Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016
MUXIMA . LXII

MULOLAS DO TEMPO - As Maiangas da Luua

Muxima e Ongweva são saudades

Por

luis0.jpgLuis Martins Soares

luua7.jpg O abastecimento de águas desde os primórdios da colonização portuguesa, foi sempre um problema das autoridades coloniais. Alguns historiadores escreveram que Paulo Dias de Novaes reconhecendo não ser a ilha do Cabo o lugar mais adequado, avançou para terra firme e fundou a vila de São Paulo de Luanda em 25 de Janeiro de 1576, tendo lançado a primeira pedra para a edificação. A escolha do novo local para a vila foi influenciada sobremaneira pela existência de um magnífico porto natural, situado numa baía protegida por uma ilha

luua12.jpg Mas, foi uma fonte de água potável, que mais ponderou em sua decisão; era necessário abastecer as naus do reino e, as águas do poço da Maianga na então existente lagoa dos Elefantes eram suficientemente potáveis . Os poços deram origem anos mais tarde às duas Maiangas, a do Povo e a do Rey, que nasceram entre 1641 e 1648.

luua6.jpg A “REVISTA UNIVERSAL LISBONENSE” n°. 25 de 30 de Dezembro de 1852, publica artigo interessante sobre a cidade de S. Paulo de Assumpção de Loanda onde os poços denominados MAIANGAS fazem parte da matéria publicada: “Nos subúrbios ou arrabaldes da cidade há muitos arrimos (hortas), e as duas Maiangas (poços públicos) que servem de recreio aos seus moradores têem a cidade dentro das barreiras cinco quartos de milha de comprimento, e três quartos de milha na sua maior largura.:::::4A cidade alta é reputada mais saudável que a baixa pela sua vantajosa posição, todavia ambas sofrem sensível falta d’agua por não haver em Loanda mais que dois poços denominados Maiangas, dos quaes um só é público, e que não chega para o consumo dos seus habitantes “...etc.

luis50.jpg As Maiangas citadas são a Maianga do Povo e a Maianga do Rey que foram construídas em meados do século XVII a mando de Salvador Correia de Sá e Benevides. A água das cacimbas públicas e particulares (poços) é toda salobra. O poço Maianga do Rei serviu exclusivamente para abastecimento das estações públicas ou seja para uso dos religiosos e autoridades coloniais, conduzida em carros das obras públicas. 

luis51.jpg  Este poço localizado perto da Rua da Samba nunca despertou a minha curiosidade para o conhecer de perto quando eu e a família nos deslocávamos a pé para a Samba onde um rochedo plantado na beira-mar e na extremidade da praia servia de trampolim para os nossos mergulhos.::::7Conheci o poço Maianga do Povo bastante, pois morei muitos anos perto dele, no Bairro da Maianga. Internamente uma escada dá acesso até se atingir a linha de água onde parte da população local se abastecia da água salobra transportando-a por latas ou em barris.

 luis53.jpg O Rio Seco, no período das chuvas quando colecta as águas vindas das barrocas dos Quarteis no seu trajecto rumo à Samba, às vezes bastante caudaloso, passa muito perto destas Maiangas. As águas no seu trajecto final, segundo historiadores, desaguavam numa lagoa que era a Lagoa dos Elefantes antes de se descarregar no mar (no lugar da Samba).

luis52.jpg Os elefantes procuravam a lagoa para matarem a sede mas, pelo progresso, foram obrigados a procurar outros lugares como a Quiçama, pela invasão do seu território. O poço Maianga do Rey está reproduzido em um painel de azulejos nas paredes interiores da casamata, no estilo da azulejaria portuguesa do século XVIII, na Fortaleza de São Miguel.

maximbombo.jpeg Havia também a lagoa Cacimba do Kinaxixi transformada em ponto de abastecimento a luanda antiga do Maculussu e Ingombotas, na qual se abastecem os Padres Jesuítas afectos a Nossa Senhora do Carmo, um pouco acima da Mutamba. Os contos, missossos e mussendos de Óscar Ribas fazem menção desta lagoa, um lugar místico dos kaluandas e dos escravos traficados pela D. Isabel Maria Lane no século XVIII.

maianga do araujo.jpg Nota: A parte 10 (maximbombo) foi um complemento introduzido pelo relator desta.

As escolhas do Sob T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:16
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016
MOKANDA DO SOBA . CX

TEMPOS PARA ESQUECER 13.09.2016 - ANGOLA DA LUUA XX. NA GUERRA DO TUNDAMUNJILANesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo. “Vai para a tua terra, branco” era o slogan mais metralhado por palavras acintosamente venenosas…

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

moka9.jpg (…) Veríssimo Sabino da UNITA, um comandante responsável, disse que o MPLA incitava a população, mulheres e crianças para avançar sobre a base da FNLA situada no Bairro Operário mas, isto já era conhecido por todos. Em Março de 1975 já havia misseis SAN 3 em poder do MPLA. Pergunta-se! Seriam usados contra quem? Decerto não o eram para construir a paz! O Postoyna, um vapor, descarregava numa praia bem perto de Luanda grande quantidade de material de guerra e viaturas com autometralhadoras tipo Panhard.

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Isto foi no dia 29 de Abril e para o efeito ocorreu mais um intenso tiroteio no subúrbio de Luanda para distrair as forças FMM para ali. Só neste entretém e, porque accionaram morteiros, houve 25 mortos e 110 feridos. As autoridades portuguesas perguntavam-se pela tal quarta força (dos brancos) e nada se constava. Andavam todos perplexos olhando um medo sem contornos definidos e mesmo sem nada fazer, pretendia-se que o fossem, culpados! Uma pura ficção com eventos borbulhando só na cabeça de obstinados árbitros; os revolucionários do vinte-e-cinco e do MPLA.

moka6.jpg No M´Puto, o PCP promove assembleias de bairro em Lisboa juntando a Câmara Municipal, as juntas de freguesias, as comissões de moradores, as comissões de trabalhadores, cooperativas, colectividades e grupos de cristãos para o socialismo. O espirito é unitário, apelo muito usado e, reúne "todas as forças verdadeiramente interessadas no avanço do processo revolucionário." O Primeiro-Ministro desloca-se até ao Sabugo para falar à população e lançar cravos vermelhos, como é habitual.

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A seguir ao 11 de Março, Mário Murteira tomou conta do Banco de Portugal, orientou o processo da nacionalização da banca, comandou toda a economia. Mário Murteira colado ao PCP desempenharia um lugar proeminente na Revolução. Mário Soares sabia e tinha toda a razão quando disse a Silva Lopes ministro das Finanças quando indigita Murteira: "Acabou de meter no Banco de Portugal o Partido Comunista". As coisa corriam ao descaso e Silva Lopes respondeu-lhe: "Você está a brincar”! Em verdade, todos estavam! …

moka7.jpg Creio que por estes dias da Luua, Lúcio Lara foi dos homens mais activos na contra informação. O MPLA tinha cada vez maior sofisticação nas formas de actuar. O sequestro de brancos para Praça de Touros de Luanda era levado a efeito pelo MPLA às claras. Ali, eram severamente espancados, seviciados, enfim, sujeitos aos mais inauditos vexames durante dias. Obrigam-nos a repetir vezes sem conta: “ O povo é o MPLA e o MPLA é o povo”. Com as NF – Nossas Forças, não se podia contar. Merda de tropa!

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E, a desmotivação entre estas, já era tão grande que ninguém podia contar com eles. Só estavam preocupadas em chegar ao 11 de Novembro sem se meter, sem dar tiros! Já em Maio, a população branca só esperava meios de evacuação porque nada mais lhes restava. Já havia um número elevado de locais com gente deslocada, que desesperava. As balas tracejantes continuavam a riscar os céus de Luanda. Era o 1º de Maio. Quem andou na guerra, não se recorda de ter visto assim tanto fogo. Os brancos tinham percebido por fim que estavam por sua conta e risco. Não havia a quem recorrer e, nada de tribunais.

moka8.jpg Entre 29 de Abril e 2 de Maio os luandenses viveram debaixo de fogo cerrado e de grande intensidade, armas ligeiras, armas pesadas, lança foguetes e morteiros com acções de fogo posto e pilhagem. Houve muitas prisões feitas de forma indiscriminada! Havia refugiados no Liceu Feminino D. Guiomar de Lencastre com sessenta desalojados. Na Faculdade de Ciências na Avenida Marginal com cento e cinquenta e mais outros trezentos na sede da juventude da UNITA na rua Luís de Camões.

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Esta gente tinha saído por expulsão dos Bairros da Vila Alice, Cuca, Vidrul, Terra Nova, Cazenga, Marçal, Bairro Marcelo Caetano, Lixeira e Boavista. Gente do povo, brancos, mestiços e negros a carecer de meios de subsistência, sem conta bancária grande ou pequena; só a roupa do corpo.

moka10.jpg Silva Cardoso o Alto-Comissário depois do Acordo de Alvor, era constantemente atacado pelo MPLA em comunicados via rádio e panfletos por não ser suficientemente revolucionário. Afirmavam que já não servia à revolução Angolana. Em dado momento, Silva Cardoso perante a constante insistência do MPLA de que teria de ser substituído, sugeriu à Direcção do mesmo movimento que classificassem o seu sentido de revolução ao referirem claramente que os brancos não eram queridos em Angola; isto para que assim, Lisboa evacuasse essa etnia alvo de “um ataque sistemático” por eles. Era só um jogo de palavras para fazer actuar o CR do MFA de Lisboa…

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Neto respondeu enfadado ao Alto-Comissário que para o preto, o branco era sinonimo de colonialista. Neto já se sentia com força para retorquir sem evasivas, prepotentemente sarcástico fustigava a pouca astucia duns e a burrice de muitos dos governantes portugueses. Almendra, o Comandante do COPLAD – Comando Operacional de Luanda, confirmava que alguns polícias brancos tinham sido presos em suas casas e levados pelo MPLA para a “tourada”, lugar prisão sob sua gestão.

moka11.jpg No M´Puto os partidos à direita do PS encaram o futuro com alguma contenção. Por aqueles dias, chegava a vez dos social-democratas assistirem ao boicote de um comício do PPD em Almada. Depois dos oradores discursarem há muita gente a impedir a saída dos social-democratas do recinto. O COPCOM é chamado a por ordem na confusão. Reina agora na nação uma incessante excitação. Mas isto, era lá a mais de 8000 quilómetros da Luua.

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Por Silva Cardoso se insurgir em comunicados contra os desmandos e incentivos de rebelião por parte do MPLA, Lopo do nascimento em Maio, exige a expulsão imediata do Alto-Comissário em carta dirigida ao Concelho da Revolução. No final deste mês de Maio já havia cerca de 25.000 desalojados em Luanda e 50.000 pedidos de passagem para Portugal. “Vai para a tua terra, branco” era o slogan mais metralhado por palavras acintosamente venenosas ensinadas no poder popular dos comités de bairro do MPLA.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 04:18
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016
MOKANDA DA LUUA . XLIV

ANGOLA – DO HUAMBO -– "Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo - nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra"

OS LUANDENSES NUNCA VIRAM COM BONS OLHOS, AS GENTES DO SUL DO PAÍS ! 

Por

vumby0.jpgFernando Vumby Fórum Livre Opinião & Justiça

valentina0.jpgINTRODUÇÃO

Esta crónica, eu tinha que escrever qualquer dia, até porque conheço muita gente que sofreu apenas e simplesmente por ter tido um nome de origem sulano, curioso alguns até chegavam á ser barrados mesmo vivendo em Portugal, dependendo do tempo em que tinha fugido do país. Nem sei se na altura os tugas já estavam feitos com o regime vigente em Angola ou não, mas verdade é que, conheci casos de angolanos que foram repatriados com base nisto e, postos em Angola, acabaram eliminados.

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Estou a preparar uma obra intitulada o (Drama de Eslome Joaquim) Um homem que tinha feito tudo para se livrar do regime, e mesmo posto fora do país, o azar continuou á persegui-lo até que acabou morto em Angola depois de ter sido forçado á regressar para o país. Um dia, tinha sim que escrever esta crónica pois ainda há muita fachada, muitos abraços fingidos entre uns e outros, muitas nomeações simuladas, posições ocupadas para se vender o peixe desde á muito considerado por podre como bom, etc… etc.

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E até porque ainda existe uma certa resistência e dificuldades das gentes de origem sulana mesmo estando no MPLA e com cargos (importantes); por exemplo em exonerarem seus subordinados naturais de Luanda e pior se este for de carreira militar, dos tais generais do grupo dos intocáveis, conheço-os todos, tão bem e melhor que muitos. Se ate hoje fores á uma embaixada de Angola e dão conta que és do sul. A esfrega que apanhas se tiveres o azar em seres atendido por um kaluanda não será pera doce! Infelizmente as embaixadas foram transformadas em autênticos comités do MPLA.

vumby7.jpg Para não falar dos sulanos que ficam anos e anos sem promoção nas forças armadas, e se não forem lambe-botas ainda pior, pois ate acabam zombado pelos seus próprios colegas na unidade militar... Kota, esses sulanos dão pena, concluiu um jovem militar das FAA patenteado, enquanto o outro com mais idade numa roda de amigos dizia em voz alta e em bom-tom; " Há um tipo destes que veio da UNITA por ser ministro! "

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QUEM DISSE, QUE ISTO ACABOU?

Mesmo estando-se em tempo de (reconciliação) nacional e de uma (paz) vista por canudo, há verdades que por nada deste mundo temos o direito de esconde-las ou pinta-las porque se diz que isto já pertence ao passado. Nasci e cresci em Luanda e sou do tempo em que para se desprezar e desrespeitar as gentes do sul nunca faltaram os termos e apelidos dos mais depreciativos possíveis que ate hoje ainda estou para saber quem colocava isto na cabeça dos luandenses.

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Para os kaluandas todos que fossem do sul do país eram considerados como bailundos e á palavra bailundo (os baías) curiosamente ate chegaram á dar o significado de atrasado, burro, escravo, criado do branco e falso. Não sei se é pelo facto da maioria dos brancos na altura terem tido como preferência as gentes do sul do país, para trabalharem em suas casas como empregados domésticos internos os considerados por criados.

an4.jpeg Ainda naquela altura alguns velhos do sul de Angola que chegavam e se fixavam em Luanda e já tinham dado conta de que o ser-se sulano, raramente não era interpretado como pior do que o numero da (prostituta), para salvarem á pele dos seus filhos de possíveis humilhações viram-se obrigados á fazerem novos registos para os mesmos trocando os nomes de família e passaram á crescer ate morrer com nomes como se fossem naturais de Luanda.

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Sei que este é um tema que muita gente não gosta de abordar por receio em serem acusados de tribalistas, regionalistas ou coisas do género, eu não tenho kigila e vou continuar a abordar ate porque conheço pessoas que nasceram no Bié / Huambo / Bailundo cresceram em Luanda e morreram como naturais de Luanda e curioso com nomes que ate parecia que estavam reservados exclusivamente para os luandenses.

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Cumpro com isto o dever moral e patriótico ao não esconder estas verdades ocultadas e manipuladas propositadamente para se vender a ilusão de que este espírito e comportamento já foram banidos das mentes de certas pessoas o que não é verdade. Poderia até mesmo mencionar alguns nomes de pessoas; que se não se tivessem protegido por detrás das novas cédulas pessoais teriam problemas. Às pressas e, se calhar nas guerras do kwata-kwata, quando o MPLA relacionava toda gente do sul como simpatizante, militante ou amigo da UNITA. A ser assim, hoje não estariam vivas.

huambo.jpg Quem viveu em Luanda nesta altura sabe que houve até casos em que os próprios vizinhos eram os que denunciavam quem era e não era do sul de Angola, o relacionava como kwacha e raramente não dava á dica ao camarada com ordens para surrar tudo que era do sul. Curioso é mesmo havendo muita gente que já tinha aderido ao MPLA ainda nos tempos da guerrilha contra o regime português e, que depois ate se destacaram como grandes comandantes em frentes de combates contra o colonialismo português; foram subestimados pelo bureau político do mpla. Hoje a merda ainda é a mesma, muito embora com um cheiro um pouco diferente, muitos são os que partilham desta ideia!!!!!

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:39
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CVII

TEMPOS PARA ESQUECER – 29.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XVII 

NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA… Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - Do M´Puto não vinham bons ventos para Angola.   

Por

soba15.jpgT´Chingange

carlu1.jpg (…) Angola…. Melhor mesmo era ficar expectante, fazer caixotes, meter alguns trastes, fotos amarelecidas e esquecer aquela terra porque afinal, não era nossa e, sem direitos adquiridos! Entretanto eram roubados canhões no Grafanil, que foram direitinhos para os Comités populares do MPLA, coisa pouca! Nada de inquéritos! “Há coisas que não convêm serem tornadas públicas” dizia um oficial português. E, tudo ficava por aqui.

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Os militares que regressavam a Portugal faziam negócio com coisas que lhes eram cedidas para salvar do pandemónio, patrícios da terra longínqua do M´Puto que pagavam estes favores por baixo das lonas, mas um ou ouro também levava umas folhas de liamba, uma pedras brilhantes do Cafumfo, artesanato dos Quiocos, peças da sacristia cedidas pelo irmão do mato, enfim!

mo2.jpg Mas situações houve em que militares portugueses acompanhavam os militares do MPLA a saquear casas de brancos fujões, desalojados ou refugiados! Fizeram-no usando carros militares, a descoberto e sem a preocupação de se justificarem com quem quer que fosse. Era até perigoso perguntar! Que estão vocês a fazer? Ninguém tinha sossego nos pensametos. Esta verdade vai parecer mentira para muitos que agora lêem mas, há relatos com vídeos; e, surgem agora depois de mais de quarenta anos e, porque as vidas têm fases sem acréscimos, de sem valor acrescentado.

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O Óbito do acordo do Alvor estava consumado. As FAP e a CCPA já eram pedras fora do baralho! Eles nem sabiam lidar com a mentalidade do negro africano que em sua cultura ancestral não via o roubo da forma dum ocidental branco.  Tudo que está ao nosso redor nos pertencem! Era este o ADN biológico de Agostinho neto! Os Kwanhamas até eram enaltecidos por suas tarefas de roubo e um candidato a casar se não era um bom capianguista não era um suficiente homem para aquela donzela mais extremosa. Isso faz parte da cultura Banto!

lua3.jpeg Ao PREC – Processo de Revolução em Curso de cariz revolucionário, qualquer actividade era legítima; foi-o e de forma nítida no seu órgão superior de CR – Concelho da Revolução que dava ordens ao MFA.  No relatório da CCPA de 19 de Abril de 1975, era escrito que se deveria impedira FNLA e, a todo o custo de chegar ao poder. Sentia-se aqui a mão de Rosa Coutinho que tinha andado de gaiola a passear nuo no Zaire quando tinha sido aprisionado pelos militares de Holdem Roberto.

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No M´Puto, as diligências do Presidente Costa Gomes, revelar-se-iam desnecessárias, pois Carlucci era um homem muito elaborado e, mais latino do que americano. Sabendo dos desentendimentos de Otelo com o PCP, esfrega as mãos de contente, decidindo tomar a iniciativa. Procura o comandante do COPCOM e, os dois homens lá se entendem nas falas.

melo1.jpg Carlucci, o americano italiano, troca as voltas ao brigadeiro tornando-o colaborante. "Carlucci entendeu logo a situação político-militar em Portugal. Daí achar que Otelo e a extrema-esquerda eram dois preciosos aliados na sua táctica para bater as forças ligadas ao PCP". É o capitão Sousa e Castro, que o diria mais tarde e, que viria a ser porta-voz do Conselho da Revolução.

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Revelando mestria, o embaixador promove pontes de entendimento "entre os oficiais moderados do MFA e as altas patentes americanas." É por esta via que, logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975, Ramalho Eanes se tornará grande amigo do general Alexander Haig, comandante chefe da Nato na Europa. "Frank Carlucci era um homem fascinante", diz Sousa e Castro.

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Mas, Portugal estava em queda para ser tomado pela esquerda. O Embaixador vendo isto não tardou a encontrar-se com Costa Gomes sem que se possa afirmar qual o motivo do encontro, depreende-se que não foi ocasional. Da reunião não transpira nada, mas os EUA exibem na altura parte do seu poderio militar, avisam Portugal que deve ter "juizinho". Estão agora em águas nacionais 32 barcos de guerra norte-americanos, onze mil soldados e marinheiros, dos quais cinco mil são "marines", tropas de elite vocacionadas para o desembarque. Mais que previsível, à volta da operação naval da Nato pronta a explodir o folclore do cravo vermelho na lapela.

mucuisse.jpg Na sequência do acordo de Alvor, o Expresso anuncia a composição do Governo de Transição de Angola, de que Vieira de Almeida faz parte, com a pasta da Economia que disse: - "Quando cheguei a Luanda, apercebi-me de divisões profundas entre os militares membros da Comissão Coordenadora do MFA em Angola. "Tal como cá (M´Puto), continuava a existir o mesmo fenómeno: os que se batiam sinceramente pela transformação da sociedade, preocupados em saber como descolonizar; os cobardes; os idealistas; os elementos mais reaccionários; os oportunistas". Uma mixórdia.

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Portugal está agora em chamas, vive em crise de sanidade. Em Coimbra, os alunos fazem greve, reivindicam o fim dos exames de aptidão à universidade. Os bancários reclamam junto do Governo a nacionalização da banca. O desemprego atinge 200 mil portugueses. Com tudo isto a acontecer, Álvaro Cunhal e o PCP defende medidas urgentes para ultrapassar "a grave situação económica e financeira".

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A missão dos ministros em Angola é suicida, o clima continua a ser revolucionário. Tal como no Continente, também ali há falta de realismo. "Bom dia meus senhores! Pastas debaixo da mesa, mãos em cima da mesa!". É assim que Vieira de Almeida dá início às suas intervenções no Governo de Luanda, que integra representantes do MPLA, da UNITA e da FNLA. O ambiente é pesado. Cada um dos ministros angolanos faz-se sempre acompanhar de três guarda-costas de metralhadora em riste.

mutamba.jpg Vieira de Almeida evoca a Luanda daqueles tempos. A atmosfera chega a ser lúgubre: nas ruas assassinam-se pessoas dentro de barris de ácido sulfúrico; Agostinho Neto anuncia a nacionalização do Comércio Externo; durante uma reunião do Governo de Transição, destinada a discutir o Orçamento Geral, um ministro do FNLA reclama o "bago", o “kumbú” a “Gasosa”, ou seja… quer o dinheiro na mão.

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Uma esquadra da Nato lança âncora no Tejo. Uma reunião de delegados dos trabalhadores apela a uma manifestação anti Nato para daí a cinco dias. As forças armadas incorporam-se na "manif". Operários e outros trabalhadores estão nas ruas para se baterem contra os americanos e o desemprego. O Governo declara que se opõe aos desfiles, exerce a sua autoridade. Qual o resultado? Com a expressão do rosto carregada, Vasco Gonçalves em imagens televisivas tem os braços cruzados, faz cara de zangado.

mocnda9.jpg A reforma agrária no M´Puto estava em marcha, mas não era ainda oficial. O PCP promove uma reunião de Trabalhadores, em Évora. A adesão é impressionante, cerca de 40 mil camponeses juntam-se para discutir os modelos de exploração agrícola. Exigem a "liquidação dos latifúndios", a "reforma agrária imediata". Álvaro Cunhal está presente, despe a capa moderada de ministro Sem Pasta. Tem a palavra. Sobe à tribuna e, do alto do seu prestígio de combatente anti-fascista, diz: "A reforma agrária não será imediata, mas não demorará muito".

Do M´Puto não vinham bons ventos para Angola.

