DESANOITECI EM ZANZIBAR - IX
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
E, continuava amiudadamente, pensando na proposta de mustafá Joshua Naili em fazer uma salga de peixe; a ideia andava girando em meu pensamento, mas nada de tomar consistência. Em verdade preocupava-me mais a questão de dar salubridade ao húmido lugar da roça de Boyoma; com o tempo tive de contratar um credenciado enfermeiro de nome N´Zau Tati Bumelambuto que mandei vir de Cabinda. Foi a ele que confiei a saúde e bem-estar dos muitos gentios que ali prestavam serviço. Acabou por ser uma brilhante ideia pois que o rodopio de gente a ir ao paupérrimo hospital de Kisangani diminuiu a olhos vistos. N´Zau, era um fiote de cultura mediana, filho de gente nobre, descendente dos que lavraram o tratado de Simulambuco com Portugal no ano de 1885.
Por via de ter ido a Lisboa tirar um curso rápido no ainda esboço de Hospital Ultramarino, aprendeu muito sobre as maleitas tropicais. Amiudadamente reunia-se no d´jango central da roça com o kimbanda Good Lukuga e das longas conversas que ali mantinham, decerto faziam triagem de muitos conhecimentos. Eu via isto com grande contentamento pois que as origens dos conhecimentos rudimentares de Lukuga, obrigava N´Zau Bumelambuto a fazer, não só pesquisa como também a executar ensaios em porquinhos da índia e bicharada de distintas espécies que, ali ia aprisionando em organizadas gaiolas.
Só passado algum tempo da chegada do enfermeiro N´Zau à roça de Boyoma é que me predispus a falar da política que corria no agitado mundo da Lusofonia e, foi sobre Cabinda que falamos longo tempo. A "colonização" de Cabinda foi pacificada pelo Tratado entre Portugal e Cabinda, um território separado de Angola. Um enclave entre os Congos, belga e Françês. A um de Fevereiro de 1885, o governo português representado por Guilherme Augusto de Brito Capello, então capitão-tenente da Armada e comandante da corveta Rainha de Portugal, assinou com vários príncipes, chefes e oficiais do reino de N'Goyo colocando Cabinda sob seu protectorado. Em realidade não é uma colónia de Portugal disse N´Zau Tati Bumelambuto, coisa distinta de Angola que, essa sim, é colónia. O tratado feito por meu pai, aconteceu antes da Conferência de Berlim, acrescentou N´Zau. Notando-se orgulho em seu porte, acrescentou que Portugal se obrigou a fazer manter a integridade dos territórios colocados sob o seu protectorado respeitando e fazendo cumprir os usos e costumes dos Imbindas.
(Continua…)
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - VIII
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
Boyona Falls
Envolto em quentura húmida, balouçava ritmadamente ao som surdo das quedas de água. Apreciando o arco-íris quase permanente, bem por cima das cataratas Boyoma, dava chupadas divagadas em meu cachimbo de marfim feito de osso de corno. Apreciando os deliciosos biscoitos entre goles de uma bolunga feita por Charllôtte, empolgava-me no conforto de pai branco anafado de gordo e rodeado de muitos e leais serviçais. Kabila Kasavubu que zelava pelos cacaueiros era em bom dizer o feitor geral, mustafá T´shiluba que antes tomava conta da borracha, já mais-velho, tomava agora conta da granja, limpeza do terreiro, animais de estimação e galináceos; a mucamba Charllôtte ordenava as coisas da casa orientando a gente no amanho da casa grande e dirigia a cozinha no maior zelo.
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Eu, tomava as minhas precauções contra as muitas maleitas da região e religiosamente zelava da manutenção do meu físico tomando os minerais e vitaminas adequadas para precaver infortúnios; Para a próstata tomava todos os dias uma colher com farinha de pevide de abóbora, para os ossos bebia diáriamente um copo com cloreto de magnésio, comia abacate para regular os triglicéridos e efeitos degenerativos, água com a baba de quiabos para regular o açúcar e muitos chás com ervas e cascas que o kimbanda Good Lukuga raizeiro, me fornecia amiudadamente. O paludismo era tratado com umas folhas de árvore que ficava a macerar uns dias e eram depois pisadas com casca de ovo de avestruz; O kimbanda Good observara que os animais doentes bebiam água nas lagoas onde essa árvore se encontrava. Mais tarde confirmou-se que as folhas daquela tal árvore Cinchona tinham muito quinino em sua seiva e, por isso o milongo tinha funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas. Ele dava-me periodicamente um pó dizendo que aquilo era para eu durar sempre; vim a saber ser bicarbonato de sódio e usado com frequência elimina as células cancerígenas. Como é que aquele Good sabia que este milongo inibia as metástases do bicho câncer.
