“O ESPÍRITO DA COISA” – Talento
AS ESCOLHAS DO SOBA
A teoria de que cada qual pode ser o que bem quiser bastando para isso adquirir o conhecimento e a disciplina necessária para aplicá-lo, é falsa. O talento de qualquer pessoa não pode ser edificado com técnica e conhecimento. Se você não actua na área do seu talento, não terá segurança e, sem segurança, não terá a confiança necessária para assumir riscos e fazer os necessários investimentos para ter seu sucesso e felicidade. Para atingir a excelência, é necessário desenvolver uma intensa especialização na área do talento natural. Mas, talento é uma aptidão natural que cada qual possui para fazer alguma coisa com uma naturalidade superior à maior parte das outras pessoas. Descobrir isso, é como um brinquedo que se revela dentro de nós; e, todos nós temos um, e quando cada qual descobrir o seu, vai reconhecê-lo.
Talento é aquele brinquedo interior de aptidão que cada um tem mas que na maior parte dos casos não é usado em seu labor e é por isso que temos inadequadamente médicos exercendo essa missão quando seriam uns óptimos mecânicos e pasteleiros que seriam óptimos pedreiros e por aqui e ali, encontraremos actividades desajustadas dando lugar ao poder do dinheiro, do status, da ganância e tantas inapetências. Será por isso que deparamos tão amiudadamente com gente descontente e frustrada ocupando lugares indevidos à sua aptidão. Toda a actividade a ser exercida por alguém deveria ser sujeita a um exame psicotécnico antes de se submeter a um qualquer concurso. Todos teríamos a ganhar com isso.
Nossos talentos são inatos, vitalícios e insubstituíveis, fruto de um mistério a que se chama sinapse que ocorre ao longo da infância; trata-se da conexão entre células cerebrais chamadas neurónios que por sua vez estimulados, criam e fortalecem espirais padrões que se formam em torno desses neurónios. As espirais estimuladas desenvolvem-se enquanto que as que são ignoradas definham ou são completamente eliminadas. Como um escultor que trabalha a pedra dando forma à sua escultura, os processos de estímulo captados pelo cérebro moldam nossas aptidões. Por isso, uma criança que nasce rodeada de psicólogos encarregados de provocar estímulos com o objectivo de o tornar um génio, não tem nenhuma vantagem sobre a outra, que passa seus dias com uma ama que não possui especialização alguma.
Kanimambo: Obrigado (Moçambique)
(Continua…)
O Soba T´Chingange
“Quiabo" – Seus benefícios para a saúde
Escolhas de
Kimbo Lagoa
Muito rico em vitaminas e sais minerais, é óptimo laxante e facilita o trabalho dos intestinos, rins e bexiga e previne doenças. O quiabo é rico em vitamina A, e portanto, de extrema importância para a visão, pele e mucosas em geral, o quiabo (Hibiscus esculentus) é a hortaliça da família das Malváceas. Os seus frutos têm forma de cápsulas são verdes e peludos e apresentam um tipo de goma viscosa. É geralmente usado frito, em sopas, saladas ou refogados e os seus frutos devem ser escolhidos quando tenros e firmes.
Estudos indicam que em 100 gramas de quiabos estão agrupados 850 unidades de vitamina A, 130 micrograma (mcg) de vitamina B1 (Tiamina), 75 microgramas de vitamina B2 (Riboflabvina), 0,70 miligramas (mg) de vitamina B5 (Niacina) e 25,80 miligramas de ácido ascórbico. Além disso contém 40 por cento de calorias, 89,60 por cento de água, 7,40 por cento de hidratos de carbono, 1,80 por cento de proteínas, 0,20 por cento de gorduras e 1,00 por cento de sais. Se a vitamina A exerce as funções já mencionadas, além de proteger o fígado, a vitamina B1 é decisiva para o bom funcionamento do sistema nervoso e a vitamina B2 é importante para o crescimento principalmente na adolescência. Fruto de digestão fácil, é recomendado para pessoas que sofrem de problemas digestivos. Por isso mesmo é eficaz contra as infecções do intestino, bexiga e rins.
De origem controversa, no Brasil compõe pratos típicos regionais, como o caruru - quiabo cozido com camarão seco; na culinária mineira há o frango com quiabo e o refogado de carne com quiabo. Pode ser apreciado cozido, com tempero no óleo deixando bastante seco. É um fruto simples, seco, indeiscente, de cápsula loculicida. Os quiabos são verdes e peludos e apresentam uma goma viscosa. Rico em vitamina A, é importante para a visão, pele e mucosas em geral. Óptimo para combater os diabetes; cortar quiabos em rodelas deixando-os de noite em um copo de água; beber no dia seguinte para, naturalmente, reduzir seu açúcar no sangue.
Kanimambo: Obrigado (Moçambique)
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO KIMBO
Um Presidente que não conta - Puto . 1ª de 2 partes
Por
PEDRO MARQUES LOPES - Ex-merceeiro, ex-cauteleiro, ex-gasolineiro, ex-bancário, ex-funcionário de telecomunicações, consultor, empresário, gestor, jurista, colunista, comentador, pai e tripeiro em regime de exclusividade
“É um tempo para pararmos um pouco, olharmos à nossa volta e reflectirmos sobre aquilo que fizemos, aquilo que deixámos de fazer, aquilo que não devíamos ter feito, aquilo que podíamos ter feito melhor", afirmou Cavaco Silva durante a sessão de apresentação de cumprimentos natalícios por parte do Governo. Não é de crer que o homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas tenha, por uma vez, resolvido anunciar uma introspecção. De alguém que continua a tentar fazer-nos de parvos e diz que as suas palavras sobre as suas pensões foram mal interpretadas quando todos as ouvimos claramente, não podemos esperar grandes actos de contrição.
Por estas e outras não faltou gente a interpretar aquela frase como um recado ao Governo e não como uma espécie de “mea culpa”. No fundo, uma troca de recados: o primeiro-ministro mandou um recado a Cavaco Silva quando falou - de forma ignorante e imprudente pondo em causa a solidariedade entre gerações, essencial ao equilíbrio da comunidade - sobre "pessoas" que não descontaram o suficiente para ter as reformas de que hoje desfrutam e o Presidente da República tratou de mandar outro recado incentivando Passos Coelho a reflectir. Digamos que estamos bem entregues quando, num momento como o que passamos, Presidente e primeiro-ministro se divertem a mandar recados um ao outro.
É provável que a santíssima trindade composta por Passos, Gaspar e Relvas, essa entidade una e indivisível, não tenha consciência do mal que está a fazer ao País e da catástrofe que está a semear. O Presidente da República também ainda não percebeu que está a ser conivente por acções ou omissões da dita trindade, e que os cidadãos entendem que ele é parte integrante da equipa que está a destruir a classe média, a condenar gente, sobretudo de meia-idade (que não mais vai conseguir arranjar emprego) à miséria e a fazer regredir social e economicamente o País muitas dezenas de anos.
Ilustrações do mural de Costa Araújo Araújo
Adenda do Soba: Professores universitários que estão no desemprego, estão a frequentar cursos de padeiro e pasteleiro ministrados pelo Administração de Emprego e Formação Profissional; quanta frustração não haverá nesta gente capacitada para ensinar, e que se vêm relegados para uma função que embora digna, está àquem das suas aptidões; quanto desperdício! Afinal para que nos serve essa CPLP, sabendo nós das carências que existem nesses outros países pertencentes aos PALOPS, (Povos de Língua Oficial portuguesa). Se eu mandasse, assim fosse um niquinho de nada, trataria de colocar esta gente capacitada no Brasil, Angola, Moçambique, Timor e todos os demais na lista de fala Lusa. O que é que está a falhar nesta fusão de povos? A diplomacia não contempla a palavra fraternidade? Qual é a fasquia dessa tão apregoada cooperação?
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
OS QUILOMBOS DO BRASIL - 10ª parte
Kimbo
Os homens exibem-se com azagaias e lanças manifestando ódio e raiva e, enquanto o grupo fica formado, o feiticeiro xingange sai do grupo, pulando, olhos esgazeados queimando como chama, parecendo ter perdido a cabeça, como um louco lançando-se ao chão esperneando; desta forma açula a turba incitando-o à refrega, corpo cheio de T´chissângwa de massala, kimbombo de milho, capo-roto ou simples cachaça de cana, tudo zurrapa misturado com alucinogénias verduras e cascas da mata. E, surgem as mulheres formando grupo à parte, agora de seios á mostra com gestos e esgares de efeitos excitantes, eloquente nos gestos e esgares de guerreiros zulu, estimulo para a guerra gingando vitórias antecipadas, bamboleando sensualismo num segue e dá-me dá-me, batendo palmas e cantando coisas de raiva com dor.
Os homens dão continuidade à zumbada com suas azagaias brilhando ao sol, entre colorido arco-íris de penas que oscilam do alto dos seus turbantes; com atitudes selvagens, com as peles com que se cobrem, parecem feras irritadas, de orelhas furadas com machanganas e facas em riste, escudos á frente como em batalha a sério, estancando à voz do branco, vestido de farda branca e botões doirados, o administrador. Sempre cantando, recolhem-se ao redor dum embondeiro confraternizando a batalha ganha em homenagem a Gungunhana. Estavam ali uns bons milhares de negros que feitos guerreiros zulus, até podiam massacrar os poucos brancos fazendeiros, administradores e autoridades do Puto. Mas agora, por agora, as lanças ficaram fincadas no solo barrento.
No regime de poligamia em que vivem, os pretos têm várias mulheres; a primeira mulher é a mulher grande mas têm tantas quanto possam adquirir desde que, as suas rendas permitam pagar o imposto da palhota. Eles ganham dinheiro quase exclusivamente para ter mulheres e isso é que os leva a fazer suas economias. A sua importância na povoação mede-se pelo número de mulheres – manacaes, que possuam. Por outro lado, as mulheres constituem para eles uma dupla riqueza: além de terem filhos que rendem aos pais, elas é que trabalham a terra, de acordo com a organização social do seu povo. Os pretos adoram possuir grandes famílias, pois dessa forma aumentam o seu prestígio. Tantas mulheres como homens julgam-se profundamente infelizes quando não procriam; os homens preferem sobretudo filhas não somente em virtude destas lhe trazerem o lobolo alambamento mas, ainda porque representam o amparo da sua velhice, pois que quando já cansados, elas têm o dever de acolhê-los.
(Continua…)
Referência Bibliográfica: A África Revelada , ensaio de Arnon de Melo.
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
OS QUILOMBOS DO BRASIL . 9ª parte
Kimbo
Em 1941, Arnon de Mello tendo ido a São Tomé, Cabo Verde, Angola e Moçambique e pelo que observou, regressando ao Brasil afirma: Foi África que nos deu tudo, deu-nos o seu próprio sangue sangrando-se a si mesma, despovoando-se a valores irrisórios, transplantando sua população. A eles devemos a nossa formação étnica e cultural; enquanto os portugueses receberam dos mouros, normandos, visigodos e romanos sua formação cultural nós através destes, fomos influenciados pelos firmes traços do povo banto que nos legou alem da música, a forma de nutrição, folclore e sua cor. Em São Tomé, mulheres com lenços amarrados na cabeça como baianas desfilam seus longos e largos vestidos coloridos, com os seus balangandans, com seus tabuleiros com doces à cabeça, batendo os pés com os bons sapatos que Deus lhes deu, exibindo a sua dança do Kongo ao som do batuque.
E, surgiu do mato o chefe do grupo, vestido rigorosamente de preto, com cabeça de boi com três chifres escondendo as naturais fisionomias, revelando um já velho totemismo a nós legado pelos ameríndios. Dançando pulando e marcando com pé, batendo com a uma vara o chão, marca a gritos o compasso do oi-oi-oi. O negro aficano, levado como bicho para as Américas, como coisa, uma raça inferior, teve seu grande triunfo no Brasil; tendo ido como escravo, terminou marcando-nos com seus firmes traços influenciando, modificando-nos a linguagem, insuflando-nos a doçura bem típica desse carácter tropical. Seu regime alimentar equilibrado acabou por se impor, mesmo durante a época longa da escravidão.
Ultrapassando o cabo das tormentas chega à terra dos Marracuenes no Oceano Índico, terra das capulanas, xi-linguínes, as mulheres fazem dum pedaço de pano sua saia que enrolam da cintura para baixo prendendo-o com um hábil nó e, quando dançam usam ainda uma tanga de bambu e, nos tornozelos, pequenas cabaças com sementes para fazerem ruído. De seios cobertos com um pano que amarra às costas e de pés descalços, rodopiam nos momentos alegres a relembrar tempos de Gungunhana. E surgem os régulos de todas as tribos vestidos de brim kaki com enfeites verdes e chapéu cinza de abas largas, como determina o governo colonial. Os parcos brancos, parecem todos eles ser exploradores pois aparecem como Livingston, Serpa Pinto, Roberto Ivens com um chapéu com kaki a recobrir a cortiça leve e refrescante. Os batuques surgem ao jeito de boas vindas.
(Continua…)
Referência Bibliográfica: A África Revelada , ensaio de Arnon de Melo.
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO SOBA*
“GERAÇÃO À RASCA…” . Ai-iu-É . Ai-iu-É Puto . 2ª de 2 Partes
Por Mia Couto - biólogo e escritor moçambicano.
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimentam o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio algum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio. Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades - características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! Que chatice! São betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu em um programa de Prós e Contras) e, oh, injustiça! Já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos (kotas), estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!! Novos e velhos, todos, estamos à rasca. Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Uma visão bem ao estilo de Mia Couto.
Imagens de Malangatana; pintor moçambicano (Já falecido)
Kanimambo: Obrigado (Moçambique)
*O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO SOBA*
“GERAÇÃO À RASCA…” . Ai-iu-É . Ai-iu-É Puto . 1ª de 2 Partes
Por Mia Couto - biólogo e escritor moçambicano.
Por nossa culpa, "Um dia, isto tinha de acontecer! Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego,... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração. São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
Uma visão bem ao estilo de Mia Couto.
Kanimambo: Obrigado (Moçambique)
O Soba T´Chingange
Carta de Farinha Simões (De bigode) - Finalmente a extensa verdade. Os americanos são mesmo os piores amigos que um país pode ter e, Portugal, é um país de falsários.
Junta de Salvação Nacional
A Junta de Salvação Nacional era composta por sete elementos. Nesta fotografia podemos ver, da esquerda para a direita: os almirantes Rosa Coutinho e Pinheiro de Azevedo, e os generais Costa Gomes, António de Spínola, Jaime Silvério Marques e Galvão de Melo. O general Diogo Neto, também membro da Junta, encontrava-se, na altura, em Moçambique.
