Por

soba15.jpgT´Chingange - Nasceu em alto mar num barco chamado Niassa. Assim conta a minha lenda por preterir ser o que ainda estava para ser, uma inventação lançada ao vento para encobrir coisas desacontecidas…

Fiz amizade com Emanoel Fay, um juiz poeta da praça e, lendo suas quadras simples reduzi sua poesia a falas de singeleza, assim de forma emérita; um título honorífico concedido a pessoas que se destacaram em actividades académicas, religiosas ou judiciais e, após deixarem de exercer essas actividades como consta de seu cartão quase curriculum de seu poder judiciário; uma actividade já passada e, em cujas frinchas da vida, folgava seus devaneios e sonhos empilhando rimas de bem-querer.

sardinha0.jpg E, aqui no lugar do encontro há uma quadra de Fay, bem por cima e na coluna aonde agora saboreamos nosso chá das seis ou talvez sete, nos pós meridiano, quase no cair da noite cálida de Maceió. O cartão tem envolto em duas palmas de oliveira, iguais e reviradas contendo ao centro a silhueta de uma mulher toda tapada e de véu, ao jeito de venda no rosto segurando uma espada de longa lâmina na mão direita e sustendo uma balança em sua esquerda; esta balança tem os dois pratos equilibradamente nivelados, digamos, bem horizontais.

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A venda da silhueta significa tanto quanto sei de que a justiça é cega, muda e surda, coisas pensadas para tapear coitados que nada entendem das negociatas de coisas feitas de palavras hermafroditas, de palavras canibais que comem outras, pois assim um palavrório libatório com itens esdrúxulos no reconhecimento da industria da assinatura. Ressalvas e omissões a evitar contrições, verbos e adjectivos na proporção acertada da minúcia e, na dose certa de fazer valer superar o causo ao descaso.

FAY1.jpg Estes meus desaforos em nada têm a ver com o professor universitário Emanoel Fay, juiz de direito emérito que acabei de conhecer no centro comercial na companhia de seu filho e um já conhecido amigo meu que de longa data brincamos a vida dizendo tonteiras, também este ex-funcionário do poder judiciário, amigo e, com um nome nobre, Sérvio Túlio. Os nomes destes amigos demonstram bem o seu patamar social assim bem diferenciado do António e o Manuel ou Joaquim tão desabonados em contos e anedotas.

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Emanuel Fay e Sérvio Túlio dissertando sobre as verdades e virtudes da prática da talassoterapia. Eu, um plebeu a falar com nobres patrícios, poliglotas na arte de ginasticar a longevidade com sã convivência e status na preservação do ar, ginasticando a mente e o espírito entre vaidades remotas e futilidades, conversas de enaltecer vampiros montados em cavalos brancos e com asas rebrilhantes.

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Não! Dessa feita falei das virtudes de se praticar o banho em cálidas águas, ginasticando os músculos e a mente, descrevendo no pensamento a próxima estória, próxima farpa. Falei das virtudes de ver nascer o sol dentro de água salgada, soro do mundo a recordar nosso primeiro exercício em ventre materno, no recolher de raios benéficos e também o ozono, a vitamina D, o iodo e o acto de ser lambido bem cedo, chave de abertura de um novo dia em tempos de mais- valias.

FAY2.jpg Bom! Do lado oposto do cartão do Juiz Fay tem uma dedicatória dedicada a seu pai em letras enaltecedoramente grandes: “ama teu pai com gratidão enquanto com ele estás, depois de Deus, é o amigo com quem sempre terás de contar!!!”. A seguir aos três pontos de afirmação vem a assinatura legível: Emanoel Fay Mata. A marginar todo o rectângulo, trinta e seis pequenas bandeiras do Brasil dando seu tom de verde e amarelo assim como se fosse um caixilho. Algo transcendente e patriótico diga-se em verdade.

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Comecei falando de um cartão de visitas de um recente amigo, eu, um Niassalês aposentado, apresentado por um outro já mais amigo e, nas anotações escritas por gatafunhos ao correr dos raios matinais da praia mas, mudei de folha. Tinha uma seta com a indicação K (de kapa) mas, busquei, vasculhei e não encontrei. Deve ter ido para Roma com um dos muitos amigos que sempre me sopram as orelhas, irmãos da Akasha, os substratos espirituais de um éter antigo, quinto elemento cósmico da quinta ponta do pentagrama.

tonito2.jpeg Todos os dias há um mistério em nossos agoras, nosso céu rasteirinho com coqueiros a farfalhar nossas vivências. Deste modo, tenho de terminar com o ensejo de agraciar a estes dois amigos dizendo em jeito de romano virtuoso e sapiente até às profundas raízes de nenhures: Vitorioso não é aquele que vence mas o que se vence a si próprio, aceitando-se do jeito que se é ou que se propôs, porque a vida para muitos mais biliões, não é um verdadeiro canto de eterna beleza como a de nós os três. Façam o favor de ser felizes.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:16
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2016
MALAMBAS . CLVIII

CINZAS DO TEMPO – 28.12.2016Andamos com o credo na boca, motivo de causas alheias e à revelia da nossa vontade …

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba15.jpg T´Chingange

Muitas das leis que nos regem são um logro. Diz o paradigma de nossa cultura que são necessários no mundo conturbado que nos cerca mas elas, as leis só são pensadas para quem as cumpre. Um estereótipo normal de cidadão é invariavelmente penalizado pelas leis que deveriam ser para todos. A doutora síndica do apartamento que tenho alugado em Maceió queixa-se de que há condóminos que têm seus pagamentos atrasados com um percentual elevado e, vê-se agora na contingência de a contragosto ter de lhes fazer uma dedução com o objectivo de executarem seus débitos.

amigo00.jpg Ela necessita desse dinheiro para cumprir obrigações de fim de ano. E, ela nem pode fechar-lhes o gás, a água ou a luz porque a lei brasileira não permite isso. Se o fizesse ela não se veria em palpos-de-aranha para pagar a quem deve. Para resolver o problema ou sobe a prestação do condomínio ou mete o faltoso em tribunal; este faltoso por norma aluga o apartamento e tem dinheiro, mas alega o inverso e, se levar isto a tribunal, o incumpridor vai pagar em prestações de cacaracá com inerentes gastos judiciais.

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Os condóminos zelosos e cumpridores acabam sempre por ser sobrecarregados com esta falta de cidadania de alguns. É uma amarga verdade que origina repulsa dos demais. Vejo pelas notícias que o mesmo sucede a nível de países, estou a recordar Portugal que recentemente deu benesses de perdão a incumpridores do fisco, mas há mais na lista. E, há os bancos que falham em seus empreendimentos com a anuência do Banco Nacional que tem o dever de os fiscalizar; Claro que quem vai pagar a factura, é sempre o povão!

ÁFRICA3.jpg Esta tolerância está desvirtuando desde algum tempo a honorabilidade da sociedade, a ética dos cidadãos. Estas práticas baseiam-se em teorias por forma a moldar e modificar o mundo real beneficiando o infractor! Nestas engenharias financeiras existe uma ligação de dependência em fenómenos que são a “causa” de rebelião - injustas interpretações no mundo em que vivemos. Isto está muito mal!

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As ciências sociais coligam factos e, a partir deles concluem teorias, porém esta visão é irrealista porque as teorias não provêm dos factos num caminho lógico. As teorias encontram seu suporte nos factos experimentais, mas isto terá de ser contestado porque elas, as teorias moldam e condicionam o nosso conhecimento desses factos! O carácter e a logica hoje, acabam por ser nefastos ao cidadão cumpridor.

ara3.jpg As hipóteses alternativas sempre suplantam as leis básicas do sistema constituindo-se benesses aos incumpridores; Um despacho não pode matar um acórdão e, nem um parecer pode ter a força de alterar um decreto. Esta ciência à cedência, não possui métodos seguros e universais para que todos reconheçam nela, validade. É notoriamente uma falácia, fraude ou roubo! Um disfarce feito remenda à consciência e constituição. Isto não pode ficar assim institucionalizado como se fosse coisa vulgar.

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Há sempre um salto no desconhecido, uma quase instituição que torna convencional os princípios teóricos fingindo não pôr em causa o valor cognitivo da ciência; aqui as teorias operam sobre uma realidade não totalmente dedutível ao sujeito incumpridor. Demonstra-se assim que as leis e teorias podem e devem ser corroboradas pela experiência, mas nunca podem ser verificadas como “verdades absolutas”. Elas são uma fraude!

mess04.jpg As teorias só são “verdadeiras” até que se prove o contrário! Elas não podem ser eternas nem imutáveis. Elas têm num dado momento de morrer porque são injustas; não é racional dar galardões a ladrões! Nem a intrujões e outros que tais! Os defeitos deste modo de governar são óbvios e os seus erros, de grande gravidade incentivam ao descaso, ao despifarro, à astucia sempre maldosa, sub-reptícia de quem não cumpre retirando daí vantagem…

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Diz-se: O crime não compensa. Será isto uma verdade!? A mente parece ficar possuída de um poder de visão simultaneamente a partir de diferentes pontos de vista. É como subir a uma árvore, a cada bifurcação há que escolher o ramo da direita ou da esquerda, realizando-se uma experiência para fazer a escolha apropriada.

arau5.jpg Por vezes ficamos emocionalmente ligados, o que impede ou dificulta um julgamento imparcial. Quando surgem assim pré-juízos, a mente rapidamente degenera-se num autoritarismo de parcialidade. Definitivamente quem não cumpre, não deve ser valorizado ou enaltecido. Deve sim, sofrer as consequências! Aos velhos será cruel deixá-los privados de respostas porque das muitas injustiças, pode sem se querer, saírem à luz do tempo feridas mortais.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:42
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Sábado, 10 de Dezembro de 2016
MUXOXO . XLIII

TEMPO COM CINSAS – 10.12.2016  

-Quando os heróis ficam bronze - Faço recursos à imaginação, combatendo o tédio das horas que sempre sobram…

Por

soba0.jpegT´Chingange

Eram cinco horas e cinco minutos da madrugada, já dia aberto, quando me destinei a caminhar na direcção da feirinha, uns bons 40 minutos andando normalmente e, a partir do Bairro Antares. Levei a mochila para no caso de trazer algo de que gostasse e passei pelo canto da Mena, um boteco situado em uma rua de pouco movimento e que dá num grande largo com um campo de futebol pelado. A esta hora a farra já estava nos finalmentes mas ainda havia umas m´boas cusudas fazendo olhos de pôr de sol aos seus pardos companheiros que entrelaçavam palavras com a cachaça pitu ou cerveja skol.

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As caixas de música tocavam baixo dando som ao grande chapéu de lona quadrado e com suas quatro prumadas em tubo galvanizado ocupando de lado a lado de toda a rua. Qualquer motivo é bom para fazer forró, gingar o pandeiro e fazer gatafunhas à preguiça da luz ténue da noite com umas quantas fluorescentes coloridas dando compostura ao cenário.

abac1.jpg Pode ter sido uma festa de aniversário como a de uma qualquer colectividade festejando um evento de sexta-feira que muito provavelmente já vinha de quinta-feira de Nossa Senhora da Conceição com ponte durável até domingo à noite. Interroguei-me se aqueles aparatos teriam a permissão da autarquia e polícia, mas tive de desculpar a minha curiosidade porque em verdade, até tinha um mukifo monobloco de WC assim como os das obras destinado às damas.

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Do outro lado uma caixa feita de tábuas, uma tranca aramada a fazer de trinco, tábuas enquadradas ao calhas espetadas para o ar formando umas ameias inestéticas e pintadas ou caiadas no jeito tosco de quem tem pressa de acabar.  Descrevo ao pormenor para se darem conta que as vontades foram muitas para fazer funcionar o quebra-quebra do xanxado, musiquinha sertaneja de fazer saltitar o gogó da Mena e, no farfalho da vontade do lusco-fusco da meiguice.

mux1.jpgMais além os urubus saltitavam disputando sacos de lixo ali amontoados. Já não se distinguia bem qual o monte a ser levado pelo carro da prefeitura dos demais por ali espalhados, coloridos e entalados no capim parecido com as folhas de caxinde e, destacando-se uns tufos de mamona ou rícino regados com águas escuras que ali desaguavam saídos de descuidados tubos lá mais junto ao lancil, no meio do capim ensarilhado de restos fedorentos. Cumcamano!

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Chegado à feirinha de rua, pude ver em uma banca com peixe, umas grandes cavalas pelo que, mandei preparar uma delas e já com o saco bem atado na mochila parei mais á frente para comprar doze bananas pacova de grande porte que me custaram três reais e também dois quilos de feijão de corda mais maxixe, jiló e quiabos.

ramos3.jpg De regresso ao lar da Margarida cativo-me depois do banho no meu cantinho do céu rodeado de samambaias; troco ideias com meus obstinados e silenciosos abismos na perspectiva de dali extrair ausentes sentimentos. Ouço a canção evangélica do Eliseu do dia de seu descanso dando graças a Deus e, entre grossas curiosidades sufoquei o meu espírito num mistério, despojo de intuídas ideias preconcebidas no dito de que “só vemos o que queremos ver”.

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No intuito de mostrar o que ninguém viu antes, comecei a averiguar obsessivamente os segredos de muita gente inteligente que não rouba por vício ou por necessidade mas pelo mau hábito de querer ser rico, dono da vaidade deles e senhores das alheias. E este Brasil esta muito cheio de gente governamental que sempre quer levar a melhor, ficar no beneficio sem quere perder as regalias que a eles próprios atribuíram.

maga2.jpg Cosendo disfarces, ensaio previsíveis alegorias sobre os vícios e infortúnios do passado construindo castelos do meu envenenado orgulho, erigindo uma muralha à volta de estabelecidos conceitos tidos como certos. E, fico na dúvida entre o ser agnóstico ou driblar-me em golpes de liberdade de católico não praticante, uma coisa que nada é. Humilhando-me deliberadamente, faço recursos à imaginação, combatendo o tédio das horas que sempre sobram. Cumcamano!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:23
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Sábado, 19 de Novembro de 2016
MUXOXO . XXXIX

TEMPO COM CINSAS - MACEIÓ - 19.11.2016  

Das razões para escrever …

Por

soba0.jpeg T´Chingange

abac1.jpg Separando o sonho da realidade, tento colocar palavras no papel, para que o cérebro fique destinado a novas vibrações. Agora que já tenho alguma dificuldade em separar o sonho da realidade entre interesses e torpitudes, encavalito-me nas silabas, nos significados, nas bactérias embrionárias dum palavrório perdido entre o fio da meada e a meada do fio.

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Uma crónica escreve-se quando se pretende transcrever uma mensagem ou se, se sente prazer em escrevê-la como, ou quase um exercício de mente, fazendo pesquisas adicionais e, segundo um tema respeitando sempre as motivações subjacentes da comunidade; escrever tópicos com alegrias decepções, coisas rotineiras ou esperançosas.

arte4.jpg Nem sempre a descoberta segue por uma caminho de lógica criatividade levando em conta a comunicação científica mas, teremos basicamente de sermos livres de acreditar naquilo que quisermos e transcrevê-las sem a preocupação gramatical do sujeito a cutucar o verbo mais o predicado; sem a métrica do fado ou a rima versejada e, sem pátria idolatrada, jogando búzios na zuela do feitiço.

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As plantas vivem de matéria “não-viva”, que não dizem ai nem ui e, praticamente mantêm toda a vida. Sempre o têm feito desde que o mundo é Mundo e, a nossa vida depressa se desvaneceria se não houvesse uma maneira de elas, as plantas, se renovassem quase tão rápido como são comidas.

