Quarta-feira, 27 de Maio de 2015
MONANGAMBA . XXVII

BILHETE DE IDENTIDADEBranco de segunda - A relembrar o Américo Barroso dos Coqueiros - I

Por

Américo.jpg Américo Barroso - Engenheiro de formação, um kamba a toda a prova - Um kamundongo integral; Ele era do Bairro dos Coqueiros, morava na Rua Avelino Dias (Said Mingas), ao lado do Colégio Infante D. Henrique, pertinho da mercearia Oliveira;  Ele era um mestre das falas com os "cús-tapados"; o filho da Dona Laura, faleceu a 5 de Maio de 2015  em lisboa

amigo0.jpg

Nasci branco de segunda

Calcinhas ou kaluanda

Nasci com os pés no mar
em São Paulo de Loanda

 

Brinquei de pé descalço
Em poças de águas castanhas
Tive lagartas da caça
Não escapei às matacanhas

 

Comi manga sape-sape
Fruta-pinha, tamarindo
Mamão a gente roubava
No quintal do velho Zindo

 

Pirolito que pega nos dentes
Baleizão, paracuca
E carrinhos de rolamentos
Numa corrida maluca

 

coqueiros 1.jpg

 

Tinha o Gelo, tinha a Biker
Miramar e Colonial
O Ferrovia, o Marítimo
Chás dançantes no Tropical

 

O N'Gola era só ritmo
O Liceu uma lenda
Kimuezo e Teta Lando
E os Ases do Prenda

 

Havia velhas que fumavam
E velhos com ar de sábios
Enquanto novas músicas
Se insinuavam na rádio

 

"E a cidade é linda
É de bem-querer
A minha cidade é linda
Hei-de amá-la até morrer"

 

coqueiros0.png

 

Quem não estudou no Salvador?
Quem não se lembra do Videira?
E das garinas de bata branca
Nossas colegas de carteira?

 

Depois havia o Kinaxixe
Futebol era nos Coqueiros
Havia praias, um mar quente
Savanas imensas, imbondeiros

 

E havia o som do vento
O cheiro da terra molhada
As chuvas arrasadoras
O fogo das queimadas

 

E havia todos os loucos
Do progresso e da guerra
A Joana Maluca, o Gasparito
A desgraça daquela terra

 

coqueiros2.jpg

 

Nasci branco de segunda
Calcinha ou kaluanda
Nasci com os pés no mar
Em São Paulo de Loanda"

ESTÁ LONGE!!!

Monangamba - Trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo); os candengues da Luua tinham este hábito de chamar nomes às pessoas para as rebaixar

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Terça-feira, 26 de Maio de 2015
CAFUFUTILA . LXXXVII

LUANDA - Relatos e histórias de antigamente… III

Por

luis0.jpgLuis Martins Soares  Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes.

luis01.jpg O Baleizão já marcava presença por toda a cidade vendendo os sorvetes ‘‘baleizão”, nome adoptado pela população, em carrinhos empurrados por homens vestidos com roupa e bivaques brancos. Luanda teve um espectacular crescimento nos anos de 1930 a 1950: com cerca de 50.000 habitantes em 1940, passou a 140.000 em 1950, 225.000 em 1960, e quase 500.000 em 1968 e, com a percentagem de brancos sempre em aumento. Ainda me recordo da senhora negra luandense sentada na esteira de luandos ou de matebeira no banquinho catando piolhos da criança ou do adulto.

luis5.jpg Passava horas nesse trabalho intercalado com conversas em quimbundo. O luando é uma espécie de junco de caule macio espessura de mais ou menos de dois centímetros que após secos eram ligados uns a outros com fio de modo a formarem uma espécie de tapete com um metro e meio a dois metros de comprimento por 80 cm de largura. Acessório praticamente presente em muitas casas fazia parte das reuniões após o jantar onde se juntavam os vizinhos no quintal para colocarem as novidades em dia enquanto a criançada sentada brincava com seus carros de lata, madeira ou bordão.

luis04.jpg Meu pai fumador inveterado, com os dedos marcados pela nicotina, gostava mais de usar a mortalha Zig Zag e manufacturar ele próprio os cigarros. Para isso tirava a mortalha da cartela e colocava o Tabaco Francês N° 1 ao longo do papel. Era embalagem de 50 gramas e seguidamente com o auxílio dos dedos polegares e indicadores das duas mãos enrolava as pontas do papel de modo a reter o tabaco, terminando com o passar do papel pelos lábios, para fechar e colar todo ele.

luis13.jpgluis14.jpg

A vantagem era poder manipular o cigarro com a espessura variada. Algumas vezes o cigarro preferido era o acondicionado em embalagem de 300 gramas, tabaco semicolar, mas a marca mais conhecida era mesmo o Francês N° 1.

CAFUFUTILA, (kifufutila): - farinha de mandioca torrada misturada com açúcar. Do Kimbundo de Angola

(Continua…)

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Sexta-feira, 22 de Maio de 2015
CAFUFUTILA . LXXXVI

LUANDA - Relatos e histórias de antigamente… Entre a Congeral e as Quipacas… II 

Por

luis0.jpg Luis Martins Soares  Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes.

mai5.jpg (…) Os tipos mais comuns das habitações destes bairros segundo o material de construção eram as casas de barro, as casas de pau-a-pique, as casas de adobe e as casas de madeira e zinco. As ruas sem asfalto ou calçamento formavam um lamaçal no período das chuvas e com a passagem dos carros a poeira formada invadia as casas. A Câmara Municipal e a Igreja do Carmo pertencem à região das Ingombotas. O Maculusso ainda não urbanizado e outros musseques periféricos apresentam ordenamento caótico de cubatas intercaladas com casas de adobe ou de tijolos cobertas com zinco, a maioria.

luis5.jpg Nestas regiões em alguns quintais erguidos com folhas de zinco ou aduelas de barris, pequenas hortas são cultivadas com mamoeiros, goiabeiras, mangueiras e tamarindeiros. Na região das Quipacas, junto à base das falésias do Morro onde mais tarde foram construídos o Cinema Miramar e Clube de Caçadores de Luanda, havia cerâmicas para fabricação de telhas e tijolos, com fornos para cozedura e chaminés muito altas que se destacavam a longa distância. Existiu na mesma época uma indústria de porte regular que fabricava blocos de cimento e outros artefactos feitos de barro e ou cimento e brita.

mai6.jpg No sopé do morro da Fortaleza, após a Calçada D. Simão Mascarenhas, aquela que dá acesso à Fortaleza São Miguel destacava-se a Fábrica de Sabão Congeral e perto dela funcionou uma usina de asfalto, mais tarde transferida para outro local e também uma fábrica de papel cuja matéria-prima era derivada dos resíduos de papéis e papelões reciclados.

mai7.jpgSim, nessa época não se falava em reciclagem, mas os papeis eram aproveitados por essa empresa e reutilizados após processos químicos. O produto final tinha um aspecto diferente do original na cor e textura, mas servia perfeitamente para a embalagem e acondicionamento de produtos vendáveis nas mercearias.

CAFUFUTILA, (kifufutila): - farinha de mandioca torrada misturada com açúcar. Do Kimbundo de Angola

(Continua…)

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:00
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Domingo, 17 de Maio de 2015
CAFUFUTILA LXXXV

LUANDA - Relatos e histórias de antigamente…

Por

luis0.jpgLuis Martins Soares  Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes

luis01.jpg Chegamos ao ano de 1937 e a Comissão Administrativa da Câmara de Luanda delibera no sentido de se proceder à revisão da toponímia da cidade, constituindo-se para o efeito uma comissão, composta por personalidades de várias áreas que administram a vida da cidade; eu ainda só tinha três anos de idade mas em tempo, vim a saber. Houve mudanças nos nomes de ruas, avenidas, largos, etc.. O panorama da cidade era o seguinte: Aberta em 1922 a Rua Brito Godins que sai do Largo Quinaxixe passa pelo Liceu de Salvados Correia e termina no Largo da Maianga. A Ingombota faz parte dos limites da cidade, mas o Maculusso ainda se considera musseque.

luis12.jpg O musseque Braga com casas de zinco, com quintais de goiabeiras e mamoeiros juntos de cubatas existiu até 1940, região que deu origem anos depois ao moderno Bairro do Café. Nesta década os limites da cidade estavam definidos a partir do Fortaleza de S. Miguel pelas seguintes vias: Calçada de S. Miguel, Rua de Diogo Cão, Rua da Misericórdia, Rua de Guilherme Capelo, Avenida de Brito Godins, ainda não projectada Rua de Luiz de Camões, Calçada de Gregório Ferreira, Rua Direita de Luanda até a Estação Central no Bungo e Marginal sentido sopé do Morro de S. Miguel.

luis1.jpg A topografia acima da Rua Direita, Oficinas dos Caminhos de Ferro de Luanda, Avenida da Boavista até à Rotunda de acesso à Estrada do Cacuaco é formada por extensa falésia apresentando perto da região do futuro Miramar afloramentos de areia e terra avermelhada. O Bairro Operário, musseque urbanizado está fora destes limites. O bairro da Boa Vista e Bungo ainda apresentam pequenos núcleos de cubatas e casas dispersas da população branca. As Ingombotas, dentro do perímetro urbano, mais ou menos na década de 40 ainda era habitada por um contingente formado por famílias de origem europeia e africana.

CAFUFUTILA, (kifufutila): - farinha de mandioca torrada misturada com açúcar.  Do Kimbundo de Angola

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Segunda-feira, 11 de Maio de 2015
MISSOSSO . XV

NAS BARROCAS DA LUUAMaianga com seu Rio Seco, um lugar notoriamente ecológico e sustentável.

Por

soba0.jpg T´Chingange

surucucu5.jpgPorque tinha de arranjar maneira de me entreter, procurei entre meus mofados escritos, alguns acontecimentos milagreiros ou milagrosos para nosso Jesus o Nazareno, poder apreciar em seus mais aborrecidos tempos. E como de toda a vida é a infância aquela que mais merece chamar-se vida, terei de ir ali beber meus mais alegres ócios, bocadinhos de coisa alegre e fidedigna que só podem ser escritos em língua morta, assim comos os escritos do antigamente, os apócrifos. E, porque agora andam todos à pancada e também porque Deus, sendo omnipotente não faz a todos acreditar na mesma coisa e, embora eu goste das diferenças, respeitarei a cultura monoteísta por uma questão de princípios, embora tenha notado que ele, o Nosso senhor de Nazaré anda muito distraído com muita gente morrendo à toa e, sem ter feito mal a quem quer que seja.

Um dia de primavera, tempo chamado de cacimbo, eu e meus ávilos mais próximos candengues, apetrechamo-nos de palhinhas longas e suficientemente duras para apanharmos grilos, ralos e gafanhotos. Com uns caniços entrelaçados em mateba fizemos umas gaiolas para aprisionar estes ditos bicharocos. Fizemos um concurso de para ver quem caçava mais grilos e qual deles viria a ser o mais cantador. Todos nós a concelho de Zeca Mamoeiro armados de zingarelhos e acessórios lá fomos para as barrocas da Luua, um sítio chamado de bananeiras do Rio Seco porque era um lugar notoriamente ecológico e sustentável.

surucucu01.jpgTratando-se de uma caçada, houve quem levasse comidinha roubada em suas casas como arroz e batatas mas, eu e Zeca levamos tirinhas de mamão entremeado com jindungo de Zenza-do-Itombe, fanado. No nosso pensar, os grilos, antes das cantorias celestiais e nupciais, abancavam-se com pedaços de fruta e cereais variados como a massambala e girassol. Nesta feita, o Zeca, mais entendido nestas paragens de barrocas era o chefe; bom, também só eramos dois mas ambos tínhamos postos e nome por causa da inveja, ele era o chefe e eu, o subchefe.

Convém aqui descrever que o Zeca que conhecemos hoje como um conceituado póetólogo um katedrático da Universidade do Rio Seco, mesmo em pivete, já era uma espécie de professor Pardal, que parecia viver sempre em um mundo separado, o da Luua. Usava calções de caqui e um quico na cabeça com uma pena vermelha de cardeal entalado na letra G doirada nos dizeres “Eu sou um génio” e, era mesmo! Só que um pouco desengonçado! Já nesse tempo falava pelos cotovelos numa forma só dele, sua peculiaridade de kimbundêz amilongado com a sua, nossa mulola.

surucucu1.jpgPor vezes tinha um tique aristocrático, um trejeito soluçado, assim de como um jigler de carro entupido, que lhe nascia no esófago e lhe explodia atabalhoadamente nos beiços enrubescidos; uma pomposa atitude assim na forma de meio indígena meio alienígena, marciano mesmo e, todo ele amissangado de banga, um estilo que soele sabia fazer. Esta banga, conseguiu mantê-la até agora já século! As garinas adoravam isso e enroscavam-se nele como lapas: Fala só pra mim Zeca! Aquela Luua de feitiço do seu Rio Seco encafifou-o perenamente.

Voltando à caça. Nesta feita Nelito e Zorba levaram bocadinhos de toucinho enfiados ao jeito de espetadas. Pica e Rente levavam suas varetas palhinhas untada de visgo para colarem os bichinhos e na ponta colocaram uma maça-da-índia. Enfim, cada grupo levava seus unguentos e mixórdias mais variadas na perspectiva de serem eles os campeões. Necas, o gândula era o fiscal inspector-geral das verificações. Naqueles dias todos os momentos eram especiais mas a caminho da nevrálgica zona dos fuca-fucas e grilos entretivemo-nos a ver os escaravelhos egípcios transportando bolas de merda-seca para os seus armazéns. Bom, aquele lugar por especial, era também retiro de escapatória assim uma retrete arejada para os candengues e não só, se aliviarem.

Claro que os maleducados do Prenda, Maianga e Catambor em seus trumunos de futebol de areia ai se refugiavam em escapadas chamando àquilo genericamente de mato. Os trabalhadores mwangolés, albanis de obras em execução por perto também iam ali obrar. Eu e Zeca recolhemos umas bolas de tuge já confeccionadas e juntamos às fatias de mamão com jindungo como complemento ao engodo, assim pensamos e assim fizemos.

surucucu2.jpgDepois de se atribuir a cada par suas áreas de caça, estipulamos por estatuto meia hora para o feito e, cada qual foi para a sua falésia, duna ou savana dar cumprimento ao regulamento previamente elaborado. Para que conste o regulamento tinha 5 itens e porque é bem transcendente aqui se mencionam: -Paragrafo único - Duração de meia hora; 1º - Os grilos valiam 5 pontos; 2º - Os fuca-fucas (formiga leão) valiam 4 pontos; 3º - O louva-a-deus valia 3 pontos; 4º - Os ralos valiam 2 pontos; 5º - as carrochas de chifre valiam um ponto.

Meu parceiro Zeca, um experimentado caçador de xirikwatas, celestes e rabos-de-junco e, também conceituado pescador dos mares da Samba, despertou-me a atenção para um buraco mais especial, mais redondinho e com uns ossinhos de rato ali por perto. – Vamos apanhar um grilo pré estórico, disse ele! Eu nem sabia nada disso do pré estórico, uns tempos antigos de mais para lá do Jurássico, um tempo muito antes de Cristo aparecer na Galileia! Um puto assim tão esperto, este Zeca era um mestre de mulola sem salalé; eu só podia mesmo seguir suas ensinações. Juro que estava meio desconfiado mas, acabei por concordar.

surucucu8.jpgMetemos a palhinha mais comprida com uma fatia de mamoeiro com o tal de jindungo do Zenza do Itombe; já me esquecia deste pormenor, na ponta da palhinha espetamos um olho de sardão seco para dar sorte; o jindungo foi fanado das bikuatas do meu pai Manel cabeças e Zeca, neste entretanto rolava num cada vez e, parava e no depois prosseguia a palhinha com todos os cuidados, malembe-lembe ela foi entrando. – Olha só! (suspense silencioso) … Disse Zeca! Parece mesmo que aqui tem grilo gigante! Parece que neste entretanto sentiu qualquer movimento paleolítico. Os dois ficamos mirando o buraco com espectativa e, ei que…!? Putaquepariu, assim tudo junto, cada qual com seu grito, cada qual com seu medo de acagaçado! Saiu de lá uma surucucu gorda que nem um mostrengo do lago Ness.

Abuamados, ambos tropeçamos na confusão em cima duns biscoitos malcheirosos ainda frescos e demos às de vila diogo, berrida memorável! Tremendo de bravura, naquele pequeno planalto de argila rasgada pelas águas, os outros putos fidacaixas, candengues de tuge, riam só á toa apontando nossas habilidades emborradas.

surucucu6.jpgEscusado será dizer que não ganhamos o concurso. O regulamento não previa cobra mas, nossa valentia ficou reconhecida, lavrada em cachimónia até aos vindouros e hodiernos dias. Aquele buraco, bem feitinho enganou-nos. Mas, Zeca e Tonito que soeu, passaram a ser vistos como os candengues mais desaprumados daquele bairro. Nesse lugar das barrocas, vivem agora os mwangolés de banga, que mandam mais nos outros que neles mesmo. Chama-se Alvalade talvez em homenagem aos leões que por ali andaram nos tempos de Cristo da Galileia.

