Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
MALAMBAS CLXXXIII

MOKANDA DO DIA – 10.12.2017Tukya I . Peixe da chana - Apaziguando rijezas adversas, perfilando anjos com a singularidade do mundo . É o nosso pensamento que cria a nossa realidade…

Por

t´chingange2.jpgT´Chingange

Na voragem dinâmica da vida, procuro actualizar-me no dia-a-dia e, ao longo da minha vida registei em meus arquivos de memória muitas notas, alguma que nem quereria registar mas, nem sempre as borrachas do tempo e da singularidade do facto se destroem com um estalar de dedos. Em África também há rios que se apagam na terra, nunca chegam ao mar como o Cuando e o Cubango que formam o Delta do Okavango ou o Etosha Pan e outros que desaguam em desertos de areia fina e, que em tempos foram pântanos ou lagos rasos.

etosha4.jpg O Etosha Pan, é um lago seco de 120 quilómetros formando o chamado Parque Nacional Etosha, um dos maiores parques da vida selvagem da Namíbia. A vasta área é principalmente seca, mas após uma chuva forte, ela adquirirá uma fina camada de água, que é fortemente salgada pelos depósitos minerais na superfície desta grande panela. O Etosha Pan é principalmente lama de barro seco dividida em formas hexagonais que à medida que seca, racha, e raramente é vista com uma fina camada de água cobrindo-a.

etosha6.jpg Foi no Etosha que vi a maior diversidade de animais. Supõe-se que o rio Cunene alimentasse o lago em idos tempos, mas os movimentos tectónicos da placa ao longo do tempo causaram uma mudança na sua direcção, resultando em um lago seco e deixando a referida panela salgada. Agora, o rio Ekuma, o rio Oshigambo e o rio Omurambo Ovambo são a única fonte sazonal de água para o lago.

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Tipicamente, pequenas águas do rio ou sedimentos atingem o lago seco porque a água penetra no leito do rio ao longo de seu curso de 250 quilómetros, reduzindo a descarga ao longo do caminho. Estas vastas zonas de poucos declives formam as chamadas planícies africanas, chanas ou anharas de clima extremamente seco. E, o curioso é de que a esta mesma latitude e para o lado poente temos os desertos junto a costa do Sul de Angola e Norte da Namíbia que são banhadas pela corrente fria de Benguela.

etosha2.jpg Refiro a corrente fria de Benguela porque constitui um dos mais importantes factores de moderação climática desta zona de África com introdução na fauna as focas e pinguins transportados em icebergues que vindos da Antártida aqui são largados. No Namibe, Tômbua, Baia dos Tigres e a Costa dos Esqueletos. Pode até verificar-se famílias de golfinhos na Angra dos Negros a actual Moçâmedes, lugar aonde os albatrozes ou alcatrazes voam baixinho junto aos barcos pesqueiros.

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Cabe qui referir que ante da independência de Angola, em 1975, a pesca tinha importância no mundo porque chegou a ocupar o segundo lugar na escala dos maiores produtores, logo a seguir à República do Perú. Vasculhando minha memória recordo os muitos contadores de estórias de caça e pesca e, até dum amigo meu de nome Araújo ter andado a passear uma pacaça em pleno centro de Luanda; em plena Mutamba. Era muito vulgar entre 1950 e 1960 comprarmos carne de caça a vizinhos que se internavam pelo mato em aventura de caça.

etosha0.jpg Para milhões de pessoas que vivem no mato e nunca viram o mar, o mar não passa de um mistério longínquo e insondável naqueles idos tempos mas no entanto, estes comiam peixe seco saído do mar. Na era colonial e a partir da costa eram enviadas “malas” de peixe para o interior; estas malas iam por comboio ou levadas por camionistas praticando no seu dia-a-dia uma aventura. O peixe sem cabeça, fosse corvina ou carapau, depois de seco e salgado era acomodado em camadas sobrepostas e em zig-zag simétrico, cabeça com rabo – rabo com cabeça.

etosha5.jpg Formavam blocos compactos atados e contidos em esteiras feitas com fibras de grossa mateba. Estas malas de peixe tinham tanta popularidade e valor comercial no interior de Angola que a partir dos anos cinquenta se transformaram no principal produto de candonga no interior do território. E, por que razão se contrabandeava o peixe seco? Vais ser assunto da próxima mokanda cujas falas vão incidir sopre o peixe capim nascido do pântano …

Nota: Alguns dados, foram retirados das Crónicas de Kandimba de Sebastião Coelho

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:05
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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017
KWANGIADES . XXIX

NAS TERRAS DO FIM-DO-MUNDO - T´CHINGANGE NO OKAVANGO

Kinga só patrão! Kwangiades são as musas do Kwanza…

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Nos muitos dias insólitos, encontro factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem! A maior parte das vezes são traduzidos com cheiros de África catingados, que não sendo exóticos de todo, são dos mais genuínos perfumes como o cheiro das primeiras chuvas que salpicam a terra da savana no kalahári.

monteiro7.jpg Sucede que um dia e a convite de João Miranda, assisti bem na margem do rio Okavango (Cubango) a uma reunião de empresários presidida por San Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no Ndonga Linena River Lodge, dele desceu um velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser de distinto pau…

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Com seus pés e olhos grandes, caminhou em direcção às autoridades locais, depois veio cumprimentar os convivas e suas visitas aonde me encontrava. Foi muito agradável em suas palavras, sua característica de humilde, postura e atitude. Naquela reunião, referiu a guerra que grassava do outro lado do rio – Angola. Pediu que não dessem guarida aos militares da Unita, tendo mesmo dito aos militares que os ripostassem com fogo de morte.

monangambé.jpg Ele era o líder do povo do Sudoeste Africano, (Ovamboland People's Organization) e eu, um cidadão disfarçado de turista caçador de elefantes. Soubesse ele que eu era um responsável coordenador da Unita no exterior e, teria apontado o dedo em minha direcção. Assim não sucedeu embora as estruturas de informação e inteligência pudessem saber de algo; minha missão era ver os pontos de reabastecimento à Jamba a partir da Namíbia.

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O tempo fez diluir estas contrariedades de estar sob escuta; José Pedro Cachiungo fez-me a advertência de poder ter alguma contrariedade e mesmo sem salvo-conduto meu comportamento foi de singela observação. Para todos os efeitos, era um carcamano branco a rever os cheiros e sabores de áfrica na região Ovambo; usar os olhos, os ouvidos e fotos, seria minha tarefa de xirikwata tal como aquele pássaro comedor de jindungo.

MIRAN3.jpg Para além de ter visto coisas do meu agrado, guardei em mim as falas que ouvi de patrícios e carcamanos embebidas em um tempo que se pretendeu esquecer e, que se colaram a cuspo no subconsciente para não ferir susceptibilidades. O que ficou preso ao meu cerebelo gustativo foi aquele café cheiroso servido a escassos metros da corrente do rio Cunene. Nunca mais esqueci esses momentos de alegria, conversa solta, alegre com estórias, anedotas e bizarrices passados com Dona Elizabete que falava com o gentio com estalidos e João Miranda, o patrão do kimbo.

IMG_20170720_125720_BURST010.jpg Mas a mentira mais descarada que ali ouvi foi a de Oliveira, um amigo que conheci e que ia e vinha até o Mucusso, aonde estava umbigado. Pois um belo dia pensou ter morto uma zebra e, estando a abrir a mesma, depois de separarem seu couro com um rasgão ao longo da barriga, qual é o espanto de num entretanto de distracção ela, a zebra, levantar-se e fugir com as peles a dar a dar batendo-as, como se asas fossem. Esta peta, ouvida com atenção ficou-me entalada na mente ate hoje…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:47
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
KWANGIADES . XXVIII

NAS TERRAS DO FIM-DO-MUNDO

T´CHINGANGE COM REIS VISSAPA* NO OKAVANGO

Kinga só patrão. Kwangiades são as musas do Kwanza…

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Tive a sorte de atravessar os muxitos da África com Dy Reis Vissapa; desde Windhoek, capital da Namíbia, subimos para norte até o Rundu na margem do Cubango e Catima Mulillo às margens do rio Zambeze. Nós, uns gwetas com olhos de águia, íamo-nos tornando mwatas na interpretação das terras do fim-do-mundo conciliando o antes e o agora daquela região de Okavango. E, de novo revisitamos as mulembas de N’Zambi com os kambas daqui, mais dali, ouvindo suas falas de espanto.

  DY00.jpg..soba15.jpg Mostraram-nos aquele arbusto parecido com rebentos novos de loureiro de onde cortam umas varas para introduzir na boca dos sobas defuntados. Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho no lugar do Mukwé; ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas.

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De certa forma os sobas são os guardiões da memória, das tradições antepassadas e, por isso teriam de já defuntados ficar de boca aberta para dizer suas últimas vontades. E, era aquele pau que dava nobreza a este procedimento e, até que o Kimbanda falasse por delegação do morto, tudo o que lhe foi transmitido no tempo, a boca não era encerrada.

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Eu e Dy, pela indumentária, mais parecíamos uns caçadores de elefantes. E, foi uma turista de cor branca de leite que nos perguntou se eramos mesmo caçadores de elefante! Olhamos um para o outro admirados de ver ali esta branquela de mochila pedindo boleia em plena faixa de Kaprivi e, nem sei bem o que respondemos mas o que ficou desta cena foi acharmos demasiado destemida a sua atitude em cruzar áfrica sozinha. Disse-nos que ia para as cataratas Victória fazer jumping na ponte do Stanley que liga o Zimbabwé à Zâmbia.

dy15.jpg Foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo. João Miranda, um chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de fuga de Angola. E, que depois veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1974

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Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Disse ele após longas falas como dando um finalmente àquele passado mas, sempre ia falando raspas desse conturbado tempo. Mesmo naquele lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido comerciante.

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Este quase lendário homem da mata, pouco a pouco recorda com raspas de esquecimento propositado peripécias e, ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda; fazia parte do batalhão Búfalo! Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes.

miran01.jpeg Seguimos viagem rumo a Nascente deixando esta gente que como nós, saíram dessa imensidão dos matos de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado; assim foi dito por Elizabete Miranda sua esposa. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo.

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Prosseguindo nesses milhões de espinheiras ressequidas de para além de Okahanja, e Divundo atravessamos terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá longe por quilómetros de distância, situadas à sombra de acácias; Farmes quase invisíveis aonde só o depósito de água ou o moinho de vento se vêm tremelicando nas onduladas quenturas. A caminho de Catima Mulillo passamos antigos acampamentos de Omega, chiam segredos de ferrugem abandonada, coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes e muita aventura em rente dos olhares de hipopótamos. Estes nada me falaram, preocupados que estavam em espargir merda ao seu redor para marcar território.

miran03.jpg Por todo o lado podem ver-se orixes e avestruzes bordeando as áridas terras aonde até o deus-me-livre dos mortais, tem de cohabitar com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pêlo. Lugares muito diferentes das regiões a Sul de Ovambo aonde os guetos não juntam brancos com pretos.

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*Reis Vissapa - Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:27
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Quinta-feira, 16 de Novembro de 2017
MULUNGU . LVIII
NAS FRINCHAS DO TEMPO . REINO SHOBA . Warrenton - 24.08.2017 : Parte 4 de IV

- Escritos da minha mochila

-Um amigo receitou-me Pimenta Caiena para controlar a pressão arterial – Por agora passeio o esqueleto no reino bushmen...

Mulungu: Pode ser árvore, mas também, homem branco em língua Xhosa (Cosa)

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Estando eu no Reino Xhoba, reino sem rei com cerca de 100.000 súbditos, pertença de vários países de África não posso deixar de falar deles. Soube porque li em algum lugar que o anterior presidente da África do Sul, Nelson Mandela atribui a estes um território de quarenta mil hectares. Ora se um hectare tem dez mil metros quadrados, quatrocentos ha darão 400 Km quadrados. Se para aí transplantarem o cacto Xhoba, vai dar muito cacto para amaciar barrigas inchadas por esse mundo.

fiume5.jpgA maioria do povo bushmen continua a viver em casas cobertas a capim em pequenos aglomerados, por vezes a centenas de quilómetros de distância da cidade mais próxima. Estas palhotas são circulares tendo a altura de uma pessoa no seu centro. Para sua execução juntam uma boa quantidade de paus direitos que depois são curvados e enterrados no solo pelas extremidades. Estes são amarrados ao centro com mateba, uma casca retirada de uma árvore que entrelaçada faz de corda.

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Com outras varas mais finas e longas formam uns arcos progressivamente maiores à medida que são postos do centro da cobertura para o solo; estes paus tipo verguinhas mais finas, são amarrados aos outros mais grossos que estão na vertical tipo meridianos. É deixado um pequeno rectângulo por forma a permitir a entrada e saída de uma pessoa.

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Os seus instrumentos são bem escassos pois com muita frequência, mudam de sítio por via de seguir a caça, seu sustento. Têm lanças com ponta de ferro como nossos primitivos ascendentes que envenenam com a banha de um verme que apanham ainda em casulo. Chegam a matar girafas com o uso de sua astucia e modo felino de andar na mata, pé ante pé e sempre nas mesmas pegadas sem fazer estalar qualquer tronco seco.

koisan12.jpg Usam lanças e arcos de flexas, transportando mantas para suportarem o frio das noites que chega a graus negativos. Seus pratos são feitos de aboboras e os copos de massala ou maboque. São óptimos pisteiros e conhecedores de raízes cheias de água que espremem para vasilhas ou ovos de avestruz.

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As autoridades estão dando alguns apoios por meio de lhes facilitar a fixação colocando em sítios estratégicos poços de água alimentados por energia solar! Creio também que lhes fornecem mantas e facilidades de transporte para levar seus frutos a postos de venda.  Fazem artesanato a partir de espinhos de porco, ovos de avestruz, cascas de massala e lindos colares de missangas e frutos do mato. Usam uma quinda ou balaio maleável aonde colocam seus parcos pertences.

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Seus conhecimentos milenares estão sendo estudados ao pormenor em algumas universidades da África do Sul por forma a conhecerem melhor sua tradição de estórias verbais com lendas e dando a estes benefícios na forma sustentável sem os viciar. O Xhoba cacto inibidor do apetite vai através de convénio governamental contribuir para lhes criar hábitos de sedentarismo.

koisan10.jpg Não sei se os exploradores Tugas de outros tempos davam importância a alguns factos e se o fizeram ficaram relegados para segundas núpcias de estudo. Serpa Pinto recebeu a missão de estudar no Alto Chire a construção de uma linha de caminho de ferro que assegurasse a ligação do lago Niassa com o mar, apoiado numa forte coluna militar, que mais tarde se ligaria no baixo Catanga a outra coluna portuguesa vinda do Bié, sob o comando de Paiva Couceiro

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Portugal deu início a várias acções de ocupação: entre 1887 e 1890; Artur de Paiva ocupou o Bié e Paiva Couceiro foi enviado para o Barotze. Numerosos sobas prestaram vassalagem a Portugal. Tendo isto em vista, os ingleses começaram a aliciar os chefes indígenas das regiões visadas, incluindo aqueles que já tinham prestado vassalagem a Portugal como os Macololos e os Machonas e até o célebre régulo de Gaza, Gungunhana.

cacto xoba2.jpg O envio de tropas e de funcionários para todos os lugares onde se fazia sentir a sua falta era, porém, virtualmente impossível para Portugal. Por outro lado, o acordado na Conferência de Berlim dizia respeito fundamentalmente aos territórios junto á costa, já que o “hinterland” africano era muito mal conhecido. Daí as numerosas expedições organizadas de reconhecimento.

nauk03.jpg Os resultados da Conferência acordaram Portugal para a realidade. Se bem que o esforço estratégico tivesse sido orientado para África após a perda do Brasil, pouco se tinha feito por via da instabilidade da vida político-social da Metrópole, M´Puto e das extensas vulnerabilidades existentes.

FIM

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:45
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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017
MULUNGU . LVII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . REINO SHOBA . Warrenton - 23.08.2017: Parte 3 de IV

- Escritos da minha mochila

-Um amigo receitou-me Pimenta Caiena para controlar a pressão arterial – Por agora passeio o esqueleto no reino bushmen...

