Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012
MULUNGU . XXV
“O PRIAPRISMO DO KIRK DOUGLAS CALUANDA” . 4ª de 4 partes
Por
O Soba T´Chingange
Fomos até à cama da unidade de contusões dar conforto ao entesado amigo e o levantar do lençol, dava para perceber o que era priapismo. Sossegamos o amigo ainda confusos com o inusitado e regressamos à turma da maré mansa e alta tensão que após ficarem perplexos, riram e gozaram sem compaixão pelo Paixão. Já na segunda feira passamos todos pelo Hospital; paixão teria alta nesse dia e contou que pelo caso inusitado por ali desfilaram estudantas de medicina para observar in loco o fenómeno apalpando até o dito cujo no intuito de sentir a rigidez do priapismo.
Priapismo é uma condição médica geralmente dolorosa e potencialmente danosa na qual o pênis ereto não retorna ao seu estado flácido, apesar da ausência de estimulação física e psicológica. Os distúrbios neurológicos como lesões e traumas à medula espinal (o priapismo já foi relatado em vítimas de enforcamento. A ereção dura em média 4 horas. O priapismo é uma emergência médica e o recomendado é procurar atendimento de emergência prontamente. É a situação onde o sangue que chega ao pênis através das artérias, não consegue retornar ao corpo por uma obstrução no conjunto de veias que drenam o pênis. Por esse motivo, a pressão do sangue dentro do pênis é elevada, com pouco oxigênio e a dificuldade do sangue chegar até as fibras sensitivas do pênis, gera um quadro doloroso.
Para terminar a crónica de solidariedade que de tão verdadeira, até parece mentira, cazumbi de coisa passada à cinquenta anos, acrescento que após o término do Curso de Montador Electricista, não mais tornei a ver o pícaro Paixão, tendo sido informado que faleceu algures na nossa Luua. Se algum dos ex-colegas souber algo mais, faça o favor de me informar. Se tiverem a T´xipala dele, Paixão Kirk Douglas tanto melhor.
Glossário:
T’chingange - um misto de feiticeiro, justiceiro, advogado do diabo (de quem se tem medo); kinambas - pernas; candengue - moço, rapaz; Camundongo- natural de Luanda, rato; T’xipala - fotografia (de rosto);gíria de Angola; monangamba - trabalhadores sem classificação especial (perjurativo), moço de rua ); Kimbo – sanzala (planalto central de Angola), povoado; Mazombo: filho de colonos; identificado no meio; mussequeiro; Matacanha: bitakaia, pulga de pé; Cazumbi: feitiço; Matubas: testículos; Flor-do-kongo: fungo de pele de dar coceira; Luua: diminutivo carinhoso de Luanda.
Ilustrações de Costa Araújo Araújo (Mano Corvo do Rio Seco)
(FIM…)
O Soba T´Chingange
Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012
KIANDA . XXXIII
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“SAIDY MINGAS” - Luuanda
Por
T´Chingange
No contexto da vida, das coisas feitas à sombra da história sem o conhecimento do mundo, cada qual tem uma vírgula no seu universo. Anónimamente ficamos à espera que a historia nos contemple mas o tráfico de incidências não proporciona vislumbrar o céu nebuloso ou claro para lá da colina da saudade. Como uma colherada de mata-bicho dos mambos do meu quintal de sonhos e á sombra dum tamarindo reproduzo aqui um pequeno capitulo. Ás vezes é a história que faz o homen e não o inverso como parece ser.
Com linguas de catana, o romantismo revolucionário daquele meu tempo, na busca do poder, cortaram os misteriosos inconvenientes desvios ao bom senso da amizade. Na Escola Industrial de Luanda tive por cinco anos como colega Avelino Dias Vieira Mingas que veio a ser mais tarde Ministro das Finanças de Angola entre Novembro de 1975 e Maio de 1977. Mingas era um esguio negro, alto, dentes grandes em rosto amplo; fomos colegas de carteira e trocávamos muitas vezes de cábulas… quantas vezes trocávamos de testes nas provas… primeiro no chamado ciclo preparatório e mais tarde no curso de Montador electricista.
Por via da sua aplicação ao desporto no Atlético de Luanda faltava muito às aulas; eram muitas as vezes que levava para as salas a sua mochila com os sapatos especiais com que corria e saltava. O Atlético de Luanda patrocinado pelo senhor Cuca, Manuel Vinhas tinha ali um viveiro de atletas que nos intervalos entre o correr e o saltar abordavam nos balneários as vicissitudes da colónia, sua terra, ansiando por um passo de alforria em suas vidas, seu quinhão. Inocente, eu e tantos outros embrenhados na cultura do cinema, nem nos apercebíamos que alguma coisa andava a mudar. Avelino, gozava comigo chamando-me de besugo bonito; com grandes abraços cingia-me de empática amizade e ria em sonoras gargalhadas com sua boca escancaradamente grande. Mais tarde fiquei a saber que ele e seu irmão Rui Mingas que veio a ser Embaixador em Portugal eram treinado por um idoso angolano, antigo olímpico português de nome Demóstenes de Almeida. No estádio dos Coqueiros, ambos, iam batendo recordes no salto em altura. O tempo passou e deixei de ver o Avelino; cada qual seguiu o seu rumo mas, pelos jornais ia sabendo das suas proezas desportivas. Não sei porque cargas de água, conservei até muito tarde um esquadro de plástico com a sua firma, Avelino Mingas.
Em Agosto de 1975 ofereceram-me uma viagem para o Puto sem bilhete de regresso e de IARN para ADIDOS como de Pôncio para Pilatos, os gestores da ponte da descolonização lavaram as mãos com água que o tempo milagrou em sangue, sem nunca me garantirem o regresso Á Luua com o tal bilhete da TAP, claro!... e, veio o 11 de Novembro com a proclamação da República Popular de Angola tendo como ministro o meu amigo de carteira Avelino Dias só que, e por fruto da revolução uma insubordinada rebelião o Dias ficou invertido em Said; só mais tarde em jeito de banga mwangolé adicionou um y ao Said, um grito de guerra. O Avelino desapareceu dando lugar ao Dr, mantendo o resto do nome de matriz colonial; se invertesse tudo passaria a ser um chinês de nome raro e isso não lhe era conveniente. Não obstante debelar-se contra as heranças lusas, adicionou o Y, o W e K ao alfabeto a demonstrar talvez o desejado distanciamento, coisas próprias da emancipação rebelde. Vai daí institui o Kwanza, antigo Cuanza como moeda nacional. Foi sua última missão. Saidy Mingas, fiel a Agostinho Neto, Na madrugada de 27 de Maio de 1977 (sexta-feira), entra no quartel da Nona Brigada para tentar controlar as tropas de Nito Alves, então Ministro da Administração Interna sob a presidência de Agostinho Neto. É preso pelos soldados fraccionistas e levado com Eugénio Costa e outros militares contrários à revolta para o musseque Sambizanga, onde são posteriormente queimados vivos. De Avelino Dias Mingas, ficou na retina sua t´xipala, cara, olhos, boca, lábios e dentes grandes e alvos. Como seu selo vivo ficou também sua sonora e alegre gargalhada... soluçada a gosto.
O Soba T´Chingange
Sábado, 6 de Outubro de 2012
MULUNGU . XXIV
“O PRIAPRISMO DO KIRK DOUGLAS CALUANDA” . 3ª de 4 partes
Por
T´Chingange
O coqueiro, a cada impulso do Kirk Paixão dava sinais de instabilidade mas lá bem no topo e com um grito de Tarzam e ginásta do Kirk, lançou-se às águas calmas do mar da Corimba; mergulhou, veio à tona e aconteceu o inesperado, um tremendo coco cai-lhe em cima bem no topo da moleirinha. Paixão desmaiou, ficou de bruços e a malta da Tensão Alta acudiu num ápice ao infeliz colega encocado, desmaiado que nem um morto defuntado mas, respirando. Perante este quadro de aparente traumatismo, tentamos despertar Paixão mas este abrindo os olhos e babando-se em demasia conservava-se hirto com seus músculos descoordenados; rapidamente levamos Paixaõ para o cais esperando o kitoco mas, tivemos sorte de um pescador dali oferecer ajuda. Assim eu e Junça acompanhamos o companheiro com os seus e nossos pertences pois que já era sexta-feira e não saberíamos se ali voltaríamos.
Na carrinha de caixa aberta de Junça ali estacionada no ancoradouro da Corimba, acomodamos paixão esticado tendo-me ao lado para lhe dar o apoio necessário; Junça, em questão de vinte minutos estava subindo a ladeira das emergências do hospital Maria Pia. A enfermeira Rolf Van Dunem de serviço, conhecida de Junça lá do bairro Vila Alice, encaminhou Paixão até o Dr. Boavida, um médico com larga experiência. Eu e Junça fomos encaminhados para a sala de espera. Pouco depois apareceu a enfermeira que nos tranquilizou e depois de umas trocas de palavras e preocupados de como alguém de família tomasse conhecimento.
Junça sabia de um primo de Paixão que era militar furriel colocado no Regimento de Infantaria 20 de nome Nepomuceno; graças a este nome invulgar a mente de Junça juntando as peças concluiu e vai daí telefonou para a 3º companhia do Capitão Parracho e não demorou muito a transmitir o ocorrido a este próximo primo. Por ali ficamos à espera dum esclarecimento do Dr. Boavida e, por fim aparece com um sorriso no rosto, coisa descabida pela gravidade que nós constatamos e disse: O vosso amigo está em choque nervoso mas penso ir ficar bom rapidamente. Ui! (…) Que alivio! E continuou: ele está com priapismo! Na nossa santa ignorância ao mesmo tempo, eu e Junça perguntámos o que é isso Doutor? O médico respondeu com paciência: Priapismo é erecção persistente e constante do pénis, mais conhecida pelo povo como “paudurência” e "paufeito".
O Soba T´Chingange
Domingo, 30 de Setembro de 2012
MULUNGU . XXIII
"O PRIAPRISMO DO KIRK DOUGLAS CALUANDA” . 2ª de 4 partes
Por
T´Chingange
Fizemos uma cacimba com água salobra e com latas de conserva e muita inventação permutávamos vontades fintando a sorte no catravés das sombras silenciosas. De dia adicionava-se o som de cigarras calorentas à sinfonia de rolas, celestes e gaivotas. À noite, lambuzados de liberdade, olhávamos nus as estrelas descobrindo o cruzeiro do sul; alegrias aprisionadas irmãmente divididas entre nós, descortinando um possível UFO, vulgo disco voador mas, só vimos mesmo estrelas candentes. Mais tarde, em pensamentos sombrios, ouvi apitos de navios balouçados no azul do horizonte, botando fumo negro soluçado com apitos graves e longínquos.
Por força das circunstâncias e leis da natureza, cresci camundongo, tal como o Paixão do Sambizanga, ele preto e eu branco na condição de mazombo. De Paixão, eu só sabia que ele tinha uma secreta ligação com Kirk Gouglas, esse tal artista do cinema por quem nutria um grande apego depois de ver o filme “O homem tocha” no cine Colonial no São Paulo, paredes meias com o Bairro Operário, mais conhecido por o BO. Desconformado na alegria, Paixão misturava os tempos, silêncios mal paridos do Sambizanga um misto de valentia lambuzada a sebo de engraxador, pé matacanha, filaria e demais mazelas; de certa forma havia semelhança entre nós e daí tornar-me no T´Chingange. Paixão, saído do kimbo, pulava tal como eu, em projecções de mente com agoiros de olho gordo.
Chocalhando guizos nas kinambas, coçando grosseiramente as matubas carregadas de flor-do-kongo afirmava-se como o maior para ser admirado por todos tal qual o Kirk Douglas do cinema. Enquanto T´Chingange fazia feitiçaria, desviava influências, provocava chuvas, fazendo respeitar-se por feitos temerosos, de Paixão, desde o tempo de monangamba camundongo, só recordo do quanto era alegre nos intervalos das tristezas. Nesse então ainda não se tinha inventado a gozosa da Luua. Lutando com a herança natural, removia bloqueios fingindo ser o que não era para ser respeitado e até admirado. Vai daí naquela manhã com toda a valentia, Paixão trepou àquele coqueiro tombado sobre as águas enquanto o resto da turma o incitava a ir bem ao topo e apanhar coco.