(Continua…)

 O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:39
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Sábado, 27 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CVI

TEMPOS PARA ESQUECER – 27.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XVI . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. … Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - O brigadeiro do COPCOM dá a sua opinião: " Carlucci, talvez pertença à CIA”… Kuákuákuá…

Por

soba15.jpgT´Chingange

baú3.jpg(…) Por todos julgarem ter autoridade, um mês após a assassinatura do Acordo de Alvor, Angola estava sem lei nem roque; totalmente desgovernada e sem ordem. Descolonizar Angola não deveria ser o mesmo que abandoná-la, mas eu não encontro uma visão mais ponderosa que esta. A 26 de Março de 1975, o ELNA, exército da FNLA, massacra mais de 50 recrutas do CIR (Centro de Instrução Revolucionária) do MPLA denominado de Hoji-Ya-Henda situado no Caxito. No ataque surpreso, os capturados pelo ELNA, foram tratados com gratuita crueldade.

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Levavam-nos em camiões para um sítio isolado e à medida que estes iam saindo dos camiões e lá no lugar escolhido, eram abatidos com rajadas de metralhadora. Os que se queixavam dos ferimentos eram abatidos com um tiro de misericórdia. Só escaparam os que se fingiram de mortos. Esta foi uma retaliação aos ataques sofridos nas sedes da FNLA, situadas dentro de Luanda.

MIRAN1.jpg Estes acontecimentos sucediam todos os dias, ora em Luanda nos musseques, ora na Fortaleza de São pedro da Barra, Bairro da Cuca, Bairro do Dande e Cazenga. Era perigoso ser-se apanhado com cartões de filiados em um qualquer outro partido, bandeiras, crachás ou outros distintivos que não o correspondente ao do controlo montado. E, as barreiras eram montadas a gosto pela FNLA ou pelo MPLA à revelia do COPLAD (Comando Operacional de Luanda) lá, aonde cada qual, pensava ser sua zona de intervenção.

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O massacre do Caxito e os fuzilamentos da Cuca em valas previamente abertas eram retaliações da FNLA, que culpava o MPLA; eram atitudes medonhas nunca antes vistas, sem qualquer pretexto e à revelia de qualquer lógica mesmo que absurda; eram sumariamente mortos sem mais detalhes a ponderar. Tratamento de pior que bichos com bichos, cenas monstruosas.

coimbra2.jpg Entretanto no M´Puto e só para M´Puto, havia um plano! O Plano Melo Antunes, para que a economia recuperasse força…. Um engano! Nas ruas de lisboa e Porto, havia enormes controvérsias. Frank Carlucci chegava a Lisboa; este viria a ser mais um portador de influências em Portugal tendo como interlocutor Mário Soares. Entretanto o PCP entra no Banco de Portugal, coração da economia e nos Serviços de Educação alterando e adulterando leis; dando a gosto passagens administrativas a troco de uma relevante actividade no PREC da revolução na Metrópole M´Puto ou lá na áfrica dos ranhosos (colonos).

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Por esta altura, o brigadeiro do COPCOM (Comando Operacional do Continente), Otelo Saraiva de Carvalho, começa a dar nas vistas despertando grande atenção entre os "média". O país vivia numa altura de conspirações e medos cujo ponto alto foi um tal de plano "Matança da Páscoa". Oficiais com ligações aos comunistas mexem-se a encomendar os planos de nacionalizações para estarem prontos a 12 de Março. Otelo, cioso de cumprir o seu papel histórico, lança-se sobre as luzes da ribalta dizendo disparates.

moiróes 1.jpg Na Luua e na penúltima semana de Março ocorreram mais de uma centena de mortos. É de recordar agora o que Pezarat Correia disse antes das negociações de Alvor focando a questão dos brancos português ali residentes: - “Quem quiser fugir, não faz falta a Angola”, tendo neste então sido referido por Almeida Santos que, a ser assim, seria a debandada geral! E, em verdade nesta fase dos acontecimentos nada mais haveria a fazer senão controlar o Aeroporto de Belas para assegurar a fuga de quem fugia.

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Claro que estes eram maioritariamente brancos, e assimilados mazombos. Curioso ou não, tudo isto foi falado na presença de todos os portugueses com os três movimentos e, disto, não transpareceu preocupação de nenhum dos intervenientes. Até aqui todos os auxiliares de estadistas e feiticeiros tinham ignorado Jonas Savimbi que perante esta situação inusitada de introduzir às falas reticências, passarem a vê-lo com um potencial personagem para e talvez, poder salvar a situação. Tudo pensado em joelhos, com artroses…

retornar11.jpg No fundo, este conjunto de pessoas eram um laboratório, um caldo de mentiras, de muito talvez com incertezas e muita falsidade entranhada de ódios; Todos estavam a ser falaciosos! Em verdade é que, neste universo de incompetentes, aprendizes de feiticeiro, produzem-se outras estrelas. Por cada uma das suas intervenções, a rebelião ganha novo fôlego. O novo embaixador dos EUA, Frank Carlucci fará parte dessa constelação.

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Até ali todos os pseudo estadistas tinham ignorado Jonas Savimbi mas e perante esta situação caótica viram-no como potencial mediador entre os outros dois Movimentos; haveria que encontrar alguém para salvar a situação. Dizia-se neste agora que quem controlasse a capital, a Luua, dominaria Angola! Verificar-se-ia que assim viria a ser! E, agora, Março de 1975 perguntava-se: - De que lado estavam os brancos?

mulu7.jpg Até aqui estavam divididos, trivididos, alguns filiaram-se em todos como medida de segurança mas, até isto funcionou pelo lado mais negativo. O melhor era ficar expectante, fazer caixotes do possível, meter fotos e os ursos de peluche, trastes e umas pedras de feijão no aro da bicicleta ou ouro e dinheiro de túji, angolares e macutas misturados com os dólares,  mais aquele lenço de lembrar o Mussulo enrolando areia das bitacaias… coisas de humanos.

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Entretanto no M´puto aos microfones da rádio, o brigadeiro do COPCOM dá a sua opinião: "Talvez Carlucci pertença à CIA (serviços secretos norte-americanos) mas, nesse caso, não me responsabilizo pela sua segurança." Kuákuákuá (sou eu a rir) … Quando Costa Gomes ouviu isto, a rolha dele, tocou seu cerebelo! O caneco destapou-se; como era habitual, não queria correr riscos. Aflito, pôs-se logo a fazer contactos cuspindo raivas aos seus generais de aviário. Cheio de intuição, à conversa com Mário Soares, este desvaloriza a situação. Uf!... Que alivio!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:17
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CV

TEMPOS PARA ESQUECER22.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XV . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. … Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - Vasco Gonçalves, o louco, esbracejava na televisão atirando cravos para a multidão…

Por

soba15.jpg T´Chingange

retornar1.jpg (…) No chão barrento dos musseques da Luua ficam cadáveres e um rasto de destruição. No ar desses bairros de arruamentos labirínticos multiplicam-se os papagaios de papel que visavam impedir a visibilidade e o voo dos helicópteros de onde os militares davam instruções e orientação às patrulhas que em terra procuravam acudir aos focos de problemas. Esta dos papagaios de papel, vim a saber muito recentemente em conversa com outros kambas que também por ali estavam; uma coisa que só tinha viso em um filme do Vietname e guerrilha nas ilhas do Pacífico.

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Afinal havia muita gente formada na maldade e atenta a todas as artimanhas para lograr sucesso em seus objectivos. Estabelecer o medo com estrondos lançados para o ar e tracejantes para o espaço nas noites cálidas daquela Luua. No Verão do apocalipse de 1974 a inquietação dos portugueses de África, regia-se no conceito de nacionalidade pelo princípio do solo, pelo que eram portugueses todos aqueles que tivessem nascido em qualquer parcela do solo nacional…

rev2.jpg Mas, isto não era isto nem aquilo, mas uma outra coisa qualquer a tirar dos manuais revolucionários entranhados no cerebelo de gente sem eira nem beira, ávida de serem donos de tudo e até da vida dos outros, uns abutres mais pretos que urubus a reacender um racismo que já estava moribundo! Tudo viria a ser uma outra coisa… A brancura da pele tornava-se perigosa! Os albinos começaram a ser perseguidos por ainda serem mais brancos e, decerto teriam cazumbi dentro deles; a superstição doentia, matou muitos e de formas bastantes trágicas.  

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Ser angolano branco, era imediatamente querela apresentada como algo de marginal. Foi como o definiu Vasco Gonçalves a 24 de Julho de 1975 a uma televisão alemã: -“trata-se duma minoria teimosa e egoísta, que se recusa a reconhecer as perspectivas de futuro”. Quem tem amigos assim e, como primeiro-ministro do seu país, não necessita de mais inimigos! Este cidadão deveria era de estar numa casa de malucos a tratar-se… Na Luua, diríamos que deveria estar no “quintas”…

retornar7.jpg “Os deslocados”, como então a imprensa designava os primeiros desalojados de Angola, começaram a chegar às centenas de milhar em inícios de Agosto de 1975. Contudo eram raríssimas as suas fotografias mostradas na imprensa do M´Puto. Os jornais eram multados por terem falas anti-revolucionárias, qual PIDE para pior. Era uma fuga d gente a reter até que, os seus caixotes e os seus corpos deitados no chão do aeroporto da Portela se tornaram incomodamente visíveis, incontornáveis.

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Caixotes feitos de tabuas de camas, portas de armários, janelas de pau-ferro, pau-rosa ou indianuno. Era o fim da festa, comentavam jocosamente nossos patrícios, irmãos, tios, primos, gente de moral que ia à missa e, que todos os domingos batiam no peito; todos a enganarem Deus…

selos6.jpg A censura do CR com seu activo PREC tentava esconder ao mundo a parte podre da revolução dos cravos! Imaginem! Algo inusitado é, uma notícia de 12 de Agosto de 1975 acompanhada por uma fotografia com recém-chegados ao aeroporto da Portela com jornalistas estrangeiros a cobrirem estes escolhos feitos gente, quase nada... Afinal “os colonos”, “os fazendeiros que fogem por medo”, os “mata pretos” sempre acabaram por fugir! Diaziam à boca cheia e sem espanto!

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Em Angola o PP - poder popular, tinha um órgão secreto formado com abrilistas do M´Puto, Cubanos e progressistas do MPLA. Estudantes vindos de países do Leste europeu, das terras frias aonde a revolução se alimentava com ódios, vodka e muita ideologia tonta. Era destes que saíam ordens e o apoio logístico com dinheiros dados à socapa por seus chefes, uns quantos perfilados com Rosa Coutinho e seus pare do CR- concelho da Revolução.

retornar8.jpg Angola seria em breve dos angolanos. Agora sim, não haveria recuo, era o pensamento generalizado da maioria com bom senso, de todas as cores.  Se queriam matar-se uns aos outros que o fizessem! E, assim veio a ser! O incitamento à expulsão dos brancos já era transversal a todos os movimentos.  Na diagonal, na vertical, lúcido ou bêbado, Agostinho Neto atiçava seus discursos, seus poemas despeitados, falas desajustadas de fazer tremer o susto. Nunca antes se tinha sentido tal racismo depois de sessenta e um. Com a partida dos colonos poderiam ficar com tudo, porque tudo lhes pertencia, dizia-o abertamente!  

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Os lidere dos outros movimentos a partir de Julho não retaliavam Neto! Se o fizessem seriam mal vistos. Consentiam! Em Portugal a maioria sensata estava silenciosa, aturdizada muda e queda espantando o medo que o assustava. Vasco Gonçalves, o louco, esbracejava na televisão atirando cravos para a multidão que ébria, o ouvia. Os retornados seriam postos na tourada do campo grande para gaudio dos abrilistas. Quem o disse ainda anda por aí vivinho da costa!

muxima4.jpg Os anarquistas escreveram algures numa parede bem perto da terra do Riachos no Ribatejo: Otelo Saraiva de Carvalho, que lindo nome tu tens, retira o vê do carvalho, e mete o resto co cú! Assinado um “A” metido em um círculo! Tudo em vermelho! Começava a haver alguma indisposição em alguns pensadores do M´Puto… Em Angola o MPLA enviava grupos de jovens militantes para Cuba e URSS aonde recebiam treino político militar. E, entretanto os navios continuavam a desembarcar material de guerra próximo de Luanda assim em segredo dos portugueses; no princípio até foi assim mas, depois já era quase do conhecimento geral, mas tudo era inusitadamente tido como boato! Poderia lá ser! Ninguém queria acreditar…

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O MPLA aliciava principalmente quadros negros das FAP a desertarem com armas e equipamentos. Isto quase foi normal, permitido e acarinhado pelos militares portugueses e até figuras destacadas do próprio Concelho da Revolução e outros políticos que o tempo escondeu na penumbra!

pioneiros.jpg Fantasmas que ainda se continuam a manter à custa de todos nós, que recebem do estado reformas chorudas. As NF – Nossas Forças da FAP, deram 30 navios operacionais, 21 aviões da Força Aérea, 2 Dornier, 6 Dakotas, 6 helicópteros Alouettes e Nord Atlas, entre outro variado equipamento ao Governo de Transição de Angola saído do Acordo do Alvor. Às supostas FAA – Forças Armadas de Angola.

(Continua…)

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:00
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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CIV

TEMPOS PARA ESQUECER19.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XIV . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. … Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - “Consolidação do poder popular” na Luua…

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soba17.jpgT´Chingange

zeça14.jpg(…) A Força Aérea transportou o grosso do resto da fracção Chipenda para Gago Coutinho. Nos dias que se seguiram, foram as cantorias a enaltecer o herói Valodia assim ao jeito de rumba com bolero de Cuba do tipo que fez crescer a imagem do Che Guevara; a mística música, enaltecia as contendas da guerra provocando um estado de euforia misturando sonhos de libertação, incentivando o erguer de punhos, catanas e armas que rebentam casas, gentes de fazer fugir o capeta, como se estivessem a defender uma Baia de Cienfuegos.

chipenda.jpg Lá a Sul daquela Angola, fazendo meus trabalhos de urbanismo na Câmara Municipal da Caála, afligia-me tal situação. Era neste então Secretário de Informação e Propaganda da UNITA do Comité da Caála. Pensei que poderia assim contribuir para a boa ordem na região que até aqui se tinha mantido pacífica, o planalto do Huambo. Jonas Malheiro Savimbi "leader" da UNITA esperou ir a Nova Lisboa depois de estar legitimado pelo acordo de Alvor e, chegou triunfalmente tendo a recebê-lo mais de meio milhão de cidadãos. Esta recepção triunfal aconteceu a 28 de Janeiro de 1975.

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Savimbi o “Mwata”, estava em alto neste então, sendo considerado o mais moderado e com ideias mais viradas para o progresso de Angola. Os militares do CR, portugueses, tentavam manobrar sua imagem tirando dividendos do confronto com um MPLA cada vez mais radical e raivoso. Savimbi ia acompanhado por seu secretário-geral do movimento, Miguel N´zau Puna, e doutros elementos ligados à UNITA; chegou ao aeroporto de Nova Lisboa (Huambo) cerca das 10.30 horas com uma surpreendente multidão a esperá-lo.

che0.jpg Os jornalistas que fizeram a cobertura do acontecimento referiram ter sido um espectáculo altamente elucidativo da "força" que aquele tinha no planalto central. Toda a zona do aeroporto estava apinhada de gente que, entretanto, qual rio caudaloso, se escoava por toda a parte nos quase três quilómetros que o separam da cidade propriamente dita. Neste tempo e até o mês de Junho sentia-me confiante mas, não foi possível conter a tarefa de rebelião que o MPLA todos os dias e à semelhança de Luanda fazia junto dos kimbos assediando gente, revirando-lhes a vontade da mente, alinhar com esta onda de e contra o dito colono que era sempre branco.

savi1.jpg Sentia-me acarinhado entre aquela gente laboriosa da UNITA e, numa revisão de tarefas fui indigitado Secretário de Relações públicas! Durante a minha vigência tudo correu dentro de uma normalidade aceitável mas sentia que o câncer da liberdade era venenoso demais para continuar a ser um paraíso. Não me sentia convincente no suficiente. Pouco a pouco fui ficando nada confiante no futuro! E, mesmo falando em comícios dando tranquilidade, não me conseguia acreditar e fazer passar a mensagem a cem por cento! Os brancos, dia a dia abandonavam tudo! Fazendas, padaria, marcenaria serração e tudo o que se define como actividade comercial. O câncer alastrava…

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Num repente já nem tinhamos médico, no outro dia já não havia enfermeiro; um e outro iam zarpando de avião, carro ou comboio. Ia ficando no dia-a-dia um deserto sem a gente capacitada para gerir o que quer que fosse; já não tinhamos veterinário nem mecânico que curiosamente ou não, já tinha vindo refugiado anos antes do Congo, e o desespero quer se queira ou não, um dia chega! Ninguém é permanentemente de ferro! Em uma ida na carreira EVA levei minha sogra a Luanda em Julho e, foi quando deparei com o caos à medida que me aproximava da Luua.

savi5.jpg Havia controlo de zonas, primeiro da UNITA e depois para lá do Alto Ama eram da FNLA, do MPLA, assim uma coisa de filme tipo guerrilha do Ruanda como Tutsis e Hútus e marginalidades ao jeito de “apocalypse now” com gente não habilitada para zelar pela ordem, gente drogada que nem falar sabiam! Em Muquitixe mandaram sair os passageiros do machimbombo e ali ficamos encostados a uma casa esfolada de tiros; assim, esperamos que revoltassem nossas malas.

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Um furriel camarada, farda portuguesa, negro de cor com afectos ao MPLA, a dado momento mostra seu cartão de mando conseguindo convencer a nos deixarem seguir. Estávamos ali brancos, mestiços e negros olhando de soslaio uns para os outros, tendo por fundo um paredão ruina de casa em adobe que bem poderia vir a ser o nosso sítio de dia final! Depois seguiram-se o Dondo, deserto queimado com cães rondando as quitandeiras que vendiam sobrevivência na forma de peixe seco; nada mais!

savi4.jpg Nada de sandes, café ou o que fosse e, depois e muito pior, seguiram-se as povoações de Zenza do Itombe, Maria Teresa, Catete, Kassoneca, Colomboloca, e por fim Viana. Uf!... Finalmente, Luanda à vista! O holocausto foi tão cruel, a visão era tão catastrófica que fermentava na minha cabeça a fuga! Não via outra solução plausível. Aquilo era pior do que poderia imaginar; pior que mau ou péssimo! Deixei a sogra e regressei de avião a Nova Lisboa com a definitiva ideia de regressar ao M´Puto. Meu compadre neste meio tempo já estava na Namíbia no campo de refugiados.

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Estava combinado ir com eles mas o comboio de viaturas não podia deixar de seguir seu rumo para Grootfontein com vigilância de uma das NF, forças portuguesas. Cheguei à Caála e descrevi aos meus parceiros manos do movimento que iria inscrever-me no Município nas listas dos Adidos. Falei com Kalakata, o chefe do destacamento militar de Robert Williams e fiz uma despedida de “mais-tarde-nos-veremos”. Kalakata viria a morrer em uma maka organizada, das muitas que sucediam e, um tiro perdido mandou-o pró paralém.

savi3.jpg Aquele ataque às sedes do Chipenda em Luanda foi visto com o prelúdio do que aconteceria tanto à FNLA como à UNITA. Holden Roberto, com um tom bélico e a partir do Zaire fez um discurso de aviso ao MPLA de Luanda. Ele não estava ciente do poder de fogo dos comités da acção popular, vulgo “poder popular” dos bairros periféricos da Luua. Ele só fanfarronava de lá de longe com a protecção de Mobutu; seus maus concelheiros só queriam quimbombo com chuço (churrasco de galinha) no espeto…

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Também ele não acreditava que seu exército bem equipado e formado, poderia ser saraivado de balas pela guerrilha urbana, pelas balas G3 ofertadas pelo Alto-comissário Rosa Coutinho e seus guedelhudos capangas formados no Sarajevo e Praga, oficiais progressistas do M´Puto que queriam virar o mundo do avesso; o nosso mundo! Este passado tão inglório, tão medroso, tão traiçoeiro, foi ficando um sítio demasiado perigoso!

fiat1.jpg Por detrás daquele poder popular estava gente com raivas sem freio, mulatos abandonados pelos pais, brancos sismosos de Che Guevara, vizinhos muito doentes nas filosofias esquizofrénicas e pretos que nem sabiam o que isto era, todos comandados além do Valodia, do Monstro Imortal, do Lúcio Lara, do Iko Carreira e uma parafernália de gentinha má e mesquinha, mal formados, também por militares de aviário formados em quarteis do M´Puto às ordens dum tal de Concelho da Revolução e adjacências…

(Continua…)

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:01
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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016
MALAMBAS . CXXXIV

TEMPO DE CINZAS . Muitos houve, que não saíram do lugar onde nasceram e, a morte foi lá buscá-los.  “No cemitério dos brancos”

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba15.jpgT´Chingange

selos1.jpg O que me fez lembrar no que andamos aqui a fazer foi ver a abelha ao redor da flor da abóbora chila ou talvez menina, buscando mel; levar à sua rainha, engravida-la de mais vida em conjunto com outras, muitas obreiras. Uma disciplinada forma de se sucederem mesmo, mesmo desconhecendo as saudades, porque se calhar não sentem isso que os humanos sentem, num repente e repentinamente.

selos2.jpg No meio deste lirismo quintaleiro, faço um intervalo aos idos tempos porque o meu passado foi um sítio demasiado perigoso. Por vezes, será bom tornar o tempo distante e mitológico lá aonde a memória se pendurou com gestos, com sabores e cores da buganvília, e também as acácias rubras da minha rua da Maianga da Luua; coisa antiga de um dia mais tarde, sem manhã, nem passado recente.

selos3.jpg Voltei à Luua depois do tundamunjila, uma guerra muito cheia de guerrilhas e, lá estava a minha rua com remendos de chapas de zinco e aduelas de barril de tinto do M´Puto e, tábuas roídas do salalé segurando aquelas com mais tambores achatados na marreta, fazendo parede e muro como fachada frontal. Por de lado havia uma abertura ocupada por uma janela antiga, colonialista, pintada com as cores arranhadas de tiros; tiros de G-três do exército também colonialista.

selos01.jpg Voltei à lua em doismiledois e, lá estavam na minha rua as mesmas acácias, verdes folhas e as flores bonitas dando alegria ao zunir de asas das cigarras encaloradas, tudo como naquele outro tempo que num repentemente perigou! A mulola feita rio seco continuava sem água e muito caco de vidro, muita lata enferrujada, lixo bué mesmo! Fui à Luua sem convite mas, com uma carta de chamada de um amigo do Sumbe, um lugar de outros antigos perigos aonde os brancos morriam com paludismo e outras malazengas.

selos9.jpg Esse lugar perigoso chamava-se de Novo Redondo mais conhecido por “cemitério dos brancos”. Tempos de kaparandanda, nome de um antigo revoltoso filho dum soba que se tornou foragido; aquele tempo ainda estava longínquo dos turras e, os bois faziam de cavalos quando não havia tipóia ou, porque os espinhos eram muitos.

selos8.jpg Andei por ali sem dizer bem nem mal, porque podia ficar pintado de morte e para isso já chegavam as muitas caveiras ao redor das estradas contornando as cubatas dos acantonados da terceira ou quarta guerra de libertação. Demasiadas guerras! A caminho de Benguela via estrada feita picada e antes da Kanjala visitei o cantinho do inferno, lugar alagadiço muito indesejado pelos camioneiros, candongueiros e taxistas da antiga chapa de caixa aberta, magiros, bedford ou chevrollet.

selos7.jpg Aqueles dias de ficção depois destas guerras de medos de doismiledois, sentia que ainda havia muitas fronteiras medrosas, muito capim traiçoeiro, cortante! Vi que junto às velhas Urais russas feias de meter medo aos kandengues, já havia potentes carros “ four by four”, vidros esfumados pertencente a nova gente, que comiam palavras, agressivamente agigantadas.

selos6.jpg As pessoas com tecto de capim pensavam naquele então, que agora sim! Agora vamos melhorar de vida e cadavez mais na mesma já andam cansados de desacreditar. Tudo foi ficando no tardio, atrás de muitas noites. Angola ai-iú-é patrão, num anda mesmo! Isto eu, só podia ouvir e calar! Mas, eu não sou patrão meu! É sim senhor! Todo o branco só é mesmo patrão! ... Assim andei feito patrão de nada nem ninguém; estava no particípio passado do verbo…

selos5.jpg Eu ia fazer mais o quê? É uma terra de pretos aonde não se pode falar preto porque logologo vão falar só átoa: porque é racista, é colonialista, é reaccionário e mais ainda de fascista com edecéteras de mwangolés prepotentes. Isto vai melhorar camarada, dizia eu desconvicto. Falava assim mesmo no catravêz da estória porque o futuro vai-te rir (falas minhas de quase major )… e, ele e eu riamos átoa só por rir mesmo! Num repente, fui promovido a brigadeiro… porque falava assim como um superior oficial…

selos4.jpg Nos meus sentimentos, faço os ajustes de contas com a singularidade de como o vento torna o capim em palha. Não há maior religião do que a verdade! Há dias e dias! Há dias de um irritado pessimismo e outros de tão naturalmente optimistas que como um carneiro jogamos orgulhos contra obstáculos de repetidas coisas. Tomando meu xá caxinde, relembro o restolho das ideias que sempre me lembram: O passado é um sítio muito perigoso.