Mulungu: Pode ser árvore, mas também, homem branco em língua Xhosa (Cosa)

Por

soba0.jpegT´Chingange

O Xhoba rebaptizado pela indústria farmacêutica em um produto P57 suscitou todo o interesse pela empresa multinacional Pfitzer que pagou algo como 32 milhões de dólares à Pythopharm para desenvolver um medicamento para não engordar. Os ocidentais dirão ser maravilhoso empanturrarem-se de comezainas e depois tomarem um comprimido para lhes tirar as calorias reduzindo os coiros michelins caindo das faldas da barriga.

koisan9.jpg Tentam afirmar que o Xhoba também tem efeitos afrodisíacos e se assim for vai ser sucesso certo! Não vai ser necessário tomar o tal pau de Cabinda ou raspas de rinoceronte para ter a musculatura certa no músculo viril! Não sei é se esses tais 100.000 bosquímanos existentes num vasto território que abrange Angola, Namíbia, Botswana, South África e Zimbabwé, serão mesmo beneficiados conforme ditam as promessas. Não sei não!

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Eles, os bosquímanos eram felizes antes de conhecer estes milagres da civilização; não sei se o serão mais daqui para a frente com tanta gente a ter pena dos coitadinhos quando afinal esse modo de estar já lhes está no sangue há muitos milhares de anos. Sempre aparecerá uma Ong a lhes dar cobertura, apoio e educação e de vício em vício serão levados a formar chagas sociais no mundo que dizemos civilizado! Encharcar-se-ão de cachaça até arrumarem o tédio entre as sandálias  e a esperança. Mas, será bom que as instituições ajudem da forma certa estes nossos ancestrais...

koisan7.jpg As terras que os Tugas ambicionavam em África supunha-se não pertencerem a ninguém em particular e, a nosso favor, na Conferência de Berlim de 1885, podíamos alinhar as diversas explorações feitas em várias épocas por portugueses, mas os ingleses, nossos grandes amigos da onça, como soe dizer-se, tinham outros interesses, dos quais se destacam o desejo de Cecil John Rhodes.

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Ele, Cecil Rhodes, desejava construir seu sonho em um corredor que ligava o Cabo ao Cairo e a descoberta de diamantes em Kimberley e ouro no vale de Kaap, abriu-lhe a pestanas e o prazer de ser grande. Estas áreas só poderiam ser tomadas pelo torneamento dos estados bóheres do Orange e do Transval (como veio a acontecer). Além do mais um sonho deste senhor era por si só uma grande limitação aos avanços de Portugal. Em todas estas politicas os khoisan (bosquimnos), nunca foram tomados em consideração... 

koisan1.jpg Que nem cordeirinhos os diplomatas do M´Puto, subestimavam-se àqueles por via dum tratado que só nos tramava. Sempre tramou! Pois deste sonho do Inglês Cecil Rhodes e do devaneio imperial de Bismark, derivou o maior esforço militar no Sul Angola, nas margens do rio Cunene, onde existiam duas tribos aguerridas: os Cuanhamas e os Cuamatos.

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Os historiadores sempre de forma suave abordam esta questão sem chamarem os nomes certos aos bois e, se Angola tem as fronteiras que tem hoje é aos abnegados militares de outrora que devem honrarias e não a buçais sobas que se vendiam aos alemães e ingleses por cachaça, pólvora mais uns canhangulos à mistura. E, os khoisan continuavam ignorados na história

koisan11.jpg É tempo de os mwangolés da Luua, assentarem ideias de que nem tudo vindo dos Tugas foi mau. Muitos ali ficaram na terra que agora os desmerece. Em 1890 tinha sido morto o herói Silva Porto, atraiçoado pelo soba local, que acabou preso por Artur de Paiva em 1893; o mesmo oficial dirigiu a expulsão dos Hotentotes (Holandeses) e mais tarde em 1898 comandou as operações no Humbe durante sete meses para vingar a morte do Conde de Almoster e dos seus dragões. Derivei um pouco para se entender o que efectivamente se passava neste então naquela áfrica até então esquecida; tanto assim que o rei Belga ficou dono dum país - o Kongo Zaire.

macuta 1.jpg A insubordinação destes povos era fomentada pelos missionários luteranos e o assassinato de dois comerciantes portugueses, em 1904, levou ao envio de uma expedição para “bater” o território “Ovambo”. Mas um grave revés, em Pembe fez abortar toda a operação colocando toda a região Sul numa situação perigosa. Foi então nomeado Governador da Huíla o Capitão Alves Roçadas, em 1905.

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Este notável militar desenvolveu um conjunto de operações militares, coroadas de êxito, destacando-se os combates de Mufilo e Aluendo, em 1907. Em Angola dá-se a pacificação dos Dembos, pelo Capitão João de Almeida, (concluída em 1913 por Norton de Matos), e Roçadas pune os Cuamatos. A seu tempo voltaremos a falar dos bosquimanos e seu cacto xhoba...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:16
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Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
MULUNGU . LVI

NAS FRINCHAS DO TEMPO . REINO SHOBA . Warrenton - 23.08.2017 : Parte 2 de IV

- Escritos da minha mochila

-Um amigo receitou-me Pimenta Caiena para controlar a pressão arterial – Por agora passeio o esqueleto no reino bushmen...

Mulungu: Pode ser árvore, mas também homem branco, em língua Xhosa (Cosa)

Por

soba0.jpegT´Chingange

As viagens de exploração em África sucederam-se por parte de Portugal, Inglaterra, Bélgica, França e até a Alemanha de Bismark. Toda esta actividade veio a culminar na Conferência de Berlim de 1884/5, onde se fez a partilha do continente desencadeando-se assim uma autentica corrida a África. As possessões portuguesas de África eram quase apenas ponto de passagem, interpostos comerciais ou lugar de expiação de condenados durante três séculos e meio.

PAI7.jpg As estruturas sociais eram assim, muito débeis. Foi, portanto, um povo desmoralizado e um governo hesitante e fraco, que em meados do século XIX teve de passar a olhar para África, por um lado para encontrar alternativas à perda do Brasil; por outro, para fazer face às potências que nos queriam esbulhar. Em verdade nunca se conseguiu pôr de pé um plano global de actuação com políticas encetadas e, foram-no quase sempre reactivos e nunca por antecipação.

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A Portugal faltava-lhe gente para dar envergadura a um projecto de colonização mais eficiente e rápido. Era o Brasil que verdadeiramente absorvia todas as apetências Lusas. Dos sucessos ultramarinos destacam-se a travessia de África de Angola a Moçambique, e volta entre 1804 e 1814! Mas, isto foi muito para tudo mais tarde, passados que foram cento e sessenta anos resultar em nada! Para esses fazedores de novas sociedades, as epopeias culminaram em 1974.

chai4.jpgUns quantos ditos progressistas, militares misturados com civis e por traição, decidiram entregar aqueles territórios de mão beijada sem garantir a permanência dos brancos; Mas teremos de voltar atrás noventa anos para descrever sucintamente outros episódios. A seguir à Conferência de Berlim, o governo  português desencadeou um conjunto de acções de âmbito militar, administrativo, de investigação, de delimitação de fronteiras e também de melhoria de infra-estruturas, comunicações e de comércio.

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As campanhas militares de pacificação em Angola iriam estender-se até meados dos anos 30 do século XIX. Ocorreram numerosas acções das quais se destacam: a pacificação dos Dembos que se arrastou de 1872 até 1907, situação resolvida pelo Capitão João de Almeida. Os Dembos revoltaram-se novamente, em 1913, e de novo foram derrotados por Norton de Matos nos combates de Kindangue e Kingola.

guerra3.jpg Outras regiões necessitadas de ocupação efectiva eram Malange e Lunda e, para o efeito várias acções foram levadas entre 1889 e 1907. Em 1908, pacificou-se a região de Boudos, e no ano seguinte as regiões entre Bongue Angola e Duque de Bragança que se prolongaram até 1913 e, de modo a permitir a construção do caminho-de-ferro de Malange.

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Em 1902 declarou-se a revolta nos povos do Bailundo. Para lhe fazer face organizaram-se duas colunas. Uma saiu de Luanda sob o comando de Massano de Amorim, e a outra saiu de Benguela sendo comandada por Teixeira Moutinho. Ambas suportaram longas marchas e duros combates, todos eles contados por vitórias.

diogo6.jpg Perdi-me nesta contenda derivando do cacto linha zero dos bosquímanos para as diabruras dos Tugas de N´Gola com Tugas do M´Puto e assim volto aos registos históricos que dão conta de que há mais de vinte mil anos por aqui, sul do deserto do Calahári, vagueiam os bosquímanos, caçadoras por natureza, cujo trabalho é procurarem comida. No nosso modo de ver só podemos confronta-los com a tese mitológica para justificar seu destino sempre incerto.

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Desde sempre os deuses gozam com esta terra e com quem a povoa. Mas se dos céus não vem a farta chuva, da terra brota um cacto que lhes engana a fome, o cacto xhoba! Espinhoso e viscoso, azedo como trovisco, é capaz de cortar em 2000 calorias a necessidade diária de energia de um ser humano. Será sem dúvida uma oportunidade de os muitos milhões de obesos no mundo eliminarem sua excedentária gordura.

zeka7.jpg Dizer-se que os bosquímanos terão aqui uma forma de subsistirem economicamente e, por venda deste produto é talvez uma fantasia, senão tendenciosa no mínimo falaciosa. Encontrando-me eu aqui nas bordas do reino dos bushmens, um lugar cercano ao rio Vaal, não dou por falta de comida quer ande para norte ou nascente. Há capotas, patos, warthogs, mopane (catato) e um sem numero de plantas e raízes comestíveis.  Só quem não conhece o mato e suas gentes pode afirmar esta excentricidade.

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O xhosa (ou IsiXhosa), ou aportuguesando, cosa é uma das onze línguas oficiais da África do Sul. É falada por aproximadamente 7,9 milhões de pessoas (cerca de 18% de sul-africanos), principalmente nas províncias do Cabo e sul do KwaZulu-Natal, mas também nos países vizinhos de Botswana e Lesoto. As consoantes clicantes são uma característica proeminente dos sons desta língua e mesmo o nome "Xhosa" que se inicia com um "clique". Estima-se que cerca de 15% do vocabulário é de origem Khoisan e, mesmo as consoantes clicantes podem ser dessa origem. Existem jornais e programas de rádio nesta língua.

(continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:41
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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2017
MULUNGU . LV

NAS FRINCHAS DO TEMPO . REINO SHOBA . Warrenton - 23.08.2017 : Parte 1 de IV

-Um amigo receitou-me Pimenta Caiena para controlar a pressão arterial – Por agora passeio o esqueleto no reino bushmen...

Mulungu: Pode ser árvore, mas também homem branco em língua Xhosa (Cosa)

Por

soba 01.jpgT´Chingange

Com botas de michelin ponta de ferro, calções de ganga, camisola de flanela e chapéu quico com os big-five, curto o calor do dia enquanto o sol se põe a pique com uns agradáveis vinte e dois graus no zénite. Ao cair da noite os chacais miam não muito longe e até posso ver seus olhos amarelos quando dirijo o farolim da varanda em sua direcção. As noites têm sido escuras, o céu fica todo a descoberto e posso ver com perfeição as estrelas do cruzeiro do Sul. E, eu aqui neste deserto só com um Mac Guiver, um telefone e, um seja o que Deus quizer.

IMG_20170720_150056.jpg Esta noite que passou aqui na farm Alfa-One, fez menos um grau, a água congelou na torneira e, só pelas quase nove horas da manhã é que fluiu normalmente. Pensando que o depósito verde não tinha água fui para ligar o disjuntor da bomba de encher o tanque mas fui advertido pelo moçambicano Fabiano de Macia, que não corria água porque ela gelou no tubo. Ando eu a fugir do frio e este atrás de mim! Na áfrica do século XXI, afinal, também faz frio a sul do equador!

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Nos finais do século XIX a África Negra deixou de ser olhada apenas como reservatório de escravos para passar a local apetecível de ocupação. Concorreu para isto, a curiosidade científica, a procura crescente de produtos tropicais, a necessidade de matérias-primas e a cativação de novos mercados, que a Revolução Industrial não só potenciava como exigia.

IMG_20170628_092745.jpg Mas ainda nos dias de hoje nos admiramos de os cohisans, bushmens não sofrerem dessa doença moderna a que chamam de obesidade. A natureza deu-lhes aqui um cacto de linha zero a que eu chamo de shoba; Falarei mais à frente sobre este milagroso cacto depois de esgadanhar a estória que nos foi legada em mandaques de coiro escritos com gravetos que o tempo fez amarelecer.

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A perda de controlo dos territórios que dispunham na América do Norte, por parte da França e da Inglaterra encaminhou, naturalmente, estes países para outras paragens. Em Portugal e no ano de 1855, já no reinado de D. Pedro V, o colégio de Cernache do Bonjardim ganhou relevo ao formar cerca de 200 sacerdotes para o serviço de além-mar. A sua coroa de glória foi a missão de S. Salvador do Congo, iniciada em 1881 e que salvou a nossa soberania naquelas paragens, após a Conferência de Berlim de 1884.

kalu10.jpeg Outras congregações se salientaram conforme ia crescendo o interesse por África. Este novo impulso evangelizador veio, porém, a ser estancado por via das perseguições religiosas que ocorreram após o advento da República. No fim da Guerra Civil, em 1834, as possessões portuguesas além-mar, eram como segue: Em Angola havia dois reinos, o de Angola que se estendia do rio Ambriz até ao Cuanza; e o reino de Benguela que ia do Cuanza ao Cabo Negro.

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No sentido leste/oeste não passaria das 70 a 100 léguas a influência portuguesa para o interior onde haveria cerca de 370 sobas subordinados à autoridade portuguesa. A população rondava os 400.000 habitantes e apenas havia três câmaras municipais: Luanda, Benguela e Massangano.

koisan6.jpg Para norte de Ambriz até Cabinda havia territórios sobre os quais Portugal tinha direitos históricos mas não exercia ocupação efectiva. Faltava ali gente! Apenas dois a três navios nacionais (de Portugal) demandavam anualmente os portos de Angola. A partir de 1844 abriram-se os portos ao comércio internacional e fomentou-se a colonização europeia cujas 2.000 almas existentes se concentravam quase exclusivamente em Luanda. Não era de admirar ouvir-se há sessenta anos atrás dizer que Angola era Luanda com capital na Mutamba; e, que todo o resto, era paisagem.

(Continuação…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:41
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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017
NIASSALÂNDIA . VII

MULOLAS DO TEMPO – 02.08.2017 - Nós e o mundo … Teremos de nos regularmos em boas marés porque as brisas esbarram em caricias amigas…

Niassalândia é o meu país.

Por

soba15.jpg T´Chingange  

A Um de Fevereiro de 2016, Eduardo Torres o poeta Xi-Colono, amante do deserto Naukluft, divagando fora da sua serena poesia, falava de mim em prosa: -Curiosamente, só vim a conhecer o António Monteiro, quando, residindo em Portimão, tive oportunidade de estar com ele na casa do meu amigo Santos Pereira, já lá vão largos anos, e sempre o conheci bem-humorado, ora pedalando na bicicleta em circuitos organizados, ou como caminheiro em longas andanças por montes com cardos e estevas.

nauk01.jpg Em realidade o nosso primeiro contacto (digo eu) foi em Windhoek, capital da Namíbia e, estando eu em companhia de Dionísio de Sousa também conhecido por Reis Vissapa que ia desbravar o Okavango na tentativa de por ali ficar; seu sonho era ter um lodge junto ao rio que lhe trazia muitas lembranças desde o tempo em que trabalhou na Brigada de Hidrografia no rio Cubango entre outros. Ele por ali bivacou em casa de Miranda Khoisan às margens do Kubango por algum tempo e, eu regressei a Windhoek tendo ficada por uns dias no hotel Continental.

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Foi neste então que nos conhecemos, assim como a suas filhas Paula e Sónia que trabalhavam em uma agência de viagens. Foi aqui que me apresentou ao Cônsul de Portugal na Namíbia. Recordo que foi Sónia que teve a amabilidade de nos marcar o booking para o Etosha Park em Okaukuejo! Dito isto, vamos continuar com as caricias de meu amigo: Monteiro, para manter o físico e não perder a boa disposição, andava de bicicleta indo de Silves a Sagres.

nauk03.jpg Regressava partido de roto, após ter percorrido seus 120 quilómetros. Depois uma sardinhada bem regada com água de Pegões e uma soneca para retemperar músculos, dizia ele. Preparava-se para ir a Fátima a partir de Albufeira, coisa que acabou por fazer em três anos seguidos; isto, só o vim a saber mais tarde! Considerei o Monteiro sempre um "bom vivant", alinhando sempre com a esposa como muleta, uma disposição que os tornava um casal simpático e acolhedor.

