Terça-feira, 14 de Março de 2017
LUBANGO . III

ANGOLA - TEMPO DE CINSAS . !Porque não esqueço - Memórias do FB - 14 de Março de 2016 - Quando os heróis ficam bronze até os nomes mudam…

Por

Torres0.jpgEDUARDO TORRES - Um Chicoronho de 3ª geração

Porque não esqueço, ao invés, tenho bem presentes acontecimentos que fazem a história da minha vida. Os meus antepassados foram para Angola em condições adversas, as pessoas da primeira colónia de que faziam parte os meus bisavós Pereira, ela grávida da minha avó Vitorina, desembarcaram e tiveram de palmilhar a pé ou em condições diferentes mas pouco mais cómodas, até atingirem o planalto da Huila, no local chamado Barracões, no ano de 1885.

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O meu pai, natural de Cantanhede, embarcou para Angola como militar, desembarcando em Moçâmedes em 1917, calculo de que modo terá também alcançado o Lubango. O planalto oferecia condições diferentes, era saudável devido ao clima ser ameno, que o diferenciava de grande parte do território, agressivo, onde as doenças como a biliosa, a malária e o clima quente e húmido permitiam dificuldades de toda a ordem. Quem não estava na melhor forma física era mais sujeita a sofrer as agruras da terra; Pessoas que vinham de outras paragens, duma civilização que nada tinha a ver com esta nova realidade eram atreitas a febres e outras mazelas.

LUBANGO 1.jpgAs próprias necessidades as tornavam solidárias, porque era absolutamente necessário que isso acontecesse. Eu próprio, nascido numa época diferente, numa cidade já bem delineada, ainda usando o chafariz para abastecimento de água potável , ou o candeeiro Petromax a petróleo e velas, porque a electricidade haveria de chegar, beneficiei, mesmo assim, com todas as limitações inerentes à época , de regalias que faziam esquecer as dificuldades, já que o meu pai dispunha de uma viatura Nash, que nos permitia dar passeios ou fazer viagens em estradas difíceis.

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Autênticas picadas rasgadas na selva, nas savanas ou nas florestas, mas sempre com a possibilidade de se verem animais diversos, que constituíam uma fauna farta e admirável. Os pontões, quando os havia sobre as mulolas, na maior parte dos casos eram formados por troncos de madeira de árvores cortadas ali por perto, ou então restava o atravessar em jangadas como sucedia no Rio Cunene.

ant4.jpg Mas havia outras compensações; Angola oferecia em cada lugar, em cada momento uma surpresa já que a natureza a dotara de uma beleza impressionante, perigosa até, mas talvez por isso, desejada e admirada. No meu tempo de criança, as estradas tinha melhorado, bem rasgadas, ligando as principais cidades; contudo, constituía ainda uma aventura viajar por elas, especialmente no tempo das grandes chuvas.

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Fora destas, outras preocupações havia, como cuidar da saúde, com medicamentos caseiros, como chás, quantas vezes intragáveis. Tão pequeno era ainda, tomava um comprimido de quinino que me punha os ouvidos a zumbir, purgantes de óleo de rícino que me obrigavam durante o dia a estar a caldos de galinha sem sal ou as garrafas de litro de óleo de fígado de bacalhau, tomadas a colheres de sopa durante a época do frio.

caprand0.jpg As constipações curavam-se também com escalda pés, uma bacia com água bem quente e cinza, onde se mergulhavam os pés, para depois se enrolarem numa manta, em seguida para a cama, e transpirar durante a noite para no dia seguinte estar melhor, tomando mel, limão e rodelas de cenoura, em xarope de paladar agradável.

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Ou tricalcina, um pó branco diluído em água para fortalecer os ossos, já que água da nascente era pura demais, sem o cálcio necessário, para o efeito. Usar o permanganato e o álcool puro para as feridas, as papas de linhaça, e outras mezinhas que foram desaparecendo, quando após o final da segunda guerra surgiu a penicilina, cuja invenção permitiu outro desenvolvimento.

nash1.jpg Desenvolvimento que deu origem a outros medicamentos derivados, como as sulfamidas que desapareceram do mercado farmacêutico, e que tantas vezes e com bons resultados foram usadas em diversos tratamentos. E o quinino, umas bolachas amarelas e amargas como trevisco! A resoquina ou Kamoquina para o paludismo que nesse então eram chamadas de maleitas, como assim era conhecido no M´Puto. Tanta coisa mudou depois, mas ficará para outra altura….

EDU



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:56
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Sexta-feira, 10 de Março de 2017
MUXIMA . LXX

MEMORIAS - COISAS DO LUBANGO - Diamonds, transformadas em "Carreiras mistas de passageiros e carga"… COISAS DO MATO - Monteiro´s Hornbill…

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange - Andamos com o credo na boca, motivo de causas alheias e à revelia da nossa vontade …

torres13.jpgEduardo Torres - Um Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

monteiro ornbilll.jpgNa outra encarnação devo ter sido um pássaro da ordem dos Bucerotiformes – Tocku. Este hornbill do Monteiro (Tockus monteiro) é um pássaro Africano. É uma ave de tamanho médio com uns 45 centímetros de comprimento caracterizada por uma barriga branca, de colar preto, manchas brancas nas asas e penas de voo secundárias de cor branca. As penas exteriores da cauda longa, também são brancas.

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Estava compondo este texto do pássaro com meu nome quando me surge no écran do lado um passarão com o nome de Eduardson Torres e, com um assunto sem tema: quando quero escrever qualquer coisa, e não tenho tema para o fazer, a partir do nada invento qualquer coisa, que seja substancial, que justifique o tempo que vou usar. Pois começou assim e, continuou! Procuro escrever de lugares que conheci ou onde vivi; sítios tão diferentes uns dos outros! Aqui afinei minha astucia quando refere esta cena de falar dos outros.  

torres26.jpg Larguei a cena do Eduardson recomeçando minha descrição do pássaro: As fêmeas são menores do que os machos podendo ser reconhecidas pela pele facial turquesa. Os olhos são pretos e o bico é vermelho. Ao contrário de outras árvores, o hornbill do Monteiro alimenta-se exclusivamente de insectos e outros pequenos artrópodes. Seu habitat é a savana de espinhos secos nos campos do noroeste da Namíbia e sul de Angola.

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De novo as luzes piscando e é o EDU que continua: Pois falo de gente marcante na minha vida, muitas das vezes sem motivo aparente, mas cujo significado é uma razão forte para o mencionar. Estava aqui a pensar no meu pai e no velho Araújo. Recordo-me perfeitamente, ainda criança, ir lá à oficina para o meu pai resolver algum assunto relacionado com a viatura, por vezes era a Nash, aproveitarem para dois dedos de conversa, falar de suas figuras, de boné, óculos, corpo já ligeiramente curvada; conversas de boi dormir com umas graçolas pelo meio. Enquanto isso eu, curioso, via os trabalhos de mecânica que estavam a ser feitos entre os desperdícios impregnados de óleo.

torres11.jpg Voltando ao meu hornbill, sei que na primavera migram para a região mais a sul de Windhoek para nidificar. Era aqui que vivia o Eduardson das canetas rotring e aparos graph; um mestre em linhas feitas à mão mostrando sua habilidade, assim tão grande quanta a sua calma. Nunca falei com ele destas aves, embora saiba que coabitava com elas na Mina de ferro das secas mulolas (creio que era algo como Rocing).  

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Estas aves estão adaptadas ao ambiente árido; beber, não é uma necessidade vital para eles. Reproduzem-se no final de uma boa estação de chuvas, colocando 3 a 5 ovos branco-acinzentado, que chocam após aproximadamente 45 dias. O ninho é construído em paredões rochosos ou árvores. O hornbill do Monteiro é uma espécie endémica comum da Namíbia, com uma população total estimada em 340.000 indivíduos. Exposto isto, dedico-me por inteiro à descrição do EDU, de quando ele era um pequenote e usava aqueles calções de zuarte dum amarelo desmaiado, umas borrachas de fisga atiradeira a pender do bolso de trás.

torres27.jpg Saídos dali, o meu pai passava pela farmácia Alexandre, conversava um pouco com o proprietário, magro, de nariz adunco, óculos, bata branca, lá no seu laboratório a fazer as pomadas que se usavam na época, e depois seguíamos para a camionagem do Venâncio Guimarães ao virar da esquina, e em que o meu pai era sócio gerente. Lá encontrava os motoristas Mateus, Luís Marques, João Correia, que em cada viagem levava a sua guitarra, para a ir dedilhando, quando fosse tempo disso; uma venda do mato para os lados da Chibia…

torres29.jpg Eu ficava encantado, como ainda hoje fico, ao olhar as vermelhas Diamonds, transformadas em "Carreiras mistas de passageiros e carga", com as cabines concebidas e construídas localmente para o efeito. São recordações que perduram pelo tempo fora, lembranças de pessoas que marcaram uma época, e conhecidas por quase toda a população da cidade. É por este motivo que de quando em vez vou à Internet consultar automóveis de outras épocas, procurar viaturas de marcas diferentes que fizeram o meu encanto de criança.

EDU

Com suas memórias do Lubango e

T´Chingange com suas estórias do Mato



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:29
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017
MUXIMA . LXIX

ONGWEVA DE ANGOLA ... SAUDADE – Os comerciantes do mato e os camionistas - Angola era um cantinho doce do inferno … 

soba k.jpg As escolhas de T´Chingange

Por

torres23.jpgEduardo Torres – Um Chicoronho de 3ª geração - Deus também usava Vick VapourRub para as constipações, mais o óleo de fígado de bacalhau .

Memorias do FB - 25 de Novembro de 2015

camionista 2.jpg Normalmente, junto-me ao meu amigo e vizinho, que vive em frente ao bloco de apartamentos onde habito, cidade de Portimão; somos quase da mesma idade, ambos ex-funcionários da Câmara, ele topógrafo na de Luanda e eu desenhador, na de Sã da Bandeira. Conversamos sobre vários temas da actualidade, mas a conversa acaba sempre na ongweva dos nossos idos tempos de Angola. De um tempo antes de aparecer a penicilina, que se morria mais das infecções do que propriamente das operações, da beladona, pomada para determinados tratamentos, do permanganato milagroso no tratamento de feridas e algumas infecções. Do uso do bicarbonato de sódio para bochechar a boca, dar molho aos pés e usar no caldo verde para ficar mais verde.

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Com alguns trejeitos de muxoxos lembramos as ventosas para se tratar a pneumonia, das papas de linhaça, do famoso Vick VapourRub para as constipações, no óleo de fígado de bacalhau tomado no tempo do frio, do aparecimento do leite em pó Nido e Nestlé, das sulfamidas que tratavam tudo, e sobretudo, da vida difícil desses tempos em que os recursos eram escassos.

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E, vinha a época das chuvas em que uma viagem se tornava periclitante. Tínhamos de estar precavidos para tudo; essas viagens podiam durar um dia como de uma semana. Na Angola desse tempo vivia-se com muita solidariedade entre as pessoas. Os camionistas, neste aspecto, eram uma classe muito especial; com enormes dificuldades para fazer percursos lamacentos juntarem-se em grupo para não ficarem sós naqueles ermos de mata fechada, medonha nas noites de trovoada, um desabar do céu feito água.

camioneta 3.jpg Ou mesmo um deserto sem coisa alguma por quilómetros e quilómetros; por ter surgido um obstáculo ali ficavam dias sem poder continuar; juntos, conhecidos ou não, utilizavam seus  meios de desenrasca, usando arames, tubos e paus, as engenhocas possíveis para resolverem as panes. Tornavam-se amigos e, essa amizade simbolizava a força da união na estrada.

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As vendas do mato, eram sempre ponto de paragem obrigatório, para se beber uma cerveja, falar das novidades, por a conversa em dia. Cada um, à sua maneira, procurava ser solidário na resolução de qualquer problema. Isso enaltecia-os. Eram eles o traço de união das gentes que viviam internados no cú de judas e as outras, que viviam em lugarejos com uma igreja, um adro e três ou quatro casas de taipa e umas quantas palhotas.

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Eram o sangue vigoroso que circulava nas veias difíceis, as estradas, e que fazia bater forte o coração dessa imensa e grandiosa terra, inóspita, mas singularmente terna e apaixonante; com cheiros especiais de chuva, de pó, de cacimbo e ternuras. É uma ongweva de vivências que só desaparecerá com o tempo, com o fim do ciclo de uma vida.

nasch1.jpg Procurarei deixar bem explícito que Africa não era a terra das patacas, como muitos pensavam, porque viam os verdadeiros colonialistas bem instalados aqui no Continente, a viverem do trabalho de quem mantinha a produção das sua roças de café, do algodão, do sisal, dos administradores da Diamang e de todas as outras imensas riquezas que contribuíam para o enriquecimento do tesouro nacional.

EDU

Com umas pequenas intervenções de T´Chingange.



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:49
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017
FRATERNIDADES . CXI

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADEDevaneios nas memórias do FB - 31 de Janeiro de 2015 - A história de Angola é uma epopeia feita a caminhar, ou  em tipóia…

Por

Torres0.jpg Eduardo Torres – 20.02.2017 - Um Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade …

soba k.jpgAs escolhas de T`Chingange

NASH.jpgHá largos anos, tantos que não interessa contá-los nessa Angola imensa, onde as cachoeiras derramam água por entre rochedos seculares, em que o verde da floresta, se confunde numa só cor pela grandiosidade da sua dimensão, as savanas beijadas pelo vento formam elas a própria linha do horizonte. Vasto e longínquo, as areias, numa dança que transcende o imaginável, em constante movimento que  formam as dunas que se transferem de uns lugares para outros num deserto privilegiado por uma espécie de planta única de nome Welwitschia Mirabilis, n´tumbo em dialecto local.

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Num céu em que o sol surge brilhante e quente, céu que pode ser de azul único ou povoado de imensas nuvens negras e medonhas com os raios a cruzarem-se anunciando uma tempestade africana, pois num pedaço dessa Angola, num planalto situado na cadeia montanhosa da Chela, um punhado de homens e mulheres, desembarcados em Moçâmedes, vindos da ilha da Madeira, pérola do Atlântico e, para ali com sonho sonhos conseguirem uma nova pérola! E, conseguiram!

nauk2.jpg Num continente tão diferente da ilha que tinham deixado para trás, tão distante que já fazia doer a saudade, fortes na sua crença, valentes na sua fé, talharam-se para o sofrimento. Cavaram a terra para cultivar; para enterrar; para fazer alicerces e fizeram calos de doer até que outros homens lhe fizeram outro destino e dali saíram de novo para a diáspora. Muitos já nada tinham a ver com aquela ilha que continua bonita.

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E foi assim, temperados pela força que lhes ia na alma, pelo esforço sobre-humano que cada um tinha dentro de si, recomeçar de novo, regar a terra com lágrimas de dor, suportar injustiças que sem esforço desmobilizaram os pioneiros de antanho idos na “tentativa Feliz” um vapor que honrava o propósito com seu nome.

nash6.jpg Com o empenho habitual foram de novo à luta com outros milhares de gentes destroçadas, de novo a vontade de vencer, porque nunca iriam desistir; A concretização do sonho, primeiro num pequeno lugar, chamado Lubango, por lá ficou assim como uma duna ao sabor do vento, de outras vontades e sonhos diferentes para depois com o tempo, fazer-se novo tempo.

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Oportunidades diferentes, vontades com outras fés. Para comprovar a antiga fé, lá está a Capela da Senhora do Monte, cuja imagem com eles foram para lhes garantir a força quanto baste. Para quando ela lhes faltasse, orassem de novo para a fé não desvanecer.

maga2.jpg Surgiu uma nova realidade, uma nova urbe derivada de Sá da Bandeira, a Lubango de agora. E, aqui longe da cidade que me viu nascer, ainda me sinto orgulhoso, de fazer pare dessa historia e de ser descendente directo dessa gente com têmpera, que permitiu tornar possível uma realidade que não acaba só aqui.

carro de pau.jpg Vão longe os tempos de miúdo, naquela época em qua até o sabão azul ou macaco era importado. E, eu a aproveitava as caixas vazias para depois de desmanchadas, aproveitar a as tábuas e pregos, com o serrote e o martelo, construir as minhas camionetas, meus carrinhos de rolamentos, meus nash de fricção.

EDU

Compilação de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:57
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
LUBANGO . II

OUTROS TEMPOS 31 de Janeiro de 2015 Devaneio … Memórias do FBQuando os heróis ficam bronze  até os nomes mudam…

zorro3.jpgAs escolhas de T´Chingange

Por

Torres0.jpgEDUARDO TORRES - Um Xicoronho de 3ª geração

Há largos anos, nessa Angola imensa onde as cachoeiras derramam água por entre rochedos seculares e, em que o verde da floresta se confunde numa só cor, grandiosidade da sua dimensão, as savanas beijam ventos formando a linha do horizonte; vasto e longínquo. Uma dança que transcende o imaginário em movimento formando duna. Duna que depois se transfere de um lugar para um outro. E, num repente surge uma n´tumbo, a planta única do Namibe com o nome mundialmente conhecido por Welwitschia Mirabilis.

 nauk2.jpgNum céu em que o sol surge brilhante e quente, céu de azul único por vezes povoado de imensas nuvens negras e medonhas, raios a se cruzarem a na tempestade tipicamente africana. Num planalto situado na cadeia montanhosa da Chela, um punhado de homens e mulheres, desembarcados em Moçâmedes e, vindos da ilha da Madeira ali bivacaram suas vidas. Da pérola do Atlântico levaram sonhos de conseguirem uma nova pérola em África.

nauk7.jpg Em um continente tão diferente da ilha que tinham deixado, tão distante, com eles foi a saudade, crença forte, fé de valentia. Talhados para a sobrevivência e também a dor, obedeceram a um sonho que o tempo alimentava. E foi assim, temperados pelo esforço sobre-humano que regaram a terra com lágrimas de pioneiros, com empenho e vontade de vencer.

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E, concretizaram seu sonho! Primeiro num pequeno lugar, chamado Lubango dos barracões, depois e já com novo folgo, anseio e oportunidade em outros lugares com salubridade. E, é naquela capela da Senhora do Monte, que relembram os idos tempos de incertos dias lá da sua ilha, da côdea de pão e das levadas movendo moinhos.

 welwitschia mirabilis.jpgAquela imagem de Nossa Senhora que com eles veio para lhes dar segurança, lá estava pendurada no alto a lhes dar esse alento, que só a fé alimenta. Depois surgiu nova realidade e Lubango passou a ser Sá da Bandeira em homenagem a um político da Metrópole. Aqui, longe da cidade que me viu nascer, sinto-me cada vez mais orgulhoso de ser descendente directo de gente das mais diversas têmperas, que permitiram tornar possível um sonho que virou uma realidade que não acaba aqui.