Pensava agora na proposta de meu amigo mustafá Joshua Naili de Kisangani. Sugeriu-me que fizesse uma salga de peixe do rio Lualaba, pois que ele tinha muita procura em sua rede de lojas do interior do Congo; além do mais havia aqui, bagres muito apreciados na região a sul de Matadi. Eu, só teria de montar estruturas, armações de paus, escalar o peixe, colocar o sal e deixar passar uns quatro dias de sol. Os de Matadi e das regiões do Songo, Fiotes e Kiocos, gostavam de fazer um prato com óleo de palma a que chamavam de kalulu e mezungué. Para me convencer falou de espécies tais como o Alestidae (tetras Africano), Mochokidae (bagres squeaker) e Cichlidae (ciclídeos). Destes o mais procurado era o peixe-tigre-golia que feito em postas dava óptimas caldeiradas. Ainda estou pensando.
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - VII
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
No intuito de estabelecer uma rota segura para o cacau de minha roça, desloquei-me a Kisangani, aonde o Rio Lualaba dá lugar ao caudaloso Rio Congo; falei com o mustafá Joshua Naili, que se mostrou muito gentil dando boa aceitação às minhas pretensões. Foi bem interessante o contacto com este comerciante com quem mantive uma longa conversa entrecortada com sorvos de chá menta e biscoitos bizantinos como ele referia. Tendo este, uma frota de barcos e contactos com comerciantes holandeses de Antuérpia e outras praças europeias, propôs-me colocar os produtos da roça, nomeadamente o cacau, ganhando ele uma comissão de 30 %, o que me pareceu justa. Na minha fazenda de Boyoma, eu só teria de secar as amêndoas de cacau e mantê-las em lugar seco e arejado, ensacadas em ráfia ou sisal até que as barcaças chegassem ao cais de Ubundu; no destino estas amêndoas seriam moídas e distribuídas para vários fins como fazer sumos, geleia, destilados finos e o tão desejado chocolate.
O produto chocolate, era conhecido desde o início da colonização da América. Em função das necessidades climáticas para o cultivo do cacau, não é possível o seu plantio na Europa e por isso as colónias americanas de clima tropical húmido forneciam a matéria-prima. Tendo a África Ocidental um clima quente e húmido com solo argilo-arenoso, e sendo uma planta umbrófila, foi só propagar as sementes nos sub-bosques e matas rareadas por lonjuras a perder de vista. Pouco mecanizada, tive de juntar muita gente em kimbos para o amanho deste fruto e o contracto de Kabila Kasavubu um negro forro fugido nem sei como, das terras da Bahia em Brasil, foi crucial. Kasabuvu, tinha uma larga experiência pois que enquanto escravo, era esse o seu trabalho, limpeza, uso de fumos e protectores a fungos que não raro surgiam nos pés de cacau; conhecedor desse processo e sistema de secagem foi em verdade este meu auxiliar, que promovi a capataz.
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Nas manhas de cacimbo intenso, sentava-me na sacada da casa colonial tomando café com chocolate quente. A minha mucamba Charllôtte, ao longo do tempo foi aprimorando sua arte de culinária e doçaria e fazia questão de presentear seu amo T´Chingange com tortas, biscoitos, mousses e bombons, muito antes de ser um hábito nos cafés europeus de Paris, Londres ou Lisboa. Nas meditações da vida amiudadamente recordava o quanto era bafejado pela sorte em terras de canibais; em outro lugar longínquo chamado de México, um outro continente, os nativos consumiam o cacau na forma duma bebida quente e amarga, de uso exclusivo da nobreza. Naquela roça grande de Boyoma no rio Lualaba, inalando a brisa em nuvem de cacimbo das cataratas próximas, eu era ali, também, além de pai branco, um verdadeiro nobre.
