Domingo, 30 de Agosto de 2020
MOAMBA . XLIV

É proibido ser POBRE? - 30.08.2020

- Crónica 3055... Juntando meus estralhos, para entender se os alhos com bugalhos são um remédio eficaz para eliminar um bicho feito gelatina. Mas, então porque não fazem uma vacina com água e sabão!?

Por

t´chingange2.jpg T´Chingange – No M´Puto

roxo68.jpg A década de 1930 foi marcada por muitas histórias interessantes no Brasil. Uma delas seria cômica, se não fosse trágica. Ela aconteceu na cidade de Fortaleza, capital do Ceará. No ano de 1932, foi construído o primeiro arranha-céu da cidade. Os jornais publicavam manchetes anunciando a inauguração do hotel Excelsior. Era o orgulho da classe rica de Fortaleza. Subir até à cobertura do edifício e admirar paisagens, desde o mar até as montanhas era a diversão comum.

Uma coisa, porém, ameaçava o clima de riqueza da cidade. Desde o início da década, estava acontecendo uma das piores secas de todos os tempos no interior do Ceará, e muitas pessoas estavam fazendo o conhecido êxodo rural em direcção à cidade de Fortaleza.

apocri3.jpg A classe mais rica exigiu uma atitude do governo, que imediatamente criou sete currais cercados com varas e arames farpados, para onde eram enviados todos os retirantes da seca. Lá, eles tinham as cabeças raspadas e eram vestidos com sacos de farinha. Naquela época, era crime ser mendigo em Fortaleza, e a pena era ser enviado para esses quase-quase campos de concentração. Tratar os necessitados com maldade é pecado, sejam quais forem os motivos.

Mais que doar roupas e alimentos, cuidar com amor dos mais necessitados envolve olhar nos olhos, ouvir as histórias de vida, ajudar nos problemas emocionais, não se preocupar apenas com o estômago, mas também com o coração; estes procedimentos, aprendemos no dia-a-dia com gente do bem, familiares e afins...

pica2.jpg Mas, diz o sábio do livro dos livros que quem age assim, empresta a Deus; isso não significa que o Céu tenha qualquer tipo de dívida connosco. O que a Bíblia está querendo dizer é que, quando ajudamos uma pessoa pobre, teremos como recompensa a felicidade como devolução pelo que fizemos em forma de bênção.

Por isso, o versículo respectivo enfatiza a recompensa divina. Isso não é teologia da troca, mas um incentivo para que tratemos bem aqueles que não têm nenhuma vantagem a nos oferecer... Quando esteve na Terra, Jesus deu muita atenção àqueles que passavam por qualquer tipo de necessidade, principalmente aos pobres de espírito. Faça o mesmo por seu próximo e colherá certamente a recompensa da Natureza...

papal1.jpg De novo, volto a remover os ossos do passado espreitando pelo postigo da memória antropológica e, só graças à debilidade desta, a memória, irei fazer do tudo um romance condescendente sem alvoroçar espeleólogos, ou os espíritos com malévolas insinuações, esquecendo as leis não cumpridas coisas rebuscadas em terras de promissão com tangas ou parras!

A nossa vida, de cada vez mais na mesma passando ao Deus me livre e valha-me o Santo António, com os sem etnólogos e outros afins descobridores de pegadas politólogas, os cheiros encarquilhados misturam-se com iões de densidade molecular dos anos na leitura de carbono e eteceteras muito antigos e complicadérrimos… Só sei, no fim desta lengalenga, que vamos cada vez mais ficar fritos, esperando migalhas!

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:44
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2020
FRATERNIDADES . CXXVI

ANDO ENKAFIFADO – OPÇÕES DE VIDA

- O tempo não passa pela amargura mas, a amargura passa pelo tempo… 21.08.2020

- Os humanos de hoje são bem piores que seus antepassados. Põem os filhos nas creches, os pais nos asilos e vão passear os cães para os porem a cagar e mijar nas ruas…

 t´chingange 0.jpgAs escolhas de T´Chingange

Porcanhot3.jpg António José Canhoto (Diniz Costa) a 20-08-2020

arau44.jpg (C.A.)OPÇÕES DE VIDA - O ter-se liberdade já é um direito à desigualdade, pois a pior desigualdade e fazer duas coisas diferentes iguais. Em princípio a igualdade repugna o homem, pois o maior empenho de cada um é distinguir-se e notabilizar-se para se desigualar. A igualdade pode ser um direito democrático e constitucional, mas não existe poder algum sobre a terra capaz de a tornar numa realidade. Em teoria podemos concordar que todos somos iguais, contudo na prática, só alguém insano pode pensar ser possível aplicar essa igualdade.

Deixe de pensar como o escritor Alexandre Dumas no seu livro os 3 Mosqueteiros os quais tinha a máxima: “Um por todos e todos por um”. Nesta nossa vida e mundo de antropofagia cada um tem de ser por si próprio num salve-se quem poder, numa selva em que os mais fracos são “comidos” e escravizados pelos mais fortes economicamente. Ninguém virá ajudar a levantar aqueles que tropeçam e caem ou salvar, se estiverem a afogar-se. Saia da sua torre de marfim pela porta ou pule pela janela, mate o dragão que o atormenta, acorde sem um beijo ou um abraço, faça-se refém de si mesmo e arreganhe os dentes, vá bem armado para a luta e mostre ao mundo quem é o lobo mau, mate a avozinha e faça amor com a netinha.

Avillez2.jpg - As nossas existências resumem-se a um período que se prolonga entre a nascença e a morte, ou dito de outra maneira, é um lapso de tempo que acontece entre duas eternidades de escuridão. A primeira acontece desde a data da inseminação dentro do útero das nossas mães, e a outra quando fisicamente deixamos de existir e de novo partimos para a eterna escuridão. Aprenda a fazer falta e a sentir-se desejado. Nunca lute por espaços na vida de ninguém e muito menos se diminua para lá caber.

O maior medo da humanidade é abrir a cortina do conhecimento e descobrir que tudo o que acreditava nunca existiu. Tudo o que ouvimos são opiniões e não factos comprovados. Tudo o que vimos são perspectivas, não são verdades ou realidades. Não perfilho da filosofia niilista como resposta adequada para a vida quando a mesma foi celebrizado pelo filósofo Friedrich Heinrich Jacobi. Contudo o seu conceito da negação de qualquer crença religiosa, social ou política agrada-me quando a sua finalidade se destina a obter um estado de consciencialização pessoal maior, mais adulto e evoluído.

roxo91.jpg(A.R.)Pessoas certas e perfeitas não existem. Todos nascemos mais ou menos errados e imperfeitos, mas só os conscientes e racionais procuram ao longo dos tempos ter consciência dos seus aspectos negativos e aperfeiçoá-los. Todos somos os lapidadores do nosso próprio diamante em bruto tal como nascemos. Há uns milhares de anos atrás, éramos apenas humanos ou em evolução para a obra de arte que hoje somos.

 A partir do momento que evoluímos e permitimos que a raça nos tenha desligado, a religião separado, a politica dividido e o dinheiro classificado, passámos a ser mais imperfeitos devido aos preconceitos que adquirimos do que à inocência que nos caracterizava há milhares de anos atrás. Os humanos de hoje são bem piores, põem os filhos nas creches, os pais nos asilos e vão passear os cães para os porem a cagar e mijar nas ruas e muitos dos energúmenos dos seus donos nem os dejectos apanham. Um amigo meu dizia com alguma propriedade, a vida é um cu, e cada um tem o seu.

araujo172.jpg (C.A.)Uns sujos outros limpos. Mas nenhum é perfeito pois todos fazem merda mais tarde ou mais cedo. Se alguém matar para roubar um automóvel é errado. Mas se alguém matar o ladrão para o recuperar já é legítimo. O direito de matar para recuperar a nossa propriedade torna-se mais valioso do que a sagrada vida do ladrão. Ando a pensar em comprar uma bicicleta mas pensando bem, isso será um desastre para a economia do meu país. Evita que eu compre carro, faça financiamento ao banco e pague juros, não compre gasolina que o governo taxa de forma injusta e insana, não precise de alimentar mecânicos pagando-lhes 50 euros por hora de mão-de-obra.

