Sábado, 19 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXL

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XX – 18.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba001.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Nos dias que se seguiram na beirada do rio Cuando que aqui tem o nome de Okavango e, do outro lado da margem, no lugar de Ovambolândia da Namíbia, Januário Pieter - a kianda, já aparecia no D´jango de Mukwé sem fazer aquela fumaçada com cheiro a mofo de trezentos e noventa e quatro anos. Embora tivesse sempre aquele jeito e forma de holográfica figura, assim como uma máscara de cera repenicada de minúsculas partículas fosforescentes encarquilhadas de velhice, era cordato e sempre aparecia com um cheiro silvestre diferente, misteriosamente mais penetrante do que o perfume “Aramis”.

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As tardes continuavam a fazer-se vermelhas no horizonte poente e, de vez em quando, umas bátegas fortes de água precedidas de trovões que rebolavam o sótão de nossas cabeças até esconderem entre carregadas nuvens; estas, refrescavam o ar muito áspero de tórrido calor sentindo-se em seguida aquele cheiro que sai da terra. João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans, fazia por estar sempre presente. As conversas eram bem variadas mas o mote mais interessante dos diálogos vinham da sapiente Kianda.

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Januário, tinha o condão de nos prender às descrições com efeitos de arrepios, uma reacção de outro mundo, sensações tão estranhas que até parecia navegarmos numa dimensão quântica, coisa que nem sei bem definir porque for vezes nosso corpo ficava num formigueiro agridoce. Nesta conversa rebrilhando actos antigos, Pieter sempre buscava recordar coisas de Angola. Claro que eu e Miranda estávamos propensos a coisas acontecidas e, que o tempo embrulhou junto dos mujimbos embrutecidos. Nossos sentidos apurados ouviram então:

- Carlos Fabião, o general vermelho designado para lidar com o PAIGC e Flávio Bravo, membro do bureau político de Cuba, em Julho de 1975, encontram-se com Agostinho Neto no Congo Brazaville.

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Demos em sintonia uma golada de supetão no café saído quentinho da chaleira ali na fogueira do D´jango. Aquelas gotas de cachaça do M´Puto no café mistura de Amboim com S. Tomé eram mesmo as requeridas para os ouvidos, uma comunicação interna entre estes e o canal digestivo. Januário depois de um compasso de espera continuou: - Fabião, Flávio Bravo e Agostinho neto, acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota e que ficou conhecida como a Batalha de Luanda. Entre Maio e Junho Fidel de Castro inicia a concentração de unidades em Cabinda e em Julho, acelera a infiltração de seus legionários em Angola, jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água”.

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Castro, pede ao Coronel Saraiva de Carvalho mais recursos para o MPLA e condições de infiltração em Angola em sítios estratégicos ao redor de Luanda. Assim, a partir de 26 de Julho de 1975, começam a chegar ao Ambriz em aviões C-130, batalhões de Catangueses que antes actuavam na Lunda contra o MPLA: Estes guerrilheiros Catangueses, dissidentes do então governo de Kinshasa, num total de 6000, foram aliciados a servir o MPLA em um acordo secreto em terras do Leste de Angola; o vermelhão Rosa Coutinho liderava estas diligências.

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Embevecido, João Miranda do Mukwé era todas orelhas! Resmungava como que rosnando e eu ali em pulgas tremendo de ansiedade numa overdose, mais um trago e escutando: -Esta complexa Operação Carlota, consistia em assistir ao MPLA a fim de tomar a liderança na tomada de Angola, formando uma ponte entre Cuba e Angola. Tropas e material eram embarcadas em velhos aviões Britannia na base de Holguim, a ocidente de Cuba; estes aviões faziam escala em Barbados no aeroporto de Bridgetown.