ÁFRICA2.jpg Para os animais de que somos pertença obterem os alimentos de que necessitam, têm de contar com a ingestão física de outros organismos e, porque sem esses contribuintes orgânicos, não viveríamos. A vida animal não duraria muito neste Mundo se todos fossemos carnívoros, se nos alimentássemos apena de outros animais.

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Sem algum esforço intelectual, remexendo panelas de sarapatel ou tripas à moda do Porto, muito me convenço da inutilidade das bagatelas que nos preenchem o dia. Refugiando-me atrás da minha vaidade faço trocadilhos, metendo-os num pão e, acompanhando isto com uma cerveja, fico-me pelo silêncio das falas sustentáveis, para não me mentir!

ÁFRICA3.jpg Na sustentabilidade da natureza os herbívoros alimentam os carnívoros ou omnívoros. Temos de nos alimentar de três tipos básicos de substâncias a saber: glícidos, lípidos e proteínas. E, porque é na variedade que reside a segurança, saí bem cedo a fazer compras com meu parceiro de albergue, o dono da casa com o nome de Eliseu.

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E, compramos na feirinha do “Cleto” frutas várias e legumes, mamão, jiló, couve, banana comprida, manga, mandioca, inhame, enfim um conjunto de coisas em sacolas reaproveitáveis para botar o lixo. Não posso esquecer os coentros nem a pimenta no propósito de esquentar o apetite e melhorar a pressão. Passando no azougue, talho, compramos alcatra, queijo de coalho e, claro a cerveja Skol redonda de 450 mililitros.

eliseu1.jpg O Eliseu respeitando sua ancestralidade bíblica de profeta rejeita este e qualquer uso de outro álcool. Bebe sua água tonificada com minúsculos fragmentos de limão a fim de chegar aos 150 anos!  Eu vou cantando que aqui a vida só é ruim, quando não chove no chão, que se chover, tem de tudo e de tudo tem de porção… e, por aí, na cantiga já popular do último pau-de-arara de Zé Ramalho.

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De regresso a casa, Eliseu explica que seu nome é proveniente de um profeta que subiu ao céu vivo. E, subiu, subiu anto que por lá ficou e, porque tinha dito que poria seus pés aonde estivesse Deus. ELE, o profeta, serviu a Elias durante algum tempo, antes de este ter ascendido em direcção aos céus por um redemoinho.

jindungo0.jpg Foi um dos profetas que mais milagres têm registado na Bíblia, entre eles, o de abrir as águas do Rio Jordão com a capa deixada por Elias. Este Eliseu terreno prometeu não mais voltar a beber em sua vida, daquela forma destemperada de outros tempos mas, em verdade, sempre me parece mais fácil do que levitar no espaço e, para o infinito. Mas vinho do puro da uva vai bebendo só de vez em quando, como teste à sua vontade.

eliseu2.jpg Estou em tempo de não mais me preocupar com os muxoxos dos críticos, das alfinetadas de comentadores, dos devaneios e futilidades que nos consomem horas a fio; do gosto ou nem por isso, ou assim do entretanto, da gente que pendura seu ego nas piadas de engasgo ou mesmo rezas insólitas das redes sociais porque nem a tudo podemos ter resposta, nem a tudo podemos responder.

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:40
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2016
MALAMBAS. CXXVI

TEMPOS DE USUCAPIÃOA malandragem prolifera desregularizando a democracia e, entretanto, sentado na praia, dou descanso aos olhos e artelhos…

Malamba é a palavra

Por

soba 01.jpgT´Chingange

phisalis0.jpg Sentado em minha cadeira de praia e depois de ter feito minha gimnástica de talassoterapia, olhos meus artelhos muito cheios de manchas vermelhas assim como sendo uma alergia aos elásticos das meias que uso quando caminho ao longo de Pajuçara até à Jatiúca ou para o outro lado chamado de Jaraguá.  Estas pintalgadelas como desenho de estrelas do universo, mostrando as veias com vermelhidão como se fosse uma folha seca de physális, talvez nem seja uma alergia nas ramificações pintadas de sangue.

physalis4.jpg Vêm-me à ideia que assim de vez em quando sinto como que uma ligeira coceira como se estivesse a ser invadido por formigas minúsculas e, olhando, nada vejo. Fica-se naquela de que talvez seja uma corrente de ar que buliu nos cabelos ou uma aranha que num repente passou e se escapuliu; sempre tendências negativas que nos suprem vontades. Em verdade, o mais certo será concluir-se serem mazelas da idade, um nervo ciático meio frouxo ou um beliscão do tipo neutrão no cerebelo.

ÁFRICA8.jpg Mas, entretanto olho o mar imenso, hoje sereno sem bulir os sete coqueiros, nome da praia com dezenas desses altos paus que farfalhando suas ramadas verde tornam a panorâmica paradisíaca. Desde a piscinas naturais, no meio do mar da baía, pode-se ver depois do verde e azul da água, a língua de areia amarelada, depois os paus de coqueiro, uns tortos outro direitos encobrindo parte dos prédios coloridos em azulejos que ora brilham ora ficam baços conforma as nuvens filtram o sol em sua direcção. 

dia24.jpg E, na serenidade do espelho de água surge uma chata, uma balsa com um homem sentado e outro e pé ximbicando ou espetando um bordão no fundo fazendo desloca-la na quietude. Vão largando uma rede de forma suave fechando um semicírculo com suas pontas de corda do lado da praia. Batendo os cordames, dão susto aos peixes que a seguir se aprisionam na malha. E, vão puxando e enrolando em cima da balsa, pronta para outra largada lá mais à frente, outro suposto cardume; ximbicando e espetando o bordão afastam-se de vez.

tambaqui4.jpgAdmiro estes homens do mar que vivem desta azáfama, uma vida feita ao sabor da sorte, dependendo das fases da lua, das marés, do vento e ondas sem saber que há uma teoria da incerteza a dar corpo aos enigmas da natureza. Estes sim, vivem com Deus. Eles só buscam um cardume, depois cercam e, já numa ex-lata de tinta vendem no posto seu pecúlio, sua sobrevivência. Amanhã ora dará, ora seja o que Deus quiser. Mais longe, fazendo silhuetas no infinito, separação do azul do mar e do céu, podem-se admirar as velas triangulares das jangadas distinguindo-se as cores garridas; é a azáfama do vaivém levando turistas do Sul e da Xirgosia para as piscinas naturais e, ao jeito de Maragoji, dar pão esfarelado aos peixes para inchar os olhos nas coisas belas da natureza.

pajuç1.jpg Neste meio tempo de escrita, vou sendo rodeado de chapéus coloridos, cadeiras e mesas, caixas térmicas isopor ou esferovite com estampas de cerveja a estalar de frio, gulosas que chega, gente gira e barulhos com linguajar de Cabrobó, musica de forró e anedotas de repentistas caboclos, matutos e gente gira de cu ao léu, sereia mostrando a barbatana, os fios entalados na alegria dos olhos e cheiros de entaladinhos mais coxinhas de galinha e o acarajé da tia Alzira. Nesta forma de ver a vida parece não haver tristeza, um dia de cada vez! Saravá!...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:32
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2016
MUXIMA . LXI

MULOLAS DO TEMPO - Embondeiros do Brasil - De Pajuçara até Ganga Zumba em Cruz das Almas de Maceió. Na volta da caminhada, parei no único embondeiro aqui existente…

Muxima e Ongweva são saudades

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

mucua3.JPG Caminhando na orla marítima de Maceió, chamada de calçadão e, a partir da Pajuçara de Maceió andei uns bons quatro quilómetros até chegar à Praça de Ganga Zumba ou Ganazumba para lá da Lagoa das Antas. Enquanto caminhava pude rever que em 1445, navegantes portugueses conduzidos por Gomes Pires chegaram à ilha de Gorée, no Senegal tendo descoberto o brasão do Infante D. Henrique gravado num baobá (imbondeiro).

mucua2.JPG Foi o cronista Gomes Eanes de Zurara que assim descreveu essa árvore: Muito grande, de aparência estranha com um cinturão que pode ir além de 108 palmos em seu pé (cerca de 25 metros) que medimos nesta. Seu tronco é composto de uma fibra forte usada para cordas e pano; queima da mesma maneira como linho. Sua fruta é lenhosa como a abóbora cujas sementes são do tamanho de avelãs; os indígenas, comem sua fruta quando ainda verde, secam as sementes e armazenam-na. Os baobás, embondeiros, imbondeiros ou calabaceiras (Adansonia) são um gênero de árvore com oito espécies; Adansonia digitata e a espécie africana que, também existe em Madagáscar.

mucua4.JPG No Ceará, Fortaleza, existem cinco exemplares; no embondeiro da praça do Passeio Público, foram em tempos fuzilados alguns revolucionários da Confederação do Equador. Em Alagoas existe um exemplar na Praça do Skate, em Maceió ficando muito perto do apartamento aonde me encontro. É uma árvore que chega a alcançar excepcionalmente 30m de altura, e até 7m de diâmetro do tronco (excepcionalmente 11m). Alguns embondeiros têm a fama de terem vários milhares de anos, mas como a sua madeira não produz anéis de crescimento, é impossível isso poder ser verificado.

mucua1.jpgembo1.jpg

Sobre Ganga Zumba ou Ganazumba, consta ter nascido em 1630, no Reino do Kongo em N´Gola, Ganga Zumba ou Ganazumba Filho da princesa Aqualtune que trabalhou na organização do primeiro Estado Negro nas Américas, em Zumbi dos Palmares de Alagoas. Foi o primeiro grande líder desse Quilombo ou sanzala ou Janga Angolana, na então Capitania de Pernambuco, Brasil. Foi reconhecido historicamente, como um bom diplomata, exímio guerreiro e também bom estratega nas lutas.

embo01.jpeg Reinou durante mais de quarenta anos, levando o Quilombo dos Palmares ao apogeu e ao reconhecimento como nação dos macacos pela Coroa Portuguesa. Demarcou espaços e lugares históricos na luta contra a escravidão. A história omite o facto de que seu sobrinho, o Zumbi dos palmares o ter morto em 1678, na sequência de uma traição de sanzala.

mucua6.jpg Seu sobrinho Zumbi, jovem dado à luta e seus seguidores foram de novo escravizados pelos portugueses. Ganazumba que estava quase a obter alforria para seus súbditos por entendimento diplomático foi assim e desta forma retirado do processo. A história por vezes contorna as verdades; hoje sabemos mais sobre estas nuances que como o azeite e com o tempo, vêm ao de cima.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:49
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Sábado, 26 de Março de 2016
MAIANGA . XVI

BRASIL - Conversa fiada - O caldo de feijão, a coxinha de galinha e o ananás recheado de velho barreiro com muito frio…

Maianga é um bairro de Luanda, Angola da Luua, meu berço tropical.

Por

soba 01.jpgT´Chingange

paju1.jpg Aqui na praia da Pajuçara, sentado em minha cadeira cilhada na areia, vendo o mar verde, diviso um pouco longe o rebentar das ondas nos baixos recifes das chamadas “piscinas naturais”; são assim chamadas, porque quando desce a maré fica-se com o pé raso em plataformas de rochas esburacadas com muitos corais e fendas formando pequenas piscinas vendo-se a areia clara e fina dos fundos. Tudo muito transparente, os peixinhos coloridos beliscando-nos nos pés como que, roendo as peles envelhecidas. Os recifes aqui, vistos de cima, parecem pequenos buracos nas rochas como queijo suíço de cor castanha.

paju3.jpg Posso ver quase no horizonta ondas empinando-se num tom mais azul e logo a seguir uma linha branca de ondas rebentando-se em espuma ao longo da suave curvatura terrena. Quase de lado posso apreciar os peritos em futbolei que com arte e muito malabarismo fazem passar a bola ao terceiro toque para o outro lado da rede, aí com uns 2,20 metros de altura Os ginastas habilidosos, dois de cada lado, até parecem ser profissionais no assunto e, de espaço em seu tempo vão cantando a pontuação do jogo, diga-se bem interessante e empolgante.

paju6.jpg Ao terceiro toque feito de cabeça, tronco ou pé a bola é enviada para o outro lado da rede, quando se perde o ponto o pontapé muda para o outro lado do campo; a bola é batida com efeito do topo de um morro de areia feito no momento por modo a dificultar a recepção. A quadra é definida com um fio previamente dimensionado e, na forma de um rectângulo é ajustado com uns ferros, cantos enterrados na areia. Durante o encontro vão dizendo um chorrilho de asneiras com merdas a fazer de vírgulas na gozação com enfeites de carago e desabafos por via das falhas e inabilidades casuais.

paju2.jpg As nuvens que correm por vezes deitam borrifos de água do ceu, como pancadas de arrefecimento ao calor tropical de mais de 30 graus. São já quase oito horas da manhã e as jangadas com velas triangulares desfraldam ao vento suas variadas cores saindo da praia e, a meio do arco da baía da Pajuçara. Em ziguezague por via do vento sul fazem uma bonita composição dando vida colorida à baia, bem no meio do verde-esmeralda das águas tépidas.

paju9.jpg A faixa de areia funciona como uma moldura amarela enquadrando o verde dos coqueiros, das amendoeiras, e lá mais atrás os prédios reluzindo vidros na altura, coisas esquadriadas em paralelos ao alto e deitados, uma tela de cores com redondos e formas com sombras de alegres pinceladas. E lá estão as barracas, com jeito ou sem jeito e zingarelhos com chapéus vistosos, cadeiras aos milhares e mesas, mesinhas e caixas mais caixinhas, isopor, esferovite, coisas rebocadas de bairros suburbanos dos arrabaldes, Jacintinho, Feitosa e cortiços pendurados nas encostas escorregadiças, cortiços despintados, tijolo esfarelando, favela desnivelada.

paju4.jpg O gelado caicó surge em carro repetindo sua fita à mistura com música sertaneja e anedotas de repentistas e outros carros puxados à mão, inventos e zingarelhos desassombrados como churrasqueiras ambulantes; geringonças de todo o tipo e feitio vendendo panos e esteiras e até sinos reluzindo como ouro; sinos de bronze! Haja imaginação quanto baste, um mundo de sobrevivência engatilhando a vida com cautelas por premiar. Um povo sofrido que merecia ter melhores governantes, melhor ensino, melhor condição de vida, menos ladroagem, um deixa para lá no jeitinho brasileiro… tudo que acontece de ruim é pra melhorar!

paju8.jpg E, lá vem o caldo de feijão, a coxinha de galinha e o ananás recheados de velho barreiro, caipirinha, branquinha com misturas de ipê-roxo anticancerígeno, mais a ostra no gelo com limão, o camarão vermelhinho a pedir cerveja mais o acarajé da nega Fulô. Cada dia é um novo ai-Jesus, abre e fecha e torna a pôr. E é o Nosso Senhor que está com todos, e todos com Deus, que é fiel, mesmo quando vem com espada. Tanta fidelidade para curtir com gente necessitada, gente mansa, gente brava, gente que luta e que labuta, que rouba, que cheira para se inflamar de esperança. Vidas encomendadas aonde é perigoso ter inimigos porque há balas que matam, de cobre, de ferro, de ouro e até de prego enferrujado.