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O Monteiro tem as suas páginas no FB e, de quando em vez lembra-se de transcrever qualquer escrito meu que para ele possa ter interesse. Em verdade, o Monteiro, acaba por me divertir, porque usando a sua veia criadora, sua banga ninita misturando excertos de artigos diferentes, assim como um preparo cozinhado com frutos do mar e bizarrocas receitas. Algumas vezes permite-se ao luxo de introduzir novidades, para mim, de sua autoria.

nauk1.jpg Ele lá tira as suas ilações, e altera o conteúdo como deve alterar a receita, quando cozinha com seu pau de cabinda mordido na ponta para sentimalizar o preparo. Num dos últimos artigos que escrevi, afirmei lembrar-me da primeira vez que tinha comido camarões trazidos pelo meu pai, de Benguela, isto, penso, que nem a segunda grande guerra se iniciara; o amigo Monteiro acrescentou, que teriam vindo num Jeep Willis, para dar ênfase às sua bafunfadas inventações e, poder poeticamente comparar a um brinquedo que o compadre do meu pai, Bartolomeu de Paiva, me havia oferecido pelo Natal alguns anos depois.

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Estabelecendo assim uma comparação, de duas épocas diferentes, porque na primeira nem jeeps havia, e na segunda já apareciam miniaturas de viaturas utilizadas durante a guerra que estava devastando a Europa. Isto não tem nada de especial, mas não deixa de ser interessante a sua intervenção no sentido de tornar mais forte a razão do acontecimento registado.

nauk4.jpg E, Edu continua seu discurso na primeiríssima pessoa: Quem te conhece, sabe como tu és, sério, honesto, amigo do teu amigo, mas gostas de deixar sempre a tua marca, uma ferradura, e pela minha parte, podes continuar a fazê-lo porque até é uma maneira de me divertir... E, até porque não tem importância, e pode acontecer ser por uma questão de interpretação!

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Aliás, agradeço quando públicas o que escrevo, uma prova de apreciação da tua parte (fim de citação). Assim, abruptamente termina sua esponjosa lengalenga bonita de chorar bem no topo de uma duna do Naukluft e, vendo as sombras a roerem-nos o pé. Em seu tempo, creio ter-lhe agradecido mas, agora que a revejo aqui na terra do biltong no Gauteng, envio-lhe uma saudação neste meu jeito suave de não perturbar a rigidez de suas rimas, sua direitas posturas sem antas nem adendas nem fumaças de caricocos envoltos em papel preto e doce.

nauk8.jpg Em remate e, bordado a lentejoulas das terras de largas vistas ao sul do M´puto, Júlio César, Doutor professor de números e contas, que só conheço através do Facebook, dono de palavras honorificas e sem Ferrolho, tranca o tema tecendo as palavras como laivos de própolis, um antibiótico salutar: -O António Monteiro é um criador de estórias que usa a língua portuguesa condimentada em sabores de kimbundo e doces crónicas dele próprio e dos amigos. E, porque terminou assim, em mel de abelha, tenho de expressar aqui e agora a minha gratidão a ambos. 

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:37
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Terça-feira, 1 de Agosto de 2017
MUJIMBO . CVII
NAS FRINCHAS DO MEU BAÚ . 01.08.2017 - Guetos, somos todos nós, brancos e pretos - José Eduardo dos Santos é um homem banal. Não provoca a ninguém um virar de pescoço quando entra num salão...
Frincha : É a ranhura do tempo...
Por

soba10.jpgT´Chingange

Entre dúvidas escondidas no pormenor de factos conhecidos, dou-me conta que as frinchas, mostram versões velhas a que eu não forço ao pormenor para não suscitar ranhuras com os gigabites alheios, referindo tão-somente o que me parece ter lógica porque, por mais que nos esforcemos, há coisas que sempre ficam na charneira do mujimbo, do boato.

okakau1.jpgAgora que vai haver eleições em Angola, recordo que Jonas Savimbi, sempre recusou o abandono da luta pelo que achava certo, não escolhendo cenários de exílio dourado como outros o fizeram e, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou no seio de sua terra, sua pátria,digo eu num propósito de dialogar com as duvidas de muitos.

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A ela, Angola, tudo deu sem nada tirar, ao contrário de outros com contas, palácios e mansões no exterior e o desperdício de gastos, assim como a compra de um relógio de 500 mil euros por um filho do Edu, o plenipotenciário presidente. Um filho que só se baba de prepotência sem nunca ter trabalhado em algo visível; que nada fez em prol do povo! Fisicamente Savimbi morreu mas, seu espírito está em toda a parte, mesmo fora de Angola! Alguém em seu nome continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma de ser e de estar! Li algures que está enterrado em um humilde cemitério de Luena.

brig4.jpg Um amigo meu do Okavango no seu jeito enigmático de sempre deixa uma prega solta na minha costura frinchada disse: -Ele está vivo! Algures num lugar palaciano e bem protegido; aquilo de sua morte foi uma farsa muito bem engendrada pelas grandes potências. Vejam só o que a mente humana pode arquitectar (penso eu)? O que viram em fotos é uma tramóia muito bem-feita, um sócio de Savimbi e, não é certo saberem aonde ele foi enterrado para evitar um rodopio de peregrinos, disse este meu kamba. Desacreditei disto com um muxoxo fingido de consentimento.

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Não acredito nesta sua versão, disse eu por fim, não tem lógica porque mostraram o corpo dele em várias posições e eu até pude referir em tempos que ele se teria matado pois que na foto de Grande Reportagem do M´Puto podia ver-se um furo em seu queixo do lado direito. Era ele sim! Ele era destro! Rematei em termo definitivo! Meu amigo, deu de ombros assim como dizendo que cada qual ficava com a sua opinião. Não forcei a nota mas, ando matutando em sua fricção; acontece hoje tanta coisa estranha!?

kunene1.jpg As nossas conversas rebrilhando nas águas do Kubango vespertinavam com a kúkia (pôr-do-sol) bem no horizonte angolano e, por detrás de seus brilhos Andamos para trás ou para a frente de forma aleatória e por serem já coisas diluídas nos cacimbos e kiangalas, podemos ornamentar os factos com ausência de espanto; de só mesmo matando o tempo, de só falar ! Recordamos a muita diplomacia lodosa, de quando Jonas Savimbi chamou «garoto» ao então ministro Durão Barroso Esse que esteve no comando da UE.

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Por seu turno, também recordamos quando João Soares, numa entrevista ao semanário Expresso, classificou os dirigentes angolanos como «um bando de cleptócratas»; talvez ele mantenha essa opinião, só que agora com mais fortes razões de o serem! E, as relações escondidas, que o Dr. Soares seu pai já defuntado, manteve confidenciais durante muito tempo, em virtude de «não querer que isso fosse do conhecimento da Internacional Socialista e, onde o movimento da UNITA não era reconhecido».

kunene.jpg Esclarecedor! De quando Mário Soares de visita às Seychelles, em 1995, em conversa informal com os jornalistas, após o jantar, falou de Angola (que visitaria oficialmente no ano seguinte) e sobre os líderes em confronto, emitindo esta opinião: «José Eduardo dos Santos é um homem banal. Não provoca a ninguém um virar de pescoço quando entra num salão. Enquanto que Jonas Savimbi tem uma presença esmagadora! É um verdadeiro líder africano!». Tarde piaste, digo de mim para mim mas, e aqui corroboro com ele! Disse eu ao meu amigo Mac Guiver de faz-de-cota, que me olhou sem espanto!

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Da minha conversa com Mac Guiver, nunca pretendi recolher dados comprometedores com ele e, sempre o vi como um bigfive que nada mais fez do que dar continuidade à sua vida, tal como o fazia na Chibia, do outro lado do Kubango mas, sempre me pareceu ser um profundo conhecedor de todos estes relacionamentos de fronteira.

kunene2.jpg Estava escrito nesta frinchas que a Jamba era o centro nevrálgico alfa no tráfico de marfim, diamantes e madeiras preciosas. Savimbi teve de recorrer a este património mas, o governo mwnagolé da Luua, despilfarrou muito mais em proveito seu, dos filhos e de toda a nomenclatura. Agora, mais kota, recordo que as interrogações ente eu e Mac Guiver faz-de-conta, sucumbiram em sorrisos, um indício de quem sabe, mas desconhece, perpetuando uma amizade de cavandelas...

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:57
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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017
MOKANDA DO SOBA .CXXV

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Peneirando no tempo as ténues memórias dos acontecimentos, Apalpando as medidas da natureza, sarar as feridas do corpo …

Mokanda : É uma carta

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

Apagando os rastos dos passos que aqui nos trouxeram, em terra de M´Puto, dinovo volto a remover os ossos do passado e, mesmo espreitando pelo postigo da memória antropológica só graças à debilidade desta, irei fazer do tudo um coisa nenhuma para não alvoroçar espeleólogos, ou os espíritos muito cheios de malévolas insinuações; esquecendo as leis não cumpridas coisas rebuscadas em terras de promissão viajo num tempo esquecido! O tempo das arcas perdidas com mabecos a cheiretar com chacais na gasosa das sobras.

zep1.jpg A nossa vida, de cada vez mais na mesma passando ao Deus me livre e valha-me o Santo António, com os sem etnólogos e outros afins descobridores de pegadas politólogas, cheiros encarquilhados. Dos novos iões de densidade molecular misturados nos anos, na leitura de carbono e eteceteras complicadíssimos, coisas progressistas… Ué, num repentemente virei bicho beiçudo de fazer pouco com muxoxos descabidos e coisas que só sei, porque não quis esquecer.

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E, nos finalmente vêm as agruras duma lengalenga com motor Magiros; também uma Scania, a camioneta que pernoitou no mato. Segura a Esperança, nome de mulher feito sentimento, vamos esperar, não aconteceu nada, devem estar aí a chegar. Fazenda tentativa do Ucué com bananas e macacos chiando na mancha muito verde com turras farejando vidas. E, lá nos fundos, por detrás do morro da cal, o motor dum velho Dodge a fazer luz num gerador!

zedu4.jpg Roncando zumbidos de roça, cheiros fortes de óleos com elefantes invasores a matar carraços na areia da mulola. Cheiros de África profunda e prófundo…. Se a vida é uma sentença com um princípio e um fim, não conseguiremos ouvir o grito da vida se sentirmos remorsos daquilo que não fizemos, ou daquilo que poderíamos ter feito; não podemos assumir a culpa dos pais, nem dos pais de outros pais.

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Na percepção parcial das vitais contingências, tecidas e compostas nas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que determinam o futuro próximo e distante. Uma vez é assim outra é uma coia feita bosta! Cada um de nós foi o que foi por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram.

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Como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas. Vão ter de me ouvir! Vão ter de me aguentar! Num repente faço um gesto feio! Meu pai já morreu, foi-se assim como Cristo, cheio de mágoas a fugir dos nacionalistas, dos libertários.

camionista1.jpg No M´Puto vendeu sua lambreta trazida da Luua a um cigano; o filho da mãe, matreiro que nem cachorro mau, só lhe pagou o guarda-lamas, pode? Voltou dias depois reclamando que aquilo andava de lado e de atravessado, queria o livrete e, meu pai fez-lhe um manguito, assim de braço cruzado com repetidos gestos muito ofensivos para o tipo, o gajo, meio moreno ou escuro da tasmânia, sei lá! Mas, meu pai teve de fugir com seus mais de setenta anos em cima. O sacana, tinha uma arma, fez pontaria à janela e pum! Estalou o vidro da janela; melhor, estilhaçou-o.

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E, porque é vulgar dizer-se que os gestos não totalmente sinceros vão sempre atrasados, agradeci logo tais luxuriosas horas de lazer e no consolo d agora em minha kubata. Relembrando minhas ousadias vividas da Beira, só e taciturno, vi o castanheiro já grande com suas cascas caídas, assim descuidadas e no chão, para os coelhos. Nada igual como o foi em Viseu de Viriato com a turma de Gumirães com a simpática companhia da professora Marisa Batista, uma luso brasileira que mede pulsações aeróbicas no sobe e desce da Igreja dos terceiros e a escalada para a Sé.

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Pois sim! Aqui ou ali, a vida pulsa, e temos de nos acomodar às migrações de gente e ideias com novos ideais. Olhando a natureza que nos transcende na dinâmica, e nos transforma na rusticidade ancestral, seus sotaques, falas e cantorias joaninas. Virou! Torna a virar! Entre lajedos com fetos nas frinchas, pinhais e silvado, procurei a terra de muita labuta chamada de Cornelho; pude assim compreender o abandono de espaços antes movimentados, que agora no silêncio se deslocaram para as novas catedrais de consumo.

socras3.jpg Diz-se de que, quem quer falar de assuntos sigilosos vai para o deserto mas, eu não arrisco limpar o lacre dos actos e pensamentos porque de certo modo já tenho o coração endurecido na prática do pecado. Por isso e mais uma vez vou até às terras de Erongo, suas montanhas secas com a areia subindo em suas encostas, atravessar as terras de Karibib, Usakos até Swakopmund e Walvis Bay pela nacional B2 da Namíbia, um calor abafador em sua máxima potência…

Hoje foi assim!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:01
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017
MOKANDA DO SOBA . CXIX

TEMPOS PARA ESQUECER - 06.03.2017 - ANGOLA DA LUUA XXVIII

NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA.  Uma e outra vez... “Vai para a tua terra, branco” era o que mais se ouvia na Luua de 74/75… Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo…

Por     

t´chingange 0.jpgT´Chingange - (Otchingandji)

Havia uma junta Governativa em Angola mas o MPLA fazia tábua rasa desta, assumindo suas antigas funções ministeriais, assinando diplomas sem respeitar a restrição imposta pelo Decreto-Lei de 14 de Agosto de a 1975. O Ministro Said Mingas (Dias Mingas), um meu antigo colega de carteira na E.I.L. por uns bons cinco anos, introduzia restrições à exportação de viaturas, só autorizando a saída de uma viatura ligeira por agregado familiar. Em verdade o MPLA estava a proceder como um governo sem cumprir os acordos preestabelecidos com as demais partes do Acordo de Alvor - Penina.

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Seria obrigatória a verificação aduaneira rigorosa de todas as bagagens e mercadorias com destino ao exterior de Angola. O curioso de todas estas medidas foi ver mais tarde gente que fazia o controlo de bagagens nos portos e Aeroportos inscreverem-se em Portugal no Quadro Geral de Adidos e ocuparem até lugares públicos no aparelho de Estado Português. Não se verificou nenhuma retaliação ou marginalização a estas caras de pau que dizendo-se uns mwangolés de primeira apanha, fugiram também para a segurança da Metrópole.

chai0.jpg Outros destes pseudopatriotas mwangolés que nem sendo funcionários no Ultramar arranjaram testemunhas e por declaração integraram-se como funcionários no M´Puto; a mesma que eles tanto abominavam. Não vou aqui denunciar este ou aquele nominalmente, mas uma grande parte de meus leitores sabe que isto é uma verdade. Pode dizer-se aqui que os carrascos, os mesmos que nos retiraram os anéis, ainda tiveram o gozo de usufruir benesses quando mereciam o inverso, ficar confinados a masmorras. Nenhum destes, agora bem acomodados em Angola e, alguns pertencendo à nomenclatura do governo pode dizer que foi destratado no M´Puto. 

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As FAP (Forças Armadas Portuguesas) limitavam-se só a garantir a integridade dos refugiados sem actuar na gestão da governação. Em meados de Agosto, Mingas, assinou o Decreto que limitava os levantamentos de depósitos bancários a vinte contos por mês em vez dos quinze contos semanais permitidos e, passava a ser interdita a saída da moeda angolana do país bem como a loteria premiada.

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Leonel Cardoso, o novo inquilino como Oficial Superior do sinistro C.R. mais Ferreira de Macedo, o Alto-Comissário interino, mantinham-se encerrados no Palácio da Cidade Alta servindo os interesses do MPLA, em verdade o auto intitulado governo; os genuínos donos de Angola. Forneciam a estes dados estratégicos e fotografias aéreas para desmantelar tanto a FNLA como gente descontente. Muitos portugueses foram parar às prisões da Boavista ao Bungo e praça de toiros do Bairro Caputo. Muitos saíram de lá metidos em lençóis para as covas do Cemitério de Catete ou para os jacarés do Lifune, Kifangondo ou panguila.

chai4.jpg No Caxito, havia avanços e recuos da FNLA e MPLA; O ELNA controlava a 13 de Agosto a Barra do Dande tendo reconstruido a ponte e mantendo três colunas militares em suas margens mais um menor grupo na estrada do Cacuaco. As FAPLA recuavam para Sul da picada da Barra do Dande-Kifangondo. Em Cabinda as FAPLA eram donas da situação em todo o enclave. O alargamento da guerra para Sul leva milhares de pessoas a efectuar uma penosa epopeia, romaria sem retorno em direcção ao deserto do Namibe com muitas e variadas peripécias de chantagens como garantia de protecção ate chegarem ao Sudoeste Namibiano.