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A intervenção Cubana em Angola, nos inícios de 1975, não foi uma reacção à invasão Sul-Africana remata Miranda saído da letargia aparente; isto é posteriormente afirmado pelo General Cubano Rafael Del Pino, concluiu. Neste relato da conversa com Januário Pieter recordo agora que até lhe tinha tirado o rumo da conversa pois que o interrompi ao perguntar de como é que foi desmantelada a força da FNLA. A isto, a Kianda respondeu-nos: - Diaz Arguelles responde às forças de Holdem Roberto com a artilharia reactiva de 122mm (misseis).

A partir de cinco de Novembro, 650 tropas especiais de artilharia às ordens do General Pascual Martinez Gil, chegam durante 13 dias ao aeroporto de Luanda directamente de Havana.

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- Migs 21, saídos do antigo Aeroporto Craveiro Lopes à guarda dos Tugas, picam sobre as forças de Holden Roberto além Kifangondo, chacinando-os, ... Um massacre, ... Morreram como coelhos. – Meus amigos, se quereis saber mais pormenores, têm de falar com gente Kianda de Bom Jesus, Catete e claro da Praia do Sangano em Cabo Ledo. Talvez alguns kotas de lá, vos possam contar estórias desses primeiros e últimos dias da Operação Carlota pois que tiveram de conviver com os Cubanos, oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. De todo o modo a Kianda Mr. Google vai dando mais alguns detalhes! (... Mr. Google? …)

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Fidel de Castro ao enviar suas tropas a 14.000 km da costa cubana, respondeu ao trato com seu amigo Agostinho Neto e seu Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), que acabava de chegar ao poder após a retirada portuguesa. Neto enfrentava a ameaça das guerrilhas de Holden Roberto “apoiado pelo Zaire” e da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), de Jonas Savimbi, que agia com o respaldo e participação da “África do Sul”. Velhos e novos aviões e navios mercantes entram em cena. Castro em Outubro de 1975, enviou um contingente militar por avião através do Congo-Brazzaville, para impedir que aquelas forças tomassem Luanda antes de 11 de Novembro, dia que se proclamou a independência. Mais uma vez, adiamos nossas odisseias com os khoisans…

áfrica19.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mujimbo – boato, diz-que,diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:35
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIX – 11.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios)

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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A verdade é como o azeite, vem à tona de água com o tempo; as memórias que antes eram mugimbos, tornam-se agora verdadeiras. Já a tarde se fazia noite quando eu e Januário Pieter nos voltamos a encontrar na beirada do Okavango e desta feita com João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans. Foi este o homem que chefiou esses especialistas do arco e flecha na invasão dos Sul-Africanos do Batalhão Búfalo- 32 tendo chegado às margens do rio Cuvo - Keve junto às quedas da Binda, entre a Gabela e o Sumbe… Após um pequeno estampido, um fumo feito holograma faz-se gente, e nós, num surpreendido susto, demos cada qual seu salto entornando os copos de cerveja Windhoek em nossos zuartes. Este inesperado susto deu lugar aos comprimentos perante a admiração espacial de Miranda. Tive de, muito na calma dizer-lhe ser este velho senhor uma Kianda que me acompanha desde nosso primeiro encontro em Jablines de Paris de França e quando pela primeira vez fui ao famoso parque da Disneylândia com minha neta!

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Surgindo de quando em vez, ali está ele a clarear coisas obscuras que ocorrem em nossas cabeças, coisas ainda por falar entre nós mas que ele desbravou em sua lanterna fosfórica do tempo. E sem mais nem porquê ali está ele pronto a falar connosco por via de pensamentos dúbios que normalmente vociferamos nas conversas banais. Essas coisas da arca-da-velha a fazer de vírgula nos acontecimentos. Só direi que este kota Kianda, seco de carcomidas carnes tem a bela idade de 394 anos. Como o tempo não nos rugia, recordei depois dum abraço longo e largo do tempo em que sentados em uma esplanada “Plaza Mayor” de Burgos de Espanha, ouvi Pieter descrever as descobertas feitas na sacristia do “Monastério de la Cartuja”.