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:57
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Segunda-feira, 21 de Março de 2016
MULUNGU . LI

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Nas margens da lagoa Manguaba comi sarapatel... No Alentejo do M´Puto chama-se moleja…

Por

soba 01.jpgT´Chingange

sarapatel1.jpg No Baixo Alentejo, ligado à tradição da matança do porco, com o sangue e a cachola (fígado) faz-se um prato muito apreciado chamado de moleja. Aqui na lagoa Manguaba, a maior do estado de Alagoas no Brasil, tem o nome de sarapatel. Foi exactamente aqui que fui em Domingo de Ramos a recordar tal momento, quebrando meu raminho de árvore, o dedinho de Deus que calhou ser uma piteira. Pendurei-o por ali junto de meu boné de Maceió, naquele sítio humilde aonde havia galináceas à solta, granisés juntos com jumento e cria logo depois da cerca e, um pássaro chilreando a todo o momento, na sacada da tia Lucena, um cantar bonito de espantar, corrido e trinado.

sarapatel3.jpg Mas, quanto ao sarapatel da tia Lucena estava divinal! Sarapatel é uma designação comum de diversas iguarias preparadas com vísceras de porco, cabrito ou borrego. Nascido no Alto Alentejo de Portugal, o sarapatel foi adaptado ao Brasil vindo da culinária indo-portuguesa de Goa, Damão e Diu, outrora pertencentes ao Estado Português da Índia. É um alimento típico da culinária de Alagoas, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Normalmente o seu teor de gordura é bastante acentuado por causa da presença de pedaços de toucinho e da tripa mas, este que comi, quase nem tinha gordura.

sarapatel2.jpg Convém usar uma ou duas pimentas-de-cheiro inteiras e, no final acrescentar-lhe hortelã. Serve-se o prato acompanhado de farinha farofa ou arroz. Em substituição da hortelã pode usar-se folha de louro e no prato já servido, espremer uma rodela de limão. No Piauí, é preparado a partir da chamada "fressura" (conjunto de traqueia, pulmão, rins e fígado) de carneiro ou bode. Em verdade pode fazer-se isto tudo segundo o gosto apurado na experiência.

araujo19.jpgDiz alguma estória, que o sarapatel foi concebido pelos escravos que se serviam dos  restos das carnes menos nobres, desprezadas pelos senhores do engenho no período colonial mas, desta fantasia, não vem mal ao mundo!. Mergulhando-nos na raiz do passado no que concerne aos hábitos alimentares dos colonizadores, sabe-se que aquela versão não prevalece. Os portugueses mestres do forno e fogão são uma draga, comem de tudo; têm o talento de transformar tudo em algo bom para se comer. Aleluia!

valdir5.jpg Em verdade todo o brasileiro se apressa a se apossar das guloseimas dos colonizadores lusitanos mas, qualquer cristão jurará de joelhos que o sarapatel vem da moleja do Alentejo. Prato de resistência, de sustentação, hoje ele é património culinário do Nordeste. Por cá se diz, de peito feito, que homem que é homem, valente, não dispensa uma buchada, uma panelada de um bom sarapatel.

poconé3.jpgSem exageros: É comida rica, generosa, altamente nutritiva e calórica, pois é um guisado completo. Em Portugal, o sarapatel é preparado com as vísceras do cabrito ou do carneiro (borrego) que depois de limpas e fervidas, são fritas em banha e cozinhadas com quase todos os ingredientes e temperos. Além dos pulmões, fígado, coração ou outras vísceras, sangue cozido, banha, azeite, cebola, alho, tomate e temperado com louro, colorau, cravinho e cominhos. Este, também é o sarapatel nordestino!

kafu10.jpg Convém dizer neste correr de pena, o que é a fressura ou pacuera: um conjunto de entranhas (língua, traqueia, pulmão, fígado, coração e rins) de um animal, geralmente o porco, carneiro ou cabrito. Pois não é um material que, para muitas mestres de cozinha dê prazer em manipular sem repulsa ou enjoo. Também haverá que referir que na confecção do sarapatel, entra o sangue do animal abatido que é colocado no final da feitura. O sangue pode ser substituído por chouriço picadinho em cubos.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:03
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Terça-feira, 15 de Março de 2016
MUXIMA . LVII

MULOLAS DO TEMPO - Qualquer um tem de ter a oportunidade de cruzar a mulola... Mulola só é rio quando chove a montante…

Por

t´chingange.jpegT´Chingange

jatiu0.jpg Andando na orla da praia por uns bons cinco quilómetros e, já quase ao chegar à Lagoa das Antas depois da Jatiúca de Maceió, deparo com uma velha senhora falando sozinha suas agruras; descalça e fumando um cigarro tipo mata-ratos arrastava seu carro ofuscado numa área comercial. Não é difícil depreender que era uma moradora de rua e ali junto à praia, debaixo do coqueiral ou um qualquer alpendre e aproveitando a brisa de Deus vinda do mar, pois por ali dormia em cima de uns quantos cartões avulso, seus parcos trastes.

jatiu1.jpg Imagino que assim será por via dum desamor familiar, uma tontura muito cheia de cachaça ou fruto de muito fumo marado. Cada um de nós poderá imaginar lombas e catalombas  mas das cavandelas que deu só ela saberá! O mundo é assim muito egoísta e ninguém perderá um minuto sequer a dar ouvidos às mazelas que um qualquer tem para contar. E esta mulher de nome Perpétua Idailda, passou a ser uma tal de Perpétua Rezinga. Mas, não é só ela não! São algumas dezenas a dormir ao relento usando a natureza como amparo, arrumando carros, alugando cartões conspurcados a tapar o sol aos doutores e outros muitos senhores. 

jatiu3.jpg Mudando de rumo fui até ao jardim dos poetas e pude ficar encantado com uma árvore toda florida com lindas flores. Perguntei o nome e fiquei assim cismado por ser Quaresmeira-roxa. Cismado porque é na quaresma que estamos e é dela que passo a falar porque já muito falei de tristezas e mazelas sociais. Pois fiquei a saber que esta linda árvore tem o nome latim de Tibouchina granulosa e é originária desta América do Sul, Brasil. Tal como a Idailda, é de folhas perenes; uma árvore que encanta por sua elegância e exuberante floração. De pequeno porte pode no entanto atingir de 8 a 12 metros de altura com um diâmetro de 30 a 40 cm.

jatiu4.jpg A floração ocorre duas vezes por ano, no outono e na primavera, despontando abundantes estames longos com cor arroxeada. Mesmo não estando em flor, a quaresmeira é ornamental. Sua copa é de cor verde escura, com formato arredondado. É uma das árvores mais utilizadas na arborização nas praças, calçadas, avenidas, parques e jardins em geral, os largos do Brasil. O único inconveniente é a relativa fragilidade dos ramos que quebram facilmente com ventos fortes. Com podas, pode-se estimular seu adensamento, mantendo-a com porte arbustivo.

jatiu5.jpg A quaresmeira é uma árvore pioneira, rústica e simples de cultivar, vegetando mesmo em solos pobres. Originária da mata atlântica, esta espécie aprecia o clima tropical e subtropical, tolerando bem o frio moderado. Multiplica-se por sementes, com baixa taxa de germinação, e por estaca de ramos meio-lenhosos. Também eu, não fui capaz de continuar a descrever sobre os trastes que Perpétua Idailda transportava mudando o discurso para as belezas que a natureza nos dá. Uma coisa é certa, há gente, muita gente, que não se sabe governar nem é governada. Drogas maradas...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:00
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Domingo, 6 de Março de 2016
MULUNGU . L

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Ainda no Mar Vermelho... Encontrei no lugar de Ferreiros, resquício de gente que foi tropa de lampião… 2ª Parte

Mulungu: É uma árvore de grande porte com flores vermelhas.

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

vermelo0.jpg Um outro dia no Mar vermelho! Saí bem cedo lá pelas 5 horas e 25 minutos com o sol quase a raiar por detrás do Mar vermelho. Caía uma garoa, chuva miudinha e, quando já de regresso ao sítio do Senhor Afrânio, subindo a ladeira, também esta de chão vermelho, reparei com mais detalhe nas estacas de pés de mulungu aramadas na base. Tinham sido ali postas como pau de cerca mas, com o tempo acabaram por rebentar ficando com imponente porte. Pude reparar bem no início de uma mata verde compacta com várias espécimes que estavam carregadas de parasitas bromélias, bem vistosas e, outras que me pareceram orquídeas com flores bem vistosas.

lampi5.jpg Reparei em muitas destas árvores existirem tufos no topo com outra coloração de verde; também aqui havia ramagens de plantas com bagas que por ali germinaram fruto do trabalho dos pássaros da região; sementes por ali deixadas, lá no topo, dando lugar às suas fontes de abastecimento, a tal natureza equilibrada que se perpetua de modo próprio sem a intervenção humana. Posso pensar que ao redor destas orquídeas, plantas com bagas, e flores de cores garridas, proliferavam também os escaravelhos, as minhocas, as borboletas e as abelhas em sua tarefa de polinização.

MULUNGU2.jpg Também a natureza tem parcerias entre o mundo animal e vegetal comple-mentando-se em simbioses no sentido de se perpetuarem com vida. Mais pela tarde e em uma saída à Cidade capital do mar Vermelho, contactamos vários familiares de Jú e Afrânio e, surpresa das surpresas, a irmã do ex-prefeito Afrânio confirmou que a família Lucena teve homens nas tropas irregulares do bando de lampião, o tal cangaceiro matador dos cinco costados do Nordeste, Virgulino da Silva Ferreira que nunca vingou seu pai.

lampi1.jpg O mundo é pequeno! E, eu a pensar que já tinha todos os conhecimentos e andanças do famoso bandido do sertão e, eis que surge na estória já acabada esta notícia ainda que vaga do lugar-tenente Lucena saído desta serra e, do lugar de Ferreiros; estava muito longe de prever depois de minha peugada ao Lampião ainda vir aqui encontrar e por acaso, sítios da saga-senda sertaneja depois de visitar Piranhas, Paulo Afonso, Canindé, Águas Belas, Viçosa, Quadrângulo e muitas mais.

lampi3.jpg Também aqui deparei com a santidade do padre Cícero ora metido em redoma de vidro, encaixilhado, ora em peanhas colocadas nos lugares mais nobres dos lugarejos e tendo ao seu redor jardins bonitos e cuidados fruto de veneração. Já vai longe no tempo em que no sítio de Angico, via a chamada grota em que eliminaram este tão temido e querido cangaceiro; lugar aonde morreu com mais uns dez capangas, seus oficiais-tenentes, às mãos dos homens volantes conduzidos pelo Tenente Bezerra!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:07
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016
MALAMBAS . CXIX

FRINCHAS DO TEMPO . Muitas das coisas que acontecem neste nosso mundo, deveriam saber-se antes de acontecer! …

MALAMBA: É a palavra.

Por

t´chingange.jpegT´Chingange

tambaqui8.jpg O destino faz-nos muitas armadilhas e de suas intenções nunca podemos adivinhar o que nos vai ser mais ou menos desejado! Assim e sem tropeçar nos barulhos dos outros, fazemos presságios por antecipação, esperando calados na esquina da curiosidade. Desta vez e no ónibus da Real Alagoas e, bem no meio do percurso atribulado pelos desvios, surge um homem com duas caixas de esferovite ou isopor como também se chama aqui, vendendo coxinhas de galinha mais vários tipos de refresco e água indaiá; escolhi suco de caju e, foi num truz que degluti essa tal saborosa perna recheada.

tambaqui6.jpgNa paisagem, aqui e ali surgem conjuntos de casas encavalitadas pelas encostas dos morros, assim como cortiços despintados mostrando o vermelho dos tijolos, mais chapas de telhas de canudo desorganizadamente organizadas, arborizadas com robustos pés de manga espada, fruta-pão, cajueiros ou tamarindos. Num desarrumado urbano salpicados de chassis de fuscas e chevrolletes saltam perus, patos e galináceos ao redor de cercas feitas a eito, entre e para lá de escavações barrentas e restos de lixo com sacos multicolores multirasgados. Mais adiante, nos lameiros com bois a pastar nas chapadas de capim, surgem também um ou outro burro com mais alguns cavalos.     

tambaqui4.jpg Logo no início deste percurso surgiu um homem vestido de azul, vendendo fora e dentro do autocarro, laranjas, maças de uvas penduradas em saquinhos de rede de um e outro lado dum pau acilhando no ombro bem a meio da sua gravidade. Na europa estas peculiaridades não existem há muito tempo, porque as normas apertadas não permitem e aqui, qualquer ganho mesmo que pequeno, faz correr a vida de quem sempre viveu com pouco. Foi a este homem que comprei uma réstia de laranjas dispostas como se fossem cebolas escanchadas. E, assim, saboreando-as dou-me conta que o destino desta viagem está próximo pelas obras de santa Engrácia  com mais de cinco anos esperando o tapete de betume.

tambaqui5.jpg No terminal, a surpresa surge com o nome de Jucedi de Lucena e Tó, casal amigo que resolveram abraçar-nos com as quenturas tropicais de Maceió. E ali estava Eliseu, homem dos quatro custados do Sertão e do agreste, das fazendas e usinas de cana doce e cachaça de palmeira dos Índios. Terras de antigos engenhos movidos à força da água dos rios e escravos de Angola. Com falas enroladas encavalitamos os meses de ausência como se fossem colares de muxima feitos de búzios e contas de ave-maria, feitas de feijão maluco.

quipá01.jpg Margarida, a Maria Bonita de Eliseu esperava-nos em casa de riso aberto reservando o domingo para irmos lá ao sítio de Maria e António da Calábria a festejarmos o aniversário de Gina. Pois assim foi; aconteceu nas margens da Lagoa Manguaba com selhas de cerveja tapadas de gelo e um especial vinagrete feito de pimentão seco com segredos anexados ao tira-gosto. A feijoada feita bem à maneira da Tia Jacira e ao jeito do Sertão estava de estalar gulodices exóticas.

tambaqui02.jpg Das portas e portões com assombros camuflados, falamos como entendidos da política do mundo, sem beliscar os porquês de cada qual. Naquele domingo passado Deus estava vago para as nossas intendências e, até quase dancei quando Frank Sinatra, feito bruxo cantou “Strangers in the night”…

O Soba T´Chingange



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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2014
MOKANDA DO SOBA . XLIII

EMBEBEDADO NOS SONHOS  -  Com flores de Cristo!

Por

    T´Chingange

 Embebedado nos sonhos castigados, hoje dei uma resposta azeda a um colaborador da História das Guerras em Angola e, repliquei a notícia dizendo que a independência de Angola foi ganha ou conquistada; sem rebater este conceito por verdadeiro, afirmei que a oferta se adequa melhor ao acto de pronuncio de Agostinho Neto a 11 de Novembro de 1975. Uma entrega incondicional que forçou a vida de muita gente obrigando-as a fugas desordenadas e um recomeço de vida incerto, fora e dentro do território com uma guerra civil que se prolongou por 27 anos. Vencido por um desmazelo de chumbo deixei passar em claro afirmações de adoçar ambições que notoriamente ressaltam mais para além de uma qualquer ideologia em que se querem afirmar no amor a Angola. Para mim, bajular os donos da dibanda é de uma subjugação pura sem mais reticências ma ideologias e ambições são fantasias ou sonhos de cada qual.

 

Afundando sem resistência na lama do meu desgosto, sem forçar para iludir-me, ou desistir dos meus princípios, do meu carácter, sem ter em conta algumas atrocidades, continuo a viver porque, a vida é teimosa a não requer deixar-se apodrecer de forma tão madraça. Escrevo para adoçar as agruras brincando o curtir de cada dia-a-dia enganando os pesares; escorregadios, os dias, fogem-me como estrofes seguidos de deliciosas falas de amor, com estribilhos espanejados ao deus-dará como os de um hino de heróis do mar, nobre povo….