MISSOSSO: Conto de raiz popular que em Angola teve seu criador e percursor o escritor Óscar Ribas. Neles, há diálogos com espíritos, calungas ou kiandas e animais que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

O soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015
MISSOSSO . XI

ANGOLA . LUANDA “A BICHA DA PEDRA”

Por

  Dionísio Dias de Sousa     Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

- Vai sair, vai sair, vai sair. - O moleque Gindungo, arauto destas palavras apregoava com os pulmões no máximo da performance a notícia que inundava os ares de Luanda de pós independência e que se propagava a uma velocidade estonteante como suiuio (piolho) em penugem de galinha pedrês.

- Vai sair mais o quê Gindunguinho? Interpelou-o a vovó Mariquinhas ao mesmo tempo que ficou com parte do colarinho do Gindungo na mão na tentativa vã de filar o moleque e obter explicações mais latas sobra a notícia, algo que não se notou pois a dita camisa só tinha uma manga e ali perto do ventre um buracão onde espreitava um umbigo mal-amanhado no parto.

- Me larga vovó tenho de desavisar aí o povo todo de Luanda do desacontecimento. – Estrebuchou esgueirando-se das mãos da Mariquinhas. – Me fala só o quê moleque. – Voltou à carga a vovó com pelo menos meia centena de compatriotas já em seu redor. – Não sei não, mas vai sair amanhã na padaria Violeta daquele tuga qui foi no M´puto, o Venceslau.

Dy4.jpg  E desatou a correr Luanda fora alertando os transeuntes. Com esta informação adicional Mariquinhas desatou a pedalar as pernas franzinas e já meias trôpegas em direcção ao largo do Quinaxixe onde se situava a dita padaria seguida por uma multidão que engrossava a olhos vistos. Nesta época em que bens de consumo eram raros na capital de Angola tal notícia dava azo a um corrupio excitado para o estabelecimento onde o evento iria acontecer pela manhã do dia seguinte.

- Tobias, tu sabe o que é mesmo que vai sair amanhã? Perguntou o Paulino ao seu companheiro de andança. – Não mano Tobias, desconsegui de saber mas alguma coisa vai sair para o Gindungo gritar assim. – Então vamos lá para colocar os nossas pedra para marcar o lugar. – Incentivou o Tobias que já não comia um funge há vários dias, acelerando o passo. – E tu calcula mais o quê que é Paulino? – Não sei não Tobias, da última vez eu pensava que era os cúria do farinha ou batata e levei para a minha Julieta vinte rolos dos papel dingiénico. – Ai é? – E então Paulino? – Julieta me perguntou para quê tanto do papel, se a gente não come vai limpar os mataco de quê.

Dy5.jpgJesuíno que galopava ao lado deles interveio dizendo. – Não me falam disso, manos. Na última vez que houve um desavisamento desses esperei dez horas na bicha de pedra pois ia sair um conduto qualquer para calar a minha barriga que andava a roncar como o porquinho da mana Gracinda. – E então o quê mais aconteceu Jesuíno? – Perguntou o Tobias. – Aí não me recorda essa maka que já tinha esquecido. Muito estalo na bicha da pedra e a mana Josefa desencarapinhou a tia Clotilde por causa dos pertença da pedra. Eu me virei na confusão e finalmente consegui entrar na antiga farmácia do velho Fagundes e levei para o meu mokifo dois estalos, os beiça rebentada e duas caixas de chocolate gostoso que a minha Marilda que está grávida se lambeu depois do feijão com lombi. – Mesmo assim tu tiveste sorte Jesuíno, chocolate é para gente fina. – Comentou o Paulino. – Sorte mesmo, mano? Até hoje a Marilda está a gritar, está a sair, está a sair, que eu acho mesmo que foi do tal chocolate Broklax . – Lamentou-se o Jesuíno com ar condoído.

Dy6.jpg Chegaram à padaria Violeta como uma manada desencabrestada que vai beber ao rio. No passeio junto ao estabelecimento uma rimada de calhaus de todo o tipo estavam alinhados como rilhetes em mata de goiabeira. Os lugares marcados para a bicha matutina atingiam já uns bons duzentos metros. – Essa pedra aí é minha vovó Mariquinhas. – Advertiu alguém que a viu tomar à má fila o lugar marcado. – É tua como? Eu já coloquei a pedra faz já mais de uma hora. – Retorquiu a Mariquinhas com ar assanhado. – É minha mesmo vovó, não fala maka por causa da pedra vovó. – Estas discussões já aconteciam um pouco por todo o passeio e algumas a ultrapassarem o limite da tolerância. Finalmente os recém-chegados colocaram as pedras de marcação o que lhes dava direito a estar na bicha pela madrugada.

Dy7.jpeg

 

Na sofisticação da marcação no outro dia havia marcação personalizada; tinha chinelo, sapato velho, tijolo, tronco de kibaba, tacho, chapéu colonial, cabaça e entre os edecéteras estava uma velha bíblia de capa despolida, uma boneca sem braço e um fiel cachorro de verdade chamado de Adão; sei seu nome porque seu dono de nome Abraão me confidenciou entre muxoxos e cuspidelas coloridas.

 – Então Tobias, tu sabe o que vai sair amanhã? Perguntou o Paulino – Não sei mesmo mano, mas vou levar….

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

As scolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:32
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2015
FRATERNIDADES LXXX

 

TESTEMUNHOS NO TEMPO – Tenho saudades de Angola - 4ª de IV Partes

Por

Por

Luis Martins Soares Luis Martins Soares

fosforos palanca.jpgEstou lembrado-me do Bar do Bitoque, espécie de tasca ou taberna na Rua D. Miguel de Melo, prolongamento da Rua Vasco da Gama, esta que passava lateralmente pela Igreja do Carmo, Câmara Municipal e terminava no Largo da Mutamba. O bar para quem descia sentido Estádio Municipal estava localizado no lado esquerdo e no lado direito antes da construção do prédio da Fazenda tínhamos umas casas térreas morando em uma delas a Maria das Pressas com as sua meninas. Porquê esse apelido? Porque quando alguma das meninas atendia o cliente a Maria, após um tempo, batia na porta do quarto do casal dizendo para terminarem depressa o serviço pois clientes estavam esperando a vez. Voltando à história do Bitoque, certa vez os colegas combinaram um almoço de chocos assados com tinta. Os chocos foram assados com aquela carapaça dura em formato de barco e servidos em travessas.

jindu4.jpgCada um se serviu mas de repente todos pararam a arte da mastigação olhando para o colega que tentava desesperadamente morder a carapaça. Verdade! Foi uma gargalhada geral em que o colega também tomou parte desculpando-se que nunca tinha saboreado esse prato. Saudades da época que ainda solteiro morando com os meus pais e minha mãe benguelense, aos domingos cozinhava aquela moambada gostosa de galinha, acompanhada com funge de mandioca e lubrificada com o azeite de dendê feito na hora. O gindungo era esmagado na borda do prato e adicionado ao azeite. Eu chamava à massa de funge, cola de sapateiro. Depois da refeição era gostoso cochilar na cadeira de viagem. Saudades da marginal e as palmeiras plantadas ao longo dela.

lusa5.jpgEm frente a ilha e a floresta eram visíveis com alguns barcos à vela sulcando as águas. Mas deslocava-me à marginal pela tardinha para ver os barcos de pesca vindos do porto de pesca passando pertinho em direção ao porto e ao alto mar. Às vezes ainda eram vistos os tripulantes arrumarem e prepararem as redes de pesca. O barulho provocado pelos som cadenciado dos motores a diesel e a proa dos barcos rasgando as águas ainda estão gravados na minha memória. Tenho saudades da Fortaleza de São Miguel local onde namorei algumas vezes aquela que ainda hoje é a minha querida esposa Maria José, sempre policiados pela mãe. Tenho saudades de ti, Luanda. De sentir o teu cheiro e os teus ruídos. Saudades...Saudades...

Nota: Texto capiangado a este ilustre amigo e, já publicado em Memórias da Maianga no Facebook

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:20
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015
FRATERNIDADES LXXIX

TESTEMUNHOS NO TEMPO  Tenho saudades de Angola - 3ª de IV Partes

Por

Luis Martins Soares Luis Martins Soares

Luua.jpgAi, que saudades dos brinquedos de lata, dos arcos dos barris e das bolas de futebol feitas com as meias velhas e enchimento de trapos para dar volume, das minhas figurinhas e ás vésperas do Natal quando ia ao Largo do Palácio do Comércio receber o brinquedo doado pelos comerciantes. Saudades da minha casa modesta, na hora do mata-bicho o meu pai fazia a distribuição dos comprimidos de quinino que deveriam ser engolidos sob os olhares dele, saudades das carrinhas ou jeeps da Tifa, lembram-se quando percorriam os bairros da nossa cidade portando na carroçaria ou rebocando aquela máquina que lançava nuvens de DDT para o ar? Delírio para a criançada que sem noção do perigo acompanhava o trajeto do carro mergulhando nas nuvens e aspirando-as. As donas de casa abriam as portas e janelas para que o desinfectante entrasse à vontade ficando livres dos mosquitos e baratas.

MAXIMBOMBO 3 DA MAIANGA.jpgSaudades dos domingos com o ritual habitual, primeiro ida à praia para dar uns mergulhos naquelas águas tépidas. A minha preferida era a da ilha na saída do lado esquerdo da “ponte” ou na contra costa. Depois regresso à casa às vezes com uma pequena parada em uma casa de frangos onde preparavam uns assados saborosos na Rua Francisco Newton a caminho do Bairro da Cuca.  Almoços e jantares no Vilela cuja especialidade era o bacalhau.

cigarros.jpgComo adorava aquelas postas grossas de bacalhau passadas na brasa. Manjar dos deuses!  O arroz de cabidela que deve ser servido quentinho para sentir o gostinho do prato. Gostava da Esplanada Verde com a pedida de bifes com batatas fritas e ovo estrelado acompanhado por uma Cuca ou Nocal fresquinha.  Saudade dos colegas da Fábrica de Cimentos Secil do Ultramar com os nossos costumes bizarros que após acompanharmos algum colega até à morada final íamos carpir as mágoas num bar. Estou lembrado do Bar do Bitoque, espécie de tasca ou taberna na Rua D. Miguel de Melo, prolongamento da Rua Vasco da Gama, esta que passava lateralmente pela Igreja do Carmo, Câmara Municipal e terminava no Largo da Mutamba.

Nota: Texto capiangado a este ilustre amigo e, já publicado em Memórias da Maianga no Facebook

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:36
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015
FRATERNIDADES LXXVIII

TESTEMUNHOS NO TEMPO - Tenho saudades de Angola - 2ª de IV Partes

Por

Luis Martins Soares Luis Martins Soares

Luua.jpgQuando os pais estavam de "boa maré" um bom programa eram as matinés do Nacional Cineteatro e do Cine-Colonial para vermos o mais famoso Tarzam interpretado por Johnny Weissmuller com sua companheira Jane e a macaca Cheeta recebidos pela garotada com muitos gritos, Cantinflas, o Bucha e o Estica ou algum filme americano romântico e vez por outra uma produção portuguesa. Os filmes do farweste com John Wayne, de Roy Rogers ao lado do cavalo Trigger, também arrastavam muitos crianças e adultos para as únicas salas de espetáculos da década de 40. Das bancadas de cimento do velho Colonial onde os desprotegidos da vida adquiriam os ingressos mais baratos para desfrutarem um pouco de lazer. Que ás vezes aos gritos de “aiuê” levantavam-se desesperados com os choques elétricos que recebiam no "mataco" devido a curto-circuito e que em determinada cena avisavam à pessoa do bem que o bandido estava prestes a atacá-la. Que quando a pessoa do bem ficava em desvantagem era admoestada com as palavras "eu te avisei" ou "olha o bandido".

Depois vieram outras salas como o Aviz, o Restauração, Tivoli, o popular Miramar, o Tropical, o Império, e outras salas espalhadas pelos Bairros e Agremiações. Saudades das frutas de Angola e sabores variados: o maboque que com a sua casca dura encerra no interior a polpa agradável de ser degustada acompanhada de um aroma intenso; o maracujá com polpa cheia de pequenas sementes rodeado de camadas gelatinosas; da múcua fruta do imbondeiro aquela árvore de tronco bojudo e fibroso. A casca da múcua é dura e no interior as sementes são envolvidas por uma espécie de algodão um pouco ácido que se dissolve na boca; o sape-sape, a fruta pinha, a pitanga, o tambarino de sabor inigualável, a goiaba, banana, manga, o mamão e a papaia cujas árvores eram cultivadas nas maiorias dos quintais. E muitas outras, não me esquecendo também da romã.

maianga 2.jpgTenho saudades das quitandeiras vestidas de panos coloridos vendendo peixe e frutas da terra, batata doce e mandioca acomodados nas kindas à cabeça, num jogo de equilíbrio. Dos seus pregões chamativos convidando as donas de casa a comprar a mercadoria. Dos filhos transportados às costas amarrados com panos e acomodados nas ancas para serem aleitados. Saudades dos pescadores pescando na Baía com as canoas escavadas em troncos e impulsionadas com varas de bambu. Cobertos com panos enrolados na cintura e na cabeça uma espécie de turbante tentavam pescar aqueles peixes que depois eram vendidos de porta a porta. Das mulheres axiluandas junto à ponte da Ilha, que não era ponte, catando mabangas nas areias brancas e negras local ideal para reprodução da espécie.

Nota: Texto capiangado a este ilustre amigo e, já publicado em Memórias da Maianga no Facebook

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:05
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015
MOKANDA DA LUUA . XXXVI

ANGOLA . A crise faz congelar importaçõesPreço do petróleo obriga Luanda a lançar pacote de austeridade1º de 2 partes

kim0.jpgAs escolhas do Kimbo Lagoa

Por

mok1.jpgGustavo Costa  

seios Himba.jpgCom as calças na mão, o Governo Angolano, vai subir os impostos, cancelar temporariamente as admissões na função pública, aumentar, novamente, em breve, o preço dos combustíveis e eliminar, de forma gradual, os seus subsídios que ascendem os 5 mil milhões de dólares anuais. E, vai ainda reduzir, ao máximo, as viagens oficiais ao exterior e pôr governantes e deputados a viajar em classe executiva em detrimento da primeira classe. Mas as restrições não ficam por aqui. O número de sessões de vendas de divisas por parte do BNA, em montantes que ascendiam os 400 milhões de dólares por semana, será reduzido para menos de metade e as concessionárias de automóveis, sem recursos cambiais, deixarão de importar viaturas...

banana.jpgO quadro de restrições agora cozinhado pelas autoridades de Luanda começa, no entanto, a assumir contornos sombrios para os empresários com a reanimação do mercado negro. Assiste-se já, à formação, desde as primeiras horas do dia, de intermináveis filas de pessoas diante das agências credenciadas pela Western Union para procederem à transferência de divisas para o exterior.  O recurso à rua, por via das chamadas "kinguilas" - vendedoras e compradoras ambulantes de dólares - está a ser, novamente, a solução para angolanos e estrangeiros adquirirem divisas a preços especulativos. "As filas de espera para simples transferências de 5 mil dólares estão em “banho-maria” nos bancos mas começam a ser feitas pela porta do cavalo a troco de comissões" - confidenciou, irritado, Jorge Moreira, empresário angolano do ramo industrial, que receia o regresso em Angola da predominância do mercado negro de divisas como nos anos 90.

king1.pngPara tentar pôr fim à “farra” despesista do passado, poderá estar de volta o jurista Carlos Feijó para a reforma do Estado, depois de o antigo ministro das Finanças, José Pedro de Morais, ter sido nomeado governador do Banco Nacional de Angola.  Alguns analistas, que sempre criticaram a política de desperdício e de gastos inúteis do Governo, não acreditam, no entanto, que as elites governamentais se venham a libertar dos vícios que as alimentam; temem que perante despedimentos em massa à vista, uma perigosa espiral de criminalidade, se venha a instalar no país um clima de protestos sociais de difícil controlo.

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:48
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
FRATERNIDADES LXXVII

TESTEMUNHOS NO TEMPO  Tenho saudades de Angola - 1ª de IV Partes

No 439º aniversário de Loanda

Por

Luis Martins Soares Luis Martins Soares

 Tenho saudades da minha Angola! Da Luanda que me viu nascer! Não desejo que outras imagens interfiram no meu álbum de recordações para que veja Luanda como a deixei em 1975. Saudades da minha infância na Maianga, do morro da Maianga, Bairro Operário e do Bairro da Cuca. Saudades das brincadeiras de crianças, do Rio Seco, da Cacimba e do Miguel das Barbas. Da pedra da Praia do Bispo que servia de trampolim para os nossos mergulhos. Das barrocas perto da Companhia Indígena cenário para as nossas fisgadas às rolas, pardais e celestes. Saudades da Escola Primária José de Anchieta onde através da Cartilha Maternal de João de Deus aprendi as primeiras letras. Lá senti nas palmas das mãos as dores das palmatoadas com a "menina dos 5 olhos" ou com as batidas da vara comprida nas orelhas como castigo por não ter estudado as lições.

 Das caminhadas a pé pelas areias quentes até chegar à escola, em companhia da minha irmã e no regresso a casa onde tínhamos que andar descalços para preservar um pouco mais os sola das sandálias.  Saudades das pisadas nos espinhos arredondados do capim e das aventuras por nós praticadas ao saltarmos os muros das hortas para roubarmos goiabas apetitosas e as "berridas" que apanhávamos quando, aos gritos de "kwata" emitidos pelos serventes éramos perseguidos pelos cães de guarda até conseguirmos alcançar o muro e saltarmos para o lado oposto.