(Ver glossário na última parte)
O Soba T´Chingange
Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012
MULUNGU . XXII
“O PRIAPRISMO DO PAIXÃO KIRK DOUGLAS CALUANDA” . 1ª de 4 partes
Por
T´Chingange
Meditando por debaixo de um grande coqueiro na praia dos corsários, atento ao cão que ziguezagueava sem sentido na areia da praia, relembrei uma estória quase maluca que sucedeu numa ilha chamada de Mussulo situada a sul de Luanda, capital de Angola, lá pelo ano de 1962; nesses tempos cacimbados, com os meus dezassete anos e quase terminando o curso de montador electricista, aconteceu que a minha turma foi punida com cinco dias de suspensão. A turma decidiu, vejam só, fazer greve de paralisação porque exigíamos limas novas nas oficinas de mecânica; as que havia, já não tinham ranhuras agrestes para desbastar as peças de trabalho. Nós nem sabíamos que a greve era um atentado ao estado da nação e que lá longe o governo de Lisboa não via com bons olhos esse desaforo anticonstitucional e muito menos aos futuros operários da colónia denominada de Província Ultramarina.
Toda a turma de fato-macaco azul ficara estática em frente ao torno sem fazer qualquer movimento e, vai daí e sem outra saída Mestre Pinho levou o caso à mesa do director que sem peias se decidiu pela suspensão da turma por cinco dias. O director Beirão da Escola industrial de Luanda, se não tomasse uma medida repressiva estaria em maus lençóis com o Secretário da Educação e os demais da escala hierárquica tornando-se um caso periclitante, penso eu. O chefe do levante apanhou doze dias tendo chumbado por faltas; o subchefe apanhou oito dias tendo também chumbado por faltas; dos demais chumbaram dois pelo mesmo motivo. O resto da turma em sua grande maioria decidiu dizer em casa aos respectivos pais e encarregados de educação que iríamos nesses dias em visita de estudo á barragem de kambambe.
Para o efeito, cada qual transmitiu à sua maneira a razão de tal visita tendo para o efeito obtido dos mesmos um dinheiro extra para suprir eventuais gastos. No dia tal dirigimo-nos ao embarcadouro da Corimba com nossas mochilas, merendas, tachos, frigideiras e outros artigos de campismo como tendas, canas de pesca e as coisas de necessidade para candengues crescidos. E, porque já lá vão muitos anos recordo que com a malta da tensão alta estavam o Junça, o Morais, Vilarinho, Aníbal, o perna marota, o mulato da Samba, o Céu mais o Paixão, um colega negro muito estimado e até admirado pela turma pelas suas loucuras excêntricas; havia mais mas, não consigo recordar-me no momento. Paixão que era um kamundongo de condição humilde que residia no bairro Sambizanga, alinhou com o resto da maluqueirada com o beneplácito de todos pela sua camaradagem simples e divertida. O kapossoka, uma traineira promovida a barco de recreio, levou-nos até àquela quase virgem ilha; por ali bivacamos no meio de coqueiros, não muito longe da toalha de água que ritmicamente barulhava com agrado o nosso imaginário de paraíso.
(Ver glossário na última parte)
O Soba T´Chingange
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012
MUXIMA . XXVII
Angola,quanto tempo falta para amanhã?
Voo TP, destino Luanda.
Em 2005 fui a Angola tendo nesse então escrito uma crónica com o título supra. O desejo de Kianda do Maurício dos Santos (Pepetela) dava a conhecer que as vivências dessa altura se faziam num confronto de ambivalência à mistura com coisas com-fundidas no seio do povo; o mesmo sol da secura e aridez amadurece os produtos, a chuva que inunda é a mesma que os rega; a linguagem mitológica, a verdade das coisas é colhida entre o falso e o verdadeiro, baralhando o conceito da razão; No entretanto destas divagações de um escritor de nomeada, eu seguia a via do sul a caminho do Cantinho do Inferno. Não se confundam com o nome porque também Novo Redondo mudou o nome para Sumbe. Passada a Samba veio o Rocha Pinto a Corimba o Benfica o Futungo o Morro dos Veados e o Morro da Cruz onde a capela foi promovida a Museu da História da Escravatura; com alguma razão de sêr pois, que foi dali do reino do N´gola que saíram muitos escravos para o Brasil.
Na ponte suspensa sobre o Kwanza alguns militares que por ali estavam desempoeirando preguiça abordaram-nos pedindo gasosa, a mesma que nos acompanhou sempre e por todo o lado e, desta feita perante o nosso semblante de interrogação, o militar de camuflado em jeito explicativo e em leque, indicou os demais companheiros preguiçando as pulgas no varão da ponte e disse: - kota!... Ajuda só... é p’ra levantar a moral. Com aquele pretexto engraçado escorreguei com cinquenta kwanzas correspondendo a duas fresquinhas cucas e, ainda sobravam cinco kwanzas para o engraxador. Na Quiçama, não se viu qualquer espécie de bicho mas, na área de serviço de cabo Ledo, um amontoado de xinguiços cobertos com capim com-fundiu a importância do lugar. Umas quantas empresárias de nova geração faziam negócio vendendo as frias sagres, taifel, hansen ou cuca com galinha assada no espeto. Foi um regalo! As empresárias de sucesso, amigas do Bien, com rudimentos de higiene ocasional curtida no funaná Bye Bye My Love, cursavam sobrevivência, transformando a fome em petisco espantado e, o frango no espeto com bastante jindungo marchou sem entretantos; havia na quitanda, onduladas conversas de rosca sussurradas de encanto atarraxado.
Enquanto bebíamos as cervejas retiradas de arcas com gelo, podemos observar uns graduados do gloriosa Eme roçando as donzelas tendo um dos de patente rasa vindo até nós pedindo uma gasosa pois que se queria deslocar a Luanda e não tinha bué para superar. Queria ir lá esclarecer desilusões de amores mal aclarados; treta ou não, logo de seguida bazou de nós tendo ido cravar outro mwangolé; deve ter levado o dia a obter uns “cumbus” para as frias, usando este estratagema de fino engodo. Perto do rio Calamba começamos a ver-se cassoneiras, newas, maboques, embondeiros e muitas matebeiras, daquelas esguias de onde retiram o marufo; assim deixamos para trás a reserva da Quiçama sem ter visto um simples camundongo ou, um dilengo. Lá mais adiante, ao dobrar do promontório e na foz do rio Cuvo as deliciosas de grandes ostras. Com cem kwanzas ou seja o equivalente a dois Euros e vinte cêntimos comprou-se um saco dessas ostras. Passados alguns dias voltamos ali e, numa canoa feita de troncos de bimba, Tomás, chimbicou-nos com bordão até á ilha da contra-costa. Aquela iguaria refastelou-nos após termos mergulhado na costa de grandes calemas, de água límpida em areal mulato. No regresso passamos por vários veículos militares, estafadas Urais ou Ifas soviéticas ainda castanhas na cor. Hoje, dia 31 de Agosto, dia de eleições, recordo esses dias peregrinados e pergunto-me: - Será hoje, esse amanhã?
Muxima: Saudade
O Soba T´Chingange
Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012
MUSSENDO DO PUTO . IX
AS ESCOLHAS DO CONSUL RODRIGUES
“O Prédio dos Angolanos no Estoril Sol” - Puto
Por
Rafael Marques de Morais, Julho-2012
Nos últimos anos, o novo-riquismo angolano tornou-se lendário em Portugal. Dirigentes angolanos, suas famílias e associados de negócios têm estado a adquirir, nesta parte da península ibérica, alguns dos principais símbolos da opulência local. Caso paradigmático é o do complexo residencial de luxo Estoril Sol Residence, que comporta três edifícios de uma arquitectura singular e controversa, no Estoril, na orla marítima de Lisboa. O complexo tem dos apartamentos mais caros de Portugal, que variam do milhão a cerca de cinco milhões de Euros por unidade. O complexo é bem conhecido como o prédio dos angolanos, por serem estes os principais clientes do referido projecto imobiliário, inaugurado há dois anos, com a titularidade de perto de 30 apartamentos. Numa breve investigação, Maka Angola apurou quem são os ricos angolanos com propriedades no Estoril Sol Residence. O actual ministro da Administração Pública, Emprego e Segurança Social, António Domingos Pitra Costa Neto, é dono de cinco apartamentos na Torre Baía, no 3.º, 5.º, 7.º, 9.º e 14.º andares, estando os primeiros quatro em nome da sua filha Katila Pitra da Costa, estudante. Pitra Neto deverá ser o próximo presidente da Assembleia Nacional, depois das eleições de 31 de Agosto próximo, conforme cogitações emanadas da presidência de José Eduardo dos Santos. Tanto no 9.º como no 14.º andar, o ministro Pitra Neto tem como vizinhos o casal "Kopelipa". Fátima Geovetty, a esposa do ministro de Estado e chefe da Casa Militar, general Manuel Hélder Vieira Dias - Kopelipa, adquiriu dois apartamentos.
O fiel escudeiro do general Kopelipa nos seus negócios privados, Domingos Manuel Inglês, fica a meio, no 12.º andar. Na torre ao lado, Cascais, o principal gestor de negócios um tanto obscuros do general, o português Ismênio Coelho Macedo, desfruta da grande vista para o mar, com um apartamento no 4.º andar. Outro comprador extraordinário é o ex-ministro das Finanças, José Pedro de Morais, com quatro apartamentos, também na Torre Baía, no 1.º, 2.º, 4.º e 5.º pisos. Por sua vez, o brasileiro Valdomiro Minoro Dondo, também portador de nacionalidade angolana, tem um apartamento no 11.º andar da Torre Estoril. Valdomiro Minoro Dondo tem cruzado negócios com o general "Kopelipa", José Pedro de Morais, Pitra Neto, a família presidencial e outros influentes membros do regime. A sua formidável capacidade para o tráfico de influências conferiu-lhe o interessante título de estrangeiro mais rico de Angola. Por sua vez, outro brasileiro, associado a Minoro Dondo e a dirigentes angolanos, Gerson António de Sousa Nascimento é dono de um duplex, na Torre Estoril, no 6.º e 7.º andares. O sócio e representante legal de alguns negócios de Welwitchia - Tchizé? dos Santos, Walter Virgínio Rodrigues, demonstrou que os negócios lhe têm corrido de feição e comprou um apartmento no 8.º andar da Torre Estoril.
Como celebração do contrato multimilionário realizado entre o Ministério da Comunicação Social e a empresa Westside Investments para a gestão privada do Canal 2 da Televisão Pública de Angola (TPA), a sócia maioritária, -Tchizé? dos Santos, agraciou-o com um bónus de US $500 mil, enquanto a filha do presidente atribuiu-se, a si própria, com fundos do erário público, um prémio de um milhão e meio de dólares. Outro angolano que faz parte do selecto grupo de proprietários do Estoril Sol Residence é o antigo director da Endiama, Noé Baltazar. Apesar dos preços, os angolanos, regra geral, compram vários apartamentos, de forma ostensiva. Algumas das aquisições levantaram suspeitas junto das autoridades judiciais portuguesas que, para o efeito, abriram inquéritos. Um dos inquiridos, por suspeita de branqueamento de capitais, foi o presidente do Banco Espírito Santo Angola (BESA), Álvaro Sobrinho. A 2 de Setembro de 2010, Álvaro Sobrinho adquiriu seis apartamentos no referido complexo, tendo, inicialmente, pago o valor de 9,5 milhões de Euros, segundo investigações do Diário de Notícias. Os seus irmãos Sílvio e Emanuel Madaleno também são detentores de mais três apartamentos no Estoril Sol. Há, ainda, os angolanos que optaram por usar testas de ferro mais discretos na aquisição de propriedades. Entre o investimento legítimo e o branqueamento de capitais, Portugal continua a ser o destino preferido dos ricos angolanos mwangolés e a sua melhor lavandaria financeira.
Puto: Portugal; Mwangolés: Os donos de Angola; os senhores do esquema.
Mussendo: Conto de raiz popular, missiva em forma de mukanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola).