Não preciso de seguro nem de pagar estacionamento. Não fico obeso devido ao exercício físico, antes pelo contrário, fico saudável, não pago a médicos privados nem às farmácias, medicamentos que não preciso. Faça a experiência de tentar mergulhar dentro de si mesmo e veja se morre afogado em conhecimento ou de sede pela ignorância e consoante o seu diagnóstico reabilite-se fazendo os ajustamentos necessários. Deve ser tremendamente triste e sentindo dó de nós próprios quando se nasce, vive e morre com a sensação de nunca termos existido, porque quando olhamos para trás ao rasto que deixamos na nossa passagem pela vida apenas encontramos vazios e espaços brancos e, longos demais porque nunca foram vividos. 

roxo90.jpg (A.R.) - A vida não condiciona nem coloca barreiras a ninguém; é como um mundo sem fronteiras, e os únicos limites que você pode encontrar são os pensamentos limitativos dentro da sua mente os quais se podem tornar nos seus piores inimigos. Evite as pessoas que para lhes explicar algo precisa de desenhar, mas mesmo assim ainda necessita de explicar o desenho e finalmente para que a compreensão seja feita ainda terá de desenhar a explicação. Existem duas coisas importantes na nossa vida que moram dentro de nós: O motivo e o momento. Teremos várias vezes o mesmo motivo, mas nunca o mesmo momento, pois estes são irrepetíveis quer seja para nos deixarem recordações inesquecíveis ou por serem tão negativas que sentimos a necessidade de as obliterar da nossa mente de imediato.

arau1.jpg (C.A.) -E para terminar este meu texto aqui vos deixo uma história que me foi contada há muitos anos mas que jamais a esqueci. “Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, montanhas, planícies e vales sinuosas que trilhou através de países, cidades e vilas e vê á sua frente um oceano vasto e profundo onde vai desaguar e desaparecer para sempre. Não há maneira de o rio poder retornar para a nascente, assim como ninguém pode atravessar a água do mesmo rio duas vezes duas vezes. Voltar atrás é impossível na existência de um rio ou pessoa. O rio precisa de aceitar a sua natureza e entrar no oceano. Somente ao fazê-lo o seu medo se irá diluir, porque apenas nessa altura o rio saberá que não se trata de desaparecer, mas sim, em ele se tornar em oceano também.

Ilustrações de: Assunção Roxo (A.R.) e Mano Costa Araujo (C.A.)

António José Canhoto… 20-8-2020

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:36
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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2020
KAPIKUA . XXX

SERÁ QUE VOCÊ SABE O QUE FAZ?

MEDITAÇÕES DO T'CHING - 20.08.2020

O risco da vida que, por coisa pouca muda nossas vidas… Crónica 3053

Por

t´chingange2.jpg T'Chingange - No M´Puto

relog1.jpg Há um provérbio que diz que a sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho, mas a estultícia dos insensatos é enganadora. Um amigo envengelico de militância, manda-me coisas prudentes e, vai daí aguça-me o engenho da faladura. Uma pessoa prudente é sábia pois, sabe o que faz! A vida não é para ela apenas a sucessão de acontecimentos casuais. Ela pensa, medita, avalia seu procedimento, corrige o rumo de sua vida e recua quando percebe que está errada.

O termômetro para medir a “temperatura” de suas acções é a palavra vinda de cima, diz ele sem definir a dimenção quântica do tempo; se vem do além, do passado ou do futuro singindo-se a um agora, beliscado na singularidade dum nanosegundo... Se esta é a tocha que ilumina o seu caminho, acho bem que se lhe dê valor porque, somos só uma ilusão tal como o foram D. Afonso Henriques,  o Marquês de Pombal, o D. Pedro Imperador do Brasil, de Portugal, do Algarves e terras Dalém mar...

afon0.jpg E, também do Dom  Nuno Álvaro Pereira que venceu a Batalha de Aljubarrota, o Patrono dessa Ordem de Aviz que agora é indevidamente usada para atemorizar gente disparatada dos neurónios... Gente que não sabe estar, que risca a vida dos outros com mateba do mato feito morro, pintando portarias e arcadas com sangue a fingir de raiva com ódio...

Por este motivo. os minutos que você passa a sós com Nosso Senhor,  com a Natrureza, com o Alá e, ou o Buda mais o Seilásié ou o Chico Xavier que psicografou centenas de estórias. Antes de iniciar as actividades do dia, é indispensável reflectir sobre a sobrevivência do salmão! Para quê!? Para uma vida produtiva de todos os que cacarejam....

GALO0.jpg De todos os que arrulham, palram, gemem, gritam, urram, zurram e também os que grasnam, miam e assobiam com dois dedos enfiados nas goelas. Não basta apenas saber “como” realizar bem o seu trabalho. Fazendo as coisas com eficiência, você sempre será um bom empregado, um bom patrão, um bom governante ou cozinheiro mas e, se tomar tempo para pensar por que faz o que faz; E, se pensa demais,  acabará sendo um líder, ladrão, sindicalista ou Juiz com muitas varas, mais do que as de que José necessitou para tingir o Rio Nilo... E, nós todos ficamos quilhados com novos Zésares...

“A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho”, dizia Salomão, primo afastado do tal Salmâo... Assim, antes de tentar entender o caminho dos outros, entenda o seu.. Não existe fórmula mais perfeita para a eficiência...

O caminho dos tolos é diferente. Eles acham que sabem tudo e em realidade nada sabem. Apenas pensam que sabem, como eu que também tenho uns problemazitos nos carretos da engrenagem e, por isso, saio de meus muxoxos galagando impossibilidades. E, posso dizer que quando se engole desaforos, o resultado é a frustração e o desapontamento; E então, vou fazer como: - Ou mato ou morro - uma técnica de guerrilha, sábia de escapar  entre as bissapas  mesmo correndo o risco de me meter na selva do feijão maluco  ou,  cheirando formiga cadáver...

formiga cadáver1.jpg Você sabe o que faz e porque faz? Não tema aprender e, não se encolha, aconselhe-se, consulte. A receita para permanecer na ignorância sobre qualquer assunto da vida é  ficar satisfeito com suas opiniões e contente com o que sabe ou lhe dizem! A vida se encarregará de provar que você estava errado ou certo! Trabalhe o discernimento.

Faça deste dia, um dia de avaliação. Revise os seus procedimentos, analise sua trajetória e não se amofiine por não ter dito nesse então; diga agora! Nunca é tarde para começar de novo. Sempre é tempo de aprender e, surpreender...Está separando o tempo necessário para dialogar com seus filhos? Ou espera que tudo aconteça por acaso? Deixe-se de moleza e reflita nestas duvidas. Refletir é próprio de gente sábia...

dyo2.jpg Ser sábio ou insensato - Eis a questão! O tal do Além, sempre estará pronto a guiar e mostrar um caminho melhor àqueles que com humildade de coração o buscam. Não esqueça: “A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho, mas a estultícia dos insensatos é enganadora”. Lembrem-se sempre do Sócrates Luso! Sim! Deste e, do outro que era Grego... Grego da Grécia!