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Recordo dez anos trás teres-me dito que um teu tio seguindo as pisadas de seu pai Lestienne não sei das quantas, francês, poderia escrever em um livro sobre as judiarias ainda não reveladas da estória difusa e confusa do início da reviravolta em Angola. Não me esclareceste isto nessa altura porque estavas com pressa. Também afirmaste ser isso tarefa para mercenários da escrita ou fazedores de mambos, recordas? Miranda assistia à nossa conversa sem vislumbrar peva de qual era o objectivo desta longa introdução assim sem capítulos nos preâmbulos mas, logo espevitou as orelhas quando se falou na alteração do rumo à história da guerra daquele tempo no lugar de Cabo Ledo e na praia de Sangano. Pois disse eu abrindo as duas mãos solicitando atenção Pieter! Em verdade tu (ele) falaste das meias verdades contadas por Pepetela e um tal de Tchiweka, o homem segredo conhecido por Lúcio Lara, o grande ajudante em campo do Vermelho Rosa Coutinho, o Almirante.

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Não! Não é bem assim como dizes, disse abanando seu templo reluzente de sapiência: Esse meu tio de há quatrocentos e dez anos atrás, rumou até Cádis e no Puerto de Santa Maria no Sul de Espanha embarcou à descoberta das Américas. Ele nunca esteve em África! Agora essa estória de Cabo Ledo, minha terra natal, é só minha! Fui eu que a vivi! Diz peremtóriamente para ficar claro na minha debilidade. Pois é, fiz confusão pela certa, disse eu fazendo um trejeito de muxoxo mal disfarçado para Miranda do Mukwé inclinando a cabeça na forma de dizer aconteceu… Pude ler seu pensamento: - Aguenta parceiro!

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Mas, o que é que esta Kianda de trezentos e noventa e quatro anos sabia das artimanhas do glorioso PREC - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, combinado unha com carne com o glorioso MPLA? Isso! Das coisas que desconhecíamos ao pormenor por tão bem escondido de todos. A verdade é como o azeite! Rosa Coutinho marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas pois que teve o seu início numa gaiola. Em verdade, foi Holden Roberto como patrulheiro da fronteira do Zaire que fez passear em jaula como um macaco, o Vermelho General. Bem! Isto já era do nosso conhecimento, meu e de Miranda…

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Como já disse, as aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim, são uma permanente descoberta de novos pedaços de infinito. E, Pieter descreve: - Por entre os cactos das barrocas, entre a bruma da maresia e clareando, vi centenas de militares percorrer o areal, reunir apetrechos de guerra, subir para carros do tipo unimog e galgarem a montanha da costa a caminho do quartel, uns galpões construídos lado a lado e que seriam as primeiras casernas daquela gente que vim a saber pouco depois serem Cubanos. Estávamos em fins de Julho do ano de mil novecentos e setenta e cinco.

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Mas, interrompo: - Os Cubanos, pelo que consta, só a cinco de Outubro desse ano, é que chegam a Angola. Foi o que sempre disseram quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês souberam o que Rosa Coutinho queria que soubessem. Foi na praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”; os instrutores deste equipamento sofisticado estava a ser coordenado pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville eram enviados numa primeira fase em aviões mais pequenos para a pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

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Andrei Tokarev afirmou que o seu comando enviou oficiais e sargentos que se aquartelaram em instalações abandonadas pelos Tugas: estes quarteis contornavam Luanda que em sequência das orientações do agente vermelho Rosa estavam ao abandono. Por esta altura desde Kifangondo passando por Katete, Colomboloca, Kassoalála, Kassoneca, Dondo, Massangano, Muxima, e descendo o rio até a foz do Kwanza e Cabo Ledo já estava tudo queimado: Ficaram algumas estruturas de pé para assegurar bivaque aos novos guerrilheiros e instrutores do MPLA.

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- Tudo o descrito só é possível a partir da chegada a Luanda do Vermelhão Rosa como Presidente da Junta Governativa de Angola precisamente em Julho de 1975 -Estava tudo traçado, continua Januário Peter. Rosa Coutinho, tempos antes como Alto-comissário escreve uma carta timbrada do antigo Gabinete do Governo Geral de Angola a Agostinho Neto, presidente do MPLA nos seguintes termos: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do processo: Aterrorizar por todos os meios os brancos, matando, pilhando, e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos,...” A Carta é datada a 22 de Dezembro de 1974, terminando com saudações revolucionárias, a vitória é certa, seguindo-se a assinatura, Alves Rosa Coutinho, Vice-Almirante.