 Ainda conservo na planta dos pés as cicatrizes dos cortes provocados pelos cacos dos vidros escondidos no capim. Dos cigarros feitos com barbas de milho, enrolados com papel de embrulho da mercearia e fumados às escondidas. Da bebida feita por nós com a fruta vermelha colhida nos cactos rasteiros e espinhosos dos areais da Maianga, bolunga esmagada, açucarada e deixada fermentar por alguns dias. Saudades das noites onde a criançada da vizinhança se juntava brincando às escondidas, da cabra cega, carniça, passa-passa, passar anel, pular a corda e muitas outras. Outras vezes sentadas nas esteiras ouvíamos histórias contadas pelos mais velhos. Ai que saudades dos domingos, dia da semana esperado com ansiedade, motivo para não estudarmos, para irmos de passeio ao Parque Heróis de Chaves ou ao Jardim da Cidade Alta.

Nota: Texto capiangado a este ilustre amigo e, já publicado em Memórias da Maianga no Facebook

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:44
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014
KWANGIADES . XXIII

ANGOLA . TEOREMA DA AMIZADE MOPANE, CATATO em Angola 2º de III partes

As Falas de Zeca em uma longa mokanda - Mamiiiééé! Neste tempo de kota perdido.

Por

zeca2.jpg José Santos Impregnado de paludismo duma especial Jihenda da estirpe kaluanda, Zeca colecciona N´zimbos para fabricar missangas que soele sabe fazer. Formado na Universidade do Rio Seco da Luua

xicu1.jpgQue depois diz: -“Algo me cai mal! Vou tomar um chazinho de cidreira pra limpar a passadeira suja, p´ra dinovo ficar limpinha na maneira!  É assim. Porque tudo tem o seu início. Antes, na koka, a Visão, o Paladar…, nesse processo invisível, mas sentido, porque deliraram lambendo as beiças no salão da Restauração, mas lá em baixo o Fiscal do Digestão logo topa e tardiamente na entrada do escorregão do estômago e faz logo o chinfrim no RX aos revolucionários de camuflados e infiltrados “tipo ninja” que passam e sabotam o controlo de qualidade, esse engenho que separa o que é útil, o que produz a energia do nada produz, é nocivo e que depois é despejado para tubo corredor e directo para o colector… Vou falar com o meu “primo” luso-brasileiro, cientista de cultura do Bicho-da-seda nas Terras de Vera Cruz, para agora fazer o mesmo, fazer Estufa para a lagartinha MOPANE.

mopane2.jpgAgora, mudando para outro bichinho, o ESCARAVELHO e mencionado no teu texto, te digo no meio de bué rizada. Desconheço essa estátua de sabedoria conseguida pela frequência mínima e pela valoração alta do pisca pisca da tal Universidade do Rio Seco, que com certeza, no seu devido tempo e em sua memória, será plantada numa Rotunda, essa que dizes ser: - “Nosso Exmo Dom Visconde do Mussulú, Embaixador Itenerante da globália e dos PALOPS, concelheiro de Cienfuegos do mar da palha e conhecedor dum tal escaravelho que atacou a tua palmeira Phoenix Canariensis. Se não me diz como atacar o dito escaravelho, os meus sinais exteriores de riqueza extinguem-se”

mopane5.jpgTe digo que esse tal Dom Visconde do Mussulú, com esse título de colonizador, é mesmomemo nome de banga, de nobre e professor, que botaste apelo, pra botar os ataque com os fumaça dos Carro do Fumo nesse Cleóptero de uma figa e guloso de folhas de banga das Palmeiras das Canárias… Te aconselho pedir a esse Dom pra fazer investigação sobre esse tal roedor de folhas da tua palmeira nos teu “kubata” pra saber se é o Rola-Tuje (bosta), o Sagrado, o Vermelho…Este último é um “desviado da família”, não tem padrinho rico, nome nobre, é um pançudo, revolucionário, que sobe átoa pelas folhas das Palmeiras, que as faz sangrarem, faz esmorecem…, e que depois mete pena vê-las chorando e não decorando mais o alpendre, o jardim…

Kwangiades – Referente às musas do Kwanza

Glossário: Mu Ukulu – antigamente; Sékuku – muito velhinho, Sékulu – Velho; Ximbicar – remar; N’Zambi – Senhor, Deus… Uuabuama – maravilhoso, malembelembe- devagarinho; Muxito – área de mato denso; Berridar – correr; Mataco - rabo, bunda; Ndenge – infância; Jihenda – saudade; kubata -casa; Rola Tujw - escaravelho do Egipto

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:14
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2014
MOKANDA DO SOBA . LXIV

CINZAS DO TEMPO . Mistérios do mundo com poesia do Zeca…

Por

soba3.jpg T´Chingange

RITA É UM POEMA FEITO NO LUGAR DE NOGUEIRA DO M´PUTO

Eu, T´Chingange resolvi prensar este poema cheio de N´Zambi com as missangas de ZECA, esse professor Katedrático duma Universidade chamada de Rio Seco da Maianga da Luua que ele e eu tanto amamos, um rio que só o era quando chovia; um rio feito mulola trazendo areias com búzios, n´zimbos das barrocas que já não existem mais. A civilização matou aquele rio conspurcando-o de latas velhas, vidros cortantes e águas estragnadas. É um poema dedicado à minha sobrinha de Vila Real, nascida também no Malhoas, um bananal antigo que existia nas margens daquela mulola, tudo uma linda ilusão do passado que vai morrer connosco incrustada como um tumor num qualquer sítio de nós; Tive de deformar este poema, torná-lo linear sem as curvas doidonas do Marão do M´Puto.

rita0.jpgA poesia define-se de imagens, de formas, de sinos delirando… É algo que se sente pulando nas margens encantadas do coração… são rendas belas desenhadas de talento, de sensibilidade por esse belo tear rico e rodeado de musas com muitas pérolas… No teu belo paraíso verde de NOGUEIRA, sinto tudo berridando dentro de mim…, como um feitiço cheirando folhas de Mulembeira. Este teu lugar encantado é parte desse território que inspirou o poeta MIGUEL TORGA, o poeta cantador de fragas com muitas e sarapintadas parras.

rio seco.jpg Rio Seco da Luua

Nele vivi dois dias inesquecíveis do ano de dois mil e quatorze e no lindo mês de Agosto, assim como um rosário de amizade, que trouxe comigo para contar aos meus, no meu querido abrigo, minha kubata… Direi que saí dali mais rico pelo carinho tão rasgado de simplicidade, cheio de cheiro de flores dados pela mão de teu maravilhoso pai Honório, pela amizade dada pelos teus tios muito cheios de cazumbi, na companhia dos Santos Pereira…

zeca4.jpgZeca Santos.jpgZECA o Professor katedrático do Rio seco Da Luua

O gosto pela poesia…, direi como professor katedrático do Rio Seco do qual já nem te recordas, que há sempre um começo minha linda amiga… é assim, uma iluminada kúkia que dá luz no nosso Muxima. É como uma semente atirada pelas tuas mãos para o valado da Nogueira, um colo rico cheio de medronheiros, de cheiros de pinheiro com urzes, amoras mais mirra e alfazema. Finalmente, espero que o meu feitiço leve o teu coração, as tuas mãos para o teu valado, um cavalo alado e encantado, que pisca-pisca no teu olho grande de través e a direito sem desconfiamentos e, aí fecundem esse prazer pela poesia, prazer tão sentido pelo teu tio ZECA com este chapéu de cátedra espacial e de camurça.

Nogueira (Vila Real), 2014.08.03

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:54
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Domingo, 19 de Outubro de 2014
KWANGIADES . XXI

MAIANGA - As falas de Zeca nas terras do senhor e, no lugar da galafura…

Por

 José Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos para fabricar missangas

Kandandu, ZECA 2014.09.13

MOKANDA PARA O KKAMBA “EEDHGARTSON”, REVIVENDO UM PASSADO PALEOLITICO DO TEMPO DA PEDRA LASCADA, MIRANDO O DOURO

3 D.jpgAh! Tu não sabes o que perdeste por não teres estado no granito do MIGUEL TORGA contemplado o Douro tingido de generoso. A lonjura era tanta que sentia o cheirinho do bafo das pipas katingando pelas barrocas do meu nariz. Eu e o António topamos “kubata” esculpidas no granito e numa delas tinha lá inscrito o nome de um teu antepassado paleolítico “EEDHGARTSON”.  Kkamba, eu já sabia, conheço bem esses teus mambos? Na koka ficaste com raiva chupando os dedos vazios! Agora dizes que sou abusado! Ingrato! Logo este teu mano Zeca mais k que tudo reparte contigo! Mas, Ele sabe bué que gostas átoa de feijão preto com picanha! Se te portares bem, na próxima ida ao granito de Torga, mando botar no teu prato um coxinha, seu ciumento de uma figa! 

e-bola0.jpgTou a escrever bué de falas contendo o mel de ukamba, gelado de morango, cheiros aromáticos com mirra e alfazema…, da NOGUEIRA de Vila Real e terras desses maravilhosos kamba da Maianga Dom Francisco, docemente reencontrados num paraíso verde que ainda não saí de lá. Lá senti-me fascinado por sua pessoa, extraordinário, inteligente, sensível… Jamais esquecerei o seu carinho dado pela concha feita com suas mãos juntas, que recebi e empanturrei o meu muxima de contente… 

LOANDA 5.jpgTou a pensar eu o meu k soba T’chingange virarmos mordomos das terras de dom Francisco. Ele cunhado, será o de primeira e eu, o curador de segunda sem direito a jeira, cheirando só os rosmaninhos. O T´chingange fica de direito o mais importante, porque é ele que se levanta mais cedo pra tudo regar; alimentar a sua inspiração caté dá pra chorar, ele agarrado à mangueira e botar em tudo que vê água doce, limpa, cristalina, que nasce numa pedreira paleolítica. Água filtrada no musgo de minhocas obreiras de mil patas que usam fato especialmente térmico. Elas apenas usam a língua; não precisam de pós ou de frascos de “elixir” modernos pra na koka filtrarem e bué facturarem…

xicu1.jpgGLOSSÁRIO: Kaluanda: - De Luanda ou Luua; N,Zimbo: - conchas, quitetas, berbigão, dinheiro de N´Gola; Missanga:- cordão com conchas ou esferas coloridas, colar; Mokanda: -carta, menssagem; K kamba: querido amigo; kandando. – saudações; katingado. Suado, transpirado Koca: - cabeça, cécebro;  átoa: - semgeito; ukamba:-maravilhoso; Maianga: - Bairro da Luua, Antiga manhanga e malhoas, lugar da cacimba; Muxima: - Santa padroeira de Angola, saudade, ongweva, recordação; T´Chingange: - feiticeiro  Atu/mutu - pessoas/a; NZambi - Deus; Uuabuama – maravilhoso; missanga – colar;

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:18
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Sábado, 18 de Outubro de 2014
CAFUFUTILA . LXX

SONS CUSPILHADOS  –  Os sentimentos mais genuinamente humanos sucumbem nas cidades IV

Por

soba.jpg T´Chingange

lenin5.jpgOs sentimentos mais genuinamente humanos sucumbem nas cidades; nelas existem milhares, milhões de seres que se tumultuam num sempre desejar sem nunca se fartarem, padecendo incessantemente de desilusão, de desesperança ou derrota. Enredos de uma sociedade de tradições, preceitos, preconceitos, etiquetas, cerimonias, praxes, ritos e um sem fim de serviços a cumprir onde a tranquilidade se some na batalha pelo pão. Redobrando famílias, o homem vê na cidade a base de toda a sua grandeza e, em verdade, só nela tem a fonte de toda a sua miséria.

lenin6.jpgOh vida maldita! São apenas expressões saciadas num gesto de repelir com rancor a importância das coisas; infecção sentimental com bocejos arrastados de inércia. De corpo afogado em unto de ossos moles, que se ressaca escanifrado nos nervos trémulos como cangalhas de arames, chinós e dentaduras de titânio, sem viço, sem febra nem fibra, torto e corcunda. As sublimes edificações, caixotes dos tempos, galinheiros amontoados, das bibliotecas atulhadas com sabor de séculos depois de um bombardeamento, um abalo, um tremor, nada mais fica do que um silêncio monstro de espessura e cor do pó final.

graffiti covilhã.jpgOnde estarão as mesquitas, os sunitas, os curdos, os da mossad, da jihad e da intifada, os da ISIL após as nuvens assentarem num lugar do jeito de Cobani da Síria a relembrar uma Guernica da guerra civil espanhola, como Leninegrado na segunda guerra mundial, um cerco que durou 900 dias obrigando-os a comer cães, ratos e gatos tal como na guerra de angola no kuito sem falarmos de práticas canibalescas; um relembrar do hotel Girão do kuito aonde estive por vários dias em 1971, ou ainda Hiroshima ou Nagazaki, de estórias lidas e ouvidas . No meio de clamores lançados com afável malícia, penso que talvez o ser humano espicaçado, não vai ter o suficiente tempo para fundir suas nódoas, seus pecúlios. Em cada manhã, a cidade impõe uma, duas, muitas necessidades e, cada necessidade arrastando uma outra dependência.

lenin3.jpglenin3.jpgE, é o imposto municipal sobre imóveis, as taxas de salubridade, sanidade, contra os ácidos tóxicos, do carbono, da taxa do audiovisual, das águas negras e das saponáceas mais as pluviais, e não sei que mais. Pobre e subalterno cidadão num constante adular, solicitar, pedinchar, vergar, aturar, rastejar, corromper e ceder à corruptela, o técnico mafioso, o arranjinho e a cunha mais o politico manhoso e malicioso.

rio seco.jpgUma guerrilha sem guerra! Como detesto a cidade, esse montão de tão angustioso esforço! Em verdade também cresci ali, na Luua, uma cidade dum lugar de quando aquilo era uma mulola com muita areia e aonde nós kandengues nos esponjávamos sem nada temer de doenças, da matacanha, bicho do pé.... Nessa universidade aonde aprendi com outros as primeiras lições de tremunos e berridas, uma linguagem quase extinta mas que nos marcou. Num tempo já muito antigo, lá naquele sitio que era meu, não havia muros e só era mesmo rio quando chovia; agora  infelizmente naquela Luua têem muitas fontes de miséria... muita batalha para se ter pão. Tambem ali e agora, muitas famílias vêem na Luua a base de toda a sua grandeza e, em verdade por descuido, nela têem a fonte de muita miséria. E, no final, o que  será aos olhos de Deus! 

Glossário: Kandengue: - moço, rapaz; Luua: - Luanda, capital de Angola; tremunos: - jogar a bola de trapos na areia; berrida: - corrida, o esconde-esconde, afugentar; mulola:- linha de água aonde corre água quando chove; kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana; ISIL: - auto estado intitulado islâmico da Síria e Iraque que sucedem a al.qaeda...

Nota: Escrita inspirada em parte, nos dias que correm e, num mais antigo cenário Parisiense da Cidade e as Serras de Eça de Queiroz.

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:26
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2014
MALAMBAS . XVIII

ALUQUETE É UM CADEADO OS CINTOS DE CASTIDADE E A E.I.L!...

MALAMBA: É a palavra.

Por

 T´Chingange

 Não tenho a plena certeza mas iria jurar que Rui Manuel Barbot da Costa, conhecido no meio literário como Mário Cláudio foi meu professor de Antologia à Literatura Portuguesa na Secção Preparatória aos Institutos em regime nocturno na E.I.L. (Escola Industrial de Luanda) lá pelos anos de 1964 ou 1965. Caso não tenha sido este, saliente-se a história que sendo verdadeira, não deixa de o ser com outro qualquer professor; se porventura alguém souber, que o refira neste quase fórum dos Antigos Estudantes daquele estabelecimento de Ensino. Nós alunos já cansados do trabalho normal, fadigas não mensuráveis na via do sono, tínhamos de ouvir este senhor professor que muitas das vezes surgia enfardado de tirilene verde em divisas de alferes. Apanhado nas malhas da incorporação de mancebos lá no M´Puto, destinaram-lhe uma pacífica guerra na zona operacional da Luua. Terei aqui de referir que os altos mandatários castrenses, decidiram considerar aquela cidade como contando 100% em tempo e regalias da guerra colonial.

 Curtiam penares nos mukifos do estado-maior deslocando pontos coloridos no mapa de estratégias a simbolizar recontros de morte; nesta guerra de secretaria aos credenciados oficiais ainda lhe davam a possibilidade de ser professores e, nós felizmente fomos bafejados com um bom professor e pedagogo. Nas noites de aborrecida matéria de decifrar conjugações, rimas de poemas, leituras rupestres de Camilo Castelo Branco ou viagens à santa terrinha por Eça de Queirós, as pestanas esmoreciam-se num sonolento silêncio. Eis que neste então, Mário Cláudio, nosso professor e bom sociólogo ou psicólogo, bom observador, mudava o curso do tema desviando-se a propósito e por forma a despertar-nos da torpeza sonolenta com cantigas de amigo de D. Dinis, de amor e maldizer, coisas antigas de escárnio e, sempre dava um jeito diferente para chegar aos cintos de castidade que os cavaleiros da Távola Redonda ou da Ordem de Santiago, Da ordem de Cristo, Templários e Cruzados colocavam em suas mulheres quando saiam para guerras longínquas.

