Quinta-feira, 1 de Outubro de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLVIII

 

MEUS KITUCUS (mistérios) … Fui ao odontologista ... Crónica 3064 – 30.09.2020

Odontologista é um “tira dentes”

Por

soba 01.jpgT´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento

dentista1.jpg Dia 28 deste mês de Setembro fui ao odontologista e, aconteceu que cheguei bem antes da hora, li as recomendações do tal do dito cujo COVID-19 coladas na porta e esperei na rua que me chamassem! Agora é mesmo moda esperar na rua porque o medo espreita e o surto do susto anda por perto; é só saltar o muro e estou no bivaque, acampamento permanente do mestre Lello e seus muitos cidadãos ciganos que como tal, também têm direito às desregrarias citadinas. Desta feita foi um pastor de uma organização religiosa que professa a igualdade mais fraternidade entre todos que levou o tal dito cujo de COVID-19 aos demais – soube disto porque deu na televisão – facto que alastrou até outras partes do Barlavento, lugar de onde sopra o vento.

Chegada a hora, surgiu à porta a senhora muito coberta de fardas azuis com atilhos meio soltos, com uma touca de azul mais suave, vestimentas também azuis a cobrir seus sapatos e até luvas descartáveis de cor plástica translucida, mais uma máscara de um azul claro de onde saiu a indicação de que eu e Ibib poderíamos entrar. Ibib é minha cara-metade que se chama assim porque tem sangue árabe com mescla de gente alentejana de Panoias e Messejana. E, assim entramos mascarados como mandam as regras de “bom medo em boa companhia”.

dentista2.jpg Mostramos nossos cartões de cidadania, dissemos das doenças que não tínhamos e quais os remédios que tomávamos das que tínhamos, demos os números de telemóvel, penduramos todos os nossos acessórios soltos mais zingarelhos com estralhos num cabide da parede. Assinamos um papel de dizer sim ou não a uns 15 itens, de saber se tinha estado com gente suspeita de ter o agente secreto, se tínhamos viajado, se tínhamos espirrado, se tínhamos essa coisa de rinite e mais edecéteras. Esqueci! A porta de entrada ficou trancada, não fosse o tal de vento trazer uma malvadez viscosa do outro lado do desordenado kimbo quilombola dos mamelucos do Lello, esse tal de pastor de ovelhas feitas gente…

Após termos dado aqueles ditos dados, a senhora secretária, com uma pistola de plástico, viu nossa temperatura através das orelhas, vestiu-nos as vestimentas idênticas á sua, capa sem botões frontais e atilhos no lado tardoz. Enfiamos a touca azul na cabeça, os mocassins de plástico azul claro nos sapatos e sandálias e, Ibib entrou para o consultório. Esquecia-me: snifamos as mãos logo à entrada com gel de álcool. Posto isto, entrei na sala de espera aguardando vez e, sentado, assim fiquei esperando e olhando o circundante. Bem! A sala estava meio no lusco-fusco, dois candeeiros, um em cada estremo de lâmpadas acesas…

roxo135.jpg A janela para a rua era ampla, de coluna a pórtico e as persianas estavam quase semicerradas. Resolvi carregar com o pé no interruptor apagando uma das lâmpadas; não tinha jeito haver luz directa e ficar consumindo luz incandescente – um desperdício. O outro candeeiro não obedeceu ao meu pisar e, vai daí com aqueles fios que saem no fim do extremo, colgados duma roldana, virei a persianas até ter a luz suficiente na sala. À minha frente havia uma mesa dum castanho-escuro, lisa e sem qualquer adorno ou revista. Tinha somente um controle de TV; esta, estava bem no cimo da esquina, desligada e, tendo uma luz pequena e vermelha acesa. Estive quase a pegar neste instrumento para ter imagem no ecrã mas, achei que o melhor mesmo, era não tocar em nada.

Assim, sem nada fazer, olhava em frente, porta ampla vidrada na metade da parede; na outra metade retive-me a olhar o quadro absurdo! É normal haver dentes em quadros alusivos às técnicas odontológicas bem como parafusos de perfurar mandíbulas com susto e arrepios mas, este quadro, não era nada disso. O vidro que cobria a coisa, de oitenta por oitenta centímetros, bem na meia altura da parede branca, cobria a tal tela - posso explicar: Eram rabiscos e manchas castanhas de sujeira interrompida por vassouradas meio deslavadas. Imaginei ser uma pista de gelo na montanha mas desconsegui fincar a certeza e, estou em julgar que era isto, um cartão de aparar pinturas…

roxo68.jpg Ou talvez um cartão que é borrifado de tinta e colas e que depois de colado a um outro, é descolado de supetão. Nem um macaco faria coisa tão ruim! Em verdade sempre prefiro isto a uma gengiva inchada sangrando piorreia despegada dos ossos… Foi neste então que a senhora secretária me chamou e, lá fui ordeiramente medroso. Sente-se ali, bocheche e deite fora, máscara posta em uma bandeja de metal anodizado; Então de que se queixa!? Olhando de soslaio naquela coisa de perfurar ossos, fui dizendo que independentemente de uns quantos dentes estarem moles e abanarem, minha preocupação era aquele frontal que já estava despeado da raiz e quase me tornava um rinoceronte – coisa feia doutor!

Amavelmente explicou-me o óbvio, os dentes abanavam porque a carcaça estava velha; vai dai, mete-me uma ferradura côncava cheia duma massa na mandíbula inferior e, nos intervalos da feitura do gesso ou lá o que era, fui dizendo que não queria mostrar uma gruta na minha loja; que seria feio andar com a estrutura roída e, vai dai, de novo (cala-te), e assim adentrou nova ferradura na parte superior que quase me solta o tal dente de rino-frontal. Menos mal que não descolou e, vai daí, bochecha e deita fora, coloquei minhas adjacências e tudo acabou como começou. Aguarde uma chamada nossa para voltar em breve e condicionarmos esse dente com uns reforços à sua esquelética – disse o doutor odontólogo…

roxo61.jpg Dito isto, sai defrontando-me com um senhor vestido de amarelo e com uma máscara do Futebol Clube do Porto e que já ali estava, faz tempo, esperando minha liberdade! Descrevo isto com minúcia para que saibam o quanto é difícil ser atendido por um qualquer médico e em especial este quase espeleólogo, ou paleontólogo… Esta etapa de moldes, esperou quase um mês para ser realizada; fiquei ciente de que os outros dentes terão de esperar que acabe o campeonato de futebol e apareça um outro que se siga a mim com a máscara do Sporting – campeão…

Na melhor das hipóteses dentro de uns dias terei de voltar para encaixarem o rino-dente-frontal e depois se verá! Então direi ao doutor odontólogo que encomende um novo quadro para a sua sala porque aquele trilhou-me os neurónios. Então não seria melhor colocar lá um rabisco de galináceo da Assunção Roxo! Os meus kitucus andam mesmo baralhados… Ao dar a volta e de regresso a casa deparo numa placa situada no muro de pedra solta mostrando uma imagem alusiva ao álem com um senhor de bata branca feito pastor de igreja e uns dizeres alusivos; no canto inferior direito a direcção dele mesmo, de seu email: - lello@rrobatudo.kwantopoderes.PT …

Ilustrações de: Assunção Roxo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:36
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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