Nos referidos documentos vi também que as vendas de armas eram legais através de empresas portuguesas, mas também havia vendas de armas ilegais feitas por empresas de fachada, com a lavagem de dinheiro em bancos suíços e "off-shores" em nome dos detentores das contas, tanto pessoas civis como militares. As vendas ilegais de armas ocorriam por várias razões, nomeadamente: Em primeiro lugar muitos dos países de destino, tinham oficialmente sanções e embargos de armas. Em segundo lugar os EUA não queriam oficialmente apoiar ou vender armas a certos países, nomeadamente aos contra da Nicarágua, ou ao Irão e ao Iraque, a quem vendiam armas ao mesmo tempo, e sem conhecimento de ambos. Em terceiro lugar a venda de armas ilegal é mais rentável e foge aos impostos. Em quanto lugar a venda de armas ilegal permite o branqueamento de capitais, que depois podiam ser aproveitados para outros fins. Entre os nomes que vi referidos nestes documentos figuravam:
- José Avelino Avelar
- Coronel Vinhas
- General Diogo Neto
- Major Canto e Castro
- Empresário Zoio
- General Pezarat Correia
- General Franco Charais
- General Costa Gomes
- Major Lencastre Bernardo
- Coronel Robocho Vaz
- Francisco Pinto Balsemão
Junta Governativa de Angola
Da esquerda para a direita: Capião de Mar e Guerra Leonel Cardoso, Brigadeiro Altino de Magalhães, Almirante Rosa Coutinho, Cororel Pil. Av. Silva Cardoso e Major Emílio Silva . (foto a Vertingem da Descolonização, Gereral Gonçalves Ribeiro)
Francisco Balsemão e Lencastre Bernardo eram referidos como elementos de ligação ao grupo Bildeberg e a Henry Kissinger, Francisco Balsemão pertence também à loja maçónica "Pilgrim", que é anglo-saxónica, e dependente do grupo Bildeberg. Lencastre Bernardo tinha também assinalada a sua ligação a alguns serviços de inteligência, visto ele ser, nos anos 80, o coordenador na PJ e na Polícia Judiciária Militar. Entre as empresas Portuguesas que realizavam as vendas de armas atrás referidas, entre os anos 1974 e 1980, estavam referidas neste Dossier:
- Fundição de Oeiras (morteiros, obuses e granadas)
- Cometna (engenhos explosivos e bombas)
- OGMA (Oficinas Gerais Militares de Fardamento e OGFE (Oficinas de Fardamento do Exercito)
- Browning Viana S.A.
- A. Paukner Lda, que existe desde 1966
- Explosivos da trafaria
- SPEL (Explosivos)
- INDEP (armamento ligeiro e monições)
Montagrex Lda, que actuava desde 1977, com Canto e Castro e António José Avelar, só foi contudo oficialmente constituída em 1984, deixando, nessa altura, Canto e Castro de fora, para não o comprometer com a operação de Camarate. A Montagrex Lda operava no Campo Pequeno, e era liderada por António Avelar que era o braço direito de Canto e Castro e também sócio dessa empresa. O escritório dessa empresa no Campo Pequeno é um autentico “bunker", com portas blindadas, sensores, alarmes, códigos nas portas, etc. Canto e Castro e António Avelar são também sócios da empresa inglesa BAE - Systems, sediada no Reino Unido. Esta empresa vende sistemas de defesa, artilharia, mísseis, munições, armas submarinas, minas e sobretudo sistemas de defesa anti-mísseis para barcos. Todos estes negócios eram feitos, na sua maior parte, por ajuste directo, através de brokers - intermediários, que recebiam as suas comissões, pagas por oficiais do Exército, Marinha, Aeronáutica, etc. Nestes documentos era referido que, como consequência desta vendas de armas, gerava-se um fluxo considerável de dinheiro, a partir destas exportações, legais e ilegais. Estes documentos referiam também a quem eram vendidas estas armas, sobretudo a países em guerra, ou ligados ao terrorismo internacional. Era também referido que todas estas vendas de armas eram feitas com a conivência da autoridade da época, nomeadamente militares como o General Costa Gomes, o General Rosa Coutinho (venda de armas a Angola) e o próprio Major Otelo Saraiva de Carvalho (venda de armas a Moçambique). Vi várias vezes o nome de Rosa Coutinho nestes documentos, que nas vendas de armas para Angola utilizava como intermediário o general reformado angolano, José Pedro Castro, bastante ligado ao MPLA, que hoje dispõe de uma fortuna avaliada em mais de 500 milhões de USD, e que dividia o seu tempo entre Angola, Portugal e Paris. O seu filho, Bruno Castro é director adjunto do Banco BIC em Angola.
Rosa Coutinho . O falsário Almirante Vermelho
No referido dossier estavam também referidos outros militares envolvidos neste negócio de armas, nomeadamente o Capitão Dinis de Almeida, o Coronel Corvacho, o Vera Gomes e Carlos Fabião. Todas estas pessoas obtinham lucros fabulosos com estes negócios, muitas vezes mesmo antes do 25 de Abril de 1974 e até 1980. Era referido que estas pessoas, nomeadamente militares, que ajudavam nesta venda de armas, beneficiavam através de comissões que recebiam. Estavam referidos neste Dossier os nomes de "off-shores", que eram usadas para pagar comissões às pessoas atrás referidas e a outros estrangeiros, por Oliver North ou por outros enviados da CIA. Estas "off-shores" detinham contas bancárias, sempre numeradas. Esta referência batia certo com o que Oliver north sempre me contou, de que o negócio das armas se proporciona através de "off-shores" e bancos controlados para a lavagem de dinheiro. Vale a pena a este respeito referir que no negócio das armas, empresas do sector das obras públicas aparecem frequentemente associadas, como a Haliburton, a Carlyle, ou a Blackwater, (empresa de armas, construção e mercenários), entre outras. Esta relação está referida, há anos, em vários relatórios, nomeadamente nos relatórios do Bribe Payer Index (indice internacional dos pagadores de subornos), que é uma agencia americana. A indicação deste tipo de práticas foi desenvolvida mais tarde, pela Transparency International e pelo Comité Norte Americanos de Coordenação e Promoção do Comercio do Senado Americano, que referem que há muitos anos, mais de 50% do negócio e comercio de armas em Portugal, é feito através de subornos. Os americanos sempre usaram Portugal para o tráfico de armas, fazendo também funcionar a Base das Lajes, nos Açores, para este efeito, nomeadamente depois de 1973, aquando da guerra do Yom Kippur, entre Israel e os países árabes. Este tráfico de armas deu origem a várias contrapartidas financeiras, nomeadamente através da FLAD, que foi usada pela CIA para este efeito. A FLAD recebeu diversos fundos específicos para a requalificação de recursos humanos.
Gen. Costa Gomes
Não ví contudo neste Dossier observações referindo que estas vendas de armas eram condenáveis ou que tinham efeitos negativos. Havia contudo uma pequena nota, em que algumas folhas de que se devia tomar cuidade com tudo o que aí estava escrito, e que portanto se devia actuar. Havia também na primeira página um carimbo que dizia "confidentical and restricted". Estas vendas de armas continuaram contudo depois de 1980. Tanto quanto eu sei, estas vendas de armas continuaram a ser realizadas até 2004, embora com um abrandamento importante a partir de 1984, a partir do escandalo das fardas vendidas à Polónia. No referido Dossier estavam também referidas personalidades americanas envolvidas no negócio de armas, nomeadamente Bush (Pai), dick Cheney, Frank Carlucci, Donald Gregg, vários militares, bem como a empresas como a Blackwater. são ainda referidas empresas ligadas aos EUA, como a Carlyle, Haliburton, Black Eagle Enterprise, etc, que estavam a usar Portugal para os seus fins, tanto pela passagem de armas através de portos portugueses, como pelo fornecimento de armas a partir de empresas portuguesas. Tirei apontamentos desses documentos, que ainda hoje tenho em meu poder. A empresa atrás referida, denominada supermarket, foi criada em Portugal em 1978, e operava através da empresa mão, de nome Black-Eagle, dirigida por William Casey, membro do CFR (counceil for Foreign Affairs and Relations, ex embaixador dos EUA nas Honduras e também com ligações à CIA). A empresa supermarker organizava a compra de armas de fabrico soviético, através de Portugal, bem como a compra de armas e munições portuguesas, referidas anteriormente, com toda a cumplicidade de Oliver North. Estas armas iam para entrepostos nas Honduras, antes de serem enviadas para os seus destinos finais. Oliver North pagou muitas facturas destas compras em Portugal, através de uma empresa chamada Gretsh World, que servia de fachada à Supermarket. Mais tarde, cerca de 1985, quando se começou muito a falar de camarate, Oliver North cancelou a operação "Supermarket, e fechou todas as contas bancárias.
Sá Carneiro com Adelino Amaro da Costa
Devo ainda referir que William Hasselberg e outros americanos da embaixada dos EUA, em Lisboa, comentaram comigo, várias vezes o que estava escrito neste Dossier. Relativamente a Hasselberg isso era lógico, pois foi ele que me deu o Dossier a ler. Posteriormente comentei também o que estava escrito neste Dossier com Frank Carlucci, que obviamente já tinha conhecimento da informação nele contida. Tanto William Hasselberg, como membro da CIA, como outros elementos da CIA atrás referidos e outros, comentaram várias vezes comigo o envolvimento da CIA na operação de Camarate e neste negócio de armas. Lembro-me nomeadamente que quando alguém da CIA, me apresentava a outro elemento da Cia, dizia frequentemente "this is the portuguese guy, the one from Camarate, the case in Portugal with the plane!". As vendas de armas, a partir e através de portugal, foram realizadas ao longo desses anos, pois era do interesse politico dos EUA. A CIA organizou e implementou estas vendas de armas em Portugal, à semelhança do que sucedeu noutros países, pois era crucial para os EUA que certs armas chegassem aos países referidos, de forma não oficial, tendo para isso utilizados militares e empresários Portugueses, que acabaram também por beneficiar dessas vendas. Como anteriormente referi, William Casei e Oliver North estavam, nas décadas de 70 e 80 conluiados com o presidente Manuel Noriega, no escândalo Irão - contras (Irangate). Foi sempre Oliver North que se ocupou da questão dos refénsamericanos no Irão, bem como da situação da América Central. Recebeu pessoalmente por isso uma carta de agradecimentos de George Bush Pai, Vice Presidente à época de Ronald Reagan. Devo dizer a este respeito que John Bush, filho de Bush Pai, então com 35 anos, a viver na Flórida, pertencia em 1979 e 1980 ao “Condado de Dade", que era e é uma organização republicana, situada em South Florida, destinada a angariar fundos para as campanhas eleitorais republicanas. John Bush era um dos organizadores de apoios financeiros para os "contra" da Nicarágua.
Foto de Coronel Corvacho
Conheci também Monzer Al Kasser um grande traficante de armas que tinha uma casa em Puerto Banus em Marbella, e que me foi apresentado, em Paris, por Oliver North, em 1979. Era um dos grandes vendedores de armas para os “Contra” na Nicarágua, trabalhando simultaneamente para os serviços secretos sírios, búlgaros e polacos. Na sua casa em Marbella, referiu-me também que, por vezes, o tráfico de armas era feito através de África, para que no Iraque não se apercebessem da sua proveniência, pois também vendiam ao mesmo tempo ao Irão e mesmo a Portugal. Este tráfico de armas, que estava em curso, desde há vários anos, em 1980, e o começo do caso Camarate. Através de Al Kasser conheci, em Marbella, no final de 1981, outro famoso traficante de armas, numa festa em casa de Monzer, que se chamava Adrian Kashogi. Kashogi, como pude testemunhar em sua casa, tinha relações com políticos e empresários europeus, árabes e africanos, por regra ligados ao tráfico de armas e drogas. Sou preso em 1986, acusado de tráfico de drogas. Esta prisão foi uma armadilha montada pela DEA, por elementos que nessa organização não gostavam de mim, por eu ter levado à detenção de alguns deles, como referi anteriormente. Fui então levado para a prisão de Sintra. Estou na prisão com o Victor Pereira,, que aí também estava preso. Sei, em 1986, que estavam a preparar para me eliminar na prisão, pelo que peço à minha mulher Elza, para ir falar, logo que possível com Frank Carlucci. Em consequência disso recebo na prisão a visita de um agente da CIA, chamado Carlston, juntamente com outro americano. estes, depois de terem corrompido a direcção da prisão, incluindo o director, sub-director e chefe da guarda, bem como um elemento que se reformou muito recentemente, da Direcção Geral dos serviços Prisionais, chamada Maria José de Matos, conseguem a minha fuga da prisão. Contribui ainda para esta minha fuga, mediante o recebimento de uma verba elevada, paga pelos referidos agentes americanos esta directora-adjunta da Direcção Geral dos serviços Prisionais. Estes agentes americanos obtêm depois um helicóptero, que me transporta para a Lousã, onde fico cerca de 20 dias. Vou depois para Madrid, com a ajuda dos americanos, e depois daí ara o Brasil. as despesas com a minha fuga da prisão custaram 25000 euros, o que na época era uma quantia elevada.
Coronel Carlos Fabião
Só mais tarde no Brasil, depois de 1986, é que referi a José Esteves que sabia que Sá Carneiro ia no avião, contando-lhe a história toda. José Esteves, responde então, que nesse caso, tinhamos corrido um grande risco. Eu tranquilizei-o, referindo que sempre o apoiei e protegi neste atentado. Dei-lhe apoio no Brasil no que pude. Assegurei-lhe também o transporte para o Brasil, obtendo-lhe um passaporte no Governo Civil de lisboa, entreguei-lhe 750 contos que me foram dados para esse efeito pela embaixada dos EUA, em Lisboa, e arranjei-lhe o bilhete de avião de Madrid para o Rio de Janeiro . Na viagem de Lisboa para Madrid, José Esteves foi levado por Victor Moura, um amigo comum. No Rio de Janeiro ajudei-o a montar uma loja, numa roulote. Como trabalhava ainda para a embaixada dos EUA, em Lisboa, estas despesas foram suportadas pela Embaixada. Ficou no Brasil cerca de dois anos. Eu, contudo andava constantemente em viagem. José Esteves recebe depois um telefonema de Francisco Pessoa de Portugal, onde Francisco Pessoa o aconselha a voltar a Portugal, e a pedir protecção, a troco de ir depor na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre Camarate. Esse telefonema foi gravado, mas José Esteves nunca chegou a obter uma protecção formal. Telefono a Frank Carlucci, em 1987, pedindo-lhe para falar com ele pessoalmente. Ele aceita, pelo que viajo do Brasil, via Miami, para Washington. Pergunto-lhe então, em face do que se tinha falado de Camarate, qual seria a minha situação, se corria perigo por causa de Camarate, e se continuarei, ou não a trabalhar para a CIA. Frank Carlucci responde-me que sim, que continuarei a trabalhar para a CIA, tendo efectivamente continuado a ser pago pela CIA até 1989. Frank Carlucci confirma nessa reunião que puderam contar com a colaboração de Penaguião na operação de Camarate, e que ele, Frank Carlucci, esteve a par dessa participação. Em 1994, foi-me novamente montada uma armadilha em Portugal, por agentes da DEA que não gostavam de mim, por causa da referida prisão de agentes seus, denunciados por mim. Nesta armadilha participam também três agentes da DCITE - Portuguesa, os hoje inspectores Tomé, Sintra e Teófilo Santiago. Depois desta detenção, recebo a visita na prisão de Caxias de dois procuradores do Ministério Público, um deles, se não estou em erro, chamado Femando Ventura, enviados por Cunha Rodrigues, então Procurador Geral da República. Estes procuradores referem-me que me podem ajudar no processo de droga de que sou acusado, desde que eu me mantenha calado sobre o caso Camarate.