Uma feliz Quinta, Sexta e Outras feiras

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:52
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2020
MOAMBA . XLIII

NOSSO LINGUAJAR … NAS FRINCHAS DO TEMPO

Crónica 3052Como surgiu a expressão "Tchê"... 19.08.202

Por 

t´chingange2.jpgT´Chingange - No Al-Garbe do M´Puto

mess04.jpg Sotaques e regionalismos na hora de falar são conhecidos desde os tempos mais antigos do que  Jesus de Nazaré. No Brasil, Angola e Portugal - nos PALOPS, também existem muitos regionalismos. Quem já, não ouviu um gaúcho dizer: "Barbaridade, Tchê"? Ou de modo mais abreviado "bah, Tchê"?

Esta expressão, própria dos irmãos brasileiros  do sul,  os gaúchos, tem um significado muito curioso. Para conhecê-lo, é preciso falar um pouquinho do espanhol, dos quais os gaúchos herdaram seu "Tchê".

gaucho1.jpg Há muitos anos, antes do achamento por Cabral do Brasil, o latim marcava acentuada presença nas línguas européias como o francês, espanhol e o português. Além disso o fervor religioso era muito grande entre a população mais simples.

Por essa razão, o linguajar no dia, era dominada por expressões religiosas como: "vá com Deus", "queira Deus que isso aconteça", "juro pelo céu que estou falando a verdade", e assim por diante....

gaucho2.jpg Vai daí, uma forma comum das pessoas se referirem a outra, era usarem interjeições também religiosas como: - "Ô criatura de Deus, por que você fez isso"? Ou "menino do céu, onde você pensa que vai"? Muita gente especialmente no interior ainda fala desse jeito.

Os espanhóis preferiam abreviar algumas dessas interjeições e, ao invés de exclamar "gente do céu", falavam apenas Che! (lê-seTchê) que era uma abreviatura da palavra caelestis (se lê tchelestis) e significa do céu.

sertão1.jpg Usavam essa expressão para  surtir espanto, admiração ou susto. Era talvez uma forma de apelar a Deus na hora do sufoco. Mas também se serviam dela para chamar pessoas ou animais, "tchê, tira as mãos daqui "tchê, angê, zakucué" (de Angola...)

Com o achamento da América, os espanhóis trouxeram essa expressão para as colônias latino-americanas. Aí os Gaúchos, que eram vizinhos dos argentinos, acabaram importando para a sua forma de falar.

sanzala1.jpg Portanto exclamar "Tchê" ao se referir a alguém significa considerá-lo alguém "do céu". Angê é um chamamento em Angola - coisa levada pelos Tugas... Que bom seria se todos nos tratássemos assim considerando uns aos outros como gente do céu. aí ué angê! Feliz segunda-feira, terça e quarta féria...

Angê, mungweno, laripo...

O Soba T'Chiingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:17
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Terça-feira, 18 de Agosto de 2020
MOAMBA . XLII

MEDITAÇÕES DO T'CHING... NAS FRINCHAS DO TEMPO

ENCONTRO COM A VIDA -Crónica 3051 18.08.2020

Por

t´chingange2.jpg T'Chinhange - No Sul do M'Puto

bolso2.jpg Para viver plenamente, dizem estudiosos, o ser humano necessita satisfazer necessidades básicas como, por exemplo de pertencimento, de significado e, segurança para além de ir ao WC com a periodicidade natural de sua fisiologia...

Abraham H. Maslow elaborou uma lista de necessidades em forma de pirâmide, a conhecida “Pirâmide de Maslow”, em cuja base estão as necessidades fisiológicas, sobrepostas pelas necessidades de estima tendo no topo a  auto-realização.

maslow1.jpg Abraham Harold Maslow foi um psicólogo americano, conhecido pela proposta Hierarquia de necessidades de Maslow. 

maslow2.png Para sua frustração, na busca dessa tão almejada plenitude de vida, o ser humano tem andado por todos esses caminhos, muitas vezes limitando-se ao âmbito terreno.

Ao sentir aflorar a necessidade de desenvolvimento espiritual e de preencher o vazio do coração, ele homem ou ela, mulher, costumam desviar-se optando por produtos místicos de autoajuda, ou por aqueles cujo rótulo estampa a garantia de prosperidade material fácil.

mamoeiro.jpg A utopia comanda a fricção de vontade de cada qual na forma de vaidade, de futilidade ou fingida mentira nuna forma de faz-de-conta. E,  todos, de forma maioritária, se esquecem da dependência com o dito e escrito: “Eu sou o caminho,  a verdade, e a vida”...

Paradoxalmente, a fim de que obtenhamos a verdadeira vida, somos ensinados que devemos experimentar a morte: “Quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por Minha causa, a encontrará” - Muitos poucos caminham nesta diapasão por simples indiferença...

Para viver é preciso morrer... À parte de Cristo, nenhum sacrifício existe que valha a pena ser feito porque bem nenhum se torna digno de ser desfrutado, nenhuma conquista produz verdadeira satisfação pessoal sem uma fé...

urubu.jpg Ter a vida escondida em falsidade e em fantasias  é desfrutar pensamentos alheios a  coisas delineadas no prumo acertado.  É não experimentar tão íntima identificação com a natureza, de que somos habilitados a enfrentar no modo confiante e sereno nas preocupações do dia a dia... Somos uma ilusão...

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:49
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Segunda-feira, 17 de Agosto de 2020
XICULULU . CXXVII

FRINCHS DO TEMPO - Janelas para a vida – 17.08.2020

Xicululu - Olho gordoCrónica nº 3050

Por

soba002.jpg T'Chingange - No Sul do M'Puto

fifa3.jpg Na hora certa, só tu existes para decidires como fazer teu caminho. A tua atitude diante das dificuldades da vida dependem da dimensão de tua fé e preparação espiritual para venceres. Se tens um Deus fabricado, qualquer problema será uma barreira na tua visão.

O ser humano é contraditório; gosta de pequenos deuses, afeições apenas para acalmar a consciência como “chaveiros”, “amuletos, “figas”, “estrelas” entre outros. Por repetição faz isso de forma automática e por isso  acaba acreditando em sua intuição.

javali1.jpg Limita-se a acompanhar sua crença confiante mas, haverá um certo dia que a tragédia pode chegar de forma inesperada e é diante das circunstâncias difíceis da vida, que se  descobre que todos esses pequenos conceitos intuitivos caem por terra como meros paliativos.

Paliativos que nada fazem mudar; que nada resolvem porque num repente dependes de factores adversos e, te sententiás nesse então nada na pequenez de tua ilusão caindo em desânimo... Sem aparente recurso!

gel2.jpg É essa realidade que levará um de cada nós a súplicar autoconfiança perante um Santo Graal bem na cave duma ligação secreta com acesso directo ao cofre. Cofre contendo os montantes dos lay-off e, todos os rendimentos mínimos para um qualquer cidadão continuar vivo.

Assim, viver um momento terrível confrontando-se com o delirio: - “Estou aflito e necessitado.” Da perspectiva humana, parece não haver solução - como ter forças sem delirios nem lágrimas para lavar o coração da angústia que o sufoca...

lampi2.jpg E assim, como pode uma multidão protestar em casa com a morte dum cidadão negro lá nas américas? O Deus dele não estava acima de qualquer outro deus qualquer e, mesmo suplicando não foi ouvido pelo Deus e puliça brancos...