 Plantei à porta do galinheiro e nas traseiras de minha casa uma trepadeira de maracujá que subiu pelo abacateiro esparramando-se no telhado pejada de flores de Cristo; abrindo pela manhã, estas flores dão-me honrarias de vida com a visita de besouros proliferando heroicidades. Surgem também os beija-flores, colibris luzidios sortindo suas pequenas despensas de tudo do que mais gostam, o néctar. Mais ao lado, gansos e galinhas esgadanham a terra limpando-a de formigas nocivas ao pau de sape-sape (graviola) e esta agradece fornecendo-me os maiores sape-sape que jamais vi. Como eu me consolo ensopado de suco desse grande fruto com meus dentes! Esses mesmos, que às vezes me mordem a língua! Aqui, com a flor de Cristo sinto-me galardoado quanto baste.

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2013
KIANDA . XLIV

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

 soba.jpg T´Chingange

Januário Pieter, a kianda itinerante, surgiu-me de supetão estando eu refastelado em minha cadeira de praia e á sombra de um chapéu de riscas brancas e pretas debotadas entre manchas de ferrugem. Logo, logo, ficou difuso, meio gelatinoso, tapando-me a firmeza do sol e, foi quando se definiu em firmes contornos que reparei na outra figura a seu lado, uma outra kalunga já gasta pelo tempo. Pieter levantou a mão seguindo-se-lhe um olá profundo de cavernoso e, apontando seu vizinho carcomido nos contornos holográficos de cor violeta, falou: -T´Chingange, apresento-te este mais-velho de nome Ngoli Bbondi o régulo de Matamba, irmão de N´Zinga, matumbola desde o ano de 1618 que vem visitar o lugar da serra da Barriga, sossego de um seu sobrinho Ganazumba.

   Ngoli Bbondi irmão de Aqualtune vinha como um romeiro prestar vénias a Ganazumba e, dar-lhe o reconhecimento devido como um verdadeiro diplomata na senda de protecção ao povo saído de N´Gola. Ganazumba foi decapitado por seu sobrinho Zumbi que se tornou o rei do Morro dos Macacos. Ngoli andou estes milénios todos roendo angústias por não poder tomar sentido nesse desencontro de gente escrava saída do seu povo por ter sido derrotado na lonjura do tempo pelas forças comandadas por Luís Mendes de Vasconcelos.

 Tenho de explicar que Ngoli veio lá de trás, do tempo em que as pessoas eram vendidas como coisas trocadas por n´zimbos e caurins para e, como escravos trabalharem para seus senhores, donos de engenhos de açúcar ou cacau.  Ngoli, apresentava-se um pobre-diabo carcomido na desilusão, pendurado em peles e, cheio de hemorróides. Via-se totalmente desprovido de recursos e vegetava longevidade gravitada à sombra de Januário Pieter, meu velho amigo de há mais de trezentos anos. Devorado na implacável amargura perguntou-me se sabia do acontecido a Ganazumba. Antes mesmo de eu começar a falar, Ngoli explicou-se de que este dia vinte de Novembro era o escolhido por romeiros do além e de África visitarem os espíritos de seus antepassados.

   Espíritos irrequietos por terem sido trocados por seus próprios sobas, por quinquilharias e missangas a negreiros. Já todos sentados com as unhas a amolecer no verde-mar da minha praia, abreviaram a pressa e, como chegaram assim se foram enfunados no vento de bolina, o mesmo que moveu as caravelas dos negreiros. Sem rasto, nem fumo poluente, seguiram o rumo dos antepassados lá para o Morro dos Macacos. Eu, fui somente um interposto informativo, cumprindo regras de soberania, pró-formes modernos.

Kianda (Quimbundo de N´gola): Espírito, sereia, kalunga de contos africanos, miragem das águas, visão das lagoas 

Januário Pieter*: Um personagem amigo, um sábio que me assiste e complementa conhecimentos...Um fantasma feito guia Kalunga; o homem que nasce da morte metaforizada com mais de 300 anos. Tem no seu ADN a picardia cutucada até a exaustão, Cruz credo!

O Soba T´Chingange



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Sábado, 16 de Novembro de 2013
CAFUFUTILA . XLVI

MARÉ SECA - Açorda de poejo com queijo de ovelha ralado

Por

 T´Chingange

Um destes dias atrás, fui a uma praia ou melhor a uma ilha que só existe quando a maré fica seca, coloquei as cadeiras e o chapéu que espetou bem na fina areia. Como um corsário, tinha o mar a meus pés mas, pouco a pouco e a tal ponto desceu, que me vi obrigado a cansar o esqueleto até ter água suficiente para me tapar. Resulta que eu mais a minha companheira de sempre Ibib, ficamos num seco e mini deserto, paraíso de ninfas travestidas de São Miguel dos Roteiros; esgravatando o chão das rasas areias retiramos meio balde de massunim, um bivalve do género da amêijoa com que se faz a carne à alentejano.

  Em fatias relembradas do passado fomos até o Mussulo, a Corimba e a Samba do outro lado do mar e, com a lembradura de N´gola surgiram outros sítios do Puto com as condelipas da praia grande de Lagos, assim conhecidas desde o tempo em que o Conde de Lippe, comandando suas tropas ali aquarteladas dava a seus homens aquela especiaria com favas e ervilhas. Isto foi no tempo ainda recente em que D. João VI teve de fugir para o Brasil com toda aquela gente que vivia das sopas do reino, das açordas de poejo com queijo de ovelha ralado vindo de Torrão em potes de azeite virgem.

  Foi aquele D. João VI, de nome João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, que originou a fundação do Banco do Brasil às expensas dos ricos negreiros que tinha apetência a serem nobres. Vai daí, o rei cognominado de Clemente, começou a troco de compra de acções do novo banco, a vender títulos de Condes, Viscondes, Duques, Marquês e outras conforme as quantidades de acções que adquiriam. A dada altura, nas grandes cidades como Rio de Janeiro, Santos, São Vicente, Belém do Pará ou Belo Horizonte, os novos elementos da nobreza passavam seu tempo passeando calçadão acima, calçadão abaixo suas estreladas medalhas no peito. Não era disto de que queria falar mas, um vento desavindo como o de Cabral, trouxe-me para aqui.

Cafufutila, kafufutila, kifufutila: Farinha de mandioca (bombô) com açúcar; falando de boca cheia lança falrripos ao interlocutor.

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 2 de Outubro de 2013
T´XIPALA . XXV

LUFADA DE SUSPIROS ... Cidadão genérico -  VII

Por

 T´Chingange   

T´XIPALA: - Fotografia, cara, rosto, personalidade, carácter   

Neste mundo confuso, serei sempre um genérico cidadão ou um sem-terra por não me poder definir como genuíno nessa escolha; assumidamente, não pertenço a lugar nenhum. A minha terra biológica deixou-me ao deus-dará e, até meus sonhos penalizam o recordar dos tempos em que a vida se expressava com fluida vivacidade fazendo dela no agora, uma miragem. Na noite passada entrei numa toca grande mais parecendo uma galeria de mina abandonada e, vendo sair dum buraco lateral uma nuvem de pó para ali me dirigi e, foi de lança em riste que piquei de morte um lobo zombando de mim, deu um uivo esquisito e por ali ficou banhando-se no próprio sangue. Nesse instante, apercebendo-me de algo estranho atrás de mim, virando-me, deparei comigo mesmo, uma imagem nítida de quando rapazola, usava calças com um cinto de fivela enorme.

  Assim como uma foto amarelecida no tempo, estava pontilhado de minúsculos pontos, cagadelas de mosca de sexo indefinido. O penteado com o risco ao meio parecia ter brilhantina de óleo de cedro, daquele que faz brilhar as madeiras dos imóveis mas, eu não era nenhuma escultura de pinho nem de pedra e nem vi caruncho ou salalé enfarinhando vestimentas ao seu redor. Não é normal lembrar-me dos sonhos mas este ficou grudado na testa ou no templo da alma, esse olho do além que paira nas cúpulas das catedrais ou na verde nota de um dólar. De forma inquieta registo aqui o acontecido místico para não ficar olvidado nesse difuso espaço da imortalidade, isso: esse lugar de parte incerta enublado de suave cacimbo. Tudo isto sucedeu no sítio de São Miguel dos Milagres, no lugar de martoke.

    Os peixes-bois, vacas-marinhas ou manatis constituem uma designação comum aos mamíferos aquáticos. Possuem um grande corpo arredondado, com aspecto semelhante ao das morsas. Wikipédia  

Durante o dia comprometido a pertencer a um qualquer lugar visitei o Porto da Pedra, cidadezinha costeira perdida entre muitos pontos do Brasil, caserio despintado a escorregar pobreza nas ladeiras da serra do mar para o rio Manguaba; É neste rio e no vizinho Tatuamunha que habita o mamífero “peixe-boi”. No decorrer de milénios os animais adaptaram-se às alterações ambientais, uns criaram guelras e outros no lugar de barbatanas ganharam pernas de forma a subir às árvores ribeirinhas e recolher seus frutos. O peixe-boi será no Brasil, comparado ao hipopótamo, só que sem pernas e sem necessidade de espargir merda para marcar o seu território. Os biólogos registam os traumas e suas origens não se comprometendo com a origem na criação do mundo evaporando sua generosidade num omnipresente se Deus-quizer. Enfim, seja isso mesmo, o que Deus-quizer.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013
MALAMBAS . II

LUFADAS DE SUSPIROS ... Pesadelos impalpáveis.
MALAMBA: É a palavra,

Por

soba.jpg T´Chingange
Sem a habilidade para regatear como um mercador árabe, compro sonhos que às vezes são pesadelos sem qualidade; por via desses pesadelos impalpáveis, tenho de realizar um esforço constante para levar uma existência normal sem ambicionar demasiado porque, nesse ímpeto, acaba por tudo se perder. As experiências degladiadas no quotidiano da vida vão da lisonja à perseguição numa linha sinuosa de recursos e súplicas de desespero ou suborno chegando à ameaça quando tudo o mais falha. O mais foito que tenho na certeza é a de que não é bom deixar subir a raiva à cabeça e, não é conveniente converter a ternura em inimizade.

Nas brigas, não ganha quem tem razão mas quem melhor regateia e, quem se consegue recuperar de emoções colocando toda a sua artilharia em posição de ataque porque a certeza dos fracos dorme placidamente ao lado da dúvida ou descaso; iluminada pelo consolo da persuasão, as malambas que sublimam a solidez da verdade revertem esta num embrulho de trapos. Explodindo sentimentos novos de vulnerabilidade na arte de regatear, surgem incongruências desconhecidas a enfraquecer soluços de peito na forma de suspiros. Como é possível que a verdade fique perdida no mesmo regaço da angústia; a certeza torna-se quando assim é, numa malamba mal curtida.

Na praia do francês, vendo os recifes negros entre o azul e verde marinhos, soro da vida impregnado de cloro, vitamina D e iodo na forma de algas, exercito meu corpo; lugar aonde se encontra aquele prazer sísmico capaz de mudar a vida rodopiando as muitas lembranças dos tempos em que o orgasmo surgia por uma simples mordida na orelha e, foi neste instante que descobri as pupilas de Deus feitas nuvens, olhando-me com o mesmo amor seguro de sempre, incutindo-me a vontade de ter a responsabilidade do amor com gozo. Digo gozo, não sexo! Não obstante sentir essa mão protectora de Deus, a responsabilidade de ser feliz, foi, é  e será exclusivamente minha.

O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
JINDUNGO . IV

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

Bom Conselho . Brasil Viagem à Caatinga . 2ª de 2 Partes

Por 
Jose Viegas Konde do Grafanil*  

No dia seguinte domingo reforçando a dose de medicamentos, partimos rumo ao interior do sertão, terras do fim do mundo, no cimo de uma montanha, cuja estrada terra batida terminava ali, para almoço de casamento, aí já ia prevenido, logo que senti o primeiro sintoma parecido com o do dia anterior, corri logo para trás das pedras do Lampião, antes que fosse tarde pois ali só havia um mukifo latrina a servir de WC, isto repetiu-se, mas depois regularizou. Chegou a hora do almoço, havia boi, bode, cabrito, na brasa e tudo o resto com fartura de cerveja. Depois de bem comidos chegou a hora do forró pé-de-serra, de cujo ato fotografei e filmei algumas cenas, recordações que jamais se repetirão. De tocadores eram somente o sanfoneiro Severino, um gordo tocando bombo e um magrela de óculos rebrilhantes saltitante tocando ferrinhos; neste entretanto logo me lembrei do Pisca e sua animação, sempre com um olho no burro outro no cigano: Toda gente animada dançando e até o casal T´Chingange marcou a presença num pé de dança, em terreiro de barro húmido. As muitas meninas com traje a rigor e tacão picaram a terra batida num gozo dos foliões machos ao redor.

 Casal T´Chingange

Mais rural e característico do pé-de-serra não poderia ser, Uns chuviscos surgiram a engalanar a festa de arco-íris para lá dos penedos enfeitados de muitos picos e mandacarus na forma de candelabros, paisagem divina duma vida sobrevivente, e os tacões entravam e saiam largando barro á maneira dum farweste, coisa de filme de John Wine, negócio de cinema, mesmo! Jakeline a noiva linda da família de Quitéria cheia de riso bonito, menina de pedir bênção ao pai Siô António pelas manhas,  seguiu no outro dia para o Mato Grosso, lugar de terras amplas, muito pasto, muitas roças e fazendas.  Seguiu  com seu noivo para perto de Cuiabá, coisa distante, a três dias de viagem: Alegre, saudosa de sua mãe e sem cabaço, outras prendas levava no seu regaço. Ficando já lusco-fusco, posto isto, depois de comidos e bebidos, regressamos dando carona ao Manesinho, um elemento activo no folguedo bem notório no forró pé de serra; três para lá, três para cá e rodopiando como só ele boiadeiro e bailadeiro de cepa por parte de pai e mãe, creio!

 Sanfoneiro (Pintura de Costa Araujo)

Regressamos pela catinga, sertão, agreste e canaviais faiscando repentes duma vida impregnada de imponderáveis cantados com ganas de alegria vestida, uma alegria calçada de alpercatas. Outras aventuras kizombeiras nos esperavam na companhia do ilustre Dr. Túlio Sérvio, Stella, Rosangela e o Clã da Sinha Maria mais seu sítio às margens da lagoa Manguaba, e seu António da Calábria em terras de Alagoas, lugar de lagoas e encruzilhadas com mística de zumbis, kalungas e kiandas na forma de massunim com farofa. Na forma de agradecimento ao CASAL T´CHINGANGE MONTEIRO, não só pelo acolhimento em sua casa durante um mês, mas e sobretudo, por estas e outras peripécias que vincaram bem o saber e o interesse pela cultura dos povos, a humildade que lhe é peculiar com toda gente (mercado da produção, forró pé-de-serra e a praia matinal) mais as derivadas  macumbas de arruda com manjerico em casa da doutora Jocedi aonde cozinhei vaidades salpicadas de quitetas, lagostas e camarões pescados por seu  camundongo marido de nome Tó. Tudo isto me marcou de agrado na minha presença no Francês. 

* Konde do Grafanil : José Viegas, Rei de Manikongo aposentado por opção própria. Portador dos zingarelhos, da pele de cabra, dos N´zimbos e búzios da Luua. Senhor dos cabaços do Cunhamgâmua. Fundador e alto mandatário do Kimbo na Globália.

