Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009
NOSSO MUSSEQUE

            LUANDINO VIEIRA     

     O MELHOR RETRATISTA DO MUSSEQUE

 

Era eu candengue quando usava as expressões retratadas por este Senhor Luandino. O Nosso Musseque era isso mesmo, meninos jogando com a chuva que caia, dando berrida a todos os rafeiros do bairro, fantasmando o fumo no carro da tifa e roubando piriquitos nas barbas do guarda noturno. Desde a Maianga subindo o morro para o prenda, passando pelo Catambor e fazendo finfias com carros de arame a-fingir, que tinham um motor persistente mente de brrruuummm permanente. Catravés não posso esquecer  o acompanhar dos barris cheios de água que rodavam levando água da cacimba até à cubata do meu amigo  Batalha, meu amigo de apanhar cardeais e celestes nas lagoas por detrás do aeroporto de Belas e roubar gajajas a caminho da Escola industrial de Luanda. Isso por aí era tudo mato nos anos de entre 1953 e 1961. Até vi cair a ultima avioneta que se fez à pista no aeroporto em frente ao Regimento de Infantaria.

Meu pai trabalhava na Ceccil, uma fábrica de cimento para os lados do Cacuaco, lá, depois da Casa Branca e, um dia ele chegou a casa muito magoado. Parecia um morto-vivo cheio de barro, tinha ficado soterrado nas obras dessa cimenteira e eu vi nele, meu pai, um cristo descrucificado, soterrado.  E, então, foi aí que me dei conta que a vida não é facil para alguns e, como eu estava nesse lote comecei a descodificar a vida de verdade.

 Luandino Vieira ajudou-me a recordar o quanto para mim, um branco de segunda, um militar de segunda, um politico de segunda, um merdas no contexto geral.  Nunca alcancei a Terça-Feira da vida, mas nunca invejei os meus adjacentados e adjectivados  amigos.  Finalmente alcancei uma bosta de reforma , condiz,... uma reforma de branco de segunda.

Em 1961, aconteceram coisas de revolução e eu, candengue, não entendia que estava a nascer uma terra livre, muitas prisões e, só mais tarde, adulto é que vim a saber que Luandino fora preso.

Mas, naqueles dias os monas amigos só pensavam mesmo na brincadeira, na caça dos Rabos-de-Junco e os sardões das barrocas do bairro Alvalade. Vuzumunavamos o dia todo.

Porque tenho de relembrar o Luandino, aleatóriamente e expressamente para vós reli o extrato:

                                                                                          “Porque teve em tempo, com seus amigos brancos, só falavam quando era preciso, quando as galinhas-do-mato riscavam nos quintais e era de pedir desculpa, ou a Espanhola, a pequena cabra , rebentava na corda que lhe prendia na mulemba e ia roer as folhas novas das mandioqueiras, derrobando as panelas de barro e as latas de água, às vezes fazendo mesmo buraco nos cercados de aduelas e arcos.

Passou então aquela grande confusâo do Zeca Burnéu, dia que roubou ainda os versos daquele mulato sapateiro, o Silva Xalado, e adiantou-lhe fazer pouco na frente de todos. Essa malandragem o pai dele gabava-lhe sempre, mas daí mesmo é que a familia Bento Abano começou se afastar, não vinha mais na porta para suinguilar e adiantaram lamentar nos vizinhos, falando não estava certo essas brincadeiras desrespeitar as pessoas, um coitado sem pai nem mãe, vejam só, feito pouco por um miúdo!”

 

Tunica, era uma cantora lá do bairro, ganhou fama e foi para o Puto. Ganhou essa alcunha por parte do escritor mas, voltando ao início do livro relembro:

 

“Alcunha, quando a gente tem, tem por alguma razão. Essa verdade defendia-lhe sempre que a sorte me juntava com Zeca Burnéu e Carmindinha(...),Tunica não estava mais nessas reuniões, a vida tinha-lhe levado na Europa, com seu jeito de cantar rumbas e sambas. Menina-perdida mesmo (...), a vida é quando e não são só as nossas palavras que chegam para lhes mudar,...”

 

Nunca mais tornei a ouvir os assobios-de-bairro, para juntar os monas e, nem nunca mais comi bolinhos de funge com dendê, nem peixe seco, nem mesmo o peixe frito da Dona Zéfinha das obras eternas dos Almeida das Vacas.

Depois da leitura de “O Nosso Musseque” as coisas leprosas doutros tempos adquiriram de súbito um encanto retraído, colorido de insólitas buzinadelas à mistura com latidos de cães. Depois, um silêncio eléctrico alisando a alma, a gravata inexistente. Coisas difusas entre nuvens de perfume, um Camões cantando às ninfas do Tejo lodoso com flamingos a gargarejar minudências duma água salobra.

O que é que Camões tem a ver com esta inusitada crónica?

As saudades daquele branco de segunda só são contadas no d´jango do meu Kimbo, sempre que, e enquanto posso.

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:54
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