O Soba T´Chingange
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
MOKANDA DO SOBA . XII
“POR UM DIA FUI CAMÕES” - Eu, um branco de 2ª
Soba T´Chingange
Corria o ano de 1958 em são Paulo de Assunção de Loanda, quando candengue dos meus 12 anos, tive de representar Camões, nobre figura da história da Lusofonia. A vida corria mansa por aquela pacata cidade de Angola e, estava na pauta das autoridades de educação festejar o dia de Camões e de Portugal. Tudo isto, a fim de recordar a soberania do povo Luso. Nós só conheciamos a Luanda como capital da nossa terra mas os livros recordavam que lá do outro lado do mar havia um Terreiro do Paço, com uns senhores que por detrás dumas imponentes arcadas palacianas mandavam no império de Álem-mar, as Provincias Ultramarinas. As escolas da Cidade de Luanda teriam de pôr em teatro essa efeméride e, foi escolhida para tal efeito a Escola Primária nº 8, que ficava perto da Liga Africana. Afinal Luanda estava àquem de Lisboa na hierarquia geográfia e nós putos desconheciamos que a Mutamba, afinal, não era nem a capital do Puto nem o centro do mundo.
Largo da Escola de Aplicação e Ensaios. 1958 (D. Afonso Henriques)
Como bom aluno da Escola de Aplicação e Ensaios, no Largo D. Afonso Henriques, um pouco mais acima do Cinema Nacional e não muito
longe do Cine Restauração fui escolhido para representar tal figura épica do mundo Luso e, levei dias a ensaiar em casa da minha professora lá para os lados do Bairro-do-Café. Sem saber bem o que me esperava, ia aprendendo os versos das armas e barões assinalados dum lugar chamado de Taporbana. Eu, que só conhecia o Catambor, a Maianga com seu Rio-sêco, o Malhoas, o Prenda e Samba das mabangas, ia adquirindo os saberes eruditos com musas e ninfas morenas bailando a marionheiros embasbacados numas ilhas paradisiacas. O grande dia de dez de Junho chegou e, lá estava eu no palco dando a conhecer aos putos, candengues, as cenas desse antigamente com o rei de Leão, o D. Afonso Henriques e Dona Tereza sua mãe, Dom Sebastião e os mistérios do mar com Bartolomeu Dias e Vasco da Gama a fazer gaifonas ao Adamastor, um gigante tenebroso dos mares do sul.
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Alunos da Escola Primária nº 8 (desse tempo)
As minhas barbas, coladas com grude de marceneiro, um cheiro constante do tipo cola, snifavam-me o entusiasmo em cada desce-pano, sobe-pano. Alí, como figura principal, em traje da época, ficava eu especado olhando as cenas. As palmas sucediam-se a cada cena mais exótica e, grudado ao palco e bigode, em geito de galanteio antigo curvava-me às gentes, meninos e meninas garinas do meu reino. Nos dias e meses que se seguiram já só era conhecido por camões
Luis Vaz de Camões
As moças cafecos, apontando-me: - olha o Camões e, eu gingava vaidade pelos poros, fazendo banga. Nunca mais esqueci aquela cola de grude mal cheirosa que tive de suportar durante o espectáculo. 54 anos depois, recordo aqueles dias de Luanda, da Praia-do-Bispo ao Prenda, do Sambizanga ao Bairo do Café ou da Terra Nova aos Coqueiros, como um sonho. E, afinal foi mesmo esta fantasia de vida que me marcou. Tive de vir a Terras de Vera Cruz para ultimar esquecimento de coisas mal paridas. Tal como Pedro Álvares Cabral, vim achar o mundo, redescobrir novas anharas, sertões com nomes de agreste com caatinga e frutas de sape-sape com nome de graviola.
O Soba T´Chingange
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
ANGOLA, PAÍS DA GAZOSA . VII
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"LUANDA E OS RICOS - 4ª Parte " - Coisas da Luua
Isaias Samakuva
Presidente da UNITA
Os Ovimbundu (Ovi-m´bundu, singular Oci-m´bundu, adjectivo e idioma U-m´bundu) - prefixo umbundu "ovi", são uma etnia Bantu de Angola. Constituem 37% da população Angolana. Os seus subgrupos mais importantes são os M´balundu ("Bailundos"), os Wambo (Huambo), os Bieno, os Sele, os N´dulu, os Sambo e os Kakonda (Caconda). Os Ovimbundu ocupam hoje o planalto central de Angola e a faixa costeira adjacente, uma região que compreende as províncias do Huambo, Bié e Benguela. Os Ovimbundu com a colonização portuguesa, foram num processo lento de mobilidade moderna miscigenando-se com outras etnias assimilando assim muito da cultura ocidental. A partir do início do século XX, em seu territórios nasceram muitos filhos de colonos, mazombos que se consideram também filhos dessa terra, pugnam por ela dedicando-lhe aquele amor que nem sempre é reconhecido como genuino. É deste cruzamento de saberes que nasce a crioulalgem da qual os Ovimbundos não se podem desligar ou omitir.
Nação Ovibundu
Sendo a UNITA o partido mais representativo desta etnia e mazombos m´bundus, e tendo assento parlamentar na oposição ao partido no poder MPLA, cabe-lhe a tarefa de se exprimir perante a onda de contestação ao actual desgoverno de Angola. É nesta perspectiva que focamos aqui o alerta (demasiado suave) à Comunicão Social do seu ponto de vista nas palavras de Adalberto Júnior, porta voz deste partido:

Convocamos a Comunicação Social para mais uma vez exprimir a posição da UNITA sobre os crescentes protestos que os cidadãos realizam contra as violações dos seus direitos e a má governação do Executivo do Presidente Eduardo dos Santos. Em primeiro lugar, a UNITA saúda patrioticamente a coragem e a responsabilidade de todos os cidadãos angolanos que utilizam o direito à liberdade de expressão e o direito à manifestação para protestar contra o desemprego, a pobreza, a exclusão social, a corrupção, os atentados à democracia e outros males que enfermam a sociedade angolana.
O tempo de se forçarem muitos M´bundus a aceitar a contratação como mão-de-obra assalariada (e mal paga) nas plantações de café no Norte de Angola, fazem parte da história que se quer olvidar; por isso as circunstãncias actuais de desmando e perene apego ao poder dos mwangolés do MPLA, tornam-se razões suficientes para uma adesão da Nação Ovimbundu. A forte presença dos Ovimbundu nas cidades fora da sua região por via das guerras de emancipação, originaram naturalmente novos factos na história recente, conferindo uma postura nova na projecção nacional.
Alcides Sakala
Algumas das personalidades mais emblemáticas da história contemporânea de Angola são originárias dessa etnia, como Chipenda, Augusto Chipenda, Comte Kassange, Dom Zacarias Camuenho, Jonas Malheiro Savimbi, Marcolino Moco, Alcides Sacala entre tantos outros. Na literatura e cultura, os Ovimbundu e M´bundus mazombos ocupam um lugar de destaque no panorama artístico nacional tais como: N´dumduma Wa Lepi, Alda Lara, Cikakata M´balundu, T´chissica Artz, Sabino Henda, Bela T´chicola, Manuel Rui Monteiro, Pepetela e José Agualusa que nasceram nesta zona tradicionalmente habitadas por Ovibundus.

Na Comunicação Social membros desta etnia também ocupam uma posição de relevo: radialistas e jornalistas do triângulo Benguela-Huambo-Huíla, marcaram ou marcam presença na cena nacional, com destaque para Analtina Dias, Bela Malaquias, Patrícia Pacheco, Cristina Miranda, Mateus Gonçalves e Sebastião Coelho. A UNITA que continua a ter as suas raízes mais fortes entre os Ovimbundu, tendo Isaías Samakuva na presidência do partido, não pode ficar indiferente ao processo de mudança na vida pública e política. Não pode ficar eternamente subserviente ao poder da gazosa.
(Continua...)
O Soba T´Chingange
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
ANGOLA, PAÍS DA GAZOSA . VI
AS ESCOLHAS DO KIMBO
"LUANDA E OS RICOS . 3ª PARTE" - Coisas só da Luua
Rafael Marques
Presidência da República: O Epicentro da Corrupção em Angola
A Presidência da República de Angola tem sido usada como um cartel de negócios obscuros e as consequências dessa prática influem na liberdade e desenvolvimento dos cidadãos, assim como na estabilidade política e económica do país. O texto revelado na “Maka” de Rafael Marques responde aos apelos da política de tolerância zero contra a corrupção decretada pelo Presidente José Eduardo dos Santos, a 21 de Novembro de 2009. Por uma questão de clareza, a investigação cinge-se a uma pequena amostra das práticas comerciais empreendidas pelo ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, o general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa” a quem cabe a coordenação dos sectores de defesa e segurança do país. Com este dirigente, o chefe de Comunicações da Presidência da República, general Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, e o presidente do Conselho de Administração e director-geral da Sonangol, Manuel Vicente, formam o triunvirato de mwangolés que hoje domina a economia política de Angola, sem distinção entre o público e o privado.
Kopelipa
Manuel Vicente

Dino e outros
Manuel Vicente junta ainda, aos poderes acumulados pelos generais e a Sonangol, o facto de ser um dos membros mais influentes do Bureau Político do MPLA, como delfim do presidente e responsável pela fiscalização dos negócios particulares do partido no poder. A petrolífera nacional é a maior empresa do país e o maior contribuinte das receitas do Estado. Vários analistas têm considerado a Sonangol como o principal instrumento da manutenção do regime de José Eduardo dos Santos nos domínios financeiro, político e diplomático, assim como é a principal fonte de enriquecimento ilícito dos seus principais dirigentes. Em alguns casos são referidas as relações solidárias e de cumplicidade com outros membros do executivo e gestores públicos na realização de negócios que envolvem a pilhagem do património do Estado e outras acções de contravenção às leis da república.

Sectores estratégicos como o dos petróleos, telecomunicações, banca, comunicação social e diamantes, fazem parte do império construído por tais figuras. A amostra refere-se às empresas Movicel, Biocom, Banco Espírito Santo Angola, Nazaki Oil & Gás, Media Nova, World Wide Capital e Lumanhe. A Lei da Probidade Pública é usada amiúde, para melhor compreensão do leitor, mesmo para os casos que antecedem à sua aprovação, em Março passado, por ser uma compilação de diversos diplomas legais contra a corrupção, que datam desde 1989.[2] Todos os artigos constantes na Lei da Probidade Pública se encontravam dispersos em tais diplomas. Por exemplo, a Lei dos Crimes Cometidos por Titulares de Cargos de Responsabilidade (Lei nº 21/90, não revogada pela Lei da Probidade Pública) proíbe o dirigente de participação económica em negócio sobre o qual tenha poder de influência ou decisão (art.º. 10º, 2).
GLOSSÁRIO: Mwangolés: - Gente de mando, da élite, os consumidos e abastados que mandam em Angola, os donos dos Porsche Cayene, Range Rover e o jatinho Falcon; Luua: - Luanda, terra de camundongos ou kaluandas; Gazosa: - suborno, corrupção, gorjeta, limosna, que tem gaz de cumbu (dinheiro)
(Continua...)
O Soba T´Chingange
Domingo, 28 de Agosto de 2011
ANGOLA, PAÍS DA GAZOSA . IV
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"LUANDA E OS RICOS . 1ª PARTE" - Coisas só da Luua
Luua - na marginal
A notícia do Sábado revista, um artigo de Isabel Lacerda, sobre a vida em Luanda, não é de espantar em seu conteúdo mas, é bom relembrar o quanto de futilidade vai naquela sociedade tão marginal aos costumes do povo angolano; quanto desperdício rodeado de pobreza a raiar os limites extremos de tolerância, um desgoverno sem oposição firme e credivel por forma a mudar esse rumo de extravagância, luxúria e kizomba cazukuteira. Mesmo que quizesse ficar indiferente não conseguia em consciência fazer justiça à verdade lembrando o quanto meu pai, um colono trabalhador, labutou toda uma vida construindo aquela casa que teve de largar por via da descolonização, uma forma muito legal de expropriar a custo zero. Trabalhou que nem um moiro e só por sorte não ficou soterrado nas obras da Fábrica de Cimento Cimpor. Depois de ter sido deixado como morto atrás do Aeroporto 4 de Fevereiro nas contendas do Nito Alves, foi recambiado para o Puto a retirar bala da perna, sugeita a cangrenar, e limpar as porradas, visiveis mazelas de sangue pisado por tudo que era corpo; levou uma vida a concretizar, construir uma casa na Luua, e que agora vale milhões de euros. De nada lhe serviu tal dedicação a guardar os Kwanzas do Saidy Mingas, um meu antigo colega de carteira na Escola industrial de Luanda.