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Um Deus nos acuda com um salve-se quem puder! Entretanto as tais Nossas Tropas já eram poucas para controlar quem quer que fosse. A UNITA boicotava enquanto os homens de Chipenda, agora da FNLA, escoltavam com pagamento de 3000 contos os refugiados até à fronteira Sul. Oshakati era o ponto de encontro das caravanas saídas de Malange, Uíge, Nova Lisboa, Lobito, Novo Redondo ou Benguela e mesmo da Luanda já tão martirizada.

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Um pouco de todos os lados, em grupos ou deslocados como formigas sem tino, fugiam simplesmente. Alguém lhe desfazia o carreiro do rumo acertado. E, o rumo era a paz, a fuga aos tiros, às atrocidades gratuitas, regra geral para o Sul e para a costa Atlântica. O destino era Grootfontein com a supervisão de militares e autoridades Sul-Africanas. Era ali que se situava o campo de recepção aos refugiados. Ali chegavam camiões, automóveis e veículos de toda a ordem e também máquinas de terraplenar, caterpílares e tractores com alfaias.

guerra20.jpg Em uma destas caravanas seguia meu compadre José Matias que resultado de um desencontro, ele foi e eu fiquei! Tinha-me deslocado a Luanda a fim de levar minha sogra para casa de um outro filho que vivia na Maianga da Luua. Pois aconteceu que o que vi nesta viagem por terra, desvaneceu-me por completo a vontade de ficar na N´Gola que tanto queria. E, vi casas queimadas, povoações abandonadas, gente deambulando de um lado para outro sem uma precisa orientação.

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Em Muquitixe estive encostado a um muro velho com minha sogra idosa! Não se sabia o que poderia sair daqueles drogados que revistavam o autocarro aonde seguíamos. Podíamos ter sido ali, metralhados, como num filme de revolução, cuja morte parece sempre surgir junto a um já esburacado muro! Simplesmente isto, não aconteceu. Ninguém se culparia e nem haveria de jurar a alguém! Parecia não haver esse tal de alguém; simplesmente, assustador!

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Estes comboios de refugiados eram escoltados por norma pelas tropas portuguesas e também do MPLA numa já perfeita parceria de zelo de estado criado um autêntico corredor entre as cidades do Centro e Norte e Namacunde na estrada principal do Sul. A falta de gasolina, água e alimentos tornava-se cada vez mais dramática pela carência. Trocavam-se contos ao desbarato por tambores de gasolina. A tropa portuguesa assistia agora à fuga de milhares de ex-colonos e naturais com um sentimento de impotência, coisa confrangedora para alguns.

feca yetu2.jpg Não haveria desculpas para essa corja de militares de aviário, os cérebros do Concelho da Revolução e muitos civis que se ufanavam deste feito como sendo exemplar. Prometi recordar estas tristes passagens, tempo de tão mau augúrio para um Império que ruiu da pior forma, sem dignidade; tudo feito por empedernidos fanáticos que a troco de uma centelha de nada ideológico empederniam-se num regime despótico e anárquico entregando as gentes ao descaso, aos entretantos …

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:38
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016
MALAMBAS . CLVI

CINZAS DO TEMPO – 12.12.2016Na natureza dos dias de hoje, não é o mais inteligente que vence na vida, mas sim aquele que melhor se adapta a ela…

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba0.jpegT´Chingange

A cada instante do tempo presente os nossos sentidos são inundados por um feixe de informações sobre o mundo real. As nossas mentes constituem-se na narração de estórias e da teoria contada pela ciência que diz que fomos criados pelo acaso entre milhões de outras espécies da biosfera da Terra. Nada demonstra que nos tenha sido atribuído um destino ou um propósito especial, ou que nos tenha sido outorgada uma segunda vida depois de terminada a que temos presentemente.

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Mas, qual é então o sentido da vida humana? Será uma epopeia da espécie, iniciada com a evolução biológica desde a pré-história, assim como um acidente da evolução, um produto de uma mutação aleatória e de selecção natural? Ou seremos apenas o resultado final de muitas curvas e contracurvas duma única linhagem de primatas do velho mundo.

koisan1.jpg Estou assim, balouçando a languidez na forma de jiboiar rede, coisa bastante parecida com a preguiça, desperdiçando-me num impertinente alheamento a esse mercenário mundo literário. Com o tempo, foram-me dizendo coisas, atribuindo tarefas e, ensinando-me o que fazer em todas as feiras com descanso ao Domingo.

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Falando com um velho herero de áfrica fiquei a saber que disto, ele nada sabia. Nunca os mais velhos lhe falaram de que por ali tivesse andado um apóstolo de Deus. Disto, também ele pouca importância deu fazendo-me confusão ao raciocínio. Ele, um mais-velho, só tinha conhecimento de uns missionários andarem por ali distribuindo falas e também costumes novos com patrocínio da coca-cola. Fiquei a saber ter sido uma entre muitas ONGS, gente com missangas e cruzes ensinando coisas aos khoisan (bosquímanos).

koisan2.jpg Cosendo disfarces, ensaio previsíveis alegorias sobre os vícios e infortúnios do passado construindo castelos com paus de fósforos. Amorfos que logo queimo por masoquismo, na fricção do ar. Dia após dia, escrevo argumentos de cozer pálpebras à paixão, continuando sempre igual, como sempre o fui, cada vez mais na mesma.  

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Aqueles povos têm uma longa história, estimada em vários milhares (talvez dezenas de milhares), agora reduzidos a pequenas populações, localizadas principalmente no deserto do Kalahari, na Namíbia, mas também no Botsuana e em Angola, lugares que percorri. E, afinal o homo sapiens foi o único a desenvolver uma inteligência suficientemente elevada para criar uma civilização.

koisan4.jpg Passaram-se mais de duzentas mil gerações, tempo mais que suficiente para que a selecção natural forçasse uma série de mudanças genéticas fundamentais. Tornámo-nos os senhores do planeta e talvez do nosso canto da galáxia, também. Tagarelamos constantemente acerca da sua destruição, uma guerra nuclear devido a alterações climáticas ou a uma segunda vinda apocalíptica pressagiada pelas sagradas Escrituras.  

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Os seres humanos não são maus por natureza. Possuímos quantidade suficiente de inteligência, boa vontade, generosidade e iniciativa para transformarmos a Terra em paraíso, tanto para nós mesmos quanto para a biosfera que nos viu nascer. A grande maioria das pessoas em todo o mundo permanece num estado de servidão face às religiões (tribos) organizadas, lideradas por homens que se arrogam poderes sobrenaturais para poderem competir pela obediência e os recursos dos fiéis.

koisan7.jpg A maior parte dos nossos líderes sejam eles religiosos, políticos ou empresariais, aceita explicações sobrenaturais da existência humana. Estes, nenhum interesse têm em opor-se aos líderes religiosos e provocar desnecessariamente a população da qual obtém o poder e os privilégios de que gozam. 

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Bibliografia: Extractos do livro “O sentido da vida humana” de Edward O. Wilson – Prémio Pulitzer 

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:56
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Sábado, 19 de Dezembro de 2015
MISSOSSO . XXII

ANGOA . A MÃO DE DEUS no rio dos elefantes . Não há palavras para vos descrever o que senti ali acocorado entre os dedos Dele -  3ª de 3 partes

Por

DY0.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

negro1.jpg (…) NA FOZ DO RIO QUATIR - Ninguém me ligou peva e só quando cacei o almoço e o jantar com dois tiros de caçadeira é que a vizinhança debandou alvoraçada. O trabalho não era nenhum. Medir diariamente numa vara hidrométrica as oscilações de caudal o que me ocupava pouco mais de dois minutos, sobrando-me tempo para explorar aquele paraíso que jamais se apagará da minha memória. Dei com a mão de Deus quase um mês depois de ali estar. Já calcorreara a pé os quinze quilómetros que me separavam de umas das mais formosas quedas de Angola, as quedas de Montenegro e banhara-me em piscinas naturais únicas no mundo com o fragor da água caindo em anfiteatro sobre o meu corpo.

negro2.jpg Decidi um dia explorar um rio de aluvião apelidado de Rio dos Elefantes, palmilhando a areia do seu leito seco para montante uns largos quilómetros. Alcateias de babuínos (Macaco Cão) tentando amedrontar-me com os seus latidos, as fêmeas correndo com os seus rebentos à cacunda e os mais excitados fazendo-me caretas. Manadas de impalas pulando com uma elegância ímpar e Olongos de cornos altivos fugindo ao retardador. Foi quando deparei com ela, a mão de Deus. Enormes monólitos naturais de granito, dispostos de forma circular bem em frente aos meus olhos fazendo lembrar a mão do Senhor. Mais de dez metros de altura que eu marinhei com sofreguidão para do alto poder deslumbrar-me com a paisagem.

negro3.jpg Foi quando os vi e precisaria mais que uma crónica para vos descrever a beleza e o encantamento daquele momento. No interior daquela construção ciclópica uma manada de elefantes com as suas crias banhava-se numa lagoa circular, largos metros abaixo da minha posição estratégica. Não há palavras para vos descrever o que senti ali acocorado entre os dedos de Deus. Há uns meses atrás vi em casa um filme classe B em que uma menina viera para a Namíbia para ver o pai que se separara da mãe oito anos antes, tendo vivido todo esse tempo na Europa.

negro5.jpg Uma história mal contada de um desastre de avião em que a menina se aventura pelo deserto dentro com um negro que lhe ensina os segredos da natureza e da região, à procura do pai desaparecido que se envolve numa luta com terroristas, não sei onde. A Mão de Deus é a única coisa decente do filme, embora erradamente situada em território Namibiano. Os elefantes que eu vi há cinquenta anos atrás ainda por lá andavam. A minha mulher ficou transtornada quando me ouviu a soluçar baixinho com a comoção. – Mas o que se passa homem. – Não se passa nada, foi só a Mão de Deus que me acenou de novo.

Reis Vissapa

As escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:06
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Terça-feira, 19 de Maio de 2015
FRATERNIDADES . LXXXIII

EU E MERYL STREEP. Às margens do Cubango, no Divava Okavango Lodge e Spa envoltos num verde paradisíaco.

Por

soba0.jpeg T´Chingange

div00.jpg Uns tempos atrás quando eu ainda era um galã de corpo inteiro, tinha todo o cabelo, não tinha pintas escarafunchosas pelo corpo e era poliglota, estabeleci uma amizade com Meryl Streep. Ela andava disfarçada em gente comum sem paparrazes em terras de áfrica bem no Okavango em um resort de 5 estrelas chamado Divava, um especial lugar de sarar as feridas do corpo e da mente. Eu, simplesmente apalpava as medidas da natureza do Senhor, daquelas alheias ao homem e, foi no envolvente verde daquele paraíso que ela me disse coisas que não mais esqueci. Eu ouvi embevecido e a elas, as plalavras, fiquei preso, fascinado. Para quem só ia desopilar e ver os demais animais da natureza eu, deslumbrei-me demais naquele palafito do Divava Resort em terras do Divundo. Do que ela me segredou tento lembrar-me da forma que me parece mais verossímil.

div01.jpg Olhando o outro lado da Faixa de Caprivi ela falou bonito: -Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Eu, timidamente com meu chapéu de caçador desbotado a tapar-me o semblante, fiquei todo ouvidos. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular, disse ela. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Queria ficar sempre por aqui e, fez-se uma longa pausa.

div1.jpg Pareceu-me ter engolido em seco, se chupou algo, terá sido um caroço de tarmarindo porque fez um esgar engelhado não muito habitual. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Ao dizer isto para mim, um quase desconhecido fiquei embevecido; mas era por isso que ela desabafava para mim tão só e carente; sinceramente, tive pena dela e vi o quanto as pessoas célebres têm destes comuns problemas; partiu-me o coração, ainda anda partido!

div2.jpgE, continuou falando comigo que feito só olhos e orelhas, fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas. Talvez eu, um tratador de hipopótamos estagiário, fosse para ela forma de espanejar angústias, claro que muito diferentemente do hipopótamo que para marcar suas posses expande sua caca ao redor. Mas voltemos a Meryl Streep na primeiríssima pessoa: - Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais.

div4.jpgE acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência. Posso dizer-vos em segredo que neste entretanto, deixei cair uma descuidada lágrima; ela vendo isto, abeirou-se e deu-me um beijo no rosto. Durante uma semana não lavei minha cara do lado direito porque dela desprendia-se um cheiro de alfazema celestial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:31
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2015
MONANGAMBA . XXV

CICATRIZES DO TEMPOFaz parte da herança termos em nós as antigas culpas de Adão e Eva 

- 1ª de 2 Partes

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soba 0.jpg T´Chingange

mona0.jpg Terminei de ler o livro do evangelho segundo Jesus Cristo na versão de Saramago; melhor dito, comi-o ao longo de muitos dias, lendo e relendo, mastigando devagar até digerir por completo a dialéctica que muitos dizem dar cólicas de barriga e no cérebro. Porque foi suave a leitura, não tive nenhum desarranjo e, talvez porque entretanto fui comento uns tabaibos, alimento predilecto do Xirikwata (Thirikuata), um pássaro do sul de Angola que tem cabeça negra e uma popa vistosa. Um pássaro com penas amarelas nas asas e com um cantar de feitiço na forma de Sacanjuere do Huambo; enfim, um fantasma que sempre aparece encantando-me e até inspirando-me a escrita. É provável que seja Januário Pieter a minha kianda espirito na forma de pássaro! Tão longe do seu habitat habitual leva-me em crer ser uma kianda matumbola em terra da Namíbia. Escuto-o enquanto os soldados de Roma juntam os pés de Jesus, rei dos judeus martelando um único e comprido prego artesanal.

mona3.jpgRefere no livro de Saramago ser desta forma como medida economicista, pois que nesse então os pregos eram forjados, aquecidos e batidos com macetas até ficar com forma pontiaguda e suficientemente cumpridos para tal efeito. A cruz foi erguida entre duas outras com dois moribundos já pregados a elas; estes choravam com entrecortados gritos sustentados na cruz da mesma forma de Messias. Neste final de vida e com apena trinta e três anos Jesus, rei dos Judeus, filho de Deus e de Maria quis ir para o reino do Pai abandonando os demais que dele fizeram a figura principal no mundo conhecido como o Crescente Fértil, Samaria, a Mesopotâmia Galileia ou Vale do Jordão; terras de Jerusalém e Palestina; terras que ainda continuam nessa antiga convulsão.

mona4.jpgMesmo que tantos se indignem com esta forma de escrita do Nobel escritor, sabemos ser verdade que morreram e morrem ainda nos dias de hoje muitos cristãos passados que são 2015 anos. Estando eu em terras aonde os pais dos pais não eram conhecedores de Cristo, terra de kamessakeles, Hereros, Makankalas e Bosquímanos, gerações milenares em geral e, fico entre o limiar do absurdo no pensar sem charneira de que tantas e cruéis mortes por decapitação continuem em prática. Sempre comparo estas duas culturas e não chego nunca a uma conclusão! Será que tenho esta propensão a ser um eterno matumbo (burro)! De como as torturas de inquisição, novas formas de cultura que originaram templos, santuários, ermidas, leis e peregrinações mantendo as crenças, as parábolas, lendas, profecias, rezas e ordenações a que ninguém é permitido fazer todas as perguntas e, a que ninguém pode dar todas as repostas.