Relator

O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
JINDUNGO . III

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

Bom Conselho Viagem à Caatinga . 1ª de 2 Partes

Por
  Konde do Grafanil*  

Tendo eu ido ao Brasil, nomeadamente a Maceio, Praia do Francês, tive o privilégio através do Soba do Kimbo, ali residente há algum tempo, de conhecer um pouco do interior do sertão do Nordeste, zona fustigada pela falta da chuva nestes últimos dois anos. A condizer com o aprazível nome de Bom Conselho, vi esta cidadezinha acolhedora situada a poucos quilómetros de Garanhuns, terra natal de Lula. Esta ida a terras ao além agreste veio na sequência de uma proposta feita pelo soba: se queria ir ali a um casamento; aceitei sem hesitar por via da minha veia aventureira e, logo pela manha duma sexta-feira, partimos rumo a Bom Conselho; Eu, soba e esposa e um irmão da noiva, ainda jovem com a alcunha de Dôcas. Escassos quilómetros além de Palmeira dos Índios e no desvio para o estado de Pernambuco paramos a fim de verter águas e tomar o café-da-manha à beira da estrada. E, repimpamo-nos com bode grelhado, macaxeira, suco, cerveja, arroz e outras iguarias.

 Chegados ao destino por volta das 11 horas, dirigimo-nos ao hotel Raízes, local já conhecido do casal T´Chingange, reservamos quartos para 3 noites e fomos de seguida almoçar no restaurante do Léo, também já conhecido deles; no self-service, abastecemos os pratos, pesamos, trouxemos para a mesa onde nos foi servido as bebidas com café no final; Para meu espanto, fui surpreendido com duas pancadinhas nas costas por alguém que ali passou junta à mesa que em andamento e num tom de convite disse-me serem 25 reais; A nutrida cafetina apercebendo-se da minha solidão dispunha-se a curtir comigo a visão dum arco-íris resplandecente com cactos de candelabro ao som do pio do carcará mas, os bons costumes deram-me para ignorar tal perspicácia. Seguidamente, tiramos uma fotos junto à igreja matriz e subimos ao cimo do morro para visitar a capela de Santa Teresinha. Daqui, divisamos a cidade, o vale e os montes mais distantes deslumbrantes pela sua característica sertaneja da caatinga. Já na povoação, enquanto a esposa do soba foi ao mercadinho do adro aviar-se, eu e soba mantivemo- nos esperando no carro.

 Eu estava a comprimidos derivado de um desarranjo intestinal, resquícios de sururu da lagoa Mundaú e, … foi nesse entretanto que as cólicas apertaram e, de tal modo que me vi forçado a pedir que me levasse ao hotel, não muito longe dali; arrancamos de imediato e acelerados para evitar consequências, contudo, a escassos metros surge uma lombada logo a seguir ao restaurante do Léo e, aí é que foi, como íamos acelerados levantei cuspido do acento na lombada e rompeu-se o saco do agora. Borrei-me!!!! Já fedendo a sururu com bode do agreste dirigimo-nos para o hotel Raízes, muito embora tivesse libertado parcialmente a fedorenta carga. O soba, foi num rápidamente ao hotel pegar a chave e, de seguida subi a correr para o quarto, de cu apertado e chapéu tapando o sim-senhor foi o lindo e bonito, chuveirada para cima.

* Konde do Grafanil : José Viegas, Rei de Manikongo aposentado por opção própria. Portador dos zingarelhos, da pele de cabra, dos N´zimbos e búzios da Luua. Senhor dos cabaços do Cunhamgâmua. Fundador e alto mandatário do Kimbo na Globália.

Relator

O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 15 de Abril de 2013
PIAÇABUÇU . XVIII

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO                          

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” .  16

Por

   Roeland Emiel Steylaerts

MEU FILHO ISAÍAS, NETOS E BISNETOS

 Conheci meu filho... espera aí, conheci sim, aquele que veria a ser meu filho no Conjunto Nacional quando estava fazendo compras, no supermercado Jumbo. Chamava-se Isaías Rosa Mendes. Ele estava deitado perto do carro... doente e só. Pedi para esperar, levei as compras para o restaurante, e voltei. Levei-o para o hospital e fiquei sabendo que estava com uma infecção na barriga. Teve que tomar três injecções de Benzetacil, uma a cada 2 dias. A primeira, pelo que vi, doeu-lhe muito. Perguntei-lhe aonde morava, e me disse que a família tinha viajado para Bahia, mas ele, perdeu-se no trajecto. Só que isto fazia mais de 15 dias, mas sabia por alguém da família, que seus pais voltariam, pois não deu certo lá. Ele não sabia onde moravam, mas poderia procurar o parente, que indicaria onde o pessoal estaria. Abastecendo a Kombi na Belem-Brasilia seguimos para a chácara e ali dormiu vigiado por mim. Na tarde do dia que se seguiu, falou que aquele, era o dia mais feliz da vida dele. O menino era bonito e devia ter uns dez anos, talvez onze. Amei aquele menino como nada mais no mundo, como se o tivesse conhecido de outras vidas.

Algo interior  me dizia que ele viria a ser meu filho. No dia seguinte procurei sua casa e o deixei com os pais. Tinha um monte de irmãos, nem sei quantos. Tinha irmã alcoólatra, outra com uma perna com elefantíase, outros pequenos, uma verdadeira fauna. Eu precisando de um caseiro na chácara, ofereci serviço ao padrasto de Isaías. Este, por necessidade levou a família toda para morar na casa do caseiro. Só que isto, não manteve o Isaías na chácara; fugia directo para dormir dormia na rua cidade de Brasília. A família, brigava entre si, e uma das minhas portas da casa do caseiro, virou tiro ao alvo para facas. No jardim faziam mais estrago, do que manutenção. Realmente aquilo não iria dar certo e passados uns 10 dias, mandei-os de volta para Ceilândia, perto de Taguatinga. A culpa não foi propriamente do padrasto, mas sim da filharada deste.

 O menino voltou aos poucos a morar na chácara. Perguntei-lhe se queria ser meu filho; a resposta veio mais rápido que a pergunta, e ele falou sim com um largo abraço seguido de um beijo. Quase choramos juntos! Daquela hora em diante ele era meu filho, só faltava legalizar, o que ficou para depois. Muita gente não entende o que é isso de adoptar alguém. Tem que se ter muito amor no coração para isto. É a coisa mais linda do mundo, quando a gente realmente ama. Mais tarde, com a assinatura da mãe, adoptei o Isaías. Morou na chácara até ficar mais velho, até que o mandei para fazenda em Alto Paraíso, aonde ficou a morar com o Sebastião, meu capataz, e sua família, inclusive a Zeneide, com a qual iria juntar-se e ter dois filhos: Rubens e Patrícia. A fazenda ficava a 16 km da cidade de Alto Paraíso. Comprei um Corcel velho, para ele, e os meninos da fazenda, filhos dos trabalhadores para poderem ir todos os dias à escola. Anos depois, tive problemas na fazenda com aparições paranormais e tive que fechá-la. Isaías e sua mulher Zeneide presenciaram vários factos naquele “paraíso”.

(Continua…)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do Rio São Francisco - Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da 2ª guerra mundial e que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:30
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Sexta-feira, 29 de Março de 2013
PIAÇABUÇU . XVII

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“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” .  15

Por

    Roeland Emiel Steylaerts

VIDA DE CHÁCARA

Vivi uma vida gostosa, plena de glamour; era rara a noite que eu ficava sozinho, pois sempre tinha companhia. Quando precisavam de mim em caso de acidentes, estava presente; muita coisa aconteceu numa vida plena, do jeito que eu gostava! Um dia vindo de Brasília rumo á chácara, na pista sem luz e sem movimento, vejo uma mancha grande de óleo; alguma coisa me dizia que havia ali algo errado. Meu filho tinha ido de moto uma hora antes, e eu estava ansioso. Desci do carro com uma lanterna de pilha fraca, daquelas que se tem de ficar batendo para se manter acesa. Vi do lado do asfalto um pacote com carne que alguém tinha deixado cair. Cheguei perto, e virei o pacote, e para meu espanto... aparece uma mão humana com um anel de ouro no dedo. Gelei...sozinho no mato, sem nenhum carro passando. Tratava-se de um tórax humano. Ao longe vi um carro a quem eu fiz sinal para parar. Era um táxi. Pedi para avisar a Policia Rodoviária, pois tinha um tórax humano na pista. O motorista nem desceu do carro e foi embora, pois o Posto da Policia rodoviário estava a poucos quilómetros.

 Por instinto atravessei a pista, com minha lanterna mixuruca, depois de andar uns 20 metros achei uma perna, sem pelo, pois a pele estava esticada que nem num arco. Era de um homem escuro... perna feia e curta; fiz mais uns metros, e outra perna. Chegou outro carro devagar, era a Policia Rodoviária, mas sem ligar a luz vermelha dela, para não avisar. Expliquei o que tinha achado; só faltava a barriga e a cabeça.  A seguir parou um carro, e mais outro. Uma mulher mais valente falou “vamos procurar a cabeça”. Abri a camisa do tórax, quando notei um olho, depois outro... um nariz achatado. A cabeça tinha entrado no tórax. A mulher valentona, parou na hora, vomitou e foi embora. Tudo indicava ser o cadáver de uma pessoa atropelado por um carro de carroçaria baixa, que se pôs em fuga e, provavelmente com a baixa barriga presa no chassis. Deixei meus dados à polícia, e fui para a Churrascaria “Boi na Brasa” comer um bom churrasco, e umas taças de vinho. Bebo toda noite, para poder dormir. Se não for assim, não durmo.

 Chegou o momento de vender a chácara; isto foi logo depois do meu sequestro. Achei finalmente um comprador, um casal de psicólogos, que iria abrir uma clínica de repouso ali. Vendi barato e fui viajar para o Ceará. Um ano depois fiquei sabendo que o homem, se separou da mulher, morrendo em seguida com SIDA; um seu colega estava também, morrendo no hospital. Sua irmã que trabalhava com pedras preciosas na galeria do Venâncio em Brasília, tinha sumido sendo já, considerada assassinada. Seu corpo nunca apareceu. A chácara estava abandonada, e ninguém reclamava de nada... Fui visitar a chácara, que foi toda roubada. Tiraram o forro, os tapetes, torneiras e tudo que dava para tirar. Morava ali um policial que a invadiu, e me mostrava a casa, ou melhor o que sobrou dela. Na casa do caseiro outra invasão, tudo destruído; antena tinha cedida, e estava no chão. A História da chácara acaba aqui...

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do Rio São Francisco - Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra e que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013
PIAÇABUÇU . XVI

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 14

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

 O médico olhou-me, e disse que não tinha material para fazer esta operação. Disse-lhe que eu tinha isso em casa, mas ele me aconselhou ir para Brasília e fazer uma operação plástica bem feita; Brasília estava a a pouco mais de trinta quilómetros. Foi assim que eu fiz, e hoje não tenho nenhuma cicatriz. Regressei à chácara já de noite o que me levou a proceder com cuidado na chegada; tinha por lá uns macacos grandes, quatro araras e um cachorro pastor alemão; eu sempre descia de arma em punho (com registo e porte de armas) e nunca tive nenhum problema com a polícia, ao menos não, quando eu estava presente. A chácara já tinha sido assaltada doze vezes e, por isso vi-me obrigado a colocar alarme com cerca electrónica. Um dia roubaram-me 14 armas antigas da minha colecção. Fiz queixa à polícia, e coloquei um prémio em cima dos ladrões; espalhei propaganda nas redondezas mencionando que teria dinheiro para quem me indicasse algo. No dia seguinte recebi telefonema de um açougueiro, ao qual haviam apresentado as armas; ele não comprou, mas ficou conhecedor das pessoas envolvidas no roubo.

 Marcamos encontro às oito horas da noite em frente do supermercado Valparaíso. Informei que iria numa camioneta F-1000. Já parado no local, um carro encostou perto, olhando com jeito de dúvida para mim. Eu estava dentro do carro, com um revólver 38 na mão e uma cartucheira 12 de dois canos no colo. O homem aproximou-se, ar medroso, e repetiu o relatório dando nomes aos bois. Ele estava com bastante medo por denunciar o caso; para não levantar suspeita, queria ser preso junto, para eles, os ladrões, não suspeitarem dele. Fui direito à polícia, dei-lhes os nomes e forneci gasolina mais munições. Já tarde na noite vieram com um preso amarrado com arame farpado, jogado no carro. Vi-os empenhados em mostrar serviço para mim e todos nós seguimos para a Delegacia. Chegamos lá exactamente no momento em que faltou a energia. Acenderam velas, e pediram-me para ficar do lado de fora da delegacia. Seguiram-se gritos e mais gritos; o homem preso e amarrado delatou todos os seus comparsas. A polícia tinha simplesmente enfiado uma vela acesa no ânus dele, e ele abriu o jogo. Os outros comparsas foram presos na mesma noite; recuperei assim as onze peças. Três ficariam com a polícia como recompensa.

 Era esta a lei de Goiás, e assim a gente sobrevivia. Só que minha fama começou a crescer; virei perigoso, e todos começavam a me respeitar... provavelmente de medo, isto sem eu fazer nada para isso. Um dia, um novo vizinho compra uma chácara em frente à minha já com uma casa no terreno. Era dono de uma boite, ou melhor de um puteiro, e por costume, chegava a casa lá pelas quatro ou cinco da manhã, buzinando alto, até o caseiro abrir o portão, buzinão que demorava uns 15 minutos. Na primeira noite não reclamei de nada. A minha casa ficava a uns escassos 150 metros da dele. Na segunda noite, repetiu-se a mesma coisa, os 15 minutos de buzinão. Peguei uma espingarda, e mirei no seu farol que com um só tiro, se apagou; o silêncio passou a reinar! Nunca mais ouvi buzinão e, nunca fiquei a saber  quem era, pois se mandou de lá.

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do Rio São Francisco - Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra e que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013
MUSSENDO DO PUTO . XXI

AS ESCOLHAS KIMBO

Por
 Dy – Dionísio  de Sousa

Kissondinho (Reis Vissapa) - Alô malta.. O carnaval findou. 2ª de 2 partes

A Felícia fora governanta desde nova na casa do Dr. Viriato e ajudara Dona Jacinta companheira do velho médico para toda a vida a criar uma ninhada de oito filhos; entre eles o Filinto. Em matéria de injecção certeira o Pica-Pica não se limitava só aos matacos dos doentes. – Perguntei pelos outros filhos de Jacinta, e fiquei a saber que as cinco filhas tinham-se casado, sendo que duas delas descasaram e uma fugira para a União Soviética com um russo de mau pêlo. Expressão usada pela Felícia. O Venceslau já estava a comer capim pela raiz e o Joca era jogador de futebol. – Olha lá, e como é que arranjaste lombongo para vir ao puto? – Questionei admirado com a sua presença na minha casa, tantos anos depois. – Kissonde, trabalhei muito nos “Business”. Kinguila na rua, comprar peixe no Namibe e vender no Lubango, bolo de quitandeiro, maçaroca cozida, me virei Kissonde, agora estou de férias.

 Ficou três dias na minha casa e aproveitei para pôr as notícias da minha terra em dia. Quando me despedi dela os meus familiares estavam extasiados com a sua pujança e aquela alegria e humor das gentes de Angola. – Olha Felícia tu não te preocupes com a gripe dos bacorinhos, goza as tuas férias à vontade. O pastor inglês  veio acalmar as hostes e informou aos mais temerosos dizendo que há paletes de “Domilu” ou “Tomiflu” ou seja lá o nome que for do milongo. – Tranquilizei-a. - Mas Domilu era aquela minha prima assanhada, deves te lembrar Kissonde! – Disse-me com um sorriso carregado de malandrice. – Mas essa era “DaMilu”, sabes bem porquê. – Alterquei lembrando-me da mokáia em questão.