Foto do Procurador Cunha Rodrigues
Por ser verdade. e por entender que chegou o momento de contar todo o meu envolvimento na operação de Camarate, em 4 de Dezembro de 1980, decidi realizar a presente Declaração, por livre vontade. Não podendo já alterar a minha participação nesta operação, que na altura estava longe de poder imaginar as trágicas consequências que teria para os familiares das vítimas e para o país, pude agora, ao menos, contar toda a verdade, para que fique para a História, e para que nomeadamente os portugueses possam dela ter pleno conhecimento. Não quero, por ultimo, deixar de agradecer à minha mãe, à minha mulher Elza Simões, que ao longo destes mais de 35 anos, tanto nos bons como nos maus momentos, sempre esteve a meu lado, suportando de forma extraordinária, todas as dificuldades, ausências, e faltas de dedicação à família que a minha profissão implicava. Só uma grande mulher e um grande amor a mim tornaram possível este comportamento. Quero também agradecer à minha filha Eliana, que sempre soube aceitar as consequências que para si representavam a minha vida profissional, nunca tendo deixado de ser carinhosa comigo. Finalmente quero agradecer à minha mão que, ao longo de toda a minha vida me acarinhou e encorajou, apesar de nem sempre concordar com as minhas opções de vida. A natureza da sua ajuda e apoio, tiveram para mim uma importância excepcional, sem, as quais não teria conseguido prosseguir, em muitos momentos da minha vida. Posso assim afirmar que tive sempre o apoio de uma família excepcional, que foi para mim decisiva nos bons e maus momentos da minha vida.
Lisboa, 26 de Março de 2012
Fernando Farinha Simões
B.I. n.º 7540306
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“OS BOÉRES E O CALVINISMO” – 1ª Parte
Por
O Soba T´Chingange
Os bóeres são os descendentes dos colonos calvinistas dos Países Baixos, Alemanha e França, que se estabeleceram nos séculos XVII e XVIII na África do Sul cuja colonização disputaram com os britânicos. Desenvolveram uma língua própria, o africânder, derivado do neerlandês com influências limitadas de línguas indígenas, do malaio do inglês. Hoje vivem na África do Sul e na Namíbia, mas também no Botswana e na Suazilândia. Foram a base social principal para o regime do apartheid, que durante muitas décadas vingou na África do Sul. Actualmente, o africânder é uma das onze línguas oficiais da África do Sul, e é a língua mais usada para a omunicação inter-étnica na Namíbia.
: João Calvino
João Calvino (viveu entre 1509 de 1564) foi um teólogo cristão francês. Calvino teve uma influência muito grande durante a Reforma Protestante, uma influência que continua até hoje. Portanto, a forma de Protestantismo que ele ensinou e viveu é conhecida por alguns pelo nome Calvinismo, embora o próprio Calvino tivesse repudiado contundentemente este apelido. Esta variante do Protestantismo viria a ser bem sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os africânderes), Inglaterra, Escócia e Estados Unidos da América.
: Perfil de um Boér
As sociedades contemporâneas compostas de gente Lusa, de fala portuguesa saídos das ex-colónias de Angola e Moçambique tendo origem religiosa de cristãos de raiz romana, com o tempo, acabaram por ser assimilados à nova forme de vida seguindo tradições calvinistas; sem se darem conta, por falsa modéstia, ingenuidade ou interesse, passaram a ter fortes tendências racistas no sentido de eliminar os negros de sua forma de vida; é raro ver um cidadão de cor preto numa missa destas sociedades e se deparamos com algum, tratasse dum serviçal ao seu serviço. É muito evidente o quase ódio que estas comunidades nutrem pelo negro tratando-os como animais domésticos. O desprezo pelo negro é tão evidente que confrange gentes de outras latitudes e nos leva a interrogar: Como conseguem viver assim à sombra das leis de Deus. É estranho que não haja ali mais roubos e desmandos públicos em função do que se observa naquela sociedade injusta e fragmentada: Falta de fraternidade, escasso partilhar de bem-estar, cinismo endémico, subestimação e arrogante exploração. Não é, em realidade, o paraíso terrestre.
(Continua…)
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“Arte da Felicidade” . II - Fim de 2011
A paz de espírito ou a serenidade têm como origem a humildade, o afeto e a compaixão..
Kimbo
“Quanto maior for o nível de serenidade da mente de uma pessoa, maior será a sua paz de espírito e maior a sua capacidade para levar uma vida feliz e prazerosa" mesmo que sua saude seja frágil. Hoje em dia, há sociedades bastante fartas em termos materiais, e no entanto em seu seio, muitas dessas pessoas não são felizes o suficiente; na bela aparência de abastança esconde-se, uma insaciavel vontade de ter mais e mais sem alcançarem o nivel de felicidade sustentavel; os seus desejos nunca ficam realizados por completo; nada as contenta. Daí haver uma espécie de inquietação mental que leva à frustração, a brigas desnecessárias, à dependência de drogas ou álcool e, no pior dos casos, ao suicídio.
A cultura ocidental baseia seu sucesso nas aquisições materiais. A sociedade é bombardeada por anúncios das últimas novidades a comprar, do último modelo de automovel, casa mais vistosa, e assim por diante. É difícil não se ser influenciado por isso, tantas são as coisas que queremos, que desejamos, sem nunca ter fim. Determinar se um desejo é excessivo ou negativo é algo que depende das circunstâncias ou da sociedade em que se vive. Afecto e calor humano no relacionamento com o próximo, não se adquirem num qualquer mercado. É na prática do dia-a-dia, desenvolvendo valências e outras fontes de valorização ou negócios que lhe conferirão uma
noção de dignidade; uma âncora válida para se não deprimir se porventura a sua fortuna desaparecer.
Dalai Lama
Numa sociedade afluente na qual é preciso um carro para ajudar a pessoa a cumprir a rotina diária, não há nada de errado em querer ter um carro mas, da manifestação exagerada, pode conduzir o indivíduo a uma ganância de exacerbada ambição; Todos têm de aprender a lidar com esses sentimentos, tendo por meta que o único jeito de fazer algo pela vida, é olhar para o que se tem e dar-se por satisfeito com o maior proveito desse património. O que sempre subsiste como um grande problema, é o facto das pessoas confundirem a felicidade com prazer quando, a felicidade que depende principalmente do prazer físico é instável. Um dia, ela está ali; no dia seguinte, pode não estar.
Referência Bibliográfica: A arte da Felicidade, um manual para a vida por Dalai Lama
Compilação e arranjo de
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
”O Natal em Angola”
Diogo Cão. Alusão à foz do Zaire
O Natal só ficou conhecido em Angola depois que os navegantes portugueses lá chegaram. Foi a partir do achamento da foz do rio Congo em 1482 por Diogo Cão que os colonos portugueses começaram a sua expansão colonial e missionação. Com os descobrimentos os portugueses visavam expandir o império colonial e a fé de Cristo catequizando e baptizando o gentio desacostumado a regras de conduta moral e social. Neste processo de evangelização, a comemoração do nascimento de Cristo, tornou-se uma festa de partilhar amizade, um momento alto de confraternização entre famílias e a sociedade em geral a lembrar o nascimento de Jesus. A nossa era, temporalmente teve início a partir do seu nascimento dividindo-se por isso em Antes de Cristo e Depois de Cristo. Hoje esta festa religiosa é assumida como tradicional em Angola, sendo comemorada de Cabinda ao Kunene, por todas as etnias e tribos, não obstante preservarem suas crenças de origem Banto tendo N´zambi como Deus.
O Natal das cidades diferencia-se um pouco do das aldeias porque o nível social das populações tem estratos culturais também diferente. Enquanto o Natal das cidades transborda de luz e múltiplos eventos mwangolés, o dos kimbos, é feito à luz de velas, petromax ou xipefo de petróleo adequada à falta de infra-estruturas e baixa condição económica, cultural e intelectual se comparadas aos cidadãos das urbes como Cabinda, Benguela, Huambo, Lubango entre outras para não referir a capital Luua que deslumbra o imaginário da bangula. Nos povoados do mato, sanzalas ou kimbos, grupos de mulheres e homens que habitualmente falam a palavra de Deus, animam o povo com programas extra litúrgicos dando às novas gerações ofertas de bíblias após cursos de catequese e diversões tradicionais à semelhança do que se faz no puto, com corridas de saco e quebra púcaros com bombos em jogo de cabra cega. E, surgem dádivas, bebidas, cantares, um bate-pula, bate-palmas e assobios batucados, misto de folclore com bassula, capoeira e religião ao som de cabaça, uns fios e uns paus na forma de berimbaus. A missa da meia-noite é composta de gente com vestes coloridas, os cantares são de afinada maravilha enchendo os corações de boa vontade, dão as mãos e saúdam-se efusivamente na graça de Deus em Cristo.
CARLA PEAIRO Angola
Bebe-se a Kissangwa, Kimbombo, Marufo, Bolunga e outras bebidas tradicionais feitas com farinha de cereais ou cascas de fruto que depois de fermentado origina “pirukas” de arrasta-pé. Modernamente a coca-cola, cuca, nocal e dezenas de outras marcas de cerveja estão ao alcance em qualquer cuca-shop do mato. O caporroto que é uma bebida destilada, feita com banana, ou batata-doce ou farelo de cereais também surge no terreiro para os mais xigentes. Felizmente há sempre um kota, irmão experiente que orienta as leviandades de forma a não originar maka. As sanzalas vizinhas programam encontros, animados com danças folclórica durante o dia 25 de Dezembro, com um encontro de futebol no final de tarde, quando a cigarra amena seus zunidos. O Natal em Angola é festa que mobiliza todo povo. Não muito longe haverá sempre uma missão com programas alusivos. Isto torna o Natal, nascimento de Cristo numa história interessante. O programa de festas termina no fim do ano com a missa-do-galo a recordar o facto de Pedro por três vezes recusar conhecer Cristo quando da prisão no Monte das oliveiras pelos romanos; isto para recordar a vulnerabilidade inerente a todos nós, e sequente arrependimento.
O Soba T´Chingange
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“N´Gungunhane”
N´Gungunhane com suas 7 esposas
Forte de Monsanto - Lisboa - 1896
Passados que eram uns dez dias, já tinha a pele curtida da praia rasa do Bilene; estirado na areia branca à sombra das casuarinas, recordava a entrada no paraíso fantasioso de Moçambique aonde os expedientes se vendem como bombons de meiga ternura com o nome de kanimambo. Gente de estirpe simples agiliza agruras de fronteira em dócil preclitância de corruptela, uma vida de acumular vontades em favores traficados. Para o que desse e viesse, adquiri logo nos primeiros dias umas quantas batatas-de-áfrica tendo cortado duas delas em pequenas tiras como se fossem batatas do puto. Por indicação do mais-velho Armando meti-as em uma garrafa de litro e meio, com água e, da qual passei a beber o líquido de cor escura. A fim de dissipar dissabores de mau agouro e fermentações imperfeitas, resolvi levar a peito as indicações profiláticas. Mesmo assim o raio do cazumbi surgiu no nobre lugar da ponte do rio Limpopo; um carro vistoso no preciso momento de galgar a lomba bateu nas traseiras do meu mazda emprestado em terras de Benoni. Na terra aonde as ruas viram rios com minúsculas lagoas, quando chove, temos de acautelar vírus e viroses, contornando temporárias lagoas.
Casa prisão de N´Gungunhane
Monte Brasil - Hangra do heroismo - Açores
Em terras de Gaza tenho de relembrar N´gungunhane ou Reinaldo Frederico o último monarca da dinastia Jamine que veio a ser cognomizado o Leão de Gaza. Entre os anos de 1884 a 28 de Dezembro de 1895, dia em que foi feito prisioneiro por Joaquim Mouzinho de Albuquerque na aldeia de Chaimite. N´gungunhane foi transportado para Lisboa, sendo acompanhado por seu filho Godide e outros dignitários de sua corte. Após uma breve permanência em Lisboa aonde foi alvo da imprensa europeia, foi desterrado para Angra de heroísmo da ilha terceira dos Açores aonde permaneceu no forte do Monte Brasil e, aonde veio a falecer a 23 de Dezembro de 1906. Pude ver as roupas de N´gungunhane quando da sua prisão, no museu de Bragança de Trás-os Montes, por ser dali a guarnição de lanceiros que o fez prisioneiro.
Caixão com a história em baixos relevos de vida e prisão
Em Outubro de 1983 quando da visita de Samora Machel a Portugal, acorda com o seu homólogo português Ramalho Eanes na trasladação para terras moçambicanas dos restos mortais do imperador de Gaza, que jaziam nos Açores há 77 anos. Finalmente a 15 de Junho de 1985,quando das celebrações do 10.º aniversário da independência, a urna foi entregue ao Estado Moçambicano, em cerimónia solene devida devida a um herói nacional. A urna de madeira de N´gungunhane, pesando 225 kg e esculpida pelo artista moçambicano Paulo Cosme, sob a coordenação de Malangatana Valente, fica exposta, de início, no Salão Nobre do Conselho Executivo de Maputo e, mais tarde, dá entrada na Fortaleza de Moçambique. Tem como companhia, os baixos-relevos com que o poder colonial glorificou as campanhas de pacificação de Gaza e as estátuas de Mouzinho de Albuquerque e de António Enes, que Moçambique guarda como relíquias históricas do tempo colonial.