 Isto agora, parece-nos inaudito mas em tempos medievais os Nobres Senhores que lutavam contra os infiéis, muçulmanos e outros do norte de África deixavam suas donzelas esposas metidas numas cuecas de ferro ou bronze levando consigo as chaves do aluquete; aquelas cuecas eram malhadas nas casas de ferragem e, de aluquete fechado, lá iam pra frente de armas deixando no seguro suas mulheres! Sucede que já nesse tempo havia tecnologia de rebentar e recolocar tais cuecas e estes episódios se vos despertam curiosidade, podem imaginar em nossas aulas o sono a escafeder-se num ai! Ficávamos todos uns autênticos olharapos! A mente tem destes mistérios carregados de muito cazumbi e, ele, Mário Cláudio sabia disso. Nestes entretantos das aulas todos nós fazíamos muitas perguntas tais como a de como era possível fazerem a higiene em seus corpos com aqueles zingarelhos, enfim, podem imaginar o que esta via proporcionava.

 Foi com este professor que passei a gostar de histórias e fiquei a saber que as damas da corte mandavam ir ferreiros de Damasco e Toledo para ao seu serviço soltarem-nas de suas prisões e fazerem os forrobodós pondo chifres dourados e revirados aos seus amos e senhores! Nós mariolas de espantar kiandas amorosas, cozinhávamos também corações em n´hiwas e imbondeiros nos morros da Luua, dos veados, da Cruz e até fazíamos gaifonas à ilha dos padrecos bem do outro lado do Mussulo, sempre, sempre a recordar aquelas doçuras medievais! Em verdade foi este professor que leu a minha cartilha de contar estórias, missossos e mussendos! Tu, António T´Chingange, vais ser um bom contador de mentiras; um inventor de nata crioula! Sim! Ele disse isso de mim por via das redacções contando aleatoriamente o que nos viesse à cabeça! Ou ele era adivinho, tinha premonição, ou estava propenso a ser agora e aqui uma nova kianda! Gostei mesmo muito deste professor! Se todos fossem como ele, eu hoje seria catedrático! Já calcorreei as pedras da calçada de Coimbra mas, não vejo maneira de e, desta forma, ficar Douto a valer! Cada qual tem a sua sina!

O Soba T`Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:35
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Quinta-feira, 21 de Agosto de 2014
MISSOSSO . VII

LUANDA  . 1953 … NUVENS DE AÇUCAR NA FEIRA DS VICENTINAS…Nª Sra DO CARMO…

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

Por

 T´Chingange

 Juka Kibiala sozinhado frente a frente com um copo de kimbombo falava filosofias baratas entremeadas de bordoadas de aduelas de barril anilhadas no seu cerebelo e cabelo e, duma vez eu escutei o resmungo, que no desemprego crónico dele nunca que ninguém lhe pisou os calos; nas falas dele dizia que essa era mesmomesmo a sua grande dignidade! Com seu chapéu de papelão aba larga, com serpentinas coloridas e uma pena de jacó de Cabinda fazia umas horas extras enrolando açúcar num pauzinho; rola que rola, despejava sua alegria de simplicidade no riso da criançada. Rosado e leve que nem nuvem, o algodãozinho de açúcar lambuzava a gulodice dos catraios, candengues e pivetes em troca de uma quinhenta de macuta. Neste tempo de medos ainda agarrados no cu das calças, meu tio Manel Topeto do M´Puto ensinou Kibiala a enrolar o pau de bambu afiado a naifa, na nuvem.

 Naquela feira das Vicentinas e no largo da Nossa Senhora do Carmo entre a Mutamba e o Maculussu, meu tio Manel Topeto botava uma massa espremida dum pano branco com um funil na ponta que no seu jeito sódele enrolava no tacho assim-assim sempre pra direita formando uma ravianga de curvas em óleo fervente. Meu tio tornou-se um perito nessa arte de fazer farturas e as velhotas benfeitoras só o queriam a ele para fazer aquela tarefa. Corria o ano de 1953 na cidade de Luanda; eu, candengue gozava de uns trocados para rodar nas cadeiras do carrossel mais aviões, chupar uns pirolitos ou beber mission dos coqueiros. Naquela semana de feira de Nª Senhora do Carmo minha felicidade suplantava todos os caminhos corridos com carro de arame, do visgo da mulembeira, do alçapão de apanhar celestes, Januários e rabos-de-junco, com painço da venda do Hernâni do Rio Seco.

 Juka Kibiala, com seu grande coração, berridando gotinhas de cacimbo nos olhos dele, puro-sangue do Catambor, quase meu vizinho do salvo seja, ria com a boca cheia de dentes brancos e esfregados na mateba com carvão; ria mesmo de boca cheia com o menino branco que era eu, o Tonito, branco do musseque, sobrinho do Siô Manel Topeto seu capataz, vou-lhe agradar. Ele só fingia que recebia uma quinhenta e dava-me a nuvem branca de açúcar e, eu só fingia que lhe dava. De agradecido, um dia dei-lhe um bico-de-lacre numa gaiola e ele chorou de agradecimento!

 Obrigado menino Tonito! Auá, nunca que ninguém me deu nada assim! Pegou na gaiola, abriu a porta e deu liberdade nele e sorriu só! É melhor assim: -Pássaro não quer prisão! E, nem sei como, mas percebi! Dei-lhe mesmo uma grande alegria. Ensinou-me nesse um dia que a certeza não nasce feita!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:22
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2014
KWANGIADES . XVIII

MAIANGAFALAS ANTIGAS DO ZECA -UUABUAMA O QUE ESCREVES KKAMBA…

Por

 José Santos- Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco da Maianga, nosso antigo rio. Ele não quer acreditar que aquele tempo passou e agora, agora somos aves raras em extinção. Eu também não alinho nessa teoria do esquecimento e espero a todo o momento um passaporte diplomático para irmos à Luua. Eu e ele! Sentados, claro!

Tenho que ir nesse "RIO" que corre nessa cabeça que habitas. Quero ser baptizado por ti, quero ser teu discípulo e botar pregação com o teu livrinho de T´Ching, agarrado à mão por esses matos do Mundo. Há muito que sou inspirado por ti nesses teus belos "Missossos" do KIMBO LAGOA, que faço livro há muito e, eis-me aqui contigo nesse cazumbi que um dia nos juntou de novo, porque julgo que te conheço do tempo daquelas tremunos, deambulações pelo nosso bairro e nesse amor pelo Rio Seco da Maianga que um dia nos viu crescer. Na verdade estamos separados. Eu, neste M´Puto aos trambolhões e tu aí nessa terra de Vera Cruz de milhões de almas tão diferentes, tão cruzadas desse sangue meio lusitano, meio angolano lambuzado de baleizão kitoco com sotaque brasileiro de caramuru…

Mas, o Mundo está todo esfrangalhado em toda a parte; estamos separados, mas sinto que somos feitos do mesmo loando. Há um grito que ximbica no nosso coração de fazer missangas engasgadoras. Botas falas de injustiça na máquina de impressão para que todos as ouçam só feitas mesmo num estado de natural descomprometimento. É um sentimento, uma sensibilidade, o respeito pelo ser humano que se juntam e são banda que batucam nosso coração; uma fé que se abre na kubata do nosso coração; intransmissível! Não tem moda pimba nem banga de matumbo bem de vida. Sem adereços de bate palmas só pula como um zulu. Estudioso e, ao jeito de ermitão…, mergulha nas barrocas mais fundas do saber, para interpretar, saber ensaiar no mundo em que habita. Ele nem quer saber quem morreu, só chora… À partida não se preocupa com ismos, preocupa-se sim com a RAIZ que alimenta a árvore e muito cava para contar quantas são, como se alimentam, se são envenenadas por ervas daninhas que crescem do nada e fazem secar os seus veios de vida.

 Vejo-te transportado por uma tipóia de loando como um makota de Ambaca, por vezes, ou muitas vezes incompreendido e, até mal olhado… Na verdade, por vezes também me é difícil entender o que risco p´ra todos, do que vai no meu muxima e nesse linguajar que é BI no meu, nosso corpo. Para melhor compreenderem tenho feito Glossário do Kimbundu. Acreditem que já não sei escrever as minhas falas apenas com a pena molhada no tinteiro do Camões. Não é banga, nem saudosismo de matumbo esperto… É grande prazer e paixão. Muito lamento não ser mais dotado! Comigo é estranho, porque muito estudo e nunca mais consigo a licenciatura para virar um sábio, um mestre. Dizem que ultrapassei a idade e já não vale a pena! Que caduquei! Por isto tudo, e agora, vou fazer minhas férias no meu quintal com o livro do T´Ching debaixo de um coqueiro de plástico, dar gozo na minha barriga de Jinguba e balouçar na rede, jiboiar nas nossas lembranças tropicanas.

GLOSSÁRIO:
Missosso – conto popular;Atu/mutu - pessoas/a; NZambi - Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; tremuno - jogo de bola de trapos; Uuabuama – maravilhoso; cazumbi -feitiço; loando – esteira feita de folha de coqueiro ou palmeira e atado com matebas, ximbica - rema com bordão; missanga – colar; batucam- dançam ao som do tambor; matumbo – burro, palerma; makota – chefe tribal, que tem poder; muxima – saudade, recordação

Adaptação das mokandas de Zeca

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:47
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2014
XICULULU . LIV

BANCO ESPÍRITO SANTO ANGOLA - O  caricato caso do BESA!

Xicululu: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça

Por

 T´Chingange

VICE-PRESIDENTE DO MPLA RECUSA-SE A DEVOLVER EMPRÉSTIMO DO BESA

A cúpula do regime do MPLA, um clima de inquietação em função de um apelo presidencial que se destinou em encorajar membros da entourage que beneficiaram de empréstimos milionários, no Banco Espírito Santo de Angola (BESA), a estudarem modalidades de devolução dos créditos. Pois é! O Vice-Presidente do MPLA, ROBERTO DE ALMEIDA que terá recebido o crédito de 10 milhões de dólares que aplicou na construção de um edifício no terreno ao lado da sua residência na Rua Rei Katiavala, da LUUA, terá dado sinais de desentendido alegando que julgou que o dinheiro teria sido uma oferta.

 Ao todo, o BESA emprestou 5,7 mil milhões de dólares a conhecidas figuras do regime angolano, incluindo vários membros do Bureau Político do MPLA que alega ter perdido rastos. Há suspeitas de que 745 milhões foram parar às mãos de ÁLVARO SOBRINHO, presidente daquele banco até 2012. Em meios informais, insinua-se que uma “Joint” ligada a empresaria MARTA DOS SANTOS, irmã do PR, em parceria com um construtor português JOSÉ GUILHERME, terão recebido cerca de 800 milhões de dólares de crédito, que aplicaram na construção de um conjunto de edifícios na rua onde se situa a Universidade Óscar Ribas, no TALATONA, em LUANDA. No sentido de salvar o BESA, do referido buraco financeiro, o Estado angolano emitiu uma garantia soberana de 5 mil milhões - cujos termos exactos não são conhecidos. Ao mesmo tempo as autoridades aplicam-se no sentido de ocultar nomes dos devedores a fim de evitar escândalos públicos.

 FESTA DE LUXO EMBARAÇA O GENERAL NUNDA... LISBOA - O gabinete do chefe de Estado-Maior General das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, tem registado alguma tensão nos últimos dias com a exposição pública do seu director-adjunto de gabinete, o brigadeiro Miguel Ramos, como um indivíduo multimilionário. O BRIGADEIRO MIGUEL RAMOS deu uma festa de luxo e pagou à revista "PEOPLE" para divulgar o seu 50ª aniversário. O brigadeiro foi capa de revista tendo-se apresentado como "GENERAL". A exposição desatou as más-línguas do Ministério da Defesa que têm manifestado descontentamento pela forma como o general Nunda, se associa a negócios escusos com o referido brigadeiro, para a provisão de equipamentos às FAA, como veículos. Uma vez milionário, o brigadeiro passou a olhar o seu superior apenas como um sócio minoritário. É o brigadeiro MIGUEL RAMOS quem praticamente controla as finanças do Estado-Maior. De realçar que o general NUNDA sempre manteve uma imagem de modéstia, não associada aos escândalos de saque do exército, porém o carácter extravagante do seu subordinado e sócio ameaça expô-lo como apenas mais um general que se aproveita da baderna do exército para enriquecimento ilícito.

 

 Caros Amigos: Mão amiga endereçou-me a informação que vos estou a enviar. O curioso é que este "Vice" ROBERTO DE ALMEIDA, conheci eu como discreto empregado do Banco Totta Standard de Angola, a trabalhar rotineiramente no Sector de Conta Alheia (letras à cobrança). Muito calado dava para ver que tinha ambições de fazer algo mais importante, logo que tivesse oportunidade. Creio que ele tinha alguns estudos em direito. A verdade é que quando aconteceu a descolonização o fulano foi o primeiro Presidente da Assembleia, composta por gente do MPLA. Ora na época todos em Angola era pró-comunistas, todos eram anti tudo. Também deviam ser contra o capital, mas aí...não creio que lhes faltasse apetite pelo dinheirinho. E eis-me agora a constatar que o ex-revolucionário ROBERTO DE ALMEIDA, como quem não percebe nada de Bancos, passou pelo BESA, meteu ao bolso a grossa maquia que é referida na notícia, mas, vejam só...PENSOU QUE ERA OFERTA, o simplório!

 E o pior é que o que ele fez foi replicado por uns tantos mais do aparelho político reinante, que, sabe-se lá com cobertura de quem, consideraram o BESA a Misericórdia lá do sítio, e sacaram milhões de milhões! Como é que isto foi possível? Que país é aquele e por que leis se rege? Quanto ao JOSÉ GUILHERME, pessoa próxima de Massamá e Amadora, sei que era empresário de construção de alguma dimensão, mas quando leio o volume das obras adjudicadas em Angola até me assusto, não o julgava capaz de se meter em tanto. E se foi com cunha do Salgado que ele lá conseguiu adjudicações, começo a achar razoável que tivesse dado "um regalo" ao padrinho! Não é dito se o JOSÉ GUILHERME pagou o empréstimo dos 800 milhões ao BESA, ou se também se abotoou! Quem estiver ligado ao desporto lembra-se que há uns bons anos atrás, apoiou alguém, que não recordo, à presidência do BENFICA.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:26
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Domingo, 3 de Agosto de 2014
CAFUFUTILA . XLIIV
TEMPOS ANTIGOS . UM EMBONDEIRO NA LUA

 

Kafufutila / kifufutila : Farinha de bombô com açucar.

Por

 T´Chingange

Meu amigo Quissange foi para a guerra e passou-se! Por abandono de todos, virou cantor repentista. Naquele tempo de lucidez ele chamava-se de Céu dos Santos, agora,... Só tinha nuvens com ele. -Como é Kota, quando voltas à EIL da Luua? Luanda, não sabemos se anda ou se foge! Neil Amstrong aterrou ali, aonde existem morros com o nome da Cruz, dos Veados e da Lua; precisamente aonde Amstrong deixou a sua marca. Quissange, meu amigo da EIL, cantor de banga, fala assim para mim e jura por N´zambi, tê-lo visto pulando com uma bandeira de riscas e estrelas. Tu tens a certeza? Perguntei-lhe.

 Quissange  com seus  pés calejados, suportam com gretas espalmadas um corpulento negro; aquele corpo, de baixo acima, está por demais maltratado; carregava o mapa-mundo pintado de mazelas de guerras, escaramuças da mata. Quissange, espumando vontade de vida, tentava fazer-nos querer filosofias de cachipemba misturada com liamba em sabedoria de quimbanda. Saído do seu sítio por força da guerra, só viu o tempo passar; de luta em luta, desbravando bissapas na busca duma mulola ou chimpaca com pau de mandioca mas, só desconseguiu! Entretanto eu fui para o M´Puto! Ele não vivia; estava metido num corpo cheio de riscadas lembranças de filária, matacanha e maus-tratos de quimbombo e bamga-sumo. Até que um dia já passado da moleirinha visionou um homem saltando nas barrocas dum além Mussulo; sem saber, estava assistindo ao primeiro passo do homem na Lua. Acabada a guerra, largou a arma e entreteve-se na cantoria com um instrumento de sofisticada tecnologia Quissange não é nome de gente mas, ele só queria mesmo ser tratado assim! Quissange, instrumento composto de ferrinhos de comprimentos diferentes, atados a uma galocha de madeira, chispados na ponta com os dedos, davam uma tonalidade mística que só África pode transmitir.

        Mas,... Este Quissange, era gente e tocava um instrumento que ele mesmo inventou. Tal inventação tomou o nome de Korimba e, com ele começou a ganhar algum dinheiro. Um pau atravessava uma lata de azeite galo vazia, na ponta saem uns chinguiços, nos quais ficam amarrados três fios de nylon que vão envolver um pedaço de ripa grampeada na lata. Tinha muito orgulho nesse invento. A partir dali, Quissange, deixou de ser um qualquer desclassificado!  Dizia ele sem saber do seu verdadeiro estado de maluquinho da silva! Passou por isso a ser o Quissange-show. Percorria a praia de cabo a rabo, voltava entretanto e sempre tocando o seu instrumento ia obtendo umas moedas de gasosa; essas gorjetas, faziam-no ultrapassar carências fundamentais. Sua família, ele nem sabia o que lhe sucedera ou talvez tivesse sido mesmo abandonado ao vento.