Monangamba - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:18
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS LXXI

OKAVANGO - Nos ocultos mistérios do canto Xirikwata

Xirikwata é um pássaro do Cuango Cubango

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soba eu 2.jpeg T´Chingange

mal0.jpgDas muitas anotações e escritos em registos de memória de meu safari Xirikwata por Namíbia, ficaram por publicar textos e, já longe dali, recordo as gentes maravilhosas que me proporcionaram dias de Xirikwata. Assim irei chamar para lembrar as falas de Elisabeth Miranda que com entrecortados risos, muito recordava seus passados dias do outro lado do rio Okavango, um lugar chamado de Dirico, em Angola. Estando eu no alpendre de soalho e tecto em madeira da Guest House Willtotop de Vanda Potgieter, pude repensar em fim de tarde os últimos dezoito dias percorridos entre Okavango na Faixa de Kaprivi e os desertos de Swakopmund passando as quenturas agrestes dos morros de Ozakos e Kiribib.

mal01.jpgMilhões de espinheiras ressequidas de Okahanja, terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá longe por quilómetros de distância, situadas debaixo de acácias; Farmes quase invisíveis aonde só o depósito de água ou o moinho de vento se vêm tremelicando nas onduladas quenturas; rodando ao vento vindo por detrás dos morros da Costa dos esqueletos, chiam segredos de ferrugem mal oleada em permanente lamúria de vida. Pode ver-se orixes e avestruzes bordeando as áridas terras aonde até o deus-me-livre dos mortais, tem de coabitar com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pelo dum careca. Lugares muito diferentes da região Ovambo ao Norte aonde os guetos juntam brancos com pretos.

mal02.jpgFoi possível reconhecer em mim neste roteiro cinco marcas de destino, uma surpresa, uma curiosidade, saudade, benevolência e alguma temeridade. Também senti um desassossego de excitação inquieta nos porquês mal respondidos e, que só África nos transmite; há fogos em guerrilhas escondidas com vinganças incompreendidas, queixas e gemidos, quiçá chorando nova dores, quebrando os hábitos dum quotidiano em noites de espaços perdidos. O que foi e, como foi que aconteceu, é uma ideia que sempre nos acode e adianta ao acontecido. África é imprevisível na soma de angústias, incêndios com sinais de pavor, traficâncias com segredos de podridão.

mal03.jpegO que fica! Talvez um efeito de milagre no renascer da fé e o amor que podem muito; embora saibamos que nem sempre a fé e o amor juntos, tudo podem! Deus não se vai fiar em qualquer um, por muito boas que sejam a recomendações. Esta temeridade, advém de coincidências da África, de guerras subterrâneas do poder, do branco e do preto, das coisas que dão zebra; coisas dos últimos e antigos tempos e embora seja cruel deixar os kotas velhos sem resposta porque as pessoas, genericamente, não escolhem as sombras que têm e, também porque o amanhã não pertence a ninguém! Isto acontece! Em África tudo é possível.

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:23
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LXX

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Quando tudo nos ultrapassa no tempo, apalpamos as medidas da natureza, sarando as feridas da mente e do corpo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpg T´Chingange

cu0.pngNas longas e quentes tardes do Kavango eu e João Miranda deitávamos conversa fora na companhia de frescas cervejas taifel, heineken lager ou windohek lager beer recordando coisas já conhecidas sem nunca formular perguntas embaraçantes. Das ligações perigosas recordou-se o que nesse tempo era dito da família Soares do M´Puto pelo jornal oficial de Angola nos momentos mais quentes da guerra com a Unita e, em que Mário Soares é injuriado: “É mesmo um boelo (burro, em kimbundo) esse bochechas. Nem vergonha tem naquela kalanga (cara) por tão grandes desavergonhices que estampam o seu mau carácter e maldade.

cub02.jpgO ministro angolano da Comunicação Social, Hendrick Vaal Neto, acusava Mário Soares e seu filho João (na altura presidente da Câmara de Lisboa) de «beneficiarem do tráfico de diamantes». Entretanto a UNITA chamava de “criminosos de guerra” a Almeida Santos, António Guterres, Jaime Gama e Durão Barroso. Em 1988, no Palácio de Belém, Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, agracia com a Ordem do Infante Dom Henrique o empresário Horácio Roque, cuja mulher, Fátima Roque, acompanha Savimbi num périplo por vários países. Só em 1992, pela primeira vez, é que João Soares se demarca de Savimbi ao certificar-se de que este mandara fuzilar os dirigentes da UNITA Tito Chingondji e Wilson dos Santos.

cub3.jpgEm politica, mesmo aqueles de quem se pensa serem estadistas, cada dia é um novo dia, tendo outros interesses por detrás daquilo que nos parece ser verdadeiro! Entretanto continuando a conversa, já depois da guerra acabar, João Miranda é convidado a abrir um estabelecimento na capital do Kuando Kubango, Menongue mas, depois de concretizar o envio de géneros de primeira necessidade para um super mercado, vê-se na periclitante situação de ficar sem nada pois que os senhores da nomenclatura local, cada qual tratou de se apetrechar desordenadamente, remetendo o pagamento para o estado, uma coisa assim parecida como um saque.

cub01.jpgDisto, nada vim a receber! Disse Miranda já muito habituado a estas truculências de dirigentes mwangolés. Como tudo é tão feito em cima do joelho, disparo eu, confundido na ética de ordem e progresso e, sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas! Isto é mato, amigo! Rematou Miranda como um finalmente àquele dia…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:44
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LXVIII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Apalpando as medidas da natureza, sarar as feridas do corpo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpg T´Chingange

cro0.jpgEsta frescura do Atlântico, devido à corrente fria de Benguela, já se fazia sentir há quase quinhentos e cinquenta anos atrás quando por aqui passaram os navegadores portugueses a caminho da Índia das especiarias. Por ordem do rei D. João II, Diogo Cão passou por aqui e, até deixou padrões como o de Cape Cross, construído lá pelo ano de 1482, a uns escassos cem quilómetros mais a norte de onde agora nos encontramos. E Ibib já dorme há quatro horas; já lá vão 43 anos de convívio concertado aos seus 73 anos de vida, de idade, de aventuras, de desafios com agruras ou contentamentos trabalhados, umas vezes exóticas, outras num vamos ver como acontece para contarmos isso, nem que seja só a nós próprios.

cro1.jpgNavegando assim a vida, percorremos milhas descobrindo entretantos diferentes e falando do amanhã já tão de cerca iremos matabichar no Spur de Swakopmund, veremos o quanto já cresceu esta terra dum nada e como dizem os muitos cartazes, a visita não ficará completa sem uma visita ao famoso Café Anton com seu “coffe and cake” e seus clássicos e deliciosos como Schwartzwalder Kirsahtorte , Florentier e Apfelstrudel, a condizer com estes nomes nada usuais nas nossas dietas feitas com salsaparrilha, beldroegas e gimboa para moamba de chuço ou capota do rust camp. Iremos a seguir e nas calmas até Walvis Bay ver a waterfront e regressar.

cro2.jpgPodemos ver em Walvis Bay a área da lagoa, especialmente conhecida pelo elevado número de flamingos que ali se juntam alimentando-se de crustáceos que também ali se desenvolvem em natural maternidade. Às vários espécies residentes que ali se abrigam, junta-se um elevado número de aves migrantes do intra-africano e Palearctic, uma das eco regiões constituídas na superfície temeste a juntar às oito conhecidas e inseridas na Europa , Ásia Norte no  sopé dos Himalaia, Norte da África e partes do norte e centro do Península Arábica que frequentam suas águas tranquilas.

deserto3.jpgDe novo, posso aqui fazer-me todas as perguntas sem obter todas as respostas pela simples razão de que nada pode acontecer sem que o tivesse querido Deus, correndo o risco de escutar outras opiniões que não estas e, na qual nenhuma autoridade tenho para lhes chamar de blasfémias.  

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:02
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LX VII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Tudo quanto acontece, é na terra que sucede, num céu eterno e pacífico

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpgT´Chingange

swak4.jpgDeserto do Kalahári, dia 13 de Janeiro de 2015. Atravessando as terras de Erongo, suas montanhas secas com a areia subindo em suas encostas, pudemos com o pequeno Iunday i10, atravessar as terras de Karibib, Usakos até Swakopmund e Walvis Bay pela nacional B2 da Namíbia, um calor abafador em sua máxima potência. Neste descobrir de novas coisas ficamos num aprazível mas modesto conjunto de bungalows situado junto ao mar e margem dum rio de areia, mulola de nome Swakop, o que deu origem a este nome à cidade tipicamente alemã. Tudo quanto acontece, é na terra que sucede, num céu eterno e pacífico.

swak2.jpgNosso destino, meu e de Ibib, cumpre-se na ordem natural aonde quer que estejamos; o vento sopra forte do lado de Dorop National Park trazendo areias por quilómetros e eu, galgava-os com receio de haver ali um furo de pneu, o carro teimava em desviar-se para a esquerda mas, em realidade era a força do vento quente que me forçava a preocupação. As nossas palavras são como sombras que nunca podem explicar por inteiro a luz de medos ou ansiedades que sempre transportamos connosco. Lá atrás no Divundo ficaram as estórias velhas, as verdades minhas ou de João Miranda que para alguns, são mentiras; estórias do Batalhão Búfalo 32 da Á do Sul

swak1.jpgCoisas de uma Angola periclitante até aos dias de hoje, passados que são quase quarenta anos; terra com vazios aonde verdade e a mentira passam pela mesma boca como rastos de picada que virarem lendas, penduradas nas espinheiras do tempo. Diz-se de que, quem quer falar de assuntos sigilosos vai para o deserto mas, eu não arrisco limpar o lacre dos actos e pensamentos porque de certo modo já tenho o coração endurecido na prática do pecado em geral. No momento em que escrevo esta no modesto mas ventilado bungalow de Swakop, Ibib dorme plenamente, talvez do cansaço pelo muito calor apanhado lá nas montanhas; agora com a porta entreaberta deixando o vento frio do Atlântico lamber seus pés.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:38
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXIII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . No rio Okavango, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga, odor em tudo igual a todas as outras catingas…

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Em busca da verdade, muitas vezes acontece-nos não fazermos perguntas por ainda não estarmos preparados para ouvir as respostas e nem sempre o é assim porque simplesmente, por vezes sentimos medo a elas; podemos enumerá-las ou até suspirá-las mas, todo o ser humano em alguns momentos de sua vida têm coisas boas e outras más que se enfileiram ao jeito de missangas atrás uma das outras, um rosário do tempo e através dele que como um terço, rezamos ou fingimos rezar porque como se diz, atrás do tempo vem o tempo e depois da tempestade vem a bonança.

 E, porque se diz que a justiça é cega, surda e muda, pelo que se sabe também anda meia calçada e meia descalça para fingir que agrada a humildes descamisados e ricos encoirados. Mas, pelo sim pelo não, usamos amuletos da sorte para nos enganarmos nas figas, no corno, na meia lua, na estrela de David penduradas ao pescoço ou uma ferradura velha de burro ou cavalo, pendurada do lado detrás da porta de entrada de nossas casas. Por via de duvidas também usamos amuletos da sorte na forma duma nota de dólar, um santinho, uma qualquer nossa senhora da aparecida mais responsos escondidos em forros de malas e maletas. Até uma vagem envernizada de feijão maluco serve para o efeito! O místico junta-se com a Cruz e o Cristo numa caixa, asfixiando-O o tempo todo e, sempre picado em sua coroa de medonhos espinhos com um credo na ponta das falas, um cuzcredo (!?) com interrogação e exclamação juntas.   

 No meio da algazarra das palavras, dos apelos, dos gritos ou cânticos, haverá sempre uma insatisfeita curiosidade, perguntas sem respostas ou maneiras mentirosas de dizer a verdade; verdade que nem sempre achamos lógica ou patética nem sempre merecedora de ser levada ao cutelo ou ao fogo da veracidade porque, simplesmente nós não somos guardiões nem usamos beber do crime no rio da vida. Amolecendo a preguiça num chinxorro, rede a trinta metros do rio Okavango ou Cubango, do outro lado Mucussu, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga, odor em tudo igual a todas as outras catingas dos negros corpos de África.

 E, assim, aqui estou de livre e espontânea vontade como um emigrante e muito enfeitiçado pelas gentes acolhedoras; gentes que como eu, saíram dessa imensidão dos matos de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo.

O Soba T´Chingange    



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:40
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Aos velhos será cruel deixá-los privados de respostas e será de bom senso até, não se lhes fazer perguntas de passados não amistosos porque dos muitos dias, das muitas noites, das muitas injustiças pode sem se querer saírem à luz do tempo a mostrar as gigantescas presenças de feridas mortais. E, daí abrirem-se gavetas com choros ranhosos, ou mesmo gavetões, com ossários feitos pó. Que importância terá, saber-se agora e, aqui em terras do fim do mundo se a mulher de Lot em Sodoma, ao olhar para trás se transformou em sal-gema ou sal marinho ou, até saber se a embriaguez de Noé, foi de vinho branco ou de vinho tinto; os kotas mais-velhos daqui nunca ouviram falar dessas coisas e, afirmam que os pais dos pais deles, nem nunca falaram em Jesus de Nazaré.

  Peneirando no tempo as ténuas memórias, dos acontecimentos, apagando os rastos dos passos que aqui nos trouxeram, sempre acabamos por remover os ossos do passado e, mesmo espreitando pelo postigo da memória antropológica só graças à debilidade desta desejamos até, fazer de tudo um romance condescendente sem alvoroçar espeleólogos, ou os espíritos com malévolas insinuações, esquecendo as leis não cumpridas guardando os preceitos dos paleontólogos rebuscados na terra da promissão, por etnólogos e outros afins descobridores de pegadas, cheiros encarquilhados misturados com iões ou densidade molecular dos anos na leitura de carbono e edecéteras complicadíssimos.    

 Baloiçando-me no d´jango da Kikas Vanda Miranda Potgieter, muito perto da árvore m´vuluvulu do kavango, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços do povo Ovambo. Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito só sua; e até, muitos haverá, que não acreditam que seja aquela a sua verdade. Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade.

Nota bibliografia; contêm esboços de pensamento a partir do evangelho de Saramago

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:54
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Domingo, 28 de Dezembro de 2014
MOKANDA DO SOBA . LXIX

MALAMBAS DE NATAL –  Para provar, que o que tiver que acontecer acontece, haverá sempre um milagre

MALAMBA: É a palavra

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 

As pessoas não escolhem os sonhos que têm e, estas duas noites logo a seguir ao Natal, seguindo um destino, dormi em Guest House Willtotop de Vanda Potgieter nas imediações de Windhoek, esperando seguir o rumo ainda por escrever na singular legitimidade do partilhar dum reino, aonde todos são presumíveis herdeiros. Reino, aonde o tempo passa igual para todos; seguirei mais tarde na direcção de Okahandja, Otjivarongo, Otavi, Grootfontein com término em Rundu no Okavango. Um homem e uma mulher, sexagenários andando através do mato, savanas de África sem fim, um mar de acácias, espinheiras em montes ardentes, campos sem cultivo intensivo, lugares habitados por kudus, búfalos, zebras e leões, sabendo de antemão, que o deserto não é só aquilo que a nossa mente se costumou a interiorizar, pelo que se lê ou pelo que se ouve, sempre na vontade e na natureza nas coisas de Deus.

  Como se fosse um cofre, viemos futurar o destino, olhando dentro dele, ver o que já foi passado quando se abre e que, após seu fecho, só se pode pressentir o que poderá vir a acontecer, nada mais! Os segredos de Deus só a Ele pertencem! Na voz do bom senso, terei de esperar o amanhã, sem mais nada ter que fazer e, em paz, divorciar-me de mim, dando a chave do cofre ao mestre da charrua da vida. E, porque foi que viemos aqui, se não era necessário afastarmo-nos tanto, a um lugar tendo por testemunho absoluto o céu que nos cobre, para onde quer que se vá.

 Para provar que o que tiver que acontecer acontece, haverá sempre um milagre a alterar este curso do destino e, pequeno ou grande, ele surge na aventura como um amor ao próximo! Desta feita tem o nome de kikas, no feminino, que move vontades e ternuras a alterar este simples destino, seu toque milagreiro de bem-haja, pequenas grandes coisas que fazem a diferença! Como podemos nós acrescentar à ciência o entendimento de simplicidades tão abrangentes; uma mão amiga! As pedras surdas e mudas não podem testemunhar porque elas têm seu próprio destino, transformar-se em pó, e nós, em coisa nenhuma.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:40
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Sábado, 8 de Novembro de 2014
CAFUFUTILA . LXXV

MILONGOS CUSPILHADOS Como  adstringir  triglicéridos com sabão macaco IX

Por

soba3.jpg T´Chingange

NAMIBIA 0.jpgPelas sete horas e trinta minutos, gozando mais regradamente os bens da inteligência e da vida, remexo a chávena com meu especial milongo de adstringir triglicéridos. Desolando-me numa sinceridade gemida de tudo o que é ilusão, indefiro-me nos contornos que se transportam sempre às costas, um pessimismo que sempre se enrola no soalho do cerebelo. Sei o quanto é difícil ler o indecifrável mas soe dizer-se que a teoria do pessimismo é bem consoladora para os que sofrem e, eu, com os meus quase setenta anos, já não tenho fornalha para alimentar esta lenta combustão, a da chatice! Necessitando de renovar minha paz por mais noventa dias em pais que não o meu, insurjo-me contra essa maçada de pagar expedientes ou emolumentos demasiado exorbitantes por essa autorização.

picos no espaço.jpgDois carimbos de prorroga pelo preço de oitocentos euros, uma roubalheira; mesmo que rumine uma tal harmonia que me favoreça dormir embalado pela mão de Deus. Pagar oitocentos Euros, por duas prorrogas! Brado aos céus! Esta paz fica-me cara! Para prorrogar a minha estada neste planalto do Kalahári de Johannesburg evitando esse absurdo pagamento, um expediente para além de caro, pessimista, terei de rumar a terras a norte do Orange, no país do nada, e regressar de avião a fim de obter mais três meses de estada na paz. Regressando à teoria do pessimismo terei de concordar que é certo o que se diz de que o que tiver que acontecer, acontece, e neste caso aproveitarei rever um oceano de acácias, desertos e bichos na firme vontade de não ser extorquido. Em àfrica tudo é possivel (TIA - That is África).

acácia.jpgCoabitando com este gozo de incertezas, preencho a inspiração sem doçura, um veludo negro cuspilhando-me um desconsolo na alma. Bolas! Como podem fazer leis tão despropositadas! Terei de optimizar o percalço com um “há males que vêem por vem” para me contentar. Sem me assustar com a calma que carrego, trotarei alvoroçadamente para Windhoek a evitar pagar um naco grande de sabão p´ra macaco com almofadinhas de chita branca, numa forma de amaciar minha rigidez branca em terras de negros. Irei rever meu Rundu, meus amigos fujões do outro lado chamado de Calai, o Okavango, um rio de maravilha que desagua numa lagoa grande chamada de Delta. Outra corrida! Outra viagem! A vida é assim mesmo, como um carrossel.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:32
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Quarta-feira, 16 de Julho de 2014
MISSOSSO . V

NO KUNENE . Aquele jacaré era gente. Gente boa que nasceu em corpo errado!... Rodrigues, seu primeiro dono, deu-lhe o nome de Sundiameno.