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:30
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Terça-feira, 16 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CIII

TEMPOS PARA ESQUECER16.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XIII 

NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - “Consolidação do poder popular” na Luua…

Por

soba17.jpg T´Chingange

zeka1.jpg (…) Naquele então, eu e minha mulher fomos da Caála a Nova Lisboa assistir a um espectáculo cultural para comemorar o Acordo de Alvor; também andávamos embalados na falsa genuinidade para ouvir o Zeca Afonso e o Rui Mingas no Estádio da Cidade Alta do Huambo (Nova Lisboa). Ao estado psicológico ainda não era mantido o desejo de ir para o M´puto ou outro qualquer lugar! Tinhamos combinado com uns compadres do Lobito que se as coisas piorassem iriamos em caravana para a africa do Sul (Via Namíbia). Eles foram e por lá ficaram tendo agora a nacionalidade Sul-africana.

zeka9.jpg O governo saído do Alvor foi empossado na presença dos três ministros do Colégio presidencial: Lopo do Nascimento pelo MPLA, José N´Dele pela UNITA e Jonny Eduardo pela FNLA. Estes tinham designações semelhantes às do governo do M´Puto. Em Luanda as FAP afanosamente apoiavam o MPLA em campanhas de politização e esclarecimento com o lema de “O povo é quem mais ordena” e outras lérias que ainda pareciam não o ser.

zeka3.jpg Vi estes guedelhudos do PREC mais tarde, talvez Fevereiro ou Março de 1975, dando lições de guerra aos kandengues pioneiros subtraídos às raivas e revelia dos pais. Sem disfarçar rua acima, rua abaixo, marchando por toda a cidade da Caála exibindo estandartes vermelhos e a bandeira do MPLA. Não me contaram, não! Eu vi! Eram jovens “chefes” militantes do PCP muito cheios de revolucionarismo, progressismo e outros ismos, com sotaque do M´Puto, axim-axim, lá seguiam dando ordens de manobras às armas de pau que levavam aos ombros! Esquerda, direita, em frete marche e, atirando pedras no jeito de quem atira granadas.

zeka5.jpg Em outra qualquer altura esta coisa de fingir teatro, seria caricata mas agora, dava para ver sustos próximos. As praças e ruas públicas eram agora os recintos de instrução a crianças de dez anos. Os guedelhudos eram na maioria estudantes brancos do M´Puto que passavam "ad hoc" assim “passagens administrativas” por seu trabalho cívico em angola.

zeka2.jpg Eram umas verdadeiras brigadas vermelhas ao serviço do MPLA. Recorde-se que o PCP controlava o ensino do M´Puto. Após a revolução de Abril e, tomando um exemplo, um desenhador fazendo este serviço num organismo de Estado, saia Arquitecto tendo feito um só ano de Universidade! Quem diz Arquitecto diz outra qualquer profissão! Agora estes, são no M´Puto chefes de Divisão…

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O MPLA fazia também politização popular sob o signo de “Consolidação do poder popular”. O estado psicológico era favorável às greves desenfreadas que sucediam por coisa quase nenhuma nem pretexto validado. Lá teria de ser, arrumar os tarecos, fazer caixotes e largar para a África do Sul, talvez! O MPLA com seus comités de acção reuniam a população junto a grandes armazéns e depois, dizia-lhes: “ Vão gamar”, roubar, capiangar. 

zeka6.jpg Fizeram-no nas necessárias vezes no Mercado de São Paulo, Pérola do Minho, Armazéns Gajageira, Armazéns do Japão e outros: “Povo - levai tudo, tudo e vosso”. E, curioso ou nem tanto, os unimogues das NT (Nossas Tropas - portuguesas) eram usados no transporte do povo insurrecto a partir das Comissões de Bairro; depois saíam dali para sítio mais distante para não serem culpabilizados. Também usavam machimbombos da rede urbana da Luua que mandavam parar tendo queimado alguns por relutância do condutor. 

zeka10.jpg Eu disse sim! Que usavam unimogues do exército português para levarem os populares afectos ao MPLA aos lugares dos roubos. Toda a gente que saiu de Luanda ou que por ali permaneceu depois do 11 de Novembro sabe que isto é verdade. O que aconteceu, embora ninguém fale sobre o assunto; uns querem branquear sua postura e outros, simplesmente não querem relembrar. É tempo de deixar de ensaboar as inverdades e episódios encobertos para não parecer mal aos mwangolés! A canalha dessa altura não merece condescendência. Desde então pouco mudou neste conceito.

zeka11.jpg No dia quatro de Fevereiro o MPLA celebrou em comício, mais um seu aniversário; foi no Campo de São Paulo com a presença do presidente Agostinho Neto. Do discurso deste só saiu desaforos com incentivo às paralisações, aos roubos, aos desacatos e outras aberrantes diabruras, coisa pouco comum de gente que se dizia um poeta de fina extirpe africana, que se pensava ser suficientemente civilizado para dizer coisas pouco dignas! Era o álcool que falava por ele dizia-se, talvez e, ainda droga para se estimular.

zeka12.jpg Nesse mesmo dia do comício com Neto quarenta autocarros, machimbombos das carreiras dos bairros da Luua foram queimados. Foi quase a totalidade da frota e, que originou a paralisação da Capital no transporte de pessoas para seus trabalhos. Luanda definhava a olhos vistos!  Foi um soma e segue sem qualquer controlo por parte das autoridades legitimadas pelo Acordo o Alvor a que eu chamarei acordo de tuji! E, houve muitas mortes, principalmente de gente de fala Umbundo, naturais do Sul aonde eu me encontrava. Ainda hoje me parece impossível haver alguém a defender estes pulhas…

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Não vale a pena fazer uma descrição refinada dos muitos acontecimentos, prisões arbitrárias, das mortes, dos raptos e violações, porque só dar uma genérica visão revolta o mais sonso dos mortais. Os Comités de Bairro da Luua, gente do MPLA, ameaçavam escorraçar os “fenelas” de suas sedes e, também os da UNITA que sempre procuravam manter-se fora das situações, das muitas makas. Por este tempo os Movimentos disputavam entre si os quarteis abandonados pela FAP.

zeka7.jpg Havia constantes fricções, sitiavam-se mas, em verdade, as melhores instalações já tinham sido entregues ao MPLA, aos seus pioneiros fardados às pressas, gente vinda dos comités de bairro, gente sem qualquer preparação militar; rufias em verdade! Em meados de Fevereiro de 1975 a ELNA da FNLA seriam uns 11500 homens tendo no Zaire mais uns 6000. O MPLA tinha 13000 homens, a maior parte sem qualquer formação militar; A UNITA tinha 20000 estando 13000 destes em formação.

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Havia ainda a revolta do leste com 2000 efectivos bivacados no Moxico. Até aqui a UITA tinha-se mantido prudente de espírito conciliatória sem interferência nas altercações e com uma grande adesão por todo o sul de Angola mas depressa a intoxicação chegou a estes. Como que por simpatia as atitudes do MPLA e FNLA passaram a ser copiadas em actos provocatórios a cidadãos especialmente brancos e gente dedicada à superstição, bruxos e afins.

zeça14.jpg E as ameaças, insultos, agressões e intimidação com detenções ilegais e entrada abusiva em residências e comércios do mato registando-se saques e utilização injustificada de armas de fogo! Tudo isto se veio a verificar. A 12 e 13 de Fevereiro de 1975, Neto exortou os seus apoiantes a radicarem a revolta do leste sediada m Luanda. Nessas noites o “poder popular” com as FAPLA atacaram cinco instalações da Revolta de Chipenda e, foi com tudo: utilizaram granadas, metralhadoras ligeiras e lança-granadas. Sucedeu na Avenida do Brasil, Rua Rei D. Dinis e Casa Branca.

zeka15.jpg Foram os Dragões das NF que lhe deram a protecção necessária em sua retirada. Estava acabada a revolta de Chipenda na Luua! Houve cinco mortes do lado de Chipenda e quinze do MPLA; entre estes confirmava-se a morte de Valódia, o comandante responsável pelo cerco às sedes de Chipenda; o balanço foi de vinte mortes e bastantes feridos. Valódia de nome Joaquim Domingos Augusto, formado pela academia militar de Sarajevo e pertencente à coluna Cienfuegos, teve o seu funeral a 15 de Fevereiro de 1975.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:43
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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . CI

TEMPOS PARA ESQUECER10.08.2016 - ANGOLA DA LUUA XI . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA… Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo. Na ausência de estadistas, houve demasiados traidores…

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

sacag3.jpg (…) Os angolanos (entenda-se por pretos), passaram a ter direito a todos os terrenos, casas, fábricas, explorações industriais e comerciais, explorações agrícolas outros imoveis por constituírem o seu «legítimo património», os quais deixariam de pertencer aos antigos proprietários. Savimbi levantou a questão de que referir “interesses legítimos“ desta forma provocaria a debandada dos portugueses, afirmando não ser isso do interesse para Angola.

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Note-se o facto de se ter chamado aqui à atenção aos portugueses na falta de trato aos seus concidadãos e afirmou por último: «A expressão é tão dúbia que não restringe, nem exclui o vosso espírito de justiça! Porque ao dizer-se genericamente que todos os que espoliaram terras têm de se ir embora, isto vai provocar o êxodo. Em legítimo, cabe tudo!».

toledo20.jpg Tinha razão no que afirmava; nem os angolanos pareciam convencidos de tanta bondade portuguesa. Por via disto introduziram em um novo memorando com o factor de persuasão: “Portugal queria ajudar o novo Estado angolano a recuperar o que era seu de direito. Da parte portuguesa foi dito que a interpretação das palavras poderiam ser boas ou más. Enfaticamente a parte negocial portuguesa rematou no final: «façam como quiserem» ”

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Isto, simplesmente é inconcebível vindo da parte negocial de quem deveria salvaguardar a mínima decência! Isto permitia dizer aos angolanos que os bens dos brancos passariam a ser deles e aos portugueses de Angola eram desta forma assegurados com um simples “legítimos interesses”. Isto foi o assegurado no Alvor em meados de janeiro de 1975. Almeida Santos remataria: “O que está no nosso espírito corresponde àquilo que está no vosso”. Era o Adeus a Angola! Nada a fazer! … Eram estes os nossos defensores.

roxo46.jpg Melo Antunes ainda acrescentou ao já dito: “ No fundo, quem define o critério e legitimidade, são os Movimentos de libertação”.  Coisa mais nojenta do que ambígua para quem negociava uma partilha de poder, tendo o poder (entenda-se como revolucionário). E, estes periclitantes documentos ficaram em adendas com o carimbo de “SECRETO”; por isso não foram lidos em Alvor! Assim combinaram previamente, diga-se. Almeida Santos referiu aos demais: “Se vamos ler e dar a conhecer isto, toda a gente começa a fugir daquela Angola para fora”.

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Isto dito, em nada perturbou a delegação portuguesa e os únicos que mostraram certa perplexidade e indignação foi a delegação da UNITA! Este não era o seu propósito, referiam entre si! Agostinho Neto estava simplesmente exultante de contentamento. Grande pandilha (leia-se portuguesa)! Se os Movimentos não estavam obrigados a ser clementes com os que tinham feito parte das estruturas coloniais, todos os que de algum modo tinham estado a elas ligados, poderiam ser presos ou mortos (o que veio a acontecer).

rosa0.jpg Cada Movimento, discricionariamente decidiria os casos merecedores de indulgência e, os que simplesmente acabariam em julgamentos sumários por tribunais populares ou esquecidos nos calabouços das prisões. Inaudito da parte portuguesa! Uma entrega incondicional de cidadãos pátrios, da metrópole, da terra Lusa; era mesmo o fim de tudo! Inimaginável e revoltante. O Acordo de Alvor, não era afinal mais do que a confirmação do protocolo de Mombaça, que traduzia o que os líderes dos três Movimentos tinham concertado no Quénia.

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Em suma: Os portugueses foram vencidos à mesa das negociações! No Alvor só fizeram mesmo um ajustamento a ser lido na sessão final de assinaturas (leia-se assassinaturas), remetendo algumas adendas para a pasta de “SECRETO” que só ficariam conhecidas pelos intervenientes (futuros carrascos). O papel dos negociadores nacionais (leia-se Portugal), foi tão irrisório que foi, pode dizer-se uma operação de chancelaria, limitando-se a só corrigir os erros da ortografia, língua Lusa. Melhor seria terem falado por assobios para assim pedirem isenção de culpa devido ao tom.

melo1.jpgmelo2.jpg

Os líderes dos Movimentos ficaram bem admirados de tanto descaso da parte portuguesa afirmando empolgados: “Eles querem ver-se livres de nós”. Eu, não estou a inventar mas sinceramente, tudo parece ser uma mentira. Foi assim mesmo e, é deprimente recordar tamanhas incompetências que vieram a ser considerados como os altos valores pátrios. Agostinho Neto diria posteriormente na Casa de Angola «Os portugueses já roubaram tanto que quase já não há mais nada para roubar».

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Neto, até lembrou que os técnicos dos laboratórios de engenharia da Luua estavam a encaixotar o material de Angola para trazerem para a sua terrinha. E, conclui nesse então: “Estão a saquear a nossa terra”. E não é que, o maluco primeiro-ministro Vasco Gonçalves o engrandeceu com palavras de boa catadura!? Tristes dias, aqueles!  A maioria dos africanos (leia-se negros) não desejava a saída dos antigos colonos (frisavam bem sempre esta condição quando o caso metia brancos).

melo3.jpg Os negros, não desejavam a saída dos brancos mas julgava-se ser difícil evitá-lo revoltando-se pouco convictos que os três Movimentos Armados fossem capazes de superar definitivamente as suas diferenças. Os militares portugueses é que estavam particularmente satisfeitos e até orgulhosos pelo trabalho feito por Rosa Coutinho. O Alvor-Penina foi efectivamente «uma caldeirada à portuguesa». Um jogo viciado viria a dizer mais tarde Mário Soares, um cidadão que julgava ter podido fazer melhor que todos os outos mas, de quem dele nada se viu de bom (tarde piou).

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Savimbi fez nesse então uma leitura acertada: As forças Gonçalvistas sempre pretenderam entregar o poder exclusivamente ao MPLA. Introduzido a martelo na própria Cimeira de Alvor, o vendilhão vermelho Rosa Coutinho movia-se nos corredores meio disfarçado cheiretando e manobrando questões de última hora! A UNITA e a FNLA tinham dito peremptoriamente que não queriam lá esta figura mas em surdina, conseguiram truncar esta postura. El estava ali para dar o seu suspiro aos esquerdistas do MPLA.

melo4.jpg Mas, que cambada esta que actuou no Portugal amolecido na apatia, entorpecendo o povo com inverdades, suas sábias lérias analgésicas anestesiando as gentes. Técnicas avançadas no trato da sociedade. A descolonização acabou por ser aquilo que o MFA associado aos revolucionários do PCP queria que o fosse e, tendo os interesses dos portugueses que viviam em Angola sido totalmente ignorados. Houve um excesso de voluntarismo acomodado ao desleixo e, que levou os interesses nacionais a serem destratados…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:59
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . C

TEMPOS PARA ESQUECER08.08.2016 - ANGOLA DA LUUA X . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. … Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo. Foram demasiados traidores…

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

valentina3.jpg (…) Portugal, simplesmente se subjugou ao preceito da descolonização do MPLA de Neto! Quando se tomaram medidas para alterar o que estava mal, já era tarde demais! Rosa Coutinho sabia que isto iria acontecer e deixou tudo encaminhado por forma a fortalecer o inexistente MPLA de Agostinho Neto! Rosa Coutinho deveria simbolizar para Angola do MPLA a estátua da liberdade com um tamanho triplo da que se observa nos Estados Unidos da América.

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E, Neto disse isto mesmo aos emissários de Fidel de Castro: «Que não tencionava repartir o poder com os outros Movimentos nem conceder-lhe qualquer condução de áreas estratégicas». Todos se moviam em falsidade! Ouvia-se falácias atrás de falácias fazendo de nós, uns tristes coitados. Um nojo!... O Governo de Coligação saído do Acordo do Alvor viria a ser uma utópica armadilha, assim muito cheia de fios entrelaçados que a todos amarrava; até a eles, os fazedores das leis.

ÁFRICA1.jpg A maioria das mortes em Luanda saía dos canos das G3 e outras armas e também granadas dadas ou desviadas para o MPLA! Era o projecto dum movimento que só o era em ficção mas, que trabalhou o ódio na perfeição da “Victória ou Morte”. A Luua tornou-se a terra da maka, da confusão generalizada com os grupos de bandoleiros saídos dos comités populares, de bairro e outros que só mesmo Lúcio Lara saberá!

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Os mulatos encostaram-se aos pretos, os pretos que pertenciam à nomenclatura faziam seu jogo de inverdades e os pretos lá nos musseques morriam como tordos debaixo de chapas de zinco ou capim! Os brancos sem saber a quem recorrer moviam-se que nem salalé tresmalhados de medo; outros diziam-se progressistas a toda a prova! Eles andam por aqui e por ali lavando a imagem! A guerra do Tundamunjila estava aí! E, era isto mesmo que interessava passar à grande parte de gente, que por nada queria abandonar Angola! Mas, foi sem nada que tiveram de sair, revistados e revirados do avesso.

ÁFRICA0.jpg Lúcio Lara era um dos principais instigadores dos bandos armados juntamente com Iko Carreira entre outros. Os novos governantes portuguese aliados aos novos oficiais de aviário, desejando ser merecedores de créditos para com o resto do Mundo e países de África afirmavam com frequência: - “A transição vai ser feita sem nada se exigir em troca, nem dela retirar sequer um alfinete”. Esta operação de charme foi a visão real de tudo. Nós nem eramos assim importantes como um alfinete! Que poderíamos deduzir destas palavras proferidas por gente que dizia representar-nos?

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Àquela operação de charme, eu diria de merda…! Tudo orquestrado à revelia dos nossos interesses e dos da pátria; e, tudo muito suavemente ou virulentamente aceite pela maioria dos portugueses do M´Puto! Não me cansarei de dizer isto porque é a verdade que sinto, embora incomode muita gente que só agora se diz ter sido enganada! Será!? Uma vergonha sem perdão nem ponto final porque ainda falta muita cuspidela num texto nunca acabado. Já nem interessa fazer-se justiça porque a fzer-se, vai sendo acomodada e demasiado tardia!

luua24.jpgNeto era tão paranóico que só debaixo de gotas ébrias, bêbado se quiserem, dizia algo com agrado e, sempre ficava subjacente em sua aparente preocupação a recear um potencial rival. Estava demasiado ansioso para ser o líder do MPLA, líder da Luua e o presidente de Angola. No dia 26 de Julho de 1974, três meses e um dia após o 25 de Abril, um dia depois da chegada de Rosa Coutinho a Luanda, Neto enviou uma delegação do MPLA a Cuba solicitando a Fidel ajuda económica, treino militar e armas.

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Nesta fase de tempo, Rosa Coutinho diria que os brancos ultra-revolucionários não seriam perigo na marcha idealizada por ele para a independência, afirmava que estes, nem consciência politica tinham para actuar! Que não estavam politizados e apenas queriam continuar em Angola afirmando: “ Os brancos não têm uma ideia concreta do que querem a não ser a segurança das pessoas e seus bens”. Terão de optar pelo Movimento que melhor assegure a sua protecção se os deixarem optar por essa via! E ele, sinceramente, não estava errado naquelas afirmações mas, fez de tudo para provocar a debandada.

nito3.jpg O Embaixador Russo em Dar-es-Salam diria por alturas do Natal de 1974 que «O MPLA não se deve considerar um partido de vanguarda, nem sequer um partido mas antes, uma coligação de sindicalistas, intelectuais e afins progressistas, assimilados ou cristãos de largos segmentos da burguesia luandina» e que tinham os militares portugueses como seus parceiros! Estavam longe da realidade por via de ela andar estonteantemente rápida!

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Pode dizer-se que ainda nem sequer a tinta gasta em subscrever o Acordo de Alvor tinha secado e, já os conflitos eram evidentes em dissidências e confrontações armadas um pouco por todo o território angolano. O acordo de Alvor que viria a ser assinado na Penina pelos três representantes dos Movimentos e Portugal era um documento incongruente devido sobretudo à celeridade da sua feitura. A parte Angolana apresentava um texto mal elaborado e incompleto que suscitava logo à partida a sua exequibilidade mas, a pressa era tanta que superava o demasiado grande!

chipenda.jpg Este texto só por si era um atestado público de incompetência. Aos brancos formam simplesmente postos de lado com a anuência de Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e os militares mandatários do MFA, diga-se, todos exímios revolucionários de cartilha vermelhusca práfrentistas. Os brancos não iriam ter qualquer garantia de direito à nacionalidade. Não houve nem sondagem, nem referendo a dar força legal a esta postura. Uma negligente e confrangedora atitude por parte de gente que viria a estar no topo da hierarquia do M´Puto. Aliás, recomendaram às partes manter este capítulo em pasta “secreta”.

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Um bando de incompetentes de alto coturno! Isto não ficou salvaguardado no acordo de Alvor! Foi elaborada uma proposta chamada de Lei Fundamental elaborada em Maio de 1975, seu artigo 9º que estipulava serem angolanos todos os nascidos em Angola e, os não naturais, filhos de mãe e pai angolanos. Isto que foi elaborado só por angolanos, veio a vigorar só até 2014!

neto0.jpg Dos três partidos MPLA, FNLA e UNITA, só este último apresentou a versão de que eram angolanos os que vivessem em Angola há pelo menos cinco anos ou há mais de três anos se tivessem filhos nascidos em solo angolano e os cônjuges, se residissem há um ano no território. Os negociadores portugueses recusaram-se a dar firmeza ao conceito de nacionalidade remetendo isto para os movimentos apos formarem um governo de transição! Mas que filhos da mãe, renegarem seus próprios irmãos e, meterem-nos a propósito numa pocilga de conceitos e preconceitos. A coisa não estava preta… era de pretos! Enfim!...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:56
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2016
CAFUFUTILA . CXVI

NAS FRINCHA DO TEMPO – KIANDA COM ONGWEVA  - 11ª de várias partes…

AS TÁGIDES DE TOLEDOO encontro com Zachaf Pigafetta Roxo, a kianda tetravó de Roxo e Oxor.

Ongweva é saudade

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

lagar2.jpg Com a sensação de começar a penetrar na minha própria inconsciência, enrolando dedos e retesando músculos, cruzei o bairro mouro Albayzin bem cedo; de forma aleatória como um senhor dos caminhos minkisi cruzei ruelas estreitas com aromas de churros; podia ver do outro lado as muralhas e torres de Alhambra envoltas em um manto de verdura. O rio Darro corria na depressão à semelhança dos meus pensamentos que rolavam entre mulheres gitanas, guapas bailando o flamengo em companhia de Aladino e N´si, o guardião negro da terra.

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Januário Pieter, a kianda itinerante da Globália, natural de Cabo Ledo, sítio distante da kalunga ali estava olhando com ar patético, angústias feitas estátuas que só ele sabia decifrar. O Pambu N´jila, ponto de encontro era ali, vendo o cenário das antigas muralhas mouras. Porque era ali que aqueles espaços físicos e místicos se juntavam. Espaços simbis com gente de suko ou alucinados como eu!