EDU

Compilado e formatado por T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017
MISSOSSO . XXVIII

NAMIBE - Um texto de Setembro - O Etelvino ainda tinha aquela cor de frango depenado a quente - arrastava-se penosamente pela praia, como tartaruga pronta a desovar...

soba k.jpgAs Opções de T´Chingange

Por

DY00.jpg Dionísio Dias de Sousa - Dy

O Etelvino ainda tinha aquela cor de frango depenado a quente. Arrastou-se penosamente pela praia, como tartaruga pronta a desovar. O sol escaldante torrou-lhe a epiderme, e fez com saltassem escamas do peito dos pés. Tinha desabelhado de lugares frios, onde ganhara vida. Marinhou as escarpas da cordilheira da Chela, deixando para trás as areias brancas que enfeitiçavam o Atlântico e deslumbrou-se com as árvores gigantescas que se agarravam aos granitos e aos basaltos, como bruxas desgrenhadas caídas do céu.

mucu1.jpgAdmirou-lhes as formas e os frutos de sabor intenso. Dessedentou-se nas cascatas que despencavam como ninfas pelas encostas, borrifando-lhe o rosto e refrescando-lhe a pele. No ponto mais íngreme, circundou a vista pelo planalto ajoelhado aos seus pés. Sentiu-se como o patriarca Moisés divulgando a palavra de Deus.

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Deliciou-se com os riachos rasgando os prados com águas cristalinas, saltitando aqui e ali sobre rochas que gemiam música à sua passagem e manchas de arvoredo prestando-lhes homenagens, abanando as copas ao ritmo da brisa fresca, como cristãos adorando santos de procissão. Reparou nas criaturas de Deus que caminhavam as encostas com pezinhos de rola, e alegria de estrelas.

maian5.jpg Os seios desnudos abanando ao ritmo dos seus risinhos discretos, com as argolas de latão reluzindo e chocalhando ao sol nos braços e nas pernas. Murmúrios das suas bocas graciosas chegavam-lhe aos ouvidos numa linguagem ininteligível. Inspirou forte os odores selvagens e almiscarados que lhe invadiram as narinas. Abriu as asas como um condor e lançou-se ao espaço num suicídio premeditado, planando o céu em desenhos circulares, abrindo caminhos entre os flocos de algodão que caminhavam lentos em direcção ao sol.

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Mergulhou a pique em direcção ao solo e aterrou com ternura num prado de flores silvestres, onde pássaros coloridos levantavam em bandos recortando figuras no firmamento. Escolheu criteriosamente o espaço para construir o ninho. Desventrou a terra e regou-a com o seu suor. Engravidou-a com sementes de esperança e assistiu pasmado ao rápido desabrochar do pão. 

monteiro1.jpg Descansando os seus cansaços ao entardecer ao som do mungir do gado gentio de cornos enormes, onde pousavam pássaros de bico vermelho, que faziam a limpeza das suas peles de cores diversas, parecendo borrões de tinta ressaltando de uma parede. E a serenata dolente que escutava, desfazia-se em magia no poente incandescente, escondendo-se ao longe no negrume da cordilheira que o rodeava, aconchegando-lhe o corpo e a alma. E o crepúsculo envolveu-o com um lençol gigante vindo dos céus, confeccionado por anjos com linhas de tons violeta e laranja.

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Miríades de estrelas acenderam a noite e iluminaram-lhe o rosto numa magia estranha que o fez pequenino, mostrando-lhe a dimensão grandiosa da terra, que rezava na escuridão em cânticos de mil criaturas Uma conspiração conjunta contra a paz e o silêncio, numa sinfonia que começou a decifrar. Uma enorme sensação de gratidão foi envolvendo o seu dormir, e os sonhos desenrolavam-se ao sabor dos dias. A sua pele foi adquirindo a tonalidade morena das areias do deserto que palmilhara antes de subir ao planalto.

ÁFRICA8.jpg Roubando-lhe a tonalidade branca e pálida que navegara com ele do outro lado mundo. África moldava-o como o cinzel de um escultor, enrijecendo-lhe os músculos, e pintando-o com as cores do princípio da criação. Mudou-lhe a pele e o sangue e moldou-lhe um espírito novo, sem limitações de espaço ou tempo.

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E as memórias antigas esfumaram-se como o fumo das fogueiras, que ardiam ao som de histórias novas, tão antigas como o mundo. E no crepitar da lenha que vomitava chamas ao céu, deixou-se imolar em sacrifício, ao sabor das rezas das fadas e duendes de pele escura que lhe saravam a solidão.

missosso1.jpeg E é neste deslumbramento universal que se deita na esteira de caniço, e se deleita com a magia melancólica da íris que o contempla, como se fosse o único. Neste esplendor concebe uma mulher nova, moldada com o ardor de África, o fulgor das estrelas, a ternura das planícies, o mistério dos bosques, os odores das flores selvagens e a sensualidade das cascatas despencando-se fogosas num ramalhete de flores de pétalas de espuma branca: A mulata.

Reis Vissapa



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:29
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017
LUBANGO .I

ONGWEVA -  EM ANGOLA É SAUDADE - Férias na Humpata

juru0.jpgAs escolhas de T`Chingange

Por Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade

Torres0.jpg Nos meus tempos de criança, quando ia passar férias na Humpata, na casa dos meus avós, havia na entrada para a sala um caramanchão de roseiral de rosas brancas, duas grandes amoreiras e depois seguia-se um grande jardim, com muitas açucenas, lírios, roseiras, dálias e outras espécies de plantas cujas flores espalhavam um aroma que perfumava o ar.

torres20.jpg Dava prazer respira-lo sentindo aquele aroma entrar pelas narinas e perder-se nos pulmões para apaziguar a alma. O Jardim era separado da vala de água que corria junto à rua por uma vedação de arame que ligavam prumos de madeira separados igualmente em dois ou três entre si, e em cujos arames se desenvolvia uma silva de amora silvestre, que pretas ou vermelhas eram sempre saborosas.

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Longitudinalmente desenrolava-se um pomar, com um caminho pelo meio a dividi-lo, e quem caminhasse para o fim dele, iria encontrar uma grande área de terreno destinada exclusivamente à sementeira de trigo, aveia ou centeio. No pomar havia quase toda a qualidade de árvores frutíferas, desde as saborosas pêras do Natal, que maduras duravam apenas uma semana, pois logo ficavam bichadas, tipo de pêras que nunca comi em mais nenhum lugar, a não ser na Humpata e no Lubango.

luua24.jpg Havia os damascos, os pêssegos, brancos, amarelos e de salta-caroço, as ameixas brancas e vermelhas os figos brancos pingo de mel e os a que chamavam lampos, com a passarada a chilrear dando alegria ao ambiente, com as chiricuatas e os papa-figos sempre à espreita de uma oportunidade para saciarem o seu apetite.

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Depois, mais à tarde pegava na minha pequena bicicleta Ralley e pedalava pela rua, que terminava junto da igreja de S. Sebastião, numa bifurcação que era a saída para Sã da Bandeira ou para o outro lado onde ia apanhar a rua que passava à frente da propriedade do meu tio Torrinha, duas ruas paralelas que delimitavam a zona mais povoada da vila.

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Na parte de cima ficava a escola, o Posto Administrativo, a casa e o moinho do Camaco, a propriedade do Zé Pio, um cego que indicava com a precisão possível o lugar de cada árvore, os castanheiros dos ouriços, o comércio do Abrunhosa, enfim…

massau5.jpg Tempo que figurará sempre na minha memória, porque não é possível apagá-lo... A família Nóbrega era numerosa, e espalhava-se desde a fazenda de S. Januário, o Café para o fogo, a fazenda do Bartolomeu de Paiva junto dos eucaliptos. À entrada da vila havia um grande lago; recordações de hoje, como se as tivesse vivido ontem...

EDU



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:23
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017
MUXIMA . LXVII

ONGWEVA DE ANGOLA ... SAUDADE - Os chefes de Posto e os Comerciantes do Mato - A história de Angola é uma epopeia feita a caminhar, ou andar em tipóia...

tonito3.jpgAs ecolhas de T´Chingange

Por: Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade

Quando escrevo sobre factos da minha vida em África, as histórias reais vão para além de mim. Angola, tem um significado mais abrangente, porque nasci e vivi nela quarenta e dois anos, e nesse espaço de tempo que compreendeu a minha vida até chegado o momento de abandoná-la, criança ainda ouvi o meu pai contar estórias! Da forma como viviam, de uma maneira geral os Chefes de Posto, em especial porque eram colocados em locais ou transferidos para Postos sem as mínimas condições.

moc1.jpg Uma epopeia ou saga que deve ser enaltecida por quem ainda vive e a viveu e, porque seguramente será deturpada ou minimizada pelos novos senhores que a governam. Os chefes de Posto, entre outros administrativos acompanhados de familiares, a maior parte deles com filhos pequenos, sem hipótese de assistência médica e escola, estavam instalados para permutar gestão com os nativos intermediando os funantes.

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Os comerciantes do Mato, por sua vez, não viviam em melhores condições. Foi a forma encontrada de estabelecer soberania estabelecendo uma ordem social de quanto baste. Em caso de doença, na maior parte dos casos, beneficiavam esporadicamente do contacto com camionistas que transportavam mercadorias para as lojas. Hoje o funcionalismo e não só reclama das condições em seu trabalho mas estes nem sempre tinham viatura própria; pode parecer um absurdo mas assim era.

povo1.jpg Tinham a seu favor o facto de ter sido aquela, sua opção de escolha de sua colocação. O lugar onde se haviam de se instalar, segundo critérios generalizados era o de servir melhor em primeiro lugar seus interesses e segundo regras emanadas da Administração. Estabelecer também com os nativos da região condições de negócio segundo regras de reciprocidade ou concorrência. Enfim, normas de vida civilizada!

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A importância que advinha de serem pontos de ocupação, soberania em terras do fim do mundo. Naquele isolamento, era içada todos os dias a Bandeira Portuguesa que simbolizava a Ordem, a autoridade e justiça. A protecção necessária a um progresso, independentemente de ser um pequeno aglomerado populacional, kimbo ou apenas e unicamente um Posto Administrativo. Era ali a verdadeira loja do cidadão, se compararmos isto aos dias de hoje.

posto0.jpg Por assim dizer representava a presença dos portugueses nos mais variados e isolados pontos da imensidão angolana. Os sacrifícios e valentia de como encararam os momentos nada fáceis, eram corroborados por eles mesmos no enaltecimento da Fé e da Esperança, vertentes sempre presentes na defesa duma Portugalidade nem sempre presente pelo poder e lei longínqua.

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Quantas vezes e, porque lhes faltava tudo a vida ficava traduzida em morte. Na dimensão desse território, cabiam as biliosas, a doença do sono provocada pela mosca tsé-tsé, a malária e outras doenças tropicais que eram combatidas com o quinino, uns comprimidos do tamanho de hóstias, chás de plantas medicinais, e medicamentos primários, situações idênticas às dos colonos que vindos da Madeira fundaram a cidade onde nasci., Lubango.

posto1.jpg Era suficiente descer a serra até Vila Arriaga, para se sujeitar, se a sorte não fosse bastante, para se morrer de uma biliosa, como foi o caso de um dos meus melhores amigos e colegas da escola primária, filho do Secretário Administrativo da vila. Era costume dizer-se que terra de imbondeiro não era terra saudável.

posto3.jpg Até nisto, essa árvore grotesca e especial da flora de Angola, era o símbolo de se viver ou morrer, consoante a doença de que se viesse a padecer. Os climas saudáveis eram os dos planaltos mas, mesmo nestes, havia periclitantes cuidados com a saúde. Angola mudou muito desde os meus tempos de criança até a deixar. Mas, até sair nesse então, os administrativos continuavam a viver em muitos Postos isolados, em kimbos ou lugares de comércio e varejo beneficiando nos últimos tempos de acessibilidades com correio e outras condições que lhes faltavam antes, em meus tempos de menino e, eu já sou século…

torres.jpg EDU   

Compilação e formatação do soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:25
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Domingo, 3 de Abril de 2016
MUXIMA . LX

MULOLAS DO TEMPOÁfrica, é uma bênção e um veneno! Ainda em tempo de Páscoa
Por

DY00.jpg Dy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa) - Foi dele que ouvi esta frase tão marcante em nossas vidas! Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

dioni1.jpg Antes de mais quero agradecer a todos os que me desejaram uma Páscoa Feliz e retribuir. Relembrarei outras Páscoas como muitos de nós as vivemos. Celebramos duas datas distintas no Cristianismo. O nascimento e a morte de Cristo. Não questionando se Cristo é filho de Deus, ou não, uma coisa é certa, os seus discursos foram os mais lindos que jamais ouvimos. Se é saudade ou não, não sei. Na verdade nós tínhamos uma sociedade quase perfeita. A maioria das pessoas levava a sério as palavras do Salvador.

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As famílias eram realmente famílias. Havia nesse tempo respeito, transparência, tolerância e verdade. A ostentação, a cobiça, a manipulação, a vaidade e sobretudo a mentira não eram de forma alguma, lugares comuns. Hoje são-no. Mentir e trair vulgarizou-se. A família passou a um estatuto secundário. Do topo vêm os exemplos. Vêm de diversos canais. Não sou santo nem pregador. Não pretendo evangelizar ninguém, mas na verdade tenho saudades do tempo em que as pessoas tinham "atitude".

chicor4.jpg PÁSCOA - O céu chorara durante largas horas naquele dia quente de verão, deixando no ar aquele odor a terra molhada que aprisionaria o meu olfacto para o resto dos meus dias. Há cheiros que nunca se esquecem, o da terra regada pela chuva em África é um deles. O chão ficara atapetado de asas de salalés com os minúsculos insectos rebolando-se nelas. Acabei por perder dois e quinhentos com o meu saudoso amigo Marques Luís que apostou comigo que papava um dos bichinhos. E comeu, e eu tive de pagar, e a minha dose de “Francesinhos” ficou drasticamente reduzida.

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A Páscoa chegara finalmente e, uma semana antes tínhamos distribuído raminhos de folhas gentias na esperança que a dádiva fosse compensada com amêndoas. Como eram acessíveis e boas, especialmente aquelas modeladas em bonequinhos singelos, com olhos, boca e até chapéu em algumas delas. Tinham licor no estômago, hoje ainda há cópias mal-amanhadas das mesmas, mas caras e em nada parecidas. O retábulo com a sagrada família aterrara num nicho à entrada de casa, uns dias antes. Três peças de madeira abraçadas com dobradiças, e uma velinha que bruxuleava ao sabor da brisa matinal.

amigo01.jpg Sempre que passava por ela, persignava-me mais por temor do que por adoração. Fora educado no catolicismo o que me obrigava a respeitar Cristo e os seus progenitores. Tive de aprender as palavras do seu discurso na catequese obrigatória, palavras que se foram esmaecendo com o decorrer dos anos, acabando por se tornarem a antítese no comportamento do rebanho.

- Meninos não se esqueçam que temos de atapetar a entrada da casa para a chegada do senhor ressuscitado. Vão apanhar malmequeres silvestres, brancos e violeta e apanhem os beijos de mulata com as folhas verdes para orlar a passadeira. E lá íamos calcorreando os arredores arrecadando braçadas das singelas florinhas. Malmequer, bem-me-quer, tudo, pouco, nada
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- Maria não te esqueças de colocar a garrafa de Porto na mesinha da entrada e as tacinhas com amêndoas e os cálices, e já agora uns rissóis de camarão e croquetes, pois o tanto o padre Geraldes como o Moreira, gostam sempre de molhar o bico e morfarem um petisco. E a dita mesinha ficava engalanada com a toalha alva que a avó rendara, nos tempos em que a visão ainda era boa. A garrafa de Real Companhia Velha ficava de guarda às gulodices e eu não resistia em gatunar os pingos de tocha da tia Maricota que eram uma delícia. Mais uma persignação por este humilde pecado e ouvir a mãe gritar lá de longe. – Isso é para o padre, deixa de ser guloso. Comes mais logo. – Mas aqueles eram santificados. – Já puseram o fato do avô lá no quarto? Já sabem que ele gosta de se apresentar bem ao Senhor.

beldr7.jpg A azáfama na cozinha adensava-se com o aproximar do almoço tradicional e a caldeirada de cabrito bombardeava-me as narinas aguçando-me o apetite. – Qual é o padre que vem para este bairro Hoje? – É o Geraldes. – Respondia alguém. – Ele deixa sempre a nossa casa para o fim, para poder dar à língua mais tempo com o avô e com a avó. E a avó está a onde? – Está a tratar da sua trança. A trança da avó dava à vontade para amarrar na goiabeira do quintal e subir ao ramo mais alto. – Não se esqueçam do vinho para o Dominguinhos que ele é um apreciador de boa pinga. E se era. No final da visita pascal um grãozito já se tinha alojado na asa do saudoso sacristão.

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Tlim, tlim, tlim. Já se escutava a sineta nas casas do fim da rua. – Já lá vem o senhor padre. – Onde está o avô? – Não sei. – Acho que ainda foi ao escritório da serração. – Hoje, Domingo de Páscoa? – Já está a chegar, o Dick está ali nas escadas. – O Dick era a sombra do avô, acompanhando-o para todo o lado e coxeando tal como ele numa cópia fiel do andar. O cão haveria de morrer três dias depois da morte do avô, acompanhando-o na sua caminhada para o além. Coisas inexplicáveis.

mai5.jpg Eis que chega Jesus agonizante no crucifixo de metal. Uma bênção à sagrada família e a vela quase se apaga, Volto a persignar-me de novo como o resto do pessoal. O padre da família como era conhecido, o padre Geraldes, trás o ressuscitado nas mãos, que leva uma saraivada de ósculos nas pernas de metal. Apanho com uns pingos de água benta, borrifados a esmo com uma peça de bronze que mergulha numa taça do mesmo material. Tlim,tlim,tlim. O Dominguinhos vem atrás, traz a sineta com ele e vêm mais uns tantos que não se fazem pecos em relação aos rissóis e aos croquetes. A manhã esteve quente demais e as batas vermelhas que os encobrem deixam-nos sequiosos. Mais uma garrafa do delicioso Porto.