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

ATENÇÃO - Caso queiram ouvir outra música que não a do kimbo, CLIQUEM «««« www.connectmusicbox.com »»»» para entrar e voltem AKI, OU AQUI... e leiam o resto que eu, espero! ...

Por

 T´Chingange

 No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja. Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha.

 - Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. – Com a boca! Respondeu o pivete. Pintado de coisa ruim consegui domesticar meu frenesim raivoso, e continuei: - Sim! Mas tem nome, não tem? – Chama-se de Sundiameno. Disse! Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! A gente lhe desconfia, acrescentou. – Nem nele, nem no pai dele! Concluiu. Esta conversa tola seguia um rumo desclassificado e, foi neste então que vi sentado num banco de pau feito e atado com matebas, um mais-velho de barbas credíveis e brancas, também chambeta de condição. Dirigi-me a ele e entabulei uma conversa séria, falamos do rio Kunene e de seus mistérios. Foi este mais-velho kota, já século, que me descreveu alguns mistérios e, que passo a referir: - Olha mwadié (branco) este rio tem muito cazumbi e muito feijão branco. Um dia ajudei um gweta, t´chindele Rodrigues, branco assim como tu, que domesticou desde criança, um jacaré a apanhar diamantes para ele.  Saiu daqui muito de rico! Afirmou isto e, em seguida, apontando para suas muletas de fibra sintética disse: - Foi ele que mas ofereceu! No lugar aonde o rio se esconde, fizemos acampamento por muitos anos até que chegou a guerra da libertação e, ele seguiu com a sua gente.  Este segredo eu conto a toda agente! Conclui na sua sabedoria filosofica de cat´chipemba com bolunga.

 Por ali passaram gado, camiões e máquinas amarelas de fazer estradas. Abriram umas picadas e depois seguiram para Walvis Bay e Swakopmund da Namíbia. O mistério daquele jacaré estava quase desvendado por mim, mas, na dúvida sobrante, perguntei: - Então este jacaré que sopra o pó do chão, é esse tal que o gweta Rodrigues usava para apanhar os feijões brilhantes? Talqualmente! Respondeu o kota num claríssimo português com pronúncia do norte do M´puto. E, continuou: - Pois eu fiquei com estas muletas e esse jacaré Sundiameno. O mundo é por demais misterioso! Nunca que eu ia acreditar nisto se não visse! O mais velho de nome Oshakati, ainda me disse outra coisa em que não acreditei: - Sabes que mais, disse ele. Esse jacaré toca guitarra! Acompanhava muitas vezes seu antigo dono a cantar fados duma tal de Amália, uma sua prima muito conhecida lá do M´puto! Isto era demasiado para a minha camioneta; meti-me no four-bay-four e segui para Otxivarongo. Conversando com um velho amigo de Otxivarongo, psicólogo do Kalahári, disse-me já ser conhecedor desta estória e, surpresa das surpresas, aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado! Juro que tudo isto me transcende!

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:08
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Terça-feira, 20 de Maio de 2014
QUILOMBO . IX

NAS CINSAS DO TEMPO. Depois de morto cevada ao rabo!

É difícil usar a mente! ...

Por

 T´Chingange

 Andando por este mundo, mares, desertos, matos, savanas, anharas e terras agrestes com matutos e mamelucos, tornei-me um mestiço mazombo; missionando o toutiço, perdi inteiramente as minhas belas cores europeias, a cara sarapintada de funchos, crateras com rugas extravagantes; para quem andava sempre teso, com seus colarinhos engomados, cheio de obséquios e unhas estimadas, agora os medos indefinidos arrepiam-me as carnes como pés de galinha. Desfigurado pelo tempo, cheio de cãs, estonteado pelos muitos calores, passeio pelo mundo o meu isolamento procurando entreter-me.

 Examinando minuciosamente os consolos alheios defumo os pensamentos num tom cor-de-rosa; desfalecido nos ombros, um pouco mais tolo e muito mais míope, coxeio-me em vozeados ambientes de cochichos frouxos. Coitado de mim! Tudo isto não é nada a comparar com o feito de Amyr Klink que sozinho e num barco a remos atravessou o oceano atlântico percorrendo sete mil quilómetros. Foi o primeiro feito a ser amplamente divulgado na imprensa internacional que ocorreu entre 10 de Junho e 19 de Setembro de 1984, entre Luderitz, na Namíbia (África) e Salvador, na Bahia (Brasil). Foi um feito invulgar a mostrar o quanto a tenacidade pode vencer um sonho; eu, em plena consciência nunca faria isto! O mundo continuou a girar como sempre, não mudou por este feito mas seus “ Cem Dias entre Céu e Mar” ficaram nos anais da coragem marítima.

 "Cem Dias Entre Céu e Mar", é o relato de Amyr Klink a bordo da "lâmpada flutuante", bem mais do que um registo de uma façanha desportiva. Nas conversas com os parcos objectos, com os tubarões que lhe fazem companhia, a esplêndida visão de uma baleia que surge sob o barco no meio da noite; na forma de como procura enxergar o tempo, a numeração do cardápio, as páginas do diário nas dobras da carta onde ia anotando as agruras e alegrias da viagem. A qualidade épica do feito aliada ao convívio com a cultura caipira do litoral Brasileiro, é bem essa mistura de valores tradicionais e ousadia, que sustenta seus difíceis desafios. Cada qual à sua maneira, somos ambos seres humanos, vivemos sem pedinchices a Deus porque nós somos parte Dele! Ele, Deus, tem mais com que se enfadar e, não é de rancores como muitos inflamados o pintam.

Quilombo: Aldeia de escravos fujões; Sanzala

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:24
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Domingo, 11 de Agosto de 2013
CAFUFUTILA . XLI

Por

 T´Chingange

Naquele lugar de kafufutila havia um embondeiro pedindo clemência aos ares com muitas mãos viradas para o céu. Ao seu redor oco, Dionisio Robinson construiu uma varanda coberta a capim do Okavango suportada por chinguiços de pau-ferro, daqueles com que se constroem cercas aramadas para reter o gado. Com uns esguios paus de bambu enfeitou o sítio com bandeiras maioritariamente dos países PALOPS à mistura com vizinhos geográficos de Angola. Organizou ali um bar com balcão e esplanada com umas quantas mesas espalhadas à frente. De um dos lados dispôs um bom número de telas mostrando batucadas, queimadas e poentes das anharas com cassoneiras e embondeiros em primeiro plano. Do lado detrás pendurou muitos panos do Congo mostrando a esfinge de Mugabe, Mandela e do Zédu Mwangolé misturados com capulanas garridas de Maputo, paisagens da ilha de Moçambique e Zanzibar.

  Num espírito de solidariedade Robinson inventou uma geringonça de fazer arco-íris; deste modo genuíno, na mira de produção e comercialização de seus produtos, espantava os visitantes carcamanos do sul e mais alem, com a beleza de muitas cores tremelicando no chuvisco saído de pequenos bicos de água; zingarelhos e artefactos estranháveis, zuniam cacimbo artificial na contraluz dum quase pôr-do-sol. Dionísio Robinson deu a este lugar o nome de chitaca do Kunene Baobab. Nos fins de tarde, terras do fim-do-mundo juntavam-se ali caçadores e outros mentirosos botando conversa fora na companhia de muito gim com água tónica; diziam eles que era para não serem picados pelo mosquito por via do quinino ingerido.

  Era neste então que surgia um músico estropiado na guerra do Kwito-Kanavale cantando musicas de kuduro que em simultâneo bangulava sua perna de pau, enxerto grosseiro dum definitivo provisório; fazia piruetas que só um coxo chambeta é capaz. Deus inventou a música para que os pobres pudessem ser felizes e este cantor era o verdadeiro monarca da katchipemba; tinha uma boa estória de guerra para contar, dizia e repetia que os mortos, todos defuntados daquela guerra, ficaram amnésicos. Havia feitiços pregados nos embondeiros para recordar os progressos das muitas e variadas tragédias, de seu povo, dizia ele. Lançava alerta aos vivos, mas estes não lhe ligavam. Até mesmo aquele rio Kunene sucumbia ali com nome de Okavango, desconseguindo chegar ao mar; de forma misteriosa terminava num deserto e de forma incomum dava vida ao Calahári.

  Dionísio Robinson abandonou Luanda após a guerra de tugi, farto das pessoas que na posse duns kumbus exalavam arrogância, um primeiríssimo sinal de gente com exteriores de riqueza. Luanda estava mesmo a ficar por demais misteriosa. Os mistérios eram tantos que já não lhe cabiam mais nos sonhos. Cansado das gentes e sua bafunfa, rumou a sul a conselho de seus manos ovibundos; recebeu uma quantia considerável ao se desmobilizar voluntariamente instalando-se nas margens do Kunene com a Namíbia à vista. Foi num encontro de empresários que conheci esta figura. E, foi ele que me apresentou o primeiro presidente do recente país, a Namíbia. Era Sam Nujoma, de alpercatas e chapéu de palha já roído pelo salalé. Esta simpática figura ficou-me na retina e, ainda hoje baila como uma mosca, nos meus olhares taciturnos.

 Inspirado no livro de José Agualusa em teoria geral do esquecimento.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:50
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Quinta-feira, 21 de Março de 2013
MOKANDA DO SOBA . XXIX

" TEMPOS DE DIPANDA  - Verdade ficcionada

Por

   T´Chingange

 Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Caprivi, uma faixa de linha recta saída do Divundo junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namíbianas denominadas de Kavango e Caprivi.  Tinha indicações que havia um tal senhor Rocha que fugido do Sul de Angola ali se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas que eram alugadas a baixo custo a refugiados; foi para ali que me dirigi e aonde me refastelei com uma caldeirada de cabrito. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, fruto da minha insistência na recolha de informações. Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico, construir um hotel em condições e negociar com diamantes quando lhe fosse possível. Aconselhou-me a ficar num dos quartos de Bicho da Ponte do Charuto logo no fundo da rua, pois que ele estava com os alojamentos repletos de gente saída de Angola.

 Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade dando a isto uma característica única no mundo; Em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão porque ninguém se esquece dessa vida, daqueles aromas, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” mais o por do sol atrás duns chinguiços, cassoneiras ressequidas e mato estéril. Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas aturam com rapidez. O comando Sul Africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai.

 A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. Nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola. A família foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção. - Julgo que é ali que eles estão agora! Afirmou Rocha. Com esta informação a minha odisseia teria outro rumo; Teria toda a noite para pensar como prosseguir no dia a seguir; agora iria à procura do senhor Bicho para me instalar.  

(Continua…)

Glossário: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

O Soba  T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:03
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013
MOKANDA DO SOBA . XXVIII

" DIPANDA* “ - Verdade ficcionada

Por

   T´Chingange

NA TERRA DO NADA RUNDU DO OKAVANGO        

 Corria o ano de 1975, tempos para esquecer! Metido em apertos, apanhei boleia numa Dodge até Namacunde com o administrador de posto do Ondjiva (Ex Pereira Dessa), o senhor Pinto. Um pouco antes de chegarmos a Namacunde, uns pseudo militares encostaram-nos à parede enquanto revistavam a camioneta partindo quase tudo, sem mais nem menos, nem porquê. A minha vida corria para trás, teria de me raspar na primeira distracção. Os olhos daqueles improvisados tropas chispavam raiva demais e, não se entendiam naquela grande maka de Angola. Pareceu-me serem, um misto de militares dos 3 movimentos destacados contra vontade deles, no intuito de assegurarem a fuga de património através das fronteiras.

 Encostado à parede duma casa destelhada e queimada, enquanto revistavam a carrinha, via o além preso por um fio, muito mais próximo do que pretendia. O próprio administrador não sabia como controlar aquele desrespeito à sua frágil autoridade, nem o seu desamor à revolução; segredou-me que não demoraria muito para largar tudo e, mudar-se para o Rundu; iria encontrar-se com João Miranda do Mukwé no Divundo, que ali se tinha estabelecido após ter fugido das prisões da Unita. Pinto, estava mais passado do que eu! Parecia estar bem informado pelo que veria posteriormente a acontecer, advertindo-me que saísse daquele inferno enquanto era tempo. Apareceu um cazucuteiro fintador, com divisas de tenente, penteado de balas em diagonal e boina à Che Guevara. Com pinta de herói rambo, deu ordens à guarda para deixar passar aqueles t´chinderes.  

- Um daqueles t´chinderes, era eu!

 A Agora já tinha uma referência para a onde ir: Faixa de Kaprivi. Aliviado, sai de Angola tendo em fundo um ruído de música do Congo que os militares camaradas ouviam na rádio Mandumbe,... “Ai bá ninike sala, táta rafael”. Sinto um frio do cachaço aos calcanhares no momento exacto em que um mabeco, sarapintado de castanho sujo, surge por detrás das bissapas quase ao chegara a Oshakati. A caminho do Mukwé mas, ainda longe, revia a estória de Miranda: - Ben-Ben, um ex-alferes do exército do Puto, às ordens da UNITA, foi a casa de João Miranda no Dirico para o escoltar à morte. Miranda era acusado de ser um agente da PIDE, um fascista reaccionário, mas ele não se revia em nenhuma dessas acusações. Após vinte dias de prisão foi aconselhado por Covachan da PSP, amigo do tempo de tropa, a fugir para a Namíbia: Dito e feito, enquanto João saia para Sul, em uma viatura apetrechada por Covachan, mulher e filhas em outra viatura, rumariam em sentido contrário fingindo ir fazer compras algures em Pereira Dessa (Onjiva). O plano era encontrarem-se no rio Cubango (Okavango) atravessando-o de noite em canoa no Calai.

(Continua…)

Glossário: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional.

O Soba  T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:55
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Terça-feira, 19 de Abril de 2011
DESERTO . XIV

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

      “ÉPUPA FALLS – Botswana

 Naukluft

 Maun . Delta do Okavango

As grandes dunas do Naukluft côr de saibro movendo-se todos os dias, ondunando-se em sombras pretas, eram recordadas amiude quando as estrelas ficavam próximas nas noites sem nuvens desafiando a lei da gravidade. Ao fazer do brai só o lume e as estrelas lá longe crepitavam, mas havia sempre a zuada de fundo das quedas do Epupa mais os muitos piares e guinchos de desconhecidos bichos despertando corujas noitibós. E, sentiam-se cheiros acres e doces com lama e bosta e feromonas de misteriosas plantas do tipo jasmim e citronela ou capim do Okavango.

 Morro de Salalé

De repente, e ao redor da fogueira ou na tenda, todos se calavam, não porque nada ouvesse para dizer mas, porque queriamos gozar daquele silêncio com vida de mato; em verdade parecia não haver mais nade de importante para dizer; ali, era o lugar aonde tudo parecia estar dito. Tudo tinha o seu lugar natural e, como tal conformavamo-nos com a vida a correr por correr; nada dura para sempre e, nós não tinhamos pressa.