 – Agora é dama fina e mudou o nome para esse igual ao do milongo, como é mesmo o nome, esse que o tal de pastor inglês veio vender na televisão. Como chama ele? – Perguntou curiosa. – George Felícia, bom camarada está sempre zelando pela saúde dos tugas e das finanças das farmácias. – Satisfiz-lhe a curiosidade. – Kissonde fica descansado meu menino que eu não volto para o Lubango sem comprar o tal de “Domilu” ou “Tomiflu”. Antes isso que chegar a Luanda e aquele safado daquele capiango querer-me pôr o “Térmómétro” no mataco. Fica com Deus meu filho e se pegares constipação, não te esqueças: Chá de casca de cebola com mel e limão, aquele “Rémédio” dos antigamente, quando acabavam as injecções do velho Alforreca.

Mussendo: Conto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola), Comunicado.

O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2013
MUSSENDO DO PUTO . XX

AS ESCOLHAS KIMBO

 Por
 Dy – Dionísio  de Sousa

Kissondinho - Alô malta.. O carnaval chegou. 1ª de 2 partes

 

 Foi no passado fim-de-semana.

Estava eu e alguns amigos e familiares a petiscarmos na varanda aproveitando um dia de sol radioso. – Bom dia, é aqui que mora o Kissondinho? Perguntou o motorista do táxi estacionado à frente da minha casa. O homem estava completamente espalmado à porta do condutor, olhos fora das órbitas e a pele da cara da cor do Benfica, que fiquei a pensar que lhe ia dar o badagaio junto ao meu portão. Foi quando a vi e só ela é que se podia lembrar daquela alcunha de um passado distante. A Felícia ocupara totalmente o seu banco, a alavanca das mudanças e metade do banco do motorista. Cento e muitos quilos de gordura abalroando o pobre taxista. Dei um salto e corri para o portão e ajudei-a a sair da viatura. – Santo Deus Felícia, há quanto tempo não te via menina! – Exclamei não escondendo o meu contentamento com a sua presença. – Kissondinho meu menino como tu ta velho cheio de cabelo branco. – Clamou afogando-me no peito gigantesco com a genuína emoção de trinta e oito anos de afastamento e de saudades de mim. – Puxa madrinha porquê que não vieste no banco de trás, quase matavas o homem. – E as vistas Kissonde? – Retorquiu.

 Levei-a para a varanda e apresentei-a à família e aos amigos. Duas Super-Bock fresquinhas eclipsaram-se pela garganta dela enquanto o diabo esfregava um olho. A partir daí toda a gente ficou deslumbrada com a sua simpatia e humor. – Então a viagem para o puto foi boa? Perguntei para dar início à troca de repetidos. – Não me fala nisso Kissonde que apanhei cá uma “escolhambação” que vou-te contar. – Comentou abanando a cabeça e aproveitando para limpar o suor imenso que descia em cascata desde a testa. – Conta lá mulher. Incitei-a. – Foi no aeroporto a maka. Um m´fumo do governo chegou ao pé de mim e disse: - Tem de por o “Termómetro” antes de embarcar. – Ai é, mas mais porquê ainda? – Perguntei no malandro. – És o gripe dos porquinho mamã, aquela doença lá dos tuga. – Respondeu o camarada. – Me desconformei e levantei o braço para pôr o tal de “Termómetro” – Descurpa mamã, não pode ser nos braço, vai partir e só temos um, no braço da mana não dá mesmo. – Aí Kissonde me zanguei “dê” verdade. – Vai meter o “Termómetro” na tua mãe, vou ligar no meu afilhado o Doutor Filinto que é secretário da saúde para te prender. – O Filinto? O meu amigo filho do Dr. Alforreca. – Perguntei surpreso. - Sim, esse mesmo. Tirou os curso em Cuba e agora é mwangolé do governo. Esclareceu-me com um sorriso de orelha a orelha.

 Tive de explicar aos presentes que o Filinto era filho do Dr. Viriato, mais conhecido por Dr. Pica-Pica por varrer a clientela com injecções no mataco, fosse dor nos joelhos, sarampo e sarampelo, urticária etc., etc. Por analogia com aqueles incómodos animaizinhos que apareciam volta e meia nas nossas praias e que punham meio mundo a gritar. – Cuidado hoje há pica-pica aos montes. – Acabou num ápice por ser rebaptizado como Dr. Alforreca. – Olha Kissondinho lá na nossa terra os porquinho não tem constipação mesmo. Bicho livre que chafurda no barro e não está prisioneiro, e olha vou-te dizer uma coisa, a carne é mais gostosa. Esses porco do branco está muito fino, num tem bitacaia.

Mussendo: Conto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola), Comunicado.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:38
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Domingo, 20 de Janeiro de 2013
PIAÇABUÇU . XV

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 13

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

Iríamos começar nova etapa, desta vez no Nordeste, que não seria nenhuma Brasília dos primeiros tempos. Iríamos retroceder na história uns 200 anos atrás, em plena natureza, numa terra sem crescimento, onde tudo seria difícil... mais uma vez. Uma terra onde se mata, aonde a justiça em nada dá mesmo sabendo quem é o matador. Uma terra ligada à politica... a cada um para si...deixando o povo sem educação, no cabresto...e dando para cada um R$. 20,00...50,00 ou 100,00, além das promessas, geralmente não cumpridas, na época das eleições. O Nordeste è uma terra linda, mas em compensação... tem os políticos que falseiam tudo e todos fazendo com que a justiça... nunca funcione.

CHÁCARA VALE DAS PEDRAS NO GOIÁS - Naquele tempo as terras em volta de Brasília não tinham valor, e foi assim que encontrei a minha; situada num vale com dois córregos, e um naco de mata atlântica. Gostei, e comprei! Uns 20 anos depois fiquei sabendo que o dono da imobiliária Urubu, loteamento onde estava a minha chácara, era procurado pela polícia e usava o nome do irmão, hospitalizado num manicómio. Felizmente isto nunca me deu problemas. O mesmo depois foi preso por ter torturado cinco menores, tendo-os matado, alegando que haviam roubado uma aparelhagem de som; um deles era o Barãozinho, vizinho que eu conhecia de vista. Mais tarde foi provado que o autor do roubo era outro... Este, era o ambiente na época. Comecei a fazer minha casa no vale, descendo todo o material por um teleférico, com cabo de aço. Em cima na beirada construí uma casa de caseiro, e uma oficina mais um chiqueiro de cimento e um grande galinheiro. Não tendo sinal de televisão por conta da profundidade, tive que colocar uma torre, daquelas branca e vermelha de 42 metros de altura, do jeito daquelas que a Policia Rodoviária usa, com luzinha vermelha, e 16 cabos a prendê-la ao chão. Comprei... Paguei... Mandei instalar... e nada de televisão.

A casa era um verdadeiro museu, cheio de antiguidades, quadros, estatuetas e armas antigas. Havia até um tiro ao alvo, com um boneco de madeira, tamanho natural. Dentro da chácara a parte de minha casa era separada por uma ponte e um córrego, da parte do caseiro, que depois das 18 horas, não poderia passar da ponte, sob pena de levar bala... porque sempre estava bastante escuro de noite. Lembro-me que eu estava testando uma arma, uma Mannlicher calibre 8 x 57, com balas de uns 10 cm para matar elefante (o que faz o capitalismo louco…aqui nem há elefantes), coloquei uma garrafa a 50 metros, encostei numa parede, mirei, e dei o tiro. A arma virou com a luneta para baixo, batendo em volta de meu olho deixando tudo aberto e inchado. O sangue escorria e eu não via nada deste lado. Corri para o banheiro e vi uma cena dramática. Peguei uma toalha com gelo, e me mandei para o posto de saúde, lá perto no Valparaíso.

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do São Francisco. Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



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Sábado, 29 de Dezembro de 2012
PIAÇABUÇU . XIV

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 12

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

No dia seguinte tentou ligar-me varias vezes, só que eu não estava. Finalmente encontrou-me à noite, dizendo que havia um mal entendido, pedindo para esquecer o conteúdo da carta, e não mandar a cópia para a Bélgica. Faria uma recepção na semana seguinte, e pediu-me que sugerisse a quem convidar. Fiz uma pequena lista, e todos foram chamados. Na vida social eu gostava das coisas correctas e muitas das vezes isto não sucedia; quando deparava com hipocrisia, ou falsidade simplesmente, afastava-me. Sucede que em uma recepção da embaixada da Bélgica, vejo uma pessoa que não conhecia, e me apresentei antes de uma amostra de desenhos; em resposta ele, respondeu-me friamente: “ C´est moi qui paie la fête monsieur” (sou eu que pago a festa, senhor)” e, acto continuo virou-se e foi embora. Era o Grão-duque do Luxemburgo, um verdadeiro dono do mundo, como ele deve ter pensado que era, coitado.

 Todos os anos, a seis de Dezembro, se realizava festa de São Nicolau sendo eu o homem Santo das barbas brancas (logo eu, um ateu). Saia da residência da embaixada da Holanda com dois batedores da Policia Militar na frente em um carro aberto; ia saudando o povo para voltar do outro lado da imensa quadra, entrando oficialmente na parte diplomática da embaixada. O embaixador esperava-me, tendo um bom lote de crianças pequenas à espera dos seus presentes. Eu falava várias línguas, e pelo “livrão” que a gente tinha feito antes, com o staff da embaixada, já se sabia a língua dos meninos que viriam na ordem certa; Dava os presentes que os pais tinham comprado, e referia o que eles tinham feito de bem ou mal durante o ano que findava. No grande livro, estava tudo conforme o relatório dos pais e, dava gozo ver o espanto das crianças. Depois da festa recebia do embaixador uma garrafa de Genebra holandesa e um monte de doces típicos da época. Fiz isto por umas cinco vezes, uma das quais pela embaixada da Bélgica.

 Na verdade quem começou com isto foi meu pai, só que duma vez teve uma distensão na perna, e eu, contra a vontade, tive que assumir. Anos depois, voltei a ser “Papai Noel” no Pontal do Peba, em Piaçabuçu para as crianças, tudo feito sob um sol impossível. Mas, tudo isso foi gratificante para mim. Minha mãe depois que decidimos ir para Alagoas, vendeu a casa, muito contra a vontade... mas não tinha outro jeito. À última hora antes de embarcar no táxi que nos levaria para o aeroporto, ainda fez a volta no local, olhando cada quarto, cada canto... numa despedida real e triste. Uma parte da vida dela, ficaria ali para sempre...

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do São Francisco. Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

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O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012
PIAÇABUÇU . XIII

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 11

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

Chegamos a dar vários shows, e também o aniversário dos 40 anos de casamento de meus pais, com direito a tudo, mais missa. A cada Carnaval havia festa em casa, que terminava sempre na piscina. Na mansão havia acontecimentos quase todas as semanas e, sempre bem sucedidos. Eram “vernissages”, exposições, leilões, aniversários, etc. Com a sua piscina grande e as aves arara, uma azul, e duas vermelhas, estava aberto a quase todos. Era em realidade uma típica casa, bem sucedida na ilha de fantasia que se chamava Brasília. Era o começo da cidade, tempo em que tudo dava para ganhar dinheiro. Meu pai, certo dia inventou colocar duas charretes, das quais eu fiz a inauguração na frente da catedral de Brasília, para passeios com turistas. Foi bastante comentada na imprensa de então, só que acabaram por roubar um cavalo, que ele teve que comprar de volta ao ladrão. Alguns comentários maldosos, que criticavam aquela coisa na frente da catedral, levaram o meu pai a desistir. Os “réveillons” eram festejados, com tiros de 44 winchester; bebida não faltava, sendo minha mãe e sua casa reconhecidas pela generosidade.

 Eu já tinha construído minha chácara perto de Luziânia, e raramente dormia em casa. Montei o círculo “Mercator”, clube dos Belgas no Brasil, em uma dependência da embaixada acabando por ser o presidente do mesmo. Fizemos várias exposições de artistas entre outras actividades e, até se fizeram excursões dentro do Brasil. Nessa ocasião tive que intervir no sumiço trágico, seguido de morte das meninas Julie e Melissa, na Bélgica pela qual juntei a imprensa na embaixada; isso foi amplamente anunciado em mais de 200 jornais, sendo na maioria, canais da televisão do Brasil. Fazia duas ou três festas por semana, quase sempre com as mesmas pessoas, e logicamente os mesmos papos vazios. Sem novidade de maior sentia-me entediado. Foi quando resolvemos ir para Alagoas que fiquei sabendo que tinha chegado uma condecoração para mim, só que o embaixador novo que acabava de chegar, estranhamente mandou avisar que nos primeiros seis meses de seu novo posto não queria ver nenhum Belga. Ainda hoje estou para entender esta parva decisão e sem algum sentido lógico e prático.

 Eu iria embora em dois meses; anteriormente nós tínhamo-nos visto, com a chegada da equipe de tiro internacional na embaixada que eu fui receber, tendo ele depois, dado uma pequena recepção. Realmente, deu para notar que não existia empatia entre nós. Para mim, um embaixador é uma pessoa como qualquer outra, e não me sentia obrigado a adular, ou ficar submisso e, ele sentiu isto; os tais seis meses, em realidade, eram expressamente parta mim. Como sou polémico, e detesto a Bélgica, considero-me oficialmente o anti-belga numero um do país, e tendo recebida a nacionalidade Brasileira, resolvi escrever um ofício ao embaixador Franz Michels, com cópia para a Bélgica. Falei da condecoração, do fato de ele embaixador não querer falar com “seu” povo, e pedi para perder a nacionalidade Belga, que tanto detestava por sua mesquinharia, como ele aliás mais uma vez provava. Falei que viajaria logo para Alagoas, e que ele, mandasse a tal condecoração de volta à Bélgica.

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do São Francisco. Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

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O Soba T´Chingange



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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
PIAÇABUÇU . XII

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 10

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

Fiquei só na casa até o nono mês, pois meus pais e irmão tinham ido para Brasília. Sei que de noite matei uma cobra cascavel na frente da casa. Depois de dias chegou meu pai, e fomos para Brasília, em cima de um caminhão recomeçar a sorte. Aprendi muita coisa nesta cidade de Cavalcante, que hoje fica a três horas de Brasília, mas que naquele tempo era de quatro dias... de aventura. Ainda nos tempos que estive lá à procura de minerais, achei algo estranho em cima de uma serra, longe da estrada e totalmente isolado. Tratava-se de um vão de uns 7 metros de largura por uns 200 de comprimento, com uma altura de até 25 metros. Coisa que não foi feita por humanos. Depois voltei lá, mas não achei mais o local. Era uma coisa bastante estranha. Na época fiz uma planta; espero que um dia sirva para alguma coisa.

 Estávamos trabalhando muito no Restaurante Xadrezinho; dia e noite, sábado e domingo. Só às segundas é que tínhamos nossa folga, indo jantar nos mais variados restaurantes. Era só abrir um restaurante novo, que a gente ia lá, comendo do melhor e mais caro. Finalmente!... Estávamos conhecidos na praça. Um dia um cliente, estudante de advocacia, disse a meu pai, se ele não quereria comprar um terreno no lago Sul. Venderia barato, e acabava com a pequena divida que tinha no restaurante. Fomos olhar, estrada de chão, longe, tinha que passar primeiro pelo aeroporto. Ainda não havia pontes em Brasília, e ninguém queria comprar nada. Meu pai finalmente comprou este terreno, e depois o outro do lado de uma pessoa que morava no Rio de Janeiro. Era bastante barato naquele tempo....