(Continua…)
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - VI
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
Aquela Associação da Reforma do Congo tendo exposto abusos arbitrários e selvagens da força de trabalho pelo Rei Leopoldo II da Bélgica no Estado Livre do Congo, deu encaminhamento à anexação do Congo pela Bélgica o que se veio a verificar no ano de 1908. Eu, uma Kianda, portadora da crença de Camões, das suas Ninfas e Tágides do Puto Luso, entre matumbolas kwangiadas mais bitcaias adquiridas em pântanos insalubres do Kwanza, e kalungas do N´gunza, Queve e Bero, indignava-me da falácia dos povos europeus. Não tendo os Belgas feito algo de grandioso e sendo prevaricadores por desvios na conduta humana exterminando milhões de seres, tiveram no entanto como prémio, tomar conta dum tão vasto território chamado de Congo ou Zaire, banindo sarcasticamente o arrojo de gentes do Puto comprovadamente fixados àqueles sertões africanos.
Como se justifica que as nações europeias desse então tenham relegado o Puto ao desprezo, povo que se esgotou enviando levas de gente, ano após ano, a partir do ano de 1480; Como não levaram em consideração a implantação de gente que já ali labutava à mais de quatrocentos anos a partir da chegada de Diogo Cão à foz daquele grande rio Zaire. E, quantos, entretanto, morreram missionando os matos infestados de malária e tzé-tzé; morrendo sem glória, dando de bandeja aos Belgas um território tão vasto como o Congo. Leopoldo ofereceu uma reforma em seu regime, mas poucos levaram isso a sério. Todas as nações estavam de acordo que o domínio do Rei deveria ser extinto o mais rápido possível, mas nenhuma nação estava desejosa de assumir a responsabilidade, e nunca foi sugerido que as terras em questão fossem devolvidas ao povo da região. A Bélgica era a forte candidata à administração do Congo, mas os belgas não estavam ainda dispostos a isso. Por dois anos a Bélgica debateu a questão e foi às urnas decidir. Entretanto, Leopoldo, aumentava o “Domínio da Coroa” para com isso espremer a última gota de lucro.
Da minha fazenda podia ouvir o barulho dos rápidos de Boyoma Cataratas no rio Lualaba; lançando ao ar nuvens de partículas de água, amenizavam o tórrido clima inundando humidade no verde da roça com milhares de cacaueiros. Pouco a pouco fui-me afastando das lidas de gestão dos interesses do rei Leopoldo com a compreensão de Richard Mohun e o comprometimento da kianda Januário Pieter*. A fazenda ocupava-me já quase em absoluto; para espairecer, amiudadamente ia até aos rápidos com o cipaio fiel mustafá T´shiluba refrescar-me e pescar. Enquanto pescava, o cipaio fumava ervas mal cheirosas de adocicada liamba. Entretia-me vendo os pescadores tradicionais com suas engenhosas tarrafas encastradas nas rochas, juntar forças pela comunidade a qual amiudadamente eu era chamado a fazer justiça ou esclarecer assuntos que eles não dominavam. Decididamente a “era da borracha” estava acabada; O pai branco, decidiu por isso fazer um plantio de milhares de pés de cacau.
(Continua…)
Glossário: kianda : - fantasma das águas, espírito da Kalunga; Liamba: - droga de fumo, que leva a delírio; cipaio: - guarda indígena; segurança; Puto: - Portugal; matumbolas:- mortos vivos; kwangiadas: - Ninfas do rio Kwanza; bitacais: - bicho de pé
*Januário Pieter:- Um personagem amigo, um sábio que me assiste e complementa conhecimentos...Um fantasma feito guia Kalunga; o homem que nasce da morte metaforizada com mais de 300 anos que tem no seu ADN a picardia cutucada de malária.
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - V
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
Telepáticamente entrei em contacto com Januário Pieter, a kianda mwata que nesse momento estava demasiado ocupado em terras de França, Vallée de la Loire. Recomendou que me alheasse da situação de mutilação do estado Livre, mas que no entanto elaborasse um relatório que mais tarde o faria encaminhar a Edmund Morel um jornalista de investigação; Este Edmund, fiquei a saber mais tarde, empenhava-se em acabar com os métodos desumanos do monopólio secreto de Leopoldo do Estado Livre do Congo. O contacto com o mato e muitos animais ferozes já naquele início do século XX, era para mim uma forma de liberdade, adrenalina do viver entre incertezas e perigos naquelas vastas regiões por explorar, longe dos interesses costumeiros e das coisas de vida civilizada. Continuava ali amarrado á rígida noção de dever de cavalheiro que me impedia de abandonar Richard Mohun, elaborando em surdina o prometido relatório de atrocidades.