Sendo evidente que quem respira está a resistir, confronta-se com uma ilegalidade, um quase crime, porque em verdade, uma pedra aceita a imobilidade de forma pacata.

pedras00.jpg Qual é o drama que você vive neste momento? Qual é a tragédia que parece destruir a vida de alguém que pede para respirar! Sentir-se indefeso, incapaz de fazer algo para se  ajudar, limitando-se a morrer.

Antes de iniciar a caminhada destes dias, separe uns minutos para meditar na grande estranheza da sua própria história não coincidir com aquele a quem Deus o não livrou por usar uma nota de vinte dólares falsificada! Eu, que ando com duas notas sujas mas, verdadeiras, trazidas da Tanzânia, que servem de talismã, dava-lhas de boa vontade - para o ver continuar vivo!

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:14
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MOKANDA DO BRASIL . XIV

ANDO ENKAFIFADO NAS MALAMBAS

Existem algumas diferenças entre o contentamento e a alegria porque “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para se dizer” – Afinal Deus é branco e deveria ser Zebra para não  ser***: - racista, Noé!?

Malambas, são as palavras - Crónica 3049 17.08.2020

soba25.jpgAs escolhas de T´Chingange – No M´Puto do Al-Garbe

Via: - Maria João Sacagami ... Por: Burro Ramos

chicor4.jpg A máscara para mim é um instrumento de medo, de amordaçamento, de controlo, de subserviência. Um sujeito usando máscara pra mim, é o símbolo crónico e cabal do subjugo do ser humano que se sujeita aos mais impossíveis estratagemas para se manter vivo. A máscara para mim, é a prova mais viva de que o homem morre de medo da morte, portanto, indicia não ter compreendido, não conhece o caminho espiritual da vida.

Até um dia destes, recentemente, qualquer um que aparecesse na rua com uma máscara seria reprovado pois que máscara é ferramenta de bandido, de assaltante. Hoje, não usar máscara é coisa, indício de genocida. Entender assim, como a mente humana combina essas informações virando a chave da lógica e, de repente, indícios de uma doença, é um mistério...a não ser que... forças ocultas tenham um profundo interesse em testar um modelo de controlo psicossocial global…

cov3.jpg Toda a vez que vejo ou ouço "todo mundo usando máscara" impossível que minha mente não rebusque os estudos escatológicos da marca da besta que para mim é a mesma coisa. Mesmo modus-operandi. E falo isto agora, porque ainda me é permitido, porque eventualmente,  em um futuro próximo já não me permitam mais dizer o que penso...

A piedade “high tech” moderna, agora vem revestida de sua nova embalagem: O politicamente correto! Se por ventura, escorrega na narrativa, se destoa no canto uníssono do coral das muitas vozes da correcção liberal, você é demonizado, é bloqueado ou desterrado para o canto do silêncio. Sucede no Facebook, nas fiscalidades dum qualquer governo ou até pela máquina robot que faz triagem das noticias e fotos.

Têm que concordar! Tipo assim, se você usa máscara, você ama vidas; se você não usa a coisa, você é um monstro que não respeita vidas. Nas metáforas do evangelho nunca foi isso dito; pelo menos no evangelho que aprendi na vida desde minha infância. Dá para sentir que o evangelho sempre foi subversão, sempre foi o contrário do que a regra diz, sempre foi a renúncia, o ser perseguido, o ser odiado, o ser impetuoso.

DIA76.jpg Agora, qualquer borrabotas feito prefeito ou presidente de uma autarquia, manda ordens para se cumprir, senão vai para o xilindró!…Dizer como Jesus e João diziam "arrependei-vos" nos dias de hoje é crime, é infame, é preconceito, é injúria, até quase desvirtuado na mente, que vira racista porque Deus não é preto e afinal como ficamos! Segundo os ditames actuais, todos tem que viver da maneira como lhe convém sem ser perturbado. Será!?

E nesta toada, se você deixa de seguir o padrão, no uso da máscara, lá está você digno condenado de linchamento social. Bom! Como sou um ser que vive sob o contracto social de Thommas Hobbes* Essa noção de contracto traz implícito que as pessoas abrem mão de certos direitos para um governo ou outra autoridade a fim de obter as vantagens da ordem social, pra não escandalizar o próximo.

HOOBS1.jpg Sempre que sou obrigado e, invariavelmente condicionado a usar essa porcaria de máscara, uso! Mas sempre sob protesto e explicações sobre o que penso disto. De mais, jamais, jamais, jamais, colocarei esse troço na cara por obediência civil ou por medo de morrer de gripe… Se fizerem a chamada da lista dos escravos do sistema, meu nome não estava lá**…

Nota* : -Entenda-se: indica uma classe de teorias que tentam explicar os caminhos que levam as pessoas a formarem Estados e/ou manterem a ordem social….) 

Nota **: - O mais provável é encontra-lo no necrotério…

Nota***: - Essa noção de contrato de Thommas Hobbes traz implícito que as pessoas abrem mão de certos direitos para um governo ou outra autoridade a fim de obter as vantagens da ordem social. Nesse prisma, o contrato social seria um acordo entre os membros da sociedade, pelo qual reconhecem a autoridade, igualmente sobre todos, de um conjunto de regras, de um regime político ou de um governante. O ponto inicial da maior parte dessas teorias é o exame da condição humana na ausência de qualquer ordem social estruturada, normalmente chamada de "estado de natureza". Nesse estado, as acções dos indivíduos estariam limitadas apenas por seu poder e sua consciência. Desse ponto em comum, os proponentes das teorias do contrato social tentam explicar, cada um a seu modo, como foi do interesse racional do indivíduo abdicar da liberdade que possuiria no estado de natureza para obter os benefícios da ordem política.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:15
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Domingo, 16 de Agosto de 2020
MOKANDA DO BRASIL . XIII

ANDO ENKAFIFADO NAS MALAMBAS 16.08.2020

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra (malamba) foi feita para se dizer”… Crónica 3048

SOBA SCL 2020.jpg As escolhas de T´ChingangeNo M´Puto do Al-Garbe

Por: Jorge Serrão – No Brasil – (s) e Carlos Maurício Mantiqueira – No Brasil – (m)

brasil1.jpg As narrativas mentirosas (perdão pela redundância) continuam dominando o noticiário político de maneira vergonhosa. Os anjinhos da extrema midia de canhota se superaram. A versão fantasiosa de golpe militar do Bolsonaro é totalmente patética. Parece o conto de enviar o cabo e o soldado ao Supremo.

Só alguém muito sem noção vai embarcar na ideia de que o chefe do Executivo pensou em enviar militares para destituir os 11 membros do STF, substituindo-os por militares, para restabelecer a autoridade do presidente, que, em sua visão, vinha sendo vilipendiada pela Suprema Corte.

Pura narrativa que não merece crédito. Quem quer dar golpe não fala para o coleguinha general que vai dar golpe. Simplesmente dá o golpe e comunica depois. Como nada aconteceu, é mais uma lenda da esplanada para tentar pintar o Bozo como "fascista". Para com isso... Mais fácil acreditar na frase de efeito proclamada pela empregada da lavandaria do Palácio da Alvorada - e que não sabemos por que os oráculos da revista Piauí não pescaram no ar: - Tanque no STF? Só se for para lavar as togas sujas!

brasil2.jpg Não podemos aceitar o Brasil da Corrupção, do Crime, da impunidade e da “Ditatoga” (entenda-se por Ditadura…). É necessário um choque de honestidade, transparência e correcção na condução da coisa pública. Vamos começar a virada a partir da eleição municipal de 15 de Novembro. Que Deus Supremo, aquele real acima de Todos, permita que STF não imponha o tratamento via “Ozônio Retal “ contra o “Kung Flu”.

