Domingo, 29 de Junho de 2008
BRASIL E O CANGAÇO - VII

          BRASIL – A saga do cangaço ( continuação...VII )

                                                                                                            

Naquela guerra de Setembristas e Cabralistas, os homens em armas no campo de batalha lutavam sem saber ao certo porquê lutavam; era uma verdadeira fábrica de futuros salteadores, como se veio a verificar. Sem trabalho nem directivas de governação correcta, com as finanças penhorando valores e honradez, os pobres insurgiam-se contra os barões. Era sobre estes ricos, detentores de espólios de além-mar que se fazia sentir o descontentamento e no entender do povo quem roubasse estes e, algo desse de sobra aos necessitados, era alvo de acolhimento, encobrimento e inaltecido pelos seus feitos. Bem haja!...diziam.

Numa contenda em terras de por detrás dos Montes José, salva Sá da Bandeira de morte certa e, por este feito este, atribui-lhe as insígnias de Torre e Espada, a mais alta condecoração militar.

Zé do telhado sai da tropa com o posto de sargento mas o seu temperamento não permite ficar indiferente à revolta de Maria da Fonte e junta-se de novo ao levantamento desencadeado a 22 de Março de 1846 em Póvoa de Lanhoso.

Esta revolta a juntar à guerra da patuleia da qual faz parte, termina pela convenção de Gramido, assinada nos arredores do Porto em 1847.

Desmobilizado da guerra, pelo facto de lutar contra Cabral que defende a Rainha D. Maria II, dá a este Zé uma má fortuna; empenhado por tudo ter empatado na guerra, perseguido pelos zeladores do reino e das finanças, recorre a pedir auxílio ao agora Visconde Sá da Bandeira mas, este não lhe dá a atenção devida, não o ajuda; pelo contrário, evita-o sem pudor. Foi este o grande motivo para se revoltar contra os ricos, os homens do mando sem coração e, de raiva, com rancor, resolve não dar tréguas em resposta ao menosprezo; roubá-los vai ser a saída mais justa para compensar o seu espírito de apego, dar de comida a seus filhos e dar uma melhor vida à sua Aninhas, sua dedicada esposa de quem tem recebido os melhores créditos. Por todo este estado de frustração e ainda, fazer frente às represálias dos vencedores, sem saída, é levado a juntar-se ao bando de Custódio e Boca Negra.

José do Telhado depressa faz valer a sua aprumada desonra tornando-se o chefe da quadrilha por morte de Custódio; tem à perna, João Pequeno de quem não recolhe simpatia, aliás a falta de empatia é recíproca; João Pequeno, não é boas rés e, vai ter de o manter debaixo de olho.

Aninhas, sua mulher, sugere-lhe sempre uma mudança de vida, e tanto repete, que um dia marcha para o Porto afim de embarcar para o Brasil. Atravessa o mar na Barca Oliveira desembarcando em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.

Zé tentou ser um homem de bem, trabalhou numa grande fazenda lidando com o gado que ele tão bem conhecia mas, as saudades da sua Aninhas eram muitas e, como não havia maneira de ganhar fortuna rápida, resolveu regressar carregado de sombras na mioleira em função do que um patrício lhe disse; sua mulher não estava a receber as remessas, alguém estava a governar-se desviando-as e,...as finanças penhorando todos os seus bens por dividas ao fisco e a gordos agiotas de patihas abastadas. Zé voltou na mesma Barca de Oliveira que o tinha levado, por volta de 1851.

No início de 1859 as, autoridades policiais quase conseguem deitar mão ao Zé, escondido num refúgio que só João Pequeno sabia aonde era; Esta denuncia não podia ficar impune e dias depois  já com o grupo esfrangalhado José, munido de uma grande tesoura desloca-se a casa de João Pequeno, dissimula um pretexto, descem ambos à adega e, é ali que corta a língua do traidor com a tal tesoura de cortar galhos. João Pequeno esvaiu-se em sangue tendo a morte como o fim dum porco.

Depois de oito anos de cangaço por assalto à mão armada dá entrada na cadeia da Relação do Porto nos primeiros dias de Abril de 1859; numa tentativa de fuga para o Brasil é preso nos porões do Barca de Oliveira. Nesta prisão mantém algum contacto com o também preso Camilo Castelo Branco e, das conversas entre eles, resultou “Memórias do Cárcere” que deu a conhecer ainda mais o heroi da Patuleia com toda aquela carga enfática que dá a escrita de Camilo.

Do Porto, Zé é transferido para Lisboa para a penitenciária do Limoeiro e mais tarde a prisão militar de alta segurança do Castelo de S. Jorge.

Embarcou para o degredo no brigue “Pedro Nunes” no Arsenal da Marinha sem se despedir da Aninhas e dois filhos. Lá pelo ano de 1862, chegou a São Paulo de Assunção de Loanda aonde foi encarcerado na fortaleza de São Miguel, morro saliente que cobria a baia de Luanda a um tiro de canhão.

Em Angola o Governador-Geral tendo conhecimento da chegada de Zé do Telhado chama-o ao palácio e incumbe-o de juntamente com outros degredados apaziguar levantamento dos gentios em Ambriz e mais no interior aonde os negreiros faziam furtivas intervenções negociando com gente escravizada.

Depois de muitas peripécias, perseguição e morte de negreiros, e ter submetido sobas e macotas do Quilombo às ordens do rei de Portugal é lhe dada uma outra tarefa pelo governador Castro de Benguela, apaziguar algum gentio do interior, Dombe e alto Caporolo.

Zé, que era agora um branco “camorero” caçador de pacassas, negociante de carne seca, borracha e mel, teve de seguir para norte por via dum novo governador em Benguela discordar da vida livre que este tinha, quando deveria estar no presídio e, por via de dúvidas, não viesse a ser detido, mudou as suas imbambas para Ambaca, depois Malange e, seguiu até às terras de, para lá de Kassange; assentou no Xissa, Circunscrição do Concelho de Malange.

O antigo castrador de porcos de Sobreira e Lixa lá na santa terrinha do “puto”, era agora um negociante de marfim, deslocava-se em boi cavalo (gnu) e dispunha de muita gente e burros para carregarem as imbanbas, carne seca, mel e marfim.

O “pai dos pobres” ou “grande branco”, como era conhecido entre os negros, morre antes de completar os sessenta anos numa escaramuça espetando-se numa lâmina de faca que, por má fortuna estava empinada ao lado dum dos sobas já defunto. Zé, defuntou-se sem glória em 1875.

Os kotas negros, durante muitos anos iam ali chorar ao pé da sua campa sempre cuidada; ainda hoje evocam-no em estórias de bravura aos candengues (mais novos) da baixa de Kassange como sendo aquele branco, Muata que nunca os explorou. Tornou-se ali um líder perante os negros, dando-lhes a conhecer novas coisas do mundo civilizado e,... por lá vão pondo flores.

No decorrer do ano de 1960, tinha eu 15 anos, quando pude presenciar a sua campa cuidada,  bem florida e com alimento suplementar, como era habitual dar aos mortos que em vida eram respeitados. O camionista parou a “magirus” e fez questão que eu visse aquilo em terras da antiga rainha Ginga; uma campa de branco florida, para perturbar os estudiosos do fenómeno colonizador.

 

Continua..... (em execução)

O Soba T´chingange

    

 

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:44
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