Terça-feira, 13 de Julho de 2010
XICULULU . III

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“Alma naufragada ”

 T´CHINGANGE

Naqueles dias de esvaziar tempo ao sol de Benoni, dias de lentos ápices em desfazer de sono, sonhar de orelha fria só minha própria ensonhação, caminhando na linha branca do arco-íris do vento gelado do Drakansgerg, eram mesmo só dias naufragados de olhar o céu, ora tem, ora não tem nuvens, passa avião, já não se vê. O que era preciso mesmo, era mandar a pele e muita paciência fazendo de lagarto ao sol, que num dia, p´ra ele lagarto, são seis meses e também a cobra que são seis meses e seis dias.

Daqueles muitos dias a olhar o alvo, nada entre nuvens, estava só mesmo a giboiar.

Tuge, pizei-a três vezes “calma porra”, olha no chão, xinguei meu figado assustado fazer revolução no coração com um muxacato de adivinhação de pambo, dar três voltas no pescoço, no faz-encontro de xicululu, olhar mesmo de través nas meninas dos olhos deles, azarados e agoirentos malaventurados inimigos do alheio. Espíritos ventosos levitando miados de onça, raspagem de chapas num moinho de vento rolando ferrugem, puxando água subtérrea nos cazumbis de salalé.

Isto é África.

Cheiro de novo aquele silêncio arrulhado nas mabubas do meu pedregal, água escorrendo muitos borrifos merengados de contínuos torcicolos xuaxos caindo na panguila dos quiximbis musgosos, de peixes coloridos transformistas de lagoa pequena de papiros repenisecos a fingir de ilha, uma verdade de faz-de-conta para esbranquiçar na vontade da vida, um céu azul que vem de cima.

 

 

A n´dele, no pepetalear de meus olhos, estava esquindivando no capim razo de inverno seco; de meu coração e ouvidos limpos, subia na ânsia de coaxar águas dentro da boca ritminando minha cabeça reviengada de ideias matumbas. Não era uma n´dele, nem era uma pomba, era mesmo uma rola, grande, olhando para mim, picando o chão, caminhando patita ante patita, até que esvoaçou num instinto só mesmo dela, com medo, que eu nada mexi, nada fiz.

E, vinha o cheiro mau de plástico queimado do outro lado da farm, restos provocados a trambulhões duma trituradora como pequenos trovões, gorgolejos de Xova-Xitaduma duma lixeira mesmo. Queimando o céu aberto desmaravilhava o sussurro do vento esfarfalhando de fumo ramos de fingir,…era antena cheia de xicululus ondulando o horizonte de vozes caladas, circulando só nos ouvidos dos mulungos e miamas , celemóveis, telemóveis, celulares duma tecnologia de ponta a revoar.

Ayoba, ayoba, ayoba. Coisas de África, mesmo,… ninguèm sabe bem o que isso quer dizer, mas está bem, ayoba.

Um velho de incaracteristica cor balouçando em sua cadeira, uma casa de madeira no meio dum nada do Calahári, um tufo de palha que passa soprado pelo vento, que pousadamente diz ayoba. Havia um distico por detrás “biltong for sale”.

Giboiando no enfileirado de razões de muitas gotas trambulhadas na água da pequena panguila, os caminhos do sol se maravilham em minha vida, só mesmo minha. O mundo dos finalmente para mim, é muito mais vazio quando penso no fundo do fundo, nuns fundilhos da forma que nem um pulmão de kianda  pode encher de ar.

 

Glossário: Benoni - um lugar de África; giboiar – descansar como a giboia; tuge – merda; Xinguei – barafustei, dei raspanete; muxacato – instrumentos de adivinho ou kimbanda; xicululu – mau olhado, olhar de revés, olho gordo; cazumbi – feitiço, alma do outro mundo; salalé – formiga branca, térmita, do tipo do cupim; mabubas – cachoeira, queda de água; merengados – vem do merengue dança, trageitos, bailação; xuaxos – sussuros, rumores; panguila – lagoa; quiximbis – espíritos da água; n´dele – branco, gaivota, carraceira; pepetalear – pestanejar; esquindivando - raspando-se, fugir de forma rápida por entre obstáculos; ritminando - ritmo de furar a terra, apanhando bichos dentro de; reviengada – baralhada, fintada, piruetada; matumbas – burras; farm – quinta (inglês); Xova-xutaduma – carro do lixo (homem que transporta ou trata do lixo – Moçambique); mulungos – brancos ( em machangano de Moçambique); miamas – como os negros se chamam uns aos outros; biltong for sale – carne seca para venda; kianda - sereia

Da lavra do

Soba T´Chingange

MOINHOS DE VENTO 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:47
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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