Os brasileiros já cansaram de tomar no covid... Proteja-nos, Presidente!

Enquanto isso, deve ter “tucanalha” apertadinho, talvez preferindo aderir ao tratamento alternativo contra Covid, com ozônio pela via anal, depois que a Operação Lava Jato mandou prender suspeitos de envolvimento em altíssima corrupção no Estado de São Paulo. Vade retro, Lava Jato!

bra1.jpg Um amigo extremamente optimista sempre diz: “Nasci nu; estou vestido. Lucro líquido!” Esta pandemia não foi uma crise comum, daquelas que já estamos acostumados. Nossos hábitos, estilos de vida e aspirações foram mudados para sempre. Esses lindos versos abaixo, de autor desconhecido por mim, definem bem o momento actual: "Um copo d'água, um pedaço de pão e nem sombra de leve mágoa tocará seu coração.”

Tantos os valores de uso das coisas como seu valor de estima, foram e estão sendo redimensionados. Hoje vivemos e temos nossas paixões, nossos ódios, nossas angústias e nossas esperanças. No futuro seremos apenas uma fotografia desbotada num porta-retratos empoeirado em cima de um móvel qualquer. Depois, nem isso. O Brasil seguirá como impávido colosso por ser obra Divina.

araujo169.jpg Nem todos os demónios de agora e do passado conseguirão impedi-lo de alcançar o seu brilhante destino. Terra que acolheu de braços abertos gentes de todos os rincões do mundo, de todos os credos, de todas as vitórias e derrotas, teve o dom de amalgamar esses bichos tão pequenos, sob a protecção da Cruz e sob a égide do Amor. O Amor pelo Brasil nos irmana a todos.

Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador - Suja a Jato

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:37
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2020
KILUNDU . IX

O NASH DO EDU DO LUBANGO

NAS VISSAPAS E NA MULOLA DA MAPUNDAkilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto - 11.08.2020

Crónica 3047 ... Com EDU: Eduardo Torres em Porto-à-Mão

Por

soba15.jpg T´Chingange  - no M´Puto

nash3.jpg EDU FALOU: Eu que fui euro-africano, branco de 2ª, no boletim de matrícula do primeiro ano do Liceu, que fui obrigado a nacionalizar-me na Namíbia depois de lá estar a trabalhar um ano com um passaporte português; eu, que fui tornado num apátrida enquanto não consegui documentação para nacionalizar-me, venci sempre por onde passei. Por esses factos, durmo de consciência tranquila! Assim e, numa sintética linguagem, esvaiu-se num repente sem descrever seu velho carro, herança de seu pai.

Todo o homem a quem Deus concede riquezas e recursos, assim se tornam capazes de sustentar, de receber a sua porção de trabalho e desfrutar da vida com o dom de DEUS, noé!? Ele não se lembrará de muitas coisas mas tudo, lá terá o ADN com fungos, por onde quer que se tenha andado e, decerto se as coisas falassem, iriam refazer mutuas saudades. A riqueza de um homem não depende de muito ajuntar mas sim, de ter o conhecimento e o entendimento no adquirir sabedoria. Com estes dizeres Edu tornava-se um mwata de verdade…

nash6.jpg As coisas trazidas dos confins, iam ficando envoltas numa moldura bonita de sonhar; lá duma terra chamada Mapunda e uma outra com nome de Chibia, nomes de espantar pássaros xirikwatas, devoradoras de jindungo do Kavango ou Cubango. Cipaio EDU Mandinga, direitinho que nem um fuso, tudo olhava na escuta com vontade de saber.

Muxoxou que era muita areia prá sua camioneta depois de ouvir meus devaneios tortos e retorcidos que nem um despautério de chinguiços foi dizendo: -Lá terei de comer um “chip extra de memória e sistema integrado” para fosforescer tuas falas tão protestantes… A partir das recordações rodávamos ambos no tempo a cabeça em todos os sentidos observando coisas desanoitecidas já esquecidas ou penduradas por detrás das portas.

edu37.jpg Portas com ferraduras de muares e outros bicharocos cascarosos bem ao lado da cocheira do tal Nash, o carro feito espaventosamente fantasma. Podíamos adivinhar as forças ingrávidas de paredes furadas de renda ao seu redor e, aonde qualquer matumbo ficava espevitado na antiga tecnologia de ponta na feitura de carros com rodas de pneu maciço e botões feitos de chifre de Olongue. Foi quando desbravamos o conhecimento dessa máquina.

A Nash Motors foi uma indústria automobilística norte-americana fundada a 29 de Julho de 1916, em Kenosha, Wisconsin, nos EUA sendo extinta em 1954. Os primeiros automóveis com a marca nova, somente saíram da produção para o mercado no ano de 1917, ainda nós, nem éramos projectos de gente. Quando Charles Nash deixou o cargo de presidente, comprou a Kelvinator, uma fabricante de geladeiras colocando então o presidente da empresa, George Mason, no cargo máximo da Nash. Quem se lembra dessas frigoríficos grandes com chapa de mais de milímetro que também ressonavam na noite…

nash4.jpgSurgia então em 1937, a Nash-Kelvinator Corporation. Em janeiro de 1954, a Nash Kelvinator fundiu-se com a Hudson Motor Car Company e surgiu oficialmente a American Motors Corporation (AMC). E, foi assim que relembrando o EDU feito cipaio candengue da Chibia, que andamos por aqui e além com nossas lanças do tempo, feitos Massai da Ondângua e Namakunde, num jardim que havia lá perto de sua casa cubata no Lubango.

Numa mistura cafuza na cabeça dele e minha porque nunca no Lubango ouve tal caserna de bichos feitos carros de colecção!? Nash, só mesmo o de seu pai. As pessoas vendo-nos, passavam de largo como se nós também fossemos daqueles muitos idos anos e muito cheios de caruncho como dois duilos doirados com um sem número de fiapos pendentes nos translúcidos contornos…

Nash12.jpg Polindo o chão do passado tempo, ficamos como cipaios vaidosos apreciando fotos daquele tempo em que os carros tinham uma manivela para dar o arranque. Sempre em guarda, sorriamos de vez em vez, inadequados para ser testemunhas com carisma de Xi-Colonos de terceira geração – Só ele, eu não! Em realidade ele era mesmo um genuíno africano, embora branco, mas era! Só ele, eu não! E, assim num diz-que-diz ficamos na certa convicção que sem nós - T´Chinderes mais Xi-colonos, a África (leia-se Angola…) fica incompleta!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 04:45
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Domingo, 9 de Agosto de 2020
KALUNGA VIII

MOKANDAS XINGUILADAS NA MEDITAÇÕES DO T'CHING... 09.08.2020

- Xinguilar: Palavra angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais e Nkisi/Mukisi.Crónica 3046

Por

soba15.jpg T´Chingange No M´Puto

marcelo1.jpg

DESAFIOS - O que tiver de ser, vai acontecer - Desafios, responsabilidades e planos, fazem parte da vida de cada um de nós e, cada dia é uma nova aventura. Há aqueles cujo enfrentamento e realização não exigem muito esforço mas, outros revelam tão grande impossibilidade de cumprimento que nos diminuem, deixando-nos perplexos e, às vezes, indignados, quasequase taralhoucos... Com nosso anseio natural por conquistas ou movidos pelas necessidades de sobrevivência, costumamos traçar planos e sonhos pessoais - quem os não tem!? É certo que o selo da aprovação é impresso em todo projecto individual cujo objectivo passa por promover bem-estar próprio ou o bem-estar de seus mais próximos; isto se não tiver outras especiais apetências e ambições... Há quem por tudo e nada, tire uma SELFIE para constar nos anais e arrabais do M´Puto e arredores.