O Soba T´Chingange
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“Praia do sol – Bilene”
Gente de capulana
Quase no término sul da lagoa do Bilene fica a Praia do Sol. Entre a jungla das dunas de vegetação fechada ficam os muitos bangalós cobertos a capim. Os caminhos de areia branca contornam a compacta vegetação composta de árvores autotnes de médio e grande porte que ao longo de muitos anos ali desenvolveu germinando beleza verde. Ao descer a duna para a areia e saindo do túnel verde da pequena selva deparamos com a língua de areia de um branco resplandecente contrastando com a cristalina e verde água da lagoa. A vista do mar é preciosa; agradável de ver dissimulado entre a vegetação os tectos a capim ainda dourado, existentes nos vários complexos turísticos. O lago da lagoa do Bilene é raso até muita distância da língua de areia. Um suicida por afogamento, por certo, desesperaria do intento em tanto andar por não encontrar fundo suficiente para o fazer.
Praia do Sol . Bilene
De ar e água quentes, os aromas selvagens misturam-se ao trinado compassado, pios e chilreada da variada passarada tendo a zoada do vento que como fundo sopram as carumas de casuarinas soprando farfalhos de perene lamento. Se tivesse de dar uma nota a esta praia, colocá-la-ia na lista de cinco estrelas douradas, à frente de Cancum do México aonde o turismo Yanque mexe com tudo naquele distante mar da palha americano e que fica àquem desta piscina cristalina. Ou, mesmo a península de Varadero em Cuba, ou ainda a famosa ilha do Mussulo de Luanda, os milhares de praias do Brasil progressivamente poluídas para além do normal, as praias da Anatólia da Turquia e, até da costa Sul de Portugal com suas belas praias de água fria. As instituições governamentais deveriam ter um gabinete de apoio técnico a este vasto espaço potencial ao turismo, ordenando os empreendimentos de exploração turística. Deveria existir um plano director ou piloto que regulamentasse áreas com acessos pedonais à orla marítima tendo uma visão de planeamento sustentável. Ter enfim um reordenamento, resguardando um futuro promissor aos vindouros.
Entrada Praia do Sol
Esta orla costeira tem potencialidades para vir a ser o topo do destino turístico de toda a África Austral se para tal forem resguardados os parâmetros de qualidade evitando o desordenamento tão comum nos actuais usos e costumes do povo de baixo rendimento, aonde a viciação dos órgãos governamentais levam ao pirateamento do estado. Deve-se evitar a todo o custo condições que causem um impacto negativo e não concorrencial com os pólos de interesse a nível continental e mundial. A indústria do turismo é um campo que não pode ser desprezado, sendo forçoso ser estimulado pelo próprio estado. Ocupar a gente em fazer coisas úteis numa base de economia com as valências locais. Ver, sentir e desfrutar esta beleza é só por si uma bênção num percurso de vida. Melhor floreado a este texto só o trinado do pardela-preta, esse pássaro que em cantos espaçados dá voluntariamente uma mais valia ao meio.
O Soba T´Chingange
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”O medo e a duvida”
SHAMBHALA*, um lugar mítico
No mundo vulgar de toda a gente, têm-se no trato diário, uma mistura de imagens de medo e de sucesso, que tendem a anular-se. A única forma de estabelecer um fluxo constante de sincronicidade de pensamento positivo, é a de se manter num estado de oração consciente; esta postura de alerta tornar-se-á a atitude dominante perante a vida. A chave, é garantir que a nossa mente esteja concentrada na via positiva para a vida, sem a expectativa receosa tendencial para esperar o pior. O efeito astral da oração é o meio mais rápido de proporcionar níveis superiores de energia. Usando a força das nossas expectativas, poderemos fazer aquele processo de sincronicidade ocorrer mais vezes, mantendo-nos alerta, começando pela próxima intuição: afastar o medo e a dúvida.
Outra visão
A visão dominante que os homens têm do mundo é sempre um campo gigantesco de crença e expectativa. A chave para o progresso humano é ter suficientes pessoas que consigam misturar neste campo humano uma expectativa superior de amor. Sentindo medo ou raiva, temos de compreender que essas emoções vêm de uma única fonte: os aspectos da nossa vida que queremos manter. As lendas dizem que, uma vez que o medo e a raiva advêm do receio de perdermos alguma coisa, a forma de evitar estas emoções é distanciarmo-nos de todos os resultados. O processo da sincronicidade afastar-nos-á sempre dos perigos, que saberemos antecipadamente por intuição e, quando em união, qual o movimento a fazer com nossas mãos, com nossos pensamentos e nossas acções. O que tiver de acontecer, acontece!
* - SHAMBHALA terá de ser sentido como a promessa de um mundo novo
Bibliografia de consulta: O segredo de Shambhala
O Soba T´Chingange
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“Amores descartáveis”
Mural
O sol a pique na praia do Bilene tomava conta de tudo. A areia só se suportava em corrida rápida e curta até se chegar à água transparente e rasa da lagoa. Meia azul, meia verde-esmeralda deixava-se ondular na brisa que, ora quente chegava até nós sufocando-nos, ora fria, nos deleitava como águia de plumas sedadas ao vento. Os sombreiros de capim africano guarnecem com sua fechada sombra os veraneantes escarrapachados concorrendo com as mais ralas sombras das casuarinas. Os putos de Bilene, soltos das escolas por bónus natalício esquindivam-se do sol pulando de sombra em sombra trocando cestos minúsculos por uma moeda; aquilo, feito de folha comprida de palmeira, de tão pequeno, só terá utilidade para guardar suspiros de noiva e seus anéis de promessas passadas pelo que recomendo-lhes irem para a porta da igreja fazer negócio. Eles, os putos riem. Não pode ser patrão e, entre eles fazem cabriolas na areia ficando panados da areia fina como um croquete.
Mafumeira
Naquela sobrevivência de inocente embuste só para brancos fica subjacente que a lógica prevalece nos actos pois que, queiramos ou não, não é ético pedir uma moeda em troca de nada. São só amores temporários para aliviar sofrimento de fome ou simples captação de gasosa fácil. Patrão, é para a “mission” e, não estão a enganar-nos porque essa é mesmo a marca de laranjada que as empresárias de caixas térmicas têm à venda por debaixo das mafumeiras e amendoeiras do largo Chissano. Em terras de expedientes, quem tem penas é galinha e, ser-se branco-patrão, é sinónimo de ter dinheiro. Falar português é já uma escapatória mas a turma das esteiras e artistas preferem uma resposta em inglês ao “good moning” de abertura.
Gentes. Malangatana
Na terra de Machel, ou te pintas de preto, ou ficas sempre “patrão de maning dinheiro”. Bem em frente de mim a barca-jangada sem quilha e tecto de lona raiado de azul e branco com o José Burra como timoneiro, espera clientes a serem levados ao outro lado da lagoa por duzentos meticais por pessoa (5.54 euros). Os artistas continuam oferecendo telas de sua autoria e, ao melhor preço. Malangatana, começou assim, até que um dia um patrão, lhe deu a mão tornando-se famoso aqui, no Puto e na Globália. Não é fácil ser-se artista num país pobre como Moçambique. Alguns aventuram-se vender habilidades do outro lado da fronteira e, muitos acabam por virar ladrões. Quando a dignidade se resigna a ser vendedor de sortes, a honestidade rebaixa-se ao lamento surdo da marginalidade.
O Soba T´Chingange
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”Vidas”
BATISMO PROTESTANTE
A manhã, não estava convidativa de todo para ir à praia; sempre são 33 quilómetros até ao Bilene e gastar gasolina por gastar, sem proveito, não faz sentido para dois aposentados penalizados com as medidas de crise que os senhores do mando no Puto provocaram irresponsávelmente. O sol acabou por aparecer forte em boas abertas pelas 11.30 horas e, lá nos dispusemos a ir até à praia e, lá chegados, no espaço dos ferroviários, praia livre para todos, deparamos com um grande número de pessoas. Bem ao nosso lado Norte, estava um grupo de irmãos, pois assim se tratavam entre si; de vez em quando um senhor já grisalho chamava a atenção e ditava ordens terminando sempre com um “ámen” (assim seja), no qual era repetido pelos demais. Em determinado momento deu opas brancas a sete irmãos e, eles e elas, já vestidos deslocaram-se para a água cor de esmeralda avançando até à altura da água pela cintura. Aí, dois mais velhos guias ou pastores colocaram os ditos irmãos dois a dois e após uma prece de mãos juntas que não ouvimos, seguraram o corpo destes e mergulharam-nos totalmente na água. Não sei ao certo qual as suas vocações religiosas mas o nome de Cristo era de quando em quando audível o que me leva em crer serem protestantes baptistas, Luteranos ou afins. As cerimónias seguiram um ritual semelhante ao do baptismo de Jesus Cristo às margens do rio Jordão.
SEITAS . coisas de orixás
Não muito distante e do lado Sul um magote de gente multicolor maioritariamente composto de mulheres envoltas em capolanas garridas, cantavam lindos coros à sombra de altas casuarinas. Levaram todo o tempo entoando canções em Changani com algumas mulheres dançando com mãos elevadas ao céu. Umas quantas iam até à água e voltavam saltitando de forma ritmada a areia fina enquanto espanejavam o ar viradas ao infinito celeste. De toda esta gente destacava-se um homem grande, vestido com uma túnica azul bordada com arabescos. A cabeça do "guru" estava recoberta com uma boina justa com desenhos intrincados de símbolos a dourado e do pescoço pendiam colares na forma de zingarelhos ou rosários com latas, ou talvez pendurocalhos do xipamanine. Este destacado personagem do oxalá, fez deslocar o grupo em fila ordenada de fiéis levando-os a uma curta marcha até um determinado lugar aonde deixou que se agrupassem ao seu redor fazendo uma prelecção inaudível do ponto aonde me encontrava. Não sei se incluíram o Iemanjá nem se lançaram flores mas, informaram-me ser uma seita chamada de Mazziottis. Gostaria de me explicitar melhor quanto ao que vi à distância mas não me aventuro em suposições de candomblé ou orixás. Este nosso mundo é tão cheio de convicções que só temos de respeitar as diferenças sem as repudiar. Se, se a prática for a essência do bem e da paz sem incitamento à luta, jihad, mutilação, perseguição ou incitamento ao ódio. Cada qual escolhe o seu tipo de macumba até que um dia cai na tumba. A ignorância é uma coisa muito perigosa e disto infelizmente todos temos um pouco.
O Soba T´Chingange
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"O cacto de Machel”
O Cacto em flor
O cacto de Machel, em verdade tem outro nome mas ocorreu-me chamar-lhe assim porque está situado na praça do fundador de Moçambique Samora Machel em Macia, bem ao lado do shoprite. É gigante e, porque está em flor despertou em mim a atenção, não obstante desconseguir prender a curiosidade de mais alguém. Desde o café da Dona Ana em frente ao mercado shoprite e, do outro lado da estrada nacional nº 1, observo o movimento norte-sul e inverso, entre vendedores de castanha de caju que correm a cada paragem de carro, “os chapas", táxis vindos de muitos lugares. Após tomar o café expresso por quarenta meticais (1,11 euros), rumei ao longo do mercado de mukifos seguros com chinguiços ao alto e cobertos com chapas de zinco em desalinho, cartão, plásticos multicolores, uma confusa mistura de materiais a condizer com o mercado das calamidades aonde na compra de 3 montes de kiabos, 2 pimentos e um quilo de fuba de mandioca despendi setenta e cinco meticais, o correspondente a 2,08 euros. Aqui há de tudo um pouco de forma a cobrir as necessidades básicas dum país pobre. Com a “ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica”, de Portugal, quase nada poderia funcionar por minimamente não reunir condições satisfatórias de higiene pública e sanitária.
Samora Machel
Na secção de roupas, pude falar com um senhor mais velho de nome Henrique, sentado a uma máquina de costura “Singer” mais velha do que a nossa soma de idades. O kota, curtia com serena quietude, tudo ao seu redor ocupando o olhar no vago espaço com falta de clientes. Sem portas nem janelas, em chão de areia o ar ziguezagueava frescura entre apertados corredores enfeitados de capulanas garridas e barulhos ventilados de variados aromas. Na rua de maior pó e largura de carro, os galináceos picavam reflexos de lama em gaiolas aramadas à sombra de velhas acácias rubras que floridas, equilibravam o espectáculo de vida curtida em pequenas coisas. Os melhores preços depenicavam os stoques de promoções a granel sem pressas nem aguerridas usuras. Qualquer uropeu albino no conhecimento das gentes, usos e costumes de África, andaria por aqui agarrado ao medo da sua sombra. Já a caminho de casa na rua da liberdade, um pouco antes do largo das manifestações e logo após as bombas de gasolina “Engein”, homens pesarosos e refilando merdas só por refilar, rodavam o macaco a desenterrar um carregado camião. Eu bem disse que esta rua era pó nos dias secos e matope nos dias de chuva. No antigamente existiu aqui asfalto, mas parece que os colonos levaram tudo pró Puto
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
”NOTÍCIAS DA LUSOFONIA”
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MOÇAMBIQUE
“Moçambique é um dos países mais pobres do planeta. A carestia destrói por isso a vida de famílias que não têm nada, e a quem o salário não basta para sobreviver. Ao mesmo tempo, como em quase toda a África, uma implante burguesia vai-se reforçando com as ajudas internacionais, com a corrupção, com o pirateamento do Estado”. – Francisco Louça, deputado da Assembleia da República portguesa e dirigente do Bloco de Esquerda. In canal moz.
Francisco Louça
ANGOLA - dependência mortal
Luanda é uma gigantesca câmara de gás. Devido às constantes interrupções de energia eléctrica as empresas, agências bancárias, escritórios e armazéns, na generalidade, montaram em suas dependências, um pouco por todo o lado disponível e não somente num fundo de quintal, potentes geradores alimentados a gasóleo; os mesmos lançam por toda a cidade gazes tóxicos que perturbam a visão e engasgam os transeuntes. As chaminés fumarentas e barulhentas, perturbam toda a gente. Os governantes, loucos pelos petrodólares, nada fazem para alterar a situação caótica deixando envenenar a população pela poluição mortal desses milhares de geradores. Nos terraços, varandas e traseiras dos prédios, aquelas “máquinas de progresso” exterminam a qualidade de vida aceitável. Luanda tem assim, uma verdadeira arma nuclear com química de exterminação além dos ruídos perturbadores.
Lino Damião . Angola
PADRES NA LUUA
Algumas autoridades da igreja como o cónego Apolónio Graciano minimizam a falta de qualidade de vida celebrando na missa a palavra como se fossem comissários políticos do governo do MPLA, decepcionando os fiéis de sua igreja. O povo diz que estas figuras parecem estar na Lua quando afirmam perante a Televisão e outros órgãos de informação que em Luanda não existe pobres; Segundo ele, tal constatação, se deve ao acto de ver nos subúrbios da capital antenas parabólicas e automóveis Rav-4 nos locais ditos degradados. Mas, que raios,… O padreco, desconhece que há milhares de pessoas, tanto em Luanda, como no resto do país, que só come quando calha. É tempo de as autoridades eclesiásticas falarem verdade, não se imiscuindo nessas inverdades governamentais à custa da gasosa. Esse comportamento não retrata os ensinamentos de Deus, nem tão pouco dignifica a Igreja de Cristo.