 Botswana

Não se deve abandonar o nada de que se goste, e por amor amarrámo-nos às coisas da natureza como se ama alguém que nos é querido. Naquela universidade ou diversidade, aprendemos que as plantas comunicam entre si, por isso o elefante tem de andar muito, e contra o vento para que a coisa apetitosa, deixe de o ser. Eu explico: - As plantas saborosas ao elefante são devastadas até ao extermínio e estas por feromonas lançadas ao vento, avisam as demais da mesma espécie que rápidamente passam a ter um sabor desagradável, expelindo ou misturando na sua seiva fluidos repugnantes ao sabor; o paquiderme predador tem assim de contornar a selva ocupando um grande espaço da mata. Fiquei a saber da importância que tem o salalé na limpeza da floresta eliminando troncos e folhas em decomposição e criando nutrientes para outras espécies se desenvolverem com mais punjança. Depois de Maun, a caminho de Francistown deparamos com vários burros mortos por acidente na estrada deserta e, lá estavam varias espécies de urubus limpando a carcaça na companhia noturna de hienas.

 Delta do Okavango

A biodiversidade num ciclo natural de vida dava sequência à cadeia alimentar recriando com naturalidade as graças com as desgraças. Vivendo os dias no limite queriamos que as coisas perdurassem assim seduzidas. As bolachas compradas no Divundo na casa comercial do Miranda gerida por sua filha Ana Maria, mesmo compradas já vencidas no tempo, This is áfrica, diziamos todos, iam sendo comidas a gosto com o café tomado debaixo da acácia espinheira. Nas terras do fim-do-mundo não se olham os prazos; é só deichar correr o tempo, tomar uns quantos cafés, à tardinha gim com rum ou cachaça e antes do deitar p´ra retemperar um chá rooibós. Estivessemos nós no Atlas de Marrocos e tomariamos chá de menta. Cada terra tem seu uso, cada gente tem seu fuso. Em Maun, na paz de espírito desta áfrica profunda disse para mim mesmo: - Vou ter que me gramar desta forma, para o resto da minha vida.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:10
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
DESERTO . XII

 FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

         “VICTÓRIA FALLS – Zimbabwé

 ESTÁTUA de LIVINGSTONE

Chegamos a Victória Falls a meio da tarde e, porque não levavamos nada agendado de aonde ficar, dirigimo-nos aos chalés do governo destinados a alojar turístas; tivemos sorte, uma família ia sair ao fim do dia e entretanto aproveitamos para ir até à ponte do rio Zambeze aonde de uma impressionante altura gente amante da adrenalina se atira no espaço depois de amarrados a uma corda de borracha a que chamam de tandem-bungee-jump(jamping). Enfim, uns malucos beliscando a morte lá embaixo, de queda estancada no penúltimo minuto, a uns ecassos metros acima da água turbulenta, a 108 metros de altura; na espuma branca feita barba do diabo de corredoiras pedregosas. Das encostas rochosas escorrem cortinas de água que em lufadas de frescura banham nossos rostos; esta maravilha da natureza é tão deslumbrante que recorda-nos o quanto somos pequenos e em verdade apetece atirarmo-nos no espaço feito passaro e voar, voar, voar... A sensação de agradecimento surge-nos; graças a Deus que ví mais esta maravilha.

 Jumping 

Tiramos umas fotos junto à estátua de Livingstone e regressamos ao acampamento hotel Camp. Estes ditos chalés foram ligeiramente remodelados pois que fizeram inicialmente parte do acampamento de trabalhadores da construção da ponte férrea sobre o Zambeze, casas com largos alpendres coloniais e abastecidos de água quente saída de grandes caldeiras aquecidas a lenha, tudo como quando da construção da ponte férrea em 1905. Esta ponte faz parte da visão de Cecil Rhodes com a construção da ferrovia ligando a Cidade do Cabo ao Cairo. Rhodes insistiu na construção daquela ponte no "spay" das quedas de água; e, assim foi pois que, os trens são banhados por esse permanente vapor no preciso lugar do deslumbrante desfiladeiro e, eu estava a uns escassos metros desse "reil transâfricano".


Cecil Rhodes e seu sonho

As nuvens de particulas de água que se levantavam do abismo da queda Victória, logo em frente do alpendre, vinham até nós descortinando-se entre essa "fumaça que troveja" no geito de spay de Rhodes, o topo da queda já do lado da Zâmbia. Silva Porto que tudo indica ter estado aqui antes de Livingstone admirou algures esta mesma pisagem, que veio a descrever àquele outro explorador britânico que ficou na história como sendo o descobridor. Essa muito esfarrapada mentira feita verdade, foi para nos tirarem o direito de posse na Conferência de Berlim, as ditas terras de Bazarote. O velho sertanejo Siva Porto foi aqui recordado por mim depondo aos pés de Livingstone uma flor de acácia rubra. O gesto de ser aqui era mesmo só "para Inglês vêr". Esta magnifica vista, mesmo sendo bem descrita, não substitui o prazer único daquela maravilha da Globália.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:44
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Sábado, 19 de Março de 2011
DESERTO . XI

 FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

         “VICTÓRIA FALLS – Zimbabwé


MAPA E QUEDAS

A caminho de Victória Falls, chegados à fronteira do Botswana em Kasane (border pass), enquanto o funcionário verifica os passaportes demo-nos conta que uns quantos macacos baboons se empoleiram no nosso carro tentando alcançar coisas que eles julgavam ser comida. As instalações de fronteira eram de aspecto precário construidos à sombra de acácias de grande porte entre outras mais ramudas, também grandes. O percurso feito no Botswana foi dos mais marcantes por terras-do-fim-mundo pois que a estrada era pouco mais que uma picada de terra muito arenosa levantando muito pó à nossa passagem; estavamos todos com côr de bronze e, por esse facto tivemos de usar lenços a tapar o rosto causando algum incómodo pelo muito calor que se sentia. Neste percurso deparamos com uma manada de 42 elefantes que nos reteve uns bons vinte minutos; uma máquina niveladora da estrada, passou por nós forçando a manada a atravessar e foi nesse então que dois machos exaltados bateram com suas patas o chão raspando-o de raiva enquanto abanavam as orelhas simulando investidas repentinas contra nós, atemorizadoras, diga-se.


A PONTE DE RHODES 

Este percurso pelo Zambezi National Park do Botswana, foi em quase tudo semelhante à reserva do Chobe Park na Namibia com a diferênça de vermos muitos mais animais, principalmente elefantes. Na fronteira do Zimbabwé o funcionário dá voltas e mais voltas aos nossos cinco passaportes e, não encontrando o carimbo de visto levanta-nos a questão. Nós nem sabiamos que era necessário visto para ali entrar mas, em áfrica tudo se pode resolver levando uns dólares no bolso. Com vinte e cinco dólares por pessoa tivemos direito a um passe temporário; mais barato e rápido do que se tivessemos tratado esses trâmites num qualquer consulado. Viemos a saber que o visto em Portugal, ficava em cinquenta dólares; nós só necessitavamos de cinco dias para ir e voltar, assim que, continuamos viagem sem mais contratempo; aquele dinheiro deve ter ficado por registar nos cofres do estado Zimbabwano porque o mesmo funcionário a quem entregamos os formulários, se deslocou a abrir a cancela e colocar o respectivo selo como estando tudo em conformidade; uma prática nada habitual.

(Continua…)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:41
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Quinta-feira, 10 de Março de 2011
DESERTO . X

  FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

        “Katima Mulilo - Secreta missão


Deserto secreto . Katima

A caminho de Katima Mulilo cruzamos todo o Caprivi Game Reserve, uma faixa com 32 km de largura apresentando-se no mapa como um dedo indicador apontando o Zimbabwe. Com cerca de 180 Km de extensão com floresta de folha larga, ela foi desenhada pelos britânicos em Berlim para poderem ter acesso a todas a s suas posseções; eles tinham o sonho de unir Cape Town ao Cairo. Estende-se pela fronteira do Sul de Angola até ao rio Kwando formando o Delta do Okavango do lado namibiano, com ilhas dispersas a partir daquele rio, tendo o Botswana a Sul.

Bar do Hotel Zambezi river 

Os rios Zambeze e Chobe formam as fronteiras Nordeste e Sudeste. O nosso destino são as Cataratas de Vitória Falls no encontro da fronteira com o Zimbabwe bem próximo da cidade de Livingstone. Já em Katima Mulilo resolvemos fazer compras no maior supermercado da região pertencente ao Sr. Coimbra, um refugiado Tuga vindo de Angola logo após o 25 de Abril; parece que este senhor tinha uma qualquer ligação com a PIDE e numa primeira etapa de sua fuga assentou em Windohek e depois rumou a Norte. Tomamos contacto esporádico com a família que tomava conta do negócio e depois dirigimo-nos até às margens do Zambeze aonde assentamos arraiais no hotel Zambezi river Lodge de características africanas e com acomodações para visitantes de mochila, como nós.

Protea

Foi bom ficar ali sentado na margem daquele Zambeze ainda manso cruzando pensamentos das terras do Fim-do-Mundo que no correr dos tempos parecia ser só uma ilusão. Éramos os exploradores modernos com todas as mordomias seguindo a peugada de Silva porto, Serpa Pinto, Capelo e Ivens. E, como foi bom pisar aquelas terras, ver manadas de elefantes raspando a terra impondo poder e abanando as grandes orelhas a meter medo. Ao cair da noite fizemos o nosso brai com aquela carne saborosa de caça que só existe por aquelas paragens. E, como eu gostaria de repetir esta volta mais uma terceira vez; Estas áreas remotas do globo são completamente diferentes de qualquer outra região; com muitas aves, plantas aquáticas, grande número de mamíferos e muitas espécies de vegetação de pequeno e grande porte como a Marula. No Mudumo National Park podemos apreciar búfalos, elefantes, leopardos, hipopótamos e muitos outros antílopes. Pelo menos uma vez na vida, o ser humano deveria ter a possibilidade de ali ir ver o verdadeiro paraíso da terra. Se Deus permitir, conto ir lá uma terceira vez para condizer com o ditado, não há duas sem três, conciliar a minha turbulenta consciência.

 Mazambala Lodge 

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:36
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
DESERTO . VIII

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

        “Shitemo. Secreta missão

Não obstante a postura dos governantes de Windohek mostrarem dureza no trato, as autoridades regionais faziam vista grossa às movimentações que o comércio local fazia com o outro lado dos rios Okavango, Cuito e Quando. O comércio floria em prosperidade, talvez de forma corrompida mas, tudo se vendia. No Divundo, tivemos necessidade de comprar mantimentos no shop do Miranda ao cuidado de sua filha Ana Maria e de todos os pacotes de bolacha que compramos só um estava no prazo de validade. Em terras do fim do Mundo vale tudo e, até tirar olhos; com a minha tribo da mini exploração africana nada de normal sucedeu mas ouvimos relatos de coisas mal paridas e defuntadas agruras de por-dá-cá-aquela-palha. O encontro com Pedro Rosa Mendes, autor do romance ficcionado de Baia dos Tigres aconteceu aqui em Divundo, no shop da Ana Maria de Andara. Fiquei a saber antecipadamente as agruras de Pedro Rosa Mendes descritas em seu livro, lidas mais tarde e da periclitância da guerra que se julgava não ter fim; não fiz muitas ondas porque o meu percurso de passeio não tinha o mesmo objectivo que o dele e, também não sabia o que ele viria a descrever em suas crónicas faladas via rádio todos os dias com o Puto. 

 Pedro Rosa Mendes . Jornalista

Não sei precisar o dia em que isto aconteceu mas foi útil ter uma visão diferente do que se estava a passar no terreno, no entanto pareceu-me tendencioso em seu livro no julgamento de Miranda comerciante, retratando-o como um brutamontes, só porque tinha pertencido à companhia Sul-Africana “Os Búfalos” que invadiu Angola no ano de 1975 quando das convulsões partidárias da corrida ao poder. Comparou-o a um Bóer “Mamburra” mal formado o que penso ser um exagero de todo. Eu, com a minha mini-tribo familiar, tínhamos partido de Cape Town enquanto Rosa tinha saído de Baia dos Tigres do Sul de Angola e até aqui, sucintamente descreveu a sua odisseia por terras em luta. Eu seguiria para Vitória Falls no Zimbabwe, retrocederia até Divundo e seguiria o rumo de Joanesburgo passando pelo delta do Okavango, tendo uma paragem de dois dias em Maun. Enquanto Rosa andou 10000 km, nós percorremos 13000. Ainda no Shitemo e, no lugar de Mukuwi um dia à tarde, observei a chegada de dois camiões carregados de sacos de farinha fuba tendo sido depositados num amplo armazém junto ao rio, creio que num lugar chamado de Nyondo.

 Epupa Falls

Okavango Delta.Botswana

Omega camp . UNITA

No outro dia, um pouco antes do meio-dia fiz companhia a um sobrinho de Dona Elisabete e quando paramos no mesmo armazém reparei que se tinham evaporado todos os mantimentos ali depostos no dia anterior; nada perguntei mas, logicamente deduzi que naquela noite tudo foi passado para a outra margem para o Calai ou Mucusso. Era por aqui que se passava o grosso dos mantimentos não obstante haver ao longo do rio Okavango postos militares de observação e guarda; O termo "só para Inglês ver" ajustava-se aqui, na perfeição. O povo Ovambo sabia preservar a sua existência partilhando os dias menos bons. De cartão da Unita camuflado no forro dos calções, regozijei-me por observar esta vivência no silêncio das terras do Fim-do-Mundo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
DESERTO . VII

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

Shitemo. Secreta missão


ITENERÁRIO

A casa do senhor Miranda e da Dona Elisabete ficava a uns escassos 50 metros da margem do rio Okavango; podíamos até gritar às pessoas do outro lado que era Angola; gente pastoreando e de vez em quando uma canoa que passava na labuta da pesca ou simplesmente deslocando-se, ora subindo ora descendo o manso rio. Dona Elisabete logo nas primeiras horas do dia inesperava-nos com um cheiroso café da qual nunca não mais esqueci o sabor. A casa situada na parte superior da borda rio era totalmente em madeira tendo os quartos de habitação situados no piso superior; a madeira estalava de noite e qualquer movimento parecia ranger toda ela. O ranger da madeira ao mais leve movimento e o ressonar de toda a tribo mais os da casa era uma sinfonia de sossegada intranquilidade. Aquilo é que era mato, os cheiros e ruídos não tinham barreiras nem fronteiras e sentir o cheiro de Angola ali tão perto que já por si era uma inebriante adrenalina mista de roceiro e sertanejo, pesquisador e explorador. Estávamos desbravando coisas novas.


NO TOPO DA DUNA

Recordo que nos três ou quatro dias que ali passamos e num dos almoços feito pelo Kafundanga eu, armado em bravo macho quis provar do jindungo da casa e tendo a dona Elisabete dito que tivesse cuidado com aquele “cahombo” de fogo e estando eu habituado àquele viagra, obviamente não o temia. Estava enganado. Transpirei, chorei e até parece que o meu cérebro borbulhou no cocuruto da careca. Malvado jindungo. O riso contemporizou as sofridas mordidas mas, também deu azo a que não mais me esquecesse de tamanho veneno empolador de lábios e cérebro. A guerra do outro lado do rio estava brava e soube que as indicações do presidente Sam Nujoma eram a de não deixar passar ninguém para o lado de cá, Namíbia. Eu ouvi isso porque estava lá. Tiro neles, disse numa reunião nas margens do Okavango em assembleia com os comerciantes das redondezas, Nyangana, Nyondo, Mukuwi, Andara Divundo e Machari.