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Depois de um grande abraço com os comprimentos habituais, afagando seu muito velho esqueleto, deslizando minhas mãos naquele piano de costelas salientes, lá fomos até a la "Calle Bodegoncillo". Já um pouco encalorado num desce e sobe, entramos ambos em "El Pátio Riconcillo" e, buscamos acento apropriado; o lugar era arejado dando para la "Plaza Nueva" podendo ver mais acima la "Plaza de Santa Ana".

ciga6.jpg As paredes estavam cobertas de cartazes anunciando espaços de "Flamenco" de cores amarelecidas com datas ultrapassadas de eventos tauromáquicos; bestas de bois cornudos e esbeltos toureiros enfiados em apertados fatos vistosos de lantejoulas zurzindo farpas ou bandarilhas coloridas; estavam encaixilhados em madeira sarapintada de minúsculos furos de térmitas, resquícios das pestes de Guernica.

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Surgiu num repentemente uma estranha figura de mustafá carregado de espanta espíritos, um homem de olho azul, talvez tuaregue a vender ternuras na forma de raminhos de alecrim e farrapos enternecidos de recordações. Uma figura muito parecida com aqueles aguadeiros da praça Jemaa el-fnaa de Marraquexe. Fiquei na dúvida se não seria aquela uma miragem e, sem ninguém se aperceber belisquei-me e, era eu mesmo a ver a miragem verdadeira.

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Está na hora de me apresentares Zachaf Pigafetta Roxo disse eu neste entretanto do pré antes do ressurgimento de tal figura, assim um misto de Aladino vestido com um matrafona de capulana e panos de Mobutu, esfinge misturada com mugabe e mandela meio imperceptíveis na confusão de sombras feiticeiras. Mais admirado fiquei quando Januário a Kianda o mandou sentar, o mustafá; Afinal não era ele, era ela, uma mulher radiante de beleza, assim estonteante que se ondulava em imagem, ora era, ora não era nem deixava de o ser, quasequase um holograma falante.

luis32.jpg Era agradável estar ali confraternizando com o passado que, nem sempre foi risonho mas quando Pieter me disse apontando afigura: Apresento-te essa kianda que tanto queres ver Zachaf Pigafetta Roxo…. Eu dei um pulo no meu desassombro, larguei os poemas de Garcia Lorca referentes à guerra de 1937 a 1939 com quadros dantescos no bombardeamento de Guernica e devo ter dado um grito espantado porque num repentemente, todos olhavam a nossa mesa! Melhor…minha mesa!

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Pedi um “café solo” e una tortilha de “manzana” ao empregado que se aproximou depois de oferecer o que quer que fosse aos meus dois parceiros; parceiros que parece que mais ninguém via, só eu! Seria desajustado pedir mais que uma coisa quando afinal eles só me viam a mim! A sala espaçosa estava recheada de quadros sobre esses acontecidos passados como uma galeria de horrores de Granada. Neste recanto em uma cadeira em madeira talhada com motivos da terra, envolto em atrocidades de uma disputa civil entre Nacionalistas de Franco e Republicanos, o instinto perfurou-me de medo. 

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Sentia-se desprender da tela o odor fétido da morte. Meu olhar não se desprendia dos corpos desmembrados em destroços retorcidos, gente e animais espalhados pelos campos; um treino de preparação à grande guerra que viria a acontecer em 1940, Alemães ajudando Franco a tomar o poder. Mas, e agora, tinha de dar a máxima atenção àquela figura tão ansiosamente esperada; aquela kianda tão aguardada e, que me deu um “Buenos Dias” vibrados de suavidade longínqua. Juro que meu corpo abanou do cocuruto às unhas carunchosas como uma folha-de-flandres feita espinha ou coluna…

luis33.jpg Entre o desejo de saber a verdade e o pavor que lhe tinha, zuniam na minha cabeça legionários às ordens de Franco gritando “viva la muerte” mutilando o meu medo envidraçado de repugnância a todas as guerras. Foi neste então de pensamento e depois de agradecer com “um muito prazer”, consegui balbuciar de mansinho: Estou muito grato por a conhecer, ando ansioso em saber depois de tantos imprecisos episódios e se efectivamente, você é quem é, a tetravó de Assunção Roxo? A kianda fez um ligeiro pestanejar reluzindo comoção, quasequase como um vaga-lume comovido de pirilampo outonal em noite de lua cheia…

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O espanto maior estava por chegar! És tu, o T´Chingange que socorreu minha trineta lá na praia do Guaxuma do Brasil, assim e assado com todos os pormenores de barbatana mais o Zé Peixe num lugar mais a sul de Sergipe, assim com mais edecéteras e virgulas e, curiosamente com um profundo conhecimento de mangues e siris de Aracaju e mais coisas que nem o Mandacaru por certo saberia. Espantado disse-lhe que sim! Era eu inteirinho da Costa, nascido e desfalecido num vapor chamado Niassa.

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Ainda não refeito do espanto comecei a fazer-lhe uma série de perguntas como essa do seu nome ser conhecido hoje como sendo o lago Nyassa e também se ela sabia do desenrolar de toda a estória que nos apanhou em vida numa terra de nome N´Gola e, foram muitas as perguntas e interjeições com muxoxos de parte a parte! Vamos pôr um ponto nos is! Assim, de rompante!

guerri1.jpgCom o tempo dir-te-ei o que houver para dizer mas não permito que graves nada do que te irei dizer porque não quero de forma alguma alterar o rumo da verdade! O rumo do vosso futuro! Okei disse eu. Okei, rematou ela também como dando por terminada a sessão do dia! Perfeito, vamos aguardar! Disse eu… e assim ficamos naquele dia estival … Sabes! Esta vai ser uma longa estória, disse ele, ou ela… Vou tentar conciliar o sono com o sonho e destringir no tempo, este espaço de fumarada… 

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Glossário:

Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto; kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral; Kamundongo: camundongo, natural de Luanda

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:17
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCIX

TEMPOS PARA ESQUECER 02.08.2016 - ANGOLA DA LUUA IX . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo.

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

kianda05.jpg (…) Cada um de nós tem uma lenda! A minha foi preterida por ser o que ainda estava para ser, uma inventação lançada para fugir às realidades da Luua. Para encobrir eventos desonrosos, coisas sem heroicidade, um quarto de hora antes da meia-noite do dia 11 de Novembro de 1975, minha nação, meu barco, levantou âncoras ao largo da Luua. A bandeira do M´Puto era embrulhada num baú dum velho carcamano de colono aonde tiveram de caber todas as ilusões.

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Foi assim que me tornei Niassalês. A bandeira verde-vermelha, tornada num trapo vulgar, estava condenada a criar bolor. Minha nação Niassa fez-se ao alto mar vendo-se de longe os festejos celebrando de forma dantesca o nascimento dum país. Eram tiros e rajadas a fingir de fogo-de-artifício. Já nove meses antes o Sandokam, o Sabata e o Amargoso percorriam Luanda disparando e lançando granadas a eito, matando gratuitamente quem aleatoriamente lhes surgisse no encalço. Estes chefes de grupos populares curiosamente usavam armas oferecidas pelo exército português.

NAMBUANGONGO.jpg Fazia parte da estratégia, no lançar medo, disparar contra montras, estilhaçar as mioleiras ordeiras. Que se saiba nunca foram apanhados pelas NF (Nossa Forças) e, quando isto se verificou ocasionalmente fez baixas nas NF que já não se sabia bem, se o eram. Tudo causado para provocar o pânico, travar a sociedade e espantar os brancos. E a fuga do tundamunjila fazia-se notar no Prenda, Catambor, Cazenga, Bairros Populares, Cuca, Viana, Corimba, Terra Nova, Caputo, Mulemba e, em verdade de todos os bairros periféricos da Luua.  

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Logo a partir de Junho de 1974, começaram a ser infiltradas armas e munições nos musseques de Luanda. Era o Poder Popular a nascer com suas células, fanáticos de Lúcio Lara e Neto, capitães do mato às ordens de Nito Alves e Valódia dos grupos Hoji-ya-Henda; estas armas eram indiscriminadamente entregues a pessoas que as não sabiam manejar. As vítimas eram um pouco de tudo o que pudesse servir de alvo, raivas grandes e pequenas com negros, brancos e verdianos. As mortes foram tão abundantes, ao ponto de a casa mortuária já não ter mais espaço; alguns corpos surgiam mutilados, queimados, desfigurados.

brig4.jpg Neto, líder do MPLA afirmava que os portugueses não deveriam ser designados como comunidade branca por não constituírem um grupo coeso, nem terem direitos especiais na realidade pós-colonial. Seu parceiro Rosa Coutinho corroborou em tal posição afirmando: “Os brancos se quiserem ser ouvidos, filiem-se num dos movimentos”. Estas afirmações de Neto estavam bem perto da realidade porque os Tugas tinham como desporto ir à praia, ir ao cinema, ir à pesca à Barra do Quanza, fazer umas farras de quintal ao fim de semana para noivar a filha e, poucos eram os verdadeiramente politizados. Uns ingénuos!

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Foi mais ou menos isto que aconteceu! Os brancos filiaram-se em um, dois e até três movimentos porque pelo sim pelo não tinham de garantir alguma segurança pelo controlo familiar pois estes pseudomilitares viriam a praticar isso, dai em diante. A caminho do sul ou do norte nas barragens diferenciadas apresentava-se o cartão do militar que surgia a controlar; o camarada recebia uns cigarros, mandava seguir na boa.

paiva4.jpg Mais à frente o irmão mandava parar e com o cartão o mano mandava prosseguir; com os fnelas era igual. Estes para mostrarem sua diferença faziam continência com bater de pés e mandavam seguir desejando uma boa viagem… Havia sempre uns cigarros francês mata ratos, ou Negrita e mesmo caricocos a dar aos zelosos controladores de tráfico e traficantes. Era a gasosa a ser instituída no meio da Luua e arrabaldes; depois generalizou-se juntando uns kumbús de dinheiro macaco: “escudos angolares”.  

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Era já o medo a dominar as emoções, uma técnica persuasiva que entra no subconsciente e, por via de inseguras leis que sempre descumpridas ou alteradas, faziam do MFA uma instituição desajeitada, sem respeito ou credibilidade. Portugal já não era confiável; isto tornou-se uma infeliz realidade que viria a deixar sequelas para todo o sempre. Passados que são mais de 42 anos sinto um certo orgulho por sempre me dizer ser Niassalês e, porque foi o último vapor a abandonar a minha terra, o meu país de ilusão e, que agora, já nem sucata o é. Continuo Niassalês, uma inventação que me tranquiliza.

miss6.jpg Logo à partida, Melo Antunes aceitou que os brancos de Angola não tinham concessão à nacionalidade Angolana; que apenas os nascidos ali, teriam essa prorrogativa! Mas, até aqui, isto lhes foi tirado com o correr do tempo. Os maiores desaforos vinham exactamente dos máximos responsáveis Lusos! Tudo rolha de má cortiça! Savimbi foi o único que retaliou esta medida e, disse querer um período mais alargado para a data da Independência. Portugal, simplesmente se subjugou ao preceito de descolonização do MPLA de Neto.

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E Agostinho Neto disse isto mesmo aos emissários de Fidel de Castro; que não tencionava repartir o poder com outros movimentos nem conceder-lhes condução de áreas estratégicas e os brancos, estavam ali a mais. Todos se moveram em falsidades e o Governo de Coligação de Angola por via do acordo da Penina, viria a ser uma utópica armadilha. Nada mais do que isto!

funa0.jpg Voltaremos aqui mas, entretanto as mortes registadas em Luanda resultavam de tiros disparados por armas do exército português. Isto era demasiado preocupante; era uma traição que ninguém compreendia, ninguém queria aceitar por inaudita. No interior dos Bairros periféricos, suburbanos da Luua haviam já milhares de armas de repetição que, tal como já foi dito faziam baixas nas próprias forças armadas designadas de Nossas Forças…Eram tempos de Rambos matando pokémons, usando a linguagem hodierna…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:42
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Domingo, 31 de Julho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCVIII

TEMPOS PARA ESQUECER - 29.07.2016 - ANGOLA DA LUUA VIII . NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA. … Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - (haverá um ou outro que ainda pensa ser um SOL).

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

zedu4.jpg (…) Em Angola nada mais havia em como e a quem se acudir. Era irreversível, haveria que fazer caixotes e enviar para qualquer outro lado da terra aqueles pecúlios! O M´puto, definitivamente, estava a abandonar seus cidadãos. Durante uns largos meses só se ouviam marteladas pelos quintais da Luua a pregar baús, tábuas e ripas de mobílias a arrumar o espólio de uma vida, alguns álbuns de fotos e pouco mais. Actualizar o passaporte e ir para um qualquer destino ao desvario, arrumar o resto de suas vidas! Dói muito ter de rever tudo isto com o cérebro inchado de traição com comportamentos de impunidade, um genocídio.

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Os veículos em circulação normal eram apedrejados, os outros, já em fuga para o Sul, Leste ou Oeste e outros até sem qualquer rumo de pontos cardeais, formando comboios como formigas quiçonde, eram interpelados em barreiras por grupos armados; exigiam aos ocupantes dinheiro, cerveja, cigarros e, muitas das vezes só pretendiam mesmo roubar, Agostinho Neto atiçava o povo a maliciar-se, formar quadrilhas do tipo comité de bairros e células de guarda para assim procederem. Passados que são mais de quarenta anos, amigos próximos desmentem-se em defesa daqueles que achavam ser sua protecção, o MPLA. Eles agora têm vergonha de terem acreditado em gente desclassificada e roem a corda da consciência!

zem2.jpg Muitos nem se lembram de nada, dizem! Outros desculpam-se agora, mas sempre que lhes dão uma aberta dizem inverdades para se convencerem! Eu tolero mas não esqueço porque uso isso de compaixão compactada, amarfanhada, coisa que não é muito elaborada em gente que sempre se desmente! É bem uma habitual forma de que todos os dias assistimos em gente amiga, até familiares, para se desvanecerem de culpas; assim como uma autolavagem nos procedimentos passados! E o bom censo diz-nos que devemos relevar porque deus é grande.

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Aquelas barragens nas estradas feitas pelos movimentos, falando às claras, eram para vilipendiar, humilhar o branco e roubar tudo o que houvesse em seu interior. A contestação ao rumo que Rosa Coutinho estava a impor à descolonização de Angola não termina em Outubro de 1974; de forma falaciosa e pensada, surgiam como cortina de fumo a esconder as verdadeiras intenções, outros grupelhos, movimentos ditos cívicos, inventados para aparentar entendimento com o MPLA de Agostinho Neto.

valentina5.jpg A junta da CCPA, Coordenadora do Programa do MFA para Angola, era em verdade o cérebro de todas as falácias, mentiras e afins e, a seu mando foram mobilizados cidadãos para fazerem raptos ao estilo da Gestapo. Os bandoleiros que praticavam estes actos tinham gente do PREC no comando. Tudo era feito no engano e, sempre os militares que deveriam actuar, nunca eram suficientes para enfrentar estes nos desacatos fabricados, cisa pensada nas células daquela junta do Almirante Vermelho.

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E, note-se que nem os próprios lideres dos movimentos da FNLA e da UNITA, representativos do povo, como se fazia crer, eram conhecedores da tramóia. No encontro de NF (Nossas Forças… supostamente FAP) com Savimbi em Cangumbe, na assinatura do cessar-fogo, para término das hostilidades, Savimbi, reafirmou que a coexistência entre os três movimentos, seria incompatível com a transferência imediata da soberania.

zem4.jpg Que o período de transição deveria ser de três a cinco anos. Este era o guerrilheiro que via mais longe mas, não descortinou a armadilha e, até mesmo alguns dos interlocutores das NF do FAP, deste encontro militar, a saber Silva Cardoso, Ferreira de Macedo e Altino de Magalhães, Pezarat Correia entre outros, não sabiam que estavam simplesmente a serem uns joguetes laranjas para da cara de veracidade ao processo! Alguns destes, os mais verticais, disseram mais tarde terem sido manipulados.

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Tudo, não passou de uma deslavada traição; encostar estes cérebros do acto ao paredão da Justiça deveria ser exigido porque daqui resultou um genocídio claro e premeditado; qualquer desculpa sairá sempre esfarrapada. A bandeira dos generais de aviário era outra e decerto que tinha muitas caveiras cruzada. O tempo confirmou isto! Não queiram lavar isto com produtos que tudo ficará mais tóxico. Mas, ao invés de tudo o dito, os credenciados das NF foram condecorados, enaltecidos pela imprensa, pelo povo do M´Puto; triste farsa! Mas que meda de descolonização!   

zé peixe9.jpg Em Cabinda o processo foi ainda mais rápido. Em finais de Outubro de 1974, o Almirante Vermelho Rosa Coutinho disse: “houve a tomada do poder em Cabinda por elementos das FAP aliados ao MPLA, destituindo e fazendo prisioneiros o governador Themudo Barata e o Capitão do Porto de Cabinda”. O Comando do Sector Militar foi “revolucionariamente” assumido pelo Tenente Coronel Oliveira, Comandante do Batalhão do Belize. Este simplesmente informaria que o Estado-Maior e o Brigadeiro Themudo Barata tinham sido depostos do Comando por “ vontade dos sublevados do Belize”. koméquié !? (palavra revolucionariamente inventada nesta agora por mim!) …

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Estes, eram não mais que os efectivos do Exército, das NF, exército metropolitano (do M´Puto), ocupando posições chaves, pontos estratégicos de cabinda com uns quantos militares do MPLA. Tudo isto para contrariar N´Zita que julgava ter “carta-branca” do governador Brigadeiro Themudo, a fim de formar um exército com as Tropas Especiais (TêÉs).Em 29 e 30 de Agosto já tinham entrado em Cabinda 200 elementos do MPLA para “conquistar Cabinda, desactivar o tal exército (FLEC) de N´Zita e instalar ali no interior o seu Estado-Maior. Tudo isto foi urdido desactivando o embrião da FLEC.

silva2.jpg Em finais de Outubro as FAPLA do MPLA, sitiavam a cidade de Cabinda. Note-se que aqueles 200 elementos chegados ao enclave foram municiados, fardados e alimentados no bivaque do Dinge, com a supervisão e ajuda das NF das FAP. Isto foi afirmado e está algures escrito por Manuel Figueiras um capitão Comandante da Companha daquele povoado do Dinge.

soci0.jpg Note-se que o governador citado Themudo Barata, foi maltratado e preso por um furriel  enquanto o Comandante dos Serviços da marinha foi preso por elementos do MPLA. As comunicações com o exterior foram cortadas de imediato, ocupados os Correios e assaltada a sede da FLEC com a completa destruição de mobiliário e, queimados todos os papéis.  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:50
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Sábado, 30 de Julho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCVII

TEMPOS PARA ESQUECER09.07.2016 - ANGOLA DA LUUA . VIINesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo - (haverá um ou outro que pensa ser o SOL).

Por

soba02.jpgT´Chingange

valentina0.jpgTambém, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em estórias, embora aumentando em capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade do que foi a guerra de tundamunjila (do espantar - do vai-te embora!). Na percepção parcial das vitais contingências, tecidas e compostas nas mentirosas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que nos determinam o futuro: o agora!

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Aos velhos será cruel deixá-los privados de respostas e será de bom senso até, não se lhes fazer perguntas de passados não amistosos porque dos muitos dias, das muitas noites, das muitas injustiças pode sem se querer saírem à luz do tempo a mostrar as gigantescas presenças de feridas mortais. Daí abrirem-se gavetas com choros ranhosos, ou mesmo gavetões, com ossários feitos pó. Dói ser traído por nossos irmãos…

valentina3.jpg E, infelizmente, até sabíamos estar quilhados até os tornozelos mas, só agora podemos ir dum extremo à direita ao outro da esquerda; agora há falas bonitas p´ra boi dormir, muito roubo e corruptos à solta! Peneirando no tempo as ténues memórias dos acontecimentos, apagando os rastos dos passos que aqui nos trouxeram à terra de M´Puto, de novo volto a abrir o postigo da memória antropológica sem romance condescendente e, sem alvoroçar os espíritos que omitiram as leis não cumpridas.

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Falarei duma terra que tudo tinha para ser de promissão - Angola! Na nossa vida, com os afins descobertos hodiernamente em pegadas politólogas e, como se fossemos monstros colonialistas, surgem cheiros encarquilhados misturados quase na leitura de carbono e eteceteras complicadíssimos… Cada um de nós foi o que foi por uma coisa que dizem ter sido pequena, assim como dum primeiro choro! Mas outros choros que se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, não nos permitiram escolher o dedo ou arado, nem por onde fazer os regos que por coisa pouca, assim dizem … mudou nossas vidas.

valodia.jpg A tropa fandanga da FNLA ateava fogo a tudo e, já no mês de Outubro de 1974, um total de quinze fazendas tinham sido devassadas. Por vezes os grupos nem eram identificados; de noite, gente furtiva atirava para os carros que se aventuravam a circular. Da CCPA - Comissão de Coordenação do programa do MFA para Angola, pouco ou nada se via fazer de ter agora notoriedade, tudo pelo contrário, salvo raras e honrosas excepções.

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A Câmara Municipal de Luanda foi tomada de assalto por militantes brancos, mestiços e pretos do MPLA que numa mascarada sem algum primor a enaltecer, apresentaram uma moção com vivas ao seu movimento alegando destituição da Vereação, hasteando a bandeira daquele grupelho que, feito chusma, a substituiu pela bandeira portuguesa. A este procedimento foi dado um alarde heróico na Rádio Voz de Angola: “ Um momento histórico “ afirmavam a cada minuto derramando coisas nunca escutadas.

luuan1.jpg A rádio já estava nas mãos dos PREC`s guedelhudos idos da metrópole, todos embebedados ou enredados num ideário de ché com “vida ou morte”, como se tudo isto tivesse um lado romântico…Dentro da sala da Vereação, cantaram o hino do MPLA. Notoriamente eram acções propositadas e permitidas pela tal CCPA. Quase posso jurar que as ideias tenham saído daquela pseudo instituição, desses generais de aviário levados às pressas para Angola a contrariar qualquer reacção dos brancos. Generais que hoje recebem chorudas reformas, meio escondidos na sombra, brincando como pokémons.

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E, dos já defuntados, ainda legam às famílias benesses da revolução de túji da qual deveriam ter vergonha. Alguém até hoje falou em ressarcir-nos? Antes pelo contrário, gozam do nosso legado, contas e tractos entre mwangolés corruptos, generais da gasosa. Efectivamente as reacções não foram as correctas e até aqui parece ter havido a mão comuna camuflada no como de se fazer! Eles tinham lido todas as cartilhas de revolução! Não sou só eu a pensar deste modo, porque as evidencias já nesse então, se viam serem demasiado torpes.

luuan2.jpg Nesse mesmo dia e pelas 19 horas e perante Pezaret Correia, o frentista da comissão organizada “had hoc” deu andamento ao processo (lembre-se PREC). Nessa mesma noite Rosa Coutinho, o almirante de Túji, vermelhusco, exarou um despacho com a exoneração do Executivo Camarário. É óbvio que tudo isto tinha sido orquestrado por este vermelho ao serviço do MPLA. Ninguém o travou como deveria! O homem do pingalim, das luvas, do monóculo, da petulância, foi vilipendiado - um galo vaidoso…

luuan3.jpg O arquitecto das rotundas da Luua, Troufa Real, branco e residente em Luanda, estava nesta leva de gente afecta ao MPLA. Registe-se qui o que este arquitecto funcionário daquele Município disse aos microfones da emissora Voz de Angola: - “Fora com a Vereação” e, dirigindo-se à turba convidou-os a tomarem aleatoriamente ou simbolicamente aquela sala nobre. E continuou: “Isto é vosso - o povo é quem mais ordena” - viva o MPLA”… estranho que os mwangolés actuais não tenham erigido uma estátua a esta trágica figura que creio estar agora e também com uma reconfortada aposentação no M´Puto…Quem o vir por aí faça-lhe um carrinho-de-molas à maneira.

luuan4.jpg Após aquele acto de bandalheira e punhos no ar, os manifestantes retiraram-se para fora do salão substituindo antes a moldura do General António de Spínola, o come-futuros, colocada no topo da sala pela foto de Agostinho Neto. No meio daquela turba alguém disse: “ Agora é a nossa vez de fazer mulatos, ter carros e morar no asfalto”. Neste esboço de rebelião o MPLA e o MDA (Movimento Democrático de Angola) assumiram na rádio essa sua postura. Neste estado de coisas e, sabendo de antemão terem o apoio tácito, técnico e afins da CCPA, quem poderia controlar quem? Num ápice, tudo ficou irreversível, sem ter passado pelo provável.