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Recorde-se que a tropa Tuga, foi proibida de entrar nos musseques a fim de proporcionar “O poder popular”, simultaneamente retirando as armas em posse dos brancos. Há muitos buracos por preencher. Lúcio Lara, o “Tchiweka”, já pode desvendá-los, antes que se deturpem. Isso é verdade sim! Mas, nessa altura o assunto tinha explodido as veles de ignição de nossos medos, nossas preocupações; nossas cabeças eram uma revoada de coisas ruins…Vivi esta estória amigo Januário, disse. E, acrescentei: - O medo tomou conta de todos com ajuda da FUA, liderada por um tal chamado de Falcão, acrescento eu para a Kianda do Cabo Ledo. Falcão ou falsão? Disse João Miranda do Mukwé. Neste início de noite ficamos assim sem mais falar dos Khoisan…

miran03.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:27
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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVIII – 26.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Falando dos Khoisans neste ano de 2019, não sei se os exploradores Tugas de outros tempos davam importância a alguns factos mas, se o fizeram ficaram relegados para segundas núpcias de estudo nos cadernos africanos do tempo da tzé-tzé. Serpa Pinto recebeu a missão de estudar no Alto Zambeze a construção de uma linha de caminho-de-ferro que assegurasse a ligação do lago Niassa com o mar; apoiado com uma forte coluna militar, junta-se mais tarde no baixo Catanga a outra coluna portuguesa vinda do Bié, sob o comando de Paiva Couceiro.

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Portugal deu assim início a várias acções de ocupação naquela área de África entre 1887 e 1890; Artur de Paiva ocupou o Bié e Paiva Couceiro foi enviado para o Barotze aonde numerosos sobas prestaram vassalagem a Portugal, procedimentos daquele tempo. Tendo isto em vista, os ingleses começaram a aliciar os chefes indígenas das regiões visadas, incluindo aqueles que já tinham prestado vassalagem a Portugal como os Macololos e os Machonas e até o célebre régulo de Gaza, Gungunhana. Os resultados da Conferência de Berlim, acordaram Portugal para a realidade – Sua força estava depauperada…

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Se bem que o esforço estratégico tivesse sido orientado para África após a perda do Brasil, pouco se tinha feito por via da instabilidade da vida político-social da Metrópole, o M´Puto e das extensas vulnerabilidades existentes. Tendo eu atravessado o Botswana em inícios do século XXI retive da estória que este país começou a ser desvendado por exploradores a partir do século XVIII, dando-lhe o nome de Bechuanaland mas, após a sua independência a 30 de Setembro de 1966, toma o nome de Botswana com junção do prefixo "bo" que quer dizer homem em língua Bantu a de "Tswana", nome da tribo mais numerosa daquelas paragens.

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Antes dos pormenores descritivos da viagem em terras do fim do mundo saindo e chegando ao Divundo de Caprivi, lugar dos Miranda do Mukwé e, um entroncamento de vivência de diferentes países, convêm relembrar que os aborígenes habitantes ancestrais do Botswana foram os bosquímanos (bushmen), khoisans, caçadores-recolectores que se espalharam pelo grande Kalahári e deserto do karoo. Em uma outra viagem anterior tive oportunidade de observar estes indígenas errantes no seu meio natural; foi no Kalahári Gemsbok National Park entre Twee Rivieren e Bokspits, um lugar ermo, divisão de fronteira que os vi pela primeira vez e, em uma situação não previsível..