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- O senhor padre almoça cá connosco? – Pergunta a minha mãe. -Quem me dera, que o cabritinho cheira que é uma delícia. Mas a população aumentou e ainda temos um par de horas de visita. Passo por cá mais logo. – Diz à Irene para trazer mais rissóis e croquetes e bolos. – A Irene é a empregada lá de casa. Uma cuanhama de se lhe tirar o chapéu. – Dou-lhe o recado e persigno-me outra vez. – Esta foi baptizada por mim. – Diz o padre que tem fama de saltar amiudadas vezes o décimo mandamento, referindo-se à Irene. – Foi na missão do Sêndi, não foi? – Foi sim senhor padre Geraldes. – Confirma a Irene beijando-lhe reverentemente as mãos. – Acho que é a vez dele se persignar, mas ele não o faz. Se calhar sou eu que alimento as coscuvilhices das beatas.

povo1.jpg A velinha continua acesa, iluminando a sagrada família talhada em madeira de mucibe. O Dominguinhos prepara-se para o assalto ao terceiro copo de Grão Vasco, mas Geraldes não deixa e obriga a horda de Cristo a segui-lo rua abaixo, em direcção a outros crentes. A caldeirada cheira que tresanda. A Irene há muito pôs a mesa e o patriarca da família irá sentar-se à cabeceira para dar início às hostilidades alimentícias. 

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A família está toda reunida com as suas melhores vestes. E Cristo parte, a Páscoa como eu a conheci também parte, os malmequeres murcham nos meus campos, e a Irene? Por onde andará a Irene? O padre Geraldes morre bem longe da sua amada terra. Já não há tapetes de flores nem beijos de mulata. A velinha bruxuleante da sagrada família apagou-se. As famílias sagradas acabam-se, desvanecem-se e adulteram-se com o tempo, mas sobretudo nunca mais ouvi, tlim, tlim, tlim.
- Por onde andas tu, Cristo?
Reis Vissapa
As escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:09
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2016
FRATERNIDADES . CVI

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - A felicidade - Feito olhos e orelhas fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas ouvindo a saudade dum kota amigo, com ongweva.

Por

torres.jpg Eduardo Torres Um Chicoronho de 3ª geração - Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. E, de quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no enorme planalto, aconchegados pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela.

ÁFRICA1.jpg Eu penso que cada um de nós, pensa, goza e tira proveito da felicidade, de acordo com o o modo e a ambição de ser feliz. Hoje, ao passar junto de uma tabacaria e venda de jornais, vi uma fila de pessoas à espera de vez para registarem o boletim do euro milhões. Fiquei a pensar, quantas delas mantinham o sonho de serem premiadas, talvez com um desfecho que lhes permitisse alcançar a felicidade ambicionada, através da concretização de projectos que só poderiam levar a efeito se de facto os números escolhidos correspondessem aos que haveriam de aparecer depois de a roda ditar os números.

luis17.jpg Será que a felicidade se mede pelo número de milhões de euros que se podem ganhar? Claro que eles ajudam muito, garantem possibilidades que de outro modo seriam difíceis de alcançar, mas será que a felicidade é isso? Hoje , ao olhar para o passado, de acordo com as ambições que tive, penso que fui sempre muito feliz e só tenho a agradecer à Providencia Divina a sorte que sempre tive na vida.

torres9.jpg Claro que me surgiram os chamados acidentes de percurso, especialmente como a morte de familiares, mas fora isso, o que não é pouco, eu sempre consegui vencer as batalhas com que deparei na vida. Ainda agora, ao olhar o momento em que entreguei a chave da porta da minha casa à minha irmã, sinto uma mistura de saudade e felicidade. Aquele momento, o movimento daquela entrega, entendo hoje, foi um encerrar de um ciclo de intensa felicidade, para começar outro em que teria de compreender e aprender a continuar a ser feliz, fazendo feliz toda a família.

torres12.jpg E felizmente foi isso que consegui alcançar, porque acertei nos números da felicidade, da saúde, e por ultimo, no dinheiro necessário para garantir estes bens primeiros. Como em tudo na vida, os excessos, nada garantem, podem até ser comprometedores. Não foi DEUS que criou o dinheiro, por conseguinte a dádiva que recebemos DELE, não tem preço.

torres11.jpg Se assim fosse, os ricos em dinheiro, tinham sempre saúde e felicidade, e os outros viviam sempre na amargura, na doença e na infelicidade. Em ambos os casos, separado o dinheiro, encontramos situações semelhantes. Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque ela não tem preço, do mesmo modo que a saúde não tem e, a felicidade ainda menos. Mas jogar no euro milhões e acertar ajuda muito, e isso apraz-me registar...

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:07
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Sexta-feira, 18 de Março de 2016
FRATERNIDADES . CV

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - Feito olhos e orelhas fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas ouvindo a saudade dum kota amigo, ongweva.

Por

Torres0.jpgEduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. Sempre ouvi a minha avó Vitorina contar a verdadeira história da sua vida e dos seus familiares, quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no planalto enorme, aconchegados pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela

lub1.jpg Quando o Lubango era Sá da Bandeira, em outros tempos meu pai construiu um edifício de dois pisos, no primeiro piso estava a Casa Americana, com o Sr. Batalha como gerente e o Figueiredo como empregado; também ali funcionava a sapataria, no interior, com as respectivas áreas de apoio, e mais afastado, o terreno onde mais tarde foi construído o cinema Odeon, andava eu no 1º Ano do Liceu. Pela manhã, à saída para as aulas, era costume esperar pelos meus colegas, o Avelino Pichel Marques, algumas vezes pelo Aníbal Guedes Pinto, mais velho do que eu, pelo Aristides e o Rodrigues Costa.

lub9.jpgPelo caminho juntavam-se mais alguns, como o Honorato Vieira de Almeida, meu amigo dessas andanças, assim como o Pedro Rodrigues Garcez, e lá íamos em grupo até ao Liceu Nacional Diogo Cão. Que me lembre, frequentei sempre turmas de rapazes, até ao quarto ano; no quinto, as turmas já eram mistas. Nessa época não havia ainda campo de futebol, e os jogos, especialmente aos sábados de manhã, dia da Mocidade Portuguesa, eram disputados num terreno baldio, frente ao Grande Hotel da Huila. Mais abaixo dos bambus havia um campo de basquete, com as respectivas tabelas, para jogos entre turmas dos ciclos mais adiantados. No ginásio disputavam-se jogos de voleibol, além da ginástica bissemanal, sob a direcção do Dr. Arnaldo Correia, mais conhecido pelo lagarto.

lub3.jpg As aulas de canto coral eram dadas pelo professor Pitta Simões. Aos sábados de manhã, nós fardados com camisa verde, calção de caqui, bivaque, meias altas e sapatos, marchávamos sob o comando dos chefes de quina e os comandantes de castelo  do comando geral;  após o destroçar, realizavam-se jogos para entretimento. Recordo-me do Veraneo Jorge e do Calos Vitória Pereira serem as vozes de comando. Depois, com o passar do tempo, essa organização deixou de funcionar, julgo eu, pois a partir de determinada idade, a instrução militar começava a ser no quartel.

lub5.jpg Não posso deixar passar em claro, as marchas dos archotes e a estudantada, com os casacos vestidos do avesso, caminhando em fila na antiga Rotunda e, até ao largo da estação do C.F.M. Dar a volta de regresso, sempre cantando o hino viva a malta do liceu… quando alguma figura governativa se deslocava àquela cidade. Tal hóspede, figura pública, ficava no Palácio do Governador do Distrito e, como anfitriões lá estavam os estudantes apresentando cumprimentos de boas vindas ao Vª Exª e claro, o mais importante pedir uma "borla" para o dia seguinte.

lub7.jpg Estas borlas eram sempre concedidas como tolerância de ponto. Todo este festival era acompanhado por grande parte da população, pois sempre tinham umas atitudes teatrais que se tornaram praxes no decorrer do tempo. Havia bombos e concertinas com apitos e pandeiretas com saltos acrobáticos; e, vinham as desgarradas com palmas e cantorias de picardia à luz de faróis de carros Dodge, Chevrolet, Bedford. Sá da Bandeira era nesse então uma pequena cidade, mas uma cidade de tradição académica; por tal motivo conhecida como a " Coimbra de Angola". Outros tempos, outras gentes...

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:59
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Terça-feira, 8 de Março de 2016
FRATERNIDADES . CIV

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - A história foi uma epopeia feita a caminhar, ou andar em tipóia

Por

Torres0.jpg Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade … Por vezes também poetizo…

afon6.jpg Todos nós temos liberdade de pensamento e, temo-la porque ela é secreta. O pensamento é a maior força que temos porque é realmente livre, porque podemos pensar sem divulgarmos o que pensamos e, mesmo que isso aconteça, assim fugiremos às amarras que os poderosos criam para nos impedir o uso dessa liberdade. Eu penso segundo uma determinada lógica para encontrar uma qualquer solução, ou tenho de seguir uma lógica que me leva o pensamento a encontrar a forma adequada!

ÁFRICA1.jpg É a lógica que controla o pensamento, ou este que determina a lógica!? Eu penso com lógica ou uso-a para pensar bem? Não me resta a menor dúvida que são complementos não dissociáveis na ordem da sua importância. Acho que o pensamento é mais relevante, porque posso pensar sem necessidade de lógica, o que não a torna numa necessidade absoluta. Por ser livre, o pensamento não pode estar preso à lógica! Era um contra-senso se isso acontecesse...

ÁFRICA3.jpg Quando olho o mar, nunca consigo definir a cor, ou cores que ele tem. Aquela imensidão de água, sempre em movimento, na formação de ondas que se espraiam no imenso areal, desfazendo-se em espuma branca, tão depressa surge azul como repentinamente se torna num verde, numa mistura de cores que lembra uma aguarela pintada em completa liberdade. As cambiantes de cor, vão até ao horizonte, onde a distância e a ilusão óptica o faz confundir com o céu; essa linha de junção só é possível distinguir-se, por um ser azul e o outro apresentar uma cor indefinidamente azulada.

ÁFRICA2.jpg Gosto de olhar o mar a perder-se no longínquo horizonte, não interessado na cor que tem, porque qualquer que ela seja, transmite tranquilidade, acalma o espírito e reforça a alma. Só poderei agradecer à ENTIDADE DIVINA o privilégio de tal visão... A possibilidade de divulgar o pensamento, ou torná-lo pessoal! É um direito que me assiste, porque só quem o deu o pode tirar! Há quem pense em voz alta, mas eu não me refiro às excepções, mas sim à regra que nos é geral.

As escolhas do Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:16
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016
FRATERNIDADES . CII

ANGOLA . NUM TEMPO CINZENTO - Ongweva é saudade… Foi a recordação do mato, das picadas e das fracas...

Por

Torres0.jpgEduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Lembrar-me a primeira vez que comi camarões, vindos de Benguela trazidos pelo meu pai num Jeep Willys...

valdir5.jpg Quando em 2013 voltei a Angola, depois de a ter deixado em 1975, fui surpreendido pelas diversas reações que senti. Em primeiro lugar, porque fui por estrada, pois parti da Namibia, e o Gary meu genro, depois de atravessarmos a fronteira do Calueque, conduziu-nós por picadas até entroncarmos na via principal, ainda antes da Chibia. Foi a recordação do mato, das más estradas que ainda tinha presente, tanto por as ter usado para poder sair de Angola, mas ainda por outros tempos do passado que estavam tão presentes e associados àqueles momentos.

torres8.jpg Foi talvez, a parte mais significativa e que me marcou fortemente. A cidade que encontrei, pelas diferenças absolutamente naturais, pareceu-me outra, muito embora a que tinha deixado continuasse a ser o marco da realidade da presença dos portugueses. Eu que a conhecia tão bem, percebi que a disciplina, a limpeza e o seu ordenamento a tinham alterado para pior, embora a sua dimensão tivesse aumentado assustadoramente.

valdir3.jpg Senti-me um estranho na terra que me vira nascer, desenvolvimento eu fora acompanhando na Repartição Técnica da Câmara. Praticamente não conhecia as pessoas! A sociedade e a vivência dela do meu tempo, sumira-se por completo. Não Deixara de ser a mesma encantadora cidade, porque a natureza não mudara a ponto de se poder alterar nesse aspecto.

vumby7.jpg Quando a deixei novamente, foi com a sensação do que ficara continuava a ser muito mais representativo sentimentalmente do que o que sobrara para trazer no regresso. E, o caminho da minha vida é longo! Quando olho para trás, para o meu passado, pelos lugares por onde andei, quando me vejo menino a brincar com uma bola de esponja ou a andar de triciclo, quando mais crescido me vejo mais orgulhoso da minha bicicleta Ralley fico; o de ter andado na escola de 1959, de compartilhar muitas vezes parte do meu pão e omelete, durante o intervalo, o contínuo meu amigo Napoleão.

lub7.jpg Quantas páginas teria de escrever para que todos os pormenores registados, na memória, de nomes, de acontecimentos que vou buscar lá atrás para viver com alento.Muitas vezes, aqui sentado, regresso ao ser criança porque me recordo de coisas quase impossíveis de lembrar, como o de em miúdo andar na vala da horta, na água com o meu amigo Sampaio, e a minha mãe a chamar-me por volta das dez da manhã para tomar uma gemada. Lembrar-me a primeira vez que comi camarões, vindos de Benguela trazidos pelo meu pai num Jeep Willys, igual ao brinquedo que o Sr. Bartolomeu de Paiva me ofereceu pelo Natal.

to0.jpg Quando ainda tão criança vi com o meu pai o filme Grande Ditador com o Charlot, as vezes que vi a Escola de Sereias com a Ester Wiliams, tão miúdo ainda o filme A viúva-alegre, o que seria capaz de escrever se tivesse paciência e capacidade para isso, dessa Angola dos anos de 1938 até à minha saída em 75! E depois, tudo o que se seguiu, até hoje, Só poderei agradecer à ENTIDADE DIVINA o privilégio de tal memória... A possibilidade de divulgar o pensamento, ou torná-lo pessoal. É um direito que me assiste, porque só quem o deu o pode tirar. Há quem pense em voz alta, mas eu não me refiro às excepções, mas sim à regra geral.

As escolhas do Soba TChingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:55
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Sábado, 9 de Janeiro de 2016
MISSOSSO . XXV

DONGUENAUM CONTO ANTIGO – Nas terras altas do Lubango--- 3ª de 3 partes

Por

DY00.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - Um Chicoronho de 2ª geração… Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer.

dy19.jpg A noite de Natal finalmente chegou com toda a família e não só reunida na casa do meu avô. Homem hospitaleiro que convidava e recebia toda a gente indiscriminadamente, não esquecendo aqueles que vindos do Portugal longínquo em busca da terra prometida haviam deixado para trás mulher e filhos até conseguirem a estabilidade financeira necessária para os mandar vir. Foi uma azáfama na cozinha, onde eu fiquei pespegado à espera dos alguidares onde se batiam os bolos, para lhes rapar o fundo à dedada. A missa do galo foi rezada na recente sé catedral, com cânticos e ladainha e durou aproximadamente duas horas, o que foi um martírio para os meus pés enfiados em horrorosos sapatos de verniz.

dy21.jpg Acabada a liturgia, houve lugar a uma passeata ao maravilhoso presépio edificado pelos mais devotos junto ao altar, onde o menino Jesus de louça foi osculado na anca roliça por todos os crentes. Em casa a mesa estava posta com tudo o que era bom para dar lugar à tradicional ceia. Depois de me empanturrar com pingos de tocha, castanhas de ovos e demais iguarias foi-me sugerida colocação de um sapato ao canto da sala e a retirada para o quarto devido ao avançado da hora.

dy18.jpg Foi uma noite curta, em que dormi à pressa na ânsia de ver os presentes pela manhã. O sol já havia despontado quando me levantei e corri para o lugar onde tinha deixado o sapato. Meia dúzia de carros de lata coloridos, carros de corda como eram conhecidos, onde sobressaía uma chave igual à que abria as latas de sardinhas, um cinturão negro com uma enorme fivela de latão e apliques em metal prateado, dois magníficos revolveres e uma estrela de Xerife e mais umas tantas bugigangas deixaram-me extasiado. O Menino Jesus afinal não se esquecera de mim e atendera a quase todos os meus pedidos.

dy25.jpg Sem querer acordar toda a família, peguei no cinturão e nos revólveres e abri a porta que dava para o pátio interior da casa do avô. Foi então que as patas dela assentaram no meu peito fazendo-me recuar dois passos para o interior da sala e a língua áspera percorreu-me o rosto e as orelhas provocando-me arrepios de prazer e deixando-me todo lambuzado. A minha Donguena ali estava escanzelada e suja, havia percorrido cerca de quatrocentos quilómetros até ao Lubango e agora latia de contentamento, sem rancores nem queixas. Larguei as prendas e chorei de contentamento com a cabeça encostada ao seu pelo fulvo, eriçado no dorso num remoinho de dedicação e ternura. Desde esse dia nunca mais duvidei da existência do Menino Jesus e do Pai Natal.

As opções de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:16
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Domingo, 20 de Dezembro de 2015
FRATERNIDADES . XCIX

ANGOLA . NUM TEMPO CINZENTO - Ongweva é saudadeOs camionistas eram o traço de união das gentes que viviam no interior…

Por

Torres0.jpg Eduardo Torres Um Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

macu1.jpg Normalmente junto-me ao meu amigo e vizinho Sousa, que tem uma vivenda frente ao bloco de apartamentos onde vivo, somos quase da mesma idade, ambos funcionários da Câmara, ele topógrafo na de Luanda e eu desenhador na de Sã da Bandeira. Conversamos sobre qualquer tema actual, mas a conversa acaba sempre por recordar os nossos bons tempos de Angola. Quando, muito antes de aparecer a Penicilina, se morria mais das infecções do que propriamente das operações, da Beladona, pomada para determinados tratamentos, do permanganato milagroso no tratamento de feridas e algumas infecções.

macu2.jpgmacu4.jpg Das ventosas para serem tratadas as pneumonias, nas papas de linhaça, no famoso Vick para as constipações, no óleo de fígado de bacalhau tomado no tempo do frio, o aparecimento do leite em pó, das sulfamidas que tratavam tudo, e sobretudo, da vida difícil desses tempos, em que na época das chuvas para se fazer uma viagem tínhamos de estar precavidos, porque tanto podia durar um dia como perto de uma semana.

macu6.jpg A África, e neste caso especial Angola, vivia muito da solidariedade das pessoas, e os camionistas, eram uma classe muito especial nesse aspecto, pelas enormes dificuldades encontradas nas viagens que faziam, chegando a juntarem-se em grupo, por ter surgido um obstáculo que os impedia de continuar a jornada, e todos juntos, conhecidos ou não, utilizavam em conjunto os meios de que dispunham para resolverem o problema, tornavam-se amigos e essa amizade nascida de uma causa que fora comum a todos, simbolizava a força da união na estrada.

macu7.jpg Os comerciantes no mato eram sempre ponto de paragem obrigatório, para se beber uma cerveja, saber das novidades, estar a par dos acontecimentos. Todos se conheciam, e cada um, à sua maneira, procurava ser solidário na resolução de qualquer problema. Eles, os camionistas, eram o traço de união das gentes que viviam no interior e das outras, que viviam em aglomerados populacionais. Eram o sangue vigoroso que lhes circulava nas veias difíceis, as estradas, e que fazia bater forte o coração forte dessa imensa e grandiosa terra, inóspita, difícil, mas singularmente terna e amante.

macu5.jpg São recordações que só desaparecerão quando o tempo determinar no nosso fim de ciclo de vida. Enquanto isso não suceder, procurarei deixar bem explícito que Africa não era a terra das patacas, como muitos pensavam, porque viam os verdadeiros colonialistas bem instalados aqui no Continente, a viverem do trabalho de quem mantinha a produção das sua roças de café, do algodão, do sisal, dos administradores da Diamang e de todas as outras imensas riquezas que contribuíam para o enriquecimento do tesouro nacional.