O Soba T´Chingange
CRÓNICA DO SOBA
"Um grão de alpista”
Paroquia de Macia
Hoje assisti a uma missa em português e dialecto “Changani”, um dos 60 dialectos falados em Moçambique na zona de Gaza. Os cânticos com a participação de missa cheia teve duas horas e meia de duração, entusiasmando-me a basculhar esse mundo da fé. Para se ter uma vida espiritual, não é necessário entrar para um seminário, nem fazer jejum, abstinência ou castidade; basta ter fé e aceitar Deus. A partir daí, cada qual se transforma no seu caminho, passando a ser o veículo dos seus milagres. Para encontrar Deus, basta olhar ao seu redor; podemos vê-Lo ao nosso lado, no cacimbo, na estrada, uma borboleta que esvoaça ou numa minúscula planta. E, se tivermos a fé do tamanho de uma semente de alpista, podemos fazer milagres movendo pedras e, ser capaz de dominar o corpo e o espírito. Muitos que quiseram ir mais além, encontraram sofrimentos tornando-se mártires sacrificando-se em anseios de sonhos, enfrentando o ridículo e a perseguição.
Azulejos da paroquia de Macia
Pela inquisição, a igreja queimou bruxas e cientistas. Os romanos lançaram cristãos aos leões desconsiderando os dons que cada qual teria; dons que todas as pessoas têm à face da terra. Em alguns de nós, o dom, manifesta-se espontaneamente, enquanto em outros, necessita ser trabalhado para o encontrar. Os dons do Espírito Santo estarão em todos nós e, pela tal fé de grão de alpista poderemos fazer milagres, curar, profetizar, entender, enfim! Esse dom está na graça de se saber levar uma vida de dignidade, de amor ao próximo e de trabalho. Caminhando pela terra, peregrinando lugares, desenvolvi também o lado espiritual recebendo e dando ao próximo, o possível conforto. Vivemos todos a defender a nossa terra e, a única terra que realmente temos é a do vaso da nossa varanda. Não podemos desperdiçar o tempo a defender aquilo que já nem temos; partilhemos esse nada com amor.
Bibliografia de referência: Na margem do Rio Pedra de Paulo Coelho.
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
”RUEM” . UMA RUA FEITA FEIRA
Moçambique
Na rua longa do mercado comprido, mulheres sentadas com frutas e verduras à sua frente, esperam fregueses. Grupos de homens desocupados, deambulam espreguiçando vontades entre o vozeio naquela rua de igual poeira, gente desalugada sem ter mesmo nada para fazer. No muro de uma casa lateral feita de tijolo despintado, um rapazola espreitava o nada da rua em pó feito lama com charcos de recente chuva. Que fazes aí moço? Eu faço nada senhor… Era uma rua longa, comprida de não acabar. Como um conquistador colonial, na avidez de desbravar terras desconhecidas encontro desordenadas vidas como que saídas de um romance inacabado. Num mundo perdulário de vagas promessas e compras sem troco, o acaso vira penumbra de carência: Não tem troco patrão! Sem subsídios, velhos vagando pelas estradas resvalam conhecimentos de antigos expedientes a troco de meticais. Os profissionais, anunciam suas habilidades na permuta de convincentes percentagens; na terra de cegos, quem tem um olho é rei.
Paroquia de Macia
Nos povoados não se vêm raparigas como as das cidades, perfumadas e com vestidos de seda; só capulanas, mesmo! Samora Machel, o pai da nação, tem a cara em todos os meticais. Na praça com o seu nome uns quantos catraios arrimam-se num banco escuro que já foi branco por debaixo de uma mangueira de uns trinta metros de altura; ao redor desta, dezenas de frutos ainda verdes, caídos na força do pau e pedra. Um buraco de incineração de lixo resiste ao tempo por detrás do shoperite não muito distante da caixa de multibanco Millenium. Ao redor da praça muitos e pequenos mukifos na forma de casas apresentam-se a vermelho financiado pela “vodacom”. Tem tanto vodacom publicitado que ficamos sem saber qual é verdadeiramente casa dos telemóveis, dos celulares. Num largo de matope bem ao lado do shoprite naquela rua sem fim, os chapas recolhem fregueses com destinos vários: Xokwé, Chicuacuanda, Bilene, Xai-xai ou Chissano. E, aqui estou eu, de deserto em deserto, de terra em terra, de risco em risco colhendo os frutos das sementes, dos amigos construídos, tornando-me rico na fé e no amor. Aquele que tem medo de correr riscos em sonhos de um novo agora com vontade e perseverança, torna-se pobre.
Glossário: shoprite: centro comercial; Vodacom: rede de telemóveis de Moçambique; Ruem: Mercado central ao longo da rua de Macia em Gaza; Chapas: táxis combi, pequenos autocarros ou machimbombos; Mukifo: casas cubiculos, anexo dos fundos, lugar reservado da casa.
O Soba T´chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
NA ROTA DO MATOPE
MATOPE E MANGUE
Esperando o bom tempo retempero preguiça deitando conversa fora numa filosofia isenta de superstição. Em Moçambique, terra do matope com massala e kanimambo, recordo a recente frase do escritor mais velho que o seu país, Mia Couto. Fala do Puto, uma terra da Ibéria duma forma cruel, ou talvez não: A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Estrabão, geógrafo e historiador da antiguidade clássica, que nasceu em Amásia Antes de Cristo e morreu no reinado de Tibério I, nas suas relações entre os homens, povos e impérios do mundo físico de então, sintetizou relatos das legiões Romanas; acerca do canto ocidental da Ibéria, o actual Puto, da ponta de Sagres referiu: “ – Ali, não é só o fim da Europa, mas de toda a terra habitada”. Claro que estava enganado! Gaius Julius Caesar eloquente político, guerreiro e estadista que governou Roma como imperador ditador, também Antes de Cristo, nos seus famosos comentários, reflexões e opiniões disse acerca da mesma Ibéria o seguinte: “– Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa, nem se deixa governar” Aquelas afirmações foram feitas há mais de 2000 anos e ainda estava por nascer Portugal. Em todos os momentos da história existem coisas que poderiam ter acontecido, mas acabaram por não acontecer. E pensamos no que seria excepcional na mudança, nas crenças de religião, judaísmo, catolicismo ou islamismo e dando-nos conta que os homens, sacerdotes ou políticos governam-nos com suas leis e seus dogmas. Afinal, não somos nós quem decide ou quem escreve os melhores momentos de nossas vidas.
Glossário: Matope - lodo, mangue; Massala - fruto silvestre de Moçambique, Maboque; Kanimambo - Obrigado
O Soba T´Chingange
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“Xinguilamento das flores”
Amizade
A garoupa de 3,5 quilos comprada no Xai-Xai de Gaza afinal estava imprópria para consumo; do velho boher das barbas ao Samuel do hotel abandonado até o Paulo da igreja, todos me levaram na reles curva da ignorância; o podre da garoupa que não tinha cheiro, no após forno, estava moído, intragável, coisa pútrida. Os patrícios do Índico cuspiram-me na consciência de mwanlolé mazombo e, francamente não gostei da afronta. E, quem gosta de ser enganado? As minhas visitas nobres, tiveram de comer salsichas de lata para não desfazer o acolhimento. Havia um compromisso de “jaquinzinhos” trazidos de Maputo pelo gerente-mor do “Luar de Macia” o que desaconteceu e, o sabor rendilhado de saudade ficou xinguilado no tempo em que uma Cuca da Biker na Mutamba trazia de borla um prato de crocantes jaquinzinhos por cada fino. Desconseguimos esquecer os tempos do “eu tinha” e, o que ficou, é tão somente o que pode ser cantado pela poesia do Soba - konde de Chinkerere no “Não, não renuncio”:
Obra de Malangatana
Não, aqui na Macia de Gaza, não renuncio.
Não recebo os brilhos
Da telha de luz
Que amadurecia as pedras
e o xinguilamento das flores
mas insisto
em tirar de folhas mortas
a nitidez do sol
e o ninho da maresia
e de à seca saliva
induzir cio
e seja astral o dano
e de caos de sonho viva
não… aqui na Macia de Bilene, não renuncio
a ser mwangolé e, mesmo mazombo, a ser angolano!
Konde de T´Chinkerere . Valério Guerra
Não há matope bom nem ruim. Tudo é a mesma coisa, é questão de sair da lama em volta porque matope não é barro, mesmo!
Glossário: Xinguilar: amarfanhar, amachucar, fintar; Muxima: saudade; Mwangolé: de Angola, os donos de Angola; Mazombo: branco filho de colonos, branco com hábitos de África; Fino: copo de cerveja, imperial; Macia: Nome de cidade em Moçambique; Matope: Lodo, mangue.
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO CONSUL MATIAS . Joanesburgo
PROFESSIAS DE DAVID WILKERSOM – 1ª Parte
Sendo 2012 o ano propício às profecias e, sabendo nós que os Maias prevêem o fim do mundo para 21 de Dezembro de 2012, vamos aqui incluir outros testemunhos de amigos e correspondentes do Kimbo que fornecem em saldo, suas opiniões; neste caso é uma gentileza do irmão Matias, cônsul do reino de Manikongo no Balito. Uma coisa é certa, todos nós temos o nosso próprio fim do mundo; mas a vida continua!
David Wilkersom
David Wilkersom, irmão pastor de carreira cheia de Deus, nos E.U. da América, que já partiu para parte incerta, legou ao mundo mensagens, profecias e visões que devem ser interpretadas a partir de Abril do ano de 1973; muitas já foram cumpridas, outras expõem-se no futuro: Deus vai ser o juiz e, nada pode parar a minha determinação em as transmitir, aos meus amigos e inimigos, pois estas coisas já estão sucedendo. Vamos ser confrontados com a iminente confusão económica (falência iminente) de forma GLOBAL. Não só o dólar é projectado a grandes dificuldades, como todas as outras moedas a circular (o Euro não era conhecido por este irmão). Queda iminente da Europa seguindo-se-lhe o Japão, Estados Unidos, Canada. Não se trata de uma depressão, mas sim de uma recessão ou retracção económica temporária de tal magnitude, que deverá afectar o estilo de vida de quase todos os funcionários da América e resto do mundo.
: Carro de ouro
Países que neste momento controlam enormes quantidades de moeda ocidental, vão ter grandes problemas. Os países árabes serão particularmente afectados com desesperos e anos de fome. Economistas de todo o mundo não terão explicações para tamanha alteração, desenvolvendo-se uma crise internacional de medo. Os preços do ouro aumentarão rapidamente, mas aqueles que estão a investir neste lastro na esperança de encontrar segurança, ficarão expostos a uma trágica surpresa; o preço do ouro irá subir a níveis astronómicos, mas não se manterá por longo tempo. A prata também se tornará um metal precioso e, o seu preço subirá nos mercados mas, nem o ouro ou prata irão oferecer segurança real. Ouro e prata farão parte do quadro de turbulência económica com seu valor flutuante e incerto, fazendo vítimas no mundo. Aqueles que o empilharem irão sair lesionados.
(Continua…)
Gentileza de José Matias
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
LIMPOPO
Limpopo . Ponte
De volta a Joanesburgo, pela segunda vez leio o livro ”As vidas de Chico Xavier” de Manuel Souto Maior e, estando agora na terra distante de Macia de Gaza em Moçambique, resolvi ir ao Xai-Xai gozar do Índico e comprar peixe graúdo o que, veio a acontecer com a compra de uma garoupa e um xareu após busca, perguntando aqui e mais além. Mas, aconteceu que em cima de uma lomba na ponte do rio Limpopo, um distraído bateu no meu carro com um estrondo anormal; neste pequeno contratempo de ligeiro machuco recorri à serenidade de Chico, saí do carro, verifiquei os estragos e a uma pergunta minha o infractor falou: Desculpa patrão, aconteceu-me uma infelicidade (morte de um parente) e distraí-me no acontecido! Na mira de não ficar com o prejuízo todo ajuizei pedir 1000 meticais ao infortunado e a um pedido de rebaixa afirmei-lhe que isto era um monto por baixo mas, num avanço e recuo do preço acabou por me dar aquilo que ele disse só ter, seiscentos meticais.
Xai-Xai
Aquela irrisória indemnização ficou traduzida em combustível no extremo da ponte e ao lado da casa da portagem; Que podia eu fazer para aligeirar o assunto sem maior intempérie? As coisas resolveram-se à maneira de Chico. Em paz, um graveto grave virou pó dissolvendo gravidades. Cada vez mais no tempo e à semelhança dele, aprendi a viver com o necessário na importante graça de aceitar os percalços sem perder as estribeiras, doando bom senso prático na ocasião. De que vale o perfume preso em um frasco se não o usarmos naquele tempo e espaço próprio, doando as dormências do mal. Numa vasta planície aonde o Limpopo transborda seu leito quando abunda a chuva, a natureza trata de si: morre um capim, nasce outro. Silenciando alguns instantes, abasteci de calma o estouro da ira neste pequeno contratempo; nesta pequena coisa, Chico Xavier, possivelmente neutralizou-me os actos com seu perfume.
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
NA ROTA DAS MASSALAS
MASSALA . MABOQUE
A partir dos sessenta anos, as pequenas coisas da vida gratificam a continuidade; é o cheiro matinal do café que fumega, o sol que nasce com quentura por detrás de um trilião de acácias, a luz fumegando o branco frio do capim, rolas que gemem, capotas que riscam chão de onde se desprende calor ondulado. É a África dos grandes espaços, mulheres curvadas plantando milho nas machambas contornadas com verdes arbustos de massalas. Como um patrão do Limpopo, sandálias no pé, calções e chapéu de sarja, seguindo o rumo do vento da monção cheguei com o tempo fugindo para a noite à cidade de Macia. Após ter percorrido uns duzentos quilómetros a passo de caracol, seguindo carrinhas de caixa aberta com suas cargas de colchões, cadeiras de plástico, penicos e plásticos surrados encimados por bicicletas; tudo querendo saltar pela força do vento com areia quente das terras sem chuva.