 Para uma vida a sério, era mesmomesmo necessário uma grande logística. Quissange por usufruto das calamidades contava coisas que só ele mesmo sabe.   Dedilhava as cordas de nylon com gargalos de Cuca enfiados na ponta de dois dedos; em cada mão tinha cinco mas, enquanto que na direita usava os tais dois, a esquerda corria com todos ao longo de parte do pau, amarrando o nylon a este. No fim da cantoria abria a boca de beiçolas espantadas e, sorria com os dentes todos; Quissange pessoa, com sons  de guerra, fantasiava-me segredos, concebidos no Mussulo em sucumbidas vontades. Nem sei como ainda se lembrava da EIL aonde andamos juntos no ciclo preparatório! Faltou-lhe um pouco de muita sorte para ser o próprio Neil Amstrong.

 Na minha última ida à Lua em 2005, encontrei o agora afamado Quissange-show na rua Marian N´gouabi. Disse-me que no presentemente tudo estava virado ao contrário, como embondeiro de raízes para o céu. Mais velhos, eu e ele, reciclávamos passados. Ninguém o levava a sério! Sóeu lhe dava uma esmerada atenção! Dizia ele:- Kota, ouve só. Queres ver?... -  Os brancos agora, chamam-se N´dumduma, Mangumbe, Chassama, Pepetela, Liuanhuca, T´chingange. Os pretos são José Eduardo dos Santos, Agostinho Neto, Fernando Dias dos Santos, Jorge Valentim” etecetera. - Como é Kota, quando voltas à EIL? O tempo dele tinha sido retido naquele tempo de gajajeira e tamarindo. Naquele dia muito de triste dei-lhe de gasosa todos os kwanzas que tinha no bolso; fui à cervejaria Sagres em outros dias mas nada de Céu dos Santos! Escafedeu-se nas suas nuvens!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:06
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Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014
XICULULU . LIII

ORIGEM DO NOME LUANDADepois da batalha de M´Bwila - III

Xicululu: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça

Por

 T´Chingange 

 Na batalha de Ambuila (Mbwila) o rei do N´Kongo com uma força de 25.000 homens fez frente ao exército português comandado por Luís Lopes de Sequeira; este, era composta por 450 Mosqueteiros e duas peças de artilharia. Também havia soldados do Brasil, nativos americanos, bem como de M´Bangalas, grupos de guerreiros do Kasanje Unido e outras forças africanas, somando cerca de 15000 soldados. N´kanga participou com armas nesta batalha, mas como os portugueses estavam bem equipados de armas de fogo, acabaram por vence-lo provocando-lhe grandes baixas. Isto sucedeu no dia 29 de Outubro de 1665. O rei António Vita N´kanga foi decapitado e, sua cabeça levada para Loanda como troféu e muitos prisioneiros. Esta vitória do M´puto foi festejada em todas as igrejas católicas do reino de N´Kongo, de M´pungu a N´dongo e no M´puto, através dos tempos.

 Os Tugas tudo fizeram para dividir os kimbundos dos Bakongos mas, a história confirma que os kaluandas ou luandinos são Bakongos.Com a reconquista de Angola e a expulsão dos Holandeses, os chamados Mafulos, no ano de 1648 pela esquadra Luso-brasileira comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides, o nome da cidade foi mudado para S. Paulo de Assunção de Loanda em memória de Nossa Senhora do mesmo nome a 15 de Agosto de 1648; esta data passou a ser dia feriado municipal sobre o domínio Português.

 Nesse então já havia pombeiros que pactuavam com sobas da região de onde traziam “peças” para negociarem em Loanda. A troco de panos libongos adquiriam-se as “peças”, escravos, que eram depositados nos barracões do Maculussu em Loanda ou eram dirigidos para Benguela mais a Sul. Ocorreram várias revoltas contra estes actos esclavagistas tendo-se salientado nesta insubmissão às leis dispersas os sobados de Kissama e Dembos que, entretanto protegiam os fugitivos do antigo N´Dongo, que passou a ser conhecido por N´Gola no interior da Matamba, hoje conhecido por Malange, Pungo-Andongo, Ambaca e Kassange. Também se refugiavam ali as gentes acossadas dos matos mais distantes do Kuvale vindas do planalto central, lugar de muita chuva e boas terras de cultivo.

 Só em Abril de 1927 é que Loanda passou a se designar de Luanda por sugestão do historiador Padre Ruela Pombo e demais elite intelectual da altura. Durante centenas de anos Luanda foi somente um aglomerado de casas chamando-se aos sítios nomes que caíram em desuso. Existia o lugar da Kipaka, aonde se veio a construir a estação ferroviária junto ao Bungo e Caponta (porto de mar); A Nazaré aonde se encontra a capela do mesmo nome, Mutamba, Kafaco, Mazuica, Katomba, Maculusso, Ingombotas, Katari, Quitanda, Coqueiros, Misericórdia, Maianga e Samba   

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:25
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Quinta-feira, 31 de Julho de 2014
CAFUFUTILA . XLIII

TEMPOS ANTIGOS . Eu e Batalha da EIL da Luua, por uma hora, fomos turras.

MALAMBA: É a palavra.

Por

 T´Chingange

Por volta de 1956 havia dois Batalhas na E.I.L.; enquanto o mais velho seguiu para mestre de oficinas, nós os candengues andamos juntos por cinco anos. Ainda no Ciclo preparatório eu e Batalha júnior íamos a pé de casa para a escola e vice-versa. Saindo da escola na Vila Alice, ambos com no mesmo rumo, passávamos nos angares do velho aeroporto aonde funcionavam as oficinas da escola, tendo do outro lado o Regimento de Infantaria 20 e o Grafanil, seguíamos ao longo dos quartéis descendo pelas barrocas aonde agora se situa o moderno bairro Alvalade, junto ao Martal, abreviatura de Martins e Almeida, passávamos perto do colégio João das Regras aonde tinha andado por algum tempo e, mais á frente e junto a uma grande mulembeira, eu descia á direita pela rua Dr. José Maria Antunes até ao nº 22 no lugar do rio Seco, bem ao lado do Almeida das Vacas, e Batalha continuava para o Catambor que subia chão de areia e em rampa, cubatas de taipa, zinco, aduelas de barril e chapas de indefinidos tambores, até à nova avenida que dava acesso ao novo aeroporto de Craveiro Lopes com o Prenda do outro lado.

 No outro dia e seguintes, voltávamo-nos a encontrar, pois o nosso destino era estudar. Sucede que em um dos muitos dias ali perto da Maternidade e bem próximo dos taludes do antigo Caminho-de-ferro via Malange, no regresso da escola, saltamos um quintal para roubar maças-da-índia. Distraídos no acto do agora atira, agarra, apanha, o Senhor Tuga dono do pedaço e suas barbas brancas apanhou-nos em plena faina de encher o bucho e a mochila; acto contínuo surgem dois polícias que nos metem num carro tipo ramona fechado e grades, levando-nos para a sétima esquadra de polícia da Vila Alice. O chefe desta dita cuja, resolveu meter-nos na choça pondo um cipaio de cartola vermelha guardando os meninos maleducados e, ali ficou junto á porta de varões fortes de ferro. - Estamos lixados, disse eu para o kamba Batalha! Ele, sábio, ficou só calado, estamos feitos! Repeti.

Resultado de imagem para goiabas

Foi quando o Batalha falou assim, lembro-me muito bem: – Tu és branco, vão só dar-nos um susto e depois, mandam-nos embora! - Fica quieto! Dito e perfeito assim sucedeu! Batalha tinha pinta de herói, nunca cheguei a saber se o foi em realidade mas o lusco-fusco da vida toldou-nos as vontades desencontrando-nos. Passado uma hora, mais ou menos, o chefe da 7ª esquadra deu-nos uma descompostura do camano, embora já soubéssemos que não devíamos roubar as coisas dos outros, Eu e Batalha tínhamos sina de salta-muros e continuamos nessa faina por muita mais tempo. Sempre que passávamos num pé de maças-da-índia, gajajeira, pitangueira, cajueiro, tabaibos ou goiabeiras, nós não resistíamos e, por momentos virávamos turras de novo.

 Em 1961, aquela 7ª esquadra foi assaltada dando início à confusão que todos nos lembramos. Ouve mortes martirizadas, procissões e tudo entrou aos trambolhões, início de uma guerra com prelúdio de qwata-qwata que perdurou com novas formas na arte de matar. Do Batalha nada mais soube; constou-se-me que tinha ido trabalhar para uma fábrica de sabão no lugar do Bungo. Dos amigos candengues, o Pica veio a ficar general, o Luandino da rua oliveira Barbosa, meu vizinho, cruzamos fogo no Mayombe. Eu deste lado, e ele do outro lado, mas agora, já kotas, cruzamos falas de toparioba e tambula konta! O Ferreira que foi comigo para Cabinda como Furriel, roubou um friendship da DTA desviando-o para o Congo Brazzaville e o Pestana que virou Pepetela, também ficou mentiroso de profissão, anda à deriva passeando um cão na Mutamba depois de fazer muitas tropelias. O Sayd Mingas mwangolé dos kwanzas foi queimado na confusão do agarra Nito. Como vêem, eu tenho propensão para me emparceirar com heróis, turras e gente desclassificada.

Recentemente e através do FB reencontrei gente mais nos trinques como o Zeca Santos um myanguista que com suas falas de camundongo e vestindo um velho escapulário kimbanda, dá chás curativos à malta que o mestre Sambo lhe legou; com sua balalaica dá bolinhos de brututo, missangas de feijão maluco e raspas de pau do Mayombe, para animar os kotas; um destes dias vou mostrar-vos suas falas do Rio Seco com tirocínio em porto Kipiri; O Costa Araújo, meu Mano Corvo, gente fina da Boa Entrada da Gabela, de cuspo ajuramentado, revi-o também recentemente a fazer pintura nas terras do cú de Judas, lá numa esquecida Cisplatina comendo churrasco com Gaúchos cheio de triglicéridos das Pampas; estes, vocês conhecem bem porque andou por aí pintando a manta com Pombinho, borrando muros com caca corrosiva e psicadélica, própria dum pombo estragador de monumentos. Por um triz também não fui turra mas, aqui e agora, kota do M´Puto juro que tenho vontade de o ser! Isso mesmo…Turra! Juro por sangue de Cristo!

O Soba T´Chingange
 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:09
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Sábado, 26 de Julho de 2014
XICULULU . LII

ORIGEM DO NOME LUANDA - A N´Zamba era pasto de elefantes - II

Xicululu: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça

Por

    T´Chingange

 A N´Zamba era pasto de elefantes.Era na Manhanga, mais tarde Maianga, que todos aqueles povoados se abasteciam de água; era aqui também, neste lugar de lagoas que se reabasteciam as frotas de barcos de água para beber ou fazer cozinhados. Faziam-se grandes filas de monangambas para levar em seus costados vasilhas de barro com água até o m´Bungu, lugar das naus. Paulo Dias Novaes, ambicioso e vingativo, com os olhos fixos nas lendárias minas de prata da Serra de kambambe, invade o reino de N´gola espalhando  terror o quanto baste entre os Ambundos e Ovibundos.

 Em 1589 Paulo Dias de Novaes arma uma grande expedição ao Kongo para destruir a cidade de Baassa aonde residia o Rei do Kongo, porém, a morte colhe-o em febres de paludismo. Eis que N´Zinga Bandi, mulher de rara beleza e mais culta, surge inopinadamente na história para salvação de seu povo da Matamba. Em 1656 os portugueses apresentaram ao rei Garcia I K´mbaku N´kanga Ne Lukeni um tratado dizendo que a partir desse ano, nenhum t´chindele, branco, pode entrar do N´Kongo sem passar pelo porto de Loanda e ter autorização dos administradores do rei do M´Puto.

 

Tumulo aonde esteve sepultado Paulo Dias de Novaes

O soba de Ambuila, um destacado Dembo de então, vai também depender de Loanda para comercializar seus escravos ficando no entanto, livre de pagar impostos. A partir daí, os territórios a sul do rio Dande, Lifune e Kifangondo local estratégico fonte da moeda do reino do N´Kongo o " n´zimbo " dependendo de Loanda e não do reino do N´Kongo. O Rei António I N´kanga pediu mais tarde a restituição da Ilha de Loanda, mas os portugueses recusaram-na. Não obstante recusarem esse pedido, ainda agitaram outros chefes de distritos N´Kongo a fazer guerra contra ele o que originou a conhecida Batalha de Ambuila.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:20
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2014
XICULULU . LI

ORIGEM DO NOME LUANDA - Foi fundada a 25 de Janeiro de 1576 - I

Xicululu: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça

Por

  T´Chingange

  A cidade de Luanda, foi fundada a 25 de Janeiro de 1576 pelo capitão Tuga chamado de Paulo Dias de Novaes após ter desembarcado na baia  de Loanda com cerca de 700 homens (soldados, padres e almocreves). Em 1576 manda construir a igreja de são Sebastião na fortaleza aonde agora se encontra o museu das Forças Armadas Angolanas. Antes da chegada dos Tugas, Luanda já era habitada pelas gentes do rei do N´Dongo concentrando-se no lugar seguro da ilha de mazenga a que os portugueses chamaram de ilhas das cabras por ter visto ali alguns destes caprinos. Viviam ali os Muxiloandas, oficiais do reino de N´dongo que recolhiam os n´zimbos para transaccioná-los como dinheiro.

 Loanda em 1856

O Rei de N´Dongo ou Kongo, era o dono e senhor daquele espaço, por assim dizer o banco de N´gola. Seus zeladores Muxiloandas, cipaios e gente miúda laboravam na apanha e sequente selecção atribuindo ás conchas o respectivo valor monetário; para se ter uma ideia da relação de valores de então temos que para o Manikongo, 1 galinha valia 30 n´zimbus e uma vaca  cerca de 300 n´zimbus, 3000 caurins ou  6000 lufuzus. Qualquer invasor daquele espaço era retaliado com severidade ou morte em caso de insubmissão às ordens do reino ou reincidência em actos de roubo. Era esta a lei conhecida por kikongo que se confundia com a morte e de quem os súbditos tinham o maior medo.

 Todos estes funcionários dormiam em libatas feitas de folhas de coqueiro dormindo em loandos ou esteiras feitas por folhas entrelaçadas da mesma árvore. Foi assim e, daqui, que mais tarde se começou a designar aquele como o lugar dos loandos exportando para o reino este uso de estar, dormir e espreguiçar. Mas, Loanda de então já tinha sete povoados e foi só em 1576 que o rei  N´gola Kiluanji Kiassamba autorizou a fundação de São Paulo de Loanda. Paulo Dias Novaes, aportou ali na ilha da Mazenga levando presentes da coroa de Portugal para o Reino de N´gola e, por intermédio do fidalgo negro Dom Pedro da Silva, estabeleceu uma aliança entre os N´Gola e o M´puto.

 

 Um daqueles sete povoados ou sanzalas de então, era as Ingombotas, caserio que no correr do tempo foram armazéns depósito de negros escravos enquanto esperavam embarque para terras de Vera Cruz; um outro conhecido por Maculussu, assim se chamava por ser o sítio das cruzes reservado aos Tala-tona que já entendiam e falavam algum português os chamados assimilados; também viviam ali os fiéis macotas do reino de N´dongo ou N´gola; Os demais eram abandonados lá no lugar do Cazenga para pasto de leões e hienas salvaguardando a povoação destes predadores.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:44
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Domingo, 20 de Julho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXVI

ANGOLA - JOANA MISSANGA – UMA HISTÓRIA D´ AMOR

Por

 Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)

O conto de hoje pode dizer muito a algumas pessoas.

   Os dois longos anos de comissão em Angola tinham sido passados entre o Úcua e o Piri e algumas raras surtidas a Luanda quando recebia o pré. O lugarejo, encravado na serra da Lousã do M´Puto onde nascera e onde vivera até á a maioridade, tinha-se eclipsado da memória desde o dia em que o Uíge acostara o corpanzil de aço ao cais da capital angolana para um merecido descanso, depois da longa travessia do atlântico, carregando no bojo milhares magalas de pela rosada e fardas de caqui. O coração soltou-se do meu peito e palpitou feito vadio por entre as palmeiras do Paulo Dias de Novais, nadando alvoraçado nas águas cálidas da baía. O cordão umbilical quebrou-se naquele instante de magia rara.

:::     Meti consciente o requerimento para ficar em Angola. Para trás apenas parentes afastados que tinham encarado a minha orfandade como um gasto adicional e inesperado. Rumei para sul na rota imaginária dos sobreiros e pinheiros da serra continental e acabei no planalto da Huíla deslumbrado com a sua ossatura majestosa, as suas cascatas, os grotescos embondeiros e a sombra benfazeja das suas mulembas. A loja do mato era pequena mas era minha. Duas portas, três janelas e a cor de tijolo pespegada nas paredes para disfarçar o pó da terra vermelha e fértil. No pátio interior, a cacimba namorava uma mulemba gigante que sombreava a cozinha edificada no exterior. Pela madrugada os bois gentios mugiam clamando por liberdade e pasto, chocalhando as hastes enormes. O odor da terra embriagava-me quando madrugava para os soltar.
   A primeira vez que ela se aproximou do balcão com a timidez de uma gazela, os meus olhos perderam-se no seu colo ondulante bordado com um humilde colar de missangas. A pele mulata não permitiu o vislumbre de qualquer rubor, mas as pestanas negras ocultaram por segundos as íris cor de erva e só voltei a vê-las quando me pediu para lhe vender umas tantas contas de vidro colorido. Depois de rebuscar por entre os rolos de tabaco de odor almiscarado, os remendos para as bicicletas, as samacacas e frascos de brilhantina ofereci-lhe as missangas rejeitando a nota que ela me queria dar.
 Foram tempos inolvidáveis. De mãos entrelaçadas víamos o sol da kúkia deitar-se ao embalo da chilreada dos tentilhões e do arrulho namoradeiro das rolas. O Padre Mateus obrigara o Luís Chaves e a Joana Barros a sacramentarem o seu amor na igreja da vila. Nessa noite a lua nasceu deitada, preguiçosa pronta a ser emprenhada pelo céu estrelado. Estou no meu lugarejo encafuado algures na Lousã do M´Puto. A menina de pele trigueira e olhos cor de erva folheia o álbum de fotografias desbotadas. – Quem é esta? – É a vovó! – Como se chama? – Joana Missanga como tu. – Está aonde? – Está lá longe onde a lua nasce deitada! - Porquê que não está aqui, porquê que estás a chorar vovô, estás a molhar a fotografia. – Pronto não te deixo ver mais.

