Sábado, 13 de Outubro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO - XCVI

TEMPO COM CINZAS - 13.10.2018

E, aqui no Malawi - Se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado…

MALAMBA: É a palavra.

Por

:::::T´Chingange – Em Mzuzu do Malawi

:::::1

Embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não nos ver, fazendo-nos sofrer por culpa de outrem; teremos por isso de nos fixarmos na fé, sem aquela inquietude de afligir-nos, ou ficar nesse estranho silêncio, uma forma de ver e ser obedecendo ao princípio do nada, esperando as mudanças no tempo e do bom censo, deixar acalmar o pó fino das picadas entranhado até ao cerebelo e, aonde existem sonhos feitos picadas sem saída para qualquer lado aonde antes, faz muito tempo havia cheiro de muzungu. Haja paciência!

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Foi possível reconhecer em mim neste roteiro de países africanos a partir de Johannesburg, depois Botswana, Zimbabwé, Zâmbia, Tanzânia e neste agora de Malawi coisas de distintos destinos, surpresas, curiosidades e benevolência com alguns desaforos. Também alguma temeridade com ansiedade. Um permanente desassossega com adrenalina ou uma excitação inquieta aos porquês mal respondidos que só África nos transmite na forma de muxoxos ou murmúrios.

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Há mosquitos de malária a lembrar guerrilhas escondidas, fogos ou vinganças mal compreendidas, queixas e gemidos de novas dores chorando-se nos hábitos do quotidiano. Os Malawianos são cristãos honestos e até trabalhadores. Nas noites, vêem-se luzes cintilantes dos povoados distantes no altiplanalto, os ruídos de aves noctívagas e perguntas que bailam sem resposta do como foi que aconteceu.

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Não imaginava antes, ter de andar matutando recantos que aqui nesta áfrica profunda são vistos de longe e, porque de perto não têm como ser vistos, barrancos e talvegues de permeio com m´bulas, uma fruta do mato comestível e que em Angola se chamam nochas. E, sou mesmo forçado a criar tabus no meu espírito para me manter são numa guerra que parece santa! Ou fico em silêncio, ou falo dizendo impropérios à falta do fervor alheio.

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De todo o modo, assim ou assado, tenho de aceitar o meu posto de cidadão fora de portas em guerra com as potholes, com os afloramentos rochosos e, pela obediência, mesmo faltando-me a confiança – bola práfrente, mesmo que daqui advenham desaires escuros, reflexos e refluxos com os faróis confundidos, um cego e outro reluzindo o espaço. Terei de ir mandando pontapés aos espíritos, às arrecuas práfastar os kazumbis.

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Nesta forma de ver a vida sobre rodas feito cigano, é bom não haver tristeza, um dia de cada vez! Saravá!... Já na sala-rum, faço uma busca na Wikipédia do Ilala Lodge de Mzuzu por modo a entender o que serão esses caminhos via lago Niassa e mais a sul pela M5 até chegar ao corredor de Tete - Moatize de Moçambique. Lá fora o Mundo ou a sociedade segue o seu destino de uma forma implacável, indiferente aos nossos pormenores.

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Todos devemos gozar a vida diariamente e usufruir daquilo que ela tem de bom para nos oferecer, e algumas até de forma gratuita, como o nascer ou pôr-do-sol, ver as constelações límpidas no céu, as belas paisagens que sempre surgem num lugar distante como falas do fim-do-mundo, apaziguando rijezas adversas com a sempre singularidade do mundo. Disposto a escrever a crónica do “haja paciência”, coloquei o rato do computador em cima de uns escritos amarelecidos no tempo, coisas minhas do antigamente e pude ver em letras maiúsculas ”A CHUVA BATE NA PELE DO LEOPARDO, MAS NÃO TIRA AS SUAS MANCHAS”.

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Na berma do lago Niassa também conhecido por lago Malawi, pude ver centenas de esteiras situadas como palafitos cheias de minúsculos peixes chamados aqui de thissipa, algo semelhante às tukeia ou tukya das chanas do Moxico em Angola. A natureza ensina muito a quem se detém a observar os mistérios tão perfeitos dela. Assim e com Dom António o primeiro governador do distrito do Moxico o achador de um vasto campo com milhões e milhões de peixinhos empoleirados nas árvores aqui os recordo de novo.