(Continua…)

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 04:24
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Sexta-feira, 29 de Julho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCVI

TEMPOS PARA ESQUECER  … 29.06.2016 - ANGOLA DA LUUA . VI

… O Mundo sempre andou mentiroso - Também, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em estórias, embora aumentando em capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade (Não há meias verdades). Na guerra de tundamunjila

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

cari2.jpgEm Outubro de 1974, no Norte e no Leste de Angola eram diariamente registados incidentes com vítimas mortais, actos de vingança contra capatazes ou gerentes de fazendas e trabalhadores em geral. No Uíge (Carmona) assistia-se ao fenómeno de bandalheira com os soldados da FNLA atirando a gosto para o ar, sem qualquer aparente motivo, homens fardados e armados com espingardas de repetição. Ao longo das estradas do Norte como as de Quissesse e Songo, podiam ver-se centenas de famílias de bailundos escorraçados das fazendas de café ocupadas por soldados do ELNA (exército da FNLA) maioritariamente quicongos a falar francês; uma tropa fandanga.

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Ateavam fogo a tudo! Só neste mês de Outubro, registaram-se um total de quinze fazendas ocupadas por grupos, nem sempre identificados; faziam ataques contra madeireiros, seviciando-os e queimando-os tornando-os irreconhecíveis! As fontes de riqueza dos brancos e de negros não colaborantes eram vandalizadas, o gado morto a tiro ou catanada; os saques passaram a ser uma rotina. Usando petróleo regavam os produtos tais como batatas, mandioca, feijão e café ateando fogo em seguida; os bailundos eram mortos a sangue frio. Diga-se em verdade ter sido a etnia mais sacrificada, a mais sofrida em toda a pré-guerra de Angola. Era a guerra do tundamunjila (de dar o fora).

luis20.jpg Os movimentos com seus braço armados, por toda a Angola e, inicialmente em suas áreas de influência e sem coordenação visível, faziam barragens nas estradas supostamente para controlar, devassando, partindo louça, pisoteando sem jeito e ou retendo géneros e aprisionando coisas que poderiam ter algum interessa para eles. Podia ver-se pseudo-soldados completamente embriagados ou drogados pegando nas armas de qualquer jeito. Eles não tinham noção de como funcionavam as armas que empunhavam. Eram nitidamente bandos de drogados. Não sabiam o que era uma culatra ou o cão da mesma…

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Em uma viajem que fiz de Nova Lisboa (Huambo) a Luanda com minha sogra idosa, em uma destas barragens feitas por gente do MPLA e, indo eu na carreira da EVA e, em Muquitixe, fizeram alto, mandaram sair todos os passageiros e ali ficamos encostados a um casebre já arruinado com guardas armados atá aos dentes apontadas a nós. Um dos militares estava tão drogado que pegava a arma de cano longo com o gatilho virado para cima. Revistaram tudo e valeu-nos um furriel mestiço que seguia connosco, que se identificou como sendo do MPLA e por fim mandaram-nos seguir!

mcaco.jpg Reparei no percurso, que o Dondo estava literalmente abandonado, as quitandeiras vendiam peixe seco e bolachas, únicos alimentos que se podiam comprar! Depois vi Cassoneca, Colomboloca, Zenza do Itomba, Maria Tereza maioritariamente incendiadas, gente deambulando por ali, bandeira do MPLA hasteada aqui e ali, tropa meio fardada aos magotes fazendo coisa nenhuma. Nenhuma indicação de comércio a funcionar! Foi a imagem desta viagem que me convenceu de que tudo estava perdido! Eu vivi este drama; ninguém me contou!

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Nas barragens militares podiam ver-se os homens em cima das fordes ou chevrolletes seleccionando o que lhes convinha! Isto fica! E jogavam ao camarada. Isto também fica! E o montão de coisas por ali crescia, no pó da terra! E, ai de quem reclamasse, seria sempre de um desenlace imprevisto. Uma humilhação sem qualificação! Melhor assim, diziam com a desilusão de uma vida tornada nada.

maga2.jpg Aqueles homens na maioria sem um comando credível pretendiam apenas roubar, rebaixar. E, se houvesse por um acto de repulsa por parte de alguns militares portugueses, tentando tomar conta da situação, estes eram recebidos a tiro; poderia relatar lugares mas este procedimento era generalizado! Há por aí muitos militares que sabem ser isto verdadeiro. Sabia-se mais tarde que estes exemplares militares da FAP (Forças Armadas Portuguesas) eram substituídos por não serem colaborantes com eles; E, eles eram o grupo do MPLA de Agostinho Neto! Houve oficiais que por se oporem foram presos e recambiados para o M´Puto. Houve oficiais superiores a terem voz de prisão por furriéis cabeludos… Lá chegaremos!... Como admitir isto!?

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Posso assim referir como terras de tundamunjila, Catete, Cacusso, Kassuma, Dondo, N´Dalatando (Salazar), Bula Atumba, Puno Andongo, Bango Azongo, Camabatela, Songo mas, sempre será uma pequena parte de uma longa lista. Os guerrilheiros do tundamunjila usavam nas incursões catanas, G3 fornecidas pelas FAP ou kalashnikovs, mais granadas penduradas a gosto e imaginem uns tubos tipo bazucas! Sei lá, talvez os mona-caxitos. Para quê este disparate! Dá para rilhar o dente, mesmo estando no futuro daquele espaço, quarenta e dois anos depois….

macu5.jpg Em Luanda podiam ver-se militares do MPLA passearem a fazer estilo banga com cintos de munições atravessados ou cruzados e espingardas de repetição, de tambor, longas e curtas e as tais G3 oferta do M´Puto; assim aos ombros, eram autênticos rambos a brincar às guerras. Como é possível, tanta gente ter assistido a tudo e, agora andarem com a língua agarrada aos dentes como se nada se tivesse passado! Gente gerenciando o verbo da teoria do esquecimento. Ando desiludido com muita gente que faz de conta! Como gostam de ser enganados! Oh gente miúda!

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No Rio Seco da Maianga, logo no dia um de Outubro lançaram uma granada para dentro de uma casa matando um cidadão branco! Isto sucedeu também junto da Cruz Verde e no cinema Tivoli no Bairro da Samba. Os automóveis eram apedrejados em andamento e, ou incendiados à porta de casa ou trabalho dos respectivos donos! Pergunto a tantos que nos interrogam: Tinhamos condições de ficar? Fiquem por aí que o grosso da matéria está para vir… Esquecer! Nunca… Pena é a de que olho para trás e, neste caminho, neste carreiro, neste fiote, só vejo a minha sombra e uns quantos, muito poucos que me dão ânimo. A estes, eu digo obrigado!

(Continua…)

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:15
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016
A CHUVA E O BOM TEMPO . LXVIII
ANGOLA .  TEMPO DE CINZAS - VALENTINA MEU AMOR - Altura em que se recrutavam as pessoas ás tantas da madrugada nos musseques, para os levar para a guerra…

Por

maga1.jpg Luís Magalhães - Tem uma caneta Parker 21 espacial. Dessas que levam o homem a gatafunhar acontecimentos da Luua, da Angola que jamais esqueceu … (na guerra do tundamunjila)

valentina0.jpg Eu conheci a Valentina no tempo em que um quilo de batatas custava duzentos escudos,Luanda tinha muitos cortes de água e luz e os géneros alimenticios já não existiam nas lojas.Era também no tempo em que se tinha que ir para a fila para comprar pão e com um pouco de sorte depois de lá estar quase meio dia a gente trazia algum. Estou a falar em Novembro de 1975 !! .Neste mês vi também uma avioneta sobrevoar Luanda a espalhar panfletos da F.N.L.A.onde se podia ler que o Holden Roberto dizia que ia invadir Luanda para exterminar o "Poder Popular", a OMA, as FAPLA e os comunistas e dizia também para a população( portugueses incluidos) para ficarem em casa para assim não serem vitimas do ataque.

valentina.jpg Enquanto isso eu ganhei intimidade com a Valentina uma menina negra com os seus treze catorze anos e logo ali lhe propus uma parceria ao dizer que ela ía para a fila do pão e eu dividia com ela, coisa que ela disse que aceitava, mas eu tinha que lhe dar cigarros,uma coisa que eu disse que não uma vez que ainda era muito menina.Ela aqui olhou para mim com muito respeito e respondeu-me que era para dar ao Pai.Eu como ela sabia de tudo o que se passava na cidade tratei de saber as novidades e , foi assim que soube que os Cubanos já estavam a lutar ao lado do M.P.L.A. e da tropa portuguesa e que o M.P.L.A.andava durante a noite a apanhar os meninos para irem para a frente de combate e que os Cubanos andavam pelos musseques para apanhar as meninas para assim satisfazer os seus desejos.

valentina2.jpg Soube também que no Bairro Golfe,os Cubanos queimaram uma bandeira Portuguesa para lá porem a do M.P.L.A, provocando com isso a ira da população e eles só sairam de lá sob escolta.Tudo isto enquanto se estava á espera da independência de Angola e onde já haviam sinais do futuro negro que vinha por aí abaixo.Quanto á Valentina,continuou no seu á vontade pelas ruas de Luanda e tenho que confessar que havia muita empatia entre nós os dois.

valentina5.jpg Um dia cheguei a casa e não vi a Valentina,que depois de muito a procurar lá me foram dizendo ( foi o Diogo) que os Cubanos a tinham apanhado, a tinham vestido de rapaz,cortaram-lhe o cabelo e a colocaram na frente de combate onde veio a morrer á fome e á sede e com as pernas crivadas de balas que era o modo cruel dos Cubanos actuarem para assim os obrigarem a combater ?. Nesse dia chorei pela Valentina !!

Luis Magalhães in Kizomba com Historias da vida

Foto de uma Historia que nunca se apaga e mesmo que o queiram fazer, está destinado ao fracasso.

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:04
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCV
TEMPOS PARA ESQUECER - ANGOLA DA LUUA . V24.06.2016 - O Mundo sempre andou mentiroso - Também, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em …  estórias, embora aumentando em capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade (Não há meias verdades).

Por

t´chingange.jpegT´Chingange

carlos9.jpg Porque a relatividade geral não permite a viagem no tempo para a frente ando encafifado nos espaços-tempo mais razoáveis e que o Nosso Senhor permite: viajar no passado! E assim como cordas cósmicas de velocidades sem comprimento visível mas, de secções transversais elásticas ou variáveis. O homem de borracha da ficção, que tanto me trabalhou a mente em pequeno, pivete e candengue, cabia nas fechaduras e nas frestas mais apertadas e labirinticamente complicadas. Estas cordas são mais elásticas em uns do que em outros; falo de gente com cabeça e dois olhos e um cérebro com todo o abecedário e miudezas.

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As tensões destas cordas da mente ou cósmicas são diferentes em cada um de nós mas há quem use permanentemente um fecho ecler para não dizer disparates, incongruências e outras asneiras. Quem não fala não erra, essa é uma não verdade porque o pensamento não corre do mesmo jeito jeitoso e, porque analisando e fazendo triagem das atitudes saberemos por A menos B que ele ou ela pensam dum jeito tal! Que são comunistas ou progressistas!

kani1.jpg Que o digam os psicólogos que usam esta tecnologia de eliminação; assim se não é mau, só pode ser bom! Se não é do Benfica será do sporting! E, por aí… Lá pela décima pergunta que nos façam, já sabem nossos gostos e desgostos! Assim considerando isto como uma corda cósmica sem termos motivos para acreditar, iremos supor que na abundância de nossos pensamentos talvez Deus nos tenha proporcionado um universo dobrado. É por isso que prefiro ver-me como uma ficção, quebrando a simetria dos eventos e das perspectivas; uma característica de gente complicada… diz-se!

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Posto isto como introdução lá vamos de novo ao passado a recordar que em 1974 e em Luanda, capital de Angola, foi decretado o recolher obrigatório mas, a população branca em sua maioria recusou-se a cumprir. Houve passeios de automóveis com buzinansos feitos por taxistas e comerciantes! A FUA, partido dos brancos, nasceu já encostado às intermitências da morte com uma corda de sisal a fazer de cordão de enforcado e, tendo a ele pendurada um medalhão de traidor; aliança táctica ao criador de “a victória… é certa”

camionista1.jpg Seu líder Fernando Falcão, não mostrou ter atitudes concretas na defesa de suas supostas pretensões; não duvida que isto tivesse sido, ou que o foi mais concretamente, uma manobra de diversão orquestrada no sentido de imobilizar a etnia branca. Como se diz popularmente “nem faz nem sai de cima” mas, finge ser macho - Arre égua! No mês de Julho de 1975 os números oficiais indicavam ter havido 52 mortes e mais de duzentos feridos no perímetro urbano da Luua.

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Circulavam rumores de que os negros sairiam dos musseques para desacatar os brancos! Entretanto, durante quase as 24 horas do dia ouvia-se o matraquear de pregos selando caixotes; já ninguém acreditava naquilo! E, aquilo era a Junta de Salvação Nacional, o Alto-comissário e os muitos militares abrilistas. O médico tal já seguiu para o M´puto, o vizinho deixou de se ver; também foi! A dona Micas, a costureira seguiu para o Sul, foi para casa de familiares. Começava a debandada! O PREC, processo em curso estava a funcionar.

mocanda11.jpgFernando Falcão da Frente Unida e mentirosa duma suposta unidade angolana, tomou posse do executivo fantoche dum tal governo que logo no dia seguinte, 13 de Setembro de 1975 anunciava que o banco de Portugal, o banco de Angola o banco Ultramarino seriam propriedade do Estado! Mas qual estado!? Os últimos bailundos trabalhadores das roças do norte regressavam às terras do sul.

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Os ataques às fazendas eram o dia-a-dia. A debandada já tinha tido início com comboios de viaturas a fugir para sul e sempre acossados por guerrilheiros mal enquadrados, soltos ao seu contento; e, nem sempre eram militares da FNLA ou o MPLA pois campeava a maior das desorganizações! Coisas imagináveis. Revistas a viaturas, extorsão de gasosa a troco de nada ou duma suposta segurança ou até mesmo um cigarro!  

luis33.jpg De propósito quebravam coisas, usando um qualquer pretexto para mostrar prepotência de mando; gente impreparada para se gerir a si, tomando rédeas de áreas desprezando qualquer conceito, qualquer justificativa. Com o tempo, esta prática de controlo nas estradas estendeu-se a sul a áreas da Unita dando azo a arbitrariedades monstruosas; Num ápice já eram todos os movimentos a criar barragens para pedir, para amesquinhar, desmoralizar e roubar. Eu vi isto! Ninguém me contou.

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Traineiras fizeram-se ao mar rumo a sul, Namíbia seguindo a rota de terra-à-vista. As padarias já não tinham pão, não havia médicos nem enfermeiros e as repartições ditas estatais ficavam às moscas! A carne foi desaparecendo e os talhos fechando! De repente já faltavam roupas e os armazéns eram arrestados por turbas desordenadas; partiam ou queimavam coisas produtivas; tudo bem planeado, como ditam os manuais de insurreição… Os militares nunca estavam por ali, estranhamente!

dyo2.jpg Como bandos de formiga quiçonde cada cidadão, famílias inteiras tomavam o seu desnorte largando tudo, casa, carro e animais… Entretanto os rebentamentos estendiam-se aos bairros da Samba, Maianga, Maculusso, Coqueiros, Cuca, Bairro do Café, enfim, bairros centrais. Como seria possível ficar assim a ferro e fogo, sem escolas, sem farmácia, sem abastecimento de víveres já quase inexistentes.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:51
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCIII

 

TEMPOS PARA ESQUECER - 16.06.2016 -  ANGOLA DA LUUA . III O Mundo sempre andou mentiroso - Também, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em estórias, embora aumentando a capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade (dizem).

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

guerra13.jpgPara explicar preto no branco ou vice-versa, o processo de descolonização em Angola, terei de fazer um preâmbulo sobre o espaço-tempo sem entrar em minucias andando ou um pouco à frente ou um pouco atrás porque neste periclitante processo nada andou seguindo as teorias conhecidas, sem um relógio de cuco porque, o cuco foi estrangulado no tempo exacto em que a recta começou a ser curva e, quando se vislumbrou o alcance dos objectivos, já era tarde. Não leia de atravessado porque o todo só é entendível se percorrer as linhas cruciais do raciocínio presente.

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Era tarde para quem estava no meio da fogueira chamada de descolonização, e até para os que tinham bons auspícios sobre o ainda não acontecido. Uns e outros, por inocência, por malvadez, por incúria, por pedantismo ou vaidade foram apanhados por aquelas muitas rodas, o roce de correntes que nos tornaram ásperos e por razões diferentes porque uns sofreram na pele e outros foi só na petulância.

guerra12.jpg Meto todos no mesmo saco, governantes e povo da arraia-miúda porque a cabeça existe para pensar, não para criar piolhos! O bom senso não é só privilégio de doutores, de letrados, de gente que vai à missa todos os santos dias, mas de todos que têm um templo, uma testa, uma cabeça para esmiuçar e separar o trigo do joio. Como tantos outros eu fui apanhado como inocente, cultivando-me na cultura do cinema, nas idas á praia, no bombom que a vida nos legava em uma terra que não sabíamos ser de outro-alguém que não nós.

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Despolitizados, muito cheios de coisa nenhuma nos meandros das pequenas coisas, eramos mesmo uns calhaus na Luua. Passeávamos despreocupados nossa ignorância pela mutamba, pelos bairros, pelas farras, pelos cafés jogando às moedas. A escola não nos dava os conhecimentos da mente e ali andávamos, simplesmente.

guerri1.jpg A nossa capital era a Luua, o nosso rossio era a Mutamba e o M´Puto estava lá longe; mandavam-nos os magalas, o azeite, os carros, as modas e uns quantos gozavam de quatro em quatro anos férias graciosas. De volta levavam chouriços, salpicão, enguias em potes especiais e sardinhas gostosas! Negros e brancos seguiam seus sonhos, suas ambições; uns pensavam em mudar tudo e de catanas nos pensamentos julgavam o que lhes parecia o mais certo para a terra deles que também era a nossa! Pensávamos!

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Entretanto iam casando, fazendo casas, comprando terrenos e neles e em tudo punham sonhos de um amanha que não sabiam o que seria porque era futuro! Lá no M´Puto aconteceu o Vinticinco e os mandões de aviário de cima abaixo pensavam que podiam dominar o diabo das trevas e sua carroça, mas foram pisoteados por estas, as rodas cardadas. Foi um fenómeno que o tempo dirá; que descobrirá que tinha muitas rodas com picos, facas, arestas invisíveis. Era a descolonização, a independência em marcha. Destes oficiais de aviário, nenhum deles estava à altura de estar aonde se colocaram.

guerri3.jpg Foi um chorrilho de arbitrariedades e coisas tão nojentas, que relembrar isto dos vómitos, porque os germes, as bactérias ainda aí andam moendo aqui e ali, na máquina do M´Puto, com efeitos ultra especiais de falácia democrática. Por isso, terei de dizer aqui que o tempo é imaginário e indistinguível das direcções no espaço. Para calcular as probabilidades de encontrar um espaço-tempo real com determinada propriedade como a de parecer o mesmo de qualquer ponto e em qualquer direcção, teremos de somar as ondas associadas a todas as histórias com agá que têm essa propriedade.

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Na mecânica quântica do dia-a-dia damos forma às coisas, podemos encarar nosso uso do tempo imaginário e do espaço-tempo euclidiano como um mero artifício ou truque matemático para calcular respostas sobre o espaço-tempo real. Entenda-se como espaço euclidiano os que podem ser estendidos a qualquer dimensão, não-dimensional. Para evitar as dificuldades técnicas com a soma das estórias sem agá devemos usar o tempo imaginário.

gurra10.jpg Isto tem um efeito interessante no espaço-tempo porque a distinção entre eles desaparece usando a geometria numa superfície bidimensional entendível neste universo observável. Como parte de um rosário feito de búzios e ao jeito de missangas, termino neste imaginário tempo, dia da graça ou desgraça em sua reactividade humana esta estória referindo-me à frase do espírita pensador Chico Xavier: -Você não pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas você pode começar agora e fazer um novo fim. Vamos então seguir o seu conselho…

(Continua…)   

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:10
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Quinta-feira, 23 de Junho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCII

TEMPOS PARA ESQUECER … 15.06.2016 - ANGOLA DA LUUAO Mundo sempre andou mentiroso - Também, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em estórias, embora aumentando a capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade (dizem).

Por

t´chingange.jpegT´Chingange

beldr7.jpgE querem que me cale! Nem morto!

Em fins de 1974, inícios de 1975, os desacatos sociais na forma de guerrilha, aproveitando o baixar de braços e armas das forças armadas portuguesas situadas na Luua capital, e um pouco por toda a Angola alastraram até às cidades e vilas como N´Dalatando (Salazar), Huambo (Nova Lisboa), Lobito, Benguela e Lubango (Sá da Bandeira). Os acontecimentos procediam ao mais leve desaire, ao mínimo pretexto e na maior parte das vezes porque se pretendia que assim o fosse. Negativamente e de forma exponencial o MPLA e a FNLA aliciavam as populações a fazer alastrar a subversão a todos os centros urbanos fazendo correr boatos complicando a vida de normalidade.

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Era comum ver-se um furtivo vulto que saído das vielas dum musseque ou de carros que passavam nos bairros da cidade, atirarem rajadas para o ar, para um qualquer lado. Mandavam obuses ou morteiradas aleatoriamente para o ar que logicamente iriam cair num qualquer sítio, provocar estragos e mortes. Estando eu na ponta da ilha, na praia com a família viam-se rolos de fumo, estrondos e balas tracejantes sulcando o ar do outro lado continental, talvez Cuca, talvez Sambizanga, Terra Nova, Cazenga, Caputo ou Bairro Operário. Uma boa parte das armas usadas neste assustamento, eram das forças regulares do exército português dadas a esmo aos populares afectos ao MPLA. Entretanto obrigavam a etnia branca a entregar todo o tipo de armamento.

cabo ledo2.jpg Da boca de toda a gente era dito que se não fossem tomadas medidas de prevenção em curto prazo, todos estariam a viver uma situação de generalizada violência incontrolável. As autoridades do M´Puto não quiseram ver nem tomar medidas protectoras para com as populações maioritariamente de etnia branca que se encontravam nos matos ou periferia das cidades; esta é a verdade.

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Era assim como sair-se a caçar brancos, negros umbundos, fubeiros, taxistas, vendeiros das lojas, camionistas e um ou outro alvo mais planeado atingindo este ou aquele personagem de quem não se gostava, de quem se teria raiva, de quem era necessário abater porque visava qualquer acto em curso; enfim, estorvos! De repente os brancos e assimilados, gente de sapato com coiro engraxado, matutos, mazombos, mulatos ou alguns negros esclarecidos, estorvavam.

cabo ledo4.jpg Meu pai foi raptado no largo dos Correios da Maianga, largado atrás do aeroporto de Belas, antigo Craveiro Lopes, depois de lhe terem dado uma surra; julgado morto, desmaiado, ali ficou na noite; para se assegurarem melhor deram-lhe um tiro. Calhou a bala ter raspado no corpo alojando-se no joelho, bala que veio a tirar no Hospital de Torres Novas em Portugal porque em Angola, os médicos já eram escassos.