Bilene
Nas cidades, ao longo da via principal e demais artérias, desordenadamente vende-se de tudo, coisas de comer do lado esquerdo e apetrechos de casas ou indústrias artesanais do lado direito, tudo se encontra exposto ao tórrido sol. Peixe seco, batatas, quiabos, pimentos e demais géneros são amontoados em bacias, ex-baldes de tinta ou amachucadas latas de azeite galo com preço certo facilitando trocos; ao lado dos moveis um mukifo de esteiras, outro mostrando quadros com queimadas do mato, moldes em ferro para fazer tijolos em barro ou argila, pneus usados já com jantes e por detrás de tudo um amontoado de carcaças de velhos carros indicando haver ali um mecânico. Esta África tem estas indefinições para baralhar o turista habituado a ver uniformidade na urbanidade. Estamos na Macia, cruzamento para outros lugares rumo a Norte além Xai-Xai e Limpopo e as lindas praias do Bilene de infra-estruturas incipientes.
Macia . E.N.1
Um prego no pão por cinquenta meticais, uma água grande cinquenta, e uma cerveja 2 M ou laurentina entre os cinquenta e sessenta meticais. Não é assim tão barato mas, a beleza da lagoa vendo ao longe as duna divisoras do Índico tormentoso com choupanas penduradas nas encostas, ressalvam o caro das serventias. E, podiam ver-se farmeiros “Bohers”, Sul-Africanos ou Rodesianos das bandas do Zambeze resistindo no tempo, fazendo turismo junto ao mar; continuam grandes, gordos, de olhos azuis vivendo seus costumes de andar descalços, como que atestando ser esta a sua terra. Também aqui estava verificando ao pormenor condições de aconchegar a velhice pisando areia burilada entre casuarinas. E, elas, as casuarinas, sopraram-me em segredo que este era um bom sítio para repousar.
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO KIMBO
“Coisas boas”
Stella Pugliesi
Às vezes precisamos que alguém nos cuide, ás vezes somos carentes demais. Todo mundo precisa de carinho, porque caminhar sozinho cansa E tem momentos em que precisamos só descansar nos braços de alguém." Este trecho dessa mensagem mostra o quanto precisamos uns dos outros, que gentileza gera gentileza... que amor só traz amor... Creia, não existe nada mais maravilhoso mais gostoso, mais prazeroso que gostar de alguém... Claro que queremos amar e ser amados, mas o que importa mesmo é saber que ninguém, tenha certeza, ninguém nos amará sem que nós nos amemos primeiro. Só existem dois momentos nas nossas vidas em que nada pode ser feito: - um foi ontem, já passou e o outro é amanhã que ainda não chegou, por isso, hoje é o dia mais importante das nossas vidas, o dia para encontrar o grande amor das nossas vidas... NÓS MESMOS !
Coisas lindas . Picaço
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
”Confusão de gato”
Falando só por falar, Armando jardineiro, diz a Celeste que o vento norte é desarrumado, que mexe com as folhas enchendo o gramado e a piscina de folhas amarelas; entretanto parece dançar sobre ele uma dança inventada revirando os pés em compasso com a vassoura de dentes ralos enquanto amontoa os restos da capinagem. Celeste escapuliu-se para lá da paliça depois de pendurar roupas escorrendo a lavadura; não tem tempo suficiente para esbanjar conversa. De auscultadores gigantes nos ouvidos, Armando gingava-se sozinho no meio do gramado fazendo lembrar os baticuns de candomblé em dança de iaô de Oxóssi. Armando, anunciando vender alegria em saldo, crepúscula mazelas do dia a dia filosofando poesia de granel a Celeste que no entretanto reviengou seu percurso.
Candomblé . Kavungo
O que estou lhe dizer
é que confusão de gato
não é solução
para questão de rato
e que panela sozinha
não melhora o funge (upo com tapioca)
que se cozinha
e que solidão
no mar ou floresta
se estamos perdidos
não presta
Isso que estou lhe dizer!
Preta Velha - Lavadeira
Armando, gosta de música brasileira e, o dia todo tem colado ao ouvido os sons da macumba da Bahía. A marrabente, não é o seu primeiríssimo ritmo; está explicado!
NOTA: Adaptação de mussendo ao verso de Zé Cahango, o Soba de Portimão do Puto.
Cafufutila: -farinha de mandioca simples misturada com açúcar; falando de boca cheia lançam-se falripos dessa farinha, fuba ou bombô que perturba o interlocutor; perdigotos secos; upo: - galinha em landim de Moçambique; mussendo: -forma de conto popular (Angola)
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"Malbaratando o tempo"
Benoni . Plot dos leões
Malbaratando o tempo, negligencio nobreza olhando a primavera reflectida nos albricoques, pêssegos, maças e peras que à mistura com borbotos floridos crescem indiferentes às negligências do mundo; escrito, falado e escarrado em orgias de injustiça da crise, que toca a quem tão arduamente trabalha para obter um inverno mais reconfortado, ter dinheiro para gastos e alegrias transbordando amor. Nos passos tão vigorosos desta dança do mundo, cujos instintos sempre rosnam nos dramas, viajo para não definhar rápidamente. Hoje, Benoni de Johannnesburgo, cuspindo soltas palavras dum insípido inglês, amanhã chupando caju numa terra por conhecer, macia de nome e pulsar, encaro a vida como descreve Pablo Neruda em seu poema de libertação a desejos reprimidos. Sonhando com visão de inesperados nadas ou desejo de nova força. O peixe fresquinho pescado na lagoa do Bilene de Moçambique, do funge regado com dendem na companhia duma fresca laurentina de Maputo, maneios hipnóticos dum porvir. Talvez!
Pablo Neruda
Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o “preto no branco”,
e os pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conceitos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitamos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
simples acto de respirar.
Formiga Pixixica
Larvas de mopane
Hoje, um dia como outro qualquer mas chamado de “todos os santos”, ou dia de lembrar finados, sinto-me como a formiga “pixica” que criada sobre folhas de cacaueiro, extermina as pragas sem fazer mal à árvore. Esta simbiose simples e sustentável pode ser a fortuna planeada do futuro; sobreviver comendo ácaros ou mopane, nefastos como se, camarões fossem.
Glossário: Pixica: formiga protectora dos cocos de cacau nos cacaueiros; mopane: larva comível da àfraica austral
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
MIA COUTO - UM EXERCÍCIO DE HUMILDADE
Moçambique
O principal escritor moçambicano diz que é mais velho do que o seu próprio país. Mia Couto, ou António Emílio Leite Couto, nascido em 1947, uma das vozes mais originais da literatura de expressão portuguesa contemporânea, é também biólogo de formação. Militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) desde a sua fundação, com a qual lutou pela Independência, pratica o exercício de humildade que é fazer literatura de ficção no seu país, Moçambique. O nascimento desta sua literatura é contemporâneo ao nascimento de Moçambique. Senhor de muitas profissões, nunca quis ter nenhuma como verdadeira; uma estratégia de não ser coisa nenhuma porque, pois que sendo biólogo, escritor, jornalista ou outra qualquer coisa, fecha janelas para o mundo real, uma relação que depois se encaminha sempre por aí... Resumindo,... não quer ficar prisioneiro de si mesmo.
Mia Couto
Mia Couto tinha idéia de que poderia ser psiquiatra mas, depois, apercebeu-se de que a imagem que tinha de psiquiatria era muito romantizada. A realidade que chegou a ver mais tarde, era um mundo horrível, um mundo de prisão, que o levou ao desencanto. O ser mais velho que seu país, proporcionou-lhe naturalmente uma singular estória, pois que assistiu ao parto da sua nação fazendo poesia panfletária; usou para o efeito uma dicção original trespassando a própria fronteira da modernidade e, de uma maneira empolgante, deu realeza à suas ilusões. Em 1983, pública seu primeiro livro de poesia em que fala de amor; um lirismo medroso de quem se quer libertar das limitações políticas de então. Diz ele que não se sentou para pensar o assunto, foi acontecendo sem reflexão nem fruto, divertindo-se e aprendendo que cada um e, cada coisa, tem o seu próprio lugar.
Malangatana . Mulheres
As particularidades de Moçambique ajudaram-no em muito a tomar consciência de que ser escritor é uma coisa pequena, mas que faz muito bem ao ego. Os escritores pensam sempre que são muito importantes, que o mundo depende do que eles estão fazendo mas em Moçambique aprende-se que isso não é assim tão importante porque o universo dos que lêem é demasiado pequeno. O livro circula em áreas tão pequeninas que se torna uma espécie de aprendizado da humildade, que faz bem! Tu, na área de comunicação, se queres contactar com outros, não podes depender do livro, diz ele e acrescenta: Eu comecei a envolver-me com grupos de teatro, a trabalhar na rádio, na televisão e isso foi muito importante porque o escritor aprende a não ser escritor, deixar de o ser, usando dessa humildade, tão caracteristica do povo moçambicano.
Blogue de consulta: - Marilene Barbosa de Lima Felinto - É escritora, autora de "O Lago Encantado de Grongonzo"; colunista da "Folha de S. Paulo" - Brasil
(Segue...)
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO KIMBO
"Plastificar Maputo?" - POR MIA COUTO
Num país em que as pessoas morrem por doenças de fácil cura, a morte de uma palmeira é completamente irrelevante. Mesmo que, em vez de morte, tenha havido assassinato. E mesmo que, em vez de uma palmeira, tenham sido assassinadas dezenas de palmeiras. Maputo fez-se bonita para a Cimeira da União Africana. Palmeiras foram adquiridas (e não foram nada baratas) para embelezar a mais nobre das avenidas da cidade. O cidadão comum sabia que esse dinheiro saía do seu bolso. Mas estava até feliz por colaborar no renovar do rosto da cidade. Da sua cidade. As palmeiras reais vieram e fizeram um vistaço. Os Maputenses passeavam-se, com acrescida vaidade, pela larga avenida. Mas as palmeiras têm um enorme inconveniente: são seres vivos. E pedem rega. Apenas depois de terem sido plantadas é que se iniciaram obras estranhíssimas de abre-e-fecha buraco, põe-e-tira tubagem. As palmeiras, pacientes, ainda esperaram. Mas estavam condenadas à morte. Uma a uma, começaram a secar.
Palmeiras
Durante meses (e até hoje) ficaram os seus cadáveres de pé como monumentos à nossa incapacidade. Não houve sequer pudor de lhes dar destino. Elas sobraram ali, como provas de um criminoso desleixo. O cidadão que, antes fora iluminado por súbita vaidade, agora se interrogava: ali mesmo nas barbas da Presidência da República ? A morte destas palmeiras interessa, sobretudo, como sintoma de um relaxamento que atingiu Moçambique. A folhagem seca dessas palmeiras é uma espécie de bandeira hasteada desse abandalhamento. Não se trata, afinal, de uma simples morte de umas tantas árvores. Não tarda a que Maputo receba um outro evento internacional. Compraremos outros adereços para a cidade. Uns para embelezar de raiz, outros para maquilhar as olheiras de Maputo.
Maputo
Dessa vez, porém, compremos palmeiras de plástico. Ou plastifiquemos estas, já falecidas, depois de lhe passarmos uma demão de tinta verde. Ou, se calhar, nem disso precisaremos: à velocidade com que espaços que deviam ser verdes estão sendo ocupados por placards e anúncios publicitários não necessitaremos de mais nada. Aliás, qualquer dia, Maputo nem precisa de vista para o mar. Esta cidade que sempre foi uma varanda virada para o Indico está prescindindo dessa beleza. Locais cuja beleza advinha da paisagem estão sendo sistematicamente sendo ocupados por publicidade de tabaco, bebidas alcoólicas e bugigangas diversas. Um dia destes, nem necessitaremos de ter mais cidade. Trocamos a urbe por propaganda de mercadorias. Depois, queixamo-nos da globalização.
Savana Maputo - 20.02.04 - Mia Couto
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O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"O LADO DESCONHECIDO - D. PEDRO I - D. PEDRO IV"
D. Pedro - Imperador do Brasil
Os livros didácticos mostram D. Pedro I do Brasil numa pose sizuda, porte imperial, pouco atraente nas estampas e, mal conservado como estátua duma qualquer praça pública, mas em realidade, há uma outra face dele bem menos conhecida no Brasil e pouco explorada nos círculos da Lusofonia. "O Libertador Luso" do Brasil e de Portugal por via de acabar com a monarquia absolutista, merece à distância temporal, ser relembrado sem aquela picardia mordaz tão própria de uma rebeldia emancipalista. D. Pedro de Alcãntara e ectcetares do Áquem e Álem Tejo, Álem Mar, foi na Europa, até 1834, ano em que faleceu com a idade de 35 anos, o simbolo da moderna liberdade. D. Pedro que em Portugal se tornou o 28º Rei por sete dias no ano de 1826 com o nome de D. Pedro IV, abdicou no Brasil em nome de seu filho D. Pedro II e em Portugal a favor de sua filha D. Maria I. Foi considerado na monarquia de então, o percursor das ideias liberais; o mesmo que deu o grito às margens do riacho Ipiranga, tornou-se um consultor das cortes dominantes, que vieram de certa forma a tornar as leis no mundo, mais justas.
Simon Bolivar
No Brasil, novas pesquisas biográficas revelam-o como um fascinante homem e político culto que conseguiu transformar a América Lusa em uma única nação, destino bem diferenta da América espanhola que se fragmentou em várias repúblicas. Em termos de vastidão de território a repercução deste libertador Luso, pode equipaear-se a Simón Bolivar por ser um diplomata à altura de gerir turbulências de revoluções permanentes sem fragmantação; teremos em abono de verdade, de considerar estes dois libertadores na mesma tribuna honorífica de George Washington. Passados já longos anos daqueles periclitantes periodos da história, os brasileiros deveriam mostrar-se mais maduros no entendimento dos factos, abandonando aquela torpe insubordinação de maldizer com escárnio dos seus ascendentes; vêr com orgulho os episódios sem incutir neles a devassa ideia de que tudo foi fruto duma indisposição após se ter comido sururu impregnado de tóxinas à beira dum rio com o nome de Ipiranga.
George Washington
Não posso sentir alguma repulsa quando a maldade da picardia, menospreza monarcas que foram os progenitores da pátria segundo os conceitos hodiernos, ridicularizando-os como estadistas, monarcas ou simples homens. Como venho relembrando, nos dias de hoje, deveria coexistir uma ambiência cordial entre os países de Língua potuguesa, dissolvendo arrogâncias. Estou a avivar a memória dos Angolanos, Brasileiros, Moçambicanos e Tugas entre os demais, que de igual para igual, têem de dialogar sem a prepotência "patriota" fantasiando a história num corriqueiro piquenique, fanatizando inverdades, deformando consciências ou avivando torpes preconceitos com um riso de pedófilo sarnoso. Não se pode apear a história como se fosse um conjunto de gente feita pedra ou um pedaço de pedra feita gente.
(Continua...)
