Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
A CHÁCARA PARAISO

ALGURES NO BRASIL

O SONHO DA DONA ROSA                  

Massagueira, 15 de fevereiro de 2009.

A nove dias de distância temporal  do Carnaval.

 

Por entre coqueiros, a brisa da Barra da ilha de Santa Rita, trazia o batuque repenicado de intermetências fortes dum bloco popular carcavalesco-farrista em ensaio. A lagoa Massagueira dava magestade àquele sítio da Dona Rosa cheio de luzernas por entre sombras remechendo permanentemente. Um hino divino à vida  jorrando juventude desde um lindo ano de mil novecentos e quarenta e quatro, do passado século. Dando nobreza ao justo nome de Paraíso, os sons difusos de puítas, reco-recos, berimbau e a percussão de muitos tambores trespassavam a paisagem, a toalha d´agua da lagoa, e a sércia do cercano infínito escandalosamente verde. Enfim, um lugár mágico que se quer reter para sempre num repente de vida, sem rugas. Havia avózinhas, anões pastando caracois e só faltou o lobo mau para completar a ficção do capuchinho vermelho. O perna-longa, estáctico, roendo uma cenoura de rijo betão, guardava os coelhinhos brancos que incansávelmente devoravam a grama por debaixo das frondosas mangueiras.  Os sete anões saltitavam feitos sombra entre bromélias penduradas em pés de coqueiros desfalecidos; retocavam de vermelho a matiz do arco-íris  que envolve  o sítio da Dona Rosa, lugar de maior distinção do que um tal do pica-pau amarelo.

 

Prometi dar-lhe um retrato falado remechendo recentes lembranças e permanentes quereres de amor.

O senhor António primeiro, manteve-se sentado que nem um Calígula, um tal de imperador romano que por diversão mandou incendiar Roma. Refulgindo sapiência de ancestrais patricios romanos e destreza de rudes calabrezes, com astúcia pensada de um ceciliano, transbordava empatia com uns óculos escuros no seu frontespício segurando as orelhas. Atento à assembleia como se de um sinédrio se tratasse, visionava os demais. A nobreza carregava-lhe o corpo com distinta postura e olhar sincero. Dona Maria sua distinta esposa, dáva-lhe a atenção em presurosos carinhos de corações de galináceo de capoeira, um tira gosto que ele muito aprecia, coisa linda esta ternura dos mais de sessenta e,... não parece.

Dom António Segundo, com seus artefactos, zingarelhos, espetos metálicos, estralhos ponteagudos, facas ousadas de grande afiadura  e  uma curiosa gamela de dar sal à carne meche-se com destreza na arte canibalesca de desgustar picanha com todos os requintes de malvadez. Em questão de apetrechos cortantes, parecia o o Lampião, não desfazendo, claro. Não fosse a sua prestimosa colaboração, o espalhar de brasas, atiçar o lume, embrandecê-lo com borrifador e espetar linguiça usando técnologia de ponta e, nós os mortais terrenos, ficariamos seguramente com fome. Esta esforçada tarefa de solidariedade com uma assembleia atentamente distraida, teve o encanto da maior altivêz.

 UM OUTRO PARAÍSO - ALGARVE

A picanha estava divina, a linguiça estava guloza, os corações e patas de pinto foram para o ex-zelador das contas públicas(Sérvio Tulio),  proibido de beber cerveja com álcool. Há médicos que levam os pacientes a respeitarem o perigo e sanar abusos. Chás e caldos de galinha não fazem mal a ninguêm.

Na azáfama do «bota aqui», «cuidado que pode caír coco» e «mais uma manga que bate no solo», a bringela de vinagrete foi desaparecendo. O pão de alho acompanhava as iguarias e eis que alguém fáz reparo no bacalhau gostozo da Dona Emilia. Esta senhora, aproveitou falar das virtudes dos costumes, do bacahau verdadeiro que se divide em lascas, da Terra Nova ou duma tal de Gronelândia que por sinal foi um Português que descobriu, um tal de Corte Real a quem, por esse feito, foi dada a capitânia de Angra do Heroismo nos Açores. E, a conversa deriva para tantas outras paragens com gostos por descobrir.

 Toda a gente prova do tal bacalhau da Gronelândia, o  gustoso leite de creme, os rissois de camarão e, de prova em prova a tarde ia caíndo no crepúsculo; nem tivemos tempo de apreciar aquele mais fantástio pô-de-sol da Lagoa Manguaba. Esta agitação de vida entrecortada por ditos banais e linguajares menos habituais, crianças que brincam, cheiros bons que trespassm narizes, uma música carnavalesca que passa grátis num ambulante discoteca de altos decibeis e, a beira da lagoa lançando laivos de brilho num fim de tarde. Brilho, fazendo um fintado através dos pés de Jambo, coqueiros e cajueiros num perfeito quadro de feliz convívio. Gente muito diversa e dedicada ao próximo sem um suspiro, ou um ai- jesus fora do contexto.