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No dia 27 de Julho de 1974, três meses e dois dias depois do Vinticinco, quando Spínola anunciou o direito à independência pela lei 7/74, o Almirante Vermelho Rosa Coutinho da Túji, afirmou: “ …O homem, (referia-se a Spínola) sempre vai pelo caminho que a gente quer”. Todos os militares do MFA, da JSN (Junta de salvação Nacional - junta governativa), festejaram este acontecimento pensando no mesmo diapasão, do mesmo modo, com a mesmíssima irresponsabilidade!

canmionista 1.jpg Até ali soube-lhes bem as comissões que lhes proporcionava riqueza, boas casas e bem surtidas na linha de Cascais, Estoril ou Algarve do M´Puto. Com contas bancárias bem desafogadas, noé!? Com estes militares de aviário, de novo se revê o início do nosso mundo. Um retorno à estória sempre confusa em que a Lilith, a diaba feita anjo, irmã de Eva, a tentou a comer a maça! E, não é que comeu, castigando-nos deste jeito! Mas que estória de tuji…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:23
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016
MOKANDA DO SOBA . XCI

TEMPOS PARA ESQUECER - ANGOLAO Mundo sempre andou mentiroso - Também, e por isso, as fronteiras mentais transportadas por mim em estórias, embora aumentando a capacidade de criar ilusões, diminuem-me a veracidade (dizem).

Por

soba 01.jpgT´Chingange

Há muita gente amiga a considerar-me saudosista porque sempre desenterro o passado, mas quanto mais olho para o posfácio futuro, mais me interiorizo no tempo imaginário de direcções indistinguíveis no espaço visto do meu postigo. Um copo quando cai e se parte, estilhaça-se em canecos; daqui saem para ser reciclados feitos vidro ou simplesmente deitados ao lixo. Se andarmos segundos para trás, verse-a o copo ainda inteiro a cair e um pouco antes, ele estará de novo inteiro pronto a ser usado, cheio, vazado, cheio de novo e despejado repetidas vezes e, por aí… até que de novo volte às caldeiras da usina e, feito fogo liquefaz-se, o que ainda antes só era uns grãos de areia, sílica.

ÁFRICA13.jpg Pois assim seremos também, pó! Mas, desconhecendo o que está por acontecer, será como um filme ao retrocedermos as imagens de nossas vidas, trinta, quarenta ou cinquenta anos lá para trás! Em câmara lenta consegue ver-se o ínfimo pormenor. E, a vida surge-nos um truque no espaço-tempo imaginário calculado nas respostas de estórias. Falas somando eventos com mentiras bidimensionais, manobras de diversão tridimensionais; falas que em seu tempo muito mal nos fizeram neste universo observável!

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Quando isso me sucede caio em mim dizendo na primeiríssima pessoa: - Não sou mesmo nada! Não pude desfazer ou adivinhar o futuro imediato de meses, anos, muitos anos; fui sempre um ponto no traço da própria virgula mal metida num texto aonde me encaixaram para compor um ramalhete de família, de bairro, de nação! E, chamaram-me de colono e colonialista mais muitas coisas para justificar a matumbice de suas cabeças retorcidas!

afon6.jpg Fizeram de nós gatos-sapatos; sapatos quedes da macambira ou chinelo de pé, pneu vulcanizado de marca michelin. Também dum qualquer pneu ainda com rasto de picada, com rascunhos de asa de salalé pisoteado; e fiquei assim mesmo desclassificado Niassalês matrindindi de nação sem escolha! Porra… o tonito da maianga, da Dona Arminda gweta da Luua nunca chegou a general! Só mesmo atirador de primeira com mauser e bazuca mais fisgas de puto kandengue com meus manos do Rio Seco, uma mulola sem ponte mas que classificamos como nossa Universidade. E dali, saímos como katedráticos inaproveitados. Se ali estivéssemos juro mesmo sangue de cristo na terra a coisa estaria muito para melhor.

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Depois só fui mesmo brigadeiro dos caminhos-de-ferro desenhando muito mais de dez mil quilómetros de curvas de nível no rio kwanza acima, no Luinha a jusante e muitas linhas de água que nem os guerrilheiros fantasmas do MPLA conheciam. E, minha nação de nome Niassa virou sucata, um vapor vendido como ferro velho que terminou na fundição dos japoneses! Que virou biela ou cambota duma Suzuki do mano Magalhães!

kafu28.jpg Quem sabe, talvez uma anilha a fazer de pircing num nariz qualquer ou um outro lado menos visível. Hoje tudo, mesmo tudo, pode virar verdade num milionésimo de segundo e logologo virar uma descarada mentira! Mas, e então aonde ficam os dez mandamentos!? Nós ficamos só semente; numa obra dum acaso iludido assim como um imbondeiro de raízes ao ar. Sem nunca ter interpretado as intermitências da morte ou separação de duas febres sem arco-íris. Arco que por linhas tortas me é explicado por Deus, num espesso nevoeiro e aos soluços! Sempre! Bem que podia ser mais claro, sem ter que puxar pela minha cachimónia, fundir a cuca!

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E, vejo-me no mato de Angola no dia 14 de Junho de 1974, 42 anos atrás com Savimbi a defender a transição de Angola para a sua independência em sete anos e dizendo preto no branco que que angola não dispunha de quadros e, nem os movimentos estavam preparados para governar a curto prazo. O nosso entre aspas, presidente Rolha Costa Gomes referiu então que: “Se fossem cinco já ficava contente. Até dois anos seria tão bom!”. Afinal quem prevaricou no pensamento? O matumbo da mata ou o Sua Excelência O Rolha Presidente do m´Puto.

antu5.jpg Pois estes sacanas de altas chefias, subchefes, soldadesca e afins mais a grande maioria do povo português flagelaram-nos com um: -“têm de ser já, agora”. A indisciplina nos quarteis portugueses nesta euforia com assédio dos do topo, os chefões do MFA, manifestava-se acentuadamente com uma autentica demissão das responsabilidades como patriotas, como chefes, como comandantes ou mesmo cidadãos. Tudo estava nas garras dos guedelhudos vermelhuscos.

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Lá no quartel de Miconje da floresta do Maiombe aonde eu estive defendendo a ditosa “pátria” por dois anos as tropas do M´Puto abrilista, entregaram-se ao movimento falido; aos maltrapilhos do MPLA! Afinal! O que tinha estado eu ali a fazer e, porque me fizeram perder quatro anos da minha vida para naquele agora de túji se entregarem assim com armas, balas e very-lights, cuecas e suspensórios e até a inconsciência. E, querem que eu me esqueça, me estilhasse como um copo de vidro, rompendo minha própria consciência; meus pergaminhos. Assim sem jeito jogar-me no lixo!

john4.jpg Não! O passado vale pelos seus actos, pelas atitudes! Não me vou agora enganar no posfácio da vida, dispor-me a calar, engolir inverdades à força. Bom! Eis que surgiu então um filho da puta com o nome de Rosa Coutinho que de raiva vermelha fez o que quis! Ele e seus pares do MFA pintaram e bordaram, gozaram à tripa forra com Spínola, fizeram dele um chinelo, um merdas muito cheio de prosápia armado em rambo, oficial de pingalim, monóculo e luvas reluzentes com um chapéu de banga, assim enfeitado de pedante de carnaval com um símbolo doirado.  Um Mobutu Sese Seko do M´Puto…

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O Consul americano em Luanda por via de desacatos, tiros e rixas, um pouco por todo o lado da Luua disse nesse então: “…os acontecimentos ilustram bem como não gerir uma crise”. Pois então! “ As autoridades inacreditavelmente foram simplesmente inaptas para lidar com a situação”. Pois claro! A merda foi calculada, premeditada e facilitada! Como podíamos nós encarar esta situação e dar rumo a falsidades… Como ficávamos nós acantonados sem resguardo no Prenda, no Kazenga, no Palanca, na Calemba, na Cuca, no Mota ou no bairro popular, como? E querem que me cale! Nem morto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:27
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2016
MAIANGA . XVII

MAIANGA DA LUUA - ESTOU EM PEREGRINAÇÃO À MAIANGA DO M´PUTO
- Luanda esconde, entre casas e ruelas, dois ícones dos tempos em que a cidade começou a ser grande. Eram as maiangas, nomes de kimbundo para “poço”. Maianga do Rei para os ricos; Maianga do Povo para os “outros”.
Por

t´chingange.jpegT´Chingange

afon4.jpg Estamos em Maio de 2016. Sempre a fugir do presente, encontro-me com o passado a dar-me sossego e, que nem um peregrino, rumei de Guaxuma do Brasil para o M´puto, depois segui as kiandas da minha terra de N´Gola e subi até Burgos. Passei uns momentos épicos com meus manos comendo tapas e rodelas de calamares mas, sempre em pulgas rumei a Granada. E, vi Alhambra com meus kambas, kiandas de Granada voltando de novo a Toledo. Ali me mantive curtindo um concílio que ainda dura e, para onde voltarei.

ÁFRICA2.jpg Desci a Málaga e estive com Picasso sem ver guernica; vi catacumbas em seus alicerces com paredes mais velhas do que Cristo. Vi múmias Fenícias, máscaras antigas dos romanos ao jeito de fazer teatro e, agora estou em Coimbra rumo a Ti Matilde de Ansião para cantar Maianga Maianga, bairro antigo e popular, da velha Luanda com palmeiras ao Luar. Espotricando o tempo, aqui estou visitando a tumba do meu tetravô Afonso Henriques a dar-lhe novas, novíssimas. Ele mudo e quedo, nada me disse; coitado já tem as letras árabes e romanas fanadas, esfarinhadas feitas pó. 

kafu10.jpgE agora, rumo à Maianga da Ti Matilde, nossa muxima do M´Puto, revejo a Luanda de casas e ruelas, com dois pontos de água construídos para abastecer a população e, que agora o musseque tapou. Fugindo aos roteiros tradicionais encontro-me entre musseques, tectos de zinco com pedras e tijolos a segurá-las do vento. Sapatos encarquilhados amontoados com restos de coisas indefinidas junto às antenas parabólicas, mostrando alguma riqueza em seus exteriores; cheiros e fumos saindo dos cantos, das fendas e, ruídos de falas com merengues e kimbundices feias de túji e sundiameno. Mas a riquesa mesmo está lá com os filhos e afilhados do EDU, carros Xis-Pê-Tê-Oó, fourd by fourd.

may1.jpgAproveito dizer que o Kimbo blogue a Kizomba do FB pretendem ser uma referência como catalisador dessa pura amizade. Uma força integradora do nosso tempo que subsiste candengue. Kimbo e Kizomba são ou pretendem ser BANCOS DE ÉTICA sem horários, sem mujimbos, sem makas para quem vier por bem, diga-se! 

may8.jpg Por vezes, brincamos afugentando desencantos, mostramos os valores que nos fidelizam. Fiéis à amizade sem esperar nada em troca, sem rompantes de malvadez ou angústias de ter ou não se ter; ser-se amável sem manipular! Sem a preocupação de preconceitos ou conceitos pré-definidos quer-se ser isto, tendo-vos como credores e financiadores a custo zero! Maianga já é velhinha mas, tem alma sempre nova…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:47
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Quarta-feira, 11 de Maio de 2016
MOKANDA DA LUUA . XLIII

LUALIS"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra" -  Lualis é só uma ponte de fantasia; uma bonita inventação do Vasco…

Por

vasco0.jpgVasco Antunes - Ele transpira catinga da pura; está vacinado com paludismo de fina estirpe da Luua – Dá gosto ler suas prosas, suas poesias, sua memórias, que contem um pouco de cada um de nós… Ele é bom no que faz, certeiro no que diz, mordaz nas entrelinhas, cutuca a picardia como sóele sabe!...

Juro mesmo: estas falas assim de só falar enrolado sem virgulas, sem pontos, fica muito de difícil! Malembe malembe, volto atrás e faço a descorrecção (T´Chingange)…

arte1.jpg O tempo escasseia-me muitas vezes, para poder redigir histórias escondidas, antigas, que até posso antever reais a tempo inteiro. Real e ficção, esta a que talvez mais me satisfaça, só ficção! Nessas alturas subitamente levanto voo, plano como um albatroz e vou por aí fora, por aí fora, sem parágrafos ou pontos finais, com diálogos dinâmicos, fala o Soba, impõe as suas leis, fala o Luis, quer fugir aos ditames dos familiares próximos, subverte as leis, obtém gozo disso, e sabedoria, claro, que estas coisas, mesmo negativas são as que mais resultam e aprumam a coluna vertebral de um indígena.

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O Soba atento, fumando rapé ou liamba no seu cachimbo, sentado ou em seu pé à entrada do D´jango esperando os súbditos e dando-lhes conselhos; a família é importante, reúnem lá com os filhos debaixo da mulembeira lembram-lhe os seus deveres como a eles próprios lhes foram transmitidos, pelos pais e pelos pais dos pais, sabe que travarem as suas batalhas é ponto de honra e, sabe também que na hora de fazer a paz e a concórdia, com o usurpador ou sem usurpador é da natureza humana, o caminho N´zambi indica.

arte2.jpg Todos, mas todos percebem a regra, vai continuar a nascer o milho, a beterraba, a batata doce, a massambala há-de alimentar sempre a alimentar os catuitis e xiricuatas. Na transumância, que nome é esse, pergunta o Zé Diungo um homem que tem muitas cabeças de gado, há milénios que é assim, ele sabe, como sabe que a terra é de todos e também percebe o que é o progresso e se calha encontrar um mwadié, cafricado como ele.

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Assim sem mais que seu nome é Dionísio, Dionísio Dias de Sousa que lhe dispõe amizade sem palavras; o sentimento ainda que obstaculizado vai avançando, deve ser a tal de Felicidade que está chegando, não sei, um mwangolé cuja escola começou no mato, cheirou o rio, não temeu o sengue e a surucucu, muito menos a onça. Eu, simples mortal, só pergunto e respondo ao mesmo tempo, na mesma cadência, N´Zambi Deus foi severo para com a terra, Angola era uma terra praticante de hospitalidade, apresentava boas condições para a vida humana, era severa, era lugar sem complacência e benevolência.

arte3.jpg Cada um chamado a ser mais do que era, sim respondo afirmativamente, mas N´Zambi Deus também fez presumir que a concórdia e a misericórdia, tantos foram para lá, tantos se situaram, tantos se amigaram, enamoraram, umbigaram, devia reinar sobre a dissenção e o desentendimento, harmonizar o essencial, perdoar os pequenos costumes, eliminá-los, seria assim o futuro, o nosso advir, aglutinar-se-iam raças, honrar-se-ia desta feita pais, avós, tetravós, eneavós.

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Quem é que se arrogaria o direito de cortar a corrente neste novo edifício, perguntava-se tudo isto quando, começando de hoje (ONTEM), talvez para o ANO começassem as obras, só que as obras nunca mais começaram, afinal "os nossos Países foram tão fáceis de magoar..., a avenida imaginada de porto a porto, mestiça de voar, vinda dos caminhos de ontem aos amanhãs da vida...não cruzou os ventos, as vozes cúmplices, os abrigos de cada andar, atado a quem o ganhou..."os relâmpagos não felicitaram os vencedores”, champanhe dos céus beijando os vencidos.

arte4.jpg E muitos se foram, feridos, sangrados, percebendo que a estrada não é, nunca foi uma linha recta serena e aberta. Gosto muito das pessoas com quem privo, dos amigos, suponho que tenho muitos, mas isso sou eu a supor, neste momento eles encontram-se nas quatro partidas do mundo e detêm na ponta do dedo uma luzinha, quiçá um ET que se assoma à vida e ao coração de cada um. Já falei um cochito meus caros Assunção Roxo, Antonio Monteiro, Edgar Neves, Luis Magalhães, Maria Joao Sacagami, gente do face perdoam-me bem perdoado, não excluo ninguém, mas não tenho já espaço e memória, a partir deste meu ximbeco, para citar a todos. Não quero nunca que se desentusiasmem da vida, desconsigam de analisar, sorrindo pela esperança, a sagrada esperança que é a vida. Beijos.

Nota: Fiz batota, botei pontos e baralhei-me! É difícil entender esta gente inteligente…

As Opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:04
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Domingo, 8 de Maio de 2016
KWANGIADES . XXVII

ANGOLA . TEOREMA DA SAUDADE - Confidências para amigos. Mokanda para o Luis….

 Por

vasco0.jpgVasco Antunes -  Ele transpira catinga da pura; está vacinado com paludismo de fina estirpe da Luua – Dá gosto ler suas prosas, suas poesias, sua memórias, que tem um pouco de cada um de nós…

vasco1.jpg O meu pai, com 40 anos de África, cujo percurso incluiu uma primeira jornada em Timor - pós-guerra como legionário - Moçambique, Angola, Cabo Verde, como passagens rápidas de abastecimento no transporte por mar mas que em cada um deles teve paragem significativa, colheu o suficiente para tirar conclusões definitivas acerca da sua condição de homem e de cidadão. Após o seu casamento, rápido demanda aquela que anteviu ser a pátria dos seus sonhos. Ao ponto de anos mais tarde eu perceber, pelas conversas veladas e sigilosas que ele tinha com alguns amigos e familiares, a atitude política mais consentânea seria a de Angola gerir os seus próprios destinos.

vasco2.jpg Criou, criou e voltou a criar em terras recônditas. A sua companheira viveu uma vida a seu lado, alcançando nós filhos uma perspectiva da terra seguindo a sua bondade, inteligência, respeito pelo próximo, achegamento às gentes autóctones. Um seu tio, militar de carreira havia sido eliminado pela polícia política do Estado, na Serra da Estrela, o seu pai, oficial de carreira combateu em terras do sul de Angola, nas campanhas do Cuamato, é dele um diário de bordo e de campanha, com medalhas de condecoração, e que deixou como legado ao seu filho, em que este lacrou algumas páginas justamente pelo facto de ser um militar contra a situação.

vasco3.jpg Eu nunca cheguei a ter direito a ler tais páginas, infelizmente nas voltas da vida tal obra desapareceu, com total pena minha e reprimenda da minha mãe aquando do empréstimo a um amigo que era caçador profissional e aparecia de vez em quando na roça. Estas considerações nunca as havia feito anteriormente. Já outro tanto referi que em 1958, apercebi-me, todos, minha família se congregavam a favor da eleição de H. Delgado para a Presidência, sabemos porquê. Era miúdo mas isso não me passou despercebido. Anos mais tarde, ocorreu a guerra e viu-os a eles pais, dilacerados com a destruição pura e simples do que estava e era direito.

kianda05.jpg Para todos os angolanos, continuarem e construírem a sua própria identidade. Pura ingenuidade. As forças do mundo, aquilo que coloca tudo às avessas de um momento para o outro fizeram obviamente efeito. Dizíamos, foram os ventos da História. Continuam a ser os ventos da História por este mundo fora. Um Portugal pequenino ficou à deriva, claro, perante tamanha (s) investida (s) e enormidade. Um bando de gente pseudo qualificada manejou um país, este, pobre, analfabeto, indigente há muito marginalizado e colocado nas franjas da ignorância. Viro a página.

kianda5.jpg Nós, LÁ, não estávamos assim. E hoje, sabe-se lá como, mas com nobreza e viabilidade, teríamos uma pátria diferente. Pura ingenuidade minha talvez, mas sempre, não tenho vergonha de o dizer, sangrei do coração. Naquela altura do começo da "coisa" do 25 de Abril, eu trabalhava já nos Serviços de Finanças, após uma breve passagem pela Faculdade de Direito, isso fez-me talvez quase soltar o grito do ipiranga imaginário, a ingenuidade de sempre levou-me a proferir "agora" é a nossa vez e vamos em frente, já era tempo, o meu chefe da Secção Pessoal só proferiu: "será? Não estaria tão certo".

maga1.jpg Fiquei a pensar, o homem era angolano, era mais velho, era mais sábio. Luís Magalhães, recuo às origens, falo dos mambos nossos, das falas caluandas nossas, adianto já lhe cantar um poema, capiangado de um irmão que tenho, de sangue, um poema dirigido a todos os nossos avilos da vida. Segue no parágrafo seguinte. Façam o favor de ler. "AMOR(ES) em LUA(LIS). É um livro de poesia. Do coração, Muxima Uami.

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Queria imaginar uma avenida

de porto a porto, mestiça de voar

mil desejos e um olhar

vinda dos caminhos de ontem

aos amanhãs da vida

 

Queria dar-lhe um sol de Novembro

com arco-íris de um tropical Abril

numa chuvinha que o vento traz

por entre cheiros que o vento faz e desfaz

  

Queria beijar com passos o seu chão

ao compasso de um amigo que passa

passear entre calmas, dos seus meios

aos ladrilhos dos seus passeios...

cabo ledo2.jpg

Queria trazer-lhe dos tempos o fio a pavio

numa trova que o vento faça e desfaça

como se fosse um longínquo poeta

em voos de uma pomba de pio em pio ...

 

Queria ser maestro de um fado nosso

pauta de semba que podes e posso...

 

Mas dirás, amigo meu

que os portos dessa nossa estrada

estão sem tudo, são mais do nada...

que os contos que nos oram

são cantos negros como as nuvens

que choram

e vão chorar...

que nossos países são tão fáceis de magoar...

fiat1.jpg

 

Eu só queria, meu amigo

que pela estrada os cheiros trouxessem ventos

que os passos fossem vozes com ires e vires

mil vezes cúmplices, abrigo

de cada andar, atado a quem o ganhou...

 

Eu só queria um gesto no que sou

jeito morador dos tempos em que vais e vou...

 

Eu só queria imaginar uma avenida

da LUA a LIS

Em que um e outro fossemos contrapartida...

 

 Dirás, meu amigo

Que os meus olhos podem o céu

Mas que o olhar dos que podem

Olham seu próprio umbigo...

 

Sabemos, amigo meu

Que somos um amor que não se faz...

 

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:15
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Terça-feira, 1 de Março de 2016
KISANJI . XIX

NA COPA DO TEU MULUNGUAs falas de Zeca - No sertão de Lampião… Morre um capim, nasce outro. A vida sempre persegue a gente…

Por

zeca00.jpgJosé Santos Vulgo Zeca mamoeiro, professor Katedrático da Universidade do Rio-Seco da Mayanga da Luua. O maior caçador de sardões das barrocas do Catambor …Poeta das horas passadas 

MULUNGU1.jpgTonito k kamba de carteira, bué doutorado pela saudosa Universidade do Rio Seco da Maianga, te digo que jihenda é paka e os loando da kubata do meu muxima tem kissanje que toca nas lâminas de bambu as fala uaba para ti. Um mambo sério mesmomesmo voa para ti, e, num sei como a tua esperteza de afiador, cheirador, contador…, de terra vai peneirar, dinovo    despeneirar para encontrar minhas pepitas de ukamba, que tem junto um bocado de papel de embrulho da fuba da saudosa Mercearia Morais, da Rua da Maianga, que fazia fisga com a Travessa de João Seca.

zeca0.jpgMULUNGU2.jpg

 

De buelo em buelo ando neste M´puto que não tem cheiro de mato e onde tem doença do catato, que nos meu mambo de aprendiz de kimbanda só sai com o nosso “biológico” CARRO DO FUMO…do mu ukulu. Assim matutando bué, cheirando rapé de macanha…, neste tempo de goiaba podre, botei os meu fumo nas minhas fala de sociologias, filosofias…, e, também, depois de muito catembado, quase um barril nas condição de decifrador das falas.

MULUNGU5.jpg Digo como conclusão, buscando a solução com a ajuda do Piskunov que desconsegui e o meu gigler grande e abafador do carburador, pifou! Assim, lelu e também neste meu estado de bué katotolo onde o frio é azagaia de gelo e já panka o meu miolo, k kamba Tonito, famoso Soba T’Chingange te faço um pedido, mas num digas num dá, porque aí os meu feitiço entra na tua kubata, tu viras múmia dos Egipto, katé piranha desconsegue botar os dentes afiados, Tambula conta!