A partir de certo momento senti-me o pai branco e, não raras vezes e à revelia das ordens de cima, reunia-me no jango com os macololos de fala Swahili a conversar sobre coisas comuns sentindo-me vagamente acompanhado; com o tempo e convivência situava as fisionomias distinguindo os mais amigos; quase todos faziam soltar de seus cachimbos um cheiro adocicado de liamba. Amiudadamente surgiam mulheres cafecos (novas e virgens) a recarregar seus cachimbos com mais erva. Junto às barricas de aguardente de palma, marufo, ensaiava vontade de fumaça e, nessa tentativa sublimava o inebriante fumo: “As cestas de mão cerradas, postas aos pés dos chefe de posto europeus, tornaram-se o símbolo do Estado Livre do Congo... A colecção de mãos tornou-se um fim em si mesmo. Os soldados da Força Pública traziam-nas em vez da borracha; eles, até mesmo iam colhê-las em lugar de borrachas... Os soldados dos Força Pública tinham seu bónus pagos de acordo com quantas mãos eles colectavam”.
Edmund Morel faiscou a notícia que em 1902, resultou no romance de Joseph Conrad intitulado “O Coração das Trevas”. Foi publicado com base na sua breve experiência como capitão de um navio a vapor no Congo, dez anos antes. Este livro encapsulava o pavor crescente do público, e em 1904, Sir Roger Casament, o cônsul britânico, entregou um longo e detalhado relatório testemunhal o qual tornara público. A Associação Britânica de Reforma do Congo, fundada por Edmund Morel, em considerandos de varias fontes incluindo o meu relatório fornecido por Januário Pieter, exigia acção. O Parlamento Inglês clamou por uma reunião das 14 potências signatárias a rever a Conferência de Berlim. O Parlamento Belga forçou Leopoldo a organizar uma comissão independente de inquérito, e apesar dos esforços desesperados do Rei, em 1905 foi confirmado o relatório de Casement em sórdidos detalhes.
(Continua…)
Glossário: kianda mwata: - O fantasma chefe, Espírito maior da Kalunga; Jango: - Casa assembleia, lugar de reunião dos mais-velhos. Macololos: - chefes, macotas, tribo;marufo: - vinho de palma cassoneira ou outra; Liamba: - droga de fumo, que leva a delírio; gweta: - branco; cipaio: -guarda indígena, polícia de 2ª linha; mwata: - guru, chefe carismático, Senhor dos senhores.
*Januário Pieter:- Um personagem amigo, um sábio que me assiste e complementa conhecimentos...Um fantasma feito guia Kalunga; o homem que nasce da morte metaforizada com mais de 300 anos. Tem no seu ADN a picardia cutucada até a exaustão, Cruz credo!
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - IV
Verdade ficcionada
Por
T´Chingange
A linha telegráfica acabou de ser montada três anos depois no ano de 1902 na região de Boyoma Cataratas no rio Lualaba, Estado Livre do Congo. Os cipaios de fala Swahili referiam aquele sítio que não ficava muito longe de Kisangani como sendo a terra de Ubundu. Richard Mohun, além de mim na qualidade de kianda interina, foi o único branco a terminar aquela expedição sem sofrer as agruras do paludismo graças aos chás de milongo que criteriosamente tomávamos ao fim da tarde; porque amargavam como trovisco os demais gwetas (brancos), recusavam-se a tomar. Mohun terminada esta tarefa com sucesso foi convidado pela administração do rei Leopoldo da Bélgica a ficar por ali dirigindo a prospecção de minas de cobre, cobalto, estanho, rádio, urânio e até diamantes. Aquela região potencialmente rica em minerais era nesse então propriedade pessoal do rei Leopoldo, o homem mais rico da Europa.
Bandeira do Estado livre do Congo e Leopoldo II
O Estado Livre do Congo foi um reino privado, propriedade pessoal de Leopoldo II da Bélgica entre 1877 e 1908. Em 1908, esta propriedade privada passou a ser uma colónia da Bélgica, o Congo Belga. Ele criou uma série de organizações, culminando na Association Internationale du Congo, da qual só existia um accionista: o próprio Leopoldo. Incluía toda a área hoje conhecida como República Democrática do Congo e assentava na exploração do trabalho africano para extracção de borracha, marfim e minerais.