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO KIMBO
“A visão do Papalagui” - Visão de Tuiavvi *
ESCULTURAS DE AREIA
Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. Em vez de ter dó dessas grandes cabeças, o Papalagui respeita-as sobremaneira. As aldeias elegem-nas para seus chefes. Se houver, numa aldeia, uma grande cabeça, logo ela se sentirá no dever de comunicar os seus pensamentos a todos os presentes, que os admirarão e com eles se deleitarão. Quando uma grande cabeça morre, todo o país fica de luto e lamenta sua perda. Talham então na rocha uma imagem da grande cabeça e expõem-na à vista de todos, no largo do mercado. Para que a gente do povo possa admirar bem essas cabeças de pedra e isso as leve a reflectirhumildemente na pequenez da sua, talham-nas em tamanho muito maiordo que o que na realidade tinham. Quando se pergunta a um Papalaghui: «Porque é que pensas assim tanto?», ele responde: «Para não ficar estúpido!».
MALANGATANA . HOMENAGEM
o Papalagui atribui a sí próprio o qualificativo de "investigar", Este investigar quer dizer: ter uma coisa tão perto da vista que se pode tocar-lhe e meter lá o nariz, a mania de penetrar e esquadrinhar tudo com uma paixão desprezivel e de mau gosto.Ele agarra uma escolopendra, uma espécie de centopeia, trespaaaa-a com uma pequena azagaia e arranca-lhe uma pata: « O que é que parece esta pata, assim separada do corpo? como etava ela agarrada ao corpo?» E parte a perna, para ver a sua espessura, os ossos e nervos, p'ara ele, é importante , é fundamental .Tira da pata uma parcela do tamanho de um grão de aereia e coloca-a debaixo de um grande tubo possuidor de uma força misteriosa, que permite aos olhos verem com mais nitidez. Com a ajuda desse grande e potente olho, esquadrinha tudo - uma lágrima, um pedaço de pele, um cabelo - tudo, absolutamente tudo .Vai dividindo todas as coisas que vê, até chegar a um ponto em que já não pode parti-las nem subdividi-las mais.
PAPALAGUI: - Homem branco; *Tuiavvi: - Chefe de tribo das Ilhas Samôa que visitou a Europa no primeiro quarto do século XX e descreveu o que viu desta forma. As adulterações estão referênciadas.
(Continua...)
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
"OS MUXOXOS DA CULPA
O sentimento mais difícil de combater é o da culpa, mesmo quando esta é baseada em em factos falsos; o que sobra no fim é uma enorme sensação de ter sido impotente e mesmo incompetente para lidar com o ocorrido. Muita gente esqueceu e, a maioria dos retornados de África tentou ultrapassar esse desaire a que se chamou descolonização exemplar; neste episódio triste da história recente, mais de um milhão de portuguêses do álem-mar foram manobrados e explorados sem nunca se lhes proporcionar qualquer hipótese de serem indeminizados de tudo o que lhes foi tirado. As informações ao longo do tempo demonstraram que a maioria, nada tinha feito de errado lá aonde quer que estivesse. Os retornados, tendo perdido tudo continuaram vulneráveis na sua vida quotidiana em sua terra madrasta. Sem lideres e com os orgãos de ataque governamentais do PREC a serem bem acolhidos pela população de Portugal, esta gente tratada de "vira-latas" foram paulatinamente sendo acantonados nos becos do desespero tuga ou diáspora. Havia e há um preconceito muito forte da população contra essa gente que humildemente vivia sem se aperceber dos meandros podres da geoestratégia comandada por diabólicos politicos . O boicote contra estes cidadãos "estereotipados" fizeram-se sentir, sendo-lhes muito difícil sair dos becos pela via de métodos de seleção restritiva. Os "esploradores de negros" por mais explicações dadas resignaram-se a assumir culpas pagando um alto preço revolucionário ao qual estavam alheios.
Malangatana . Homenagem
Um amigo próximo, refere-se amiúde a esse lado negativo de gente dita exploradora vindo ao de cima o tão propalada pelos meios de informação; esquecendo-se a propósito das nuances diferenciadas na qual me incluo, bate demasiadas vezes na mesms tecla de minha mente. Resignadamente abano os ombros fazendo-me desentendido dos argumentos que regeito por serem inverdades grosseiras, claro! Para mim, foi o começo do recomeço repetido em mergulhos de solidão, uma fuga para dentro da alma, aonde averdade se esconde dos argumentos. O "escândalo da descolonização" tornou-se uma fita de cinema sem diálogo, cansativa de ser endurecida sem que se exija dinâmica; um veneno do qual provo todos os dias sem esperança de ser ressarçido da verdade, um processo crime na qual as vitimas são defenitivamente bandidos. Todos os santos dias busco uma reparação moral mas, sinceramente não me revejo na mentira mas, também não me é permitido iniciar o processo de reconstrução da minha imagem. Como eu, muitos mais se assemelham. Não tivemos defesa nem nunca seremos absolvidos; teremos de continuar a "muxoxar", abanar os ombros, e conviver resignadamente com a condenação geral.
O Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO EMBAIXADOR DO KAKUAKU – “Boniboni”
“O PRIMEIRO BRANCO” de MIA COUTO – 3ª Parte
Mia Couto
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“XICULULO: -Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo” |
Mantive-me português de nacionalidade mas, sou moçambicano de alma e coração. E, não tenho e não quero ter quaisquer certezas neste assunto! Quando estou em Portugal, sinto saudades de Moçambique, quando estou em Moçambique, sinto saudades de Portugal. E sinto-me bem quando estou com angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, timorenses, macaenses e portugueses da Europa. Se isto é mau? Não me parece. Se isto poderia acontecer se o rumo da História tivesse sido outro, também não me parece. Em minha casa, o inglês era a segunda língua (às vezes, alguns da família também se entendiam em ronga). É um paradoxo, uma vez que o meu bisavô participou, activa e definitivamente, na definição das fronteiras do Moçambique que conhecemos, em disputa com os "amigos" ingleses após a designada crise do mapa cor-de-rosa.
Moçambique
Às vezes sinto que alguns de nós prefeririam ter sido colonizados por outros povos. Este é o problema. Não me parece que tenham presente que, de uma forma ou de outra, todos os povos foram invadidos por outros e, ao contrário do que se diz, quando isso aconteceu, não existiu substituição de uns por outros. A grande maioria dos que lá estavam ficou e misturaram-se com os que chegaram. Isto também se passou com os ingleses e basta ir hoje ao reino Unido (a designação não poderia ser mais acertada) para verificar o que se está a passar. Portugal, dada a sua localização geográfica, está à frente da criação do homem do futuro (alguém chamou o "homem de bronze") há muito mais tempo que os outros.
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO
“AUNGUS (pirão)”
ANGU,FUNGE,PIRÃO
“XICULULO: -Olhar de esguelha, mau olhado, olho gordo”
No início do século XIX as quitandeiras reuniam à sua volta o tabuleiro do ANGU; era comida barata para acudir aos negros libertos da escravidão de poucas posses. Esta prática passou a ter lugar em casas de telha, chapa ou capim a que se chamava a “Casa do Angu” que no Brasil se passou a designar de ZUNGU. Nestas casas organizavam-se batuques ou rebitas para alegrar gente carecida vindas do kimbo, sanzala ou quilombo ainda não acostumados à vida de liberdade. Como animais da selva, depois de estarem em cativeiro tinham alguma dificuldade em se readaptar a uma vida independente. Na regência do Brasil por D. João VI havia posturas a proibir essas casas havendo além de multas, oito dias de prisão efectiva para os donos de tais casas; em caso de reincidência, a prisão passava para os trinta dias. Isto tinha por fim controlar as revoltas dos escravos alforriados ou fujões que um pouco por todo o lado no Brasil se fazia sentir. Embora ouvesse comportamentos análogos tanto no Brasil como em Angola ou Moçambique, era no Brasil que esta prática mais se fazia notar pois que, o movimento dos abolicionistas era ali mais reinvindicativo, militante e lutador.
QUITANDEIRA
O batuque, barulho, falatório e rixas de negros perturbava políticos da nobreza e gente da corte que fazia valer a sua posição de status passeando honrarias de peito feito, inchado de medalhas honorificas num qualquer calçadão, largo, praça e demais lugares públicos de exposição social.
A referida imoralidade das gentes marginais dos ZUNGUS tomando em conta os muitos relatos de cariz oficial e, naquelas casas, era comparado aos cortiços de vagabundos e criadagem aonde, mesmo assim sentiam melhoria de vida, namorando a folga de exclusão entre homens e mulheres desavindas de fortuna e farturas de amor. Ali podiam encontrar abrigo temporário, hospedagem, aconchego solidário, diversão, festa e consolo de suspiros enroscados em troca de alimentação barata, carne de charque, tripas ou peixe salgado e, até consolo religiioso p´ra colmatar aflições. A dinâmica de dominação escravista era contemporizada entre o interesse senhorial e a ideologia de novas mentes anti-esclavagista tornava-a promíscua na vigilância tutelar, escassa, anárquica, negligente e até nefasta . A prática do Angu ou Zungu que deriva da língua bantu, ainda se pode observar na periferia de Salvador da Bahia, Fortaleza, Aracaju ou nos musseques de Luanda, Benguela, Bissau ou Maputo.
Preto kota fujão
Por carências afectivas, os terreiros da Umbanda foram transformando esses lugares em cultos variados tendo as Kiandas, Iemanjás, Calungas ou oxalás com pretos velhos ordenando rigores novos de cazumbis ou maracatus.
Em 1854 podia ler-se um Edital dando alvissras de 50U000 Rs para quem entregasse um “CRIOULO FUGUDO”, assim: Crioulo de nome Fortunato, fugido desde 18 de Outubro de 1854 – de 20 e tantos anos de idade, com falta de dentes na frente, com pouca ou nenhuma barba , baixo, picado das bechigas que teve há poucos anno, mal encarado,falla apressadoe com a boca cheia olhando para o chão; às vezes anda calçado intitulando-se forro, dizendo chamar-se Fortunato lopes da Silva. Sabe cozinhar e entende de plantações da roça.Quem o prender, entregar à prisão e avisar na corte ao seu snhor Eduardo Laemmert, rua da quitanda nº 77, receberá 50U000de gratificação. CARTAZ . 1854, RIO DE JANEIRO
O Soba T´Chingange
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XI.LUNGUINE “O Maputo também tem papoilas?”
Crónica dedicada à Fidalga do Ferro-Agudo, que se ausentou para parte incerta. Vamos recordar AMÁLIA com aquele ramo de rosas, um agraciamento singelo do Soba em recentes tempos e que ficou registado na Torre do Zombo e, nos nossos corações.
PAPOILAS DO CAMPO
Passando o mercado das calamidades de Maputo, quatro quarteirões mais acima, subindo a avenida Kim-il-Sung fica a casa do Sol, hotel untuoso de pintura desmaiada burrifado de picadelas barrentas grafitadas de sujo. Ali no cruzamento entre a dita avenida e a esburacada avenida Mao-Tse-Tung sucedeu o encontro com o meu amigo, viajante de muitas façanhas amigo de longa data, fumador de bom charuto cohiba. Desta vês, acompanhei-o no vício do fumo com um bom café. Ali no “Afeganistão” estava combinado que naquela tarde iríamos falar de coisas, só por falar, sem premeditação de posturas nem temas, só mesmo para falar e... Na resposta da pergunta e vice-versa as coisas banais tornaram-se interessantes e vai daí lancei o desafio de ele pôr em escrito a estória rocambolesca do seu pai, destemido sertanejo colonial. A aguçar o desafio dei-lhe o mote da crónica; teria de magicar a envolvência dos factos, jogar com as palavras à semelhança do nosso comum amigo, o xiritung-da-xirgósia malabarista da escrita. Este meu amigo, Repsina de nome, filho dum cabo-de-guerra de linhagem castrense, recto na postura de comportamento, frontal e super verídico, dias mais tarde acabou por me entregar a crónica; praticamente um estudo duma planta que não é assim tão ruím para alguns e, desta feita, o escrito que segue é da sua autoria. Um desassossego espalmado em pó lá nas lonjuras do inframundo chingrilá não deveriam ser motivo de ternura mas, assim é a crónica:
- A papoila pertence a um género de plantas herbáceas da família das ”papaveráceas”. A sua contextura encerra uma boa quantidade de sementes que depois de amadurecidas produzem um óleo saudável e benéfico, que é transformado em rações para a alimentação de gado. Também é usada para dar cor a certos vinhos, medicamentos e para tingir lãs e malhas. As sementes são utilizadas para dar sabor a saladas de fruta, tartes, pastas, etc. Esta planta possui propriedades sedativas, anti-tússicas, sendo utilizada no fabrico de xaropes. As pétalas das flores podem ser usadas em tisanas misturadas com outras flores. A planta é ligeiramente tóxica. O seu habitat é em terrenos baldios, campos e pastos, beiras de caminhos tendo como origem a Ásia, África e Europa. A Planta herbácea, vivaz, cultivada como anual ou bianual, de porte erecto ou em forma de tufos, pode atingir uma altura de 20-60 cm. A tendência é para terem uma folhagem basal da qual as flores se erguem em hastes finas. As folhas são de cor verde-claro a verde médio, pubescentes ou mesmo cerdosas, grosseiramente dentadas ou recortadas. As flores de Papoila são solitárias, delicadas, com pétalas muito finas e brilhantes agrupadas num botão floral, podendo ser singelas ou dobradas e de várias cores desde o vermelho, rosa, laranja, branco, púrpura, amarelo, algumas com manchas negras na base das pétalas. Nos Himalaias há muitas papoilas azuis. A flor das Papoilas tem pouca duração mas rapidamente crescem outras. As sementes minúsculas estão fechadas numa bonita cápsula espalhando-as como os pimenteiros. Planta atractiva para abelhas e borboletas.
Na Grécia Antiga esta flor era dedicada a Hipnos, o Deus do Sono e a Morfeu, o Deus dos Sonhos. As estátuas de Demétrio eram decoradas com papoilas. Os Romanos dedicavam esta flor à Deusa Ceres. Segundo a lenda, Ceres vagueava pela Terra e não conseguia encontrar o que procurava. Então os outros Deuses decidiram cultivar papoilas. Certa vez a Deusa colheu as papoilas e caiu num sono profundo, quando acordou reparou que havia ainda muitas para colher. Desde então que o florescimento das papoilas está relacionado com a época das colheitas. Os Ucranianos consideram a flor como sendo o símbolo do Amor e da Beleza. Os Alemães como sendo símbolo de Fertilidade. Os Siberianos espalham papoilas nas pernas dos recém-casados, para que tenham uma família feliz e muitos filhos. Mas, na China as papoilas estão relacionadas com crenças más.
FERRAGUDO . TERRA DE NATÁLIA
A tarde ia adiantada e despedi-me desconvindo; este não foi o pedido que fiz a Repsina mas ele, creio, quis esquecer coisas menos boas nas suas recordações. Não era bem esta cena a pretendida mas, de todo o modo aqui fica a homenagem viva ao meu amigo Repsina, modesto senhor da sabedoria, pensador encantado, companheiro de muitas imaginadas viagens.