 Meu pai fez um projecto de sua própria cabeça, sem planta nem nada, e fez uma casa no meio do nada com 620 m2 de área coberta, em cima dos dois terrenos com mais de 1200 m2 no total; fez também uma piscina e um quiosque. Aquilo ficou uma verdadeira mansão de rico. Ficamos morando lá dentro, dois anos sem portas e janelas. Naquele tempo não havia ladrões; só que de vez em quando aparecia por lá uma ou outra cobra ou aranha. Terminada a mansão, começou a ser  frequentada por visitas ilustres incluindo vários ministros e artistas, tanto da Bélgica como do Brasil.

(Continua...)

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do São Francisco . Brasil

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:48
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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012
FRATERNIDADES . XXXIII

{#emotions_dlg.meeting}AS ESCOLHAS DE STELLA*

Lição de vida - A Felicidade é só um destino não é uma viagem!!!!

Opção de

Stella PugliesiStella Pugliesi

Texto de Martha Medeiros
No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar-rifa e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou: - Que coisa triste ter que vender tudo que se tem. - Não é não, respondi! Já passei por isso e é uma lição de vida. Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa. Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar-rifa no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.
 Eu convidava para subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais despido. No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a TV. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros. Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afectivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objectos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida.
 Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa. Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza: "só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir"; É melhor reflectir e começar JÁ a trabalhar o DESAPEGO! Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza e plena felicidade. São os momentos especiais que não tem preço, as pessoas que estão próximas da gente e que nos amam, a saúde, os amigos que escolhemos, a paz de espírito.

Subscrito e homologado por O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:22
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
O CLÃ DE ZUMBI - IX

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

OS QUILOMBOS DO BRASIL . 11ª parte

Por

Kimbo

Ensaio de

 Arnon Afonso de Farias Melo- Nasceu em Rio Largo, 19 de setembro de 1911 e faleceu em Maceió, 29 de setembro de 1983 - foi um jornalista, advogado, político, empresário brasileiro, pai de Fernando Collor de Mello, ex-presidente do Brasil.

O curioso é que não existe ciúme entre os negros, e não se conhece crime cometido por amor. O sexo desabrocha muito cedo entre os africanos; essa ardente sexualidade que nas mulheres se anuncia pelos doze anos, nos homens que também surge cedo, também cedo os abandona. Em Luanda, olhando casas que parecem ter sido transladadas do Brasil, com fisionomias iguais aos nossos nordestinos, anoto com emoção costumes nitidamente brasileiros, uma capacidade quase única de se perpetuarem a outros povos: Portugal estendeu os limites do Brasil muito além do Prata e do Oyapoc revendo-nos em vários continentes com afinidades psicológicas, sociais e culturais, uma forte peculiaridade da forma de colonizador distinta de todos os outros. O fenómeno, por qualquer parte por onde se ande, no espaço lusófono, é o mesmo que se observa no Brasil: A cultura lusa a se rejuvenescer ampliando-se, constituindo de formas diversas a continuação de um novo feito de vida e de uma nova civilização

 De todas as colónias visitadas, Cabo Verde é a que mais se aproxima do Brasil nos diversos aspectos da sua formação. É verdade que o negro para lá transplantado não encontrou o índio americano mas teve o branco com os mesmos métodos de colonização. Assim se fundiram raças e culturas, gerando essa quase absoluta unidade de emoções e sentimentos que ligam o mundo lusófono. Em Cabo Verde encontrei brancas casadas com pretos e pretos retintos em situações de relevo, ocupando cargos de destaque na administração do território. A democracia social existente nas colónias africanas sob administração portuguesa é distinta do que se observa na África do Sul, onde os direitos dos homens de cor, se reduzem a nada. Pode-se atacar a colonização portuguesa mas não se pode deixar de reconhecer a extraordinária contribuição que trouxe à humanidade, o seu formidável poder criador rompendo com audácia e inteligência fronteiras raciais e promovendo uma experiência étnica e biológica das mais interessantes para o futuro do mundo. 

 Quando Salvador Correia de Sá e Benevides libertou a colónia de Angola fê-lo como lembra Oliveira de Cadornega “ em unidade de todas as praças “ referindo-se a Portugal, Brasil e Cabo Verde. Seria o branco luso nos novos continentes, um elemento civilizador e criador, na mistura de sangues reduzindo na prática distancias sociais através das suas qualidades de aclimatabilidade, miscibilidade, mobilidade, indiferentes a preconceitos raciais fazendo somente restrições em matéria religiosa. Para a África teriam ido os mesmos brancos lusos, levados por estímulos totalmente diversos dos que os impeliam para o Brasil. Aqui chegaram eles, quase como turistas. Vinham para escravizar os pretos, exportá-los e vendê-los mas o tempo e prática, fez entendê-los da importância na igualdade dos cidadãos.

FIM

Referência Bibliográfica: A África Revelada , ensaio de Arnon de Melo.

O Soba T´Chigange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:31
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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012
O CLÃ DE ZUMBI - VI

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

       OS QUILOMBOS DO BRASIL . 8ª parte

Por

 T´Chingange

A 14 de Março de 2009 e com este mesmo título escrevi a crónica nº V - 7ª parte, sobre a “cerca dos macacos” após uma visita de um dia com Paulo de Castro Sarmento Filho, zelador do Museu de Maria Mariá, em União dos Palmares. Reato agora, após três anos o tema dando a conhecer outros dados revelados em um ensaio “A África revelada por Arnon de Mello” e publicado no jornal Gazeta de Alagoas do qual sintetizo o essencial com umas poucas introduções de meu foro.

 No século XVII, Alagoas oferece reduto para os negros formarem os inúmeros quilombos que prosperavam em todo o território brasileiro, mas que tiveram na Cerca dos Macacos da Serra da Barriga, nos Palmares, sua maior simbologia. O Brasil foi o país com a maior concentração de escravos negros do mundo com dados indicadores de 3,5 milhões. A liberdade, por meio de fuga, consolidava-se pela anormalidade da vida administrativa e económica da capitania de Pernambuco. Palmares perdurou por 64 anos, capitulando no ano de 1696. O governador da capitania relata ao rei D. Pedro II, o pacífico, a morte de Zumbi dos Palmares.

 Senhor

O Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro em carta de 25 de Março deste ano de 1696, dá conta a Vossa Majestade de como se houve a certeza de haver conseguido a morte de zumbi. Para que nenhuma dívida se fizesse, para aquietação dos povos e para exemplo dos negros que o julgavam imortal, e para demonstração do que se diz se envia cópia da acta feita pelos oficiais da câmara de Porto Calvo e, por ela se sabe que o grosso das tropas paulistas na pessoa do Capitão André Furtado de Mendonça que conseguiu a morte do negro no sumidouro que este artificialmente fizera na serra dos dois irmãos.

 O corpo que se apresentou aos ditos oficiais, pequeno e magro, em cujo exame se viram quinze ferimentos de bala e muitos de lança vendo-se que o membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiado na boca, também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita; que perante os oficiais da câmara juraram as testemunhas pertencer o cadáver ao negro Zumbi, a saber, um cabo maior que se apanhara vivo na companhia do dito, os escravos Francisco e João, o senhor do engenho António Ponto e o lavrador de partido António Souza, que todos haviam conhecido em pessoa o açoite daqueles povos; que se lavrou na acta do reconhecimento do cadáver do negro Zumbi, e que para que se pudesse isso mostrar ao governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro deliberou-se levar ao Recife somente a cabeça. Pela impossibilidade de levar o corpo todo; que no pátio da câmara presente todos os oficiais, um negro decepou a cabeça a qual se salvou com sal fino, o que tudo se faz constar na mesma acta, que assim pode ele governador Caetano De Melo e Castro à vista da cabeça e da acta, da câmara ter a certeza da morte do negro que tantos danos fizera à Real Fazenda e aos moradores das capitanias de Pernambuco.

Este documento será assinado em Lisboa a 2 de Setembro de 1696 pelo Conde de Alvear, por João de Sepúlveda e Matos e José de Freitas Serrão.

Ilustrações de Costa Araújo Araújo (Mano Corvo do Rio Seco)

(Continua…)

Referência Bibliográfica: A África Revelada , ensaio de Arnon de Melo.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:30
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012
MOKANDA DO SOBA . XX

“Mirigongo” – Que é isso? – 2ª Parte

Por

 Soba T´Chingange

No Nordeste nego é galalau; mirigongo é galego. Botão de som é pitôco e rir dos outros é mangar. Se é muito miúdo é pixotinho e se for resto é catôco. Tudo que é bom é massa, é arretado, é de primeira. Tudo que é ruim é peba, mas também pode ser reiêra. Já faltar à aula é gazear e quem é franzino é xôxo. O lobo se chama leso e o medroso se chama frouxo. Tá com raiva é invocado; sair é vou chegar. Cabra sem dinheiro é liso e amassar é sarrar. A moça nova é boyzinha e galinha é enxerida. Pernilongo é muriçoca e chicote se chama açoite. Quem entra sem licença embaraça; sinal de espanto é vote. O voador é bisonho e se tá de fogo, tá melado. Quando tá folgado, tá falote e, quem tem sorte é cagado. Pedaço de pedra é seixo e quem não paga é xexeiro. O mesquinho é amarrado e quem dá furo é fulero. Sujeira no olho é remela e nego insistente é prisiaca. Meleca se chama catôta e catinga de suor é inhaca. Merda de cachorro é titica e secura é vontade sexual. Mancha de pancada é roncha e briga pequena é arenga. Perfomance é muganga e prostituta é quenga.

 Boca de siri é calar e catraia ou rapariga é puta. Fofoca é fuxico e estouro é pipoca! Arretado é muito bom, Abibolado é abestalhado. Azuretado é atrapalhado e azunir é jogar. Bexiguento é canalha ou patife e canguinha é pão-duro, forreta. Cão chupando manga é aquele que sabe fazer as coisas. Dar o chicote é dar o ânus e siri na lata é brabo ou bravo. Não se avexe é não se apresse e oxente é interjeição de espanto. Amigo é pareia e rã é perereca. Raspar as canelas é trair o marido e psilone é letra y Roscof é relógio ruim e ximbra é bola de borracha ou gude. Bigu é corona ou boleia e 171 é ladrão falsificador, traficante.. Miolo de pote é besteira, coisa menor.

:CPLP - A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma organização assinada entre países lusófonos, que instiga a aliança e a amizade entre os signatários. A sua sede fica em Lisboa e seu actual Secretário Executivo é Domingos Simões Pereira, da Guiné-Bissau. A CPLP é formada por oito Estados soberanos cuja língua oficial ou uma delas é a língua portuguesa. Eles estão espalhados por todos os cinco continentes habitados da Terra, uma vez que há um na América, um na Europa, cinco na África e um transcontinental entre a Ásia e a Oceania. São eles: a República de Angola, a República Federativa do Brasil, a República de Cabo Verde, a República da Guiné-Bissau, a República de Moçambique, a República Portuguesa, a República Democrática de São Tomé e Príncipe e a República Democrática de Timor-Leste. Além dos membros plenos e efetivos, há três observadores associados que são a República da Guiné Equatorial, a República de Maurícia e a República do Senegal. Todos os três localizam-se no continente africano, mas apenas um tem o português como língua oficial, a Guiné Equatorial. Em Fevereiro de 2006 o governo autónomo da Galiza, reiterou o interesse do governo galego numa adesão oficial da Galiza como membro-pleno da CPLP.

 A galera faz caso de falar desta forma e não há acordo ortográfico que faça alterar este modo de gíria que vira moda com jeito e trejeito a juntar ao estilo de Angola aonde o estilo vira banga e ir embora é bazar. Esta língua Lusa é tão viva que anda á velocidade da Luua, diminutivo de Luanda que continua kada vez mais gira, aonde o kapa tomou konta do Kwanza que antes era Cuanza. Interpretar as coisas do Brasil ou Angola e o resto do espaço lusófono sem desobedecer aos cânones da língua culta materna, que viram praxe gramatical, geito de telemóvel e celular, vai ser obra dificil de sustentar. Na proxima encarnação não entenderei nada do original padrão materno. Será que os CPLP vão dar conta do assunto ou tudo isto fica assim mesmo?

Ilustrações Do álbum de Costa Araújo Araújo (Lima Júnior, artista plástico)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:45
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2012
MOKANDA DO SOBA . XX

“Mirigongo” – Que é isso? – 1ª Parte

Por

 Soba T´Chingange

O Nordeste do Brasil, preso á gramática portuguesa, é vitima de uma desintegração dolorosa de si mesmo. Os modernos escritores brasileiros que interpretam as coisas do Brasil, quando desobedecem aos cânones da língua culta e fogem às praxes gramaticais, fazem-no por ser essa a maneira de evitar a dissociação entre sua obra e eles mesmos. As língua alteram-se com a mudança do meio e, o modo brasileiro nordestino de falar,  diverge e há-de divergir em muitos pontos, da linguagem lusitana. São muitas as diferênças actuais, passando despercebidas por não haver um estudo feito neste sentido. O rumo definitivo da fala “Nordestina” só poderá ser determinada depois de estudadas as várias tendências regionais.

 Na linguagem usual de todas as classes, as palavras novas, esses recursos léxicos do dialecto, expressivos e cheios de vida, dão um aspecto colorido e original à conversação. O linguajares regionais nordestinos, sob os aspectos fonéticos e fonológicos, tem sido desde alguns anos atrás, uma preocupação das gentes de letras. Tal, não se deve à sua origem, mas também ao desejo de descobrir se as variações da língua portuguesa falada no nordeste são realmente regionais – diatópicas; hipótese sempre aventada pelos estudiosos do assunto, ou se são muito mais sociais - diastráticas, não marcando, assim, uma região, mas uma classe social, a dos menos escolarizados.

 Anos atrás fiquei chocado por ver em um bilhete de identidade brasileiro, o RG, o selo de “raça parda” em uma pessoa  que veio a ficar ligada à minha estima como compadre e, toda a familia era parda.  Conhecia já o termo de mameluco correspondendo a pessoas de origem europeia  cruzadas com nativos indígenas que, a meu ver, será o mesmo que pardo. A denominação foi dada pelos primeiros colonos lusitanos em terras brasileiras para qualquer mestiço. Estes destacaram-se na expansão do território a quem foi dado o nome de bandeirantes, tendo ultrapassado os limites do Tratado de Tordesilhas e como capitães do mato, em busca de metais preciosos trilharam terras longínquas desde os Andes e Rio de la Plata até o Orinoco. Com o tempo tomei conhecimento que a gente do mato, ignorante e ingénua tinha o nome de matuto, maioritariamente saídos da ligação entre índio e negro mas, este vocábulo é em realidade muito mais abrangente podendo ser referido a sertanejo, roceiro ou caipira. Mas há mais sinónimos tais como: babaquara, caipira, capiau, capuava, casacudo, jagunço, jeca, pioca, roceiro e tabaréu. Vejam o quanto se torna difícil o linguajar neste meio rural.

 Hoje fiquei a saber da “raça Mirigongo". Os holandeses também conhecidos por mafulos (ver Brasil em 3 penadas) administraram o Nordeste Brasileiro durante mais de quarenta anos sob o comando de Mauricio de Nassau até serem expulsos pelos Tugas em várias batalhas, culminando com um pacto assinado no ano de 1645 pelo luso-brasileiro saído da Ilha da Madeira, João Fernandes Vieira. Alguns desses holandeses refuguiaram-se no sertão das Alagoas miscigenando-se com os sertanejos tendo daí saido uma étnia (raça) de gente loira, homens e mulheres, ambos bonitas, feições arianas, de olhos azuis ou cinza a quem os índios xucurus chamaram de Mirigongo; As gentes do meio urbano chamam a estes de galegos mas em realidade, galegos são os Tugas oriundos da parte norte de Portugal, antigo reino Galaico-Dourience que se estende do rio Mondego até La Coruña em Espanha, actual Galiza.