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:17
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2014
MOKANDA DO SOBA . LVI

NAS MALAMBAS DO TEMPO . A EIL (Escola Industrial de Luanda) e o Gato Preto de Rio Maior…

MALAMBA: É a palavra

Por

   T´Chingange

 Saindo de Johannesburg via Dubai em 30 de Maio de 2014 pela Emirates flights, chego a Lisboa em um sábado dia 31 de Maio, exactamente o dia do encontro dos “Antigos alunos e professores da EIL”. Já em Lisboa, telefono a meu Mano Corvo costa Araújo x 2, pintor de craveira internacional dizendo-lhe que gostava de lhe dar um abraço e um licor de marula. Dito e feito, compro um novo telemóvel celular e dou indicações que iria chegar já tarde para o almoço em Rio Maior, no Gato Preto e na Quinta das Acácias. Chegado lá já quase no fim do almoço com algazarra animada, entro e logo encontro o Barbeitos. Chamo-o pelo nome e ele assiste. Pergunto-lhe aonde estão os tipos da pintura decorativa e se sabia quem era o Costa Araújo; nada! Encolheu os ombros, sinal de que não conhecia o meu ilustre amigo; encontrei-o no meio de animada cavaqueira e, sai daí um forte abraço com mais de 40 anos de ausência. Ali estava Pombinho que fanfarronava suas peripécias citadinas com sua bike na muxima do Tejo em Alcântara com seus fumos de vaidade.

 Ali dentro, cruzo com gente de familiar semblante, eles e elas com quem convivi por pelo menos dez anos estudando electricidade mais preparação ao Instituto e também mestrança de Construção em regime nocturno. Havia ali artistas, químicos analistas, serralheiros mas, sem distinguir neles seus recantos de qualquer mutua amizade. Não estava na festa errada e até reconheci muitos mas, eles e elas olham indiferentes para mim com uma pulga bulindo-lhes no cerebelo. Quem será este cara? Ali estava o Morais, e sai daí um forte abraço com cumprimentos por procuração do Trofa que está na Luua; Morais, também não se lembrava do meu nome! É natural! O tempo comeu o cabelo, as rugas desconfiguraram o riso e, a certeza certezinha acabrunha-se na dúvida do será?  A mona da gente já não é a mesma! Nem com lecitina de soja catrapiscamos o véu da t´xipala. Não fiquei por ali muito tempo porque já tinha no lombo 16 horas de voo, mais desperdícios no check in e o sobe e desce nos trens dos terminais. Naquele salão do Gato Preto reparei que todos tinham um rótulo colorido fruto do musgo do tempo com carrapatos atrás das orelhas e fungos de invisíveis bitacais e um subtil cheiro de naftalina mas, era bom estar ali! Juro mesmo! Juro que era!

 As damas, embrulhadas em celofane regavam saudades olhando florinhas embaladas num vácuo de alegres camurças de macias doçuras. Algumas, notava-se nítido estarem firmadas em seu riso de sumaúma. Quase todos riscavam fósforos de cabeça partida em uma lixa ressequida no tempo tentando salvar seus brasões. Seus maridos tomando catembe, reviam as condecorações misturadas com passeios a kassoneca, Mabubas e Pungoandongo; suas grandes pescarias na Barra do Kwanza desvanecidas nos muitos anos de viuvez. Cada qual despoletava suas espoletas e, cada qual espreitava ou falava suas estrias da vida por um canudo enferrujado.

 Todos olhavam no catravés do xá caxinde, erva de cidreira e brututo com pau de Cabinda no lugar do cão; gentis cavalheiros de artérias endurecidas corações piedosos expondo as fitas de suas comendas; a de Santiago, da Ordem de Cristo, do Haji-Ya-Henda mais as da Muxima com os dolorosos chifres paridos e enxertados no bairro do Café, Maianga, Maculussu, Maianga ou Vila Clotilde. Eh pá, eh pá, espera um pouco! … Tu, pá sempre foste um gajo porreiro! … Um filho da mãe borrifando-se de garinas! … Ai-iu-é, não me fales do Baleizão! … Foi assim no pouco que vi, derrotando o dragão da saudade que vai e volta. Dragão? Qual dragão? É!... É esse mesmo, o sacana que carrega consigo o salalé da velhice no tempo. Quase ninguém deu conta mas, eu e ele, o dragão salalé estivemos lá! Um forte abraço.

 Ilustrações de Costa Araujo Araujo

O Soba T´Chingange      

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:18
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014
MISSOSSO – IV

NO ÁTRIO DA EIL DA LUUAExpuseram ali a m´boa e, de tanto protesto dos ecologistas, retiraram a bichona…

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

Por

 T´Chingange

ATENÇÃO - ATENÇÃO - ATENÇÃO ...... se quizerem ouvir outra música, CLIQUEM »»»» www.connectmusicbox.com»»»» para entrar e voltem AKI, OU AQUI...

 

 Na esquina dos lábios dela, da Luzia M´Boa, podia ler-lhe o sorriso de sua verdadeira vida. Com as suas compostas feições ovaladas podia com os olhos afagar suas escamas desfrisadas em um reluzente manto como era de uso no bairro da Ingombotas. Vendo-a, lembrava-me das falas de meu pai … Se queres estragar a tua vida, casa com uma mulata; elas são umas cobras! Dá-lhe missangas de oiro e perfumes das arábias e vais ver!... Vais-vais! Vão-te ingombotar! Vocês agora gostam de ser enfeitiçados com água-de-cú-lavado por essas songamongas carnívoras de línguas bifurcadas, acrescentou num linguajar muito só dele. Meu pai, meu encarregado-de-educação, tinha sempre um discurso curto e agressivo; e, tinha sempre razão, mesmo quando não a tinha! Em verdade, ás vezes dizia coisas sabidas, daquelas que a mão do cérebro agarra e guarda no bolso com papéis de loterias passadas, contas de mercearia duvidosas nos zeros com sinais de multiplicar e ainda um canivete suíço para o que der e vier.

 Tudo, nas falas dele era da época, da má sorte da sueca, das condições e mentalidade, enfim, uma época que morreu mas, que deixou embrulhada superstições em novas formas de estar. Vi crescer Luzia jibóia M´Boa desde muita tenra idade, criança mesmo, desde que a fui buscar numa caixa de botas da macambira. Morava no Cazenga mas era da lagoa do Lifune por nascimento. Luzia, cresceu desmesuradamente enrolando-se de amor ao meu pescoço pernoitando-me em suas curvas escorregadias de sumaúma e, eu dava-lhe beijos ternos e ardentes, bífidos e languinhentos. Era um amor domesticado e desenfreado. Tanto, tanto que já muito adulta Jibóia M´Boa engoliu-me por amor, como se fosse uma espiga de milho do Alto-Ama. Ninguém compreendia nossa íntima relação, de jiboiarmos juntos; assim, balouçando na rede de ternura ondulada e, foi muito cheia de amor que Luzia me deglutiu quase, quase por inteiro.

 Estás quilhado Tonito! Não tem riso para a morte! Quase defuntado, quando dei por mim já só estava com a cabeça de fora! Estou feito! Raciocinei e, num repentinamente matutei, não tinha mais tempo a perder! Aflitinho da silva disse para mim na zoada do amor dela! Foi quando me lembrei da salvação... Valeu-me ter visto muitos filmes de Tarzam no Colonial; no meu bolso direito estava um canivete suíço! Com lentidão, naquele aperto amoroso, consegui abrir o tal de Macgyver e rasguei o coração da bichona. Amordaçado de aperto uterino, cortei o coração da cobra a tempo de suster o último suspiro de oxigénio. Meu Pai, encarregado de educação, de contente, embalsamou a bichona e para gáudio dele, pediu ao Director Beirão para expor aquela espécime de muita raridade no átrio da escola; isso mesmo, EIL. Surpreendentemente o Concelho Directivo autorizou mostrar a Luzia Jibóia enrolada num bambizinho atado a um chinguiço! Claro que era uma forma de mostrar a sustentabilidade das espécies aos novos formandos. Surgiram os homens da ecologia, … Que não senhor, aqui não é o lugar certo!? E, tra-la-lá, tra-la-lá, ouvidos os homens da ciência, da Liga Africana e notáveis da Luua, acabou por ir parar ao Museu de Angola junto do Kinaxixe. Creio que ainda lá está! Lembrando-me disto como se fosse agorinha; revejo-me no quanto o contar estórias, se pode tornar em uma actividade de alto risco.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:35
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Sábado, 12 de Julho de 2014
MUSSENDO . IV

LUANDA - BAILE DE FINALISTAS NA LUUA . Vens comigo comer um baleizão? …

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola).
Por

 T´Chingange

   No baile de finalistas do meu curso de Montador Electricista da Escola Industrial de Luanda, com fato emprestado cheirando a naftalina e penteado de risco ao meio, brilhantinado, com os meus dezassete anos de idade, uma moça torcendo o nariz e franzindo a testa com um sorriso de amor, disse-me: - Cheiras esquisito? É do fato ou quê? Eu, lavado com lavanda de sabonete LUX, pingando banga molhada e brilhantina roubada às minhas irmãs Laurinda e Adília, como podia estar cheirando esquisito? – Não Telminha, o cheiro exótico que tenho comigo é dum perfume que roubei às minhas manas; dizia no papel que era importado da Calábria, que dava brilho cheiroso de eucalipto de Tenerife e que durava por mais de quinze dias. Vistes!
 O conjunto dos Cunhas tendo o Manuel Flórido como vocalista acelera-me a passada com um “summertime” de um calor plasmado de fino cheiro nas camufladas nuvens do cacimbo luandino. Na alegria de rasgar a escuridão, jogo serpentinas na Telminha para quem eu, só tinha olhos de cachorro rafeiro da Vila Alice. Mais tarde, depois dumas cucas dançando com ela “reloj no marques las horas” moringuei-lhe no ouvido uma conversa de água mole preparando o terreno, melhor a areia da Corimba, numa ternura de bagre; eu, não queria mesmo dormir minhas palavras, assim, do útero de minha inteligência disse-lhe: Vou levar meu gira-discos e musica cantada por Adamo. Ela, Telminha, arrebitou osolhos doces para mim e disse que sim senhor; depois apresento-te a minha mãe! Baixinho disse-lhe que tinha o “Je t'aime mon amour” carregando na última palavra e sumindo as demais.

 O sorriso de sua admiração calada, felicitou-me com um arfar de peitos, devorando-me o sangue. Só no outro dia de manhã, já domingo, é que soube que aquilo do perfume cheiroso de eucalipto era mesmo óleo de envernizar móveis. Seja como for, isso já não importava. De consciência tranquila, inchados de alegria, eu e Telminha, burrinhamos a água morna; salpiquei-lhe palavras muito cheias de feitiço, estendendo-lhe as duas mãos. O resto, pertence ao pó da estória vadia, silenciosa a remexer problemas que nem sei ainda neste momento, como vai ficar nos finalmentes. Com o tempo, Telminha descobriu que eu tinha um choro difícil, um riso fácil e, era mentiroso compulsivo; sempre guardava nos meus dedos o branco relevo de seus vestidos bordados. Nós mentíamo-nos acreditando que tudo era verdade, nós queríamos acreditar! - Vens comigo comer um baleizão? Porreiro! Dominós ó bispo! No meu sangue vermelho de gotinhas entrelaçadas recordo as juras mentirosas “Juro, sangue de Cristo!” E, assim perdurou até os dias de hoje.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:37
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Sexta-feira, 11 de Julho de 2014
N´GUZU . XXIV

ANGOLA – KILAMBA KIAXI . Um "elefante branco" angolano

N´Guzu: Força, poder, deus da guerra.

Escolhas do 

Kimbo Lagoa

FONTE:PÚBLICO e Lusa

Kilamba Kiaxi inaugurada a 11 de Julho de 2011 e projectada para funcionar como sede do recém criado município de Belas.

O objectivo era albergar às portas de Luanda cerca de meio milhão de pessoas; até agora, o empreendimento Nova Cidade de Kilamba não passa de mais um "elefante branco" angolano construído com dinheiros chineses. Há relvados, prédios, apartamentos, escolas, lojas e estradas. A única coisa que não há são pessoas. Era suposto o complexo residencial Nova Cidade de Kilamba - a cerca de 30 quilómetros de Luanda, estar por esta altura cheio de habitantes, mas até agora não passa de uma cidade-fantasma. As pessoas que aí conseguiram comprar um apartamento, vêem-se agora a braços com propriedades depreciadas. A empresa China International Trust and Investment Corporation (CITIC) gastou 3500 milhões de dólares nesta urbanização que, uma vez completa, ocupará 5000 hectares. Em troca, Angola pagou este investimento com a sua matéria-prima mais preciosa: petróleo.

 Este investimento é o mais significativo de uma série de “cidades satélite” que estão a ser construídas por empresas chinesas um pouco por todo o país desde que Pequim começou, há alguns anos, a investir fortemente em Angola. O governo angolano promoveu a Nova Cidade de Kilamba como um novo paraíso para a classe média angolana, que podia aqui encontrar um estilo de vida mais relaxado que no centro de Luanda. Mas, num país onde a classe média ainda não tem visibilidade nem poder económico, o plano parece agora condenado. Elias Isaac, responsável pelo ramo angolano da sociedade OSISA (Open Society Initiative of Southern Africa), constata, em declarações à BBC: “Não há classe média em Angola, só os muito pobres e os muito ricos, e por isso não há ninguém que compre este tipo de casas”.

 Os factos não desmentem Isaac: quase um ano depois de os primeiros 2800 apartamentos concluídos terem sido postos à venda, apenas 220 foram vendidos. E mesmo estes - avança a BBC - não terão sido ainda totalmente ocupados. O local também não tem ainda infra-estruturas a funcionar. À excepção de um hipermercado localizado à entrada do complexo, a BBC diz que não há mais nenhum sítio para comprar comida. Nada disto é surpreendente, porém, se levarmos em conta que os apartamentos estão a ser vendidos a preços que variam entre os 120 mil e os 200 mil dólares, num país onde se estima que dois terços dos cidadãos vivam com menos de dois dólares por dia. Tudo isto às portas de uma capital considerada a cidade mais cara do mundo.

 Elias Isaac sublinha que a prioridade em Angola devia ser a construção de casas a preços reduzidos, uma vez que maioria da população ainda vive em barracas sem água, electricidade ou saneamento. A BBC acrescenta que ainda ninguém sabe exactamente como é que será feito o processo de selecção de habitantes e os mais críticos argumentam que tudo não passa de uma manobra eleitoralista. Respondendo às críticas que dão conta que a urbanização fica demasiado longe do centro de Luanda, o governo afirma: “Há sempre pessoas que criticam, mas graças às novas auto-estradas que estão a ser construídas, a Nova Cidade de Kilamba ficará apenas a 15/20 minutos do centro da cidade (de Luanda)”.

As Opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:43
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Terça-feira, 8 de Julho de 2014
MISSOSSO – III

NA PRAIA DOS AMORESNo Munhungo do M´Puto

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

Por

 T´Chingange

 Hoje foi um dia do camano. Aconteceram Coisas do arco-da-velha que até me parece ter sido mentira. Partilhando matutices, antecipo-me aos dichotes inevitáveis que me beliscam a nobreza e fidalguia. Assim, para não ficar carregado e sozinho com tantos mistérios, vou contar à malta da Maianga do Maculusso e dos Coqueiros da Luua e demais kazucuteiros do meu kimbo, este sucedido. Eram dez horas quando resolvi ir até à praia do mato passear o cão e roçar-me na arruda, tomilho e aroeiras em um carreiro quase tapado por cardos e trepadeiras arranha-cães de picos traiçoeiros. Descendo a encosta para o barranco verde, refúgio de raposas e bichos rastejantes dou de caras com um homem de tez branca, meia-idade de tronco despido e descorado; ainda de longe saudou-me: - Good morning! Respondi do mesmo jeito! Já mais próximo, pergunta-me em inglês: - Is this the way to get to the boat-of-love?... Num lugar destes e, uma pergunta destas, até fiquei meio desconfiado, meio estupefeito! - Good! - This is the path to the beach from the bed of the Cow! Disse eu respondendo, literalmente confuso. - Yes, yes ... thank you! Respondeu o gringo da bretanha. A isto respondi-lhe um simples “have a nice day!” e, segui descomposto com esta inaudita excrescência, deixando o carcamano a olhar os fósseis de concha do tempo dos dinossauros.