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Na verdade, lá na chana as árvores não eram árvores, senão arbustos ou, por outro dizer, bissapas comuns e capim alto da normal vegetação das chanas do Leste de Angola. Meu companheiro de viagem de nome pseudónimo Reis Vissapa desconhecia esta nova das tukeias. Pois, Dom António naquele então, mandou dois escravos que fossem buscar algumas daquelas coisas prateadas que se viam à distância. Entretanto, abandonou a tipóia onde se fazia transportar, estirou as pernas, erguendo seu comprido pescoço sobre a vegetação.

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Quando, por fim, pôde tomar nas mãos os peixinhos, viu que estavam secos, mumificados pelo sol. Procurou entender o fenómeno e interpretar o confuso palavreado dos vassalos. Parece ter entendido alguma coisa entre o cazumbi das falas com eles, seus monangambas:

O que é isto? …Vozes: - «Tukeya, patrão!», responderam-lhe (…) E «tukeia», é o quê?(..) Monangamba - «Tukeia», não vês patrão, é mesmo os peixe! Dom António: - Peixe, como? Os peixes ficam em cima das árvores como passarinhos, é?

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Uma voz: - (Dirigindo-se aos monangambas) - Oh pá... Esse n´gajo tá falar só átoa. Ele está só maluco dos cabeça n´dele, pôcha, pah! É peixe, mesmo. Outro monangamba: - É, não siô! Eu não… Si siô. É mesmo os peixe! Não vês, patrão? São mesmo os peixe de comer. Vozes – Eh, eh, eh... Os peixe sai atão em cima dos pau? Oh! Você viu? «Ombise, o kanjila ko? Aieku, ué!» Os peixe não é os passalinho, não…

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Todos opinavam mas ninguém explicava a razão pela qual havia peixinhos pousados nas folhas e a discussão não terminava. A caravana aproximou-se da misteriosa esteira prateada que o sol retocava de reflexos azuis. - «O aroma é pestilento. Só se pode andar por aqui com o nariz tapado» - anotou Dom António em seu canhenho de viagem. Rodeado de peixinhos e opiniões, queria entender o desentendível e o diálogo generalizado não lhe dava informação compreensível ou válida. O exame mais atento dos peixinhos tampouco!

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Tinha visto tudo isso com os próprios olhos mas, estava convencido de que o feitiço daquele mato era mais poderoso, porque criava peixes nas bissapas e peixes que tampouco bebiam água. Das anotações à teoria dos peixes voadores foi um passo. Para melhor conclusão faltava, apenas, encontrar o rio ou lago de onde partiam os cardumes... – «...Cardumes ou enxames?», interrogava-se o governador. «Nadam ou voam? Quanta distância? Qual a altura?

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 E, por que razão aterram ou caem todos juntos? Acidente ou suicídio colectivo? Sobre os arbustos vêm-se nuvens de peixinhos prateados, ressequidos, tão extremadamente delgados que, em vida, são tão leves que podem deslocar-se pela planície, voando como enxames de gafanhotos, até caírem exaustos sobre as plantas». Nunca regressou ao lugar e, morreu anos mais tarde sem desvendar o mistério ou os feitiços da «tukeya». Contudo a sua fantasia não andava longe da verdade.

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A «tukeya» brota do chão como as nuvens de gafanhotos. Este peixe minúsculo nasce na anhara, nos lagos de curta vida que a água das chuvas forma, todos os anos. Nas gretas de lama seca, no fundo, ficaram depositados os ovos que produzem miríades de peixinhos de crescimento alucinantemente rápido. Este peixe do Lago Malawi ou Niassa é bem-parecido com esse das anharas do leste de Angola. Aqueles, em dois meses cumprem o ciclo vital e começa a desova. A forte evaporação devida à secura do clima e o baixo nível das águas obrigam à concentração dos cardumes, facilitando a tarefa da recolha.

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As mulheres da região chegam em grupos, empunhando cestos com aspecto de raquetas enormes. Entram na água juntas, formando parede e avançam umas ao lado das outras, repetindo canções e técnicas seculares. Agitam os cestos com movimentos de baixo para cima e atiram os peixes ao ar, para que caiam sobre as plantas. Dias mais tarde, voltam à anhara, desta vez com kindas e juntam a «tukeya», como quem colhe frutos do alto das bissapas.

:::::

Nota: Muitos dados, foram retirados das Crónicas de Kandimba de Sebastião Coelho; 2 – Quem quiser saber mais acerca da tukeya poderá recolher informação no blogue de Kimbo Lagoa colocando este nome como ícone de busca

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:40
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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