engraxador2.jpg Mas, se considerarmos nossa cultura de visão cristã, os projectos não se limitarão só ao que é terreno, porque os chamados a Deus, terão forçosamente de dar cumprimento a responsabilidades espirituais a quem o profere, mesmo que só o seja na forma dum devaneio suspirosamente involuntário. O temperamento dos tempos confinados mudaram a postura em nós, no que foi e já não o é! Assim com Ele, Jesus e, como servos dum passado colado ao sentimento, o presente já não o é daquele jeito, assim nessa forma tão simples com temor de ser pregado numa velha oliveira com pregos romanos artesanais. Meu compadre pastor de testamentos velhos e carcomidos no vento é que fica marafado por já ninguém ter medo do Deus lá do alto…

Ezequiel sentiu a doçura do chamado para profetizar entre o povo de Israel, sendo-lhe claramente dito que a tarefa seria amarga. Seu êxito, porém, estava condicionado à fiel perseverança na execução dela. Nesse tempo nem havia SELFIES para encafifar as mentes esmerilando nossos neurónios com coisas da treta e, com meninas usando fio para destapar as bonitas vergonhas… Já viram que este recado mal-amanhado vai direitinho para o menino Marcelo que delira brincar de presidente…

MANDRAK1.jpg Ao profeta, caberia apresentar a Palavra de Deus a um povo rebelde, mas ao Deus da Palavra caberia cuidar dos resultados. Nada e, ninguém caminha hoje por essas vias de que nos falam na forma de parábolas; os usos, os costumes e medos estão moldados noutros paradigmas. Então, você ente comum, depois de ter um vislumbre dessa suposta forma de glória, quais desafios precisa para enfrentar o hoje? Há decisões difíceis a serem tomadas, às vezes envolvendo pessoas, e sabe-se que, nem sempre há respostas favoráveis nas suas orientações. O "Se Deus quiser" é dito mesmo por quem não acredita, usando isso só mesmo como forma de falar…

avelós6.jpg Parece assim, já ninguém querer saber se é a mão do Senhor que os impulsiona, que sustenta ou, lhes aponta o melhor caminho ao jeito do PINÓKIO. Os demais filhos da terra e arredores, também enfrentarão desafios herdados de uma sociedade indiferente às realidades espirituais, onde cada um fica voltado mais para si. O lado tardoz da foto SELFIE com suas nuances de futilidades…

mulaa2.jpg Contudo, “quer ouçam quer deixem de ouvir”, todas as pessoas devem receber a mensagem da graça divina pelo seu testemunho, querendo, ou não! A graciosa mão do fio da vida não lhe será retirada, sejam esses desafios de concretização fácil ou de uma quase impossibilidade. O que não foi possível ontem pode sê-lo hoje e, isso é tudo o que importa para se entender o verdadeiro êxito na vida... Viva o M´Puto – Portugal… O que tiver de ser, vai acontecer...

O T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:19
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXIV

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte IV de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3045

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpg As escolhas do Kimbo

Por

Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

sónia2.jpg Em Tsumeb, um novo acampamento, as mesmas barracas de campanha. Mas a comida era melhor, assim como o tratamento que recebíamos. Ficamos pouco tempo. Conseguimos ser aprovados na seleção, graças a meu futuro cunhado e por eu ter começado a servir como intérprete. Benditas aulas de inglês.

Mudamos de campo outra vez. Fomos para Grootfontein, mais próximo a Pretória. O campo era um presidio que estava sendo desativado. Restavam lá uns 3 ou 4 presos, todos idosos. O presidio era formado por várias casernas e eles nos separaram. Tinhamos refeitório com mesa e bancos, e a comida era surpreendente. Imagine, senhor, que comemos até sobremesa de maçã caramelada no forno. É que os presos eram os cozinheiros. Fiz amizade com um deles. Tinha 65 anos e estava preso há 30 pelo assassinato da esposa num acesso de  ciúme. A filha não o visitava. Depois que saí do campo e ele da prisão, fui à casa dele. Era um homem gentil – como pudera fazer aquilo? Mistérios do coração humano que jamais saberei.

suku2.jpg Continuei sendo intérprete junto à assistente social e ao diretor do campo. Meu futuro cunhado arrumou emprego numa fazenda. Meu namorado logo sairia, mas eu era menor de idade e não poderia deixar o campo. Estava dificil para minha mãe. Ir para Portugal estava fora de questão, dado o desprezo com que nos tratavam. Eu e Zé decidimos casar. Minha mãe passou a ser minha responsabilidade (acredita que até hoje ela fica muito zangada quando lembra disso?). E assim, no dia 6 de novembro de 1975, casei dentro de um presidio que funcionava como campo de refugiados. O diretor e a assistente social foram nossos padrinhos.

kuito8.jpg Os soldados que tomavam conta do campo fizeram uma cotinha e pagaram a nossa festa e a lua de mel num hotel na cidade. O casório teve bolo, vestido de noiva e tudo, viu? O Jeep do exército nos levou ao hotel. Os soldados ficaram dentro do Jeep vigiando para que não fugíssemos. De madrugada, acordei com dor de ouvido. Na recepção não havia remédios, as farmácias só vendiam medicação com receita. Os soldados me levaram para o hospital, onde fui atendida. Ao voltarmos para o campo, os soldados contaram para todo mundo a aventura. Não escapamos à gozação geral: “Nem os ouvidos poupaste à miúda, Zé?”

kuito2.jpg Casada pelas leis sul africanas, no dia 11 de novembro casei na Igreja e duas semanas depois casei novamente no consulado português. Em menos de um mês casei três vezes. Felizmente, com o mesmo homem. E assim deixei minha terra. Um ano na África do Sul foi suficiente para sabermos que lá não era o nosso lugar. Além da cultura muito diferente, começavam a ocorrer ali os mesmos episódios violentos que havíamos testemunhado em Angola. Decidimos mudar. Escolhemos o Brasil, país que desde minha pré-adolescência eu sonhava conhecer.

Partimos para Portugal a fim de cuidar da burocracia. No dia 7 de fevereiro de 1977 zarpamos num navio italiano rumo a Santos, onde desembarcamos dez dias depois. Eu estava com seis meses de gravidez.

fuga8.jpg A imensa maioria dos brasileiros nos recebeu de braços abertos, principalmente as pessoas mais humildes. Alguns, mais abastados, nos tratavam friamente, mas nunca fomos hostilizados. Aos poucos aprendi a amar a terra nova, a querê-la a ponto de ficar amuada quando falam mal dela. Percorri este Brasil quase todo, conheci cada lugar que nem tens idéia, senhor. Andei por picadas, atravessei pontes que eram apenas duas tábuas paralelas, morrendo de medo que elas quebrassem e o carro despencasse. Comi queijo de coalho em casebres de gente mui simples e coração enorme. Ah, senhor, que país maravilhoso é esse teu Brasil!

Descasei, casei de novo.

Quando a  saudade dava botes sobre a gente, o Walter fazia a muambá. Comprava cachos de dendê e tirava o óleo em casa mesmo. Era o único jeito de ficar igualzinho ao de Angola. Aqui as frutas são praticamente as mesmas que tínhamos, a temperatura  e as praias também, mas não é a minha casa, entendes senhor? Aqui eu me sinto bem, mas falta o cheiro da minha terra, falta o cacimbo e a silhueta única do imbondeiro em meio à névoa.

guerri3.jpg Há uma ausência que não consigo definir. Tudo tão igual, mas ao mesmo tempo diferente. Talvez a gente seja mesmo filho de nosso chão, não sei. Parece que nesta paisagem familiar falta a alma da minha terra, a casa que posso realmente chamar de minha.

