Terça-feira, 15 de Julho de 2008
ANGOLA. Outros tempos

 

 

 

 

 

                                       CASSOALÁLA

                                         O cacimbo do guerrilheiro

 

N´dalatando.

Estavamos em  Junho de 1976

 

Metido em apertos, entalado em corotos, apanhei boleia numa GMC até Cassoalala. Uns pseudo militares encostaram-nos à parede enquanto revistavam a camioneta, partindo tudo sem mais nem menos, nem porquê. A minha vida corria para trás, teria de me raspar na primeira distracção. Os olhos daqueles improvisados tropas chispavam raiva demais e, não se entendiam, ali havia maka. Encostado à parede duma casa queimada, via o além muito mais próximo do que pretendia. Não quero morrer aqui estupidamente nas mãos duns desclassificados, ébrios militares mal vestidos.

Tomem, tomem tudo: - o meu bananal, cafezal, ximbeco, tudo o que me custou os olhos da cara,... só quero levar o meu cabedal para o puto.

Aqueles  caragos dos portugas, os vendilhões, por acaso não sabiam? será que não?!

- Não sabiam que em Janeiro de 1975, muito antes do 11 de Novembro, 20 instrutores cubanos a fim de treinar tropas do emepelá  assentaram arraiais em Massangano,... aqui tão perto!

 E, entretanto neste mesmo Janeiro, assinavam o acordo de Alvor em Portugal.

- Não  sabiam que em Junho do mesmo ano de 1975, muito antes do 11 de Novembro introduziram mais 600 cubanos e, desta vez, também debaixo da vigilância portuguesa.

E,... foi-o, bem perto de Luanda!

Se isto não é traição, o que é que se lhe pode chamar?

Mas de momento eu, estava num aperto, não era agora a hora de pensar nos senhores de Lisboa e no que russos, americanos e o povo mal informado de Portugal determinavam , inconscientemente  alguns, mas, determinavam.

Menos mal que apareceu um mulato fintador, com divisas de tenente, penteado de balas em diagonal que, de tão herói, destabilizou a guarda em curiosidade banguista.

 A oportunidade surgiu nesta aberta de descomandada hierarquia, ordens e contra ordens e,... esgueirei-me por entre um bananal.

No ouvido ficou em fundo aquele ruído de rumba.

Os trilhos do comboio eram a minha referência, deslocava-me penosamente a caminho do Dondo; não sabia ao certo para onde ir, caminhava para me manter inteiro e ocupado, tinha em mente chegar a um sítio aonde pudesse confiar em alguém que me levasse a Luanda descendo o rio Kwanza até à Muxima, em canoa que ainda teria de roubar.

 Ali, com alguma sorte, iria encontrar o camundongo Zacarias, um ajudante de fubeiro conhecido desde que era candengue e, a quem salvei da morte numa dessas andanças em descoberta por terras de Cambambe; Naquele enquanto, eu era um estagiário de montador electricista.

Descrever o que se passou na salvação daquele desenfeliz levava muito mais tempo que escrever esta pequena crónica mas, o certo é que o salvei de morrer electrocutado;  foi  a minha maior façanha, como electricista, salvar Zacarias de uma morte certa; Agora, ele levar-me-á a sítio de segurança, pois sempre foi bem visto entre os emepelás de Catete, amigos de escola do próprio Agostinho Neto.

A flor-do-congo, com a caminhada, tornou o andamento muito demasiado penoso, tive até de recorrer a uma pêra abacate para besuntar as partes dolorosas, o certo é que melhorou um pouco pela gordura que este fruto tem. Já junto ao rio Kwanza pude ver mais abaixo no sentido da corrente umas canoas presas a uns arbustos pendentes na água.

Deduzi,... estava em Massangano!

Longe, mas não tanto podia ouvir bafos esfarrapados de rumba e merengue; eram extintos ou fugidos  guerrilheiros afogando-se em magoas, dançando em bolero crueldades transpiradas, libertações sem sucesso das restolhadas revoltas de guerra.

Esfarrapado por entre um ermo de coisa nenhuma, muita verdura e água barrenta deslocava-me com o máximo dos cuidados como uma gazela perseguida por onça. Fechei a boca para não me denunciar e, os dentes não deram conta da minha mão que a tapava.

Conduzindo o medo através dum cacimbo cerrado, de árvore  em árvore, sentia o próprio bafo de fome; o peixe seco, a cerveja, o funje eram um equívoco de pensamento.

Massangano, haka!... ai-iu-é;  já estava mais, por detrás.

Esquindivado entre capim parecido com caxinde, vi, a uns cinquenta quilómetros de Massangano, rio abaixo, homens gesticulando mujimbos, na medida mais aproximada pude ver equilibrando-se na jangada, o kamba Zacarias Catetense, bem me parecia pela voz mas, estranhei a falta de uma perna. T’chimbicando um pau ajustado no sovaco e, naquela borda do kwanza, parecia até um corsário como nos livros dos desenhos animados salgari.