MULUNGU4.jpg Me manda nas asas de uma bela ARARA bilhete da EVA, para botar minhas férias de descanso na minha xipala, mutue, muxima…, tudotudo está num burilar que dá pena, que nos enguiço pode virar pena e voar como o Catete. Quero comer o meu funji com esse peixinho TRIARA e com a panela virada para mim, para ti, para a Bibi…e demais teus kamba desse Sertão de Lampião. Quero beber esse chazinho de KAVA-KAVA, apalpar o pernão da MOPANE, botar minhas chapas na margem da kalema, meus mergulhos nos fundo espelho nesse MAR VERMELHO, que as tuas fala me fez suar na esteira da Kisola.

MULUNGU3.jpg Tudotudo para envernizar o meu corpo kota de quase imbondeiro sékulu e cheio de salalé…, e, nesse estado de olhar parado para ti, para a tua barriga de ginguba e dizer: - Amami’ééé kamba uaba missosso “MULUNGU…FUI AO MAR VERMELHO” kisola kiavuluvulu ami…”  

Num delíriode avilo desse RIO, tudo teu leio, penteio no papel,

guardo na minha estante de pele de bambu desse uaba mu ukulu. 

Minha kubataestá forrada com folhascheias de tuas falas… 

Minha mulembaé encosto

zeca e eu.jpgParaíso,onde meu feliz riso chama Catete para piar poesia,

                                  chamo o povo para ter prenda 

                                  para ouvir o Zeca, o “grande” nas fala do  T’Chingange

 NGASAKIDILÁ O MUXIMA KAMBA AMI - ZECA 2016022912H33 TSENHOR

As escolhas do soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:25
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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016
A CHUVA E O BOM TEMPO . LXIV

A MUNDO É PEQUENO . Na precisão de largueza para enrijar…

Por

t´chingange 0.jpgT´CHINGANGE - Nasceu em águas internacionais num vapor chamado Niassa. É cidadão do mundo, Angolano na diáspora - Mazombo por condição; anda pelo Mundo à procura de si mesmo! Tem cédula de Brasileiro, B. Identidade do M´Puto. Anda às arrecuas para fugir à regra, um seu pessoal paradigma.

amendo0.pngamendo5.jpg Hoje inicio o dia caminhando por uma hora e ao longo do mar verde de Maceió, cor esmeralda. Apanhei da areia duas amêndoas caídas da árvore aqui conhecida por amendoeira-da-praia para me ginasticar o punho, os dedos, a falange, a falanginha e a falangeta. Pelo facto de irem caídas, desta forma fiquei com as mãos desentorpecidas. O tempo ensina-nos a forma de minimizar a pouca flexibilidade do corpo pelo envelhecimento. A árvore chamada aqui de amendoeira-da-praia tem em outros lados nomes diferentes como castanheira, árvore-de-anoz, castanholeira, coração-de-nego (no Maranhão), sete-copas, chapéu-de-sol, guarda-sol, figueira-da-índia (em Angola) e caroceiro (em São Tomé e Príncipe).

amendo1.jpg Sendo típica de regiões tropicais, atinge grandes dimensões podendo ir até 35 metros de altura. Especula-se que seja originária da Índia ou Nova Guiné. Em Angola ainda em jovem mais os kandengues do Bairro da Maianga e, a caminho da escola José Anchieta ou de Aplicação e Ensaios no Largo D. Afonso Henriques atacávamos estas no lugar de parque Heróis de Chaves, bem por detrás do cine Restauração que veio na independência a ser promovido na Assembleia Nacional por vontade do MPLA. Aqui no Nordeste brasileiro, ninguém parece ligar à mas desta amendoeira mas, nós kaluandas comíamo-las; as mais amarelinhas.

amendo3.jpg É curioso saber-se que no Brasil e na região de São Paulo o fruto desta se chama de cuca, nome bem conhecido das gentes saídas de Luanda pela famosa cerveja que ainda sobrevive lá no bairro da Luua e, com o mesmíssimo nome, Cuca. Esta árvore tem a copa bastante larga, fornecendo bastante sombra; de folhas caducas proporciona-nos a frescura tão cobiçada nas bordas deste mar de Maceió e nos largos. É cultivada como árvore ornamental; como se disse, seus frutos são comestíveis, embora um pouco ácidos; os morcegos são os seus principais consumidores que pelo que tudo indica, sendo muito apreciados por estes.

amendo4.jpg Saiba-se que a sua madeira é vermelha, sólida e resistente à água, sendo ainda utilizada para fazer canoas na antiga Polinésia. Mas continuando o meu caminho, fazia com estas, massagens rotativas nos dedos para fazer fluir o sangue às partes menos usadas do corpo neste tipo de exercício de marcha prolongada. Ultrapassando já os cinco quilómetros e bem para lá da Lagoa das Antas dou a volta para o regresso. Já no Gogó-da-Ema da Ponta Verde de Maceió, regalo-me com dois cocos frios comprados por cinco reais; sugados a palhinha relembro o meu pedido: – Moço está de quanto o coco? – Um por três reais diz ele! Mas, pra ocê, eu faz dois por cinco!

barao1.jpg O matuto fala assim como se já me conhecesse faz um meio século, uma forma bem nordestina de comunicar. – Tá certo disse eu. Dá-me dois! E, por ali sentado num banco de calçadão fiquei matutando nesta forma de vida sempre encalorada, bebendo soro de coco como salvaguarda de qualquer atamancada malazenga que queira entrar a despropósito. Aqui estava eu, um turista setentão, bem bronzeado de olho gordo para as coisas, as garinas e seus modos de gingar bumbum com trejeitos de malvadez! Com fumaças de nobreza, por ali descansei um tempo, precisado que estava de dar-me largueza para enrijar, para tornar meu corpo esbelto.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:51
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Domingo, 17 de Janeiro de 2016
A CHUVA E O BOM TEMPO . LXII

TEMPO COM FRINCHASA MINHA LUANDA . Luís, tu és a vergonha dos Alemães e, foi-se! Desconfio que era mesmo um alemão feito cachorro…

Por

maga1.jpgLuís Magalhães - Tem uma antiga caneta Parker 21, espacial. Dessas que levam o homem a gatafunhar coisas da Luua, numa Angola que jamais esqueceu e, das sequelas …

way4.jpg Aquilo para mim era um mundo fantástico! Luanda em 1972, foi um despertar tal que quando dei por mim já queria tirar a carta de condução e, isto deu maka! Tinha que pedir autorização ao meu Pai para me emancipar, coisa para o qual este não estava virado porque simplesmente não o queria. Bem! Também não lhe disse que era para tirar a carta de mota juntamente com a de carro. Mesmo assim, lá me deu a emancipação com uma alínea onde estava escrito o seguinte: Documento passado "SÓ" para efeitos de carta de condução.

sistelo5.png Quero lembrar que no meu tempo só eramos adultos aos vinte e um anos! Como sempre a minha Mãe impôs a sua Lei sendo de que uma delas, não poderia beber álcool. Das passagens de ano minha Mãe tinha muitas más memórias de alguns vizinhos cujos filhos acabaram por falecer vítimas dos excessos etílicos. Bom, depois de ter tirado a carta, fui trabalhar e estudar á noite na Escola Industrial e assim, poder comprar a mota dos meus sonhos; meu Pai sempre dizia que não pagava luxos?! Comprada a mota, andei pela Maianga, Mutamba, Vila Alice, Bairro Avalade, Samba, Bairro de Miramar, Avenida Brasil, Avenida dos Combatentes, Cazenga, Bairro Operário, da Cuca, Salazar, Santa Bárbara e Américo Tomás.  E, outros que já nem me recordo.

sistelo7.jpg Aos domingos de manhã, ía para a praia; da parte de tarde todo perfumado seguia para os bailes dos Bairros, se bem que de vez em quando também ia até ao Clube Transmontano; aqui, ficava um pouco de pé atrás porque as garinas dali queriam casório e eu não estava para aí virado. Tinha um grupo de meu emprego, que por costume íamos jantar ao Mesquita que ficava por detrás do "Jornal a Província de Angola"; geralmente neste jantar como entrada faziam umas sandes de carne assada, muito jindungo e uns chocos com tinta, dali seguíamos para a “discoteca quatro” abanar o capacete. Lá pelas quatro da madrugada terminámos a faina em uma boîte que ficava nas traseiras da Biker.

sistelo2.png Tudo normal em uma terra que para se chegar aos cocos se tinha que trepar. Mas, houve um final de mês, fazendo eu anos, o grupo disse-me assim: Hoje, dia de teus anos, vamos-te pagar o jantar e, não és Homem nem és nada se não beberes um canhangulo? Queriam mesmo ver-me piruca! Naquela minha inocência, aceitei o desafio, comi bem e lá bebi o dito canhangulo e um fino espantando meus camaradas. Seguiram-se outros, sentia-me mesmo o maior! O pior foi quando me levantei; meio zonzo, coisa que eu disfarcei, muito direitinho fui até á mota, sabendo que a maralha estava a topar-me!?

sistelo3.pngAtravessei a Salvador Correia em direcção á Baía, fui depois até á Ilha; ao atravessar a ponte eis que tive que parar para deitar a carga ao mar? Chamei o gregório Depois disto voltei a montar na mota e quando estava a chegar perto da Boite Tamariz(??), como já não podia mais, resolvi sentar-me na areia onde acendi um cigarro e por ali fiquei zonzo com as luzes rebrilhando na água da baía. Neste meio tempo chega um Jeep da Policia militar - Que desperdício meu Deus, dez da noite e este gajo já está com um chibo que não sabe de que terra é?!

sistelo4.pngAdormeci encostado á palmeira! De manhã ouvindo o cantar do mar, ouvia neste deslumbre os sussurros do mar, e uma língua lambuzando-me todo: schelép... schelép... schelép...? Ainda meio zonzo, abri os olhos muito devagar e é quando deparo com um cão Pastor Alemão lambendo-me a t´xipala perante o ar divertido de uns candengues que estavam a assistir á cena! E, não é que o sacana do cachorro falou! – Luís, tu és a vergonha dos Alemães e, foi-se. Até hoje ando desconfiado que fui Alemão e que aquele era mesmo um Alemão disfarçado de cão…   

sist8.jpg Envio a foto do meu Bilhete de residência em Angola com a Profissão de Agráfico.  Foi um erro dos serviços nunca corrigido; agora que se lixe, já é tarde para tal…

Ilustrações de Jorge Sistelo

As Opções do soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:19
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Domingo, 3 de Janeiro de 2016
MUJIMBO . CXIV

ANGOLA . NAS CICATRIZES DO TEMPOVII

Chamavam “o canal da mancha” à nossa secção porque era a zona mais escura. Não sei se em Angola se pode falar de racismo como tal, mas existe colorismo… 

kimbo 0.jpgAs  escolhas do Kimbo

Por: ELIAS ISAAC - DIRECTOR DA ONG OSISA - O grupo racial negro, maioritário em Angola, está diferenciado etnicamente. Em Portugal, os grupos raciais minoritários negros, traçam estratégias porque se dizem discriminados.”

paulo0.jpg (…) Explícito é o episódio contado pela fotógrafa Indira Mateta, 30 anos: trabalhava numa empresa que funcionava num edifício de seis andares em Luanda, e no andar dela eram quase todos do tom de pele dela, mais escuro - nos outros andares os trabalhadores “tinham pele mais clara”. Chamavam “o canal da mancha” à nossa secção porque era a zona mais escura. Então é uma coisa explícita: as pessoas falam a rir como se fosse engraçado. A partir do momento em que as pessoas acham que ser mais escuro é ser manchado, não há muito a dizer.”

paulo2.jpg Há quem, como Luís Fernando, administrador no grupo de MediaNova, já tenha sentido racismo directo na pele à porta de um restaurante/bar, o Chill Out, onde o porteiro o barrou, deixando entrar o amigo branco. “Obviamente que nunca mais lá pus os pés”, conta no seu escritório. Mas desvaloriza o episódio: acha que não há racismo em Angola. Pode haver algum elemento racista, em que o angolano se sinta superior, ou podem existir alguns portugueses “extremamente racistas”. Mas “não se deve tomar a árvore pela floresta”. Teme, no entanto, que surja uma tensão racial mais do ponto de vista económico “no sentido de algumas pessoas se sentirem excluídas dos lugares que se elitizaram”.

paulo1.jpg O estigma é: Quanto mais claro, maior o grau de instrução. Na zona Sul da Luua há vários edifícios novos, entre eles o centro comercial Atrium Nova Vida, onde há lojas de restauração e de roupa, algumas de marcas internacionais. Encontramo-nos com o sociólogo Paulo de Carvalho no centro comercial onde o chefe de segurança é um português branco. Como sociólogo, usa as expressões “grupo maioritário” para se referir aos negros e “grupo minoritário” para falar de brancos.

paulo7.jpg “Em Angola não existe racismo institucional. Primeiro porque a legislação não permite o racismo, segundo porque os grupos raciais não estão discriminados. Há racismo institucional quando os grupos raciais traçam estratégias de actuação com base nesse factor. Ora em Angola isso não ocorre. O grupo racial negro está diferenciado etnicamente. Nos grupos minoritários raciais, como os brancos, não ocorre porque não há necessidade, isso ao contrário do que acontece em Portugal, em que os grupos raciais minoritários “traçam estratégias porque são discriminados.” Ainda hoje, quanto mais claro é o angolano, maior o grau de instrução, resultado da colonização que criou uma tendência que ainda se sentirá durante mais algum tempo, analisa.

(Continua…)

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:34
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2015
MUJIMBO . CXIII

ANGOLA . NAS CICATRIZES DO TEMPO -VI

Não sei se em Angola se pode falar de racismo como tal, mas existe colorismo…  “nunca vi nenhum branco ou mulato a  varrer a rua e isso pode ser um motivo pelo qual o negro se sinta discriminado e sofra racismo”.

kimbo 0.jpgAs  escolhas do Kimbo

Por: ELIAS ISAAC - DIRECTOR DA ONG OSISA - Manter uma conversa sobre coisas relacionadas a Portugal ainda tem importância.” …

ngoi6.jpg(…) Temos expressões como ‘bom ventre’ quando uma mulher dá à luz e as pessoas vão ver o bebé - o bom ventre é aquele que produz crianças que nascem com a pele mais clara. ‘Vida mulata’, por exemplo: entende-se como vida boa, das pessoas que nascem para viver bem - então usa-se essa expressão. Outra expressão é ‘adiantar a raça’- uma pessoa que se casa com uma pessoa com tez mais clara. São expressões que se usam que indicam privilégio de determinado grupo de pessoas em função da tonalidade. Em Luanda será preciso andar muito para encontrar duas pessoas a falar em umbundo ou quimbundo ou outra das seis línguas nacionais porque durante muito tempo se desincentivou esse hábito, nota.

ngoi1.jpg A televisão nacional começou a transmitir uma parte das notícias em línguas nacionais e há músicos que cantam nelas, em umbundo e quimbundo. Mas continua-se, mesmo depois da independência, a ridicularizar aspectos importantes da cultura angolana como a forma de vestir, de comer ou a utilização de roupas com tecidos africanos, exemplifica. Faltam políticas para a promoção da “identidade angolana, africana, que não deixa de ser negra”, defende.

ngoi0.jpg A grande questão é que é preciso fazer a ruptura com a mentalidade colonial “ainda muito presente” em situações como a forma de estar, por exemplo. “No outro dia perguntaram-me se eu tinha estudado em Portugal, e de que parte de Luanda era. ‘Sou do Huambo’, disse. ‘Ah… falas tão bem português!’ O falar bem português, com sotaque aportuguesado, saber usar os talheres, manter uma conversa sobre coisas relacionadas a Portugal ainda tem importância.”

ngoi5.jpgPublicitário, copywriter e fotógrafo, Ngoi Salucombo defende que existe racismo em Angola, sim, e que ele se manifesta de diversas formas. Por um lado, é verdade que “nunca vi nenhum branco ou mulato a varrer a rua e isso pode ser um motivo pelo qual o negro se sinta discriminado e sofra racismo”. Há um discurso que entrou no colectivo nacional de que “os portugueses eram os maus”. “Saímos da colonização para o partido único e durante muito tempo esse discurso foi forte. Além de que já vemos a colónia portuguesa como negativa, em comparação com as colónias francesas e inglesas em África. A minha geração comenta muitas vezes: ‘Esses tugas...!’”

ngoi3.jpg A Ngoi Salucombo, que viveu oito anos em Portugal, acontece muitas vezes ouvir “aquela expressão” de amigos portugueses: “‘Ah, mas tu és diferente’ dos angolanos. Isso para mim já é racismo,.. Não cai bem-estar a falar com um português das coisas negativas de Angola, e ele dizer: ‘Mas tu és diferente’, como quem diz, “tu és dos nossos, és como nós”. Por mais que a pessoa não queira magoar, vem do fundo. É uma forma de racismo porque essa pessoa está a dizer: ‘Tu és como eu, somos os melhores, o resto é uma cambada’.”

(Continua…)

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:44
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Sábado, 26 de Dezembro de 2015
MUJIMBO . CXII

ANGOLA . NAS CICATRIZES DO TEMPO – V

Não sei se em Angola se pode falar de racismo como tal, mas existe colorismo…  

kimbo 0.jpgAs  escolhas do Kimbo

Por: ELIAS ISAAC - DIRECTOR DA ONG OSISA - “O que Angola está a tentar fazer é a transformação social com uma minoria que vive nos condomínios…”

miss0.jpg (…) O privilégio branco é visível em qualquer parte do mundo e aqui também. Expressa-se, por exemplo, na imagem da beleza - e no cabelo. Lúcia da Silveira usa o cabelo natural e uma vez, num encontro com um ministro, a secretária “teve a coragem” de lhe dizer: “‘Porque não arranja  esse seu cabelo, você é mulata…?’ Eu respondi: ‘Vou fingir que não ouvi o que a senhora disse porque está a depreciar aquilo que é meu.’ Esse também é outro problema: ser discriminada por usar o cabelo natural.” A tendência para se seguirem os padrões ocidentais em Angola é bastante visível em todo o lado, diz Márcio Cabral, 30 anos, redactor da revista Caras Angola - nas festas, o mais comum é o uso das extensões e das aplicações, os alisamentos.

miss01.jpg Nas paredes da redacção da revista, espalham-se fotos das capas da Caras com as figuras da elite angolana. Não há um padrão de quem ocupa a capa em termos de cor. A Caras fica num edifício perto da marginal, de onde se vêem os arranha-céus e as construções a crescer em Luanda. O jornalista acrescenta que, por outro lado, há “cada vez mais mulheres a assumir a sua essência africana” e isso é uma tendência que se tem vindo a desenhar de forma subtil. “Tem mudado bastante. A ascensão de Leila Lopes a Miss Universo 2011 que foi um grande acontecimento.”

miss02.jpg Há uns anos que Sizaltina Cutaia, gestora de projectos sociais, aderiu ao grupo Angolanas naturais, criado no Facebook para valorizar o cabelo natural. Ainda hoje, mesmo em países africanos como Angola, “o belo é influenciado por uma visão eurocêntrica”, explica Sizaltina, que aparece com um turbante africano. O trânsito em Luanda é caótico e nem sempre é fácil encontrar as ruas, mesmo usando GPS

miss2.jpg Tinham-nos avisado que era normal os angolanos chegarem atrasados aos encontros, mas não foi este o caso. Sizaltina Cutaia vem ter connosco à residencial pela qual pagamos cerca de 150 dólares por noite, um lugar onde em Portugal não pagaríamos mais de 15 euros. O custo de vida em Angola é muito alto, mesmo em lugares onde a electricidade e água faltam frequentemente. A dois passos da residencial havia um prédio sem luz há meses e meses.

miss5.jpg Conta que quando deixou de alisar o cabelo ia a uma festa e as pessoas perguntavam: “‘Vais assim mesmo, o que se passa, entraste para alguma igreja?’ A pressão social sobre isso é muito grande e reflecte um problema que tem que ver com a questão da raça. Não sei se em Angola se pode falar de racismo como tal, mas existe colorismo que é o sistema onde se considera a tonalidade da pele para definir o tratamento que a sociedade dá a uma pessoa.

(Continua…)

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:36
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015
MAIANGA . XV

ANGOLA - Conversa da Luua - Quando se perde património, já não se recuperaVII

Maianga é um bairro de Luanda - Luua

Por:  Eleutério Freire 

mugi4.jpg (…) Fala-se muito do lixo de Luanda. Isto é só o espelho da avalanche de gente que não era urbanizada, ou é mesmo a incapacidade de se lidar com uma realidade urbana? As duas coisas. O africano comum tradicional é uma pessoa limpa. Basta ver as casas dos camponeses. A passagem para a cidade fez quebras, perde-se o quintal e, às vezes, até os hábitos de limpeza. Na cidade cada pessoa produz X quilos de lixo por dia, isso acumula-se rapidamente. Tem de haver mecanismos de fazer desaparecer o lixo, por causa das doenças.

guerri3.jpg Por outro lado, na nossa época, o lógico é montar sistemas de recolha de lixo em paralelo com a sua rentabilização, para até diminuir as despesas, porque as despesas da recolha do lixo são cada vez maiores, aumentam com o crescimento da população. Recolher o lixo custa dinheiro, o que temos é pura perda, estamos a acumular toneladas de lixo sem buscar soluções para ganhar dinheiro com o lixo. Pode usar-se o lixo até para a produção de energia, recolhendo o gás que o lixo produz e utilizar para a iluminação, para cozinhar etc. Temos desperdiçado os benefícios do lixo. Há experiências universais que devemos aproveitar.

mutamba4.jpg Quando colabora com o Núcleo de Arquitectura da Universidade Lusíada e com a Associação Kalu é porque sente que a palavra poderá ajudar Luanda? São iniciativas importantes. Acho que a Kalu deveria ter maior interacção com as organizações nos bairros, é um exemplo que se deve reproduzir até noutras cidades. A Kalu é uma associação de elite, de vanguarda, com informação e deve interagir com as outras associações de amigos de cidades e bairros pelo país.

roxo.jpg O Núcleo de Estudos da Lusíada traz um aspecto técnico e investigativo que casa bem com os propósitos da Kalu e acho que se deve multiplicar também pelo país. O pouco que sei vou partilhando com eles. Andava há tempos para fazer uma visita pela cidade com a arquitecta Ângela Mingas, acho que esta relação dos arquitectos com as cidades, que não havia nem no tempo colonial … O futuro de Luanda está na palavra? Sim. É importante divulgar e levar as pessoas a lidar melhor com os seus espaços. Mas isso tem de passar pela escola, etc., até pelas escolas de condução, tanta é a falta de educação no trânsito.

FIM

José Kaliengue assim lembrou

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:01
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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015
MAIANGA . XIV

ANGOLA - Conversa da Luua - Quando se perde património, já não se recuperaVI

Maianga é um bairro de Luanda - Luua

Por:  Eleutério Freire 

maianga0.jpg (…) E Ingombota? Aqui há uma mudança. No início da vila aquilo era mato, era lá que se refugiavam os escravos fugitivos, era o primeiro refúgio, o quilombo. Em kimbundo refúgio é ngombota, e essa acção de se esconderem aí baptizou o local. Quando o local passou a ser habitado as pessoas diziam que moravam na ngombota e os portugueses corromperam a expressão adicionando o “I”, ficou Imgombota. É engraçado ver que há nomes da cidade que se mantiveram. A Samba, por exemplo, veio de Elefante: n´samba, em kimbundo, significa elefante. Daí também a tal lagoa dos elefantes de que falámos há pouco. O nome do bairro vem daí!

maianga1.png Luanda passou a ser um conjunto de cidades sítios com características próprias. Olhando para Luanda, consegue imaginar uma cidade que recupere as tardes num jardim com os filhos, a andar de bicicleta, etc., ou na cidade nova a sul? Lamentavelmente, na cidade antiga, mesmo na parte mais moderna, deram cabo de uma grande parte de largos e campos de futebol, não percebo como dizem gostar de futebol sem campos.

maianga4.jpg Agora dizem que vai ser feito um projecto director da cidade, o que poderá preservar algumas coisas… Falta o tal plano, com autoridade suficiente… A nova parte sul da cidade é de um novo modelo, com condomínios… Pode-se considerar isso como vida numa cidade? (Risos...) Não há definições petrificadas, as coisas evoluem, acho que isso faz parte de uma evolução. Nunca estive numa mega cidade como S. Paulo ou cidade do México, que são somas de pequenas cidades. Talvez aí se encontrem exemplos.

maianga3.jpg Quando estive a estudar em Lisboa, por exemplo, vivi num bairro que era mais província, mais campo do que cidade de Lisboa. As pessoas tinham um comportamento que era mais para o lado da província portuguesa do que da cidade. A barreira era apenas uma linha de comboio e uma rua de 80 ou 100 metros. Eram duas formas de vida diferentes. Transformar os musseques em formas urbanas de boa qualidade, e acho muito bem!... Vamos ter uma Luanda com várias cidades? Exacto, vamos ter vários centros urbanos onde espero que haja a capacidade de as pessoas viverem agradavelmente.