 Caminhando por ali meus silenciosos problemas, este gringo, veio remexer no pó da estória que trazia no pensamento e que agora, esta, se ria para mim, gracejando espadas e arcabuzes fazendo-me gaifonas porque isto nada tinha a ver com o bote-do-amor; pelo contrário, mais era uma luta de corsários da coroa britânica com naus de piratas franceses em barcos de muitas velas, com espadas e chapéus do tipo de Dartanhan de longas penas de pavão. Quase descendo a pequena falésia da praia, noto que por detrás da rocha grande, um casal de cores avermelhadas corando ao sol ... nuínhos da silva; expunham suas partes descoradas e intimas ao léu, nutrindo além do sol e o iodo, as areias monaziticas com radioactividade de fazer n´guzo nos tintins e passaroca.  

 Para não destoar do ambiente prá-frente, descalço até o pescoço, meto-me na fria água ginasticando o esqueleto por um pedaço de tempo e, após sair desta, estico-me na rocha plana a curtir o sol; quase dormitava quando começo a ouvir um barulho de motor de barco não muito longe, e vozes excitadas. Sento-me, ponho as gafas e, deparo com algo inusitado; ali naquela pequena enseada escondida do mundo, estava um junco chinês … na minha praia!? Cheio de gente algazarrada, podia observar o que parecia ser um barco amarrotado de marroquinos ou ilegais do norte de África entrando em águas Lusas; mas, não era assim! Tratava-se de turistas desenferrujando excentricidades com chapéus de bambu. Do alto da falésia da cama da vaca um musculado Schwarzenegger chamava a atenção aos demais para o salto que viria a dar. Para surpresa minha o tipo, deu o salto e veio ao de cima de água, coisa festejada pelos demais com muitos aplausos. Este, foi o início do forrobodó porque em seguida todos saltaram para a água vindo até à escassa língua de areia da praia. Um a um, eles e elas, foram chegando também nuínhos da silva, assim como vieram ao mundo; entre abraços, nalgadas e amistosos chapadões cumprimentaram o tal casal que já ali estava. Foi neste então que reparei no tal gringo que me perguntou aonde era isso do bote-do-amor. Estava explicada a inaudita antevisão deste munhungo fora de portas, nos meus queixos. Até meu cachorro tossiu de tão inusitado, uma sarrista e sarcástica risada deslumbrando-me na imitação de Muttley.

 Num pequeno bote foi chegando mais gente e, descarregaram fogareiros de bidões, vários sacos e arcas congeladoras que iam encostando à falésia; não demorou nem meia hora e, o cheiro da sardinha assada já era tão intenso que forçosamente me abriu o apetite. Afinal tratava-se de um piquenique de gringos em terras Lusas com a ligeira diferença de estarem todos desvestidos, em pelo como Deus os botou no mundo; vinham aqui recarregar suas pilhas esfregando seus tintins e passarinhas nas monaziticas areias, de forma a ficarem radioactivos. Isto foi tão real que até parece mentira! Escrito isto, veio-me à mona a muxima de piqueniques que fazíamos na Corimba, Morro-dos-veados, Morro-da-Cruz, lá nas águas mornas a ver Mussulo; um belo dia eu, kandengue espigado, subi a um imbondeiro no Morro-dos-veados e vendo o Mussulo do outro lado mijei no mundo; Não sabia nada da estória, dos mwangolés, nem Tugas e escrevi meu nome e mais um outro de sereia com chocalhos e, no meio, um coração; só por isto eu reclamo-me kamundongo com sangue de seiva de imbondeiro! Ninguém que me vai poder tirar meus direitos!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:05
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2014
MOKANDA DO SOBA . LV

 

ANGOLA NAS MALAMBAS DO TEMPO . Foi no Hotel Presidente em Cuba… Na marginal “Malécon”Pestana gamou-me o certificado de mwangolé.

MALAMBA: É a palavra; GAMAR: É roubar

Nas falas de

   T´Chingange

 Um dia, fiquei chateado de verdade com o meu filho M´Fumo Manhanga, branco como eu, só que, de olhos azuis; este meu kandengue com pressa de vir ao mundo abortou minha pesca de matonas, roncadores e peixe-agulha na ilha de Luanda. Branco que nasce no Sambizanga só pode sair atravessado, revolucionário, turra mesmo! Foi num dia 31 de Dezembro que este meu loiro e chanfrado dos pirolitos nasceu no Hospital Universitário. Já praticamente nasceu doutor e com a particularidade de gostar de catanas, naifas, flechas,  machetes, armas de vikings, setas de besta e tiro ao arco. Colecciona canivetes de ponta e mola, só ponta, dupla mola, pontudos, incrustados em madrepérola e madeira exótica que só os índios do ipé-roxo sabem pronunciar.

 Dei-lhe um papel de cidadania angolana tirado na Igreja da Sagrada Família da Lua, já carimbado pela Secretaria das Relações Exteriores, reconhecimento e gasosa aos mwadies kambas para ele sua excelência o M´Fumo tratar junto da Embaixada de Angola e, este documento que lhe dei em mão, escafedeu-se na confusão dele; não dá mais para me chatear com esses documentos. Diz o gajo que meteu num livro, não sabe bem qual e agora está em crer que fui eu que o levei na minha viagem a Cuba; até pode ter razão e ,às vezes ponho-me a pensar se não seria o General Alicate, vulgo Pepetela mas de nome Pestana, que me desviou tal papel quando o importunei em uma missão diplomática do glorioso Éme. Isto foi em Havana. Eu, turista de ver o carnival na marginal “Malécon”, deparei com aquele pseudo-guerrilheiro; conversa puxa conversa, durante um lapso de tempo de fazer necessidades, o Alicate gamou meu livro de leitura; até me recordo de ele ter contestado a intermitência da morte de Saramargo. Isto é só um suponhamos... É que Figueiredo Pestana Pepetela e eu, entre outros camaradas do m´puto, algures entre Dolizie do Kongo e a velha picada que passa por Miconge Velho  do Mayombe de Cabinda, tivemos um encontro com beijos de fogo! Ele, o Alicate, estava do outro lado; eu de G3 e ele de kalashnikov, terrorista,mesmo!

  Eu é que sou burro, preocupar-me com este desinfeliz destino dum filho mwangolé, duplamente licenciado e desprezando sua natalidade num mukifo cheio de livros de arte, com correntes de bicicleta, roda pedaleira, pedais shimano e o catano de zingarelhos espalhados por tudo quanto é canto; bikuatas e corotos sarapintados de cagadelas de moscas, e ratos de pestilentas mijadas nos silenciosos e antiquíssimos pés de Bartolomeu Dias e suas pedras assustadiças, parideiras, cruzes de marcar presença, padrões. Simples como soele, sem aquele certificado de kamundongo, deitar sua vida no mukifo e naquele chão da garagem sem chorar nem botar nódoa no tapete da minha vida, meu loando de nobre estirpe; como capota maluca, carregado de esculturas, projectos de kubatas e trastes, cagou no meu sentimento de puro mazombo; bufando-se em minhas moralidades cagunfou-me de amarelo de tugi. Este meu filho maleducado do m´putu, de castigo está cheirando meu luto vomitado no tempo. Então não é que podia estar em sua terra, desenhando garinas a curtir sol no kafunfo ou pedras do Pungo e está aqui desempregadissimo, sem eira nem beira nem dinheiro de kúmbu p´ra mandar cantar um cego. Como é? Vou estar feliz? Claro que tenho mazé de desabafar!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:39
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Terça-feira, 1 de Julho de 2014
MISSOSSO – II

ANGOLA – No Rio Seco da Maianga - Um amor impossível com um Louva-a-deus fêmea

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

Por

 T´Chingange

  Efectivamente isto aconteceu no Rio-seco da Maianga. De coração batucando dores dentro da alma, cara enrugada e desfeita, refiz a cena dum periclitante amor defuntado no tempo certo. A Louva-a-deus segurou minha foto nas mãos-tenazes e comeu-me como se fosse um pirolito de caramelo crocante. Eu, espreitando entre um monte de tijolos no quintal da Dona Arminda, minha mãe, pude ver naquela cena de quintal, o quanto a minha vida de macho corria perigo. Esta Sangamonga feita Louva-a-deus, vagabundou minha vida tornando-a em cinza e, sem estrebuchar meteu-me em sua boca deglutindo-me por inteiro. Mulata danada! Eu, grande amor da sua vida fui engolido sem enterro. Aquele amor, nascido duma impertinente flôr-do-kongo, ela, a Sangamonga, botou-me uns pozes curadores nas matubas e, de esfraganços ajindungados de maleitas e kanastem, transladou minha quentura ao coração, esta foi a puríssima verdade verdadeira! 

 

   O louva-a-deus é um insecto. Seu nome popular decorre do facto de que, quando está pousado, lembra uma pessoa orando. Caçam por emboscada facilitada pelas capacidades de camuflagem. Seu ritual de acasalamento, que decorre por volta do Outono, é uma época de perigo para os machos da espécie, uma vez que a fêmea quase sempre os mata e come durante ou depois do acto. A fêmea põe entre 10 a 400 ovos numa cápsula endurecida; após a eclosão, o louva-a-deus nasce como ninfa, que é em tudo igual ao adulto excepto no tamanho que é menor.

 

 

 

 

Batendo as palmas de seu coração justificou seu grande amor por mim, falando ao vento que farfalhava o tamarindo; talvez a acidez deste estivesse a ser aproveitada naquelas gesticuladas mezinhas de macumbas e alfinetadas. Contando isto a meu amigo kalacata, este retorquiu-me: - Meu amigo, tiveste muita sorte! Vejo-te mudado, cagunfa mesmo, mas deixa que te diga que nunca tiveste juízo pá!... P´ra pior antes assim, vivinho da costa; meteste-te com uma trituradora canibal de machos e, pois…aconteceu! E, acrescentou: - essa Sangamonga queria mesmo devorar-te e defecar-te no mato dela para engordar suas piteiras de tabaibos, matipa-tipas e xá caxinde da horta dela. Desde aquele então, o amor fechou-se-me na frustração, impregnando-se de pílulas até os anos as roerem. É perigoso namorar com uma Louva-a-deus; é como que voluntariamente, metermo-nos na boca do inferno sem passar no purgatório.

Prometi-me que nunca mais me iria deixar hipnotizar pelos olhos xicululu rodopiados duma louva-a-deus; menos-mal que na fúria deglutiu minha t´xipala e soeu, pude ver-me mastigado em meus linfáticos salientes; na gula dela, parecia palha de chinguiços velhos, espumados com ranho de babado, vomitado de cachorro rafeiro. Minha nossa senhora da Muxima, quando me lembro até os pelos do mataco se me arrepiam. Esta observância, salvou-me! Foi meu tio, Nosso Senhor, também conhecido por Zé da Fisga, que me advertiu: - Tonito, olha que essa moça, tem feitiço cum ela, mira-lhe bem no seu escuro das costas, ela tem mancha de macambira, mesmo de munhungueira e, isso não é não; não é bom sinal! Obrigado meu Nosso senhor.

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:21
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Sábado, 24 de Maio de 2014
CAFUFUTILA . LIX

ANGOLA . Pais da gazosa…

Por

 T´Chingange

Em 2005, em Luanda, eu e Bian a caminho da ilha, fomos mandados parar por um polícia civilizado, pensamos nós. Era um franzino homem com olhos pequenos, olhos entrelassados de alguma angústia e rugas próprias de quem tem mais que uma mulher para suprir, e uns quantos candengues para vestir e dar milhipapo (funge de milho). Pediu os documentos, rodeou todo o veículo e tristemente, afagando seu rosto enfiado entregou o livrete a Bien. Num repentemente de súbita descoberta voltou a pedir o livrete e, apontando para a trazeira do anglia, disse: - Aqui, diz que seu carro é branco e nas trazeriras tem uma grande mancha cinzenta; ele não é branco, é malhado! Façam o favor de sair do veículo, vai ser rebocado para a Divisão de Trânsito!

 Naquele preciso mometo, perentoriamente o franzino agente, ficou uma impertigada autoridade. -Senhor polícia essa mancha é a cobertura base de tinta para depois de lixar, levar a pintura definitiva, disse Bien contrariado, eu sou engenheiro formado em Cuba e sei o que estou a falar; tive de desmpenar e depois meter massa para cobrir as imperfeições. Perante esta inconfundivel verdade o homem autoridade mudou de postura e num repentemente já não era mais polícia, era um corrompido ladrão: Pois! Sabe! Está muito calor! Sabe como é, os filhos, os cadernos para a escola, tá tudo muito caro, faz falta muitos kwanzas!... Uma gazosa, facilita!

 Belas

Num encolher de ombros Bien, olhou para mim de soslaio, meio acabrunhado sem saber bem o que fazer como que a pedir-me opinião; eu não hesitei em tirar umas notas para dar ao desinfeliz agente. Este guardou-o rápidamente antes que houvesse qualquer reverso no acto da corrupta actitude. O agente, entregou os documentos, mandou-nos entrar no ford anglia “ora bolas”e acto contínuo perfilou-se teso, fez continência e agradeceu aquele contributo, flnalizando seu ordenamento, podem seguir! E, nós lá seguimos até à Maianga, Rua Dr. José Maria Antunes nº 22, comentando o invertido racismo a comparar com os tempos coloniais, naquele acontecido.

O Soba T´Chingange



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Sábado, 17 de Maio de 2014
MAIANGA . IV

UM VOO NA MAIANGA . NA TIAMATILDE  

Kifutu do Zeca e eu

 ZÈ SANTOS + T´CHINGANGE 

  Atrás do bando do Sardão Zerolho, barrocas das bananeiras, fizemos guerra de fisga, naqueles muitos dias de nossa muxima; nossos carros de fazer vruuum vruuum, sem bielas nem pistões, popós de arame muito estilosos, abríamos pistas de corrida de banga no todo terreno e areias do rio que só era mesmo matope de mulola seca. Ali num tinha chão de cauchu, desse, kiê dos alcatrões. Nossa escola de chão poeirento dos antigamente da Mayanga, ia do sinaleiro até ao choupal das garinas. Ah! Tinha os bué confusão dos choques e a maka com os “naifas” na mão, porque os porquê berridava pra saber quem tinha razão de ir nos frente ó não.

 No mujibi das nossas falas batukavamos muenhu de verdade. Só mesmo Ngana Nzambi botava na cabeça dos kandengue o juízo, o razão pra tudo dinovo voltar a ser bué kamba. Aiué dinovo!  Com os feitiço como soeu e tu, beulando com a língua no açúcar no depois da corrida de dikitois cada qual batotando nos medida de palmo mais um dedo. Também fazíamos corridas com tampinhas de cuca, nocal, mission; jogávamos de botão e bolinhas coloridas do abafa e... Xii, Aiué! Muita maka! Nosso calendário de eventos estava sobrecarregado. De tarde na Avenida Lisboa fazíamos o downhill com nossos bólides formula rolamentos; nos catravez nos buraco raspávamos o mataco, pelos do peito e até fuças; o carro ficava lá para trás. Xé, gostávamos mesmomesmo daqueles ditos descapotáveis, bué de banga fécula.

 Ah! Loanda, Maianga! Esse kisola, das berridas dos malucos na casa ndeles. Um dia um doidovarrido, tuje de uma figa, corre pra nós nuinho da silva cus mania dele, de doido mesmo, queria nos agarrar e todo o pessoal de bata ndele correndo notrás do cujo apitando e nós pulando o muro fugindo do feitiço dele. Mesmo Kiavuluvulu cançados das quinambas, de noite iamos na festa da Mayanga no lugar da estação dos comboios. Era nas festas do São João, catrapiscar as garinas e gastar os cumbús de quase só mesmo para uma ou duas farturas. Nos avião mostrávamos nossa banga ninita na voação até ficar com kitari Malé.

GLOSSARIO:
Cumbú: dinheiro; kinamba: perna; Kisola: amor; Muenhu: vida; Ndele: branco; Berridar: fugir; Bué: muito; Kandengue: miúdo, garoto; Kiavuluvulu: muito; Kifutu: prenda; Kitari malé: Pouco dinheiro; Martope: residuos de aluvião, areia ou lodo; Mulola: rio seco com águas de chuva a montante
As falas do Zeca e T´Chingange



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Terça-feira, 13 de Maio de 2014
KWANGIADES . XVII

MAIANGA - As falas do Zeca

Por

Jose Santos.jpgJosé Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco da Maianga.

Meu canto, minhas falas fazem reaparecer meu mundo antigo. Ele reaparece embrulhado de saudade, neste torrão que não é presente; faltam-lhe as fitas da kukia, não me inspira, não é como um verdadeiro presente… Cativo, vestido com os meus panos, agarrado aos búzios, amuletos, à undenge ami mu Moamba, desse antigo lugar - Mayanga ai-iu-é, que tanto berridei por esse tempo de paixão; que enricou meu coração no uuabuama chão colonial, hoje independente, imensamente rico - chão Angolano. Kuatiça o Ngoma! Assim os ouço ao longe, consolando muxima ami, que velozmente envelhece, que ainda dá batidas ora, leves, ora fortes do atu, no seu Kimbundu. Malembelembe ainda tece esteiras, missangas, planta flores coloridas no quintal iguais ás do Parque Heróis de Chaves, canteiros da António Barroso, de toda a Loanda. Eu choro o peito de ilustre kamundongo.
 Durante meus sonhos, planto capim naquele chão da Maianga, lugar que me viu crescer berridando liberdade, que hoje sinto o muxima burilar, estremecer de louca nostalgia a dar atenção ao clamor do coração sem cor…, que tornou aquele chão num campo com dor…, que muito durou, um tempo de muitas luas…Todos os dias enfrento a ponta da azagaia cravada de feitiço no meu coração. Desde esse tempo de miúdo, assim vivo coleccionando fugas, como quando descalço, chutava a bola, trumunu de trapos no chão das barrocas, de quando subia à mulembeira a retirar visgo e, depois fingir de caçador; empoleirado nos galhos do cajueiro, saciava a minha sede com seu fruto; também namoradeiro, descuidado e escorregadio, guardei comigo numa caixinha de santinhos, mais os cromos de Kimbundu.