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Ali estava um grupo entre a picada usada na mulola de um rio seco e, que paramos para fornecer água a esses pequenos seres de tês parda, secos de carnes, vestindo pequena tanga taparabos; deslocavam-se em pequeno grupo com algumas lanças e flechas mais apetrechos simples. As mulheres distinguiam-se por levarem ornamentos na forma de pulseiras nos tornozelos. Enchemos suas cabaças ouvindo um linguajar de estalidos do jeito de macancala que creio ter sido de agradecimento, misturados com sopros de suspiros e aspirações guturais do qual nada se entendeu. As mulheres levavam imbambas de cozinha, enxadas de ferro afiado e enfiado no nó de um tronco robusto a fazer de cabo e trastes envoltos num saco em cabedal. Tudo estava suportado nas costas por uma tira ornamental e larga com bonitos desenhos que se ajustava à testa.

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Realizando regulares eleições o Botswana, ao invés de outros povos de África, é considerado um exemplo de estabilidade política. É um grande planalto árido situado bem no interior de África meridional. É daqui que saem para o resto do mundo os mais puros diamantes dando ao povo um modo de vida melhor equilibrada do que a grande maioria dos países do continente negro. Os principais grupos étnicos são os Tswanas, Kalangas, Khoisan entre outros dos quais os brancos nativos dali e indianos que para ali foram saídos do Quénia, Zâmbia, Tanzânia, Ilhas Maurícias, África do Sul e principalmente do Zimbabwé aonde a instabilidade ditada por Robert Mugabe a isso os obrigava.

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Lendo descrições antigas dos khoisans revejo-me como se fosse Silva Porto a descrevê-los. Magros, ossudos, envoltos em peles de panteras ou chitas e com os cabelos penteados em tranças longas. São estes os grandes caçadores desta parte de África; dóceis e selvagens no aspecto como sempre os referem, descendo e sobindo ao longo das linhas de água, rios que os mata a sede com seus charcos; T´chimpacas naturais com nomes de t´chicapa e, em terra de mwene- mãe nos sertões com nomes de Lubuco ou Lubo, distantes do principal rio, o Cassai, aonde as manadas de elefantes são às centenas.

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Os cadernos coloniais referem que nestas suas correrias e naquele tempo de descobertas, estes, vendiam ao desbarato dentes de elefantes, borracha e mel. O major de infantaria, Alexandre de Serpa Pinto, realizou a viagem de Luanda ao Natal, em 1879; e os oficiais de marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em 1885 exploraram todo o sertão de Moçâmedes a Quelimane, num percurso de 4.500 milhas no intuito de ligar Benguela de Angola à Beira passando por Tete e, terminando na Beira Moçambique no Oceano Indico. Estas viagens causaram a admiração na Europa e glorificaram o nome de Portugal mas…Mas, tem sempre um mas! Naquele tempo havia um Inglês que dizia que aquilo era tudo dele; chamava-se Cecil Rodes e, este pretendia fazer uma linha de caminho-de-ferro desde a Cidade do Cabo nas terras descritas pelos portugueses como do Adamastor ou das Tormenta até ao cairo no Egipto.

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Pois este, não fez, nem deixou fazer. Um imbróglio que mete o tal mapa Côr-de-Rosa que nunca desabrochou como Flôr. E, tudo apenas para numa farsa diplomática cortar o mapa Tuga a meio... Sabemos agora que este rail chega à Tanzânia mas, diga-se que mais depressa chegaram os portugueses com o CFB à fronteira do Zaire no rio Luau... Com destino à cidade de Fracistown, lá prosseguimos viagem a partir de Maun por estrada pavimentada rolando quilómetros na savana, vendo de quando em vez, aglomerados de kimbos. Com os restos de murmúrios falsos, tinhamos a ideia formada de que o Botswana era um país esquecido com muitos burros mortos na estrada e desordenadas lixeiras, a comparar com outros países aonde impreparados chefes exibem arrogância impregnada de devaneios mal curtidos mas, foi um total engano.