As  opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:59
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015
MISSOSSO . XIX

ANGOLA . MATERINDINDI - O RUDOLFO VALENTINO DO KALUMBIRI - Para matar saudade… 2ª de 2 Partes

Por

DY0.jpg  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - O autor de Ninguém é Santo e de África, é uma bênção e um veneno (frase)…

maian10.jpg (…) Quando cheguei às dez da noite ele já estava e encostado ao tosco balcão a beber uma gasosa. Um pouco mais ao lado numa mesinha humilde e solitária, estavam sentadas a Filomena e a sua amiga Matilde a tagarelarem qualquer coisa de cotovelos assentes no tampo de mesa deserto. Conhecia bem a Filomena lá de casa e agora com um vestido de chita grenat estava ainda mais deliciosa, com os seios a espreitarem atrevidos e umas ancas roliças que eu volta e meia roçava de contrabando quando se debruçava no tanque da roupa. – Fica quieto menino Joca que eu vou contar na tua avó que estás-me a querer apalpar. – E estava pois o corpo daquela negrinha era um pedaço de mau caminho que me povoava as noites.

onça4.jpg A Matilde sua amiga chegara há uns meses atrás da Chibia e arranjara trabalho na casa do professor Pereira para cuidar das crianças. Cara gaiata e rebolodinha com uns seios tipo bola de andebol era os encantos do Rudolfo que se imaginava a gingonçar aquelas ancas de perdição. – Já estás aqui Matrindindi? Tu não falhas um rapaz. – Fiz conversa com ele enquanto uma “Cuca” aterrava em frente aos meus olhos. – Sabes como é Joca, eu não perco uma noite de dança nem por nada. – Respondeu olhando de soslaio para a mesa onde estavam as duas raparigas na tagarelice. – Então e não vais dançar com a Matilde? – Perguntei com malandrice.

eleuterio1.jpg  – Nunca nos apresentámos Joca, e ela olha para mim como se eu fosse um marimbondo defunto. - Retorquiu desgostoso com o seu insucesso na conquista. – Olha porque não vais lá e ofereces qualquer coisa para elas, pois parece que o dinheiro por ali anda sumido. – Alvitrei. – Remexeu nos fundilhos e ouvi o tilintar das parcas moedas. – Acho que chega para oferecer uma sandwich para ela, Joca. – Concordou com um olhar esperançado. – Pois leva duas e duas gasosas que eu pago essas. Enquanto o Faneca tratava da encomenda por trás do balcão dirigiu-se à mesa e após um boa-noite com vénia indagou. – Matilde, posso-te oferecer uma sandwich? – Sandwich é a tua mãe, seu vadio, vai-te catar. Voltou desalentado e cabisbaixo para o meu lado como um káfi esfomeado.

kafu10.jpg Foi quando ouvi a Matilde perguntar à Filomena o que era mesmo essa tal de sandwich. – Tu não sabe Matilde sandwich é um casqueiro com chouriço no meio, é bom mesmo. – Háka prima se soubera eu aceitara. Pela primeira vez fui dançar um slow com a Filomena e deixei em cima da mesa delas os pães com chouriço e as gasosas. Não vou falar da Filomena que me encheu a noite mas da prima que olhava com olhos de carneiro mal morto o Rudolfo. Foi bom vê-los abraçados num tango uns minutos mais tarde. E, como dançou bem o Matrindindi nessa noite com a Matilde, e a bundinha dela remexendo a um ritmo estonteante. Tudo se perdeu anos mais tarde por razões óbvias. Deixei de ver os “Keds” fosforescentes do Matrindindi, deixei de dormir com a Filomena à socapa e da Matilde nada sei.

MONA5.jpg Estou na galeria da discoteca “Trigonometria” no Algarve, depois de espezinhar um mar de cerveja no chão e quase a iniciar uma briga com um bando de labregos que se entretinham a dizer palavrões e a arremessarem beatas para pista tendo uma delas aterrado no decote de uma rapariga. Foi quando o vi junto a uma mesa de controlo a colocar vinis e os sons do “Tchuck, tchuck” horroroso a invadirem-me os ouvidos. – Matrindindi. Gritei! – Coloca música do Kalumbiri, mano. – E ele colocou enquanto me acenava lá de longe. E eu vi o chão da rebita limpo, as pessoas ordeiras sem dizerem palavrões e os mais etilizados irem deitar água ao mar bem longe, e as ancas roliças da Matilde e os seios saborosos da Filomena e as sanduiches de chouriço perdidas sobre o balcão. Então deu-me a saudade.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:15
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015
FRATERNIDADES . XCVII

ANGOLANAS CINZAS DO TEMPO - Ongweva é saudade… A descendência

Por

Torres0.jpg Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

lub1.jpg Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. Sempre ouvi a minha avó Vitorina contar a verdadeira história da sua vida e dos seus familiares, quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no planalto enorme, aconchegado pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela. Por ela, conheci toda a sorte de dificuldades porque passaram os seus pais, ela própria, criança ainda. E de um modo geral todos os que compunham essa primeira colónia de madeirenses, que se fixou na zona dos Barracões.

lub2.jpg Sempre confiantes na sua capacidade, enfrentaram todos os obstáculos, para conseguirem a realização do sonho que os acompanhava. Foi uma parte da vida que ela conheceu, porque ainda antes de nascer, já os seus progenitores e todos o que formavam o grupo da primeira colónia, tinham escrito seu destino; em cada pegada, em cada pedra que lhes surgia como obstáculo no caminho.

lub3.jpg A história que foi a epopeia de caminhar, ou transportados em tipóias, consoante as necessidades de cada um, a dureza de um caminho em zonas desérticas ou selváticas, numa distância longa, para chegarem a um destino quase desconhecido. Sei apenas que ela faz parte dessa história com a abertura dos caboucos de uma esperança que se haveria de transformar numa realidade enorme, regada com muito suor e lágrimas.

lub5.jpg Tudo isso me permite, orgulhosamente, dizer que pertenço à terceira geração da primeira colónia madeirense que ajudou a fazer nascer a bela cidade do Lubango, mais tarde Sá da Bandeira, para no presente, voltar de novo a ser Lubango. E é esse orgulho que sempre procurei transmitir aos meus filhos, e que eles, de certeza, não deixarão de transmitir aos meus netos...

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:33
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015
MUXIMA . XLVII

ANGOLA - Relembrar o Lubango e os macacos da Senhora do Monte… Em Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte - Á última curva, chamaram-lhe descolonização 

Por

torres.jpgEduardo Torres - Um xicoronho, branco de segunda de 4ª geração

macaco1.jpg Nos tempos vividos em Sá da Bandeira, havia dois aspectos que caracterizavam a cidade: o picadeiro na rua Pinheiro Chagas, aos domingos à tarde, e geralmente um passeio de automóvel, mais frequente, nesse dia da semana, na volta à Senhora do Monte, geralmente descendo pela estrada que passava pela Escola Artur de Paiva, no Bairro Camisão, continuar até, ao cinema Arco Íris, descer pela avenida do Liceu, desembocar na Praça da República, passar à frente do Palácio do Governo e descer pela Pinheiro Chagas, onde um mar de gente dava o seu passeio higiénico de domingo.

alhinho.jpg Por isso àquela Rua se chamava de Picadeiro; os automóveis também circulavam num percurso repetido, que da rua Dr. Loba Das Neves à Pinheiro Chagas, num passatempo extraordinariamente interessante. Era habitual, no parque da Senhora do Monte, e em especial, junto da estação de tratamento de água, as viaturas estacionarem para os seus ocupantes darem à legião de macacos que descia da serra, guloseimas que eles apreciavam, chegando a subir aos campos e tejadilhos, numa confusão, mostra do que no aproveitar é que está o ganho; esta técnica foi bem treinada no acto descolonizador.

macaco2.jpg Os animais já estávamos domesticados por força de um hábito adquirido, de que ninguém lhes fazia mal, pelo contrário, privava-se com eles pacificamente. Com a nossa saída de Angola, nós gente laboriosa e brancos de segunda de terceira geração fruto de uma macacada menos inocente… Constou-me, que os macacos em vez de receberem comida, como naturalmente estavam habituados, tinham sido comidos contrariamente à sua vontade.

mai3.jpgQuando da minha visita a Angola, foi-me dito que se procurava de novo criar esse hábito aos monos, e que uma nova geração de macacos começava a acreditar na boa intenção dos seres humanos mwangolés do mando e desmando. Num esforço de acreditar nisto, espero sentado pra ver de novo lá aonde seja, ver repetir-se aquela tradição de partilhar a natureza com os demais animais. Preservar esses bons princípios de cordialidade para regalo dos criacionistas se compararem nos tempos vindouros.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:49
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2015
FRATERNIDADES . LXXXIX

NAS CINZAS DO TEMPOEm Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte; à última curva, chamaram-lhe descolonização mas, o mundo não parou por isso….

Por

chicor0.jpgEduardo Torres

chicor01.jpg Nós, os Chicoronhos ditos de pura raça, temos a alma grande. Ela, descende daqueles pioneiros, que vindos da Ilha da Madeira ou do Brasil Imperial, em uma aventura na África desconhecida, desembarcaram, iniciaram sua caminhada a partir do deserto imenso, e seguiram para um horizonte; passado inúmeras e inerentes dificuldades surgindo nas clemências, até que vislumbraram a enorme cadeia da Chela, um planalto aonde iriam abrir os caboucos, criar as fundações de uma cidade que viria a tornar-se das mais belas cidades de Angola.

chicor1.jpg Eles próprios para cumprirem a gigantesca tarefa, tiveram de moldar o carácter, alterar os hábitos, tornarem-se empedernidos como as pedras da montanha que os envolvia, sofrer os imponderáveis do dia-a-dia. Corajosos como eram, enfrentavam de frente a luta que muitas vezes mais parecia uma guerra que tinham a vencer e, acabavam por ganhá-la. Mas atenção! Não há distinção entre o primeiros e todos aqueles que se lhes seguiram, e independentemente de serem Chicoronhos de pura raça, eram também de raça nobre, contribuindo numa junção de esforços no engrandecimento daquela cidade, a deles por pleno direito.

chicor2.jpg Porque a tinham trabalhado e amado com a intensidade, isso lhes garantiu o estatuto de serem seus cidadãos com nome bem diferenciado: -Chicoronhos! Eu não amo mais a minha terra por ter nascido lá, por ser de descendência directa dos desbravadores colonos, do que a minha mulher oriunda de Portugal, ou do meu pai que foi para lá em 1917. Não podia nem deveria haver diferenças de tratamento, porque todos éramos um todo nessa tarefa que agora quase vira mito.

chicor3.jpg Os colonos, seus descendentes, os verdadeiros fundadores, têm o direito de beneficiarem, da história que descreveram com sofrimento e, na esperança com fé; Tudo traduzida na Capelinha Branca que ainda hoje significa a força do destino. Depois, uns e outros, deixaram bem lá no alto da montanha, um CRISTO REI REDENTOR para abençoar a cidade, aos seus habitantes, aos vindouros e todos aqueles que a venham a visitar.

chicor5.jpg Ali, o horizonte sempre s torna num vermelho alaranjado, para depois começar a raiar, a bola de fogo surgir em todo o seu esplendor, anunciando o começo de um novo dia iluminando os que eram e os que virão a ser porque a vida só pára para quem morre ou quer esquecer.

CHICORONHO: Natural da cidade do Lubango, Angola; aqueles de origem branca provenientes de Portugal residentes no lubango, angola.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:20
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Domingo, 26 de Julho de 2015
MOKANDA DA LUUA . XXXVIII

 ANGOLA . GERAÇÃO CANGURUPirão com carne de caça e bolunga

Por

dyo0.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

África, é uma bênção e um veneno.

Para todos vós que tiveram o imenso privilegio de verem zanguinhas a voar no nosso único e inigualável céu africano. Um bom Domingo para todos. Dy

dyo1.jpg A ZANGUINHA BRANCA

Era daqueles dias em que África toma conta de nós, possui-nos com intensidade e deixa uma marca para todo o sempre. Daqueles dias que faziam as minhas maiores delícias e as dos meus amigos também. E falando de amigos daqueles tempos, eram isso mesmo, amigos independentemente da sua condição, cor ou religião. A questão da cor só veio a apoquentar-me muitos anos volvidos. Na minha infância a cor era o azul cerúleo que me cobria, os malmequeres selvagens violeta e branco, as borboletas amarelas, as andorinhas alvinegras, os cardeais vermelhos e as gazelas de cor tostada e caudas brancas. Aos oito anos de idade os meus amigos não tinham cor. Não podia dizer que eram pretos, pois na raça humana essa cor não existe, não eram mulatos ou castanhos pois castanho era para mim o chocolate, e brancos de certeza que não eram, quando muito rosados como os rabos dos bebés, ou aleitados como os que haviam chegado há pouco ao continente africano, os besugos, ou encardidos como eu, que sofrera na pele os rigores do sol da Mapunda. E encardido não significa sujo, muito embora ao fim de um dia de brincadeira no mato se tornasse necessário uma barrela com sabão macaco.

dyo01.jpg Quanto aos meus amigos eram africanos como eu, uns mais escuros outros menos, e outros rosadinhos como o rabiosque do recém-nascido da Dona Ofélia. E assim chegamos às zanguinhas, aqueles passarinhos delicados de penugem negra sarapintada a bolinhas brancas, que pintavam desenhos no meu céu africano, chilreando contentes músicas que perduram nos meus ouvidos. E quando aos milhares aterravam na erva verde que despontava entre os malmequeres selvagens de folhas recortadas como filigrana, eu e os meus amigos sem cor corríamos para o local onde elas tinham poisado e de mergulho tentávamos apanhar alguma. E essa foi a minha manhã de glória, eu, o candengue mais novo da canalha alvoraçada.

dyo2.jpg Atirei-me e senti o seu corpo delicado nas minhas mãos, estrebuchando de temor. – Apanhei, apanhei. Gritou o Marimbondo alvoraçado erguendo a mão com um animal cilíndrico da cor do Alforreca que tivera menos sucesso. Era um camaleão de orelhas acastanhado. Quando reparou no bicho feioso o Marimbondo não foi de modas e atirou com o animal para a mulola do Índia. Foi a minha manhã de glória quando abri as mãos e lá estava ela. Branquinha como a cal e as pintinhas pretas glorificando-lhe a penugem. – Uma zanguinha branca. - Gritaram em uníssono os meus amigos de todas as cores. – O rato-cego apanhou uma zanguinha branca, que linda que é, nunca tinha visto nenhuma. – Exultou o Humberto o mais velho da quadrilha. – Mas é minha. – Afirmei temeroso que ma surripiassem. – E era, e levei-a para casa colocando-a numa gaiola feita de bimba de caniço, com uma latinha vazia de sardinha e repleta de massango e outra vazia de atum cheia de água fresca.

dyo6.jpg E, fiquei ali a olhar para ela no degredo com as missanguinhas negras do olhar a fitarem-me tristes. E fiquei triste perante o seu olhar suplicante de liberdade e mais triste por ela não ligar peva à comida que lhe oferecera em troca da clausura. Dormi mal e pela madrugada fui vê-la e lá estava ela, triste com o seu destino. Um bando de zanguinhas ornava o céu matutino num voar onírico. Soltei-a e vi-a partir no meu céu azul juntando-se ao bando e chilreando de alegria.

dyo5.jpg Há um dia que sofro o mesmo destino da zanguinha branca. Sou preso por ser encardido, ou cor-de-rosa; sou apelidado de tudo e mais alguma. Alguns termos desconhecia, como colonialista, caputo, ladrão, branco de merda, etc, etc. Um dos meus amigos sem cor vem em meu socorro e liberta-me, e então eu voo galgando o meu céu em direcção a um céu que nunca foi meu, e voo alto em direcção a Deus, agradecendo-lhe essa enorme dádiva de ser vivo e livre. Lembro-me então da zanguinha branca e do enorme pecado de a querer enclausurar e por muito estranho que isso vos pareça sinto-me bem, em paz com a cor, voando os meus sonhos inglórios. Despertei m sobressalto! Era mesmo só um sonho.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:47
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2015
FRATERNIDADES . LXXXVI

TEMPOS CINZNTOS A felicidade… Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque ela não tem preço…

Por

torres.jpgEduardo Torres

amigo0.jpgEu penso que cada um de nós pensa, goza e tira proveito da felicidade, de acordo com o modo e a ambição de ser feliz. Hoje, ao passar junto de uma tabacaria e venda de jornais em Coimbra vi uma fila de pessoas à espera de vez para registarem o boletim do euro milhões. Fiquei a pensar, quantas delas mantinham o sonho de serem premiadas, talvez com um desfecho que lhes permitisse alcançar a felicidade ambicionada, através da concretização de projectos que só poderiam levar a efeito se de facto os números escolhidos correspondessem aos que haveriam de aparecer depois de a roda ditar os números.

amigo1.jpg Será que a felicidade se mede pelo número de milhões de euros que se podem ganhar? Claro que eles ajudam muito, garantem possibilidades que de outro modo seriam difíceis de alcançar, mas será que a felicidade é isso? Hoje, ao olhar para o passado, de acordo com as ambições que tive, penso que fui sempre feliz e só tenho a agradecer à Providencia Divina a sorte que sempre tive na vida. Claro que me surgiram os chamados acidentes de percurso, a morte de familiares, mas fora isso, o que não é pouco, eu sempre consegui vencer as batalhas com que deparei na vida.

macaco5.jpg Ainda agora, ao olhar o momento em que entreguei a chave da porta da minha casa à minha vizinha, sinto uma mistura de saudade e felicidade. Aquele momento, o movimento daquela entrega, foi um encerrar de um ciclo de intensa felicidade, para começar outro em que teria de compreender e aprender a continuar a ser feliz, fazendo feliz todos os que me rodeiam. Foi isso que consegui alcançar, porque acertei nos números da felicidade, da saúde, e por ultimo, no dinheiro necessário para garantir estes bens primários.

valdir3.jpg Como em tudo na vida, os excessos em nada garantem e, até podem ser comprometedores. Não foi a Natureza que criou o dinheiro, por conseguinte a dádiva que recebemos dela, não tem preço. Se assim fosse, os ricos em dinheiro, teriam sempre saúde e felicidade, e os outros viveriam sempre na amargura, na doença e na infelicidade. Em ambos os casos, separando-nos do dinheiro, encontraremos situações semelhantes. Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque não tem preço, do mesmo modo que a saúde não tem e a felicidade ainda menos. Mas jogar no euro milhões e acertar, ajuda muito e, isso apraz-me registar...