SAM NUJOMA . O 1º PRESIDENTE DA NAMÍBIA

Do outro lado do rio ficava o Dirico e Mucusso. Ali estava eu lateralmente à reunião recolhendo dados à minha disfarçada passagem como turista; Aquilo não era para levar muito a sério pois que as famílias de Ovambos estão de um e outro lado do rio mas haveria que lidar com essa postura oficial; por algum motivo Sam Nujoma veio a propósito ao Shitemo em helicóptero, com seu chapéu de palha e sapatilhas de pneu presas ao dedão; interessava mostrar ao mundo que por ali as coisas estavam controladas e estancadas. Quem sabe se, os serviços secretos não deram a conhecer que por ali andava um Soba T´chingange, algures a recolher dados logísticos para a sua Unita. Desconfiei disso mas indo eu com a tribo familiar em jeito de conhecer bichos, não senti ter sido atormentado; em realidade eu era um espião disfarçado e ninguém soube disso até aos recentes dias e após se terem passado uns bons doze anos. Em realidade tinha um cartão da Unita que testava ser um Órgão dirigente no exterior a poder ser usado em caso de um qualquer aperto; este plastificado cartão andava sempre comigo embora escondido no forro dos habituais calções. Felizmente fui aonde quis, vi o que me apeteceu e nada de anormal se passou neste breve percurso de crioulas ousadias; uma vida de mistério, enganos e aventuras sem nada cobrar a José Cachihungo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
DESERTO . VI

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

RUACANA FALLS

RUACANÁ COM E SEM ÁGUA

Das quedas do Ruacana só vimos o penedo escuro na forma de falésia escorrendo pequenos fios de água envolvendo árvores retorcidas estendendo aqui e além suas raízes; ao nível da margem aonde nós estávamos estendia-se um lago manso irregular entre tufos de vegetação. Não muito longe do gado beberricando aproveitamos refrescarmo-nos nas águas do Cunene, o mesmo que há muitos milénios desaguava no agora seco lago do Etoscha. Foi no regresso que tivemos a feliz sorte de ver uma mulher Himba, toda pintada de ocre vermelho com tiras de couro cruzando o peito desnudo e seus carrapitos de cabelo enlameado de barro. Foi um contacto fugidio á beira da picada que liga à povoação Ruacana mas, no registo das retinas de todos nós ficou aquela figura de gente agora quase na extinção.

OKAVANGO

Foi neste percurso e a caminho de Ondangwa que tentamos abraçar um embondeiro majestoso mas, os quatro da tribo não conseguiram chegar à metade. A xipala amarelecida relembra a euforia daqueles dias mas que agora estão confinadas à caixa de sapatos do mokifo do soba; O mofo foi lá deixado para preservar o espírito das terras do Fim-do-Mundo junto ás petrificadas árvores das terras de Kaokoland, Namíbia Twifelfontein.

RUA DE GROOTFONTEIN

Com o rumo assinalado para o Shitemo do Miranda no Okavango, seguimos a direcção de Grootfontein, uma singela cidade no meio da grande chana de África e após o almoço, na revisão de mapas, julgamos de interesse ficar por ali uma noite a fim de conhecermos o Waterberg Prateou National Park. Porque gostamos do lugar, acabamos por alugar um chalé bem junto à falésia colorida do Plateou entre acácias e porque não podíamos percorrer com o nosso 4x4 o planalto, inscrevemo-nos no safari da reserva e por lá andamos toda a manha desfrutando paisagens alargadas. O Cudu, Olongue, do buraco de observação, deu um pulo descabido ao clik da máquina fotográfica e desenfreou-se entre capim e pedras.


 

Waterberg Prateou National Park

Já no Camp, o brai de carne estava melhor que nunca e, após tão suculento repasto veio a soneca de passar pelas brasas. A tarde terminou com uma ascensão entre rochas de escorrida pintura natural em jeito de arco-íris e seguindo a pista fomos e viemos já no cair da noite, de papo cheio em coisas de vistas soberbas. A contornar o chalé amiudadamente recebíamos a visita de saguins, bambis, capotas e um sem fim de pássaros, bicos de lacre, viuvinhas, celestes e o sempre presente monteiro´s ornebil com seu grande bico amarelo e, adunco.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
DESERTO . V

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

OSHAKATI DA NAMIBIA

Da tenda para o buraco de observação e, um céu carregado de estrelas que nos tremelicavam olhares, de entusiasmo, nem nos apercebemos. Era a tranquilidade da natureza envolta em muitas coisas a serem descobertas. Nos dias que se seguiram percorremos as pistas assinalados de forma a ver o maior número de animais, que íamos registando num prospecto; o leão era sempre o mais procurado e, quando alguém os descobria assinalavam-nos aos demais colocando também um pionés no quadro-mapa da base Okaukuejo. A adrenalina escorregava-nos a partir dos olhos, atentos a qualquer movimento ou montículo estranho no meio do capim. E, demos as voltas de Namotoni e Alali parando em um e outro para descansarmos, relaxando à sombra fresca das acácias, tomarmos um café ou comer-se qualquer coisa rápida porque, não havia tempo a perder.

Twifelfontein - floresta petreficada

Esta reserva do” ETOSHA PAN” foi há muitos anos atrás um lago abastecido pelas águas do Cunene que aqui vazavam suas águas trazidas do planalto central da Angola à semelhança das águas do rio Cubango (Okavango) que desaguam no Delta do Botswana, um lago interior. Por um acidente cósmico, o rio Cunene foi desviado do seu curso desviando-se para o Oceano Atlântico. Este antigo lago do Etoscha é agora uma das grandes reservas aonde se podem ver um grande número de espécimes, suplantando a meu ver, a Reserva do “kruguer Park” na África do Sul. Este é o melhor destino para quem quiser ver animais em quantidade e em curto espaço de tempo. É claro que temos o Quénia, N’Goro-Goro, Delta do Okavango, e muitas outras mais pequenas reservas mas, como o Etoscha não há igual.


Namibia - Ovobolândia

Tínhamos ainda um longo percurso a percorrer em terras da Namíbia e o nosso próximo destino era a casa do Miranda e da Dona Elisabete na margem direita do Okavango no lugar do Shitemo. Sucede que a caminho do Rundu a maioria da tribo composta de Ricar, Isabel, Ibib, Marco e este  Soba, quiseram ir até às quedas do Ruacana em terras de gente Himba e, dito e feito fomos a caminho de Oshakati aonde chegamos a tempo de almoçar no restaurante, pensão do Bicho, um Tuga natural de Estombar, do sítio da Ponte do Charuto. Como em África é fácil fazer amigos, logologo estávamos a par das novidades daquele ponto de fronteira com Angola e até ficamos a conhecer um comissário, talvez inspector da polícia de Angola que se prontificou acompanharmo-nos até o Lubango caso quiséssemos ir até lá. Em verdade só não aceitamos porque o aluguer do carro não comportava a entrada em Angola, um país nesse então em conflito e muito inchado em problemas. Em verdade o kota amigo Di, que em Windohek nos tinha prometido emprestar seu velho Mercedes furou o trato, coisa já prevista. Vieram à baila estórias de diamantes, fugas rocambolescas e exotismos próprios das terras do Fim-do-Mundo. Mestre Bicho, dono do motel, teve de comprar uns colchões para podermos dormir todos, tendo recomendado não tirarmos o plástico que os envolvia. Foi uma noite do caraças com a rastolhada de plástico e celofane. Noite para esquecer; ficou-me na retina a porta maciça com um baixo-relevo com a figura de um corpulento búfalo; anda por aí uma foto dessa escultura feita porta.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
DESERTO . IV

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“Etoscha Pan da Namíbia”


AONDE FICAR DEPOIS DA "GATE"

Chegámos um pouco antes do fim do dia. A noite, aqui no Okaukuejo do Etoscha desce rápido; no lusco-fusco das 18 horas os portões encerram e só em caso de força maior se autoriza a saída pela noite. Ali, só gente do staff pode sair da área do arame farpado depois do cair da noite. Não havia chalés disponíveis para aquela noite e o recurso foi montar as duas tendas que levávamos na mala do “four bay four”, no espaço disponível entre a cercadura da reserva e os balneários do campismo e caravanismo. O buraco de observação de animais ficava relativamente perto, e bem pouco tempo depois deram indicação de que uma manada de elefantes sequiosos estava achegar; todos os restantes animais e até dois rinocerontes deram espaço ao verdadeiro rei do Etoscha; cansado que estava da viagem não demorei muito a adormecer feito um cepo e fiquei muito indignado de não me terem acordado quando apareceram os leões a beber lá pelas dez horas da noite. O “Okaukuejo Camp “ em forma de quadrado deve ter um 800 metros de lado, um bairro de chalés para turistas, uma zona de residências com telhados em capim para funcionários, e bem ao centro uma torre de onde se divisa o horizonte, ora mata, ora chana aberta em forma de clareiras.


O BURACO E O CHALÉ

O quadrado é todo cercado e tem um único portão por onde se sai e entra. Foi bom termos ficado nas duas tendas porque nessa noite os leões, provavelmente os mesmos que estiveram a beber no buraco, através das lonas da tenda podemos ouvir os rugidos misturados com choros de hienas, tudo isto se estava a passar não muito longe de nós e do arame farpado, o que perturbou na forma de medo as mulheres da nossa tribo, Isabel e Ibib. Logo ao romper do dia, após as seis horas e já matabixados, constatamos que dois leões tinham morto uma jovem girafa e de recente, ainda por ali estavam deitados guardando a presa enquanto hienas e chacais circulavam nervosos ao redor do lugar.

ACÁCIA NO PAN

Aquele barulho de mato zunindo o silêncio estrelado em escuro céu, não permitiu que as donas, dormissem tranquilas que, só falavam em víboras, escorpiões, aranhas, cobras de todo o formato, grandeza e perigosidade, centopeias e nos chacais comendo moscardos, borboletas e bichezas rastejantes de milhentas patas, junto às luminárias do camp; foi um alívio passar a seguinte noite num chalé moderno envolto em espinheiras de grande porte. Nunca tinha visto tanta espinheira junta como aqui nas vastas áreas planas da Namíbia, terra das acácias num semi-deserto a que chamam o grande Calahári ou Caroo. Aquela, não seria a única noite passada quase ao relento com chacais ensombrando tremuras medrosas entre candeeiros e farejadas sobrevivências.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:12
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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
DESERTO . III

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“O silêncio de Ai-Ais”


CASAS NO HOBAS DO FISCH RIVER

Num amplexo olhar dum cenário de largos horizontes e pontos verdes de muchito, aí estava o Namibe. Em alturas despertinas há dias em que a beleza é tão avassaladora que magoa, como qualquer coisa mágica que despoja o ego dos humanos. E, não é só no Namibe que esta atitude volátil acontece e embevece; idênticas paisagens podem ser observadas em todo o Caroo, Costa dos esqueletos ou Naukluft os quais percorremos fascinados

Naqueles dias de correria louca num quatro por quatro éramos donos do que víamos; tudo era nosso na vastidão. Da doce vista das areias eternas entrecortadas com tufos de capim sobrevivente do nada, havia em nós um misto de atracção e raiva carregada de adrenalina. O medo protector balançava alegria escondida e também curiosa tranquilidade impregnada de um silêncio pacificador; a coisa nunca sentida fora deste mundo, empolgava-nos a existência num esmagador pórtico dum além sem fronteiras, de para além-de-tudo ou as terras do fim do Mundo.


ÁRVORES DO Ai-Ais

Éramos uma mini-tribo procurando experiências de vida num ermo só nosso. Éramos cinco despeitados “Tugas”: Pai, mãe, dois filhos “angolanos” e uma parceira genuinamente metropolitana dos sete costados partilhando vontades. Todos sequiosos, desbravando o nada como se, se nos procurássemos ali e, naquele agora.

De Sul para Norte depois do Orange River, descansando no “Ai-Ais” e subindo o Canyon do “Fiche River ” procurou-se pinturas rupestres, pegadas de dinossauro e vestígios de meteoritos. No meio de triliões de anos petrificados, rosnávamos ininteligíveis admirações brilhando argumentos tirados à pressão duma imaginária visão. Há noite, entre zunidos e guinchos vindos da negra escuridão em assalto nocturno, olhávamos as fagulhas saltando da fogueira explodindo térmitas; improvisando jantar, assamos carne de “Orix” e “Biltong” que gulosamente deglutimos com rega de cerveja “Ansen”, “Whindooek Laager” e chá “Rooibos”. Já mortos de sono, dávamos por findo o dia atirando pedaços de ossos aos quase inofensivos chacais que de olhos brilhantes nos metiam susto no lusco-fusco do escuro. Estávamos no majestoso deserto do “Caroo” , um fragmento do Calahári.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:31
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
DESERTO . II

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“Xipala dos esqueletos”

FISH RIVER . CANYON

A fotografia tem o condão de nos suspender a felicidade num dado momento que no tempo se reflecte em traição. Aquele instante dum abraço amigo, amanhece nos anos de combinações de sonhos idealizados, leviandades desordenadas guindadas a outras latitudes. As generosas aventuras acumuladas num sótão ou vão de escada, numa caixa de sapatos ou um álbum de cadeado, mostram doces recordações e longa, longamente, recuamos ao tempo a recordar aquele abraço numa manhã chuvosa de quando do cais partimos rumo ao desconhecido deserto. O inesperado espírito de adaptação deu solução definitiva aos contornos e detalhes que o tempo desbotou em lugares vazios: um conjunto de existências aonde como um deserto, só resta o nada. Também entre nós nada existia, nem existiu e, amando-nos, fizemos tudo para cada um por si, esconder o que o coração ditava; nunca confessamos um ao outro que nos amávamos e, o sacana do tempo enrugou-nos os destinos até que, tardiamente soube que o teu eu te levara para destino incerto.

Foi neste então que deixei cair uma lágrima de ressentimento e, pedi-te perdão.


COSTA DOS ESQUELETOS

E, vem o vento e o ruído arrastando permanentemente ondas de areia fina que num repente se levanta entranhando-se nos cabelos, olhos e ouvidos; e outra vez o deserto infindável, contrastes de nada ondulando areia; lugares em que falamos coisas estúpidas e que não se entendem, inutilidades de cabelos varridos pelo vento. Dando tempo ao tempo, juntos, olhamos a imensidão daquele cenário belo e devastador, correrias de marujos não tragados pelas águas daquela “costa dos esqueletos”. Sobressaindo da areia aqui e além, mastros de velhos navios picam o ar saídos da areia em permanente labuta que vai e vem na água revolta. E é Diogo Cão e tantos outros que por aqui vagueiam que nem kiandas, espíritos de calunga enfrentando além do vento frio do deserto, hienas e chacais que se aventuram na predadora tarefa de limpar os ossos; os esqueletos macabros de caveiras de gente, bichos e peixes fantasmagóricos. A terra do nada do Ovambo, a Namíbia pertence por inteiro aos Namibianos mas, a paisagem pertence a quem a souber observar. Há muito que não vou a “Cape Crosse” e, sinceramente, sinto saudades desse cemitério, património da humanidade.

(...Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:54
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
TUNDAMUNGILA VII

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

        "fui lá visitar pastores"

 O SOBA

UM DIA FEITO MARAJÁ 

Aquietando tranquilidade educando emoções da vida, gerêncio pensamentos de tranquilidade comigo próprio, longe de tudo. Em tempos prometi falar dos Mazombos de Sacramento do Uruguai mas ainda não me foi possivel ir até lá, fica prometido sem data defenida.

Agora estou no Puto, amanhã se verá!

Numa idade própria para cultivar flores, falar com elas, gozar do seu pefume, trato de fazer novas conquistas entre pessoas. Em verdade é mais gratificante conquistar gente do que atomentá-las, banir a raiva, emoções de rilhar dente duma mórbida ansiedade.

Longe dos amilongados uso fracassos passados para lapidar emoções, separando o trigo do joio, lutando no corredor do tempo contra o síndroma de pensamento acelerado.

E, o meu amigo Ruy de Carvalho, inconformado com a vida morreu de velho lá pelas terras lindas do nada a que chamam de Namíbia, eu que viajei com ele em sonhos de relaxar “fui lá visitar pastores” num além Namibe. Paz à sua alma que rola como um fardo de palha ao longo do Calahãri, socorrendo a solidão do vento Kuvale árido, soprando florestas petrificadas dos pastos dos Himbas. Ele, um Mazombo de Angola, para mim só vai ficar ausente, lá em Swakopmund aonde as hienas castanhas, sorrateiramente vinham assaltar os nossos lixos do fundo do quintal.

 

RUY DE CARVALHO 

A mente é fundamentalmente uma máquina de sobrevivência. A mente colecta, armazena e analiza as informações mas, seremos destruidos por ela se não houver consciência porque tende a se transformar num monstro.

Não quero perder a minha capacidade de analizar e criticar com consciencia que conscidero o bem mais precioso que temos; sem isto seremos apenas mais uma espécie animal.

Percorrendo os caminhos do ser, um dia eu e Carvalho nas terras do fim do mundo entre Ochakáti e as quedas do Kunene encontramos um muito kota Himba sentado em cima duma velha mala em sua palhota.

- O que tens aí nessa mala? Perguntámos.

- O tempo! Respondeu ele

- Já nem sei há quanto tempo estou em cima desta velha mala! Acrescentou o Himba.

- Dá uma olhada insistiu Carvalho.

O Himba resolveu abrir a mala enferrujada e, mal conseguiu acreditar ao ver que a velha mala estava cheia de ouro.

Aquele tesouro, virou migalhas de prazer.  Um ano mais tarde o kota Himba estava desfeito em cachaça.

Não mais nos perdoamos por tal conselho.

 

O soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:07
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QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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