Sábado, 27 de Setembro de 2008
CONHECER PORTUGAL

 

 

   O CRAVO HIBRIDO DO TÓ CHARRUA


Tó Charrua, continua a mancar da perna que ficou doente antes da maluqueira chegar a todo o seu corpo; amiudadamente mete-se nos copos e, quando tal sucede, tropeça nele só e, frequentemente enquanto fala, sozinha-se numa conversa sem tino. De cambadela em cambadela luta pela liberdade com todos os carretos e dentes disponíveis.

De cravo na lapela, ciente dos seus direitos de cidadãnia, mesmo quando o álcool o força ao desvario, não perde a bondade; ao cair da tarde pega a caçadeira e percorre uns quantos quilómetros na mira de caçar uma lebre e, entretanto divaga os feitos, após aquele glorioso momento do “vintecinco”. Dali, pode divisar o monte destelhado que ajudou a “desfascistizar” durante a Abrilada.

O tipo, dono daquilo, era um carrasco para os seus trabalhadores e, resulta que, na fúria de um daqueles dias quentes, a raiva deu para aquilo; o homem que Deus tem, voltou do Brasil uns anos mais tarde mas, perante um nada recheado de amarguras acabou por deixar aquilo em mato, o gado foi sendo vendido pela comissão “HADOC” que orientava tudo mas, pouco a pouco o desalento revolucionário foi-se desproporcionando à medida que os subsídios do “PREC” se iam tornando escassos,...(é ele que o diz).

-“Fizeram-se grandes encontros por ali; vinham senhores de fatiota confraternizar connosco, sardinhadas, gaspacho e febras com tintol de Conqueiros. Era um alento a novas perspectivas de combate, uma quase guerra; corriam cartazes com frases revolucionárias que nos faziam heróis”.

Grandes feitos ao lado de barbudos Cubanos, da Sierra Maestra, de “los hermanos que luchavam com nosotros a câmbiar la vida óscura”.

-Tornamo-nos proletários importantes; incharam-nos o orgulho!

Charrua fala alto lembrando aqueles tempos e, nem as lebres parecem perceber estas novas curiosidades dum palhaço falante.( perdoe-se o excesso,...)

Aquele monte ficou conhecido como sendo o ”O dos Ruíns”.

Charrua, chega ao povo já escuro em estado de euforia; as muitas papoilas vermelhas que lhe despertavam um não sei quê de vontade e brotoeja, sem picar bois, sentia-se um pouco abandonado pela Nossa Senhora de Assunção, ermida que tinha ajudado a pintar numa regeneração de mágoa, nunca dita por orgulho.

A fúria proletária daqueles tempos não lhe trouxeram as valias que se podia pensar e, agora, até rezava n´uma de que se calhar, iria ser perdoado; claro que em redor, ninguém via e, ele não era pessoa para quebrar esse passado tão camarada, por isso ainda se dispôs a colocar um cravo na lapela, um cravo híbrido, no dizer do seu cunhado que tem uma estufa lá para os lados de Albufeira.

Neste dia já copado, quase noite, subiu a rampa trôpego, entrou pela ermida adentro e trouxe para a rua todos os santos; A Senhora da Assunção, S. Cristovão, S. Martinho, Santo António, uma miniatura do Padre Cruz e, falando, sempre falando, ia dizendo:

- Coitados! Aqui presos, todo o tempo sem apanhar ar. Venho libertar-vos!

Depois, dispondo-os em circulo, sentou-se nos degraus do adro, acendeu um cigarro do tipo mata ratos e, após uma baforada, discursou com funda penetração num misto de revolucionário e cristão novo:

- Este é o vosso “vintecinco” de Abril, não tenham medo dos lobisomens nem bruxas; eu estou aqui!

Enquanto recordava feitos idos ia-se desculpando até que, se lembrou da Catarina e aí mudou de atitude:

- Aqueles cabrões, deram-lhe um tiro, malfeitores “gêeneerres”; (desculpem pelo palavrão),... então,... não era de pegar em foices?!... gadanhos e forcados para nos livrarnos desses "Pides" e Salazarentos bufos, mais esses macacos todos, fardados de zuarte, empoleinados a caqui!

Eu, que descrevo isto, estou a sentir-me comprometido mas, desculpai-me porque só relato o que me é dado saber,... os bufos,... tudo se deturpava num mundo de medo, egoísmo ou simples malvadez; todos se tornavam prisioneiros de uma vigilância em estado de sítio.

Era um culto de ignorância e mesquinhês com adulteração das liberdades primárias fermentando vergonhas.

O Soares, barbeiro que desconheci, envolvido em "patuscadas", fados e cantorias desgarradas, se estivesse vivo no seu devido tempo, seria preso pela simples razão de ler o jornal ao resto do povo; a morte salvou-o de ser preso.

Voltando ao Charrua já quase com setenta anos, diz-se que tinha uma forte propensão para roubar e, até chegava ao cúmulo de atirar o próprio chapéu para um qualquer quintal para em seguida saltar o mesmo para o roubar; depois, já realizado sentia-se compensado de não ter ido mais longe; era a cleptomania que o atormentava. (ele nunca soube disso)

Charrua é por si só um património que, inventariado dará um bom nome de rua.

De cravo na lapela, carregado de naftalina, lá ia ele cantando, algo que não consegui descodificar:

- Santa Luzia dos olhos,

S. Martinho dos mancebos,

Garvão é terra de negros,

Panoias é burguesia.

Messejana é gravidade,

P´ra falar com cortesia,

Barrigotos de Alvalade.

 

O Soba T´chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:08
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