Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XI15.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divundo junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi. O senhor Rocha que fugido do Sul de Angola, ali perto, se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas. Alugava estas a baixo custo a refugiados; era em verdade um alojamento local tipo cortiço brasileiro. O senhor Bicho da ponte do Charuto seguiu-lhe as pisadas tornando-se ambos empresários com algum sucesso. A vida de fronteira é assim um pouco tumultuosa pois que sempre tem gente rufia misturada com gente boa que de outras paragens por ali passa fazendo compras ou desviando as compras dos outros; neste caso e, pelo facto de Angola estar envolvida numa guerra prolongada, as carências eram aqui suplantadas no possível.

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Os circuitos de comercialização através dos meios de administração portugueses no território angolano foram totalmente desmantelados e, daí haver lacunas preenchidas pelos mais astutos, vigaristas ou arranjadores de ocasião cazukutas. Junto com esta gente que esgadanhava formas de vida e, com mais-valias de câmbio ou outras, simplesmente ganhavam ganâncias em operações de logística, ajudando nos cambalachos e, até vendendo vidro por diamantes, ouro trocado por produtos da terra ou transaccionando por serviços de ajuda aqui e ali e, toma lá esta gasosa para almoçares. No meio de toda esta amálgama de gente havia informadores pagos pelo governo de Angola disfarçados de gente comum, atentos ao que se dizia e fazendo triagem com empolgadas excrescências valorativas…

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Foi por aqui que me refastelei com uma caldeirada de cabrito na pensão, hotel e convívio de rufias, espiões e camaradas com irmãos. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, num diz que foi para saber o que é, da minha insistência na recolha de informações. Mas, Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico; estava a terminar um hotel com piscina criando condições de prosperar e negociar com diamantes quando lhe fosse possível, pois então. As falas eram abertas e num instante ficávamos a saber coisas de grandes lonjuras como o dito de é ali mesmo patrão! E, este ali ficava a uns duzentos quilómetros. Neste meio tempo de cavalgada esticávamos as orelhas do monangamba, chamando-o de nomes toparioba e sundiameno para cima com o apêndice de mentiroso de merda!

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Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade dando a isto, uma característica única no mundo; em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão por que ninguém se esquece desse viver, daqueles aromas dum “rust camp”, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” ao por do sol atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas com mato aparentemente estéril - lugar da surucucu.

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Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé de Andara e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas actuaram com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. A Namíbia nesse então, estava sob gestão sul africana

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Estou a falar do Miranda, natural das terras Atrás dos Montes lá para Chaves, Miranda do Douro aonde as vacas têm cornos amplos, mas neste contexto de gente fugida havia muitos mais. Rocha diz que nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola.

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Bicho da Ponte do Charuto, reconfirmaria as falas de Rocha. Todos sabiam de tudo – uma vastidão de território e todos a conhecer as vírgulas de cada qual ao ínfimo pormenor, como se, se encontrassem todos os santos dias numa praça do Mundo. Um fascínio que nem a matemática quântica ultra moderna consegue explicar. A família Miranda foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção e assim poderem levar uma vida de normal família. Nestas estórias repetidas nem sempre as coisas aparecem do mesmo jeito ou no mesmo lugar porque, cada cabeça sua sentença e cada qual acrescenta uma pequena casca ou muitas cabeças como aquele lobisomem dando tempero esmeradamente lendário.

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Alguns anos mais tarde, passagem de ano - 31 de Dezembro 2014 para Janeiro de 2015, a escassos metros do rio Okavango, sentado em meu chinchorro (rede de balouçar), divido-me entre os barulhos da chuva e os rápidos do rio, dos piares de pássaros na boca dos ninhos, das rolas sempre gemendo e dos muitos milhares de cigarras que abanam prolongados trinados. Estava no d´jango da Kikas filha de Miranda, Vanda Miranda Potgieter casada com um bohér de estrema simpatia, casa de N´duvu S´tores de Andara, também posso escutar a zoada de carros circulando ao longo da estrada de macadame, areia e pedras soltas. Um homem armado com uma arma de repetição, guardava as instalações em uma guarita, noite e dia; eram vários a revezar-se...

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A enfeitar o pátio entre a casa e o rio uma árvore frondosa que conheço por mulungu, ornamenta a cena com flores vermelhas na forma de laçarotes, coincidência na comemoração da passagem de ano de 2015. Uma marula de grande porte dá soberania ao local por via de sua fruta ser a rainha do Calahári. Do outro lado pastam os bois indiferentes à sua nacionalidade! Que importa isso – boi não tem pátria! Quase-quase me apetecia mugir com elas mas só o facto de suas vidas terminarem estripados num galho, fazia esquindivar minha velhice para outros sonhos resvalados no tempo.

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Neste lugar de Andara, entre mato verde e picos medonhos, vejo Angola salpicando-me na correnteza do rio sem sentir no abandono ou desespero, uma consolação de esperança, assim talhada na natureza para ali permanecer de forma perene como aquela pedra na forma de hipopótamo regada num afogamento. Ao iniciar o dia, sempre e na hora certa, lá está Dona Elisabette a dar ordem a tudo e a todos. Debaixo de um sol ardente, um abafado calor de crispar sobrancelhas em escondidos pensamentos, a estória do Cubango, das terras longínquas no fim do mundo do Rundu, do Dirico, Calai, Mucussu e Divundo. Cabe a mim transformar as coisas dispersas em adultas majestades, tornar as fábulas em lendas, coisas que só os pastores podem criar confundidos entre xirikwatas adulteras.

Namibia4.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Missosso – Conto beve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:18
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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