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Logo à entrada em Popavalle ou Popa Falls, um posto fronteiriço, deparamos com o aprumo de agentes aduaneiros que nos atenderam duma forma surpreendentemente civilizada ao invés de outras anárquicas fronteiras aonde tudo se resolve com uns quantos dólares de gasosa. Estes, na forma de quilombos com palhiça em circulo e, a contornar palhotas redondas, rondáveis feitas a barro, bosta de boi e chinguiços, formavam conjuntos harmoniosos numa vastidão de capim ralo. Conhecer a terra é em verdade um laboratório de vida constante porque nos purifica e regenera. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções recolhidas na terra…

lifune0.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

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GLOSSÁRIO: Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Rundu, – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Potcheftsroom – Cidade sul africana; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Undenge ami mu muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada...

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:12
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Quarta-feira, 2 de Outubro de 2019
CAZUMBI . LVI

A ROLETA DA VIDA - Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …

- …Engolir sapos vivos sem vomitar… 28.09.2019

Por

canhot3.jpg António José Canhoto - (James Spenser)  

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

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Para todos aqueles pobres e remediados que passam toda ou parte das suas vidas a tolerar e engolir sapos vivos sem vomitar, ordens ou directrizes de terceiros sem tugir ou mugir, pois as necessidades da vida assim os obrigam e condicionam, vir a ser rico é um sonho e uma obsessão, por isso jogam semanalmente em lotarias, raspadinhas, totolotos e totobola. A sujeição permanente desses trabalhadores a ter de aceitar durante a vida jogar com quem dá as cartas marcadas ou lança os dados com pesos dentro para rolarem de forma a que o número 6 saia sempre, é uma situação de inferioridade, menoridade e submissão, é jogo que nunca ganharão. Estes, a partir do dia que aceitarem o seu primeiro emprego já estão vencidos e derrotados.

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A roleta da vida dá muitas voltas e quando muitas vezes sentimos o peso do mundo que carregamos às costas, noutras mercê de circunstâncias inesperadas temos o privilégio de estarmos sentados confortavelmente no topo dele usufruindo de termos à nossa volta um batalhão de servos pagos para adivinharem e satisfazerem os nossos caprichos ou fantasias sonhadas. Anteriormente alguém ditava as regras do jogo que iríamos jogar, a partir de agora serão vocês a escolher os parceiros com quem quereis jogar divertir-se e gozar a vida, pois ganhar ou perder deixou de ser relevante.

 arau159.jpg::::3

Ser domador ou domado não são opções de vida onde a maioria das vezes não temos essa escolha, ser leão de circo treinado nunca é leão adulto e selvagem das savanas africanas, só acontece quando estes são apanhados em tenra idade; com os humanos acontece exactamente o mesmo. Estar na mó de cima ou na debaixo faz uma enorme diferença, menos para aqueles que nascem ricos e que desde o berço ditam as leis de como a roleta deve ser jogada, ou seja, quem vão ser os burros e quem se lhes vai por a carga em cima. Infelizmente a vida é mãe para uns e madrasta para outros, dependendo muito do tipo de berço onde nascemos. Se viemos ao mundo em África e mamamos directamente das tetas da cabra ou do camelo.

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Mais tarde a qualidade da nossa instrução e educação depende se frequentamos escolas, universidades privadas ou públicas ou ficamos apenas pelo ensino básico. Existem hábitos diferentes entre ricos e pobres. Ricos vão a concertos de música clássica, enquanto que os pobres vão ver os artistas pimba da moda que cantam música a metro ou ao kilo. Ricos, ou brasonados falidos, têm mais de 10 longos e pomposos nomes começando por Dons enquanto que os pobres apenas se chamam Maria ou Manuel. Existe pois uma diferença mental, social, comportamental e idiossincrásica entre ricos e pobres, entre mandantes e mandados, leaders e seguidores, vencidos e vencedores.

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Poderei dar exemplos de como se diferenciam os ricos dos pobres. Pobres não têm certezas, ricos são confiantes, estão focados, sabem o que querem, para onde vão e quando desejam chegar, os seus “timings” e decisões são pensados e cronometrados. Os pobres buscam desculpas; ricos procuram o sucesso. Pobres assumem, ricos têm a certeza. Pobres fogem às responsabilidades de assumirem as suas culpas, ricos aceitam os erros como lição e aprendizagem. Pobres vivem em função do dinheiro, os ricos investem no tempo para aprenderem e evoluírem.