Por ali fui ficando assessorando Mohun em tarefas de relações com o povo de fala Swahili e Tshiluba, dialectos que dominava quase na perfeição mas, não demorei a revoltar-me em surdina com as regras de desumana disciplina que por ali vingavam por expressa ordem do rei Leopoldo II da Bélgica. Para impingir as cotas de borracha, foi instituida uma Force Publique (Força Pública) cujos cipaios, na sua maioria eram canibais do Lualaba armados com armas modernas e chicote. Esta “Força Pública” rotineiramente pegava e torturava reféns, açoitavam, estupravam, incineravam aldeias, a acima de tudo, extirpavam mãos humanas como troféus, castigo este, só porque as cotas de produção não eram cumpridas.
Um cipaio m´fumo (chefe) descreveu-me uma incursão para punir uma aldeia que havia protestado e fiquei muito intranquilo: "Ordenaram-nos a cortar as cabeças dos homens e a pendura-las nas cercas da aldeia, bem como seus membros sexuais, e pendurar as mulheres e crianças em forma de cruz", acrescentando: O oficial comissário prometeu-nos que se tivessemos muitas mãos, ele encurtaria nosso serviço. Januário Pieter, a kianda-mor mwata, desconhecia toda esta barbaridade; haveria que lhe fazer uma mensagem a dar conhecimento deste estado de coisas.
Leopold II, morreu sem ter pago pelo crime, de eliminar em sua sanha colonial cerca de 10 milhões de vidas. Alguns anos atrás podia-se comprar em quiosques, no centro de Bruxelas, mãozinhas de chocolate como recordação deste passado; coisa macabra.
(Continua…)
Glossário: gweta:- branco; milongo: -remédio indígena, de raizeiro; cipaio: -guarda indígena, polícia de 2ª linha; mwata: - guru, chefe carismático, Senhor dos senhores.
*Januário Pieter:- Um personagem amigo, um sábio que me assiste e complementa conhecimentos...Um fantasma feito guia Kalunga; o homem que nasce da morte metaforizada com mais de 300 anos. Tem no seu ADN a picardia cutucada até a exaustão, Cruz credo!
O Soba T´Chingange
DESANOITECI EM ZANZIBAR - III
Por
T´Chingange
Richard Mohun, o expedicionário soldado da fortuna com quem a kianda Januário Pieter*, fez o achamento do Lago Tanganica, veio efectivamente a ser nomeado cônsul dos EUA para Zanzibar a 25 de Maio de 1895, mantendo-se nesse cargo até fins de 1897. Por morte do Conde do Lavradio no ano de 1870, e após ter feito espólio fiz entrega de todo o património composto de porcelanas e marfim, ao comandante do vapor Mindello, o Capitão José Bernardo, que ali aportou em uma viagem de soberania a terras de Diu, Damão e Goa. Na condição de kianda interina, eu, tinha agora todo o tempo do mundo para me lançar em aventuras expedicionárias, desbravar terras gentias e viver experiências com o extravagante amigo Richard Mohun. Por via das indicações da kianda Pieter e seus segredos de kimbanda, a minha saúde era invejável; o uso de seus chás e mezinhas como o sulfato de virtude, cloreto de magnésio, soda de malvadez, citrato de sildenafila, baba de quiabos e estrato de quinino, mantinham-me um saudável e estável comerciante de cerâmica, marfim e curtumes.
Richard Mohun, tendo-se envolvido na Guerra Anglo-Zanzibar , entre o Sultão de Zanzibar e as autoridades britânicas, acabou por servir de intermediário entre estes e, pelo seu tacto diplomático em troca de serviços, acabou por se envolver como expedicionário na feitura de uma linha de telégrafo do Lago Tanganyika ao nascimento do rio Nilo, área já vasculhada por David Livingstone. Foi através do padre Bernardo do forte português que tive notícias desta expedição e, foi deste que recebi o recado em me aviar a falar com o ex-consul Richard. Ele estava a contar comigo para tal empreita. Eu, fiquei em pulgas, pois que alinhar numa dessas campanhas, era o meu maior sonho. Convite feito e aceite ajudo-o a seleccionar cem homens para acompanhá-lo e, foi entre os Askari de Zanzibar que recaiu a nossa escolha; a quinta parte destes já o havia servido numa outra expedição no ano de 1894. O expansionismo britânico não podia perder pontos nesta braveza pela posse de África e destinou-lhes uma escolta numerosa sob o comando do capitão Verhellen.
