Sábado, 27 de Outubro de 2012
PIAÇABUÇU . XI

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“DOS JESUITAS AOS TUBARÕES” . 9

Por

 Roeland Emiel Steylaerts

Depois de alguns dias, meu pai achou um sítio, a poucos metros da cidade com 4.000 pés de abacaxi plantados. A compra foi feita para pagar em seis meses, contra entrega dos documentos (que o cara não tinha). Tinha uma casinha de taipa, um fogão a lenha feito em barro. Para tomar banho, íamos a uns 200 metros a uma fonte. Tinha uns 50 cm de fundo, e a água escorria mais para frente na terra formando uma poça. Ali seria o banheiro, só para nos lavarmos. Para fazer as necessidades, qualquer lugar resolveria; papel higiénico não existia no lugar. Para tomar banho diáriamente tinha que espantar uma ou duas cobras jaracuçu, que moravam no local... que acabou virando costume. Tinha na casa uma cama de casal, aonde meus pais dormiriam. Um quarto para meu irmão, e um para mim. Arrumei logo um couro de boi, sem curtir e coloquei palha em cima; dormi nove meses assim. Luz era de lamparina a querosene. Dinheiro não tinha, e tudo era na base de troca. Um abacaxi permutava com uns ovos e por ai vai... A cidade vivia à base de trocas. Um dia fui convidado para ajudar a matar um boi, que estava amarrado a uma árvore. Minha parte seria segurar o rabo do animal e espichar o máximo possível. Assim o matador passaria a faca na garganta dele, até o bicho cair; eu ganharia a cabeça. Tinha bem umas vinte pessoas em volta, cada uma com tigela, e algo para trocar com a carne.

 Compramos um cavalo manso, a fiado; dinheiro para sela, não tinha, então seria sem sela, nem cabresto. Seria um cinto que faria papel do famoso cabresto. Sei que um dia consegui trocar uns dois litros de leite por uns abacaxis. Coloquei em cima do fogão a lenha, lá no alto do fogão. Quando volto vejo que o cachorro de nome Xavante, da Dona Benta, estava tomando todo o nosso leite. O nosso leite precioso tomado pelo cachorro.... A Dona Benta nunca soube do sumiço do cachorro. Um dia, meu pai resolve ir para Brasília, levar o cárter do Buick, e deixar no entroncamento (Santa Teresina) para ser consertado. Nunca mais veríamos este cárter, pois o mecânico mudou-se para Goiás, levando com ele a peça crucial para o carro importado. Em Goiânia, meu pai tentaria resolver algo para fazer na vida, pois em Cavalcante não tinha como fazer dinheiro e ao menos na cidade maior, talvez aparecesse algo. Sei que voltou uma semana depois com uma geladeira a querosene, a única da cidade. Comecei a fabricar sorvete picolé com palitinhos feitos de haste de folha de buriti. Coloquei uns meninos  vendendo o picolé numas caixinhas. Dava até um dinheirinho, em centavos... claro! E assim a vida continuava em Cavalcante, longe do mundo. Nós não sabiamos o que acontecia no resto do mundo, e para falar a verdade... não fazia falta. Na cidade não havia pão. Não havia geladeiras... mas tínhamos arroz e feijão. Não havia banco, nem agência de Correios. Não havia ônibus, nem para dentro, nem para fora. Não havia médico ou farmácia... era tudo na base de ervas... e da sorte; seja o que Deus quiser, assim falava aquela gente cristã.

 Quando morria uma pessoa, a gente ouvia o barulho da serra manual a noite toda; faziam um caixão na medida, feito de portas e janelas, pois não tínhamos madeireira nem serra eléctrica na cidade. Era bastante interessante viver naquela realidade. No enterro, todos seguiam atrás do defuntado. Durante o tempo vago percorremos o município a cavalo à procura de minérios, do qual a região estava cheia. Tudo catalogado em meu diário. Havia o flanco de um morro que era minério de Urânio. Descobrimos também veias de grafite e muito mais. Também acabamos por nos familiarizarmos com as gentes de um quilombo próximo. Um dos problemas da região era os carrapatos que estavam colados em baixo das folhas dos arbustos às centenas. Sei que cada noite tínhamos que fazer uma limpeza, e tirar dezenas de carrapatos do corpo, principalmente na região genital. Estes bichinhos sabem muito bem o que querem... e a onde. Um dia o padre holandês trouxe da sua terra um gerador pequeno, para iluminar o caminho da igreja velha à nova, o que dava uns 100 metros. Perguntou-me se eu sabia fazer a instalação. Fiz a rede, com lâmpadas na rua (eram 6 peças), e dentro da igreja nova... uma construção quadrado, sem graça com telhado de Eternit. Tinha na cidade barroco de Cavalcante a igreja antiga, com seus santos, e uma cadeia antiga do século XVIII. Sei que o padre me mostrou os santos grandes, verdadeiras peças de arte, mas que infelizmente ele tinha passado a escova de aço, e deixou na madeira crua, para depois passar uma tinta fresquinha e nova. Derrubou a igreja velha, e também a cadeia; um padre vindo para o Brasil à toa, sem ter o menor senso de cultura. Terminou acabando com a cidade de Cavalcante. Vendeu tudo para um antiquário do Rio de Janeiro, a preço de banana. Atrás da casa do padre havia o “buraco do ouro”, um antigo garimpo dos escravos, do século XVIII que naquela passada época, teve uma inundação, e num repente a água matou quem lá estava, Isto foi no século XVIII. Passei lá muitas vezes. Soube que mais tarde  veio um garimpeiro que tirou a água do poço durante uns dois anos, reabrindo o garimpo. Agora, industrializado, usam máquinas já muito velhas girando com correias. Sempre escondido e ilegal, acabou facturando um bom dinheiro.

(Continua...)

Ilustrações: Assunção Roxo no mural de Costa Araujo Araujo mano-corvo do Rio Seco da Manhanga . Br

Piaçabuçu: Cidade situada na foz do São Francisco

Nota: Esta é a estória vulgar de um emigrante Belga fugido da guerra que se aventurou em terra estranha do outro lado do Oceano. Os tempos mudaram, as agruras são outras mas a vida é assim mesmo, um rodopio de acontecimentos com carrapatos que parecendo nada, mudam o rumo.

Compilado com correcções ortográficas e arranjo ao texto original por

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:27
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