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:37
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2015
MOKANDA DA LUUA . XXXVII

YANKEES . AS SEMENTES DA DISCÓRDIA - TIO SAM IS WATCHING OVER YOU (TIO SAM está olhando-o) - suas manobras de bastidores

Por

DY00.jpgDy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa)Um Chicoronho de fina estirpe, falas aprumadas que dá gosto ler,  ouvir e mastigar no discurso directo e indirecto...

Vá lá admiradores dos yankees, leiam e lembrem-se que a nossa saída de África se deveu a manobras de bastidores americanas, com o patrocínio da organização mundial das igrejas, fundação Ford e outros quejandos. A independência de Angola sim, mas com o sacrifício dos que lá nasceram como eu, nunca.

DY1.jpgA receita de tão usada já cheira a mofo. Desde o macarthismo na década quarenta a cinquenta e com ajuda do psicótico Hoover, os americanos que de cultura tinham e têm o dólar e pouco mais passaram a ser uns perfeitos idiotas até aos dias de hoje. São tão pobres que só sabem fazer dinheiro. Para manter esta hegemonia do dólar, inventaram uma receita que até hoje infelizmente funciona. Com a capa angélica dos direitos humanos, tem semeado a discórdia ao longo de várias décadas, com ajuda de outros sócios do clube que nem sequer vale a pena dizer quem são. Dominar a comunicação e o sistema financeiro, é quanto basta para atingirem os seus desígnios. Com base nesse paradigma, fomentam-se rebeliões com grande sucesso, na Ásia, na América latina, e agora no mundo Árabe. Consequências desta receita mágica? Várias, caos social, guerra civil apoiada do exterior a quem lhes convém, destruição sem eira nem beira de propriedade e infra-estruturas. Proveitos, muitos.

DY2.jpgA manutenção da sua poderosa indústria de armamento, a colocação de governos fantoches, a apropriação hedionda de recursos de todo o tipo, a tentativa de abolição de qualquer ideologia que vise uma teia social mais justa, a criação de heróis que são exportados de Hollywood, a diabolização de quem se opõe a estes desígnios sinistros, boicotes de todo o género pela força. Neste processo arregimentam lacaios por todo o lado, em África, na América Latina, na Ásia e até na Europa e em regra em todos os cantos do globo que dão aval ao seu domínio, acabando por se deixarem escravizar e tornando-se tão débeis e dependentes que a mãozorra do Tio Sam é que dita o caminho a seguir. Ai de quem se atreva a não se ajoelhar em servilismo nojento a esta receita mágica.

dia36.jpg As palavras ditador, terrorista, comunista, anarquista e uma série delas que inventam a seu belo prazer e que condicionam e exercício da justiça social, afinal a bandeira da pseudodemocracia, são usadas com uma leviandade atroz. Resistir é difícil e a receita tem artes de manipulação das massas que são assustadoras. Podia citar aqui dezenas de países que não se submeteram a esta conjura e de líderes com algum senso de justiça, que sucumbiram a este poder tenebroso. Já fui à América duas vezes e não tenciono lá voltar nunca mais. A bandeira do cifrão é aviltante e a estupidez do povo é congénita. Olho hoje para a Grécia, berço da democracia e vejo como é fácil esganar qualquer recalcitrante. Agora nos bastidores, e atentos à voz do povo no referendo, começam a minar e manipular a voz daqueles que se sabem escravos de um sistema financeiro, mas que não podem resistir sem aquilo com que compram o pão, o acesso à saúde e à educação dos filhos.

dia39.jpg Esta minha opinião estritamente pessoal, fará com que muitos digam que eu sou antiamericano, antissemita, comunista e sabe Deus o quê mais. Nada disso, não professo qualquer tipo de ideologia, sou apenas e tão só, ferozmente contra este capitalismo selvagem que não olha meios para atingir a sua finalidade gananciosa e a manutenção das rédeas do poder mundial. Os efeitos colaterais pouco importam para esta gente. As imigrações forçadas com mortos aos milhares, a terrível constatação de existência centenas de milhares de refugiados que ainda tem de agradecer uma tenda de campanha, uma lata de água e um bocado de farinha. As cidades e aldeias de vários países destruídas pedra por pedra e mortos aos milhares. Digo não a esta sangria desatada, digo não à submissão e hipocrisia da classe política portuguesa e de tantos outros países. Espero que os Gregos sejam coerentes e digam NÃO também. Basta de tanto terror para fomentar o medo. Basta de bater palmas a gente sem escrúpulos.

doente cornos1.jpg Todo este relambório que agradará alguns e desagradará a outros, germinou na minha escrita ao dar conta de uma notícia que dizia que o departamento de estado do tio Sam trouxera a público a violação dos direitos humanos na minha terra, Angola. É óbvio que são violados como em quase todo o mundo. A influência chinesa aumentou exponencialmente na minha Angola, e tal facto desagrada a essa gente. Os motivos de se iniciar um novo ciclo de denúncia especialmente lá e agora, é que são obscuros. Sempre começou assim a receita da desestabilização. Semear a discórdia, mandar a revolta para rua e iniciar uma primavera de destruição a curto prazo. Tenho lá família, tenho lá amigos e amo aquela terra, mas parece-me que o Tio Sam está a preparar mais uma ofensiva de terror, para colher como sempre chorudos dividendos. BASTA.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:36
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
MISSOSSO . XIV

UM CONE DE KAFUFUTILANo rio Mapunda, com o Bitacaia e quimbalas de noxas e de mirangolos...

A AVÓ MILOCAS - Nas bingas de Catumbela - 2ª de 2 Partes

Por

Dy0.jpg Dy (Reis Vissapa, vulgo Dionísio de Sousa)

Dy5.jpg Em ambas o açúcar desempenhava o papel principal sendo que a quifufutila tinha como ingrediente a farinha de pau, e a Paracuca a ginguba. Eram cuidadosamente embrulhadas em cones feitos com restos do jornal “ A Huíla “ onde moravam os poemas singelos de Manuel de Resende e João da Chela. Um dia precisei dos serviços urgentes da avó do Bitacáia pois a comichão no dedo grande tornara-se insuportável, o que indiciava a presença de um inquilino indesejável. Pela mão do meu amigo Lucas fui visitar a Milocas. A casa tinha o asseio e a humildade de uma capelinha e a velhinha mirrada que me recebeu com um sorriso bondoso e os carrapitos empinados surpreendeu-me pela doçura que emanava da sua figura franzina.

KAFUFUTILA.jpg Preparou cuidadosamente a agulha queimada a álcool e com imensa perícia retirou o parasita do pé que repousava no seu colo, sem que qualquer dor me tivesse apoquentado. Quando se ausentou por uns momentos, reparei no jornal que deixara aberto em cima do sofá e onde se podia ler no canto superior direito uma poesia do João da Chela. Quando voltou à sala trazia um recipiente com Cafufutila dois pratos e duas colheres. – Julguei que ia fazer cones para a gente levar. – Comentei olhando o jornal. – Não esse ainda não li. - Fiquei meio encabulado mas não regateei o prato de farinha de pau misturada com açúcar que ela me estendeu.- Avó quando é que o Lucas vai para escola? Limitou-se a sorrir sem nada responder.

bitacaia0.jpg As aulas começaram em Janeiro, e até ao seu início fui cliente assíduo da avó Milocas e das suas iguarias e nunca mais voltei a ver o Bitacaia apregoar bolos pela cidade. Foi ele que me reconheceu um dia destes. A última vez que o vira, acabara com êxito o segundo ciclo dos Liceus, e a avó quando partiu para o além deixou-lhe a casa e dinheiro suficiente para completar os estudos. Entrámos os dois no Metro e fiquei a saber que se tinha reformado como professor do básico e preparava-se para publicar um livro de poesia. – Olha lá e para quando prevês o lançamento? – Para breve- Qual é o título da tua obra? “ CAFUFUTILA” !!!!!!!!

MISSOSSO: Conto de raiz popular que em Angola teve seu criador e percursor o escritor Óscar Ribas. Neles, há diálogos com espíritos, calungas ou kiandas e animais que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:58
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015
MISSOSSO . XIII
UM CONE DE KAFUFUTILA No rio Mapunda, com o Bitacaia e quimbalas de noxas e de mirangolos....
A AVÓ MILOCAS ...  Nas bingas de Catumbela - 1ª de 2 Partes

Por

Dy0.jpgDy (Reis Vissapa, vulgo Dionísio de Sousa)

mira4.jpgSe havia algum culpado por eu ter arranjado uma terceira avó foi o Bitacáia e mais ninguém. O casal Pereira tinha deixado o litoral Lobitango no fim dos anos quarenta por razões de transferência e promoção, algo que acontecia no funcionalismo com uma certa assiduidade. Este novo marco na vida do meu progenitor, deu origem a uma alteração radical ao meu quotidiano. De um dia para o outro transitei das areias mornas da Praia do Lobito, concretamente praia do C.F.B. para os píncaros da Chela deixando para trás as vendedoras com quimbalas repletas de cadelinhas e corvinas, as imponentes casuarinas que namoravam o mar, as fabulosas marés vermelhas que faziam dar à costa toneladas de peixe, e os troncos de bimba empurrados pelas águas do Catumbela e que serviram de boia nas minhas primeiras braçadas de aprendiz.

 

mira1.jpg Também as enormes Garraths gemendo manobras nos carris que sulcavam as traseiras da nossa casa, trazendo o minério para o porto do Lobito, e as corridas até à ponta da restinga, acompanhando os grandes paquetes como o Mouzinho de Albuquerque e o Lourenço Marques ao entrarem na baía, que passavam tão rente que quase se lhes podia tocar com as mãos, tudo isso desapareceu do meu horizonte de menino, deixando-me acabrunhado e desolado num lugar chamado Mapunda. Não fora o Bitacáia, o meu trauma teria atingido proporções catastróficas. Substituir a imensa baía pejada de vapores onde os meus pais compravam chocolates nos cabeleireiros de bordo pelo rio Mapunda, quimbalas de noxas e de mirangolos e bagres de pele de veludo com bigodes, não foi pera doce, até ao dia em que conheci a avó Milocas com os seus carrapitos espetados, fazendo lembrar morros de Salalé numa colina.

 

mira2.jpg A estatura enganadora da Milocas era um terço de qualquer avó normal mas a sua genica ultrapassava o inimaginável. Solteirona inveterada tomara a seu cargo o quitandeiro Lucas Camate, órfão de pai e mãe e vulgo conhecido por Bitacáia. Este neto adoptivo calcorreava as ruas da cidade escoando as guloseimas que saíam do forno de lenha da avó Milocas e que faziam as delícias da garotada. Um dia explicou-me a razão da sua alcunha. Uma bitacáia alojara-se no pé e fizera um ninho tão grande que quase foi necessário a Milocas amputar-lhe o dedo grande para retirar aquela prole comichona deixando um buraco onde cabia um berlinde. O neto da Milocas nunca deixava o tabuleiro atingir o limite, e ficávamos sentados a contar histórias diversas, eu descrevendo-lhe o Catumbela e o dia em que os jacarés foram empurrados pela correnteza e deram à costa Atlântica e ele a falar-me das cheias do Mapunda que escavavam as margens junto à casa da avó quando das grandes chuvas. Nessas alturas sobravam sempre uns pacotes de quifufutila ou Paracuca, duas das muitas guloseimas confeccionadas pela Milocas, e que comíamos á sua revelia.

(Continua...)

MISSOSSO: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador e percursor. Neles, há diálogos com espíritos, que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

As opções do soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:01
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2015
FRATERNIDADES . LXXXI

ANGOLARelembrar o Lubango e a Chibia - Em Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte…

Por

torres.jpgEduardo Torres

Á última curva, chamaram-lhe descolonização

cristo rei lubango.jpg Quando ainda criança, minha avô contava-me histórias do seu passado, e eu, sentado, com as mãos apoiando o queixo, ouvia-a embevecido, quantas vezes pensando ser o protagonista daquelas aventuras dum passado longínquo, em que as dificuldades e as necessidades andavam juntas. Saber como ela aprendera a fazer contas, a ler, sem escola, porque na época havia outras prioridades, e a cultura mesmo básica, estava renegada para segundo plano; desbravar caminhos, estabelecer contacto com os nativos, sua animosidade, ir vendo o nascimento de uma povoação através da abnegação dos ditos xi-colonos, delinear ruas, definir as casas feitas de adobe.

nash0.jpg Trabalhar na imagem trazida com fé da longínqua Madeira e, a que deram o nome de Nossa Senhora do Monte, serem fortes na luta que nascia com o aparecer do sol, e acabava com ele no ocaso. Tarefa árdua no nascimento de um povoado que viria a ser o Lubango de hoje. Mais tarde e já casado, quando ela ia passar uns dias a minha casa, continuava a gostar de ouvir as suas recordações; um passado que continuou sempre presente. Sentia nela uma pontinha de orgulho de ter nascido com os caboucos daquela cidade.

dia29.jpg Nos tempos em que eu era miúdo, a Chibia, tal coma Humpata, tinha um certo fascínio, a começar pela viagem em cerca de 44 quilómetros; por uma estrada térrea e algo esburacada, perigosa em algumas situações, como a subida íngreme do Rio Capitão, onde havia falecido o comerciante João Ricardo; isso sucedeu devido a um acidente numa velha Bedford. Percorridos alguns quilómetros e, após termos deixado para trás a tortuosa e antiga estrada do Bairro de Sto. António, lá estava a curva da morte, assim chamada pelos muitos acidentes e mortes ali registados.

nash1.jpg Em angola todas as estradas ou picadas têm uma fatídica curva da morte. Viajando na poeira ou na lama, consoante a época, acabava por aparecer a Chibia, com a conhecida Pensão Camões, paragem obrigatória. Depois disso, íamos nós à procura das deliciosas tangerinas, enormes, doces, sumarentas, como não havia em mais nenhum lugar na Huila. Eram famosas as tangerina da Chibia, como não o eram menos, as laranjas do Zé Padre, na Huíla.

nash2.jpg Era o ex-libris de ambas as localidades não muito distanciadas uma da outra, mas qual delas a mais famosa e conhecida; uma pelas tangerinas, a outra pelas laranjas. Gostava de percorrer aqueles pomares enormes, saciar-me com a qualidade de fruta de que estava a beneficiar de acordo com o local onde me encontrasse, e depois iniciar a viagem de regresso no velho carro Nash, com o saco repleto de tangerinas que fariam as delícias da família enquanto durassem. E quando surgia a oportunidade, voltávamos à Chibia, vila de gente hospitaleira, de que guardo gratas recordações.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:17
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014
MISSOSSO . X

ANGOLA . LUBANGOIr ao mato era um acto quase solene mas, havia o feijão maluco mais a surucucu a respeitar.

Por

    Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

IR AO MATO

- Hei, Salmonela, vou ali para trás daquela goiabeira desentupir a canalização, cuidado não vires para lá a chifuta, que não quero apanhar com uma pedrada no mataco. Na minha meninice este pedido feito a alguém que tivesse ido connosco caçar passarinhos era sacramental, ainda para mais que o meu amigo Salmonela era vesgo do olho esquerdo. Em verdade vos digo, que lá na minha terra, o Lubango, ir ao mato era um ato solene e que exigia uma dose de coragem bastante dilatada. Pessoalmente não acredito que exista alguém à face da terra, ou mesmo a fazer tijolo nas terras do kaparandanda, que nunca tivesse passado por essa experiência verdadeiramente sublime de defecar no mato, mas que havia risco lá isso era indubitável. A escolha de uma goiabeira obedecia aos critérios normais, exigíveis para tal prática.

saurimo6.jpgEm primeiro lugar, essa bendita árvore dava-nos a possibilidade de reflorestarmos sem grande dispêndio, a área adjacente e em segundo porque renovávamos a flora intestinal com as sementes necessárias, para novas atitudes ecológicas. Era um humilde prazer que não obrigava ninguém a passar horas esquecidas num centro comercial para aquisição de qualquer bugiganga made in China. O dinheiro era absolutamente irrelevante e sobretudo não enchíamos os bolsos dos glutões das finanças. Mas claro que não há bela sem senão, e antes de nos agacharmos com o rabo ao léu debaixo da árvore escolhida, era necessário verificar com cuidado se os vestígios do nosso antecessor já tinham sido dizimadas pelos escaravelhos “ Empurra Caca “, ou se, no tempo da chuva pelos t´chicocolos de mil pernas.

tchi3.jpgPor outro lado a questão fundamental do papel, esse instrumento absolutamente necessário à higiene final. Quem é que, enquanto catraio levava um rolo de papel higiénico para caçar passarinhos? Era absolutamente impossível, pois os bolsos dos calções iam literalmente atulhados de seixos para serem usados na funda da fisga. Sendo assim, o melhor era verificar previamente, a existência de algum arbusto com folhas suficientemente largas, para o substituírem. Outra precaução fundamental, era analisar com conhecimento, se nas vissapas em redor não havia feijão maluco, pois aí sim, ao falharmos esta premissa, ficava o caldo entornado e tínhamos de correr como lebres para a mulola mais próxima para aliviarmos a comichão e o ardor nas nádegas. Além de tudo isto o que já não é pouco, evitar não confundir tanto quanto possível, folha de tabaibeira, com folha de mamoeiro, o que se tornava absolutamente catastrófico.