O Soba T´Chingange
FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBOEMBORA NINGUÉM POSSA VOLTAR ATRÁS E FAZER UM NOVO COMEÇO, QUALQUER UM PODE COMEÇAR AGORA E FAZER UM NOVO FIM
Afinal, quem foi Chico Xavier? Um génio, um predestinado ou um precursor?
Ao longo das sessões espiritas em diferentes anos, surgiram Eça de Queirós com o crime do padre Amaro, Guerra Junqueiro, as "Cruziliades", um novo poema épico de Luis de Camões zarolho e ressecado de amores e Oliveira Martins, um entendido em operações financeiras no início do sécloXX.
Chico, iniciou sua actividade espírita no Centro Espírita Luiz Gonzaga em Pedro Leopoldo, depois devido a uma insistente labirintite mudou-se para Uberaba já com 17 centros Kardecistas; ali Chico pensava estar mais protegido espiritualmente.
Uberaba é uma cidade agora bem conhecida porque ferroviários, jogando algures pétanca com uma bola de pedra, um paleontólogo pediu para verificar a "pelota" com 15 centimetros de diâmetro tendo concluido em análises laboratoriais ser um ovo de Titanossauro; dali sairía um bichinho que em adulto pesaria mais do que quatro elefantes. Em realidade a terra tem os seus segredos e nós gente de sangue vermelho passamos nele em menos tempo do que proferimos um aaaiii.
Chico Xavier para qualquer problema recorria ao Envangelho segundo o Espiritismo e, sempre dizia humildemente ao povo: - Esqueçam esta ilusão de que nós podemos voar. Isso, é tudo mentira.
OS AMIGOS EM S. VICENTE NA BUSCA DE CHICO XAVIER . 24 ABRIL DE 2010
Um dia dois jovens fazendeiros do Sertão pegaram Chico Xavier de surpresa apavorados que estavam com a grande quantidade de cobras cascavéis em suas terras provocando muitas baixas nos cavalos e já sete tentativas em ataque a seu pai sendo a última quase fatal; Chico Xavier pigarreou ao revelar sua receita que resultou: - Coloquem nitrato de prata aos montinhos nos lugares aonde é hábito elas aparecerem; isto às vezes resulta, disse. Os homens fizeram o que Chico ordenou e, em presença de um benzedor e foi remédio santo, desapareceram as cobras .
Na noite de 28 de Julho de 1971, Chico Xavier no espírito de Emmanuel teve o seu maior embate com o povão; Responsável então por quase 107 livros ditados por quase 500 defuntos, submeteu-se via satélite a um estrondoso auditório televisivo na TV Tupi. Entrevistado por três jornalistas no programa "Pinga-Fogo", esteve dbaixo de fogo por três horas. Nesta entrevista insurgiu-se contra o "delito do aborto" usando a expressão " assassinio de crianças" e, referindo sempre de forma diplomática ter imenso respeito pela Igreja Católica " em cujo seio formei a minha fé" disse, e defendeu a homossexualidade e a bissexualidade como "condição da alma humana", que não deveriam ser encaradas como "fenómenos espantosos, atacáveis pelo ridículo da humanidade".
MASSALA . MABOQUE
Ausentei-me momentâneamente para saudar com um d´zixili (bom dia) à negra (miama) Anita Moçambicana e, num curto espaço de tempo cruzei conversa com ela a recordar antigas lembranças de Xi-Linguine (Maputo), coisas do matope (lodo) nas terras fartas em mariscos graças ao N´kulo Kulo (Deus em Zulu) ou T´Chikwemo (Deus no dialeto marronga) e, de quando por lá passei num mês de Fevereiro expressamente para beber "canhu", a bebida típica dalí
Ali, eu não era um T´Chingange, era sim um Mulungo mulandi (branco mazombo) Muloi (feiticeiro).
Depois de recordar as picadas poeirentas do Inhassoro a caminho da Beira Ibib que estava a meu lado recordou-me do vinho duma árvore sagrada que bebi numa caneca de esmalte esmurrado e sujo de meter medo a qualquer mulungo, gweta como eu. Nesse então, seguimos viagem até à Beira carregados de massalas enormes, maiores que os de Catete em Angola, só que lá, tinham o nome de maboque. Antes de cruzar o rio Limpopo bebi vinho de cassoneira, conhecido por marufo ou malavo, também por um caneco amachucado e sujo. Mesmo com a colera à vista matei saudades sempre naquela de que o que tiver de acontecer, acontece.
(Continua...)
O Soba T´Chingange
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A turma da Galera do Paraíso
Em terras de Vera Cruz reunidos que estavão condições para formar uma Assembleia digna da Globália deu-se alvissaras aos emissários originários de Cabo Verde, Moçambique, Angola, Portugal, Brasil e Itália.
Esta amálgama de gente designada de “Turma da Galera” após um entretanto do Soba T´Chingange após a chamada “por badalo”, acharam por bem dar conhecimento ao Reino de Manikongo, ao seu rei D. Grafanil I, a toda a nobreza, clero e Kimbanda, deste modo.
Em quórum unissono tomaram a decisão de que este Akto ficasse registado nas gavetas de jatobá da Torre do Zombo com a chancela de D. Rosa Comendadora das terras do Paraíso e Massagueira.
Assim, a representante de Cabo Verde Leonor, tendo ofertado uma cachupa com todos e a todos, foi-lhe atribuido o galardão maior das terras de “
Miguel Cervantes idealizou uma guerra de vento tendo moinhos como guerreiros inimigos. Aludindo a essa guerra sem sangue, retribuimos o agradecimento a Leonor com o seguinte documento:
ALVARÁ DA CACHUPA
A vida sem amigos, é um céu sem andorinhas.
A turma da GALERA DO PARAÍSO, neste dia da graça de 15 de Novembro de 2009, explorando os recantos da amizade que existe em cada um de nós, reunidos em Assembleia no lugar do Francês em Alagoas do Brasil com uma mui digna representação nas pessoas de Dona Rosa, Comendadora da Galera, Senhor Tulio, Emissário do imperador defuntado Nero, Senhor Aristides Arrais, Donatário da Lagoa Azeda e seus mangais, e os Exmos Antónios I, II e III respectivamente Embaixadores da Calábria, da Guarda e Allgarves, com suas Exmas Esposas, vêm neste singelo Akto, agraciar a Exma Madame Dona Leonor, como a Princesa da Cachupa.
Extraindo alegrias das pequenas coisas, com Ela, queremos fazer da vida um espéctáculo permanente revelando-nos: - Ás vezes o maior inimigo que temos, somos nós próprios.
Porque estamos aqui reunidos fazendo um hino à vida, vamos recordar este agrado rindo dos nossos anceios e outros absurdos obstáculos com a humilde chancela que nos foi legada: - O Nome, Sobrenome e, Cognome.
E, para que este acto conste em registo de memórias e emoções, com Ela, a Princesa da Cachupa, soltamos as depressivas visões omissas, compartilhando o caminho e o carinho aos vindouros.
Encarquilhados num feitiço louco, subscrevemos esta dita cuja.----
A Agraciada:__________Leonor Jordão
Os Agraciadores:_____ Toda a Turma da Galera do Paraíso
O Soba T´Chingange
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5º encontro com a kianda Januário Pieter
Um verdadeiro N´Zambi N´kuluculu
MERCADO DO XIPAMANINE . MOÇAMBIQUE
Demos um forte abraço, convidei-o a sentar-se mas ele continuou de pé como a mostrar a sua nova indumentária e postura. O penteado de Januário Pieter era um frizado afro com uma trança a retorcer no cocuruto por uma abertura do seu chapéu, uma quijinga do tipo Cumba-yá-lá tendo uma faixa zulu a contorná-la. Da orelha esquerda pendia um dente de facochero enquanto que a contornar o pescoço havia dois colares formando um conjunto colorido de missangas e n´zimbos; um destes tinha um circulo de madeira de pau preto com um desenho curioso de uma ranhura curva ascendente que entroncava numa helicoide de três circulos num crescendo para a direita e fechando por um cemi-circulo mais alongado indo quase fechar no mesmo sítio de início.
Esta enigmática figura, ficou no meu consciente para mais tarde me ser decifrada. Nos pés, trazia umas sandálias em tiras de cabedal e atilhos que se iam amarrar a meio da canela. Vestido, tinha umas calças de vermelho berrante às bolas brancas; nas bolas brancas de forma estilizada aparecia aquele símbulo de curvas em elipse de caracol que quase fechando no mesmo lugar, mais parecia um bico aberto de papagaio. Eu estava estupefeito com tal estilo. Por cima das calças folgadas tinha uma camisa liláz com desenhos na forma de cornos de palanca de cangandala sem cinto a prender, tipo balalaika e, por cima de tudo isto tinha uma espécie de túnica com folhos brancos no fnal de umas largas mangas. Aquela túnica de uma seda especial tinha as cores preta e rubra como a bandeira de Angola e o mais curioso é que tinha em lugar da catana e a roda dentada, a esfinge de josé Eduardo dos Santos. Háka! Eu estafa burro-feito com todo este aparato de n´kondi. Pieter estava um verdadeiro espantalho Xis-pe-te-Ó, super moderno e práfrentex. Até as sandálias estavam feitas em um cabedal firme, reviradas para cima como uma meia lua na forma dum genuino aladino. Aquilo era demais, uma verdadeira mumia rejuvenecida de kalungas encrespadas. Um extra e vistoso camacoza carreagado de zingarelhos. Mas, após a minha mirada, Kianda Pieter falou: - Meu camarada, mano kamba, como estás? Tu, continuas um tipo fixe! Seguiu-se uma pausa sem muxoxo, só por respeito com medo. Pieter mudou mesmo! Arrepiei-me. Que era isto? O kota estava no literalmente. - Sabes meu, rejuvenesci à bessa, uns anos mesmo. Vou até te contar só. - É mesmo! Como foi isso? Perguntei engalfinhado em susto. - È asim, começou ele : - Estive na festa da Muxima, no entretanto esquindivei Kwanza acima, Kwanza abaixo relembrando meus tempos de candengue. Até fui numa rebita mas, mais tarde eu conto só. E Pieter confinuou falando. Tinha muitas mucandas na cabeça para contar. - O mais importante nesta minha vida de matumbola mutalo, passou-se Eu, só abanava a cabeça. E, ao dizer isto pieter, fez um gesto longo com ambas as mãos envoltas nos folhados brancos, de cima abaixo indicava o estafermo de figura excêntrica numa simultânea adoração ao tal N´kuluculo. - Pópilas... Eu, estava feito um plimplau. Glossaário: Quijinga: - gorro de autoridade tradicional Cumba-yá-lá: - ex- governanta da Guiné-Bissau Facochero: - javali preto com dois pares de dentes salientes N´zimbo: - concha, dinheiro antigo do reino de N´gola da ilha Mazenga Palanca: - animal de grande porte e com esguios e longos chifres; simbolo de Angola (Quase em extinção) Cangandala: - local reserva natural em Angola háka: - Irra!,Caramba!, porra! n´kondi: - poder da magia em fetiche, boneco de maldades kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral camacosa: - maltrapilho kamba: - companheiro, amigo, camarada (de guerra) muxoxo: - sílvido produzido pelos lábios de vento aspirado entre dentes, estupfacto ou sinal de desprezo, sinal de desencanto esquindiva: - fazer revianga, finta, fazer piruetas, bazar dalí candengue: - moço, rapaz, pivete (Brasil), puto (Portugal) rebita: - baila na sanzala ou kimbo, dança de umbigada com as garinas mucanda: - carta, missiva, relatório matumbola: - morto vivo, uma assombração mutalo: - espíritos mortos sem ordem de n´zambi (Deus) muxiloanda/o: - natural de Luanda, camundongo, (quem bebeu água do bengo e apanhou paludismo ainda candengue) minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado cambuta: - homem baixo, atarracado N´kuluculu: - N´Zambi, Deus na língua Zulu Miama: - preto na língua Zulu Xi-lunguine: - nome aoriginal de Maputo
Pópilas: sáfa! Caramba!, c´os diados!
Plimplau: - pássaro saltitante, irrequieto
(Continua ... Alhambra de Granada IV)
O Soba T´Chingange
NA ROTA DOS ELEFANTES
Na rota dos elefantes, de Maun cruzei o Choba como um pioneiro caçador de marfim. Corri o mato longínquo alimentando-me a carne seca de kudu e chá rooibos até que parei de espanto nas cataratas Victória falls, um magestoso volume de água caindo em turbilhão. É o Zambeze rugindo, entalado entre o Zimbawe e Zâmbia.
Xi.línguine entra nesta estória porque eram os comerciantes monhés que adquiriam os dentes de elefantes para serem revendidos por um alto valor em Diu, ou Goa expandindo dali o negócio para para a restante India.
Era no bairro das Fontainhas do Maputo, antigo Xi.línguine que o meu fantasma feito caçador, numa geração passada, ia vender este marfim. Era um recanto de Goa em África com a azáfama de baneares e mouros em armazéns térreos e prédios com cimalhas, janelas estreitas e portas grossas.
Por entre pátios estreitos, telheiros de quintal acanhados, muros grossos, escadinhas e anexos cubiculos, no acto de negociar a bom preço, os aromas orientais, cheiros doces de especiarias fortes, embotavam-me a perspicácia do negócio de marfim.
Os armazéns de chifres e panos dispunham-se laterais ao pátio dos fundos, quartos detráz a dar para os jardins com mamoeiros e plantas aromáticas. A mercadoria confundida com as tarefas da familia empilhavam-se a forrar as prateleiras da loja até acima.
O retalho no armazém misturava-se com chifres de elefante.
Este meu fantasma de à cem anos atráz não chegou a fazer fortuna porque era uns mãos largas com as meninas da Delagoa bay. Era um verdadeiro aventureiro.
Os monhés, com talento de negociantes, tenás trato, solicitos ou submissos, regateavam até ao ultimo suspiro.
- Eu, vai comprar mas têm vender barato sinhô.
-Muito caro sinhô, melhor é trocar por este pano bonito, chegou ontem. O sinhô ganhar bom dinheiro, levar no Puto, nós fazer negócio.
- Não quero, são ciquenta libras. Não têm mais conversa.
- Vem cá sinhô, vamos dididi, eu dar quinze libras e mais este e este retalho bonito.
O meu passado fantasma fartou-se, e lá acabou por ficar meio por meio na divisão de libras e panos da India.
- O raio do paquistanês, levou a melhor.
Naquele então a vida ainda era mais difícil.
O Soba T´chingange
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