Eis-me aqui, senhor, aos 60 anos, com três filhos e dois netos brasileiros. Sou feliz, bem sabes, mas a saudade é bicho traiçoeiro: quando a gente menos espera, ela surge, arrepiando a pele, cravando as unhas na carne, abrindo ocos no peito. Recolho então minhas lembranças, as músicas e fotos de minha terra, e choro. Mansamente.  Angola ainda vive em mim. Como tatuagem de alma."

FIM

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:04
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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXIII

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte III de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3044

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpg As escolhas do Kimbo

Por

Sónia1.jpgSonia Zaghetto

guerra13.jpg Aprendi, nessa época, que tudo o que está ruim pode piorar. Minha familia deixou Nova Lisboa, assim como meu namorado e a mãe dele. Eu fiquei. Aguardava minha mãe, que tentava sair de Luanda. De repente me vi  sozinha, aos 16 anos, num país que se esfacelava e numa cidade em que os grupos guerrilheiros se enfrentavam para dominar o território. Agora havia tiroteios em toda parte. Passei a morar na sede da Cruz Vermelha. Finalmente minha mãe chegou e conseguimos uma carona para Sá da Bandeira, mais ao sul. Fomos de camião, minha mãe na boleia com o motorista e a esposa dele; eu e os filhos dele no meio da carga de batata. Até hoje, meu senhor, o cheiro de batata me agonia. É cheiro de fuga, de desesperança e perda.

Em Sá da Bandeira reencontramos meu namorado e a familia dele, com quem tinhamos combinado sair de Angola. A confusão era enorme. Gente andando de um lado pro outro, tentando encontrar familiares ou arrumar um jeito de sair dali, gente sem um centavo até para comprar água. Faltava comida, além de esperança.

Não lembro exatamente da data em que finalmente saímos em caravana (onze carros e um camião) à noite pelo meio da mata, com destino à fronteira com a África do Sul. Sei que era início de agosto. Durante a viagem encontramos duas patrulhas de guerrilheiros. A primeira foi mais tranquila, aceitaram o suborno de cigarros. Já a segunda foi apavorante: queriam nos prender de qualquer jeito. Segundo eles, éramos ladrões das riquezas de Angola. Todo aquele zelo patriótico não resistiu à propina. Além de cigarros e bebida alcoólica, demos dinheiro para que nos deixassem seguir.  O sol começava a nascer quando encontramos uma coluna do exército da África do Sul. Ainda estávamos em território angolano, a cerca de 10 quilômetros da fronteira, mas eles nos escoltaram até um campo de refugiados já em território sul-africano. Foi o primeiro campo em que ficamos.

sónia2.jpgEu sentia  raiva, meu senhor. Muita raiva! Uma revolta surda contra os brancos portugueses, que nos exploraram durante séculos e agora nos viravam as costas dizendo que éramos brancos de segunda classe. Revolta contra os negros, por acharem que a diferença na cor das nossas peles fazia que fôssemos diferentes deles. Éramos todos angolanos, mas apenas nós estávamos sendo expulsos de nossa terra e não tínhamos para onde ir.

O acampamento era feito de barracas de campanha. Sabes como é, senhor, aquelas barracas verdes do exército? Na nossa barraca dormiam seis adultos e duas crianças. Cada um recebia um um cobertor e três refeições por dia. Comida pouca, ninguém ficava saciado, mas matava a fome. Estávamos agradecidos, pois os sul-africanos faziam mais por nós do que o governo de Portugal. Esse acampamento – destinado a angolanos e moçambicanos – era um local de filtragem. A alguns era vedada a possibilidade de ficar no país. Esses eram logo encaminhados ao grupo consular português e enviados ao aeroporto, onde aviões da África do Sul os levavam para Portugal. Outros eram mandados a outros campos de refugiados.

araujo176.jpg Nós, graças a meu futuro cunhado, que era engenheiro agrícola e já tinha uma promessa de emprego, fomos para outro campo. Escoltados por uma coluna do exército, seguimos para Tsumeb. Na estrada para Winduck, havia uma cidadezinha. Avistamos gente nos esperando. Abordaram o oficial do exército que nos conduzia e pediram para nos dar abrigo naquela noite. Desconhecidos encharcados de solidariedade, que queriam nos oferecer o alimento mais precioso, esperança.

gad3.jpg Eu e minha mãe fomos para casa de um casal idoso que nos acolheu com uma refeição quente, um banho e uma cama quentinhos. Estava tanto frio. Pela manhã, logo depois do café, nos levaram à loja da filha deles, onde já estavam a minha futura cunhada e sogra. Disseram para escolhermos as roupas que quiséssemos.  Nesse dia fiz as pazes com Deus. Aquelas pessoas me apresentaram o outro lado da humanidade, feita de bondade com quem está refém da tragédia. Só podiam ser emissários do Divino, anjos perdidos no interior da África.

(Continua…)

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:58
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXII

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte II de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3043

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

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Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

fuga10.jpg Meu pai só vi duas vezes. Na primeira eu tinha seis anos e ele me levou pra passar o dia na casa dele e conhecer sua esposa e filhos. A segunda vez foi aos 16 anos. Ele me encontrou na rua, na garupa da moto de um amigo e repentinamente se lembrou que era pai. Mandou eu descer e ir pra casa, que filha dele não andava de moto. Ah, meu Senhor, filho mal havido nem sempre engole sapo – anote aí. Disse-lhe que não era meu pai, que não passava de um reprodutor. Depois disso nunca mais o vi. Tudo o que sei dele é que vive em Portugal.

A vida em Angola enchia de festa meu coração adolescente. Com os Escoteiros Marítimos da Praia do Bispo acampei em ilhas e praias distantes, participei de paradas militares, visitei hospitais e presídios. Com grupo de dança folclórica Rancho da Casa do Minho dancei em campeonatos e apresentações. Vi o nascer do sol na praia da Ponta da Ilha, andei de moto nas dunas da praia do Sol e acampei na paradisíaca ilha do Mussulo. No Baleizão comi prego no pão com Coca-Cola. Nos bares à beira da praia comi santola, camarão, peixe no molho de dendê, muamba com pirão de milho. Eu nem sabia, senhor, que fabricava as lembranças mais caras. Um dia elas seriam os retalhos coloridos da minha colcha de saudades.

fuga11.jpg Tudo mudou em abril de 1974. Angola ansiava pela justa independência. Estávamos numa entressafra de tranquilidade. O terrorismo de 1960 quase não existia mais. Os guerrilheiros tinham sido rechaçados pelas tropas portuguesas. Porém, com as mudanças na política de Portugal, tudo mudou nas colónias lusitanas na África. Grândola Vila Morena deu a senha para os cravos florescerem nas armas. Marcelo Caetano caiu. O socialismo venceu em Portugal: Álvaro Cunhal, Mário Soares e seus camaradas, agora no poder, apoiaram a independência e o Movimento Pela Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto e patrocinado pela ex-URSS, Cuba e Alemanha Oriental. Mas no país existiam também a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, apoiada pela França e pela Bélgica; e a União Nacional pela Independência Total de Angola, de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos. Os dois grupos não aceitaram os favores de Portugal ao MPLA.

Iniciou ali, senhor, a grande guerra civil que devorou o meu país por três décadas. A violência aumentava a cada dia. Balas perdidas, rajadas de metralhadora, morteiros de bazuca e granada passaram a ser rotina. Quantas vezes, tínhamos que nos jogar no chão, dentro da sala de aula ou de cinema? Lembro de um dia em que Jesus Christ Superstar estava na tela enquanto eu, deitada no chão no cine Tivoli, ouvia as balas assoviarem sobre a cabeça.