 Nessa caixinha do tempo tenho muitas fotos, bilhetinhos de amores sem mambos nem rancores… Neste estado de kota e, neste putu, colecciono cromos engraçados de Atu, como cambalhotas das barrocas. Neste tempo de estupor, terra do fiado “civilizado”, de muita maledicência, de sem respeito, currículo suspeito, em vez de construírem… Oh! Ngana Nzambi! Numa de lama, kapiango pés de patranha, engenhosa máquina infernal, edificam-se em poleiros de nossos celeiros. Ximbicando n´dongu nos cânticos de bela kianda feita kapota, logologo no camenemene do Baleizão e, sob o olhar das palmeiras da Marginal, eu axiluanda como no tempo dos mafulos, dei com o sonho na praia de Loanda…! Aquele lugar que consolava o meu kituku de dilulu; minha kalunga.

GLOSSÁRIO:
Atu/mutu - pessoas/a; Axiluanda - antigos pescadores de Loanda; Berridavam - fugiam; Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kapiango – roubo; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol nascente; Ndandu – parente; N´dongu - canoa; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Mafulos - Holandeses; Mayanga - Maianga, um dos bairros antigos de Loanda; Trumunu - jogo de bola de trapos; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama - maravilhoso Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores…

Nota: Arranjo com inventação das falas de ZECA

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:17
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014
CAFUFUTILA . LIV

AS FALAS DO ZECA

 José Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona N´zimbos das areias dum rio chamado de Rio Seco e seu mar da Samba, distribuindo kitetas pelos amigos na forma de kazumbi

AIUÉ! SEMPRE AGARRADOS Á MINHA MOAMBA!

Sempre desejoso de a colocar (a moamba) em cima da vossa mesa k kambas da Maianga, fico depois, atrás da porta e na koka matutando bué, caté choro só de imaginar um pouquito cafifado, "será" que gostam, gostarão das minhas falas, desse mambo que são loando no meu, no nosso coração.  Quem conhece o Zeca metido num corpo de quase dois metros de kandengue cheio de romantismo como o Catete sempre voando, ou plim-plau, ambos buscando amor, amizade, companheirismo..., esse alimento que enche o seu papinho pendurado por todos os tenros galhos das mulembeiras espalhadas pelo nosso antigo Bairro da Maianga. 

Edgar Neves Jamais imaginava ao fim de trinta-e-nove anos no putu, estar nesta QUIÓNGA de maravilha, receber a nossa infância de volta cantando-a com todos vós. Estou kiavuluvulu apaixonado por este milongo que me jindunga, me faz estar mais feliz, longe dos meus velhos muros, que aqui vos expresso de muxima na mão, porque muito agradeço de todos o carinho dado, assim metido nos buraquinhos de um coco que bebo, bebo átoa e como se estivesse naquele doce kapiango do Mussulo, mas que Ngana N´Zambi ali plantou só para alguns... Ah! Mas o delirio foi andar no carrinho de rolamentos do kkamba Edgar das Neves, O DIMATEKENU que fez-me pular para cima dos seus ombros, depois descer, descer na berrida e agarrado a ele pela Avenida Lisboa até às MEMÓRIAS DA MAIANGAA que virou KALUNGA pra todo o mundo. Foi ele que muito me incentivou a escrever minhas falas, livremente e sem os mambo de “matumbo” das barrocas.

 Para ele dedico um amor, uma amizade especial de botar no FACE galando a malta porque lá no fundo, em todos há um pula-pula nos muros da vida racional em um qualquer bairro. Ter o Edgar como kamba é ter riqueza sem garimpo de fuca-fuca, porque é dada na hora, de borla e com a Chivrolette de caixa aberta bem carregada de muxima, passando livremente por todos os paus empinados das picadas do putu. Contigo esqueço os mambos da vida e saboreio baleizão de ukamba. Com o Fernando Jaime, tudo, tudo, deixou-me enfeitiçado durante uns tempos, porque o tuje do feitiço não deixava-me dormir, porque obrigava-me a passar o tempo caçando as minhas lembranças sóvoando. Lembranças deixadas na minha mala de MAKAMBIRA, escondida na capoeira do meu quintal. Lá ficaram perdidas no tempo, na poeira, naquele fumo de então, mas comigo estão quase todas  bem guardadas.  

 Eis que com MALEMBELEMBE, o maianguista António Monteiro, naquele seu jeito luandino, da terra poierenta do RiO SECO, com adoráveis falas de kimbanda cheias de rendas de fio de pesca que tão tãobem sabe fazer. Logologo conquistou-me, enfeitiçou-me e botou ainda mais feitiço no soeu cosquilhando meu reco-reco para deambular pelo Rio Seco, nas barrocas do Catambor, da Samba, delirando bebendo o seu MISSOSSO, que é kimbombo doce, que faz zangular os gigler do meu muxima kota Dodje, que cadavez precisa de empurração, caté pra subir a D. ANTÓNIO BARROSO, ali na esquininha da BRACARENSE, pertinho da antiga estação e sinaleiro mais o colégio Moderno que ambos caminhamos numa frigideira que torra kiqwerra muito gostosa, que levamos à boca com falrripos de bangula. Vestidos de boca-de-sino wrangler de cor de rosa da Xabanu, de Fred Perry azul do Quintas, de sapatos mwangolés de biqueira mata barata da Cibele; num seilá-quié-quié, na forma dum sonho sonhado caté nos morro da Samba com nós sóchupar múcua de saudade.

Com a gratidão do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:46
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Terça-feira, 11 de Março de 2014
MAIANGA . III
TAMBULA CONTA: - ZECA  FOI NOS POEIRA

As falas do

 ZÈ SANTOS  . reco-reco

O Senhor dono do Ford V8

Tu, Zeca, surpreendes-me irradiando uma sabedoria e compreensão desconhecidas. Tens a liberdade no coração, na mente e no espírito e, eu vou utilizar tuas malambas, tuas falas para manter  N´zambi nosso Mwata.

 

Tambula: Topei, delirei., sonhei…“UM SONHO ESTRIDULADO… na tua N´janena ”, mas fui apanhado na rusga sem documentos. O tuje do cipaio a mando dos Poeira, levou-me na pildra e a mukanda que tinha para o meu kamba, o mundele chefe tirou…, e disse-me que conhecia um soba com o teu nome na libata de Nambuangongo. Abri o meu Samsung para mostrar os meus documentos, mas o tuje do chefe besugo disse: ”Só te liberto com os Papel na mão, esse mambo dos tecnológicos dos computador é mambo dos filme dos Ovni, num tem a impressão digital tirada nos tinta preto nos covinha t´xipala no BI do Palácio.

Também mostrei o meu cartão de residência da polícia da esquadra da rua Comte Correia da Silva, mas logo berrou, caté os mabuje do peito dele saltaram, dizendo que não era eu, esses mambo há muito caducou quando a bandeira dançou no novo mastro… Eu, bué implorei, até mostrei maço de AC, mas ele recusou dizendo que só fumava CARICOCOS com cheirinho a café Arábica da Gabela ou então DELFIM das baronas m´boas do Bambi, mas só quando estava com makueka. Berrou de novo, mandado-me despir todinho mesmo, para ver se tinha na kubata dos matubas diamba, que topei que catrapiscou para o cipaio porque ambos fumavam e berridavam com umas Cucas e uns pratinhos de jinguba do Álvaro da Maianga …Háka!

en la época colonial como el principal medio de comunicación de ... O sacrista botou lá nos sitio, as mãos para afastar o “capim”, mas tropeçou por querer nas mudanças do meu Ford V8. No final, mandou-me para a esteira cheia de ávilos-de-mil-patas que batukavam à minha chegada. Por isso nada te enviei e juro, sangue de Cristo, que este mambo é verdadeiro k kamba maianguista AM (T’chingange). Desculpa a longa mukanda 1+1, mas é pratinho kitetas com molhinho de jindungo do Mandarim da Ilha de Loanda. ZECA2014022621H25NMK - Fim da conversa de chat.

GUERRA DOS SIPAIOS - HISTORIANETKatyusha' rocket launcher

TEMPO... EM 2 TEMPOS - 2 VELOCIDADES 

Nota do Soba: Pópilas, mazé, este kandengue da Caope trouxe ávilos-de-mil-patas do BO para a Maianga onde viveu como um catete voando, voando pelo capim e agora tá abusar confusão cus poeira chefe-dos-posto. Só tá mesmo me cuspir nas mata de minha vida; se tá vanguardiar das memória que tem o sangue do tempo ; mais tarde bazou da Vila Alice com uma carrinha com tudo empilhado àtoa (dois andares) caté parecia uma canoa; recebeu uma big bazucada, monacaxito dos M via Fla no trigésimo dia em que já lá não estava, ai-iu-ué! Como é monacaxito te ofereceram um barco? Pois… N’Zambi avisou-o para bazar naquele um dia, porque nos vinteenove dias contou bazucadas. Fez mesmo colecção desses monas e juntou-os nas imbambas do tunda-a-mujila. Ambos bazamos sem querer; caté parece que é uma estória de faz-de-conta mas Noé.

Kandandus do Soba T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:53
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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014
KWANGIADES . XVI

MAIANGA - KÚKIA AVATAR

Por

Jose Santos.jpg José Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco.

 

 

 Estou muito cansado de tanto correr por esse asfalto tantas vezes riscado por mim. Meus pés estão em brasa, choram lembranças que lá estão e, agora são recordadas…, mas eu agorinha, como disse antes, estou lá…nunca sai de lá… Agora escondo as minhas lágrimas na minha kubata. É tarde e o coração manda-me estender a esteira no chão, quero dormir, quero mais sonhar, mas agora, agarrado ao meu amor cheio de missangas, desejamos ter mais momentos de paixão que guardamos para sempre. São nossas e de mais ninguém. Ah! Falta abrir um pouquinho a janela virada para o calmo mar, do lado da chegada da ponte – do ANCORADOURO. Levanto-me e abro só uma frinchinha…, Daqui o vejo lá em baixo a acenar- me e a dizer: -“Anda Zeca, anda para o pé de mim.” - “Vem falar-me dos teus versos que trazes no coração da Maianga que rimam KAMBA com UKAMBA”.

 Ele, aquele grande malandro e convertido namoradeiro de todas as beldades que passam pelo seu soalho, está feliz e está agarrado a uma bela barona que retirou dentro do kapossoka. Na mão tem um prato de garoupas, matonas bem assadinhas na brasa, que foram ali pescadas no mar daquela ilha conhecida por MUSSULU. Vejo O PÔR-DO-SOL trajado de belos panos, amarelo, azul, laranja… que se prepara para dançar o merengue no areal com belas estrelas cintilando paixão pela doce CAMENEMENE. Meus olhos cerram novamente maravilhados pela emoção. ANGOLA é assim, cheia de feitiço, que penetram no corpo para sempre, naqueles que a amam de verdade, dos que saboreiam com prazer de água do BENGO. Da fúria e do ódio que durante muitos anos alimentou o ventre da guerra.

 Também para quem souber perdoar as vidas perdidas, daqueles que estão mergulhadas no choro dentro do seu corpo, que sentem o desejo de procurar conciliar os ódios em amor. Hoje, a vemos livre, decorridos que são quinhentos anos de presença dos Mwene-Puto, mas a senda contínua. Sempre muito desejada, sempre muito explorada no seu corpo fértil, nos seus mamilos cobertos com missangas que choram, porque afinal os homens são todos iguais; em qualquer parte, contemplam uns e outros não – os herdeiros e deserdados. N´gana N´zambi, muito te tirou, também muito te deu, porque o teu coração está lá... E, isso é luz que te ilumina na banga dum zum, zum, zum.

As escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:10
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Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014
KWANGIADES . XV

MAIANGA - MOCANDA PARA MEUS KAMBAS ! Na Luua, com gasosa de capim

Por

Jose Santos.jpgJosé Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco, em verdade uma mulola.

Porque a minha impressora deu-lhe o “fanico” queria ter muitas folhas iguais para voarem, assim como ver muitos papagaios merengarem. Naquele Koiilo do Rio Seco da Maianga, do Kimbundu, que fizemos com cola de fuba que lançamos no antigamente. Meu Muxima tem um mapa do antigamente - Loanda; nele tudo está erguido sob o desenho da prancha tropical, tudo percorro de uma ponta a outra com horizonte colonial. Tudo corro, com o feitiço montado numa Honda 3,5 cedida por um patrício da Socar que a encheu com gasosa de capim e visgo de mateba...

 Agora, de volta à Terra, fico quieto e não entendo os homens de hoje, que tudo constroem, desconstroem metidos dentro de mambos ricos, desprezando o que era de ontem. Este é o meu verdadeiro lamento, porque o sinto batukar kiavulu. Estou certo, que as minhas lágrimas, N´gana N´zambi irá apanhar, quiçá botar bom senso nos manos ou então o feitiço terá que actuar… N´ga! Sakidilá!

 Estou muito cansado de tanto correr por esse asfalto tantas vezes riscado por mim. Meus pés estão em brasa, choram lembranças que lá estão e agora são recordadas…, mas eu agorinha, como disse antes, estou lá…nunca saí de lá… É tarde e o coração manda me estender a esteira no chão, quero dormir, quero mais sonhar, mas agora agarrado ao meu amor cheio de missangas, desejamos ter mais momentos de paixão que guardamos para sempre. São nossas e de mais ninguém; afinal os homens são todos iguais em qualquer parte, contemplam-se uns aos outros - herdeiros e deserdeiros.

Kwangiades: - Musas, ninfas ou Kiandas do Kwanza

Escolhas do Soba T´Chingange pós-fabricada com as falas de Zeca



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:52
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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014
KWANGIADES . XIV

UNDENGE AMI MU MOAMBA! Versos avulso prensados em texto

Por

Jose Santos.jpg José Santos - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco.

Undenge ami mu Moamba! Ngana NZambi, sabe que sou pessoa boa, que na infância, na adolescência e na adulta (parte) sempre se comportou com decência de dia e de noite com o seu semelhante nas terras dos Axiluandas.Também na antiga terra de Navegadores, hoje terra da Troika humilhada a toda a hora, que castiga mais os que vivem na “corda bamba” por uma nomenculatuta que viveu num mar rosas sob o toque da harmónica, iludindo tudo e todos com fa-ciladas, tudo adquirir, conseguir numa boa onda…

 Agora o chão desta terra, sente-se pisado por milhares, galopantemente…, mostrando contestação, porque vêem no dia a dia a sua vida decrescer muito castigada com cortes nos rendimentos, aumento do custo de vida persistente, porque que não vislumbra melhores dias neste país que está a perder graça, desaparecer…Oh! Angola, Loanda, Bengo, Maianga…! Tambula conta! Lelu, não me enrolo em esteiras feitas de maka…, esses mambo que afastam manos, kamba bangando cumbú, delírio na kubata…

Mutu malembelembe, ku abuama bué camuelo o kusala uembu… Oh! Se Ngana NZambi assim O desejar… caminharei para Sekulu com as minhas falas, no colo com o Kimbundu, com o linguajar que são kubata na minha alma, meu lugar de pétalas… Tudo calquei com papel químico… porque a minha impressora deu lhe o “fanico”; queria ter muitas folhas iguais para voarem, assim como ver muitos papagaios merengarem. Naquele Koiilo do Rio Seco da Maianga, do Kimbundu, que fizemos com cola de fuba e lançamos no antigamente.

Água do Bengo: ditado muito antigo, em que se dizia que quem bebe-se a água do seu rio, fica enfeitiçado por Luanda…Angola para sempre; Kwangiades: - Ninfas do Kwamza, musas ou kiandas.

GLOSSÁRIO:Dibanda – fortuna; Kandandu/Ndandu – abraços/o; Kianda – sereia; Kiavulu – muito; Kibabu – afago; Kitují – Outubro; Kisakidilu – agradecimento; Kiximanu ami – minha homenagem; Koiilo – Céu; Kulendukilaku – humilde; Makóiu - bênção; Malembelembe – muito devagar, com cautela; Mazanga –cidade; Mindele-iamala – homens importantes; Mukonda uala Lusangelu – porque é aparentação…; Múkua –fruto do embondeiro; Muenhu – vida; Mundele – branco; Mona – filhos (pequenos); Mutu – pessoa (eu); Mutu malembelembe ku abuama bué camuelo o kusaka uembu – pessoa caminha devagar, com cautela espantando invejosos, o que não é generoso, peneirando concórdia…; Nga! Sakidilá! - Obrigado!; Ngana NZambi – Senhor, Deus; Uakidi - verdadeiro/a; Ukamba - amizade

soba.jpg As ecolhas do

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:07
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QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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