tabaibos 2.jpgEm Portugal, esse costume maravilhoso de ir ao mato perdeu-se nas brumas da liberdade, e eu que fui estigmatizado por esse epíteto infame de “ Retornado”, sem nunca ter cá estado e culpabilizado de ter trazido para o país, aqueles bichinhos pequenos conhecidos por “ Ide Amines “, e de tomar banho todos os dias, senti-me imensamente pobre por ter perdido esse hábito ancestral. Além de tudo isto, sinto um desgosto enorme em não poder ir caçar passarinhos, com o meu amigo negro, o Salmonela. No entanto, tento colmatar estas perdas com passeios matutinos pelos pinhais e eucaliptais da minha zona. Acreditem ou não, tenho deparado com sinais evidentes de que algum “Retorna” importou para este país esse hábito, mas para desgosto meu, absolutamente adulterado. Senão vejamos, goiabeiras são totalmente inexistentes e o campo de escolha alterna, entre carcaças de frigoríficos, fogões desventrados, tapetes velhos, colchões com nódoas estranhas, entulho das obras, latas de tinta vazias e benza-a-Deus, até já encontrei uma porca inchada e podre, e um saco cheio de gatos asfixiados.

raizes.jpgCom a chegada do consumo e da modernidade, verifiquei que o papel higiénico é utilizado em profusão, juntamente com guardanapos, lenços de papel, e nos casos mais dramáticos sacos de cimento. De tal forma disseminados nas proximidades do advento, que quando das neblinas da madrugada, fico sempre com a esperança que El-Rei D. Sebastião surja daquele caos infernal a desembaraçar-se das ligaduras com que os mouros o envolveram. Quanto ao artigo propriamente dito é verdadeiramente calamitoso, e ando cá a matutar o que é que os portugueses comem, para dar origem aquelas coisas horrendas e ainda por cima sem as tradicionais sementes de goiaba, que afinal contribuiriam em muito para a beneficiação da paisagem. - Olha lá, não te atrevas a ir ao mato para trás daquela carcaça de Fiat Punto, hoje é Domingo dia de caça e vi passar para aqueles lados um coelhinho pequeno e estão pelo menos cinquenta e dois caçadores de camuflado escondidos por detrás daquela montanha de carcaças de televisão. – Disse-me uma vozinha débil, que se não tivesse a certeza que ele está lá longe, nas terras do kaparandanda ia jurar que era o Salmonela.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:53
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Domingo, 12 de Outubro de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXX III

ANGOLA . GERAÇÃO CANGURU Nos rigores do sol da Mapunda…

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

Para todos aqueles que tiveram o imenso privilegio de verem zanguinhas a voar no nosso único e inigualável céu africano.

dy50.jpgEra daqueles dias em que África toma conta de nós, possui-nos com intensidade e deixa uma marca para todo o sempre. Daqueles dias que faziam as minhas maiores delícias e as dos meus amigos. Falando de amigos daqueles tempos, eram isso mesmo, amigos independentemente da sua condição, cor ou religião. A questão da cor só veio a apoquentar-me muitos anos volvidos. Na minha infância a cor era o azul cerúleo que me cobria, os malmequeres selvagens violeta e branco, as borboletas amarelas, as andorinhas alvinegras, os cardeais vermelhos e as gazelas de cor tostada e caudas brancas. Aos oito anos de idade os meus amigos não tinham cor. Não podia dizer que eram pretos, pois na raça humana essa cor não existe, não eram mulatos ou castanhos pois castanho era para mim o chocolate, e brancos de certeza que não eram, quando muito rosados como os rabos dos bebés, ou aleitados como os que haviam chegado há pouco ao continente africano, ou encardidos como eu, que sofrera na pele os rigores do sol da Mapunda.

map1.jpgE encardido não significa sujo, muito embora ao fim de um dia de brincadeira no mato se tornasse necessária uma barrela com sabão macaco. E assim chegamos às zanguinhas, aqueles passarinhos delicados de penugem negra sarapintada a bolinhas brancas, que pintavam desenhos no meu céu africano, chilreando contentes músicas que perduram nos meus ouvidos. E quando aos milhares aterravam na erva verde que despontava entre os malmequeres selvagens de folhas recortadas como filigrana, eu e os meus amigos sem cor corríamos para o local onde elas tinham poisado e de mergulho tentávamos apanhar alguma; essa foi a minha manhã de glória, eu, o candengue mais novo da canalha alvoraçada. Atirei-me e senti o seu corpo delicado nas minhas mãos, estrebuchando de temor.

dy29.jpg – Apanhei, apanhei. – Gritou o Marimbondo alvoraçado erguendo a mão com um animal cilíndrico da cor do Alforreca que tivera menos sucesso. Era um camaleão de orelhas acastanhadas. Quando reparou no bicho feioso o Marimbondo não foi de modas e atirou com o animal para a mulola do Índia. Foi a minha manhã de glória quando abri as mãos e lá estava ela, Branquinha como a cal e as pintinhas pretas glorificando-lhe a penugem. – Uma zanguinha branca. - Gritaram em uníssono os meus amigos de todas as cores. – O rato-cego apanhou uma zanguinha branca, que linda que é, nunca tinha visto nenhuma. – Exultou o Humberto o mais velho da quadrilha. – Mas é minha! Afirmei temeroso que ma surripiassem.

Carro especial.jpgE era! E levei-a para casa colocando-a numa gaiola feita de bimba e caniço, com uma latinha vazia de sardinha repleta de massango e, outra vazia de atum repleta de água fresca. E fiquei ali a olhar para ela no degredo com as missanguinhas negras do olhar a fitarem-me tristes. E fiquei triste perante o seu olhar suplicante de liberdade e mais triste por ela não ligar peva à comida que lhe oferecera em troca da clausura. Dormi mal e, pela madrugada fui vê-la e lá estava ela triste com o seu destino. Um bando de zanguinhas ornava o céu matutino num voar onírico. Soltei-a e vi-a partir no meu céu azul juntando-se ao bando chilreando de alegria.

namibia2.jpgCresci, e comigo, os meus amigos sem cor. E há um dia que sofro o mesmo destino da zanguinha branca; sou preso por ser encardido, ou cor-de-rosa; sou apelidado de tudo e mais alguma. Alguns termos caté desconhecia, como colonialista, kaputo ladrão, branco rosqueiro, etc, edecéteras! Um dos meus amigos sem cor vem em meu socorro e liberta-me, e então eu voo galgando o meu céu em direcção a um céu que nunca foi meu, e voo alto em direcção a N´zambi, agradecendo-lhe essa enorme dádiva de ser vivo e livre. Lembro-me então da zanguinha branca e do enorme pecado de a querer clausurar e por muito estranho que isso vos pareça sinto-me bem, em paz com a cor, voando nos meus sonhos inglórios.

Reis Vissapa



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:05
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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXXI

ANGOLA . LUBANGOOS TRÊS DA VIDA AIRADA

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

 África, é uma bênção e um veneno.

Eram tempos de juventude em festa, esses inesquecíveis em que convivi com o Manuel e com o Orlando. Estou a ouvir Charles Aznavour a cantar “Bon Anniversaire” enquanto escrevo e estou a viajar no tempo, a conduzir o meu mini ABS-05-61, e o Orlando Lourenço que Deus o tenha a conduzir o seu ABS-05-62, iguais como duas gotas de água na cor e tudo. Quanto ao carro do Manuel Sá só ele pode dizer a marca que a minha memória não chega a tanto. Um delapidar de gasolina em busca de corações perdidos nas ruas do Lubango. Éramos amigos e como tal partilhávamos segredos nos cadeirões do Hotel Metrópole na companhia do cafezinho que o velho Santos tão bem loteava. – Quem era aquela que ia hoje no teu carro? Não sei onde vais descobrir esses borrachos? – Querias saber tanto como eu. – É a Miss Safari. – Como é que sabes? – Partilhamos os mesmos caminhos. E era assim. Dávamos nomes quase codificados às jovens e mulheres que partilhavam o assento do pendura. Uma corrida rápida à Capelinha e no seu testemunho mudo beijos trocados à socapa no ardor maior da juventude. Música Francesa, Italiana, Espanhola, Mexicana etc, etc.

 Ao contrário dos dias de hoje que a americanice e a língua saxónica domina. Virámos todos “Beefs”. Graça a Deus o Brasil salva-nos e podemos ouvir a sua linda música de ontem e de hoje num hino à latinidade. Aos fins-de-semana bebíamos os nossos copos nos bailaricos limítrofes ao som dos Acústicos do Bossa Nova e do velho Blue Star. Era assim uma orgia de companheirismo e permanente boa disposição vivendo um dia de cada vez. O Orlando e eu com óculos de dioptrias tipo caco de garrafa. Foi preciso chegar a velho e ficar de vez sem óculos nem cataratas. O Manel, de caracóis negros um galã a rondar o Dean Martin. Mas ninguém se queixava. Chegava para todos e posso dizer que havia uma espécie de código ético entre nós no que respeitava às “Muchachitas”. Os minis iguais haviam de dar lugar a um incidente em que quase fui preso. Parte sempre por elo mais fraco. Era o casamento da filha do Governador, a Né, com um alferes qualquer, o Franco é que sabe alcunha que eles lhe deram. Tinha emprestado o meu mini ao Alferes Cabral para ele ir ao casamento do colega. Tipos como eu não eram convidados para esses eventos. Vou para o adro da igreja onde a maralha se juntou para assistir.

 O trânsito tinha sido vedado à populaça e era proibido estacionar pois os lugares estavam destinados só para convivas. Quando lá cheguei já lá estava um mini azul eléctrico igual ao meu, o pai do Orlando o administrador Lourenço tinha chegado cedo para o evento. Coloquei-me deliberadamente perto do carro. Eis senão quando surge o Guarda Polainas e sem bom dia nem nada rosna. – Tire já esse carro daqui, imediatamente! – Esse carro não tiro de certeza absoluta. Retorqui. – Ai, isso é que tira; ou tira ,ou vai já para esquadra. E dizendo isto chamou a atenção a outro polícia para levar a dele avante. Entretanto o maralhal juntou-se à nossa volta para ver em que é que aquilo dava. – Porque raio não tira o c.... do carro daqui? Gritou apopléctico. – Porque o carro não é meu. Respondi-lhe em ar de gozo. Ficou roxo de raiva e a gargalhada foi geral. Tal gracinha custou-me um carradal de multas e perseguições ferozes.

 Mas tinha uma grande amiga que era quase tão doida como eu e era filha do Governador de Serpa Pinto, Moita de Deus. Ía em direcção à Senhora do Monte e juro que não era nada de mal, éramos mesmo bons amigos. Pelo retrovisor vejo o polainas a acelerar a moto atrás de mim e a mandar-me encostar. Ela sabia da história toda e não o deixou falar. Passou-lhe uma caixa de charutos e ameaçou-o de fazer queixa ao pai. As multas acabaram; ela partiu não sei para onde, nunca mais a vi e o polainas encontrei-o uma vez nas Caldas da Raínha mais o meu grande amigo polícia pai do Esteves; julgo que era ele mas, não tenho a certeza

Fui para Luanda trabalhar e encontrei lá o Orlando funcionário no BCA. Foram meses de glória nos cabarets e na noite de Luanda. Eu trabalhava no Porto de Luanda e vivia num quarto na marginal.

 Dormia das cinco da tarde à meia-noite hora em que ia buscar o Orlando para a “Night” e ele tinha a mesma rotina. Copacabana, Estoril, Bambi e outros do género, seguindo-se fado no Retiro da Saudade e no final a Casa Portuguesa. Café e mata-bicho no bar do aeroporto e pé na tábua para o porto ainda empinocado da night. Armazém 6, o chefe Adelino a olhar para a minha indumentária mais própria para um baptizado. – Dionísio, chegaram uns fardos de roupa para o Quintas e Irmão, pode ir dormir para lá. Eu agradecia e ia! Não havia complicações, era tudo simples como um grão de arroz, boa gente. Após seis meses mandei-me de novo para Sá da Bandeira, a vida era dura em Luanda. O Orlando também voltou e casou com a Ilda. O Manuel casou com a Marieta e eu também acabei por casar deixando para trás amores vadios que por vadios foram espectaculares para todos nós.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:26
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Sábado, 20 de Setembro de 2014
FRATERNIDADES . LXVII

MOÇAMEDES - No longínquo ano de 1917

Por

  Eduardo Torres

 Quando meu pai desembarcou, em Moçamedes, destacado para o sul de Angola, propriamente para o Lubango, não admito sequer como seria Angola nessa época. Sei que andou envolvido na pacificação do sul, no Cuanhama, tendo abandonado a vida militar, para se dedicar ao comércio, foi fundador da camionagem, tendo-se associado à firma Venâncio Guimarães, nessa área. Acabou por ser industrial de curtumes e sapataria. Meu pai foi um eterno apaixonado por Angola, a ponto de vender a parte da herança que lhe coube, salvo erro, para investir na terra que pensava ser sua; nunca se interessou em voltar a Portugal Continental, foi rico e morreu relativamente pobre, depois de uma vida de sacrifício e trabalho. Foi vereador da Câmara Municipal, construiu um prédio de dois pisos, considerado um dos mais modernos da cidade, isto nos anos quarenta. Era uma pessoa muito conceituada no meio, tinha influência entre os amigos e seus filhos.

 

 Sinto grande orgulho nos pais que tive, da geração e da descendência a que pertenço. Descendo directamente dos colonos madeirenses, gente humilde, que não teve receio de abandonar a sua ilha, para fazer parte da história. Enfrentando toda a sorte de dificuldades, fundaram um lugar que se tornou a cidade onde tive o privilégio de nascer, e isso me basta para sentir o orgulho que sinto pelos meus antepassados. As próprias pedras serão páginas da gesta vivida por esse conjunto de gente heróica....


A confirmar tudo isto e a 15 de Julho de 2011 escrevia eu em meu blogue de kimbolagoa:

 Bernardino Freire de  Castro - Fundador de Mossâmedes (Namibe)

A partir da metade do século XIX, por via do término da escravatura, Angola passou a ser vista como saída para encaminhar gente desavinda de outras paragens juntando-se-lhes os degradados para ali enviados por castigo penal. Alguns dos novos colonos, idos do Brasil e Ilha da Madeira para Mossâmedes buscaram lugares mais frios e de terras férteis; enquanto decorriam batalhas para conter sublevação de alguns sobas mais a Sul, a colónia ia-se formando ao redor de barracões num lugar que se veio a chamar de Sá da Bandeira, o actual Lubango. Falar destas odisseias é recordar a missionação dum povo, duma gente que não deixou de peregrinar a vida. Recorde-se essa estirpe de gente reconhecidos como os Chicoronhos (Xi-colonos), que oriundos das ilhas da Madeira e Açores, após estarem alguns anos no Brasil e após a independência deste, optaram por tomar este novo destino levados no entusiasmo do marquês de Sá da Bandeira. Foi no areal da baia do soba Mussungu do Namibe que eles estabeleceram seu primeiro arraial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:26
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014
FRATERNIDADES . LXVI

HUMPATAA chegada da electricidade a Sá da Bandeira… 

Por

 Eduardo Torres

 Lembro-me quando surgiu a electricidade, e as ruas de Sá da Bandeira foram iluminadas, pela primeira vez, com uma luz que fascinou os meus olhos de criança, na inocente ignorância de saber como era possível a luz aparecer assim, de repente, vinda não sei de onde. A minha mãe, pegara em mim, sentara-me no parapeito da janela, para eu poder observar um mistério, e cerca das seis tarde, salvo erro, surgiu a novidade surpreendente de eu ver uma luz completamente diferente da que... estava habituado a ver. Não me recordo o que terá passado pela minha cabecinha inocente, mas com certeza que houve mil perguntas que ficaram sem resposta.

 A porta de entrada da minha casa dava acesso a um corredor comprido, que servia a sala de visitas, o quarto dos meus país, e do lado oposto, o meu quarto e do meu irmão mais velho, desembocando, através de outra porta, na sala de refeições, que por sua vez dava acesso ao quarto das minha irmãs. Nesse corredor, costumava eu e um qualquer amigo de ocasião, jogarmos, com uma bola de ténis, futebol de baliza a baliza. Vem isto a propósito, de que foi nesse corredor que se começaram a abrir os roços para a instalação da tubagem e caixas de derivação, que viriam a ser as vias por onde a electricidade chegaria às lâmpadas, que iriam substituir as velas, os candeeiros de petróleo e o velho petromax, que uma das vezes, ao ser aceso, dera início a um principio de incêndio , que prontamente fora apagado.

 Pois era a luz, que dias antes tanto me intrigara, que surgia em casa, aparecia nas lâmpadas do candeeiro da sala, ou nos simples, dos quartos, com um pequeno movimento do interruptor, prova de que, o milagre do progresso tinha acontecido. Passei a entender melhor, um facto que tanto me intrigara, mas que ainda não dominava em absoluto... sabia apenas que começara uma nova era na vida lá de casa, que uma luz vinha substituir outra que fazia parte da historia do passado, e que a vida começava a mudar substancialmente....

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:25
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2014
FRATERNIDADES . LXI

 

LUBANGO  Na cordilheira da Chela

A África da minha vida

Por

Eduardo Torres Eduardo Torres     

   

                 

O sentimento
O que vale o sentimento?
Pergunta que me transcende
Será como uma luz que se ascende
Cá dentro do nosso ser?
Ou é um fogo que arde
Sem nenhum de nós saber?
O sentimento é um valor
Que se sente e se conhece
E quase sempre aparece
Deixando algum sabor
Pode aparecer amargo ou doce
É assim como se fosse
Uma estrela no céu a brilhar
Por vezes como ela, distante
Mas que se aproxima num instante
Para nos fazer sonhar.

 Mossãmedes - 1914

Hoje, ao consultar a minha página do facebook, deparei-me com documentos fotográficos, quanto a mim, de inquestionável valor, que ajudam a entender Angola, e as grandes dificuldades porque passaram os seus colonizadores, porque os colonialistas, já nessa época, viviam bem instalados, no que por norma se chamava Metrópole. Fotografias, a rondar o ano de 1927, curiosamente, tempo muito semelhante ao que geralmente escrevo quando me refiro a episódios da minha infância. Numa década, Angola não sofreu um desenvolvimento que a transformasse tão repentinamente numa outra muito diferente, tanto mais que se encontrava afastada do mundo civilizado, esquecida, colónia que garantia benefícios e riqueza, mas pouco ou nada usufruía deles.

  Tal com na fotografia, ainda muito criança, lembro-me de um carro de marca Nash, propriedade do meu pai, mais moderno, com capota, mas de linhas semelhantes, com cromados, bancos corridos em cabedal, e que era o meu encanto. As mesmas estradas e picadas por onde se circulava, em condições muito difíceis, especialmente na época das chuvas, as mesmas jangadas utilizadas para serem atravessados rios, como o Cunene, pontões de Madeira, muitos deles de precária segurança, e estou a escrever já dos anos trinta e oito, quarenta, porque os que se seguiram continuaram a ser em tudo muito semelhantes.

