Domingo, 22 de Dezembro de 2013
MOKANDA DA LUUA . XIX

ANGOLA - DONGUENA – UM CONTO DE NATAL

Por

  Dy – Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)

Adorava quando ela passava a língua áspera pelas minhas orelhas ou pelas faces fazendo-me cócegas e molhando-me a pele, os olhos dilatados de alegria e a cauda abanando a um ritmo alucinante. As patas possantes assentavam no meu peito fazendo-me recuar dois ou três passos naqueles momentos em que manifestava a sua ternura com maior fogosidade. Apoiada nas patas traseiras ficava mais alta que eu uns bons dez centímetros e só voltava à posição original quando a minha avó lhe dava um grito para se aquietar. O pelo era ralo e fulvo da cor das chanas que bordejavam o Cunene lá para os lados do Cuanhama, região que deixara ainda cachorra para vir para a casa do avô. Os olhos de um amarelo brilhante pareciam dois focos quando algo fora de comum prendia a sua atenção, formando-se simultaneamente um remoinho eriçado no pelo do dorso.  Aquela raça conhecida como Leões da Rodésia estava bem patente na possante cadela e era visível a razão porque eram conotados com o rei da floresta. A Leoa da Rodésia do meu avô era um exemplar digno do seu nome. Foi baptizada com o nome de Donguena pois nascera numa chitaca que o velhote possuía nessas terras situadas entre o Humbe e o Caluéque, vindo parar ao Lubango juntamente com uma manada de gado gentio destinado ao abate, e transportada a pé desde o longínquo Cuanhama até ao planalto da Huíla durante três longos meses.  

 De manhã cedo após acompanhar o meu avô até à moagem do outro lado da rua imitando-lhe o andar e escoltando-o fielmente até à porta do escritório regressava ao pátio interior da casa onde vivíamos, aguardando a minha ordem para partirmos rua abaixo em direcção à serra que vigiava o ainda pequeno povoado do Lubango. Para lá do Mucufi começava o mato e raras eram as casas que por ali existiam. Calcorreava os carreiros abertos pelo contínuo e rotineiro caminhar das populações que vinham das faldas da serra trabalhar e que cruzavam connosco olhando temerosos a Donguena. Não manifestava qualquer agressividade fora dos seus domínios, com excepção feita a qualquer rafeiro que se aproximasse demasiado, o que raramente acontecia. Quando o sol mais a pino me obrigava a regressar a casa e a hora do almoço assim o exigia, a Donguena depois de me deixar em segurança atravessava de novo a rua para acompanhar o meu avô de regresso, que fazia o seu intervalo para as sopas do meio-dia.  Durante a noite a cadela patrulhava a casa e a moagem mantendo à distância com o seu aspecto feroz os amigos do alheio. Quando chegou a idade de ir para a primária, os passeios matinais pelos arredores acabaram e a Donguena começou a escoltar-me fielmente até ao portão da escola e à hora da saída lá estava ela aguardando o toque da sineta para me acompanhar alegremente até casa.

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Um dia de manhã o meu avô deparou com um dos seus empregados com uma perna totalmente dilacerada contorcendo-se de dores à porta do escritório. Não teve dificuldade em se certificar que a Donguena tinha sido a autora da agressão. Dois meses mais tarde um novo incidente determinou o destino da cadela, o reenvio para a chitaca onde pela primeira vez vira a luz do dia. De nada valeram os meus soluços e súplicas, pois o avô quando tomava decisões nada nem ninguém o conseguia demover. Assim no princípio de Setembro de l950 a minha companheira amarrada na carroçaria de um camião lá partiu em direcção ao Cuanhama, perante o meu olhar nublado de lágrimas e um soluçar convulso.  O seu olhar mesclado de ternura e tristeza acompanhou-me nos meses seguintes e os passeios pelo mato perderam o encantamento, sem a companhia da Donguena. Quando alguém pensou em colmatar a minha perda com a oferta de um outro animal, recusei peremptoriamente. Umas semanas mais tarde o primeiro empregado agredido pela Leoa da Rodésia acabou por ser preso ao tentar assaltar uma casa isolada nos arredores. Tentaram ocultar-me o acontecido mas inadvertidamente escutei uma conversa entre os meus avós e fiquei inteirado da injustiça cometida com a Donguena.