Avillez2.jpg :::6

Pobres fazem competição, apunhalam-se pelas costas e lançam cascas de banana para os colegas de trabalho escorregarem; tudo para se sobressaírem e ficarem bem vistos aos olhos dos chefes. Os ricos juntam-se no clube de golfe para fazerem 18 buracos, beberem uma cervejas frescas, falarem das suas amantes e sobre os seus mais recentes investimentos e sucessos financeiros. Pobres são por norma, descrentes, queixam-se de tudo e de todos, da mulher, do tempo, do chefe, do governo, do ordenado, dos colegas e do carro que guiam que está sempre avariado. As culpas dos insucessos dos pobres são deles mesmo.

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Os ricos por outro lado estão gratos e felizes da vida que têm e apenas se queixam do dia chuvoso que não lhes permite jogar golfe com os amigos. Pobres quando desejam montar um negócio na sua área ou bairro procuram um já existente que seja bem-sucedido para o copiarem, ou então, se têm uma ideia diferente, buscam conselhos e opiniões de colegas, amigos fazem preces e orações aos seus deuses pedindo as suas graças para que as suas vidas mudem ou os seus negócios prosperem. Enquanto isso, os ricos procuram conselhos de profissionais, fazendo aquilo que se chama um estudo de mercado.

araujo10.jpg :::8

Estudo esse baseado nas seguintes premissas: Quais as suas capacidades empreendedoras e profissionais para ser bem-sucedido. Quais as suas fraquezas em relação aos seus concorrentes. Quais as ameaças dos competidores no mesmo ramo e qual o valor acrescentado que se poderá trazer a esse mercado e, nele inserir um nicho não explorado. Quais as tendências: a curto, médio ou longo prazo, pois o que é moda hoje pode ser mono amanhã. Pobres ou remediados compram televisão grande, ricos compram livros para enriquecerem o seu conhecimento. O pensamento das pessoas muito pobres está voltado para cada dia; o das pobres para cada semana; o da classe média, para cada mês; o das pessoas ricas, para cada ano e, o dos milionários, para cada década.

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Ricos falam sobre ideias, pobres sobre coisas, pessoas, vizinhos, revistas cor-de-rosa ou novelas televisivas. Ricos são inspirativos, fazem o mundo girar, pular e avançar e as coisas acontecerem. A classe media fala sobre as coisas que os ricos promoveram e observam mudos e quedos os resultados, enquanto os pobres se limitam a perguntar “O que aconteceu.” Os ricos trabalham visando o lucro, os pobres trabalham visando a obtenção de um salário. Ricos investidores assumem um risco calculado, a classe media e pobre tem medo de investir, e, mesmo que fique rico da noite para o dia a sua mentalidade não está orientada de como gerir riqueza, mas sim para gastar e satisfazer caprichos e os sonhos de quando era pobre.

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Ricos concentram a sua actividade para aumentar o seu património, pobres concentram-se, na expectativa de serem aumentados no seu salário. A ignorância dos pobres é aterradora e confrangedora. Basta abrir o Facebook no Feed Noticias e ver que há um elevado número de pessoas que compartilham publicamente as suas opiniões vazias e rasas ou fazem perguntas que um adulto culto e inteligente deveria saber e, caso não soubessem bastaria ir ao Google encontrar a resposta. São pessoas mentalmente preguiçosas vivem na mais profunda escuridão da ignorância, não progridem ou evoluem, pois, a sua mente está sempre engatada em marcha atrás. Os ricos usam o termo NÓS os pobres usam EU. O rico procura qualidade, o pobre procura preço, promoções, ofertas e descontos, esquecendo-se que quem compra barato compra duas vezes. Os pobres copiam e competem, os ricos criam negócios originais.

António José Canhoto - 28-9-2019

Ilustrações aleatórias de Costa Araújo – Escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:14
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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