Terça-feira, 10 de Junho de 2008
O HOMEM QUISSANGE
Crónica dedicada ao Exmo Visconde do Mussulo, guardador-mor  em exercício dos zimbos do reino N´gola

 

KORIMBA SHOW

                                                       O HOMEM QUISSANGE

 

             Os pés calejados, suportavam com gretas espalmados um corpulento negro; aquele corpo de baixo acima estava por demais maltratado; carregava o mapa mundo pintado de mazelas de guerras, escaramuças da mata e sobrevivência carecida. Era um corpo cheio de riscadas lembranças de filária, matacanha e maus tratos de Kazumbi (feitiço).

           Quissange, espumava vontade de vida e, de olhos esbugalhados, grandes e redondos tentava fazer-nos querer filosofias de cachipemba misturada com liamba e sabedoria de quimbanda (médico tribal). Talvez! Sabe-se lá? Saído do seu kimbo por força da guerra ele só viu o tempo passar; de luta em luta, com o seu canhangulo desbravava bissapas na busca da mulola, da chimpaca e da n´haca (plantação) com pau de mandioca.

           Ele não vivia; sacudia a vida pois, só desconseguia!

           Acabada a guerra, largou a arma e entretinha-se tocando o seu korimba show. Este, era um instrumento de simples feitura; um pau atravessava uma lata de azeite galo vazia, na ponta saiam uns chinguiços nos quais ficavam amarrados três fios de nylon que iam envolver um pedaço de ripa grampeada à tal lata.

           Quissange não é nome de gente mas, ele só queria mesmo ser tratado assim!

          Quissange sempre foi um instrumento composto de ferrinhos de comprimentos diferentes,  atados a uma galocha de madeira e, ao chispar a ponta com os dedos, lançam um som próprio. Ao ouvi-los, os ferrinhos, a sonoridade do sertão e anharas embrenham-se na mística que só África é capaz de transmitir; se este instrumento se apoiar na barriga e mais uma cabaça até as hienas cantam de encanto por tão inebriante som.

           Mas,...este Quissange era gente e tocava um instrumento que ele mesmo inventou. Tal inventação  tomou o nome de Korimba pois que foi aqui, num lugar do mesmo nome que este lhe começou a dar algum dinheiro e, por isso, passou a ser o Korimba show. Tinha muito orgulho neste invento; foi a partir daqui que Quissange deixou de ser um qualquer desclassificado!

          Percorria a praia de cabo a rabo , voltava entretanto e sempre tocando o seu instrumento ia obtendo umas moedas de gazosa; estas gorgetas faziam-no ultrapassar carências fundamentais e, mais não queria.

          A vida era mesmo uma grande responsabilidade e sem nada, não teria obrigações.

         O Quissange contava coisas que só ele sabia.

         Dedilhava as cordas de nylon com gargalos de Cuca enfiados na ponta de dois dedos; em cada mão tinha cinco mas, enquanto que na direita usava os tais dois, a esquerda corria com todos  ao longo de parte do pau e, amarrando o nylon a este.

        Pouca gente teve oportunidade de ver tão místico instrumento; a desassossegada lembrança recorda os sons, o barco kitoco e o mar calmo da Samba.

        A acompanhar tal sonoridade juntava-se-lhe o toque de marimba em casco de canoa, a mesma que saía a pescar com frequência os kimbijis (peixe espada).

         No fim da cantoria abria a boca de beiçolas  espantadas e, sorria com os dentes todos. 

         Escondido nele mesmo Quissange pessoa, como um ritual, submetia-me a espoliadas vaidades  percorrendo o prazer do ouvido; sem sons de guerra fantasiava-me de segredos  concebidos no Mussulo, em longínquas  e sucumbidas vontades.

        Quissange, com o seu Korimba show , todos os santos dias dava concertos de humildade naquela areia, sempre , sempre escondendo por detrás da negrura a infelicidade que dizia ser só dele; a guerra desalojou-o do tino e, do fim do mundo , passou para a Quiçama e depois Sambizanga.

       Faltou-lhe um pouco de muita sorte para ser um Louis Amstrong. Este também arrastou sacos de carvão a partir dos sete anos de idade e acabou por casar com uma prostituta a quem chamava de seu docinho; seu,...dele!

       Neste mundo de sons, vidas de cabarés, trompetistas e demais artistas, chegar ao sucesso não é um simples estalar de dedos.

       Quissange nunca teve ninguém que o catalogásse numa qualquer linhagem; foi sempre um desclassificado tocador de um instrumento que também ninguém classificou.

Quissange com o seu Korimba show, num pedaço de  instante,  contribuíu no curso da história!

                                           Soba T´chingange          



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:38
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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