 Dr. Roy B. Parsons e sua esposa

Só a partir de 1961, é que houve uma explosão de desenvolvimento, forçada pelas circunstâncias. Até essa altura, foi sempre uma "roça", explorada até ao tutano pelo país colonizador. Recordo- me da minha mãe, ter sido operada na Catabola, a uma vista, pelo Dr. Strangwey, o meu avô no Bundjei(?) e a minha irmã e irmão no Bongo (Lépi) pelo Dr. Parson, porque em casos mais graves de saúde as pessoas recorriam aos missionários americanos, que proporcionavam outras garantias, num tempo em que não havia antibióticos, garantias que os hospitais portugueses não ofereciam, por falta de meios, independentemente da boa vontade dos médicos que tratavam os doentes.

 Contudo, muito miúdo ainda, lembro-me de a minha mãe ter sido hospitalizada na Chibia, porque havia um médico de reconhecido valor, se não me engano, de nome Menezes, e percorrer frequentemente quarenta quilómetros de má estrada, com o meu pai, para ir visita-la. E ao escrever sobre Angola, nestes termos, estou a referir-me a todas as outras colónias portuguesas que eram tratadas de modo igual. Talvez por essas dificuldades, de se ter de ir buscar água ao chafariz, de se ter velas, candeeiros de petróleo e petromax, xipefo, para se obter luz, mas saber que em cada dia poder sentir uma liberdade completa para poder correr pelos campos, poder pedalar a bicicleta pela estrada sem correr riscos com os automóveis, respirar ar puro em lugar de respira-lo poluído, descobrir espaço livre até ao horizonte, sem casario ou grandes prédios a atrapalhar, ter galináceos, patos, gansos, cães gatos e bambis domesticados que me vinham comer à mão.

 Nash

Apanhar, mangas, pêssegos, laranjas, morangos, passar cada Natal com todos os familiares na Humpata, com os meus avós, e o Ano Novo na minha casa, da mesma maneira, ver a doçaria ser confeccionada em casa e comer os restos da massa dos bolos que ficavam nas panelas os nos tachos depois dos bolos colocados nas formas ou tabuleiros para irem ao forno, previamente aquecido a lenha, e limpo de toda a cinza, se isto não era vida, o que era realmente viver? Como posso esquecer Angola, a minha terra no planalto da Chela, onde pude ter uma vida diferente, porque graças a Deus, sempre tive uma vida feliz em qualquer lugar onde viesse a viver depois. Mas a infância, em que Angola era realmente a África, que não volta nunca mais a ser igual, foi um marco diferente na minha vida, que jamais poderei olvidar. África estava tão longe do mundo civilizado, que só a segunda grande guerra a conseguiu aproximar da Europa.

(Continua...)

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:29
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXV

ANGOLA . LUBANGOFloripes, a namorada de Cristo…

Por

 Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa

Esta estória é para recordar essa época em que éramos obrigados a aprender o Pai-Nosso a Ave-maria e até a Salve-rainha, numa daquelas escolas com uma professorinhas do antigamente.
Foi ela que me ensinou a dar os primeiros passos na língua do poeta Camões que via mais com um olho do que nós com os dois. Não me ensinou mais nada pois tinha uma total falta de vocação para outros ensinamentos que não fossem o “Bê-Á-Bá e todas as orações que eu era obrigado a decorar por via de uma educação ancestral católica! Estas lições obrigaram-me a desembolsar parte do meu precioso tempo infantil na catequese e outra parte numa luta inglória com a cultura. Se havia pessoa que eu respeitava tanto como a minha mãe, era a menina Floripes, no entanto, uma era a antítese da outra. Enquanto a menina Floripes me perguntava com uma meiguice tão grande no semblante como o olhar de uma cadela vadia à procura de dono, porque razão tinha faltado à catequese, a minha velhota que não era de modas primeiro chegava-me a roupa-ao-pelo e só depois é que perguntava onde andara eu a vadiar. A menina Floripes era mulata, esticava o cabelo encrespado para a nuca onde culminava num totó que parecia um rilhete feito com aqueles funis com saco de pano para enfeitar os bolos com glacê. 

 Uma doença infortunada em pequenina, deixara-lhe a pele morena das faces cheia de pequenas crateras variólicas que apagavam parte da beleza dos seus olhos verdes e doces. Para além disto nem Nossa Senhora de Fátima tinha tanta pureza na maneira de vestir, de brancura imaculada com saia larga em godé com as tradicionais pregas. O corpete com uma fiada de botõezinhos nacarados em forma de esfera que o decote só deixava ver a maça de Adão. Manguinhas tufadas até ao cotovelo e sapatinhas rasas de enfermeira de dispensário. Deslocava-se com a suavidade dos tufos de sumaúma quando esfarelávamos o fruto e espalhávamos as sementes brancas pelo ar.  Cá para mim, foi a professorinha mais linda e mais bondosa que tive em toda a minha vida. A beleza vinha de dentro dela como as estrelinhas da varinha de condão da fada que transformou uma abóbora no coche da Gata Borralheira; serena e ofuscante. Só me lembro de uma professora que me fez oscilar nesta análise que foi a minha professora de inglês que quando se debruçava na minha carteira para ver se eu escrevia “Yes” com um “i” ou “y” eu ficava embasbacado com os seus mamilos cor-de-rosa. Foi uma recaída séria que me fez chumbar a inglês dois anos seguidos. Houve quatro coisas, pelo menos, que eu nunca vi à menina Floripes; um momento de mau humor ou zanga, um namorado, os joelhos e os mamilos. As más-línguas da terra diziam que ela era uma beata, uma rata de sacristia e não sei que mais, todos estes adjectivos apenas porque era ela que engalanava o altar de Jesus Cristo para os serviços religiosos. Ramos de flores que arrancava do seu próprio jardim e que colocava nas jarras esguias da mesa do Senhor, com a ternura de rosas a desabrocharem.  
 Começou a circular pela cidade o boato que a Floripes mantinha longas conversas com Jesus e havia mesmo quem afirmasse que Ele um dia se exaltara e levantara a cabeça coroada de espinhos para lhe murmurar algo. Eu pessoalmente não acredito nisso mas houve alturas em que o Senhor me pareceu verdadeiramente agastado com alguns dos paroquianos engravatados e de ar respeitoso, as suas mulheres pavoneando os vestidos da moda e olhando de soslaio para as outras comadres em termos comparativos. Eu acho que Ele não gostava mesmo daquelas mexeriquices tipo revista Maria feitas no adro após terem batido vezes sem conta com a mão no peito.  Estive tentado a perguntar à minha professorinha se era verdade, que ela mantinha de vez em quando um bate-papo com Jesus mas acabei por não o fazer por achar que essa curiosidade era imprópria. Alguns coleguinhas meus chamavam-lhe a namorada de Jesus quando ela passava de olhos postos no chão e, eu pensei para comigo que era melhor que ser a namorada do diabo como a Dores mulher do Emiliano que namorava às escondidas o guarda Linhares. Esse sim, um verdadeiro Mefistófeles que nos perseguia de cassetete em punho por dá cá aquela palha
.
 A minha curiosidade ficou satisfeita certo dia quando me pediu para a ajudar a colher as flores para a igreja. Quando agarrei na tesoura para cortar uma molhada de “Bocas de Jarra” ela voltou-se para mim e disse: - Essas não, Jesus disse-me que detesta bocas de jarra e para não voltar a colocar tal flor no seu altar. -Abri os olhos de espanto com as palavras dela. - Então sempre é verdade que a menina Floripes fala com Nosso Senhor? - Indaguei curioso. - Falo com ele mas não é da maneira que as pessoas pensam. Tu gostavas de estar pendurado numa cruz anos a fio rodeado de flores de cemitério? E além disso gostas daquele perfume horroroso da madame Barata que deixa a casa Dele empestada durante uma semana? - Perguntou com a sua habitual candura. Eu não “Sopessora”, e até evito ficar na igreja ao lado da dita senhora que me dá uma grande agonia. - Respondi concordando com ela no tocante à miscelânea de perfumes que se entrecruzavam na igreja aos Domingos.   Ao fim de uma hora a menina Floripes tinha composto uma série de ramalhetes alegremente coloridos de rosas, gipsófilas e umas tantas dálias anafadas acasaladas com cravos de burro. Acho que não vou levar nenhuma descompostura desta vez. - Confidenciou-me com o ar mais sério deste mundo.
 Morreu aos trinta e nove anos de uma doença estranha a que chamavam leucemia. Foi definhando gradativamente e eu fui visitá-la com assiduidade até ao dia que partiu para perto do seu suposto namorado. - Quando eu partir não te ponhas a chorar baba e ranho de todo tamanho, que parto para melhor; solicitou-me quase em segredo. - Como é que sabe que é melhor, menina Floripes? -Foi Ele que me disse e, acrescentou. - Não leves bocas de jarra para a minha campa que Jesus não gosta dessas flores. Se levares vais ver que numa hora ficam murchas e amarelas. - A primeira ameaça séria que ouvi da sua boca.
Sempre fui curioso e desobediente e como tal resolvi confirmar a veracidade das palavras da menina Floripes. Coloquei dois ou três ramos de Bocas de Jarro nas jarrinhas da lápide dela e prometi a mim mesmo lá voltar uma ou duas horas depois para verificar se tinham murchado ou não. Pronto não digam mais nada, já sei que Nossa Senhora não chora lágrimas de sangue, que as chagas do Crucificado não sangram a torto e a direito, mas uma coisa é certa o Namorado da Floripes não gosta de bocas de Jarra, prefere mesmo aqueles malmequeres campestres misturados com “Beijos de Mulata” que eu comecei a colocar na campa dela. Coisas simples sem ostentação ou vaidade e pelo menos não murcham tão rapidamente.

Reis Vissapa

Ilustrações de Costa Araújo Araújo

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:55
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Domingo, 15 de Junho de 2014
FRATERNIDADES . LX

 

LUBANGO  Na cordilheira da Chela

Por

 Eduardo Torres Eduardo Torres

A África da minha vida

Há borboletas voando
No jardim da ilusão
E nós de quando em quando
Não sabemos a razão Porque há-de a vida ter...
Num modo simples de ver
A ilusão que criamos
E nela queremos viver Sem nos estarmos importando
Com a verdadeira questão
De ver borboletas voando
No jardim da ilusão

:    Na Angola onde eu nasci, nas cubatas da sanzala,  há muita gente que fala numa conversa fiada, por vezes em discussão. Em todo o kimbo, ao chegar o ancião, todo o mundo se cala, um mito, o velho com seu cachimbo. Senta-se junto à fogueira, vai comer o seu pirão, conta histórias da vida, todas com muita aventura do tempo da escravatura… de como sofria seu povo e outras por diferentes de só fazer rir. Com um quissange a tocar, todos deixam de falar, todos se calam para ouvir. Depois toca a dormir e, também o ancião, lembrando histórias vividas, nunca serão esquecidas, dos tempos que já lá vão.

 Quantas vezes me pergunto, mas  que não sei responder, porque talvez o assunto seja difícil de entender, quantas estrelas tem o céu… ninguém as pode contar! Também é difícil dizer, quanta água tem o mar, quantos animais diferentes ocupam o espaço terra, e nós seres inteligentes porque andamos sempre em guerra. Qual a razão do deserto e, florestas em dimensão, depois de um dia claro aparecer a escuridão! É a força da natureza que o homem quer destruir mas DEUS, tenho a certeza, após criar tanta beleza, nunca tal vai permitir. O sol surgiu a brilhar  quer aquecer este dia mas o vento, forte, a soprar, resolveu atrapalhar fazendo uma manhã fria

 Ouvi historias de caçadores, caçadores profissionais,  contarem como os amadores queriam caçar animais, pagarem para o efeito, de sentirem o prazer, de verem… uma gazela correr. Por entre o mato perdida, por querer salvar a vida, daqueles que a queriam matar, porque tiveram de pagar, para o poderem fazer. Não é mais bonito ver animais, por entre os matagais? Pagar para vê-los viver, correrem, ou simplesmente parados… apenas e só curiosos, por verem tão ansiosos, querendo uma recordação, uma foto, uma ilusão. Num adeus, uma despedida,  com o feitiço no coração… a África desconhecida.

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Quarta-feira, 4 de Junho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXIV

 

 

ANGOLA  O TABAIBO ALBINO DO LUBANGO – Me chamam assim…

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)           

Quem o alcunhou desta maneira tinha um carradal de razões, eu pessoalmente nunca cheguei a saber o seu verdadeiro nome nem sequer se alguma vez o teve. Escorreito como uma maçaroca, a carapinha loira, as pestanas e sobrancelhas quase invisíveis na moldura facial avermelhada, umas calças sem cor onde faltava metade do tecido numa das pernas e uma espécie de camisola de linha que deixava dúvidas se era mais buraco que pano. Encontrámo-nos nuns terrenos que ladeavam a antiga estrada para a Mapunda ali para os lados onde morava a Laurinda, rapariga que embora não tivesse sido bafejada pela mão de Deus em matéria de beleza já tinha uma aceleração invejável para a época. Habitavam ali em harmonia umas tantas tabaibeiras namorando mirangoleiros de frutos negros que sobressaíam por entre as folhas do arbusto espinhoso. Por alguma razão que desconheço o Divino sempre colocou alguns entraves na obtenção dessas frutas exóticas. Eu bem queria chegar às frutas em forma de barril de cor amarela pôr-do-sol que se encontravam no alto do cacto mas sem sucesso.

Pedrada e uns paus secos de maior dimensão não lograram atirar nenhum dos tabaibos ao chão. Foi quando ele se aproximou de mim com um ar de cachorro vadio, empunhando uma vara de cerca de cinco metros com um prego ferrugento espetado no extremo mais delgado. – Não faz assim, eu ajudo-te a apanhar. Disse-me com um sorriso tímido quase evaporado no seu rosto onde sobressaíam aqui e ali pequenas escamas. Após estas palavras elevou a vara por cima da tabaibeira e espetou o prego no topo de um dos barrilinhos tentador torcendo-o e trazendo-o em seguida para o chão. Dirigi-me ao fruto com sofreguidão quando ele avisou. – Não pega que tem picos vou-te ensinar como é. Fez rebolar o fruto com a sola do pé no capim rasteiro e eu pensei para comigo que ele era capaz de apagar beata com toda a descontracção. Retirou um canivete do bolso que milagrosamente não estava roto, fez dois lenhos nos extremos do fruto e um corte na transversal e ofereceu-me a polpa tentadora recheada de pequenas sementes na palma da mão. – Tive um momento de hesitação perante o estado da sua mão semelhante ao da face. – Eu lavei as mãos na mulola, podes comer à vontade. Disse-me percebendo os meus receios.

 Comi aquele e muitos mais e arranjei um entupimento que só voltou ao normal com Broklax um laxante que em tempos e por ter sabor e parecenças com o chocolate me fez correr para a sanita durante dois dias seguidos. Além disso arranjei um amigo. – Como te chamas? Perguntei-lhe já com o bandulho atestado. – Me chamam de Tabaibo. Disse-me tranquilamente. - Tabaibo? Não te deram outro nome? Perguntei com alguma ironia. – Não sei se deram, todos me chamam de Tabaibo. – Então o teu pai e a tua mãe? – Insisti. – Minha mãe morreu há muito tempo parece que foi quando eu nasci e o meu pai, eu não conhece mesmo. Não houve qualquer mágoa ou ressentimento na resposta. – Então onde é a tua sanzala? – Era lá na serra ao pé da capela de Santo António mas já não é mais. – Informou-me encolhendo os ombros. – Já não é mais porquê? Voltei à carga curioso. – Me expulsaram quando eu era mais pequeno. Disseram que eu dou mesmo má sorte porque nasci assim albino e ninguém queria chegar perto de mim e assim eu vim embora. – Disse-me com o ar mais natural do mundo. – Então onde moras agora? – Moro mesmo por aí. Disse-me estendendo a mão para o mato circundante. – E então comes o quê? – Eu como tabaibo, mirangolo, goiaba, nocha e às vezes caço uma rola ou uma tchirikuata com a minha fisga ou apanho uma sardinha ali na mulola. - Mas olha lá tu não me disseste o teu nome. – Interpelou-me. - Tens razão, olha o meu nome é António Rocha mas os meus amigos só me chamam de “Nocha”, acho que é porque eu tenho esta cara redonda e a pele assim meio escura.

 Sorriu achando piada à minha alcunha e rematou. – É isso cada um tem a pele que Deus lhe deu mas parece que a minha dá má sorte. – Não dá nada Tabaibo. Então se tu não tivesses aparecido eu não tinha comido o monte de tabaibos que embuti. – Confortei-o. – Bem eu não sei se amanhã tu vais pensar o mesmo? Advertiu-me perante a minha gula. Claro que sentado na sanita pela décima oitava vez recordei o meu novo amigo mas não me passou pela cabeça deitar-lhe as culpas pela minha oclusão intestinal. Fomos amigos durante alguns anos e ainda lhe perguntei se ele não queria ir trabalhar para a minha casa. - Podias ir buscar o “Terno” à pensão da D. Júlia e ajudar nos recados. Mas olha: - Disse-lhe eu depois da oferta de emprego. - Não podes ficar a jogar à bola de meia lá com os outros kandengues e a marmita ficar esquecida no capim. Adverti na brincadeira. – Obrigado Nocha mas nem os meninos pretos nem os brancos jogam à bola comigo, sabes…, dou azar. Hoje lembro-me do Tabaibo, da sua simpatia num rosto de má inspiração, da segregação e penso para comigo, afinal cada um nasce com a pele que Deus lhe deu, cabe a todos nós ler-lhes a alma.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:41
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2014
FRATERNIDADES . LIX

 

LUBANGO  Na cordilheira da Chela

Por

 Eduardo Torres Eduardo Torres

A África da minha vida

 Hoje, pensando na vida que vivi em Angola, no Lubango, terra do planalto da cordilheira da Chela, julguei ser meu dever deixar, por muito aligeirada que seja, meu legado, uma verdadeira história como tantas outras, que embora sendo pessoal, envolve inúmeras pessoas, amigos íntimos, conhecidos, e outras não tanto, mas que fazem parte de acontecimentos contados e vividos em épocas diferentes; numa parte de África inóspita mas tão bela nos seus profundos contrastes, de enfeitiçar e fazer nascer o amor de se morrer nela. Não faço ideia de como meu pai encontrou Angola, quando, como militar desembarcou em Mossâmedes no ano longínquo de 1917; foi encaminhado para o colonato do Lubango, não sei como e em que tipo de transporte. Deve ter ficado surpreendido com aquela dimensão, a comparar com a pequenez do Puto que havia deixado definidamente para trás.

