Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
MAYOMBE

 FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

Encontro no Malécon


Calhou ser fim de Novembro, um mês do carnaval Caribenho quando me hospedei no hotel Presidente em La Havana, Cuba, junto à Praça de La Revolucion.

Desci dos meus aposentos a fim de me informar de pormenores para a já agendada visita a El Pinar quando deparo com um aparato de alguma transcendência. Era uma delegação de Angolanos chegando nuns quantos carros do protocolo militar Cubano; fiquei atento ás figuras quando, deparo com alguém conhecido: Era o Figueiredo Alicate, vendedor de legumes secos e fuba na Sanzala do Tando Zinze, povoado próximo do quartel conhecido por Miconge.


 

Eu, era um Kaluanda, branco de 2ª, o Furriel Fox Monte destacado na companhia de Caçadores 1734 de Beja do Puto e, nas fugas à Sanzala deparava com aquele ainda jovem branco e de olhos azuis. No d´jango conversávamos horas a fio, falávamos das operações às Bitinas, ao Aníbal Afonso, Batassano, Kissoque, Caio Guembo e a sempre presente serra do Massábi; de vez em quando o kota soba Mateus, nosso guia das matas, também dava esclarecimentos detalhados. Estava longe de supor que aquele branco de olho azul, vendedor de fuba era turra e, por ali andava recolhendo informações; o tipo era um espião! Caraças,... mas, como é que ninguém desconfiou! O sacana!

Só agora, passado tanto tempo é que consigo descortinar o porquê daquela foto que encontrei de forma fortuita, uma kalashnikov no travesseiro da Charlotte. No verso da foto tinha o nome escrito Alicate. Charlotte era uma negra de sangue árabe, tinha feitiços especiais, versátil na arte de amar com doçura proletária, era uma via directa para a solidariedade internacional, só tinha amigos verdadeiros como eu e aquele comerciante, o Alicate. Assim pensava eu,... sempre, sempre inocente nas primeiras impressões. Enfim, matumbo de verdade.

  GENERAL ALICATE, VULGO PEPETELA

Num rapidamente lembrei as patrulhas de uma semana, deslizar nos terrenos húmidos, beber água dos charcos pisoteados por elefantes e os chuçus que trocávamos por fruta cristalizada, e sardinha das rações de combate. O filho da mãe era turra e estava ali á minha frente, um alto mandatário dos mwangolés.

Não resisti, falando fluentemente o castelhano aproximei-me e fiz um cumprimento rasgado: Señor Figueiredo, como está usted, se acuerda de mim, Miconge, Mayombe, Cabinda. Fez um espanto, uma pausa e,... deu-me um sinal para nos acomodarmos a uma mesa ali naquela sala ampla do Hotel Presidente.

O que falamos é segredo nosso, mesmo para guardar, afinal Angola agora está aberta às outras opiniões. Após o jantar zaimos dali, contornamos o quarteirão e passeamos ao longo do Malécon, numa pausa tomamos um mojito com hortelã; tínhamos a brisa do Caribe para refrescar a nossa empatia. Tanto ele como eu, tínhamos feito um percurso tortuoso, ele mais dentro da lógica do que eu mas, entre nós estava uma verdade, a subjectividade para fazer dos angolanos brancos, africanos de verdade.


 

Ele, agora General Alicate e eu um pé rapado armado em intelectual e ainda por cima designando-me de Soba T´chingange.

O nosso destino estava na fase da aposentadoria e olhando para trás, como os kotas dos kimbos contemplávamos as manchas dos nossos bois; naquele momento, estávamos numa manada de rabos para dentro e cornos para fora defendendo a estirpe de gente zebra, de indefinida cor.

Nós, eu e ele, eramos gente distinta da manada; estigmatizados em brancura, diga-se em verdade.

Não posso alongar-me mais por agora, voltarei mais tarde para completar a estória. Entretanto passo partes de forma aleatória do seu novo livro dedicado ao planalto, às estepes e uma M´boa donzela de olhos rasgados, da Mongólia. O que falamos no Malécom, fica em segredo por algum tempo. Nada é eterno.

Pepetela no discurso directo:


 

...Sei portanto do que falo. Não fiquei no entanto rico, vivendo do meu salário de de oficial superior. Até sabia como fazer as coisas, nem exigia imaginação, bastava copiar outros camaradas e guardar as comissões que me queriam oferecer em negócios legítimos (...)... conheci oficiais de logística que venderam rações de combate para os mercados paralelos, sobretudo no Roque Santeiro, um mesmo tendo desviado combustível em doses avultadas para o inimigo (...)... Não sou tipo de me gabar à toa”...

Mais adiante...

Nunca quis, quando era responsável, açambarcar terrenos de dez mil hectares, o mesmo que dez quilómetros quadrados, ou mais, terras de rio a rio, como muitos fizeram, para quintas de fim de semana.”


 

Figueiredo Pestana Pepetela e eu, entre outros camaradas, algures entre Dolizie do Congo e a velha picada que passa por Miconge Velho, tivemos um encontro com beijos de fogo; em lados diferentes, naquele dia de 1968 ficaram na berma da picada 14 heróis à condição póstuma; lamento essas mortes, aqueles desencontros, esta guerra que nunca deveria ter existido. Hoje mesmo, em mês de Maio fui ao campo e recolhi espigas, flores do campo enquanto relembrava esse desamor. Ambos, fomos vitimas e, nenhum de nós ficou herói; ainda bem.


 

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:24
LINK DO POST | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




RELOGIO
TEMPO
Weather Forecast | Weather Maps
Maio 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15

18
19
22
23

24
25
26
27
28
29
30



MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
Facebook
Kimbolagoa Lagoa

Criar seu atalho
ARQUIVOS

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

TAGS

todas as tags

LINKS
PESQUISE NESTE BLOG
 
CAIXA MUSICAL
ONDE ESTÁS

Sign by Danasoft - Myspace Layouts and Signs

blogs SAPO
subscrever feeds