Consulta bibliográfia: Escritos Alagoanos de Mário Marroquim

O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012
QUILOMBO . VIII

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Por

 O Soba T´Chingange

Era nas areias das praias da Ilha das Cabras, berço do povo Muxiluanda, que os oficiais do Manicongo (o Rei do Congo) recolhiam os Zimbos (n´zimbos - conchas de búzios pequenos), que serviam de moeda corrente para transacções comerciais nas feiras muito activas nas feiras no interior das províncias do Antigo Reino do Kongo.

 O fim do auto acaba com súplicas, choros, gaiatices e gatimônias dos cativos sempre pedindo dinheiro aos assistentes que acabam por ceder para livrar-se da insistência e do perigo de ficar-se sujo com a fuligem das panelas agitadas a propósito. A rainha fica em posse do rei branco que se mantém distante das reisadas, cabaçais (de cabaço, virgindade) e zabunbas e chaganças, podendo vender a Rainha a quem mais oferecer. Extra folguedo, os conviventes continuam a sambar esquecendo as horas amargas da vida ao som das sanfonas, saboreando os tragos da branquinha cachaça.

 N´gola Kiluanje foi o lider destacado do Antigo Reino do N´dongo que fundou uma dinastia do que mais tarde se havia de vir a conhecer como o Reino de Angola. Nesse então compreendia, entre outros, os distritos da Ilamba, do Lumbo, do Hari, da Quissama, do Haku e do Musseke. Outros reis do Antigo Reino do N´dongo independente foram os Resi N´Dambi A N´gola,  o Rei N´gola Kiluanje kia N´Dambi, o Rei N´Jinga N´gola Kilombo kia Kasenda, o Rei M´Bandi N´gola Kiluanje(1592-1617), o Rei N´gola N´zinga M´bandi e a Rainha N´zinga M´bande (Ana de Sousa) que reinou de 1624 a 1626. Em 1626 os Portugueses conquistaram o Reino de Angola, passando este a ser vassalo de Portugal.

 E, estando eu divagando nisto ao longo da praia dos corsários, sou surpreendido por uma sombra que me acompanha e que susto, … a sombra da kianda vira gente na pessoa do meu ilustre amigo, que faz tempo não me visitava; desta feita, e com um simples olá, cumprimenta-me com cerimonia. Era Januário Pieter. Estou aqui para te saudar por este trabalho de busca e a propósito, diz ele, saí da minha Luua aonde acompanhei a eleição do meu povo de N´gola, das minhas praias da Samba e Corimba trazendo um colar de n´zimbos. Este colar, por minha vontade e previlégio, é para te regalar como prémio por nos recordares estórias passadas e mussendos desvirtuados. Sentados na areia, ali ficamos falando de outras coisas pondo em dia conversa atrasada; Ainda não totalmente refeito desta visita da kianda, tenso, esbugalhava os olhos reflectindo a espuma do iemanjá, esse grande mar misterioso da kalunga.

Final

Pesquisa bibliográfica: Cadernos de folclore de Théo Brandão – Quilombo

O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012
QUILOMBO . VII

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Por

 O Soba T´Chingange

No auto do quilombo a disputa pela rainha leva os reis preto e caboclo a um combate simulado, quase um bailado de guerreiro, misto de bassula e capoeira com esquindiva e finta, usando a espada, que só eles, reis, podem usar; os demais, apenas emitam a luta com seus arcos e suas foices de madeira, ao som alternado de suas músicas: Folga Negro e Dá-lhe Toré. Ao som deste bailado da comparsaria o rei dos Negros, como um leão acossado, defende-se valentemente mas, um golpe no peito fere-o de morte caindo pelo solo. O rei dos caboclos engiuiça-o, isto é passa por cima dele fazendo gaifonas de bravata. Isto é o sinal da morte do rei negro. Vendo seu rei morto, os negros, desorganizadamente refugiam-se no reduto, enquanto a rainha com um pires na mão vai pedir esmolas aos espectadores para a ajuda no enterro do defuntado que não chegou a tirar o cabaço àquela nobre dama. Milagre! O rei dos caboclos, fazendo cheirar o rei morto uma folha de jurema, este, desperta da morte.

Era nas areias das praias da Ilha das Cabras, berço do povo Muxiluanda, que os oficiais do Manicongo (o Rei do Congo) recolhiam os Zimbos (n´zimbos - conchas de búzios pequenos), que serviam de moeda corrente para transacções comerciais nas feiras muito activas nas feiras no interior das províncias do Antigo Reino do Congo. Durante séculos, Luanda foi o porto negreiro mais importante da costa atlântica de África. Os escravos eram guardados em áreas cercadas (currais) situadas na área actual das Ingombotas, durante a espera de embarque para o Novo Mundo. O primeiro cemitério para os escravos foi situado na área imediatamente a montante (acima) das Ingombotas, onde as campas razas eram assinaladas com cruzes. Os corpos dos escravos que morriam nos currais durante esta espera de embarque para a Passagem do Meio, que podia demorar muitos meses, eram levados para a área do Maculusso, imediatamente a montante das Ingombotas, onde eram sepultados ou, em muitos casos, simplesmente deixados como alimento às hienas, leões e outros animais selvagens que por aí rondavam em procura de alimento

 Naquele complexo de morte-ressurreição fica bem nítida a origem supersticiosa e tradição oriunda dos Kongos embora nestes folguedos haja inúmeras variantes de acordo com a improvisação dos intervenientes e detalhes de costumes desses locais tendo em alguns lugares a cobertura parcial da igreja com procissão na companhia de Nossa senhora dos Negros ou da Aparecida. Em Piaçabuçu, uma cidade situada quase na foz do Rio São Francisco, aparece uma onça em frente ao mocambo que é perseguida, depois de dançar aos assobios e latidos de negros que ganem como se fossem cachorros sob a regência da música das tabocas. A perseguição e captura da onça ao som da banda esquenta-mulher, dos cabaçais cujo ritmo e melodia imitam a perseguição de uma onça por cachorros. Tudo muito semelhante às festas dos Kimbos em que entra a figura de um espantalho vivo chamado de Chingange que com guizos e espalhafatosos movimentos de zabumba, leva determinado animal ao curral da paliça.

(Continua...)

Pesquisa bibliográfica: Cadernos de folclore de Théo Brandão no Brasil e José Redinha de Angola – Quilombo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:37
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012
QUILOMBO . VI

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Por

 O Soba T´Chingange

Os habitantes originais de Angola foram caçadores Khoisan, dispersos e pouco numerosos. A expansão dos povos Bantu, vindos do Norte a partir do século X a. C. forçou os Khoisan a recuar para o Sul onde grupos residuais existem até hoje, em Angola, na Namíbia e no Botswana. Os bantus eram agricultores e caçadores. Sua expansão deu-se em grupos menores, que se regionalizaram de acordo com as circunstâncias político-económicas. Entre os séculos XIV e XVII, uma série de reinos foi estabelecida, sendo o principal o Reino do Congo que abrangeu o Noroeste de Angola; a sua capital situava-se em M'Banza Kongo e o seu apogeu deu-se durante os séculos XIII e XIV. Outro reino importante foi o Reino do N´dongo, constituído naquela altura a Sul/Sudeste do Reino do Congo. No Nordeste da Angola actual, mas com o seu centro no Sul da actual República Democrática do Congo, constituiu-se, sem contacto com os reinos atrás referidos, o Reino da Lunda.

   O Império do Kongo era governado por um monarca, o manicongo; consistia de nove províncias e três reinos (Ngoy, Kakongo e Loango), mas a sua área de influência estendia-se também aos estados limítrofes, tais como Ndongo, Matamba, Kassanje e Kissama. A capital era M'Banza Kongo (cidade do Kongo).

Toda esta descrição da história de Angola serve para interligar com os hábitos e costumes transladados para o nordeste Brasileiro por via dessa emigração forçada, mão escrava a ser utilizada nos engenhos de açúcar. O auto do kilombo não é mais do que a transmissão dos ancestrais usos na mãe África mais propriamente a muxima (coração, saudade) que só era transmitida por meios orais ou em festividades que sempre se desenrolavam com longos batuques como pano de fundo, noite fora, antes do saque ou roubo, uma característica dos povos bantus em sua visão de actos heróicos.

Foto: Boa Noite com o talento marcante e inconfundível de David Gauchullt! Nesta brincadeira de auto do kilombo os donos dos objectos furtados, permitem tal feitura sabendo de antemão que tudo lhe será restituído; é um consentimento cultural que ainda hoje se verifica na vida real com atenuantes e até promiscuidade consentida nas sociedades das regiões referidas em África e América. Na sanzala, a banda de pífaros ou zabunda, pratos e reco-reco a que chamam de maracatu cantam: Aribu tem catinga, catinga tem. Debaixo da asa catinga tem. Quando a maré vasá, vamos cavá muçum (massunim, conquilha, mabanga), vamos cavá. Quando a maré vasa, que enchê, vamos cavá muçum pra comê.

(Continua...)

Costa Araujo Araujo Ilustrações de Costa Araujo Araujo (J. Augusto Mano Corvo)

Pesquisa bibliográfica: Cadernos de folclore de Théo Brandão – Quilombo

O Soba T´Chingange



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Sábado, 8 de Setembro de 2012
PIAÇABUÇU . IX

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“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 7

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

Passaríamos primeiro em Botucatu, onde tinha uns conhecidos, e ficamos ali uns dias. Era uma colónia de Belgas vindos da África, que tentavam estabelecer-se ali. Brigas internas, terras péssimas e demais coisas, tornariam a tentativa num fracasso. Ficaríamos na casa do casal Elza Schuerewegen e Leon, e seus dois filhos, que nos receberem muito bem. Estavam criando centenas de galinhas. Todos tinham recebido boa indemnização em dinheiro do governo da Bélgica por terem sido obrigados a abandonar a colónia do Congo Belga; esse dinheiro, que nunca devolveriam, seria para recomeçar vida nova no Brasil. Iniciaram por fazer as suas casas, por sinal muito boas e, cada qual tratou a seu modo de fazerem suas plantações. Sei que passado algum tempo, pediriam mais dinheiro a seu país, para outras coisas de utilidade indispensável mas, a meu ver, acostumaram-se mal,... Aos poucos, a grande maioria de ex-colonos voltaria para a sua terra de origem na Bélgica. Que eu saiba os créditos forem sendo esquecidos até à presente data.

 Era uma colónia bastante esquisita. Uma das mulheres, chegou da Europa de barco a Santos (SP), sem falar a língua, e disse para um taxista do porto que queria ir a Botucatú; um belo frete de 320 km. Qual não foi o espanto do motorista, que após chegar, lá no acto de receber... este teve que ouvir... “Pagamento só in natura”. A mulher não tinha dinheiro, e queria pagar com o próprio corpo. Depois de uns quatro dias fomos rumo a Goiânia, perto da Frutal, em Minas; a estrada era um alagadiço com filas de caminhões enterrados na lama, enquanto o nosso Buick passava ao lado, devagar...mas seguro. Era baixo, cheio de bagulhos, mas tinha bom motor. Só atolamos umas três vezes, sempre ajudado pelos motoristas dos caminhões.

 Chegou a noite e dormimos no carro... sentados, cada um com uma espingarda na mão. Finalmente chegamos a Goiânia, onde vendi a minha máquina de escrever. Dormíamos num posto de gasolina, todos os quatro num quarto só. Os pernilongos (mosquitos), eram por demais, um problema sério pois atacavam aos milhares, num calor fora do comum. Não havia ventilador... Um inferno! Ficamos uns quatro dias por lá, pois o carro começava de vez em quando a apresentar alguns problemas, especialmente na parte do motor de arranque.... a juntar preocupação pelos peneus carecas... e, de vez em quando, a parte eléctrica. Entretanto procuramos fazenda para comprar (em condições) e caçamos nos arredores, que ainda eram bem selvagens. Naquele tempo era mais simples comprar sem dinheiro, pois todos eram aventureiros, e pioneiros. Tínhamos  antes, mandado para Goiânia via ferrovia, um lote de pés de metal para mesa, que já deveriam ter chegado. Fomos à ferrovia, e realmente a mercadoria já lá estava. Meu pai pediu-me para ir a Brasília, onde havia umas fábricas de móveis acabando por vender todos os pés a preço barato para um fabricante de lá; tínhamos assim, um pouco de dinheiro para enfrentar um precário futuro.

(Continua...)

Ilustrações: - Di Cavalcanti - Tarsila do Amaral . Br

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceâno. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012
QUILOMBO . V

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Por

 O Soba T´Chingange

O auto do quilombo tem algumas variantes em sua acção mas é no estado de Alagoas que esta forma de brincar a vida está mais apegada às gentes porque foi para aqui que maioritariamente foram encaminhados os escravos oriundos de Angola.  As reisadas ou folguedos do auto do kilombo desenvolvem-se em três etapas a saber: à noite , na véspera efectua-se o saque ou roubo e o batuque; pela manhã, no dia que se segue há o resgate e à tarde a luta.  O saque é chamado de “Roubo da Liberdade” que em esta brincadeira carnavalesca, tem o beneplácito dos roubados com vista grossa da fiscalização e polícia. Os negros surripiam tudo o que encontram: animais, móveis, utensílios de pesca, ou da agricultura , veículos e tudo o que se possa imaginar. Após o roubo celebra-se o batuque enaltecendo os heróis do feito e comemorando  o casamento do Rei dos Negros com a Rainha de N´gola.

 O Reino do Kongo foi um reino africano localizado no território que hoje corresponde ao noroeste de Angola, a Cabinda, República do Congo, a parte ocidental da República Democrática do Congo e à parte centro-sul do Gabão. Em realidade, estendia-se desde o Oceano Atlântico,  até ao rio Cuango, a leste, e do rio Oguwé, no actual Gabão, até ao rio Kwanza. O reino do Congo foi fundado por N´tinu Wene, no século XIII. 

 A banda de pífaros ou zabumba conhecida por “banda esquenta-mulheres” incluindo um tambor surdo e outro chamado de taró e pratos, pandeiros e zangá inicia o semba chamado de maracatu, enaltecendo o desfolhar das virtudes de donzela por retiro do “cabaço” popularmente definido por “tirar os três”, o desfloramento. E cantam repetidamente: Forga nego, branco não vem cá; Se vinhé, pau é de levá. Tiririca, faca é de cortá. Forga parente, caboco não é gente. Até às cinco horas da manhã, a panelada que se cozinha no rancho ou sanzala e casas das adjacências: carne de boi xamburi, com osso de tutano e mocotó, verduras de maxixe, quiabo, jiló, gimboa, couve e jerumim  com charque, temperos de azeite ou dendem com pirão escaldado ou coberto com farinha de mandioca no caldo de funge da panelada. A banda esquenta-mulheres acompanha o bailado dos actos nas várias fases dos autos da comparsaria. Um folguedo reputado como característico das Alagoas e, no consenso da maioria dos estudiosos brasileiros, interpretado como uma sobrevivência histórica da célebre Trola Negra que se estabeleceu em terras da então capitania de Pernambuco, que é o auto ou dança dos quilombos.    

(Continua...)

Pesquisa bibliográfica: Cadernos de folclore de Théo Brandão – Quilombo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:10
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MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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