Luua - do outro lado . o Musseque
Dentro dos muros altos que agora circundam aquelas casas, seguranças privados garantem a segurança de gente comprometida, metralhadoras AK 47 dão-lhes a condição de gente bem, gente de nome que semeia gazosas entre uma boa meia duzia de serviçais que lhes esfregam os sapatos, limpam os carros, brincam com os candengues bonacheirões e fazem compras na kitanda; a frota de carros de vidros esfumados, todos de luxo, brilham marcas de topo, range rovers, audis, BMWS e uma catrefada de motoristas fardados a rigor. Uma família da nomenclatura, governantes e afins ligados ao partido do poderoso EMEPELA, empresários do conforto que rumam à casa de luxo dos prolongados fins de semana no condomínio Taladona ou vão até á ilha do Mussulo em seus iates, curtir uma farra com os amigos em sua casa de beira mar. Entretanto suas damas tinham noticias frescas de Johanesburgo aonde desfrizaram seus cabelos e compraram uns muitos randes de roupas de marca; estavam todas com um ataque de nervos porque o seu avião privado tinha sido retido por diligências tontas que quase as impediram de estar ali a curtir a festa dos "rolexes" e, a Luua a andar, malembe-malembe.
Luua . A escola
Uma terra em que o vencimento mínimo é de sessenta e cinco euros, como é que o povão pode subsistir fora do seu kimbo, seu musseque, quando uma simples refeição de muamba com vinho carrascão fica entre 70 e 100 euros. Naquela Luua tudo é possivel, até alcatifar toda a gravilha do jardim da cidade alta para a festa duma sobrinha do Zéca; o bolo da noiva desceu do céu, gigante como era, foi necessária uma gua para o fazer descer entre pirilampos e fogo de artificio relampejante. O bufé teve nada menos que 10 pratos quentes e o champanhe moet & chandon correu como água. O mais impressionante, diz a jornalista Lacerda, é que a exorbitância da Luua, não é esporádica, é diária. Ali naquela especial nave aonde o índice de desenvolvimento Humano rasteja no desperdício da soberba, tudo custa facilmente o triplo do que custa em Lisboa. Quem quizer trabalhar em Angola prepare-se para gastar no mínimo 1600 euros só no supermercado e, por mês. Aquilo da Luua tornou-se uma terra de ricos que jorra dinheiro pelo tubo-ladrão, só para alguns, claro!... E o meu pai, que andou, andou por aí subsistindo como poude, para alimentar agora esta corja. E aonde está a Unita p´ra reclamar? Assim não brinco.
(Continua...)
O Soba T´Chingange
Segunda-feira, 18 de Julho de 2011
ANGOLA - PAÍS DA BANGA . XIV
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"PAULO FLORES.... e, a Kizomba"

Entre tantas estórias que merecem ser contadas por artistas, pensadores e cantores que circulam na Lusofonia com "sabor de maboque", destaco a voz meia rouca, meia misteriosa de Paulo Flores. Durante sua infância seus pais levaram-no para Lisboa aonde cresceu conjugando a memória, através da escrita, com os nomes do panorama musical e literário, «Um Olhar a uma Voz» (1990), dedicado a Cesária Évora de Cabo Verde e fotobiografia de Óscar Ribas, iniciou-se com a edição do seu primeiro álbum em 1988 com "KAPUETE, kamundanda" tornando-se rápidamente um popular cantor Angolano. Suas canções versam temas diversos como, a vida quotidiana da Luua, a guerra civil e a corrupção endémicamente enraizada. Músico, cantor e compositor, Paulo Flores é, actualmente, um dos expoentes máximos; seu instinto é a de um verdadeiro cantor que traz em sua voz toda a extensão do seu sentimento, subtilezas das anharas ou o simples chupar de múcua no morro da Luua.
Cesária Évora
Paulo flores redescobriu o ritmo da bossa-nova que se tocava nos Camarões na década de 40, e investigando sobre a base rítmica do actual kuduro, afirma-se convicto de que este, saiu do semba e da kazukuta. Os poemas tão concretos da vida, retratados, mostram o maior respeito pelo povo sofredor e os kotas, não deixando de satirizar as malambas da vida com o amplexo de se ser angolano. A sua força poética é indiscernível na articulação das palavras com o ritmo, uma simbiose muito sua, que nos desafia para, como reforça o autor do livro, “em qualquer lugar do mundo, reinventar a vida”. Aos 16 anos, surpreendia meio mundo como “menino prodígio da nova canção angolana”. E, aí está Paulo Flores ao lado de Bonga nos anos 80, numa Lisboa nocturna tão cheia de músicologos, onde foi crescendo procurando-se em diálogo e ritmo com sua Luua.
Jacques Morelenbaum
Com 20 anos de carreira e 11 discos editados, Paulo Flores sempre expressou sua herança patrimonial às suas mais vanguardistas músicas; uma toada de novas fórmulas abertas às demais influências musicais. A trilogia Ex-Combatentes (Viagem, Sembas e Ilhas) é o seu último trabalho. Três abordagens musicais diferentes que traduzem uma reflexão sobre o que sente perante as transformações que observa todos os dias da janela da sua casa; da toponímia ao quotidiano tudo mudou. Para esta primeira apresentação dos discos em Portugal, Paulo Flores conta com a especial participação de Jacques Morelenbaum, referência incontornável na actualidade da música brasileira. Paulo Flores faz-nos voltar àqueles velhos tempos do antigamente. Uma crónica de sonho, um belo,... muito belo dia, com a voz de Paulo Flores em fundo, suas “letras de forte memória” dancei; dancei na ponta da ilha com uma linda garina.
Discografia: Kapuete (1988); Sassasa (1990); Brincadeira tem hora (1993); Inocente (1995); recompasso (2001); Xé Povo (2003); The Best (2003); Ex Combatentes (2009)
(Continua...Teta Lando)
O Soba T´Chinhgange
Quarta-feira, 13 de Julho de 2011
ANGOLA - PAÍS DA BANGA . XIII
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"BONGA KWENDA.... e, a dikanza"
BONGA KWENDA
Os Kissueia que surgiu nos anos 60 no bairro Marçal, era um conjunto de músicos de intervenção angolanos que cantando a miséria dos musseques, fermentavam a mudança. Kissueia que em kimbundo significa o estado de submição de alguém, relembra práticas antigas esclavagistas comparando-as com a vida suburbana da urbe que cresce. A miséria tão evidente nos bairros periféricos de Luanda era levada à musica por ser a forma mais rápida de passar mensagem; a étnia crioula, mazombos intelectuais dos bairros com aduelas de barril incentivavam estas iniciativas um pouco por toda a capital da Luua, um laboratório ideal ao surgimento de estilos; Era ver qual o mais foito ou de maior banga introduzindo novos instrumentos e formas surgindo assim os estilos kazucuta (rosqueiro) e kilapanda com semba numa inventação de novos trajeitos no gingar e giboiar das mentes. Talvez, em o saberem estavam repudiando a própria lingua retorcendo-a em giria, fabricando novas maneiras de dizer coisa crioula; uma forma de reinvidicar banga muito peculiar do kamundongo.
BONGA na percussão
Naquele conjunto de cantores da kissueia surgem Bonga, Belita Palma, Artur Nunes, Sofia Rosa, Minguito, Luis Viscinde e o Maestro Vieira Dias. Entre estes Adelino Barceló de Carvalho, natural de Porto Kipiri, destaca-se criando o seu próprio estilo misturando a lingua portuguesa com o linguajar do Bengo e bairros de Luanda dando-lhe tipicidade ou uma marca própria. Isto, tornou Bonga no maior entre os grandes interpretes da miscegena Luua,... dum Bairro Operário ou Sambizanga. Porque era um atleta conceituado no atletismo, usa a liberdade de movimentos para passar mensagens entre compatriotas que transpiram independência e, fora de Angola tornando-se um nacionalista de referência. O timbre de indigente ignorância comportamental dos politicos e militares portugueses que em seu tempo não souberam gerir e colmatar, resultou no esperado 11 de Novembro de 1975. O rumo de guerra que se desnvolveu na grande Luanda e um pouco por toda a Angola levou-o a redefenir um rumo tendo ido para Holanda aonde havia uma forte comunidade de angolanos e gente miscegenada ida do Caribe, Curaçau e Aruba de trageitos de vida, e costumes muito similares aos desavindos da discôrdia; para Bonga, o contacto com outros ritmos e tendências era cativar seu ego de rouca voz em ritmos "calientes del caribe".
Dikansa . Reco-reco
Em 1972 lança o seu primeiro álbum "ANGOLA 72" adoptando o nome africano de Bonga Kwenda que significa em kimbundo "aquele que está à frente". Torna-se assim o rosto da angolanidade no mundo atingindo o estatuto simbólico de embaixador da música angolana. Bonga, em Paris, regista-se no consulado português com o novo nome artístico, Bonga Kwenda. É o primeiro africano Disco de Ouro e de Platina em Portugal. O seu sucesso estende-se para lá das fronteiras lusófonas actuando no Apolo em Harlem, no S.O.B. de Nova Iorque, no Olympia de Paris, Suiça, Canadá, Antilhas e Macau. O seu trabalho intensivo e metódico, e de uma imaginação criativa caracteriza a sua carreira. Em 1988 Bonga regressa a Portugal, dezassete anos depois de ter fugido clandestinamente de Kipiri como atleta de competição, à semelhança de Mingas. Bonga regressa não como recordista do atletismo, mas como recordista de vendas e popularidade, que canta música de intervenção, revolucionaria e carismática. Um dos motivos pelos quais Bonga não regressa definitivamente a Angola é porque a independência pós-colonial desintegrou-se em corrupção, tirania e guerra. Assim sendo, Bonga manteve uma aguda consciência crítica relativamente aos líderes políticos de ambas as partes sendo acusado por vezes de estar colado à Unita.
Principais albuns editados: Angola 72 - Angola 74 - Raízes - Angola 76 - Kandandu - Massemba - Malembe Malembe - Jingonça - Paz em Angola - Mutamba - Preto e Branco - Roça de Jindungo - Fogo na Kanjica - Kaxexe - Maiorais e Bairro, entre muitos outros.
(Continua...Paulo Flores)
O Soba T´Chinhgange
Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
ANGOLA - PAÍS DA BANGA . XIII
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"SOFIA ROSA.... e, a N´GOMA"
N'Gue Xile Ku Tunda Bu Sambila
Sofia Rosa nasceu no Ambriz, província do Bengo e viveu no bairro da Samba, em Luanda; foi um dos melhores criadores e intérpretes da música em língua nacional kimbundu, traduzindo o pulsar da vida da gente pobre, dando às suas interpretações um caris pessoal no contar dos lamentos de musseques, sanzalas e a vastidão do território. Enquadrando a nostálgica saudade na forma de aguarelas, uniu o preverso com queimadas, quimeras dum caminho feito sem chinelo no pé. Recordando a savana agreste em ritmo de reco-reco leva às suas farras kutonocas multidões a pedir mais, e mulheres de beleza arrebitada pulsando a vontade de viver num louvor de permanente kalumba (mulher); neste tema "kalumba" louva a beleza da mulher angolana com zelo familiar pintando cenários em contornos de letras que só ele sabia pintar. Sofia Rosa esteve vinculado aos Corvos, mas todo o seu talento artístico veio à tona com "Os Astros" com quem gravou além de "Kalumba" , "N´gue Xile Ku Tunda Bu Sambila" entre outras. O artista morreu em 1975 entre duvidas suburbanas, no meio de uma guerra "mona Caxito" sem côr para enaltecer. Em 1963 integra como cantor o agrupamento Teatral N´gongo, fundado por José de Oliveira Fontes Pereira. Participa numa digressão do grupo a Portugal e grava para a televisão o seu primeiro "single" em 1970, seguindo-se-lhe mais sete, todos pela Valentim de Carvalho.


N´gomas e dikansas
Os "Kissueia" faziam parte dos músicos nacionalistas que cantavam a mensagem sobre a necessidade do alcance da independência e Sofia Rosa, neste contexto introduz a dikanza (reco-reco) e as n´gomas (tambores de conga) nas suas canções com o som de violas acústicas. Sofia Rosa deixou um espólio inigualável, músicas como: Ku Mulundo, Kamba Uaia, Maria Dia Pambala, Makuinhadi ya Mivu, Imbua Ia Lu Boza, N'gala ni Kilofo Muxima, N´golo Binga Kuanzambi, N´ogonogó za me... mas, a destacar temos a tal kalumba (mulher), com um estilo próprio de uma época; a passada com "Banga ninita" no estilo de kaluanda / kamundongo, cuja tradução diz: Menina, olhe só para mim, não me faças vaidade, os meus olhos te estão a dar luta... repete, ai dor de amar... ai dor de pensar. Menina, responda-me só, dou-te tudo que pedires, te dou dinheiro e o meu coração... repete. solo! - Menina escuta as minhas palavras, eu sempre que me cruzo contigo nos caminhos, o meu coração abre-se, como uma rosa que quando recebe água abre-se, aceita menina...aceita, nasceram-me para ti, ai dor de amar... aidor de pensar... Repete!!!