 Na terra dos imbondeiros, árvore grotesca e retorcida, lugar de biliosas, doença terrivelmente mortal e que, só uns quantos enfermeiros de longa experiência, sabiam como a combater e, quando diagnosticada a tempo; esse tempo era tão pouco, que expirado sem início de tratamento, tornar-se-ia em um caso mortal, salvo raras excepções. Do mesmo modo admiro a capacidade de sofrimento dos colonos madeirenses, em que incluo a minha bisavó saída grávida da Madeira, sendo uma das muitas mulheres que contribuíram para o aumento populacional com o nascimento da minha avô, segunda moça nascida da primeira colónia de madeirenses instalada no planalto. Naturalmente, tudo o que narrar, incidirá mais sobre o sul, já que Angola é tão grande, que hoje me dá desconforto conhecer tão pouco dela.

 O que sei de Angola desde Cabinda ao Cunene com todo o planalto central, convêm recordar o quanto naquele aridez, os "fumantes" se aventuravam penetrando a fazer seus negócios de panos libongos, uma forma indirecta de estabelecer soberania até a terras do fim do mundo. Nem trinta anos de guerra foram suficientes para uma penetração em lugares tão recônditos, que penso manterem ainda a virgindade do seu segredo, suas superstições. Felizmente, em minha longa vida, tive o privilégio de conhecer o Lubango e outras partes de Angola em diversas fases que, ao olhar para trás, me custa acreditar que estejam tão longe assim. No entanto, todas elas são um marco; ficaram gravadas nesse mesmo tempo, cúmplice e promotor de tudo o que arquivei em minha memória. Se DEUS permitir e me der discernimento, vou continuar deixando o testemunho da minha vida em África, sobretudo, em Angola.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:13
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Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014
FRATERNIDADES . LIII
LUBANGOVersos prensados…
Por

Na Angola onde eu nasci, nas cubatas da sanzala,  há muita gente que fala, numa conversa fiada, por vezes em discussão. Em todo o kimbo, ao chegar o ancião, todo o mundo se cala, um mito, o velho com seu cachimbo. Senta-se junto à fogueira, vai comer o seu pirão, conta histórias da vida, todas com muita aventura de quando ainda era novo,  do tempo da escravatura… de como sofria seu povo e outras por diferentes para só fazer rir. Com um quissange a tocar, todos deixam de falar, todos se calam para ouvir. Depois toca a dormir e, também o ancião, lembrando histórias vividas, nunca serão esquecidas, dos tempos que já lá vão.


Quantas vezes me pergunto, mas  que não sei responder, porque talvez o assunto seja difícil de entender, quantas estrelas tem o céu… ninguém as pode contar! Também é difícil dizer, quanta água tem o mar, quantos animais diferentes ocupam o espaço terra, e nós seres inteligentes porque andamos sempre em guerra. Qual a razão do deserto e, florestas em dimensão, depois de um dia claro aparecer a escuridão! É a força da natureza que o homem quer destruir mas DEUS, tenho a certeza, após criar tanta beleza, nunca tal vai permitir. O sol apareceu a brilhar  quer aquecer este dia mas o vento, forte, a soprar, resolveu atrapalhar fazendo uma manhã fria.


Ouvi historias de caçadores, caçadores profissionais,  contarem como os amadores queriam caçar animais, pagarem para o efeito, de sentirem o prazer, de verem… uma gazela correr. Por entre o mato perdida, por querer salvar a vida, daqueles que a queriam matar, porque tiveram de pagar, para o poderem fazer, não é mais bonito ver animais, por entre os matagais? Pagar para vê-los vivos, correrem, ou simplesmente parados… apenas e só curiosos, por verem tão ansiosos, querendo uma recordação, uma foto, uma ilusão. Num adeus, uma despedida,  com o feitiço no coração… da África desconhecida.

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:00
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Sexta-feira, 23 de Agosto de 2013
MOKANDA DA LUUA . XV

ANGOLA - "Oviquipungos"– 2ª de 2 Partes

Por

  Dy – Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)

Este mussendo é para o Álvaro Barros, Banazol, o Chucha e todos os "Oviquipungos" e demais maralha que passou provações nas picadas de África, ou melhor nas picadas de Deus. E este será para rir um pouco.

 O Mucibe segundo o meu tio era um grande filho da P... que nunca devia ter nascido ali. A Ford pontapé, carro bom estava ali nem um arranhão, apenas o emblema azul por cima do radiador se deslocou e ficou na posição vertical, e um pneu furado segundo o primeiro diagnóstico do primo Mário o mecânico autorizado pela fábrica. Quando resolveram finalmente questionar o motivo do acidente é que foram elas. – Vinhas grosso ou quê? – Perguntou o Cenoura ao condutor, esfregando o galo na cabeça. Qual grosso qual carapuça, grossa anda a tua avó – Foi um Jimbo – Retorquiu justificando-se. – Um Jimbo? – Sim um c…. dum Jimbo. A constatação de que a barra de direcção se soltara só veio a seguir, entre palavrões proferidos em todos os dialectos conhecidos, inclusive o português. – Capunda tira o macaco e trás para aqui. – Vociferou o Tio Mário. O Capunda estava cinzento quando teve de informar que o macaco ficara no Lubango com o senhor Viegas que o pedira emprestado na quinta-feira.

 Eu encolhi-me entre as malas de peixe não fosse sobrar para mim o que durou pouco tempo pois ficou decidido que as ditas malas serviriam de macaco para salvar o ajudante daquela situação embaraçosa. Uma hora e meia depois, um perne da carroçaria e dois remendos tinham resolvido provisoriamente o acidente e o Arreguga roncava de novo na picada em direcção ao paraíso. Parámos em Quipungo pelas oito da matina e fiquei a saber a razão dos rateres do Tio Cenoura que mamou dois bifes com ovo a cavalo, um quilo de batatas fritas e seis cervejas e não fora a urgência ainda era capaz segundo ele de comer uma posta de bacalhau cozido; deixamos a pensão do Ferreira rumo ao Cuvelai já o sol acalorava a terra e libertava suor em cascata dos cabelos ruivos do tio Cenoura, que adormecera em segundos, completamente imune ao estado deplorável da picada. Já perto do Cuvelai o impensável aconteceu. A tampa do radiador do Calhambeque subiu em flecha pelos ares deixando atrás de si um Géiser de água a ferver. O Capunda pôs-se ao fresco e eu fui a seguir evitando ser queimado pela chuvarada fervilhante. O meu tio só acordou depois de alguns abanões e profetizou o óbvio. – É falta de óleo, alguém verificou óleo desta caranguejola. O Capunda aproveitou para aliviar a tripa encoberto por um mutiáte que se encontrava a uma distância prudente é que nestes acidentes de percurso a corda parte sempre pelo mais fraco.

 

 Eu timidamente dei conta aos mais velhos do carreirinho de óleo que tinha seguido o Arreguga até à carroçaria. Foi nesse momento que fiquei a saber a razão porque o tio Mário tinha sido nomeado para mecânico da viatura pela Ford. Só quem nunca palmilhou Picadas na nossa mamãe África, é que não leva um bom naco de sabão macaco para esta emergência vulgar de cárter vertendo óleo. Verter águas num momento em que todas as poças barrentas estão a quilómetros, só para o radiador. E o óleo? O óleo; Quem é que esquece o óleo quando vai para o paraíso e tem de estrelar ovos, fritar bifes de Olongo e batatas fritas. Á noite chegámos ao paraíso mas foi preciso muito sofrimento que Deus não dá nada de borla. Quem quiser morrer na paz do senhor apanhe o calhambeque do meu tio para o Qué.

As opções do

  Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:16
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Quarta-feira, 21 de Agosto de 2013
MOKANDA DA LUUA . XV

ANGOLA - "Oviquipungos"– 1ª de 2 Partes

Por

 Dy – Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)

Este mussendo é para o Álvaro Barros, Banazol, o Chucha e todos os "Oviquipungos" e demais maralha que passou provações nas picadas de África, ou melhor nas picadas de Deus. E este será para rir um pouco.

UMA VIAGEM AO PARAÍSO

Era um pedaço de gente a primeira vez que fui ao Qué. Ouvia os crescidos pronunciarem aquele nome mas não imaginava o que seria e nem me atrevia a perguntar, pois nesses tempos de educação, a intromissão em diálogo de adulto era punida com severidade. Limitei-me a esperar pelo dia em que iria finalmente conhecer o Qué. Foi simplesmente espectacular. Depois de uma viagem atribulada entre o Lubango e o Qué no Arreguga do meu tio chegámos finalmente à fazenda do meu avô. Eu já estive em muitas fazendas por esse mundo fora, mas aquela que o velho edificou à beira do rio com o mesmo nome, era qualquer coisa. Quem quisesse morrer na paz de Deus apanhava o Arreguga do meu tio e deitava-se ali naquele cantinho à espera que Deus o levasse.

  Imaginem um rio feito cobra deslizando numa chana imensa, salpicada aqui e ali de campos de trigo e milho onde as capotas e as perdizes se perdiam em cantares ao desafio, e os perus do mato, aquela variedade de tucano africano, conversavam entre si soltando rufos de jambé abafado. Mas para chegar a este éden era preciso sofrer, não se chegava ao paraíso assim como quem dá cá aquela palha e Deus não dá nada de borla é preciso muita provação para ultrapassar os seus desígnios secretos. Acho que nem mesmo o catálogo de percalços mais elaborado tem escarrapachado tudo o que nos sucedeu. Por condição inferior fui chutado para a carroçaria do calhambeque, eu e o Capunda, dez malas de peixe, dois sacos de cinquenta quilos de fuba, um semi-eixo para o tractor da fazenda e o meu tio Cenoura que levou parte da viagem a roncar e a largar rateres em franca alternância com o Arreguga.

 Correu tudo bem até ao Cangolo, salvo os odores do Tio Cenoura e o Capunda que ia mal equilibrado e se apeou em andamento sem pedir licença, aterrando numa poça de água barrenta da picada. Nada de mais comparado com o momento em que o meu outro tio o dono da Ford Pontapé torceu o volante para a direita para se desviar de um Jimbo e o Arreguga teimoso foi direitinho para esquerda saltando fora da picada, embatendo num Mucibe mudo rodeado de Muitiátes. O Cenoura bateu com o moleirinha na cabine e ficou com um galo no cocuruto que foi motivo de chacota durante o fim-de-semana.

 As opções do

 Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:47
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
MACONGE . I

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“REINO DE MACONGE – Sobado de Portimão



SOBA VALÉRIO E SOBETA FÁTINHA


FÁTINHA (A SOBETA) . D.OLAVO I (II VICE-REII) . DUQUE DE LUANDA

Em terras Ultramarinas, no tal sítio de Porto-à-mão, reuniu-se a Real República de Maconge na sua 5ª Ceia Nacional em 30 de Outubro de 2010. Eram uns quase trezentos participantes, gente vinda de todo o Portugal, de Angola e Cabo Verde (Bola de Neve).

O 2º Vice-Rei D.Olavo I, Grão-Duque de Mococolo leu a mukanda com “lata, lábia e linha, relembrando as figuras tutelares do Rei D. Caio Júlio César da Silveira IV e do Vice-Rei D. Mário Saraiva de Oliveira I e recordando também todos os professores que leccionaram entre os anos de 1929 a 1975, alguns presentes e outros “ausentes em parte incerta”.

Valério Guerra, o Soba de Portimão do Puto e Barão de Capangombe, recordou em verso os tempos gemidos, o luar de guitarras e de janelas perfumadas de Maconge, suas pedras garridas e serpentinas de raparigas – marés do destino não adormecidas.


TESTE DO SUMO D´UVA

Os presidentes da Academia da Huila foram contemplados com o verso do BAMBU. Bambu trazido pequeno das terras de Lubango, mais própriamente do então Liceu Diogo Cão e que agora já crescido assim foi referenciado:


Bambus e mais bambus

que haja mundo fora,

soleníssimo será nenhum

como onde a Academia mora,


e Academia não haver,

majestática e bela

como a da imponente Chela,


nem de presidente constará

virtude fama em anais…

nunca…jamais!



A POSSE DE NOVOS MACONGINOS

A perfilar, na mesa de honra e, por detrás do Bambu (alguns só em retrato) estavam D. Joaquim Seabra Pires, Duque de Luanda; D. Alberto Traguedo, Ministro da Administração dos Sobados; D. Norberto Costa, Visconde; D. António Luís Fernandes, Visconde; D. Fernando Cobango, Visconde kubankus Mapundensis; D. Henrique Vieira (Higino I), Conde do T´Chioco e Soba de Faro do Puto; D. Paulo Martins, Visconde das Virungas, Conselheiro de Estado; D. Carlos Fernandes, Visconde, Soba do Funchal; D. Sérgio Óscar Silva, Visconde do Xiloango; D. João Costa e Silva, Visconde da Minhoca, Director do Protocolo do Reino; D. Carlos Guimarães, Visconde da Lunda; D. José  Pereira (Zé Kindufo), Visconde da Mulola;  D.Haysse, Visconde; D. Rui Ferreira, Visconde; D. Manuel Fernandes, Visconde da Ribeirinha; D. Mário Abreu Dias, Visconde.


PRESIDENTES DA ACADEMIA DA HUILA

A NOBREZA


“Há quem nunca esqueça o chão, os cheiros do coração”.

Do reino de Manikongo e, para que conste na Torre do Zombo,

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:41
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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
KALUKEMBE . V

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“Os Chicoronhos”

VISCONDE DE SÁ DA BANDEIRA

 

Os primeiros trabalhos do colonato Sá da Bandeira foi o de criar condições à povoação dos barracões fazendo valas de drenagem para as águas de saneamento enquanto que nos campos abriam levadas para irrigar as hortas e pomares, bem à maneira da Ilha da Madeira. A primeira divisão de terras foi feita em quarteirões de um hectare de superfície comportando em cada um, dez casais.

Em Setembro de 1885 é fundada a colónia da Chibia no Sudoeste de Angola constituida por 12 famílias oriundas da Madeira via Lubango, alguns Lusos Brasileiros idos de Moçandes, oriundos de Pernambuco e tambem alguns Boéres idos da colónia de S. Januário da Humpata.

Havia aqui e além, naquela imensidão de terras por desbravar, percalços de soberania; relembrar que um tenente Tuga de nome Clemente de Andrade, querendo castigar o soba Chawamgo do Huambo, organizou uma força com mais de 50 praças para persegui-lo e, não o encontrando no kimbo junto ao rio Cacuvular, mandou queimar todas as embalas (cubatas). No regresso, esta força expedicionária viria a ser totalmente aniquilada; um desaire para a soberania do Ohanda Oputo que originou a ida de mais militares expedicionários.

O restabelecimento do domínio português só se veio a verificar com a submissão do soba Tonde de Caconda que prestou ao “Ohamba Oputo” (rei de Portugal).

TÚMULO DO SOBA MANDUME

Lubango, a 26 de Dezembro de 1889 é elevada a cidade e sede de Concelho.

Naqueles tempos de audácia, os funantes negociavam um pouco de tudo, mel, peles, panos, sal, peixe-seco e carne seca. A não submissão do povo Ovambo comandado por Mandume, deu origem a várias batalhas e, em 1907 , Cuamatos, Cuanhamas, Cuambis, Ganguelas, Kamessaqueles, Barantus, Bingas e  Evales, juntando mais de 25.000 homens quase vencem Alves Roçadas; por falta desse quase, (coisa de historiadores) acabaram por ser derrotados em Môngua.

Mandume, herdeiro de facto do Império Ovambo, bastante novo, caíu na lareira do terreiro do ongilo tendo ficado desfigurado; ninguém pôde evitar a sua irrequietude e, logo que subiu ao trono, transforma o regime tradicional da tribo numa ditadura pessoal sem precedentes; sobas, Vassalos, Concelho de Anciães, Lengas e T´chinganges desempenham à sua volta funções com um temor absoluto; as suas cabeças rolavam ao menor deslize e, bastava o facto de qualquer homem da tribo o olhar de frente, para ser motivo de morte por decapitação. O primeiro acto da sua tirania foi condenar à morte a sua ama por descuido na guarda da sua pessoa, que provocou ficar desfigurado.

EXPEDICIONÁRIOS DO PUTO

Durante o seu governo mandou construir t´chimpacas por todo o território a fim do gado não passar sede na transumãncia; evitou assim a morte de muitos animais por secas prolongadas. Ai daquele súbdito, que não limpasse a  t´chimpaca do assoreamento da época de chuvas; seria punido com a morte.

Consta que após a sua morte em Namacunde, os Boéres a fim de desmistificarem a crença de invencibilidade de Mandume, cortaram-lhe a cabeça e exibiram-na até terras do Etosha no Namotoni na Namíbia; os supostos poderes sobrenaturais ficariam sem efeito. Enganaram-se,... pois que, ainda nos dias de hoje, fazem romagem ao tal local aonde o seu corpo foi enterrado, Namacunde; este lugar continua cuidado ao redor da newa que o viu morrer e, a sua memória, continua a exercer forte influência entre os Cuanhamas .

Por temor, reverência ou crêndice de cazumbí, aquele sítio é peregrinado desde 1915. Ambós, Ximbas e Cafimas também lhe prestam veneração.

Eu, sou herdeiro dessa leva de gente, branco mazombo duma Chibia, Qui'hita, T´chiapepe, Chicusse, Ca´hama, Humbe; todos juntos fazemos “a lenda do Cuamato” Por isso, vamos visitar o tal soba Mandume na base da tal newa porque, faz parte da história.


Bibliografia: A colonização de Angola, de F. Cerviño Padrão; Chicoronho de Jorge Kalukembe; A questão Cuanhama, 1906, de Major Eduardo Costa; Web Google.

Glossário. palavras sublinhadas: Newa - árvore de grande porte que se confunde com o embondeiro; Caputo - gente do Puto; t´chimpaca – cacimba em terra argilosa, ongilo - fogueira no meio do terreiro do kimbo; N´digiva – antiga Pereira Déça; cazumbí – feitiço, crença mistica do sobre natural; t´chingange - feiticeiro, jurista auxiliar de sobo; lenga – chefe  guerreiro Cuanhama; Ohanda Oputo: - rei dos “Otyicolonyas” (Chicoronhos); mazombo: - filho de colonos, branco de 2ª linha (ofício).

(… Continua)

O Soba T`Chingange




PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:21
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