 

O relator desta crónica, o António Terceiro, gente remota de submisso e humilde querer foi obsequiado com dois cafés da melhos safra. Dona Rosa presenteou-o com simpatia num ligeiro e prazenteiro gesto de vai-e-vem entre a casa grande e a rústica mesa inamovivel daquele fundo de quintal. Eu, o Dom António Terceiro, senhor vindo da terra do Nada na busca permanente da terra do Nunca, não era o Soba T´hingange  do quilombo habitual mas, o Peter Pan sem galinhas de Angola, nem Kimbo para zelar. Este Dom António tinha decidido, e assim foi, a Dona Maria teria de relembrar o sucedido num certo velório com a Dona Rosa. Porque achei espectacular, voltei à carga e espevitei de novo saborear a cena de então. Descrição própria a não ficar perdida dos anais da estória da quinta (uma parceria semi-aberta com a Torre do Zombo).

Dona Rosa e Maria foram a um velório dum defuntado marido de uma comum amiga. Tal pessoa defuntada destratava a esposa, era um "cara" de torcidos preconceitos, daqueles de bater por querer muito, exagerava nessa oblíquas gentilezas e descuidava-se plenamente no trato da família; em verdade já não lhes  fazia nenhuma falta porque a canhaça,  desfez o núcleo de família feliz, em suma era um traste. O álcool  roia-lhe o cérebro ao ponto de que seria uma benção, acontecer  o sucedido àquela maltratada e malamada senhora.

Eis que, entre silêncio pigarreado de velhices, alguém por encomenda ou não, (não se averiguou tal) fala em assembleia das virtudos do morto. Passou num repente, a ser um bom marido, bom pai, bom cidadão, uma coisa inaudita p´ra quem roia já um desamor de próximidade. Dona Rosa levantou-se e diz para a amiga do peito Dona Maria: - Vamos embora, estamos no velório errado, este não é o morto que conheço!

 

Dona Maria, ao vivo, humildemente e naquela Chácara Paraiso, ligeiramente enrrubecida confirma o ocorrido. Que vergonha que eu senti naquele momento e,... ri-se, ri-se,... ri-se deslocando sua simpática figura para a casa mãe levando uma remessa de pratos sujos.

Eu, prometi que escreveria isto porque foi maravilhosa ntal descrição por parte de Dona Rosa. Fiquei a saber que houve uma segunda versão “o defunto errado” quando na missa por alma do traste, o padre o enalteceu com as mesmas mentiras. Outra vez Dona Rosa teve de abandonar a sala pois de novo estava no morto desconhacido. Dona Maria, de novo passou por uma vergonha ainda não sentida antes mas, confirma a corpo inteiro e pés juntos (jura) ser verdadeiro tal caso. Ele era mesmo um traste!

 Este mórbido retrato tem a humilde finalidade de lembrar o quanto é bom falar de coisas banais, sem banalizar e, rir  a bandeiras despregadas. Estas são as tertúlias em que me dá prazer estar, isto, numa atmosfera reinante de cheiros, sabores e cantorias de pássaros bem-te-vi e outros indefinidos sabiás daquele magestoso sítio.  Gente comum como eu, ali,  enobrece-se de fina e estirpe linhagem.

Aquela Chácara Paraíso foi lavrada em Cartório Régio, no longínquo ano de 1810,  sobre  o manto protector de Dom João VI, o tal rei, que  gostava de coxinhas de galinha, como nós gente comum. Dona Rosa não entra nesta mística de faz-de-conta de nobreza. Ela, seguramente a verdadeira condeza de Arganil, é a mais nobre que alguma vêz a Massagueira já teve.

Saí daquele sítio tão feliz que a galardoei, ela, a Dona Rosa, com a “Palma d´Ouro”.

Estivesse eu, em plenos poderes do meu reino de Manikongo e, dar-lhe-ia a “Catana D´ourada”; a tal ínsígnia que só se dá a gente de importância.

Os três Dom Antónios ficaram nesta foto, salvaguadados dos puladores cocos dos altos coqueiros.  Como foi bonito passearmos em tertúlia pela Guarda, a cidade medieval do três Efes, pelo Algarve, pela Itália e Calábria e, ainda terras D´álem-mar de Angola com o soba ao dispôr, sempre

T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:57
LINK DO POST | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




RELOGIO
TEMPO
Weather Forecast | Weather Maps
Outubro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11
12

13
14
15
16
17

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
Facebook
Kimbolagoa Lagoa

Criar seu atalho
ARQUIVOS

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

TAGS

todas as tags

LINKS
PESQUISE NESTE BLOG
 
CAIXA MUSICAL
CONTADOR
contador free
ONDE ESTÁS

Sign by Danasoft - Myspace Layouts and Signs

blogs SAPO
subscrever feeds