Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010
KALUKEMBE . I

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“Angra dos Negros – Moçâmedes”

ANGRA DOS NEGROS . NAMIBE

Nas chicotadas de um destino injusto, amilogado com a vida em terras madrastas destemperei o tempo emboscando palavras fervidas em minha mente. Agora que sou um mais velho kota, vou recordar coisas da minha terra de Angola só de sonho porque quiseram os fazedores da estória que eu passasse a ser um mazombo do mundo como um matumbola das dixitas do puto, salvo seja. Vou tentar deixar meu coração falar sem retenção nas válvulas porque, a vida não é medida pela quantidade de vezes que respiramos, mas pelos momentos que nos tiram a respiração.

E, porque uma mente inactiva é como uma oficina do diabo, vou pular a cerca do agora e regressar à minha África cheia de cazumbis, kiandas com magia de cheiros e sabores temperados em cacimbos antigos.

Uma pessoa não ama necessariamente a terra aonde nasce mas, aonde a sua alma se encontra com ela própria, da qual recordamos percalços de soberania. Em 1968 fui a Moçâmedes passar as festas do mar, andei no picadeiro, algo parecido com o calçadão brasileiro e comprei ao Turra, fiscal da reserva do Iona, uma pele de onça e três de Zebra; posso agora, dizê-lo porque já passou demasiado tempo para o segredo continuar guardado, seja como for, tudo se descolonizou. Moçâmedes,confinada entre o mar e o deserto, era uma  porta de entrada para o sertão angolano.

PEÇAS DE PANO . LIBONGOS

Foi entre os rios Giraúl e Bero que chegaram os primeiros habitantes colonos de Moçâmedes. Após ser dada independência ao Brasil a 7 de Setembro de 1822 pelo príncipe regente do Brasil D. Pedro, uns quantos Portuguêses de Pernambuco, descontentes, atravessaram o Atlântico em naus e,  seguindo a latitude de 10 º, deram início à colonização do sul de Angola, mais própriamente o deserto do Namibe. Eram 171 almas desejando encontrar sossego e fazer vida pois que, do outro lado do Atlântico viam-se perseguidos por arruaceiros nacionalistas eufóricos com a sua emancipação à semelhanço do que veio a suceder em Angola no pós 11 de Novembro de 1975.

A 23 de Maio de 1849  aqueles 171 Luso-brasileiros embarcam na “Tentativa Feliz” e no bridge “Douro” da Marinha Portuguesa chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Castro e, decorridos dois mêses de viagem aportam a 4 de Agosto de 1849 naquela Angra dos Negros, um lugar de n´tumbo.

Após o grito do Ipiranga, Portugal levou mais de cem anos a recompor-se e disciplinar o encontro consigo mesmo. Angola nesse mesmo tempo, estava entregue a uns quantos funantes e negreiros que, praticamente, só vendiam gente para os grandes engenhos de açúcar ao longo de todo o Nordeste Brasileiro. Por assim dizer era uma colónia penal de degredados que zelavam do território com rédea solta.

N´TUMBO . WELWITSCHIA

A partir do rio Giraúl era só deserto, não havia gente, uns quantos Cuanhamas e Cuvales que não eram significativos e, a sul do Cunene não se via alma, daqui o chamar-se “Namíbia” que, em língua Ovambo, quer dizer terra do nada; esta é a verdadeira razão da possessão Portuguesa não se estender até à Cidade do Cabo.

O navegadore Diogo Cão, em fins do século XV e a partir da foz do rio Congo espalhou padrões, mas no decorrer das viagens com Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, concluiram  que a aridez da costa não permitia então, a fixação de gente.

A coroa, cometeu o grande erro de, na ânsia de alcançar as riquezas do Oriente, sómente espalharem uns quantos padrões sem fazerem assentamentos de gente ou os usuais entrepostos; desprezaram a então Damaralândia, afastando-se da costa dos esqueletos com medo de ali ficarem aprisionados nos baixios de areia e, mesmo a sul de Orange River até ao Cabo, não obstante o terreno ser fértil não lhe deram o devido interesse. Os homens escravos, comprados com conchas ou libongos eram o alvo dos novos achados.

Aqueles primeiros habitantes idos de Pernambuco, chegados a Angra dos Negros, começaram por viver quase como indígenas, em toscas cabanas de pau a pique e varas do mangue cobertas a capim junto à foz do rio Bero; ali viviam homens, mulheres e crianças em promiscuidade, comendo quase exclusivamente peixe temperado a óleo de palma, sendo o pão de mandioca fornecido pelos escravos serviçais que tinham as suas lavras nas margens do Giraúl. Decorria  então, o ano de 1849.


Glossário: amilongado: - amigado, emancebado, amantizado; mazombo: - filho de colonos, branco de 2ª linha;  matumbola: - um vivo morto, drogado, passado dos carretos; cacimbos: - orvalhos; kianda:-feiticeiras, fantasmas, assombrações; dixitas: - lixeiras, sugeira das barrocas, entre trastes; n´tumbo : - planta do deserto, tombua, welwitschia; Ovambo: - povo das marges do Cunene,  da Ovobolândia; libongos: - panos usados como pagamento de serviços, substituto de dinheiro.


(…Continua)

O Soba T`Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:36
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