(Continua... Bonga )
O Soba T´Chingange
Domingo, 12 de Junho de 2011
ANGOLA – O PAÍS DA BANGA .VII
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMB
"ESCÂNDALOS. Um país só é rico quando eliminar a pobreza"
Musseque. Antiga Praia do Bispo / Samba
Estamos na onda de surfar a vida com precauções acrescidas na preservação da reputação. Os "escândalos de encomenda" avivam a mídia a ser parte interessada na perpectuação do alarme ou até dum silêncio conveniente, dando-lhe um poder nunca antes visto ao portador de opinião, assim seja via Internete, jornal, TV ou rádio. A grande massa de consumidores da notícia, povo indiferênciado, não vê com bons olhos a impunidade dum político porque se sentem defraudados, por isso os actores de escândalos das últimas décadas, atingiram mais directamente os políticos do mundo Lusófono.
Obiageli Ezekwesili
Obiageli Ezekwesili, a vice-presidente do Banco Mundial para África defendeu que "é preciso envolver a população" e criar "confiança pública na forma como o governo está a abordar este tipo de problemas. Referindo-se a Angola relembrou: a pobreza e o excesso de população em Luanda são uma "bomba-relógio" e aconselhou o governo angolano a incluir os cidadãos na discussão sobre o futuro do país. E, disse mais:"Espero que os angolanos percebam a urgência de resolver este problema (da pobreza). Angola urbanizou-se muito rapidamente e quando olhamos para a capital Luanda vemos uma concentração massiva de pessoas e sinais diários de pobreza urbana que o governo precisa combater.
O Soba T´Chingange
Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
N´GUZU . I
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“Gente de bitacaia”
Em meus pensamentos acocorados na memória vesti a minha dignidade de sofer porradas nos tempos de candengue; amarguras entrelaçadas com saudade dos meus mais velhos que terminaram sua batalha de vida, essa quietude de sono feito morte; já lá vai algum tempo.
Tenho aí uma foto sarapintada a preto e branco, amarelecida do tempo e das caganitas de moscas mostrando um homem vestido de terno com colete, camisa branca, olhos vivaços com nariz e perfil de beirão e um impressionante bigode retorcido em curva ascendente.
O tempo legou-me a foto de meu avô que só conheci de falas, de quando embarcou para o Brasil para fazer fortuna mas que na volta só trouxe tuberculose; como diziam então minha avó Topeta e restante família “veio tísico” e teso como um carapau (referiam-se a dinheiro).
Nas chicotadas de um destino injusto, meu avô gozou enquanto pode; por lá se amilongou com uma mulata da qual teve duas filhas e, se forem vivas terão para aí uns 75 a 80 anos. Até aqui calei, não deixei falar meu coração emboscando palavras fervidas em minha garganta.
Candengues do Cassequele
Meu pai, trabalhador de pedra lascada, aparada e polida agarrou-se a antigas linhagens de fio de prumo e, seguindo as pisadas de tantos outros entrou num vapor de nome Mouzinho e embarcou para Angola. No Lucala quando da construção da ponte para o caminho de ferro de Luanda um dia internou-se no mato e teve a dada altura de subir para uma acácia perseguido por uma pacassa ferida a que e, se bem me lembro, ele deu o nome de solitário. Tinha consigo uma catana que de nada valia para se defender daquele búfalo e por lá permaneceu umas horas. Muitos anos depois voltou de lá com uma bala no joelho, carregado de porradas pintadas em nódoas negras. Os mwangolés do Nito Alves armados até ao tutano, gente de bitacaia, ensaiaram com ele uma guerra de cassequele e, botaram-no atráz do aeroporto de Belas que nesse tempo se chamava de Craveiro Lopes. O senhor Manel, meu pai, acabou por ficar nas Beiras e lá morreu naturalmente entre os pinheiros e capinzais de silvas no lugar de Barbeita.

FLOR DE MARACUJÁ . HORTA DO SOBA
Nestes tempos do Puto recordo conversas entre ele e com um amigo fubeiro, seboso de ranços e suor de caligrafia analfabeta, óleo de palma da venda do mato, sardinha e peixe podre, tudo escrito numa caderneta de linhas quadradas; falava à preto no livro da vida dele.
Levavam horas basculhando dixitas da “sua” Angola, “sua” Luanda com gente ajudando gatos e cães na sobrevivência urbana. Falar p´ra quê e, não dianta procurarmos mwangolés, generalistas, capitãnistas; não dianta procurar o que o destino já escolheu para lhes dar. Esses oficiais mais que tenentistas, muitos mesmo, nunca que foram na frente de combate, muitos numerosos confirmam não confirmar.
Muitos mwangolés agarraram-se às suas antigas e gloriosas famílias dos reinos colonos, mafulos e mazombos feitos fidalgos; gente de escassa memória p´ra tanta dignidade e previlégio. Muitos que vão exigir de ser chamados de excelência e excelêntissimos com camaradas na segurança de suas riquezas, carros esfumados, importados e descapotados.
As lições da vida têm de ser sempre passadas a limpo, só nossa morte é quem pode ficar em rascunho.
Glossário: N´guzo: - força, destreza (quimbundo); candengue: - rapaz, jovem; amilongou: - amigou, emancebou (união de facto); pacassa: - búfalo,; mwangolé: senhor de angola, que se diz angolano, ter pinta ou banga de cazucuta, desenrrascado com vidas paralelas; cassequele: – um bairro de revolução, bairro da Zita comuna; dixitas: - lixeiras, sugeira das barrocas; bitacaia: - bicho de pé, matacanha.
(continua…)
O Soba T´Chingange
Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
CAZUMBI . I
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“O Rosa morreu!”
O Vermelhão
….O diabo feito gente
O ilustre canalha morreu. Não o vi deitado no caixão com flores de plástico a contornar-lhe o semblante em almofada de setim. Não,…as flores não eram de plástico, tinha devotos amigos que lhe deram rosas verdadeiras e muitos cravos; todo ele ali rectiliniamente gelado era uma múmificada rosa. Antes ele que eu, mil e uma vez sussurravam em surdina seus amigos do ancestro passado, oferecendo pêsames no seu velório. Não sei se no sermão de sua alma o padre que imagino um fleumático encarquilhado comuna construiu um conto de terror borrifado de fantasmas escarnecendo-lhe o toutiço, encarquilhando-lhe a carcaça extraida por uma nefasta vingança.
Soube pela Internet que essa quietude mística da noite feita morte lhe bateu à porta.
Já não é necessário assassinar o malvado; defuntou-se condenado em sonhos agitados, cheio de muitos frios viscosos bebidos ao último suspiro do raciocínio infiel. Infiel,…creio que sempre o foi e, nos quintos do inferno vai ter que sofrer a prolongada dança que geriu a sua vida de terror.
Angola . do outro lado do tempo
A morte do Rosa não me impressionou, foi a naturalidade mais natural que lhe aconteceu; dessas mortes que se querem para sempre sem reencarnação ou roubo de identidade.
Atormenta-me um pouco, só um pouco ser tão indiferente à morte, mas esta não é a morte dum qualquer, … é dum filho da peste que só causou dissabores a tantos portugueses e angolanos.
Os fantasmas erguer-se-ão dos sarcófagos para lhe dar uma surra, lá no outro lado das trevas e deus me livre e guarde de vir a encontrá-lo numa qualquer esquina do futuro; não se livrará da minha catanada sem lamentos postumos, nem festejos de compaixão. Por agora vou enrolá-lo num charuto cubano, picá-lo com um palito, trincá-lo e fumá-lo até o o toco findar e o ronco de voz me queimar os lábios.
Em tempo algum escrevi algo tão cruel, mas safei-me do compromisso voluntário de lhe dar um tiro nos cornos.
O almirante vermelho morreu.
Deus é perfeito, a cada um destina a sua hora mas, que me desculpe, deu um relógio estragado áquele filho da peste.
O Soba T`Chingange
Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
ANGOLA, PAÍS DA GAZOSA . III
CORRESPONDENTES DO KIMBO
*MALEMBE-MALEMBE*
As escolhas do Exmo Embaixador do Kacuacu
“kianda Bonibioni da Katumbela"
A CAMINHO DAS INGOMBOTAS
Juca, no quintal das Ingombotas com os Ong´s
Juca, sempre sobreviveu das lagoa do Lifune, nas pescaria n´dele e, despois das confusão da independência e guerra cus búfalo e Unitas, foi para o kafunfo trabalhar cus feijão mas, a vida por demasiado, só lhe chorou.
Juca tem a minha idade mas as rugas fazem-no muito, por demais, mais velho. Naqueles entretantos longínquos, eu era o menino da xitaca, lá das cassoneiras e girangolos das n´nhacas mas, com o tempo virei patrão; do que ele me relatou à sua maneira sobre o como é agora, passo a resumir com aqueles trejeitos de quem sempre comeu de gosto, pirão com a mão.
Entre o Maculusso e a Nossa senhora do Carmo da Luua, já noite, pausa para o café das Ingombotas; no quintal das farras de antigamente, despejei conversa de puxa palavra e foram saindo conversas mas, hoje havia visitas importantes da UNICEF e outros espanhois das Asturias.
De quando em vez o galo maluco do vizinho Candinho esganiçava o canto bem no alto daquela carcaça velha duma Mágirus, toda cagada de branco, merda de pássaros e pombas santas do Carmo e uma ferrugenta geringonça com crivos em lata e funis virados para o espaço que ainda alimenta sonhos. É verdade mesmo! Esta máquina produz arco-íris nos dias de trovão seco e cacimbo murcho.
Mas!...
Juca, hoje só escutou o que diziam os kotas mais entendidos e gente mais estudada. Eram a Loue Huass, chefe da comunicação da UNICEF em Angola e Guilherme Márquez, chefe do programa SIDA em Luanda, Angel Noval Balbin, presidente da UNICEF-Astúrias da representação em Angola, Rafael Palácios, KoenVanormelingen, Kotas da UNICEF e António Helder dos Santos , director dum grupo de candengues do teatro. Todos, mesmo só falando verdades entre eles:
A violência provocada pela alteração de valores após a guerra, aflige Angola tão rica em recursos naturais que, representa por isso mesmo, o extremo da maldição (uma contradição, quase!...): instabilidade moral e politica, corrupção com ditadores de mansas maneiras e implacáveis práticas.
Roubam a riqueza da nação com uma violenta aversão ao compartilhamento do poder. É qualquer coisa parecida como uma anarquia democratizada.
Os mwangolés do futungo, senhores do tudo, dizendo ter senso de responsabilidade, dão benesses à a força de nomenklatura corrompida oprimindo o cidadão comum.
As riquezas engendram má governança e as instituições de controlo, funcionam sem uma observação legitima e efectiva sobre o roubo de fundos da nação. Um descarado abuso da confiança pública.
Aquela gente que fala caro disse mesmo que os “Sem-terra do Brasil” são uns senhores com qualidade de vida a comparar com as gentes do musseque “lixeira”.
Em Angola o progresso não tem horizontes, é solavancada por procedimentos bizarros. Compram-se titulos de doutor, de engenheiro, de chefe de qualquer coisa e depois entram nas Universidades do Puto a copiar Sócratas o kota ministro de lá.
Meu!... assim, como é mesmo que não vai dar corrupção na incompetência.
Angola não anda!...Só caminha mesmo.
A Luua é uma miragem do “após-calipso”,com carros de tracção a dez rodas e asas voadoras para passar rios de merda, vuzumunando mau cheiro, fedorenta mesmo; e, quem vai poder esquindivar ?...
Angola ainda não é um país,meu!...é uma inicuidade incrivel de miséria enrrolada em faz-de-conta e carências desumanas. Os “sem-nada” vão se desenrrascando, só.
(Continua....)