Andamos a pé, de tipóia, em carros de boi e em canoas. Nas aldeias, tratávamos os doentes, conquistando assim a amizade dos nativos podendo negociar com a população local ao longo do percurso. Mohun apetrechou-se de 100 caixas de bugigangas comerciais compostas de sinos, facas, trincos, espelhos, caixas de música, relógios, barretes, pentes e coisas para outros fins. A expedição incluía carregadores para levar rolos de fios de cobre e demais equipamento para a linha telegráfica. Para alegrar os ânimos entre expedicionários e indígenas faziam-se espectáculos com mágicas árabes trocando favores por panos, trastes e incenso; para aquelas gentes estas novidades eram a tecnologia de ponta. Mal sabiam eles que iria dali sair a matéria-prima para desenvolver o ocidente como o cobre, coltan e diamantes. O navio Sir Harry Johnson, entretanto fazia a ligação por cabo submarino entre a ilha de zanzibar e o continente africano na colónia alemã de Tanganica desde o recente acordo de Berlim de 1885. Cecil Rhodes desta forma, firmava estruturas para levar avante o seu sonho de unir o Cabo ao Cairo por via-férrea. Eu, desconhecia então que estava a ajudar a realização desse sonho alheio.
(Continua…)
*Januário Pieter:- Um personagem amigo, um sábio que me assiste e complementa conhecimentos...Um fantasma feito guia Kalunga; o homem que nasce da morte metaforizada com mais de 300 anos. Tem no seu ADN a picardia cutucada até a exaustão, Cruz credo!
O Soba T´Chingange
Corporações estrangeiras como a do Canadá de Mineração Anvil que se fundiu com TENTE Mineração, da África do Sul Anglogold Ashanti , e os EUA Phelps Dodge / Freeport McMoRun fornecem logística e finanças afim de apoiar os grupos armados permitindo a exploração ilegal de coltan. Recentemente Anvil e Phelps compraram uma mina por US $ 60 bilhões. A indústria de mineração, é controlada pela força das armas que mantêm reféns seus trabalhadores na ponta da baioneta. O mineiro do Congo, pela força, ou "voluntariamente” ganha apenas US $ 1 por cerca de dois quilos de coltan. A Bélgica, que ainda tem uma "mão" na riqueza do Congo na pessoa de George Floresta, proprietário do Katanga Mining que financiou o partido político do actual presidente do Congo, tendo estabelecido ali o maior complexo de mineração do mundo.
A mídia mundial enfeudada a interesses de métodos neo-coloniais no pior sentido, omitem os motivos da matança e escravidão no Congo. Os valores ocidentais, conspurcados na riqueza e rapina, não podem perder o controlo, expondo a verdade; Os ricos, estão demasiado embrenhados nesse banho de sangue. As pessoas não dão a face mostrando a balbúrdia do Congo porque são enormes as forças globais, vários governos, consorcios de mineração global, institutos e Ong´s coladas a elites da nomenclatura local. Todos esses, estão provocando o maior assalto do século XXI. Eles, os que arranham a terra, necessitam da nossa
ajuda, da nopssa denúncia.
Sabe-se o quanto é difícil deixar de usar essa ferramenta tão útil como o é o telemóvel celular mas você pode fazer pressão para que as coisas mudem e é importante saber disto, usar sua atitude no sentido de inverter procedimentos de devastação; parar de substituir os telefones celulares e laptops que ainda funcionam. O acordo de paz assinado na República Democrática do Congo em 2006, não acabou com a guerra. Estima-se que 400.000 mulheres foram estupradas nos últimos dez anos, um acto de puro femicídio - destruição planeada das mulheres de forma sistémica. As mulheres sofrem fístulas de estupros com facas, revólveres e pénis. É revoltante e até parece ousada fantasia quando se diz que mulheres foram forçadas a comer bebés mortos. É um mundo tão horrível que a continuar põe em risco o nosso sono de forma constante, assim se saiba. Soldados com HIV estupram mulheres na frente de seus maridos, as meninas na frente dos pais. Esses procedimentos são parte do plano; afrouxar o aperto da comunidade sobre seus recursos naturais, especialmente o coltan. O Congo é o país com maior oferta desse mineral.
