Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
T’XIPALA DO PUTO

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

 

O Branco T’Chingange 

Hoje lembrei-me de desfragmentar o meu disco afim de dar arrumo a todas as mukandas do ego-consciente e, corri tão rápido que, as quinambas desconseguiram acompanhar a velocidade desse mundo de pensamento alambazado.     

Nesse espaço de lembranças cacimbadas em odor de tamarindo e gajája, o branco kandengue que era eu, estava lá longe, no Puto; teria os meus seis anos quando fui tirar a minha primeira fotografia. A caminho do fotografo, minha mãe reparou que tinha um escuro de tição no rosto e, ali, em pleno Fontelo de Viseu, entre árvores de porte medonho e pavões, tirou um lenço de linho, cuspiu ao de leve para emaciar a brancura e esfregou este no meu rosto como a lamber-me. Lembro-me de ter barafustado com coisa tão díspar e chorei de raiva até chegar ao fotógrafo que se situava no largo de Santa Cristina.

A fotografia tirada naquela máquina caixote, com manga preta de esconder susto, parece agora, ter andado num tornado castanho de fúria amarela pontilhada a cagadelas de mosca.

O relâmpago daquela coisa susteve-me os últimos soluços. Desconsegui saber que já era hiena antes  de saber que bicho era esse.

Depois foram os apitos roucos dum barco que se afastava dum cais de nome Sodré e, muitas casas com luzes e água, muita água balouçando o azul na linha de horizonte; uns peixes brincavam voando antes e depois duma linha festejada mas que não cheguei a ver. A linha chamava-se equador!

Por força das circunstâncias, coisa que me transcendia, atravessando o atlântico num vapor de nome Uíge  tornei-me kamunndongo.

Vim a saber depois que, aquela foto, era para anexar a uma carta de chamada que o meu pai tinha mandado de Lucala; a companhia marítima de nome Colonial teria de a apensar ao processo da família.

Luanda estava ali mesmo, ai-iu é!

De pé n’areia calcorreei as encostas dos musseques com o Pica mulato (agora é oficial superior do glorioso EM), o Aninhas preto mais o Batalha cafuso. Sem sabermos, construíamos todos os dias uma descolorida amizade, impregnada duma vivência que o tempo dissolveu por ideias ou ideais.

Naquela foto de menino do Puto (Besugo), eu não tinha verdadeiramente uma cor de gente; era assim como um boneco com umas calças de ganga grosseira, sarapintado de manchas a descair sobre uns sapatos tipo tamancos; vendo-a, amarelecida, podia passar por uma cor de pele das que os meus amigos tinham.

Pica, Aninhas e Batalha, duvidavam que eu fosse mesmo branco! Subia ao coqueiro com a mesma agilidade deles, matava sardões com a mesma pontaria de fisga e tinha o mesmo jeito para apanhar rabos-de-junco, celestes e januários nas lagoas do Futungo ou Belas.

Num dia de inspirada arte, com muito jeito, pintei de branco a minha t’xipala.

Após uma investida de valentia no quintal do Malhoas ás maças da índia, gajájas e goiabas, mostrei a dita foto à turma dos “salta muros”; a minha turma!

Seguiram-se risadas desconformadas.

Foi um chinfrim que trespassou o silêncio muito para além do Almeida das Vacas, o rio seco, as bananeiras. Aquele riso não era verdadeiramente de alegria; era, isso sim, um misto de valentia lambuzada a medo.

Pica, pulou de macaquice chamando-me de T’Chingange da Manhanga.

T’chingange?!

Mais tarde, fiquei a saber que aquela figura, T’Chingange, era gente de verdade; pintados com argila branca ou cal,, no terreiro do kimbo, pulavam como que possuídos, lançando agoiros e maus olhados de quem não nutriam simpatia ou eram devedores ao Soba.

Os T´Chinganges quando não pintavam o rosto, tapavam-no com uma grande máscara de madeira e, às vezes, surgiam empoleirados em antas, que lhe davam um porte de mistério superior; vindos do mato, chocalhavam guizos atados às quinambas.

T’Chingange era por assim dizer simultãneamente advogado e polícia, pois vergastava com rabo de boi os desviados das condutas ditas correctas. Castigava as esposas infiéis, provocava as chuvas ou desviava outras influências por feitiçaria não reconhecida, levando o terror aos libertinos

A partir daquele dia os meus amigos passaram a respeitar-me d´uma forma medrosa, tudo porque as tradições diziam cobras e lagartos dos T’Chinganges e eu, naquela foto, parecia ser isso mesmo!

Naquele tempo perfumávamo-nos de ignorância atrás do carro da tifa  chamando de monangamba aos trabalhadores da recolha do lixo.

Hoje, longe no tempo recordo o besugo alegre que fui em terras do além-mar após cara lambida a cuspo por minha mãe; como se fosse uma cria de cheetah ou hiena.

 

Glossário:

 T’Chingange - um misto de feiticeiro, justiceiro, advogado do diabo (de quem se tem medo); quinambas - pernas; mokanda - carta; Puto - Portugal; kandengue - moço, rapaz; kamundongo- natural de Luanda, rato; rabo-de-junco - pássaro; t’xipala - fotografia (de rosto); Carro da tifa - desinfestação de ruas ou quintais para matar o mosquito e outras pragas; besugo - labrego ou simplório (gíria de Angola); monangamba - trabalhadores sem classificação especial (perjurativo); kimbo – sanzala (planalto central de Angola),  povoado

O Soba T´Chingange       



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:23
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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