O Soba T´Chingange
Sexta-feira, 9 de Abril de 2010
ANGOLA, PAÍS DA GAZOSA . II
CORRESPONDENTES DO KIMBO
*MALEMBE-MALEMBE*
As escolhas do Exmo Embaixador do Kacuacu
“Jacaré kianda Bonibioni da Katumbela”
LUANDA . ROQUE SANTEIRO
Pópilas!...
Juca Kat´chipemba falava dos antigamente, naquele linguajar próprio de quem só sabe falar, das cuesas que lhe mexiam na cabeça e que não estava mesmo certo; a todo o momento jurava que, sim patrão, jura mesmo, o país num anda; só caminha.
E, eu ali estava, bem por demais, debaixo daquela mulembeira do Kacuacu; nos frente era só capim e, lá muito no longe, despois dos embondeiros e os mato cheio de bissapas, se viam as luzes do lusco-fusco de Luanda.
No despois do almoço do Lifune de cacússu com mandioca de funji, por ali ficamos, só falando e rindo no catravés doutros tempos, de quando nós éramos candengues e garrávamos rabo-de-junco e piriquitos juntos e, dávamos berrida nos lagarto pintado de colonialista, vermelho e verde, sempre sustando a gente nos pedra dos cajueiro e os maboque que garrávamos na estrada de Catete!
Haka! (...) Patrão, tem saudade daqueeeele tempo, jura mesmo! (...) Agora esta terra só tem kissonde rico! No resto, tudo nas maioria, é mesmo pobre.
Angola, sendo duas vezes maior que Espanha, com aproximadamente 16 milhões de habitantes, 70% da população vive com menos de 1,7 dólares por dia. Sendo Angola o maior exportador de crudo de petróleo, a riqueza só está na mão de uns poucos.
Angola com uma economia forte e crescente, é um país de contrastes com um comportamento raro social tendo 80 % de pobres com extrema penúria, comparaveis à população do Haiti e, tendo uns poucos muito ricos, inchados de prepotência; estes apresentam-se aos demais com carros do ultimo modelo de vidros esfumados. Que se saiba, há um carro todo em ouro de um desses magnatas de factor P3: “ prepotência, poder e petulância”.
O aluguer de um pequeno estudio do tipo A zero tem o preço absurdo de 3000 dólares ao mês e um simples quarto de uma qualquer casa de bairro de Luanda, fica por 250 a 300 dõlares por mês. Estes preços excessivos tornam Luanda na cidade mais cara do Mundo; ainda mais que Tóquio ou Nova York , um absurdo!
Estando Angola num surto de desenvolvimento superior a 14 %, tornando-a no país com maior ascenção por via do petróleo, apenas 15000 cidadãos têm emprego fixo e estável. Serviços básicos de fornecimento de água, energia e recolha de lixo, são sumamente defecientes.
A “Luua” não só é cara como insegura e, não o é só para estrangeiros; os cidadãos nacionais sentem isso na pele, no dia a dia. O estrangeiro é olhado de vies e a ele é-lhes exigido todo o tempo a factidica “Gasoza” e sofre algumas contrariedades perante os angolanos kamundongos. Os naturais de Luanda “menos cultos”, matumbos, retaliam com minudezas linguisticas (uatobam) e giria os não nacionais entre os quais os tugas, portugas, besugos, gwetas de tugi, mazombos do puto. Os Chineses então, nem falar, ficam abaicho de cão e chamam-lhe os canibais,... Os mujimbos dizem que comem gente nos pik-niques com tira gosto de cobras e cachorros em espetadas entremeadas de pimentos e outros vegetais. Pópilas!
Contra “os xinas” os “muxoxos” do povo até espirram canivetes de jindungo. No bairro da lixeira (dixita da Luua), chamam aos amarelos de “diquixes” (monstros de mil cabeças)
Na Luua aonde acontecem comportamentos absurdos, o lixo transborda nas avenidas, nos muceques, nas praças e pracetas. Pode comprar-se pasteis em bancas improvisadas tendo ao lado um rio de água de esgoto correndo a descoberto.
(Continua....)
O Soba T´Chingange
Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
CURIOSIDADES
ANGOLA E O MUNDO
A mulher mais poderosa de Portugal é angolana - Pedro Santos Guerreiro
MULHERES DE ANGOLA
Lisboa - Portugal tem muitas mulheres importantes, algumas são ricas, poucas são poderosas.
Uma é as três coisas. Tem 36 anos e não é portuguesa. É a angolana Isabel dos Santos.
O "dinheiro dos angolanos" pesa sobre muitas consciências
Os angolanos são entronizados em Portugal
Dizem que detesta ser tratada como "a filha de José Eduardo dos Santos". Pela maneira como se está a afirmar em Portugal, um dia trataremos o Presidente de Angola como "o pai de Isabel dos Santos".
É a nova accionista da Zon. E de muitas outras empresas. Uma atrás da outra, todas lhe estendem tapetes. Tapetes verdes, da cor do dinheiro.
A mulher mais rica de Portugal, segundo a "Exame", é Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo Silva, com uma fortuna de 731 milhões de euros. Não tem metade do poder de Isabel dos Santos.
E tem apenas uma fracção do seu dinheiro: só na Galp, BPI, Zon e BESA, a empresária angolana tem quase dois mil milhões de euros. Fora o resto.
A lista dos dez mais ricos de Portugal está aliás cheia de pessoas que fazem negócios com a família dos Santos. Américo Amorim é sócio de Isabel na Galp e no Banco BIC.
Belmiro de Azevedo, segundo foi noticiado, quer ser parceiro de distribuição em Angola.
O Grupo Espírito Santo tem interesses imobiliários, nos diamantes, na banca. Salvador Caetano tem concessões. O Coronel Luís Silva acaba de fechar negócio para vender acções da Zon a Isabel dos Santos.
Zon onde João Pereira Coutinho e Joe Berardo são accionistas.
Da lista dos mais ricos, só a família Mello e Soares dos Santos estão "fora" da geografia.
O "dinheiro dos angolanos" pesa sobre muitas consciências.
Soares dos Santos foi o único a assumir publicamente o desdém pelos níveis de corrupção de Angola.
Isabel dos Santos é accionista da Zon e sócia da PT.
É accionista do BPI e sócia do BES.
É accionista da Galp e a Sonangol é parceira da EDP.
A empresária garante que não tem relações com as actividades do seu pai e da estatal Sonangol.
Identificando todos os interesses em causa, as relações de sociedades portuguesas alargam-se ainda à Caixa, Totta, BPN e Mota-Engil. Dá um índice bolsista.
O que faz com que tantas empresas portuguesas implorem para fazer negócios com Isabel dos Santos?
E que Isabel "jogue" em equipas rivais, concorrentes confessos em Portugal, sem um pestanejo?
Só uma coisa consegue tanto unanimismo: o dinheiro.
A liquidez angolana, que desapareceu de Portugal. A contrapartida de acesso ao crescente mercado angolano.
Os portugueses não abrem os braços a Isabel dos Santos, abrem-lhe as carteiras - estão vazias.
O casamento entre angolanos e portugueses tem as prioridades do das famílias feudais: o interesse está primeiro, o amor virá depois, se vier. E o interesse é recíproco: os angolanos são entronizados em Portugal e na Europa; os portugueses são-no em Angola e em África.
Não há equívocos, há dinheiro.
Os últimos dois grandes negócios de Isabel dos Santos em Portugal, no BPI em 2008 e na Zon em 2009, tiveram uma curiosidade cabalística: ambos foram fechados na terceira semana de Dezembro, ambos de 10%, ambos por 164 milhões. Na Zon, pagou um prémio de 26% sobre a cotação.
Comprou caro? Comprou mais barato que os accionistas que estão na empresa. Comprou bem.
Isabel e José Eduardo construíram um poder tão ramificado em empresas portuguesas que só o Estado e Grupo Espírito Santo os ultrapassarão.
Tanta concentração de poder é mais ameaçadora do que uma nacionalidade.
Em Portugal, Isabel e José Eduardo não são Santos da casa mas fazem milagres.
Fonte: Jornal de negócios MULHERES DE ANGOLA
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
MAYOMBE 2010 . III
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
Na floresta do Mayombe
ENCLAVE DE CABINDA
Quarenta e tantos anos depois estou no “Brasil”, terra de matutos, piratas e almocreves tropeiros, vendo ao longe a terra que me deu luta em dois anos cobiçados numa paz que não se chegou a firmar: - Cabinda!
Mudam os ventos, mudam as politicas e, enganam-nos, sem outras formalidades ou aqueles trâmites chatos de explicar o inesplicável. A notícia no Puto empolga os defensores duma outra integridade explicitada na envergadura patriotoca ao EmPeLá. A bajulação continua; a submissão, também.
Os filhos do Puto, empoleirados em casos de galhos gordos, confundem e obstroem silêncios de raiva arrumada como um tufo de seu pasto, a propósito.
Mais seco e com a idade bastante riscada, atrevo-me a dizer que este CAN.2010 é em Cabinda, um atentado ao tratado de Simulambuco, feito algures ao largo da foz do rio Zaire na corveta Rainha de Portugal entre o capitão-tenente Guilherme Brito Capelo e os chefes locais de Cabinda e Bumelambuto.
Desde entâo, 22 de Janeiro de 1885, decorridos que são cento e vinte e cinco anos após tal tratado que preservava a floresta, os habitantes Fiotes e os bichos, deparamos que preservar esses valores naturais, como então se fazia constar, agora e na Angola do Zé-Dudu, esses mesmos valores tornam-se irrelevantes por um acto de liberdade feito com metralha pelos homens da FLEC.
Há convicções ou ideias que precisam de ser expostas ou defenidas por um exercício de cidadânia na vontade firme de se sêr livre. E, quanto a isto pergunto:
- Não vai este CAN ser o início de uma sucessão de soberbas excrecências políticas?
A prosápia Kaluanda do Zé-Dudu leva a decisões envenenadas, pretensa reforma com ideias de perpectuar o seu mando, seguindo as pisadas loucas do Ugo Chaves da Venezuela. E, o povo Imbinda, menosprezado, vai ter de se acomodar ao deixa andar, arejando farras novas no Kinaxixe para engodar consciências?
Este filme já foi visto à pouco mais de um século quando o Império Colonial tinha supostos amigos e aliados da Lusa Pátria.
Os sem dinheiro, pelintras almocreves kaluandas, irão continuar a sobreviver vendendo bugigangas nos cruzamentos da Luua, sem nada perceberem.
( Continua......IV )
O Soba T´Chingange
Domingo, 24 de Janeiro de 2010
PESTANADAS
Notícia antiga, derrogada

Juro por tudo, não queria tratar este assunto. Até já tinha uma crónica prontinha para o número de Janeiro, falando de coisas mais interessantes. Mas houve alteração de programa e pedem-me os editores para escrever sobre algo relevante que aconteceu este ano em Angola, a jeito de tiro final.
E sou obrigado a cometer o que recusava fazer: escrever sobre lambe-botas, atipicismos e outras esdruxulices que relampejaram nos calmos e previsíveis céus da política cá do burgo. (Angola)
Há tentativas de revisão constitucional, comissão, metodologia e propostas para se conseguir obter nova lei magna. Parece ser desperdício de tempo e talentos. Para alguns será sempre um ganho, atirando algumas questões importantes para mais longe, mas a insinuação vem de maldade minha, concedo.
Só num aspecto me parece útil, e diz mesmo respeito ao sistema do poder: se acabarem com o dito semi-presidencialismo, fico contente. Porque essa invenção francesa, talvez sirva para eles, que sempre foram de andar entre o peixe e a carne.
Para o resto, não vejo utilidade de tanto dinheiro gasto para se mudar uma lei. Ainda por cima se não se respeita a metodologia adoptada para o fazer. Muito provavelmente, só o peixe miúdo vai apanhar com essas regras em cima e forçado a obedecer, pois os graúdos passarão por cima dela com 4x4 de luxo.
Afirmo, fazendo chover mais no molhado, um partido mudando à última hora a proposta que todos os seus membros defendiam a golpe de catana se necessário fosse, presumivelmente estará a jogar contra os regulamentos. Se fosse um cabulas qualquer a tentar jogar em fora de jogo, logo o árbitro lhe dava cartão vermelho. No entanto, a Constituição que vai ser mudada nunca foi cumprida, o semi-presidencialismo idem, quem duvida?