 Quando lhe gritei o nome, fez-se um silêncio medido de medo  mas, no despois um grande abraço, aperto de mano corvo e, quis saber das makas de N´dalatando e dos kazucuteiros penetras do sistema,... Eu bem que te avisei naquele entretanto lá na samba, te lembras de quando fomos apanhar mabanga, te lembras?

 Eu só abanava a cabeça sem entrar no demasiado do desconhecido novo camarada; já tudo passou mesmo, disse eu, querendo dar solução ao meu conflito.

Aquela noite comemos funge com peixe do rio, frito, bebemos umas cucas e um amigo do meu kamba, gentilizou-me um pouco de marufo, que me satisfez. Amanhã vais com o kota Alcides até Luanda, ele te desenrasca, te leva na Maianga e te deixa lá mesmo no rio seco junto daquela cacimba perto da casa dos malucos.

Os sonhos, naquela noite, foram por demais turbulentos no recordar dos últimos dias. Os guerrilheiros interditaram a passagem entre Zenza do Itombe e Malange, ninguém podia passar sem uma revista bem revirada; gente do sul fugia para norte e vice versa, muitos como eu, fugiram para a mata sem vice nem versa, só confusão mesmo, maka à toa.

O senhor Alcides foi-me dando indicações muito negras da situação em Luanda, dizia-se que havia cinturas de protecção a Luanda e que as pessoas levavam o tempo todo em filas para arranjar mantimentos; o melhor para o meu caso era bazar para o puto e esperar que tudo voltasse ao normalizado.

Era mesmo melhor!

         A minha vida estava em risco, meu pai já tinha sido recambiado para o puto por ordem do doutor Boavida, pois do tiro que tinha levado na perna, os cubanos do hospital Maria Pia desconseguiram livrar-se da bala junto à rotula do joelho e, corria o risco de gangrenar.

- Pronto, vou-me embora, acabou-se! África é dos negros, a nova fina-flôr dos Van Dunem, Mingas ou Punas, com negócios da Lua; que fiquem na sua abundância de guerra.

- Luua-anda, dos deslocados, mendigos com chagas e meninos brincando entre jipes desjantados empinados no lixo; lixo que a-bunda entre destroços, nos musseques.

Cheguei ao puto ainda a tempo de diligenciar junto ao hospital de Torres Novas  a fim de lhe tirar a dita cuja bala; o meu pai, “o Cabeças” tinha sido bem apetrechado de porrada no após rapto junto ao largo da Maianga pelos homens do Nito Alves, foi o que disseram e, parece mesmo ter sido combinação para mandar o velho kota branco para a sua terrinha.

 Mesmo passado algum tempo “o Cabeças” parecia o mapa mundo em manchas de sangue pisado, havia pouco espaço por cobrir; deram-lhe um tiro no escuro, algures num sitio fatal e, desandaram deixando-o espernear por detrás do então aeroporto Craveiro Lopes e, como quase morto, assim ficou contornado de capim; arrastou-se toda a noite até que, numa picada e já de dia, uma patrulha mais governamental  emepelista o levou para o hospital.

O kota meu pai, pela descrição posterior teve por demasiada sorte em sobreviver no meio de tantos; obrigado doutor Boavida! Se não fosse o senhor metê-lo no avião ainda hoje estava imaginando o seu estatuto vivente, envolto numa teia de dúvida.

Esta estória sem direito a “h” foi uma verdade a setenta por cento, com os restantes trinta, de inventação para suavizar  o  quase impossivel ou inacreditável mas, eu continuei sendo o mano corvo da Unita; desconvocado da guerra, acantonei-me voluntáriamente nos mugimbos do degredo.

Glossário - palavras sublinhadas

Corotos – coisas, bicuátas ; maka – rixa, briga, barulho, confusão; emepelá – movimento popular de Angola; banguista - vaidoso, com estilo; camundongo - rato, natural de Luanda ou arredores; fubeiro –negociante de fuba, tasqueiro de mato em Angola; flor-de-congo – eczema na zona das virilhas, parecido com psoríase; esquindivado – escondido de forma fintada; caxinde – erva do chá príncipe ( Angola ); mugimbos – dis-que-dis, boatos, mexericos, conversa por conversar; kamba–amigo, conhecido de infância; Catatense –natural de Catete; kazucuteiro dança, bandalheiro, dado a embustes; mabanga – bivalve; funge – farinha de mandioca; marufo – vinho, seiva de palmeira fermentada; bazar – dar o fora, fugir; haca! – exclamação por admiração, espanto em Umbundo (generalizado por toda a Angola); T’chimbicando – acto de navegar com pau longo ou bordão, em zig-zag; candengue – criança, jovem.

 

 

         O Soba T´chingange

 

 

 

 

 

 



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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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