Dezembro chegou ao planalto acompanhado de um calor razoável e algumas chuvadas que pintaram a Chela de verde. Os rubros cardeais sobressaiam nos canaviais dos charcos, engalanados com a nova roupagem e tecendo os seus ninhos numa azáfama chilreante. Os prados cobertos de malmequeres brancos e arroxeados ondulavam o seu colorido até às faldas da serra, e as espinheiras perdiam a sua tonalidade acastanhada e verdejavam a paisagem. Alguns arbustos pintalgados com sementes vermelhas iriam substituir os tradicionais pinheiros de natal, raros naquela região. O Mucufi alargara o seu leito emprenhado pelas abundantes e cristalinas águas que despencavam da serra em saltos de cascata, e corria veloz em direcção ao Cuanhama para onde a minha amiga Donguena havia sido deportada tão injustamente. A Huíla ganhava vida engalanando-se para o nascimento do menino Jesus naquele imenso presépio encastoado no planalto. A cordialidade entre as gentes aumentava com cumprimentos efusivos e votos de boas festas. Eu era questionado vezes sem conta sobre as minhas preces ao Pai Natal e o que desejava que ele me trouxesse. Para mim não poderia haver melhor prenda que o regresso da minha companheira de passeios mas abstinha-me de fazer esse pedido, substituindo-o por carrinhos de lata, pistolas de fulminantes e cinturão de cowboy, os raros brinquedos que em conjunto com as bonecas de celulóide eram o espólio do humilde comércio desses anos.

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A noite de Natal finalmente chegou com toda a família e não só reunida na casa do meu avô. Homem hospitaleiro que convidava e recebia toda a gente indiscriminadamente, não esquecendo aqueles que vindos do Portugal longínquo em busca da terra prometida haviam deixado para trás mulher e filhos até conseguirem a estabilidade financeira necessária para os mandar vir. Foi uma azáfama na cozinha, onde eu fiquei pespegado à espera dos alguidares onde se batiam os bolos, para lhes rapar o fundo à dedada. A missa do galo foi rezada na recente sé catedral, com cânticos e ladainha e durou aproximadamente duas horas, o que foi um martírio para os meus pés enfiados em horrorosos sapatos de verniz. Acabada a liturgia, houve lugar a uma passeata ao maravilhoso presépio edificado pelos mais devotos junto ao altar, onde o menino Jesus de louça foi osculado na anca roliça por todos os crentes. Em casa a mesa estava posta com tudo o que era bom para dar lugar à tradicional ceia. Depois de me empanturrar com pingos de tocha, castanhas de ovos e demais iguarias foi-me sugerida colocação de um sapato ao canto da sala e a retirada para o quarto devido ao avançado da hora.
 
Foi uma noite curta, em que dormi à pressa na ânsia de ver os presentes pela manhã. O sol já havia despontado quando me levantei e corri para o lugar onde tinha deixado o sapato. Meia dúzia de carros de lata coloridos, carros de corda como eram conhecidos, onde sobressaía uma chave igual à que abria as latas de sardinhas, um cinturão negro com uma enorme fivela de latão e apliques em metal prateado, dois magníficos revolveres e uma estrela de Xerife e mais umas tantas bugigangas deixaram-me extasiado. O Menino Jesus afinal não se esquecera de mim e atendera a quase todos os meus pedidos. Sem querer acordar toda a família, peguei no cinturão e nos revólveres e abri a porta que dava para o pátio interior da casa do avô. Foi então que as patas dela assentaram no meu peito fazendo-me recuar dois passos para o interior da sala e a língua áspera percorreu-me o rosto e as orelhas provocando-me arrepios de prazer e deixando-me todo lambuzado. A minha Donguena ali estava escanzelada e suja, havia percorrido cerca de quatrocentos quilómetros até ao Lubango e agora latia de contentamento, sem rancores nem queixas. Larguei as prendas e chorei de contentamento com a cabeça encostada ao seu pelo fulvo, eriçado no dorso num remoinho de dedicação e ternura. Desde esse dia nunca mais duvidei da existência do Menino Jesus e do Pai Natal.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:07
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