Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
MONANGAMBÉ

          MONANGAMBÉ

        “Tempos de bessangana”

 

      Crónica sempre actual. Estamos em 2008

      O ontem diluiu-se na noite trespassando-a no hoje. Havia qualquer coisa no ar além daquela canção há muito esquecida e, que agora a trauteava na mente; à mistura de trovões, tiros e rajádas, rafadas prolongadas como obuses, explodiam no acto desta escrita. Era a trovoada tropical com todo o esplendor de África.

      A manhã chegava com muitas luzes pelas cinco horas; chovia copiosamente!

Os trovões enfiando uns nos outros em som, missangavam no pensamento aquela canção: - Monangambé

     - Naquela roça grande não tem chuva

     - é o suor do meu rosto que rega as plantações

     - Naquela roça grande tem café maduro

     - e aquele vermelho-cereja

     - são gotas do meu sangue feito seiva.

A chuva intensa desdizia este poema neste preciso momento em Vernom Crooks no Kwazulu mas, em 1975 era a música que raivosamente mais se ouvia nas rádios de Angola; o processo de revolução em curso apanhava quase todos numa inocente surpresa dum rosário de pavor.

Os novos escritores, missangados na rebelião emancipalista eram passados para trás e, não era daquela forma que se queriam emancipar de seus país.

António Jacinto, autor daquele poema, branco e filho de Portugueses como eu, sentia o que transmitia; talvez sim, talvez não!…  mas, era um sentimento de latente pureza nos novos filhos de África. Filhos sem cor, que vincavam a sua afirmação em actos ou ditos de rebelião.

”A estação das chuvas”, num acaso resvalado com inventações verdadeiras, no tempo e no conteúdo, trouxe-me à tona tal recordação. Por José Agualuza, autor daquele romance, fiquei a saber coisas de Jacinto.

No Baleizão, Pólo Norte, Chave D’ouro  ou Bracarense (cafés de Luanda), cruzava-me no dia a dia com amigos do tempo de escola, Colégio Moderno, João das Regras na Maianga, ou José Anchieta muito perto do então Restauração; jogávamos à moeda na toma da bica, após almoço.

Rui Mingas, que veio a ser embaixador em Lisboa cantava aqueles poemas com apurada convicção.

Aquele grupo forjado na Maianga, Maculusso, Ingombotas e Quinaxixe, escreviam com reservas de medo. Com nomes inventados pseudonavam o próprio nome; era uma mutilação voluntária vincada de revolução meio académica, meio romântica de  Che Guevara estampado no peito; eram tempos de novos heróis com nomes  de Valódia.

Said Mingas, que foi meu colega de carteira na Escola Industrial de Luanda, veio a ser o ministro da economia de Angola; de nome Dias, inverteu as letras e ficou sempre Saíd até ser imolado dento de um carro lá para os lados da Casa Branca. Contradição de nomes, até no sítio fatídico da sua morte!

Um conjunto de Kaluandas entre os quais o próprio Luandino, viram adulterados os ideais que preconizavam. A torrente apanhava estes novos ideólogos em manobras e asperezas ainda desconhecidas; não lhes era habitual.

E a letra do Jacinto continuava:

- quem dá dinheiro para o patrão comprar

- máquinas, carros, senhoras,…

- e, cabeças de pretos para os doutores ?

- quem faz o branco prosperar ?

- ter barriga grande – ter dinheiro ?

- quem é ?

Curiosamente há três dias atrás e, exactamente no sítio aonde Mandela foi preso a 5 de Agosto de 1962,  fiquei a saber que aquele Jacinto, era o mesmo que comigo jogava moedas na Bracarense. Aquele sítio junto a Lion River tem o nome de Lidgetton; pernoitei por ali, n’uma barragem no subúrbio de Howick chamada de Midmar.

Mandela, dirigente do ANC, talvez, pelo mau exemplo verificado em Angola, não se deixou envolver em teias obscuras. Com clarividência de um estadista deu um bom rumo à sua África do Sul, pude agora, constata-lo! O progresso aqui está incomparávelmente à frente. Aqui, houve reconciliação e bom censo; o ódio foi politicamente astringido.

Aquelas ideias puras dos meus amigos, missangavam-se em silêncios distraidamente corruptos de agentes ditos  amigos; pouco a pouco, a sua inocência, era roída da carne até à alma.

       Os tempos de bessangana  já eram!

 

 Escrito por mim em Kwazulu Natal – Vernom Crooks, 23 de Janeiro de 2005-02-01

 

Glossário: Bessangana – mulher vestida com panos pretos e, quando de luto, de cabeça com cartola do tipo de cipáio; Kaluanda – natural de Luanda; monangambé – escravo, serviçal,...

                                                                               O Soba T´chíngange

 

 


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PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:36
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