(Continua…)

José Kaliengue assim lembrou

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:41
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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015
MONANGAMBA . XLII

ANGOLA DAS CINZASRETROACTIVIDADESA maka da guerra com raivas  independentistas riscavam os mandamentos de Deus; de um e outro lado chovia metralha… (2ª Capitulo) - 8

Por

t´chingange.jpegT´CHINGANGE

beten1.jpg Já com dezanove anos, comecei a frequentar o Observatório da Mulemba de Bettencourt Faria. Já tinha o curso de Montador Electricista e conjugava meu trabalho de desenhador dos Caminhos de Ferro com os ócios de esquemas eléctricos e vontade de ver mais longe espreitando fora de orbitas, os milagres das ondas modeladas, curtas e encavalitadas, das válvulas e avanços na pesquisa de transístores. No paralém de todas as viagens, via os astros e as galáxias.

beten3.jpg Quando as tardes se sucumbiam buscava coisas que na gíria de todos eram medonhaveis com infinitos e buracos escuros nesse mundo de estrelas. E de coisas inúteis como seringas e agulhas e trastes fundidos ou espalmados substituíam acessórios com tubos e funis, condensadores e corrente alterna ou contínua com ou sem sinusóides que a mente desventrava a partir dum quase-nada. Que procurávamos nós, interrogava Zeca na forma de pergunta às minhas complicadas existências para lá do mundo das almas.

kafu12.jpg Com pinceladas ancoradas no feitiço, cazumbi de crenças de Kifangondo e Kassoneca, superstições da bacia dos Rios Dande e Bengo de onde Zeca Kafundanga era natural, as estrelas iam malembelembe caindo no mundo em forma de fogo. Kafundanga xinguilava a teoria de que ele, nós e o espaço eramos todos parte do Universo mas, sempre na devida dúvida, olhava-me de soslaio desconseguindo chegar nos finalmentes da sabedoria.

luta4.jpgJá não era mais o kandengue das terras de Cassoalála meu mano preto de faz-de-conta, pois tinha as suas próprias teorias; por agora a sua grande preocupação era ser um bom cozinheiro lá na Fábrica de Cimento Cecil conseguindo ficar bem cotado no correr do tempo. Ele mesmo ia juntando umas tralhas de panelas velhas, tubos de lâmpadas fluorescentes, bobines de máquinas queimadas que juntando às minhas, nas horas folgadas levávamos ao Observatório.

super4.jpg A Mulemba do Senhor Bettencourt tornou-se para nós um lugar de exercício voluntário na ajuda ao cientista; um pouco pau para todas as obras tendo como matabicho as palavras sábias dum homem que fazia de nós astronautas. Nós, tinhamos nesse então, apetência em sermos esse tal de professor Pardal; como argonautas da Luua, construíamos nossos sonhos reconstruindo nossa personalidade espacial.

Monangamba - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:30
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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2015
A CHUVA E O BOM TEMPO . LIX

ANGOLA .  A TROPA FANDANGA - Altura em que se recrutavam as pessoas ás tantas da madrugada nos musseques, para os levar para a guerra…

Por

maga1.jpgLuís Magalhães - Tem uma caneta Parker 21 espacial. Dessas que levam o homem a gatafunhar coisas lindas da Luua, da Angola que jamais esqueceu …

guerri1.jpg Esta foto retracta os primeiros tempos pós Independência de Angola, numa altura em que se contavam espingardas no seio do MPLA no ano de 1976/77. Era num tempo em que havia dentro do Partido duas facções, sendo uma do Dr. Agostinho Neto e a outra do Nito Alves, coisa que como é bom de ver não agradava ao Agostinho Neto uma vez que nunca gostou de dois galos no mesmo poleiro e o resto já toda a gente sabe o que aconteceu!? Mas apesar disto e uma vez que o MPLA não brinca em serviço, não foram estas guerras que os distraíram; não tardou muito eramos todos controlados em Luanda pelo Governo e para isso deram fardas, botas e armas aos seus militantes, sendo que a maioria deles não tinham qualquer preparação militar.

guerri2.jpg Como é de calcular, começaram os abusos dentro da Lei e fora da Lei também, e entre o roubar e matar não havia diferença, já para não falar naqueles desgraçados de quem eles não gostavam e vai daí inventavam um boato e não demorava muito iam parar á Fortaleza, não para fazerem uma visita de estudo nem muito menos ver os azulejos mas sim para serem interrogados!? Era também nesta altura que se recrutavam as pessoas às tantas da madrugada nos musseques, para os levar para a guerra, fazendo com isso que os jovens fossem dormir para os esgotos da cidade e só de lá saírem pela manhã!

guerri4.jpg Eu, ia jantar a casa de um amigo meu que vivia na Chicala e, como trabalhava no turno da noite, fiz o que era usual, peguei na mota e fui trabalhar. Só que desta vez e depois de ter atravessado a ponte da Ilha deparei com uma Patrulha de tropa maçarica que me mandou parar com a palavra; STOP!! Olhei para eles e apercebi-me que suas idades rondavam os 18/20 anos; tirei os documentos da minha carteira e dei-lhos para a mão uma vez que eu já estava cansado de ouvir histórias muito mal terminadas. De maneira o que mesmo era pôr-me andar de ali para fora!

guerri6.jpg Eles olharam para os documentos, depois para a minha mota, mandaram-me descer da mota que para minha desconfiança aquilo já me estava a soar muito mal? Assim mesmo com a cabeça cheia de interrogações. Pensei rapidamente,… mas, que dizer! Foi quando lhes perguntei qual era o problema. O mais alto deles apontou-me a arma logo seguido pelos camaradas e mandaram-me descer novamente… Foi aqui que eu com alguma calma, disse o seguinte: É pá, eu quero falar com o teu superior uma vez que é ele quem tem voz de comando e não vocês? E olhei então para o Jeep onde estava um graduado sentado a ouvir musica.

guerri5.jpg Sem mais conversa, fui ter com ele num passo ligeiro perante o espanto dos maçaricos ao ver a minha audácia! Posso dizer agora que andei os meus seis metros mais cagalosos da minha vida, pensando levar até uma rajada pelas costas. Chegado ao Jeep, cumprimentei o graduado com um aperto de mão e disse assim: Sinceramente camarada, ainda não percebi qual é a maka aqui neste posto de controlo uma vez que apresentei os documentos todos e, se estou a andar fora do recolher obrigatório é porque tenho o livre-trânsito porque vou trabalhar!

guerri7.jpg O dito camarada comandante pediu os meus documentos aos seus subordinados e depois de os analisar com sete olhos, dispensou os maçaricos com um olhar felino. Virando-se para mim disse o seguinte: - Camarada, tu desculpa os meus subalternos, puseram-lhe só uma farda no corpo e uma arma nas mãos e, às vezes fazem maka de túji?! Devolveu-me os documentos ordenando aos camaradas, tropa fandanga, que me deixassem ir. Já de lampeiro, com a mota a trabalhar e guardando os respectivos documentos pude ouvir o camarada comandante muito irritado a falar assim: - É por estas e por outras, que os Portugueses se estão a ir embora!!!!!

Luis Magalhães in Kizomba com Histórias da vida

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:56
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Terça-feira, 24 de Novembro de 2015
MONANGAMBA . XLI

ANGOLA Velhos quebrantos - No reino do Kongo muito antes da chegada dos portugueses já existia o comércio de escravos… 3ª de 3 Partes

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares (Soba T´Chindere) - Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes; Um contador de estórias de que dá gosto ler aos candengues do kimbo (reside no Brasil) …

O africano e o tráfico de escravos

luis39.jpg É a partir daqui que se iniciará a conquista pelos portugueses desta região de África. Na chegada do navegador Diogo Cão ao Reino do Kongo, Kongo dya Ntotila ou Wene wa Kongo ou em português: Reino do Congo fez alianças com o manicongo (que significa senhor ou governante do reino do Congo) Nzinga Nkuwu. O reino do Kongo era bastante desenvolvido quando da chegada de Diogo Cão, comercializando cobre, metais ferrosos, ráfia e cerâmica. Tinham habilidade para a escultura incluindo o talhe de máscaras. Pertencem ao Grupo Étnico dos Bantos.

luis38.jpeg Segundo José Redinha (1905-1983) pesquisador e etnólogo português e angolano de coração, escreveu entre outros o estudo “DISTRIBUIÇÃO ÉTNICA DE ANGOLA”, obra editada pelo IICA – Instituto de Investigação Cientifica de Angola, onde menciona que foi estabelecido para os Bantos angolanos várias subdivisões étnicas pertencendo nesta relação, entre outros, o Grupo Quicongo. No reino do Kongo muito antes da chegada dos portugueses já existia o comércio de escravos, mas após a chegada destes o Reino do Kongo tornou-se um importante fornecedor de escravos para os comerciantes portugueses e para outras potências europeias. Havia forte resistência dos nativos à penetração portuguesa para o interior.

luis40.jpg Os portugueses tinham esperança quando da chegada àquelas terras de encontrarem metais preciosos e se nas terras do N´gola haveria prata. Não encontraram esse metal precioso e perceberam que um negócio muito lucrativo seria investirem no comércio de escravos já existente adquirindo-os junto aos povos do litoral. Os escravos eram capturados em guerras ou ataques organizados entre grupos étnicos e vendidos aos europeus. A condenação à escravidão era uma pena utilizada pelos sobas para castigar os delinquentes. Em tempos de grande fome, o indivíduo sem meios de subsistência podia também oferecer-se para escravo, a fim de ter que comer: era o “corpo vendido”.

luis41.jpg Os principais comerciantes de escravos do Atlântico, ordenados por volume de comércio, foram: os impérios Português, Britânico, Francês, Espanhol e Neerlandês, além dos Estados Unidos (especialmente a região sul). Nos países colonizados pelos europeus, os historiadores, sistema educacional e governos jamais vão admitir a participação dos próprios africanos no tráfico negreiro, mesmo sabendo esse lado terrível da história de negros contra negros, camuflando hipocritamente a verdadeira história em que todos fomos culpados.

Fonte de consulta: Do Cabo de Sta. Catarina à Serra Parda de Carlos Alberto Garcia; A Conquista Portuguesa de Angola de David Birmingham.

FINAL

Monangamba – Do kimbundu - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

As escolhas do Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015
MAIANGA . XIII

ANGOLA - Conversa da Luua - Quando se perde património, já não se recupera – V

Maianga é um bairro de Luanda - Luua

Por:  Eleutério Freire 

mutamba7.jpg (…) Além das transformações arquitectónicas, físicas, há um coro de lamentações sobre a qualidade de vida na cidade. Com o que é que se perde as relações humanas? Com mais televisores, mais trânsito, a vida moderna? Acho que tudo entra! Partiram-se as duas estabilidades: a cidade dos brancos e a periferia. Havia uniões entre elas, como o Clube Atlético de Luanda. Cada uma destas duas sociedades, porque havia um corte a separá-las, tinham as suas organizações, os seus clubes. O seu modo de vida, com os seus divertimentos, cada um da sua maneira.

mutamba5.jpg Luanda teria entre 300 a 400 mil habitantes, metade seria de europeus. De repente, noventa por cento de uma parte foi embora. Os da periferia vieram para a cidade juntando-se-lhes os regressados. Criou-se um desequilíbrio que modificou os modos de vida … Não seria espectável que as pessoas que saíram da periferia para o centro da cidade ao menos levassem o seu modo de relações sociais? De certa maneira transportaram, tanto quanto me apercebo. Algumas famílias dos subúrbios mudaram apenas em parte. Como as famílias eram numerosas, no subúrbio, a parte extra que se mudou para a cidade continuou a manter a relação com a outra parte, pelo menos ao fim de semana, essa é uma das coisas boas que se mantiveram.

mutamba4.jpg Com a guerra, com o recolher obrigatório, isso criou um novo modelo social, somados os constrangimentos da falta de abastecimento, algumas vezes, a falta de electricidade … houve ruptura dos equilíbrios e estão a criar-se novos equilíbrios. A cidade que cresceu com populações de fora está agora num período de construção e reconstrução de uma cidade que nunca voltará ao que era … Não se recuperarão as maiangas.

mutamba6.jpg Mas o que é uma mutamba? É uma árvore! Tudo o que é “mu” em kimbundo é árvore. Mutamba é tamarino, que já não encontramos no largo da Mutamba. Há fotografias que ainda mostram as árvores no antigo largo da Mutamba. Mas depois vieram os edifícios da Fazenda, o outro onde está a Sonangol, mas o nome ficou. É como o Kinaxixe que era o nome de uma lagoa.

(Continua…)

José Kaliengue assim lembrou

O Soba T´Chingange



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Sábado, 21 de Novembro de 2015
MONANGAMBA . XL

ANGOLAVelhos quebrantos - Monótona é a vida do perneta; andar sempre no mesmo pé… 2ª de 3 Partes

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares (Soba T´Chindere) - Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes; Um contador de estórias de que dá gosto ler aos candengues do kimbo (reside no Brasil) …

luis34.jpg O africano e o tráfico de escravos

(...) Ainda no reinado do Infante D. Henrique (1394-1460), com a exploração da costa africana, a Coroa portuguesa empreendeu a construção de feitorias no local. Nesse tempo os portugueses estavam interessados na obtenção de produtos africanos mais o Oriente na busca de ouro, prata e especiarias. O comércio de escravos não despertou aos portugueses interesse algum, pois a mão-de-obra não lhes cobiçada de então. Sentiram a necessidade de serem estabelecidos pontos de comércio e com essa finalidade criaram as conhecidas feitorias, entrepostos fortificados nas regiões litorâneas.

luis33.jpg Em 1448 os portugueses construíram sua primeira feitoria na África: o forte de Arguim (na região da Senegâmbia, actualmente Mauritânia). Pretendiam atrair as rotas próximas dos mercadores muçulmanos no norte da África tendo sido construídas outras feitorias. Em 1460 os barcos e os pilotos portugueses são reputados como sendo os melhores e a fama de sua perícia atrai o reconhecimento europeu.

luis37.jpg Em meados do século XV, a experiência, já os havia transformado nos melhores navegantes do mundo. Marinheiros portugueses começaram a explorar a costa da África, utilizando os recentes desenvolvimentos em áreas como a navegação, a cartografia e a tecnologia marítima, marcando presença na África Ocidental em 1483 com suas caravelas. A verdadeira ocupação do continente africano (BOXER, 1981) iniciou-se com a descoberta e a ocupação das Ilhas Canárias pelos portugueses, no princípio de século XIV.

luis36.jpg Na regência de D. Afonso V, no ano de 1474, este rei incumbiu seu filho futuro rei D. João II, a tarefa de organizar as explorações como objectivos entre outros na marcação da presença portuguesa no Atlântico, na exploração da costa africana e descobrir por via marítima a passagem do Atlântico para o Índico, com vista a atingir a Índia, abrindo as portas para a colonização da costa oriental da África. Com efeito, Diogo Cão chegou ao rio Zaire (1482) e depois, numa segunda viagem de reconhecimento á costa africana, até à Serra Parda (1484). Facto digno de atenção que este navegador teve em transportar nas suas naves marcas de pedra (padrões), com dizeres assinalando a descoberta e garantindo os direitos da coroa portuguesa.

(Continua…)

Monangamba – Do kimbundu - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

As escolhas do Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2015
MAIANGA . XII

ANGOLA - Conversa da Luua - Quando se perde património, já não se recuperaIV

Maianga é um bairro de Luanda - Luua

Por:  Eleutério Freire 

NAMBUANGONGO.jpg (…) Quando se perde património já não se recupera. Veja o caso do projecto da UNESCO a Rota dos Escravos. Cerca de um terço dos africanos exportados para as Américas proveio do sul do equador. A grande maioria foi da área que vai do Lubango a Benguela; quantitativamente, isso dá-nos uma importância grande neste projecto. Talvez mais que em toda a costa africana, havia mais sinais desses acontecimentos ao longo da nossa. E nós não nos temos preocupado com isso, que é um valor turístico importante. O Senegal tem aproveitado em Gore, por exemplo; diga-se que até haja agora sinais de se querer fazer alguma coisa no Morro da Cruz, no Museu da Escravatura.

silva p 1.jpg Isso não terá a ver também com o facto de os angolanos não estarem educados a investir com o turismo no seu próprio país? Se falarmos da maioria é verdade, mas há já uma minoria, que nem é apenas a elite mas uma burguesia nacional, que já viaja muito e, lá fora, aprecia as casas velhas, os museus, etc., mas não transfere isso para cá. Não será a sensação da consolidação da condição de elite, o privilégio de poder gozar o que os outros não podem? Poderá até ser, mas eu acho que deveria haver um sentimento nacional ou governamental para se fazer alguma coisa, para se ter também no seu país.

luanda3.jpg Se fosse guia turístico quais seriam os pontos inevitáveis de Luanda para conhecer a história das pessoas e da cidade? As fortalezas e as igrejas. A própria baía e as baías, lugares seguros de amaragem. A baía é uma das razões para o nascimento da vila europeia de Luanda. Foram as baías, a sua qualidade que determinou a criação da vila, não foram os critérios normais de criação de centros urbanos, até porque, já nessa altura, faltava água em Luanda, o que se mantém até aos nossos dias. As baías são um elemento importante da história da cidade.

angola rural.jpg Depois há um símbolo importante dessa história que também pertence aos angolanos, embora como a parte sofredora, porque eram o produto do comércio dos escravos. As fortalezas, apesar de símbolos de opressão também nos pertencem. As igrejas são outro elemento que, não fazendo parte da cultura original, passaram depois a fazer parte da vida das pessoas. Há também casas que são sinais visuais e históricos.

ana2.jpg Havia muito de angolano nas casas, como a cal de mabanga, os forros feitos de bordão, um material altamente isolante e que permitia manter as casas frescas. Não sei se ainda existem sinais de tectos de bordão nas casas velhas de Luanda. O último que conheci estava na Igreja do Carmo, mas já foi substituído. Portanto, estas edificações estão aqui, foram feitas com mão-de-obra de cá, são nossas, não são de lá, de qualquer outro lado.

(Continua…)

José Kaliengue assim lembrou

O Soba T´Chingange



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Terça-feira, 17 de Novembro de 2015
MONANGAMBA . XXXIX

ANGOLAVelhos quebrantos - Monótona é a vida do perneta; andar sempre no mesmo pé… 1ª de 3 Partes

Por

luis0.jpgLuís Martins Soares (Soba T´Chindere) - Nasceu a 8 de Julho de 1934. Tem agora 81 nos de idade. Uma biblioteca de coisas esquecidas numa Luanda que nessa altura não tinha ainda 18 000 habitantes; Um contador de estórias de que dá gosto ler aos candengues do kimbo (reside no Brasil) …

O africano e o tráfico de escravos

luis32.jpg O tráfico de escravos já existia muito antes da era dos descobrimentos marítimos. O tráfico africano em direcção à Europa iniciou-se em meados do século XV para Portugal, devido a grandes demandas sociais e económicas existentes naquele país e a das ilhas de Açores e Madeira, além de abastecer Lisboa desta mão-de-obra estrangeira. Em 1444, organizou-se uma companhia em Lagos, Portugal, para explorar o tráfico de escravos. No mesmo ano, nessa cidade, 240 escravos comprados pela tripulação e navegador Antão Gonçalves no Golfo de Arguim (Mauritânia), foram divididos e vendidos para o infante D. Henrique, o Navegador, para a Igreja de Lagos, mais os franciscanos do cabo São Vicente e comerciantes.

luis22.jpg O número de cativos chegados a Lagos, em Portugal, à Casa dos Escravos régia de Lisboa, é avaliado por C. Verlinden em cerca de 880 por ano. Os portugueses exploraram inicialmente a costa marroquina, a Madeira (1419), os Açores (1427), Cabo Verde (1456) e a costa Africana da Guiné. Com a ocupação e colonização da Ilha da Madeira e Açores esta leva de mão-de-obra barata foi usada principalmente no cultivo de cana-de-açúcar, que o Infante D. Henrique trouxera da Sicília para a Madeira.

luis21.jpg Na Madeira, as actividades económicas eram a agricultura, a criação de gado e a pesca. Os produtos exportados eram a cana-de-açúcar, cereais, madeira e plantas tintureiras. Por outro lado, nos Açores, os produtos eram os cereais e as plantas tintureiras e outras actividades económicas como a criação de gado, a agricultura e a pesca.

luis19.jpg Nos Açores, a plantação de cana não apresentou resultados animadores. Essa mão-de-obra barata provinha de escravos canários (Guanches), mas como a sua captura era dificultosa, recorreram aos negros africanos por serem mais fáceis de serem obtidos (esta prática já era usada entre tribos por via de prisioneiros de guerra). Os muçulmanos controlavam as rotas de escravos que os vendiam para os mercados da Europa e da Ásia através do Deserto do Saara, do Mar Vermelho e do Oceano Índico.

(Continua...)

Monangamba – Do kimbundu - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

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Sábado, 14 de Novembro de 2015
MAIANGA . XI

ANGOLA - Conversa da Luua - Quando se perde património, já não se recupera – III

Maianga é um bairro de Luanda - Luua

Por:  Eleutério Freire 

luua11.jpg (…) A substituição dos utilizadores da cidade, voltando à sua pergunta, naturalmente que tem grande impacto na cidade e na sua utilização. Isso leva-me a 1975, em que uma parte da população suburbana veio para as cidades, ocupou-as e dá a impressão de lhes estar a dar uma utilização inadequada ou diferente, quer nos prédios, quer nos bairros das elites. Um dos problemas foi que as pessoas que vinham do campo não tinham canalizações nas suas casas, usavam bacias, etc., o que aconteceu foi as pessoas deixarem ir tudo pelos canos. Claros que os entupiram. Se numa casa térrea isso significa dois ou três metros, num prédio de andares isso são metros e metros de entupimentos, com águas putrificadas e virem para fora.

luua10.jpg Eventualmente o prédio da Cuca já não estaria em condições de ser recuperado, por causa desse mau uso ao longo de 35 anos. Essa é uma parte da factura do facto de Angola ter chegado à Independência nas condições em que teve de chegar… Isso remete-nos para as novas centralidades, edifícios altos … É um problema porque pode levar-se para lá pessoas sem os hábitos, educação e cultura para viver em prédios de vários andares.

luua12.jpg Não há como o Estado impor regras de comportamento? Já que se enveredou por aí, acho que tem de haver uma acção muito concreta e organizada de formação para habitar este tipo de edifícios, de controlo de maus comportamentos, como o caso dos entupimentos … ou apostar mesmo nas canalizações por fora, que podem parecer deselegantes, mas são mais práticas para as reparações. Temos, portanto as populações rurais que chegaram a cidade e tiveram um conflito com o novo modo de habitar … E que são a grande maioria.

luua13.jpg Falta ligação emocional aos espaços? “Claro, porque algumas pessoas não sentem qualquer relação com o espaço e com as coisas e também não foram alertadas pela nova elite para a preservação dos espaços…” Tudo isto foi uma tomada popular anárquica em face ao abandono de seus proprietários e nem consideraram o seu valor económico no futuro, como o turismo, por exemplo… E temos um outro grupo, o das populações semiurbanas, que se transformam em elites mas que também não conseguem preservar o património … Quando se perde património já não se recupera.

(Continua…)

José Kaliengue assim lembrou

O Soba T´Chingange



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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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