Segunda-feira, 11 de Agosto de 2014
MALAMBAS . XVI

TEMPOS CINZENTOS - Ando a semear assobios mas, nos intervalos da vida, durmo!

MALAMBA: É a palavra.

Por

   T´Chingange

Um pedaço de mim nunca mais o terei! Ficou lá na Caála a devorar meus pensamentos, lá na Catata a perturbar minhas vivências, lá em Caluquembe afagando-me violentamente as rugas que gemem dentro de mim freneticamente. Quando descobrir que nunca é tarde de mais para lá voltar, regressarei com meus fugidos medos e vergonhas de roer, rogando à Nossa Senhora do Monte que a paz desça sobre mim; tapar o buraco das feridas, lamber a hóstia consagrada do peito e da vida que corre por debaixo dele; matar a traição espolinhada no esquecimento do capim e cardos iguais ao do nosso Senhor Cristo rodeando a capela da minha peregrinação; minha muxima do kwanza transladada para este monte.

 Os nossos monumentos, aqueles que nos são próprios, são as tradições orais que morrem connosco mais velhos, mais kotas que o tempo faz desaparecer extinguindo-se esquecido. Hoje, em Angola, as autoridades tradicionais não possuem nem audiência, nem meios próprios de expressão. As instituições que sofrem irrupção agressiva da modernidade e falta de condução no plano institucional omitem o património oral dos mais velhos; a sobrevivência e revitalização que se quer permanente ficam aquém do desejado desperdiçando-se culturas tão cheias de valores; valores que não constam nas bibliotecas. O rico património linguístico de Angola que deveria ter um desenvolvimento harmonioso com a modernidade é escamoteado por ignorância; É curioso referir que os Tugas muito se empenharam para guardar essas riquezas através de secretarias criadas para o efeito com antropólogos e etnólogos.

 A tradição oral, diz que Wambu kalunga foi um exímio caçador que se instalou na região da Caála, na província do Huambo, nas zonas do Ussombo, Makolo e Kondombe, aonde se radicou e umbigou com sua esposa. Não obstante ser um bom caçador, nunca chegou a assumir cargo de responsabilidade junto do soba Kalunga. Sabe-se todavia que um monumento foi erguido a sua memória e que os restos mortais de Wambu e mais duas raparigas que se acredita terem sido enterradas vivas com ele, pois assim era a tradição, continuam ainda hoje protegidos por anciões. O Mais velho Cipriano Kangandjo, um ancião muito respeitado, diz que Wambo, foi enterrado com honras devido a sua participação decisiva na batalha que se travou nas grandes pedras de Nganda la Kawe, entre os filiados de Kahululo, esposo de sua filha NJingala e os seus homens.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:40
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Domingo, 10 de Agosto de 2014
MUSSENDO . VII

UM ÓBITO NO HUAMBO - Jaka Kapiango, a vida, só lhe castigou

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola) durante o tempo colonial (Arnaldo Santos foi seu 1º mestre).

Por

   T´Chingange

Esta estória é já uma segunda versão com ligeiras alterações para recordar e dar continuidade falando de tempos mais antigos; do tempo do sargento Canas,  das pedras de Nganda la Kawe dos sobas  Huambo Calunga e Cunhamgâmua e sua filha com pretensões de vir a ser branca, uma gweta assim como o mwana-pwó Canas. Uma homenagem aos meus auxiliares em campo da Câmara Municipal da Caála: - Pumuma, Jamba, Otaca, kumuna, Botomona, Francisco e Zacarias. A ferrugem do tempo calcinou projectos ali ao lado da pedra dde Nganda la Kaweo aonde o sargento Canas também foi enterrado; fica a caminho do Quipeio e, a ilha dos amores. O presidente Casimiro Gouveia nunca soube que era o Caluviáviri.

 Jaka Kapiango num mês bolorento, muita chuva, pouco dinheiro, maka na família, dívidas sem pagar no senhor Zeca gweta da loja do kimbo lá na Vila Flor. Teve de dar nome na administração aonde devia impostos de cubata; quinze dias depois, seguia de contrato para a roça em Samtomé no vapor “Mouzinho”.

 Na vida dele toda negra, só engordoreceu vontade de fazer seu sonho pois,... Só ajuntou o insuficiente para comprar uma junta de bois. Nem quase só, nenhuma coisa mesmo, nada ki kima n´go; foi no Longonjo trabalhar terreno bom no plantio de milho mas, a velhice chegou antes do tempo certo. Ele, só desconseguia viver melhor do que queria; sempre escorria sua fraca sombra fazendo encontro com o sonho que tinha andado dormir no seu coração. O tempo foi comendo lembranças da roça lá no Samtomé que, de muita sorte voltou no seu kimbo, suas botas, sua lavra, sua primeira, segunda e terceira mulher.

 Num dia mais tarde Jaka Kapiango foi ficar só envelhecido de seco, castigos e fomes. Seu nome ficou de sucesso no livro de contratados no angariador da administração; um exemplo de sucesso apontado na palavra do senhor governador de distrito na Nova Lisboa. Jaka morreu contraminado sugando cinzas em estória de saudade antiga, sua dicunji dos mares verdes de Samtomé; uma vida de nó em três voltas. No Samtomé já só juntou mesmo chuva grossa mais mil chuvisquinhos e berros do capataz tuga peidador de bufas importadas do Puto. Por muitas vezes saiu voando sombra negra de raiva no toque, zunido e uivo dum longo chicote; lentamente ia-se morrendo.

 Seus kambas kwachas lhe lembraram, boa pessoa, inchados de bolunga doce e t´chissângwa fermentada  com paracuca a acompanhar.  Neste entretanto, o choro de lágrimas encarquilhava mulheres de velhos rostos carpidando, simplesmente. Sai só falando calado “ m´bika ia kaputo, caputo ué”. O Sol de Jaka se apagou entornado de escuridão que lhe torceu por demais seu coração.

Glossário: m´bika ia kaputo, caputo ué: - escravo de branco, branco é!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:29
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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