Mas o espantoso não é isso, estamos habituados a que não se respeite metodologias e acordos passados; o espantoso é que bastou o chefe dizer que talvez tivesse outra ideia para todos declararem que nunca estiveram de acordo com a proposta apresentada com fanfarra e fogo-de-artifício, para se arregimentarem militante e agressivamente atrás da palavra do chefe. E lá vimos os mesmos de sempre a argumentar convictamente sobre a perspicácia, a ousadia intelectual, a inovação, etc. (já se conhecem os encómios dos discursos de fim de ano ou de aniversário)...
O lambe-botismo de alguns políticos e comentadores raia a sem-vergonhice mesmo. Estão lá só para cantar angélicas melodias aos ouvidos de quem manda e apanhar as migalhas. O problema é que de tanto lamber botas os responsáveis menores e intelectuais de plantão já têm a língua áspera como lixa. De onde se conclui que o melhor militante é o que tem língua de gato. Por isso, a entrada para um próximo congresso será a aspereza da língua.
Certamente 2010 trará novas surpresas. É a nossa idiossincrasia. Por isso deve haver presidencialismo puro e duro, sem atipicismos moderadores, ou sim ou sopas, ou carne ou peixe, abaixo o semi! A propósito, só uma dúvida: bacalhau é mesmo peixe? É que se aproxima o natal e nós comemos bacalhau com vinho tinto, como se de carne se tratasse. Perplexidades típicas de afrancesados!
Pepetela
Concordo!
O Soba T´Chingange
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
DESABAFO DE UM ANGOLANO
CORRESPONDENTES DO KIMBO
EMBAIXADOR DO KACUACU
A BANGA NO SEU EXPLENDOR DE PALANCA
CAN . 2010
Este CAN para mim é só mais uma demonstração do rumo que este país esta a tomar.
Em minha opinião poderiamos organizar um CAN sim mas não agora, nem nestas condições.
O que é que Angola quer mostrar ao mundo? Porquê que queremos mostrar aos estrangeiros que estamos a "subir" quando na verdade a vida do Angolano continua mal? O que é mais importante para o país?
Soube ontem que há sectores da funçao publica que ainda não receberam o 13° salario de 2009.
Luz e água nem sequer há na capital. País que organiza o CAN só consegue ter com irregularidade. Construimos hoteis novos mas temos o Hotel Turismo, Meridien, Panorama a cairem aos pedaços.(nao sei em que estado estao hoje)
Acompanhei pela TPA a caravana da selecção quando se dirigia ao estadio, engarrafamento vergonhoso a 1 km do estadio. Nem acessos em condições para o estadio conseguimos criar.
O guarda redes do Togo é baleado em Cabinda, atrevessa todo pais para ser atendido na Africa do Sul!!! E os hospitais de Cabinda? e de Luanda? Não têm qualidade? Claro que não; a qualidade é apenas para os estádios e para os hoteis. Hospitais não fazem parte das prioridades, alias os Angolanos são tão especiais, que nem sequer ficam doentes!
Esta nossa mania de viver de ilusoes e aparências quando é que vai terminar?
Vamos fazer festa com o CAN, grande show de inauguração, espectáculo nunca visto em África, estádio com sistema de iluminição 3 x mais potente que o do Stade de France em St Dennis, etc, etc e bla, bla, bla.
Quando tudo acabar continuaremos com todos os nossos problemas que "não se podem resolver porque saímos agora de uma guerra", para organizar o CAN (não houve argumento de estarmos em paz ha pouco tempo).
O terminal do Aeroporto 4 de Fev. foi restaurado para receber os visitantes na altura do CAN. Depois de décadas e décadas de reclamações de Angolanos q aquilo estava mal e precisava de ser melhorado. Parecia um problema sem solução, mas o facto é que por causa do CAN tivemos o Aeroporto reparado em 6 meses!!! Afinal era possivel !!!
São apenas alguns exemplos que espelham o rumo ( ou desrumo ) que este pais está a tomar.
Mesmo que individualmente consigamos "nos safar" por conseguirmos meios de enriquecer através de business, esquemas, corrupção ou comissões, a nossa vida continuará mediocre. Porque nossa sociedade está doente, não existe ordem!
O Soba T´Chingange
Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
BITACAIA TUNGA
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
Tunga penetrans
Durante duas noites senti uma comichão no dedo grande do pé direito, bem junto à unha; este desconforto, não sendo acentuado, transtornava. Se não dei nenhum tombo, teria de haver uma explicação para tal. Mas, aconteceu ter dado uma topada num pé de cadeira e, observando melhor achei conveniente lavar o pé com água morna. e ver à lupa.
Pé com matacanha
Em uma bacia, com aquela água, limpei melhor toda a área do pé. Foi quando reparei num ponto negro circuncrito por um circulo de um tom mais amarelado. Está aí!... Esse ponto negro era uma pulga matacanha.
Tinha tido um bicho destes em Luanda e, como tal, não me surpreendeu nem me atormentei. Essa coisa, foi a minha crisma ou o carimbo da angolanidade e desse modo obtive a chancela de camundongo sanzaleiro. Não havia nesse então o termo de cazucuteiro nem tão pouco de kizombaqueteiro.
A pulga bicho-de-pé
Tudo isto, aconteceu porque fui até ao pântano e de forma descuidada, chinelo no pé, cruzei os charcos da minha kianda bem por detrás da minha casa grande, branca de barras azuis.
Após amolecer a pele, com um alfinete fui contornando cautelosamente o círculo composto pela bolsa da pulga e o que ficou foi um buraco de carne esponjosa no tom vermelho de sangue.
Lembro-me que em Angola me meteram um morrão de cinza de cigarro negrito "caricoco" ainda quente, mas aqui resolvi desinfectar com metiolat, uma solução parecida com a de mercúrio-cromo.
Bicho-de-pé é como se chama aqui em Brasil. Em Angola tem o nome de matacanha, bitacaia ou bicho-de-porco; em Moçambique toma o nome de zunga ou xiquexique.
O nome cientifico do bicho é "tunga penetrans" sendo um insecto da família dos fungídeos. Apanha-se na terra, junto a capoeiras, pocilgas ou na praia, e por isso também é conhecido com essas terminações.
O saco da matacanha
Por tudo isto, fiquei enriquecido na minha cidadânia pois que medalhado desta forma fico agora com a chancela de mazonbo de Angola e Brasil, um cidadão do mundo.
O Soba T´Chingange
Domingo, 27 de Dezembro de 2009
SABOR DE MABOQUE . II
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
" No Palácio do Governo”
Ainda falando do livro de Dulse Braga recordo:
O LIDRO DA DULCE BRAGA
Recordo que um pouco de mim por lá ia ficando, ficou; reinventando a minha própria vida recreei ideias novas, alguns ideais velhos noutras ousadias.
Peregrinando maleitas desfrisei a vida descruzando agouros de tempos bafientos. Havia recíprocas saudades com odores de mamoeiros na parte de trás do quintal.
«Aquela foi uma longa e tensa viagem. Quando paravamos o carro nas barreiras militares, perscrutávamos cautelosamente os símbolos das farda, o dialeto que falavam e a compleição física dos homens para termos a certeza de que não pertenciam ao MPLA. Por morarmos no Bié, provincia dominada pela UNITA, tinhamos sido forçados a nos filiar a esse movimento que emitia uma carteira de identificação. A minha, eu havia perdido em Silva Porto (Cuito). Esse registo era como óleo lubrificante nas barreiras da UNITA, mas podia significar a morte numa barreira do MPLA.»
Isto que Dulce refere em seu livro eram instruções básicas que serviam para ambos os movimentos armados.
« Dia 27 de Agosto de 1975, já em Luanda, fui com a minha mãe à igreja da Nossa Senhora dos Remédios, que servia de Sé de Luanda desde 1897, na actual rua Rainha N´Zinga (Jinga) M´bande que viveu entre 1583 e 1663; filha de N´Gola Kiluanji Kia Samba, o rei de cujo nome saíu a denominação de Angola. Só no Brasil é que vim a tomar conhecimento da verdadeira história da minha terra; em tempos coloniais só nos davam a conhecer os padrões plantados ao longo da costa e pouco mais.»
Eu, O T´Chingange, nesse então, estava em Luanda como deslocado e desalojado. Ido da Caála com uma guia de marcha apresentei-me no Palácio do Governo e e ali fiquei como destacado ajudando outros funcionários do Quadro Administrativo a tomar o avião o mais rápido possivel para o Puto.
Com um salvo conduto assinado pelo ultimo Governador de Angola o Alto-Comissário Leonel Cardoso movia-me com alguma facilidade e, sei o quanto são verdadeiras as descrições do dia a dia de Luanda, a carência de viveres enquanto na periferia, num tal cinturão de defesa rebentavam granadas que mais não eram para provocar o medo. Afugentar os brancos seguindo as ordens do Almirante Vermelho Rosa Coutinho.
No palácio eu, ia avisando pelo telefone os Administrativos, Administradores e angariadores do contrato, alguns perseguidos: - que se deviam encaminhar para o aeroporto Craveiro Lopes (ou de Belas).
( Continua... a ponte dos retornados...III)
O Soba T´Chingange
Sábado, 26 de Dezembro de 2009
LUANDINO E OS MAZOMBOS
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
O LIVRO DOS GUERILHEIROS
Começo por exclarecer que mazombo é o nome dado aos filhos de brancos Portuguêses nascidos a partir de 1640 em Pernambuco. Embora não houvesse nesse então, muitos brancos e brancas em África, já havia no entanto brancos, filhos destes, nascidos aí. Foram os primeiros brancos, nativistas dos actuais brancos também referênciados como brancos de segunda e que originaram a prole de mestiçagem que constitui a sociedade Angolana de hoge.
Neste livro de Luandino, mazombo surge como um vocábulo depreciativo de palerma mas, está àquem do termo verdadeiro atendendo à semântica comungada entre Brasil e Angola com Governadores Gerais comuns. Estes, normalmente eram os Capitães da armada Real que assumiam ambos os cargos e daí transladarem homens feito escravos, para suas capitânias do Brasil.
O livro de LUANDINO
As armadas eram subdivididas e, do regresso do Brasil levavam n´zimbos, buzios de boa cotação para aquisição das “peças”, o nome dado aos escravos. Este dinheiro veio a ser substituido por libongos ou panos, e mais tarde dinheiro em bronze, com o nome de macuta.
Nesta crónina bregeira, sou um mazongo bezugo com direitos irreconhecidos à nacionalidade Angolana mas, quero lá saber disso,... Já sou soba à muito tempo pr´álem de ter sido vizinho deste meu patrício e amigo Luandino Vieira na rua de Oliveira Barbosa, paralela ao rio seco, não muito distante da Cacimba da Maianga ou Manhanga e perpendicular à António Barroso. Bem,... eu morava na rua José Maria Antunes, uma rua que quando chuvia também parecia um rio.
A dedicatória do livro faz-me justiça pois que logo a seguir aos rios velhos vem: - Ao C. M. (T´Chingange), camundongo e amigo, assinado um êlle com rabiscos em forma de êmmes e um Òoo mal fexado no final,... um traço por debaixo.
E, uma pequena parte do livro fala assim:
«...”era uma vez no tempo que não tinha minas nas picadas, a gente ainda andávamos descalços de medo. Neste tempo agora, ele, Makongo, cheirava o chão mata e ar, mas sempre queria se vanguardiar, todo voluntário em itenerário perigoso. Nosso comandante, o camarada Ndiki Ndia, assimilado como era, aceitava. A gente, deixávamos; ninguèm pedia crítica ou autocrítica – na vida não deve se contrariar miondona de cada qual, ponto de ordem. E a dele, as dele, de geração eram, isso era: o Kinjila Solongongo que no voo não pia só, arripia também. Porque três vezes o voo da mina, por perto ou por longe, e ele já se cambalhotava no pó, placado nos zungais depois do estoiro. No minuto de antes saquelava, era quimbanda de perigos. Se diz que nessas horas ouvia-se sempre o piado do holococo voando muito alto.”...»
O Soba T´Chingange
Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
LUANDA . ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX . 2ª PARTE
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
Postal d’uma época - II
LUANDA . FORTALEZA DE S. MIGUEL
Na praça dos Correios no meio do jardim de acácias e jacarandás ficava o coreto aonde dentro de momentos iria tocar a banda do Regimento de Cavalaria e Expedicionários do Reino.