Para mais informações, ir para friendsofthecongo.org.
XICULULO: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo
(Final)
O Soba T´Chingange
“A GUERRA DO COLTAN” - O oculto no uso de telemóveis / Celulares O minério Coltan
A maioria de nós só pensa em seu telemóvel / celular; do quanto custa e do quanto se gasta por mês com esse aparato tornado indispensável. Raramente as pessoas se detêm a considerar o custo em vidas humanas que envolve este negócio; a grande maioria desconhece o que é essa guerra surda entre gente distante sobrevivendo nas minas, raspando com as mãos esse mineral. As República Democrática do Congo (RDC) detêm 80% das reservas mundiais desse mineral, o tatalum tão necessário à indústria electrónica. O tântalo é o metal essencial utilizado na produção de telefones celulares e computadores portáteis; permite que eles fiquem mais compactos e, serem também utilizados a temperaturas muito elevadas. A miniaturização desses utensílios, depende do coltan.
Os donos da guerra
Mais de dois bilhões de pessoas no mundo, usam agora telefones celulares ou “laptops”. Estes minúsculos celulares colocados ponta com ponta, atingiriam mais de metade do percurso para se chegar à lua. A demanda diminuiria se as pessoas não substituíssem os telefones celulares com tanta frequência mas, seus donos, mudam-nos no mínimo a cada 12 meses. A ânsia de lucros das quatro principais empresas de electrónica: Cingular, Sprint, T-Mobile e Verizon não é compatível com os padrões de reciclagem. É irónico que o povo do Kongo tendo sofrido a colonização Belga com elevados índices de atraso e inerente pobreza e morte, seja de novo envolvido por seu país ser rico em ouro, cobre, diamantes, borracha e agora o coltan. Eles enfrentam a batalha dos metais que compõem nossa sociedade usufruindo migalhas. A riqueza deste mineral dá o lucro de bilhões de dólares aos mercados financeiros de Paris, também de Londres, Nova York, Toronto e Austrália (Os primos exploradores da Commonwealth). O resto do mundo delicia-se com seu maravilhoso aparelhinho alheio a tudo. A Conferência de Berlim sob a égide de Otto von Bismarck, dando fim aos trabalhos a 26 de fevereiro de 1885 teve como objectivo organizar a ocupação de África pelas potências coloniais, que resultou numa divisão desrespeitando a história e as relações étnicas até então existentes. O Zaire ou Kongo ficou destinado a ser gerido pela Bélgica.
O rei Leopoldo da Bélgica colonizou o Kongo de acordo com o tratado citado. Em 23 anos, sob o seu reinado, morreram 10.000.000 de congoleses, e isso, foi a metade da população do país. Bélgica explorou borracha, cobre e marfim até à exaustão sem deixar qualquer infra-estrutura considerável. Chefes de mineração e exércitos cortariam a mão a trabalhadores por não produzir rápido e o suficiente; a educação foi incipiente a comparar com a vizinha Angola que prosperava mesmo no executivo colonial português. Hoje, talvez os donos das multi-nacionais de minas não sejam tão brutais como a gestão belga mas, o povo congolês ainda está esmagado pela pobreza confrangedora e guerras pelo mando e comando daquele metal. Consórcios de países ricos assinam acordos lucrativos com o governo corrupto e, em simultâneo, com os rebeldes armados por estes, para extrair esse mineral valioso. Todos somos cúmplices deste massacre, mas todos se ilibam na sombra da confortável ignorância.
XICULULO: -Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo
(Continua…)
O Soba T´Chingange
RECORDAÇÔES ANGOLA
fogareiro da catumbela
aerograma
NAÇÃO OVIBUNDU
ANGOLA - OS MEUS PONTOS DE VISTA
NGOLA KIMBO
KIMANGOLA
ANGOLA - BRASIL
KITANDA
ANGOLA MEDUSAS
morrodamaianga
NOTICIAS ANGOLA (Tempo Real)
PÁGINA UM
PULULU
BIMBE
COMPILAÇÃO DE FOTOS
MOÇAMBIQUE
MUKANDAS DO MONTE ESTORIL
À MARGEM
PENSAR E FALAR ANGOLA