Era difícil para todos, mas quem tinha pele branca, como eu, caiu em um limbo. Eu não era colonizadora, nem exploradora. Era uma adolescente angolana, pobre e agora considerada inimiga. Em meados de Março de 1975, começamos a cumprir o toque de recolher. A partir das 16h, brancos não podiam andar nas ruas sob pena de serem presos ou mortos por grupos guerrilheiros. Estes não eram mais chamados terroristas e sim aclamados como heróis da libertação. Havia assassinatos de homens brancos todo santo dia. As mulheres sofriam mais: eram seviciadas antes de morrer. Minha mãe rendeu-se ao medo: em Junho daquele ano me mandou para Nova Lisboa, onde tínhamos familiares e as coisas estavam mais tranquilas.

fuga13.jpg Muitas famílias estavam fugindo do norte do país e indo pra a nossa região, onde recebiam apoio da Cruz Vermelha Internacional para deixarem o País com destino a Portugal ou à África do Sul. Comecei a trabalhar como voluntária num dos postos da Cruz Vermelha. As caravanas do norte se multiplicavam. Eram tantas, que houve dias em que não dormíamos. Engolíamos pedaços de pão enquanto limpávamos ferimentos, distribuíamos comida e dávamos informações. Quando conseguíamos parar por alguns minutos, encostávamos o corpo nas caixas de alimentos e dormíamos em pé mesmo.

fuga9.jpg A multidão rugia em desespero. Gente à procura da família, gente abatida e sem rumo. Derramavam grossas lágrimas, lamentavam-se em alta voz pelos parentes mortos, pelos bens perdidos, pelas emboscadas às caravanas. O bicho homem é bruto, meu senhor.

Lembro muito bem, ainda hoje, de uma caravana. De um dos carros desceu uma família atacada na estrada. A mãe tinha uns olhos perdidos e carregava o filhinho no colo. Seu choro era um chicote que arrancava lascas da gente e tingia de cinza o vasto mundo. Implorava que lhe salvássemos o menino, mas ele, senhor, já estava morto. Nesse dia, lembro-me bem, rompi com Deus. Reneguei-o. Era bem certo que nenhum ser supremo e bom poderia criado tal humanidade perversa e tanta dor a fustigar as costas dos inocentes.

(Continua…)

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:30
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXI

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte I de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3042

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto Kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

Por

Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

sónia2.jpg "Já sentiu saudade de sua terra, senhor? É uma coisa que brota na fundura do peito, percorre bem devagar a pele, arrepia os pelos dos braços, bambeia as pernas. Garra de unhas pontudas, pega o coração da gente e espreme lentamente". Pingam gotas vermelhas que abrem uns vazios na alma dos homens. Houve um tempo em que eu não sabia o que era saudade de casa.

Nasci numa cidade do sul de Angola, Nova Lisboa. Hoje ela se chama Huambo. Era o dia 2 de abril de 1958 e minha mãe tinha 16 anos. Solteira. Meu avô não queria que eu nascesse, não. Minha mãe bateu o pé e foi enfiada num convento para que eu nascesse lá. Depois eu seria dada para adopção. Minha mãe bateu o pé de novo: agarrou-se a mim – sua carne, seu sangue. Fiquei. Até completar um ano, vivi entre os hábitos das freiras, ninada pelo som das orações, dos cânticos, dos sinos, filha das Ave-Marias, das Salve-Rainhas, dos Pai-Nossos sentidos.

Talvez minha mãe tenha rezado muito, não sei. Talvez os santinhos que me viram chegar ao mundo tenham adoçado o coração de meu avô. O certo é que de repente ele se viu apaixonado por mim. Veio nos buscar. O que sei sobre essa época é o que minha mãe contou. Eu mesma de nada lembro. O que ela conta é que eu e meu avô não nos separávamos. Alto, de cabelos grisalhos e sorriso largo, ele me carregava nos ombros pra todo lugar e me mimava, me ensinava a ser respondona, não permitia que a mãe me castigasse. Só ficamos na casa dele até eu completar três anos. Mamãe não tolerava a “madrinha”. A bem da verdade, não era madrinha – era madrasta.

fuga1.jpg Minha avó morreu quatro anos antes do meu nascimento. Assassinada. Estava na cozinha e um homem chegou. Disse estar com fome, pedia comida. Minha avó se compadeceu: sabia dos sofrimentos dos homens negros em Angola. Mandou-o entrar e sentar-se à mesa. Enquanto servia o prato, o homem se levantou. Como uma pantera, veio por trás e a estrangulou. Minha mãe e meus tios menores estavam no quintal, brincando. Nada viram. Ficou a lição de que algumas criaturas – não importam a cor da pele – são diabos. Ah, se são…

A casa do avô, em Nova Lisboa, tornou-se lugar das férias até os meus 10 anos. O avô trabalhava de sol a sol na chitaca. Levantava às 5 da matina e ia pros campos de sisal, abacaxi, laranja, goiaba, tangerina, caju. Às 9 horas, eu e os primos levávamos o matabicho para ele e prós trabalhadores. Era bom aquele tempo de brincar, nadar no lago, subir nas árvores, cravando os dentes nas frutas colhidas no pé, correr atrás de patos e galinhas e dar cigarro aos camaleões só para vê-los mudar de cor e despencar do galho completamente chapados.

Até hoje, senhor, não encontrei comida melhor que a da senzala. Todos juntos, brancos e negros, comendo pirão ao molho de dendê e peixe-seco. Que saudade agora me dá de pegar o pirão com a mão, molhar no dendê e depois lamber os dedos besuntados. Não há nada melhor, viu?

fuga3.jpg Quando eu e minha mãe saímos de Nova Lisboa, fomos pra Luanda. Ela trabalhava como costureira. Foi assim que me criou, sentada na máquina de costura. Cresci entre tesouras, linhas e tecidos, rendas e fitilhos. Grandes espelhos reflectiam as senhoras elegantes que chegavam a toda a hora. Minha mãe era a melhor: só trabalhava pro high society de Luanda. Noivas? Eu juro, senhor, que perdemos a conta de quantas ela vestiu – uma mais bela que a outra.

Adolescente, estudei num colégio de freiras, o melhor de Luanda, o mais caro. Era bolsista e tinha a obrigação de ter notas altas. Entrei no colégio por recomendação do presidente da Câmara de Luanda, cuja esposa era cliente da minha mãe. Gosto de lembrar desse colégio. Ali fiz grandes amizades, algumas duram até hoje, embora separadas por oceanos. Foi lá, também, que aprendi a me defender. Filha de mulher solteira, quantas vezes me chamaram de bastarda? Nem lembro. Eu reagia. Não nasci para baixar a cabeça, não senhor.

fuga6.jpg Morávamos num apartamento bem pequeno. Quarto e sala, cozinha, banheiro e uma sacada minúscula, de frente para o mercado municipal, que a gente chamava de Kinaxixi ou Mercado da Maria da Fonte. Na época de provas eu acordava às 3 da madrugada. Quando os feirantes começavam a arrumar as bancas, eu aparecia na sacada e berrava para que parassem de fazer barulho, que eu precisava estudar. Eles riam e moderavam a barulheira. Depois de um tempo, eles se acostumaram a conferir: se a luz do quarto estava acesa, já gritavam “Hoje vamos ficar quietos. Vai estudar, miúda!”.

(Continua…)

Sónia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:21
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MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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