Havia um coreto muito melhor ornamentado em frente ao Palácio do Governo. De vêz em quando Paiva Neto, ia lá às festas organizadas pela esposa do Senhor Governador juntando a gente notável daquela Luanda, tão cheia de pó com cheiro ocre, fuba fermentada e peixe podre curtido.
Os serviços administrativos ficavam lá na Alta ladeando o palácio, a imprensa do reino aonde já se publicava o Boletim da Colónia estava bem perto.
Na Praia do Bispo intercalado com mato, espinheiras e piteiras escondiam-se umas cubatas de pescadores que na falta de melhor agarravam tainhas com fateichas, faziam esteiras por encomenda e curtiam a preguiça estirados na sombra dos coqueiros.
O Alto das cruzes aonde se enterravam os mortos ficava bem do outro lado no topo das barrocas arenosas e, também por lá perto ficava a lagoa do Quinaxixe rodeada de imbondeiros e muitas piteiras de chinguiços agrestes.
Um dia, Paiva Neto aventurou-se subir até Quinaxixe e jurou para nunca mais, chegou esfalfado que sob o susto assistiu a uma macabra visão de gente negra cortando o pénis a crianças. Ficou a saber que não era bem isso; tratava-se do culto da circunscizão a filhos de trabalhadores assalariados do Caminho de Ferro. Estes assalariados contratados em terras de Ambaca e Pungo N´Dongo que viviam no bairro do Maculusso faziam questão de fazer valer suas práticas de cultura e higiene.
O Comboio apitou ao sair da estação da Maianga, lugar em que Paiva Neto ia com frequência instruir funcionários de segunda linha ou seja auxiliares de vigilância e capinadores do tramo até o Bungo no sentido descendente e, do outro lado até às oficinas do lugar de Vila Alice, um bairro novo para funcionários administradores da nova via de Ambaca. Mais tarde a via estendeu-se até Malange.
O capim desordenadamente acastanhado defenia as inexistentes infraestroturas bulhando com o vento; detinha-se nos muros esfarelados em caliça de tijolo de só barro, nem cozido nem fermentado, só taipa caiada em cal de mabanga queimada. A sugeira era espantada pelas patas ágeis dos galináceos buscando matacanhas entre pocilgados lugares. Num lugar mais recatado havia sempre uns tufos de chá caxinde da qual a N´ga Mingas fazia refresco e muitas vezes chá cheiroso.
( Continua... as avé marias da Igreja do Carmo ... 3ª parte )
O Soba T´Chingange
Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
MOCANDA . 1ª PARTE
CORRESPONDENTES DO KIMBO
Gentileza do Embaixador do Kacuacu
Em-garrafa . I
NA LUA
Meu Kamba Soba ;
Já deves estar a me falar mal né? Epá, sabes como é a vida aqui está a ficar apertada, e os kumbús cada vez mais coxito. Agora fui mas arranjar uma 2ª dama, uma miúda m´boa ali do BO e que está a dar cabo da minha cabeça, e do meu bolso (é toda hora dinheiro para pagar Universidade, escola de condução, e saldo para o telefone e outros mambos e quê ?...)
Mano, a nossa Luanda aqui continua cada vez mais na mesma, só que agora deixou de ser a cidade da Kianda passou a ser “ Noanda” a cidade que não anda! Há umas semanas atrás aqui na zona da Boavista um camião contentorizado avariou e foi um caos, nenhum carro passava, um autêntico engarrafamento. Naquele dia era mesmo “ Angola em Movimento”, uma maratona de todo mundo a apear.
É meu mano, a engarrafobia é uma doença que já esta a tomar conta da Lua. Longas filas de carros, estradas esburacadas, ruas fechadas tudo mal. S. Tomás que manda nos Transportes no ajuda só uê, kota das Obras Públicas deixa ainda um pouco de lado as obras privadas e se preocupa também com as obras públicas, deixa também de rodeios e resolve só as makas das estradas meu! Tia Xica da Lua, você que está com a bola toda, que arrancaste com toda a força, resolve os mambos e pelos menos nos promete: Estradas novas.
Por causa dos engarrafamentos, os candengues lá do bairro já chamam o tio Zé Domingos de: “Man M´baia”. É porque o kota anda a cortar caminho para fugir os engarrafamentos nas estradas chamadas primárias, pois aqui há as secundárias, terciárias e etc. Andam todas congestionadas e ele tem de estar a fugir delas e seguir nos becos a fazer o movimento dos taxistas:
Por isso agora, nome do tio Zé virou Man M´baia.
Olha só Soba, até na igreja o engarrafamento é também motivo para te sacar kumbú. No outro dia o pastor da igreja Universal - Única e Verdadeira da Salvação, quer dizer Unidos Vamos Roubar o teu Salário. Queres ver, começou já o culto assim . É angolano mas está arranhar brasileiro, porque este sotaque é melhor para enganar o povo:
- «Meu irmão, você que mora lá no Benfica, você que guenta engarrafamento todo dia, você que não tem Jesus na sua vida. Hoje eu tenho uma palavra para você: Jesus vai te mostrar o caminho, vai te abrir as estradas e acabar com o engarrafamento na sua vida. Porque esse engarrafamento meu irmão é coisa do Demónio! É o Demónio que não quer que você chegue cedo ao serviço, é o Demónio que provoca o engarrafamento para lhe atrasar sua vida. Por isso está amarrado no engarrafamento na sua vida! Meu irmão, não pense que o engarrafamento que você enfrenta todo o dia é culpa do Governo, não! Ele é obra do Demónio, pode crer.
Por isso o Pastor Jonas vai levantar as mãos, e vocês vão fechar os olhos, depois vocês vão contribuir com o seu dinheirinho para a campanha de combate ao "em-garrafa"».
Já viste Soba, hoje já em-garrafamento é coisa do Demónio? Não é mais culpa do Governo, das estradas esburacadas, dos taxistas e etc..?
Aqui mesmo, ganhar dinheiro é fácil, porra pá.
( continua... em-garrafa II )
O Soba T´Chingange
LUANDA . ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
Postal d’uma época - I
BANCO DE ANGOLA
Bungo, ano de 1899
A serenidade daquela domingo convidava a passear ao longo da praia a partir da nova estação do Bungo, passando pela Ermida da Nazaré até aos armazens de óleo de dendê e peixe seco na base das barrocas da fortaleza de São Miguel.
Os coqueiros ao longo da areia davam um toque edílico àquela baia mas, à medida que ia chegando ao cais de pesca o mau cheiro da maré baixa fazia-se sentir entre ondas de vento sopradas da terra e o caserio; valas negras desaguavam sem ordenamento no mar das tainhas.
Paiva Neto, tinha ido anos atráz trabalhar na construção do Caminho de Ferro de Luanda-Ambaca e por ali ficara num sobrado de uma casa senhorial por detráz da Nossa Senhora dos Remédios, futura Sé de Luanda.
A Real Companhia dos Caminhos de Ferro teve início com a adjudicação Régia em 25 de Setembro de 1885, catorze anos atrás. O acordo de Berlim com a sequente divisão de África pelos países emergentes levou o Puto a sair da letagia e mostrar uma efectiva ocupação do território. Até então só enviavam degredados, gente desclassificada, rufias da sociedade.
Angola em verdade era uma colónia penal que albergava os indesejados da metrópole.
A Luanda daquele então ia desde o Bungo até ao largo D. Henrique logo a seguir ao cine Nacional ligando à cidade alta por uma ingreme ladeira calçada até ao Palácio do Governõ. Numa quase avenida larga e quase sem casas subia-se suavemente até o novo e imponente Hospital Maria Pia.
As lojas situavam-se ao longo da rua da Sé alongando-se até às residências de mestiçagem nobre enriquecidos no negócio negreiro, tascas aonde a azafama de homens de fato domingueiro passavam o tempo falando das coisas do mato, a roça e as desventuras de vidas dos outros; por breves lapsos dum passo lento no largo dos correios apercebeu-se que contavam estórias do Zé do Telhado.
Entre nesgas de esquinas e os imbondeiros da Mutamba, via-se a encosta que dava para o bairro mulato das Ingobotas com a Igreja de nossa Senhora do Carmo em primeiro plano. Naquele aglomerado, as casas de quintal eram ladeadas por cubatas, muros contornando a burguesia crioula; frondosas árvores de mangueiras com tamarindo lá nos fundos das aduelas de barril, tinto do puto.
Os mamões de quintal contrastavam em beleza com as piteiras que enfileiravam um inviezado de posse-á-toa. A areia fina repisada alojava no subsolo as formigas leão que os candengues chamavam de fuca-fuca; com arcos de brincar corriam meio desnudos fazendo competição com carros de fingir feitos de arames e motores de boca com brrruns-brrruns saindo a cuspo das risonhas faces, rindo, rindo. Um negrão descalço esforçava-se para vencer o desnivel levando um barril, puxado por matebas enroladas nos estremos em coisa rotativa; de forma lenta ia rolando e transpirando muxoxos de mau grado com aquele engenho de tecnologia de ponta. Maldita vida esta, dizia e repetia.
A Cidade Alta demarcava-se pelo topo dos morros a começar no Hospital, passando pelos quarteis e terminando na ponta da Fortaleza de são Miguel. Por detrás do Hospital ficavam os arrabaldes da Samba e a Maianga da Cacimba.
( Continua.... Postal dúma época -II )
O Soba T´Chingange
Domingo, 2 de Agosto de 2009
RIVOLI CAFFE
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
2º encontro com JANUÁRIO PIETER - 1º parte
LOUVRE . PARIS
Como uma toupeira, o autocarro entrou ao lado da "Portes des Lions" na "Quai des Tuileries" lado a lado com o rio "La Seine", furou a cave dando voltas até que estacionou nas catacumbas de "autobuses"; Três niveis abaixo da superfície do museu do Louvre saí do autocarro. Teria de subir aos pisos superiores para comer uma refeição ligeira porque o tempo disponível não dava para muito mais. Paris,...sempre a correr.
Saí na rua Rivoli, atravessei-a e, quase em frente, no número 176, tomei assento no Rivoli caffe.
Pedi duas "sand poulet" e uma "bierre de 50 cl". Abocanhei a dita cuja com prazer incomum quando senti no ombro uma mão escaldante. Surpresa minha; ao virar-me deparo com o kota Pieter, o mesmo de Jabelines, filho do Mafulo Lestienne de Luanda.
Saudei-o com a deferência de quem vê pela segunda vez uma assombração kianda e, convidei-o a se sentar.
O kota Pieter desta vez estava muito mais colorido não parecendo o mesmo taciturno senhor do banco de Marne em Loisir. Usava uma gravata sobre camisa liláz destoando dos compridos calções às florinhas num descolorido amarelo práfrentex; a meio da tíbia o atilho vermelho das calças apertavavam os gémeos peludos . Nos pés tinha umas sapatilhas feita às tiras; estas furavam o pneu michelim apertando o dedão aos tornozelos duma forma que só os Massai do Kénia sabem usar. O seu dedão, entre a carne e a unha, via-se exageradamente grande pois que a micose encortiçada entalava-se ali, grosseiramente. Aquele era o verdadeiro pé dum leão da anhara feito gente de Massai-Mara com trezentos e oitenta e quatro anos.
Pieter vinha visitar o museu do Louvre pois estava na peúgada de uma remota informação quase fidedigna de que alí iria encontrar um quadro de largas vistas estando seu pai Lestienne nessa composição bucólica; Era um conjunto de serviçais que faziam os preparos preliminares às caçadas dos veados, tomavam conta dos cães e dispunham bancos junto às cavalgaduras para que as damas repletas de saiotes podessem pular de lado e, assim se segurarem à cilha do quadupede.
Esse alguém fidedigno informou-o que seu pai, o françês de olho azul do "Pays des Landes" durante algum tempo esteve às ordens do rei Luiz qualquer coisa e, nessa tela podia lêr-se o nome da terra em uma placa, "Bonneval, du bois de chievre,Vallee du Loir".
Interessante, o kota Pieter referia-se a um sítio por onde eu, nos próximos dias, iria passar.
Como relator deste acontecido, recordo qe Pieter anda à busca das origens de seu pai Mafulo, mercenário às ordens indirectas de Mauricio de Nassau, instalado em N´Gola, Luanda. Era tenente do exèrcito Olandês e passou a pertencer às forças Tugas de Salvador de Sá e Benevides quando da reconquista de Luanda. Leiam as crónicas anteriores para entender o embrólio de hà trezentos e oitenta anos para tráz
Continua......
O soba T´Cingange