Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
CONHECER O BRASIL - VIII

                   

                              TEMPOS DE CARAMURÚ - 3ª parte

                               Arte de marear

 

Em pleno ano de 2008, navegar a vida, é tão ou mais difícil que descobrir novas terras como à 500 anos atrás o fizeram navegadores de Portugal.

Nesse longínquo ano de 1506, o astrolábio, as correntes marítimas, os ventos e o Sol eram os instrumentos que processavam a navegação.

Os blagueiros de hoje usam o computador, tecnologia de ponta a comparar com os instrumentos de faca e alguidar daqueles idos tempos. Recordar que naquele então, o pincel de “lava rabo”, era usado por todos os tripulantes, na ré da nau.

Ao invés dos dias de hoje em que parece já estar tudo inventado, naqueles tempos descobrindo novas paragens, usavam-se o astrolábio de latão para bordo e o de “pao” ou grande, para as observações em terra; entretanto, já era conhecida de forma elementar o regime do Sol, Estrela Polar e Cruzeiro do Sul e, até se faziam deduções entre o Norte da agulha e o verdadeiro.

Naquele tempo, as blagues, eram as descrições inchadas de imaginação que os marinheiros nos portos iam passando em conversa. Nas tascas, de forma superficial, sem conhecimentos técnicos, iam transmitindo as novas latitudes vistas no outro lado do mar e, entretanto, em surdina, infiltrados espiões ou olheiros, de porto em porto, iam anotando dados afim de serem transmitidos a corsários, outras bandeiras ou interesses comerciais.

Na necessidade de estar solto, em vivência de uma vida anterior, vi-me junto do caramurú Diogo de Álvares em terras quentes da Bahia, como aprendiz de astrólogo. Ali, a gente era toda alva, ”os homens mui bem dispostos e as mulheres mui fermosas, que nam ham nehua inveja às da rua nova de Lixboa”.

Tive de recorrer ao diário de viagem de Pero Lopes de Sousa, afim de recordar-me dos abrolhos de então, dos muitos corsários que tínhamos a enfrentar; regras promulgadas pelo Papa Alexandre VI e sua sereníssima Majestade D. João II rei de Portugal, pelo Tratado de Tordesilhas no ano de 1494.

Hoje não há tratados desses, a globalização leva-nos a casa toda a informação; má ou boa, chega-nos sem uma triagem homologada por instituição idónea.

Voltando ao ano de 1506, estando na foz do rio S. Francisco, assisto a um combate naval entre índios; cinquenta canoas de cada banda e “secenta homes” em cada qual. Os vencedores mataram os prisioneiros assando-os e comendo-os em seguida com grande festança. Eram “homes grandes e nervudos”.

Na minha missão de arrumar as terras nas cartas, quase todos os dias observava a latitude a bordo, depois, conferenciando andamentos com o piloto, dava compasso às singraduras, prevíamos as léguas, a influência dos ventos e das correntes; para além do limite do Tratado de Tordesilhas guardava-mos resguardo.

Espalhamos padrões com a cruz de Cristo por toda a redondeza da terra; em caravelas, naus, bergantins ou canoas, navegando à bolina, com o Siroco ou Alisado, tornamos o mundo global.

Las Casas, cronista conceituado, dito portador da verdade, confidenciou-me que Duarte Pacheco, antes de 1494, já tinha descoberto não só terras brasileiras como também a Flórida só que, tal não podia ser revelado pois o destino do caminho marítimo para a Índia era segredo absoluto. Todos os mareantes de então iam à procura da “Antília”, uma ilha mencionada em escritos e esboços grosseiros feitos por Normandos e Genoveses. Nós, também!

A arte de navegar de hoje “via Internet” não tem nem de longe a audácia desse meu companheiro Pero Lopes de Sousa que trabalhou doutra forma neste veículo de globalização.

Comparar os blagues de hoje, aos feitos do Pero de Sousa, é confundir a arte de navegar.

Nos abrolhos do rio de S. Francisco num lugar de varas, uma rede feita de tiras de couro, vegetação densa, cipós entrelaçando casa de esqueleto à mostra, ouço barulho; o som vinha devagar com cuidados antecipados pois, no meio da fumaça exagerávamos zumbidos e feitos.

Enxotávamos “os sancudos” impertinentes, fantasmando labaredas com rama verde.

Naqueles blagues de 1506 o tempo passava como fio de ideias impregnadas em catinga.

Com o mar cavado perfuramos o medo, ultrapassamos baixios, conquistámos terras a “uma boca não he mais de hum tiro “d’arcabuz”, as ilhas dos Frades, das Flores, das Palmas e, tantas outras,...menos a Antília!

Numa madrugada rebentou-se uma das amarras, a nau começou a garrar, em alvoroço, o mar lançou-me fora com a ressaca,...fui empurrado para o ano 2008.

O Soba T´chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:34
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