Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
BRASIL E O CANGAÇO II

BRASIL - A  saga do cangaço ..... Continuação

 

1ª PARTE – ABRIL DE 2007                                         

                                                                                                             

2 – PEDRAS DO CAJUAIRÃO – O MEIO AMBIENTE EM 2007

 

Parado no “ferro-bike”, resolvi olhar o envolvente na estrada estadual de Alagoas AL-215, que vai entroncar com a BR-101, que nos leva a Marechal Deodoro, Atalaia e S. Miguel dos Campos. As vias de comunicação têm aqui, um factor de assentamento das pessoas e, esta, não foge às regras do mundo, em coisas de desenvolvimento não planificado.

 O modo de vida, beira de estrada, num provisório desenrasca é uma visão padrão por todo o Brasil; as estradas sob jurisdição da Federação de Estados são invadidas do dia para a noite com construções de paus entrelaçados, barro chapado e cobertura com folhas de coqueiro assentes em paus de piaçaba. Também se vê casotas rodeadas a plástico, assentes em uma dúzia de paus retorcidos que surgem sem que qualquer vigilância tenha tempo de impedir; é a vida espontânea dum clima tropical, em que a temperatura ronda entre os vinte e cinco a trinta graus e, durante todo o ano.

A caminho de Marechal Deodoro a uns escassos cinco quilómetros, terra de sanfoneiros repentistas com três bandas de charanga, tive de parar num borracheiro; sentado, enquanto aguardava o remendar do furo, em banco surrado de cor verde, vi no fundo da barreira o cachorro pelo de arame; raspando com a pata traseira o lombo frontal, de gozo sofrido, coçava a sarna empestada de carrapatos e, enquanto isso, a língua ia e vinha em sintonia com o vai vem da pata.

Na beira da estrada dispunham-se as casas feitas em taipa, bem na base do aterro, conservando a inclinação esparramada das fraldas.

Um pelo eriçado de cor de terra passa por entre as taipas da casa e o muro suporte do ferro-baike; pareceu-me mais um cão de pelo maltratado mas, reparo então, numa pequena mão que faz abanar o pilar de canto da barraca. Era uma criança desnudada, crescendo do chão poeirento, na mesma argila aonde o cão espanejava as pulgas e carrapatos.   

No desalinhamento das barracas, podiam ver-se as empenas com paus cruzados formando linhas horizontais e verticais chapadas de argila em chapisco irregular. Os telhados eram uma mistura de materiais, uns em telha de canudo vermelho, outros em chapas de zinco já oxidadas e ainda havia outras coberturas em abanicos de folha de coqueiro ou palmeira gentia da mata atlântica. Os caibros retorcidos davam suporte à cobertura que também tinha caibros, ou a veia principal da folha de palmeira gentia com aspecto de bordão. Lá dentro, num espaço único vivia uma família, fogão e frigorifico alimentado com luz levada por fios amarrados sem rigor, a caibros, duma qualquer forma, soltos e amarrados a nó cego, ou enroladas sem obedecer a qualquer regra de segurança; era um caos de provisório e extremado perigo.

Neste emaranhado de casas pobres com cercas aramadas a definir quintais, sobressaíam grossos troncos que suportavam grandes copas de mangueira que davam sombra ao conjunto das taipas derreando-se de frutos. Crianças brincavam, enquanto a mãe circulava entre quintal e casa pondo água no feijão e estendendo roupa nos fundos.

Podia ver dali, por entre as empenas, mais além, um esguio cavalo agachado, comendo verduras que brotavam a eito pelo chão do pantanal; uns urubus, ainda mais longe, voavam em circulo completando um quadro chapado duma tela agreste.

Um perfume forte e feminino fez desviar o meu olhar para uma moça dezanovinha que saía toda aperaltada deste taipado conjunto; morena quanto baste, gingava os atributos subindo com graciosidade o talude que conduzia à paragem do ónibus.

A música escaldava as ancas em alto som. Ora “rap”, ora samba ou forró de frevo, passava pela ombreira do portão de ferro despintado; o som e, a sinhâ Josefa. Até mim, chegavam diluídos cheiros promíscuos, o cântico do sabiá, bem-te-vi e um galo doido do quintal vizinho.

Havia uma ventoinha que ronronava descompassada da música e, com grande frequência a porta da geladeira chiava no decurso do uso. Podia ver-se uma rede napenumbra interior encardida de escuro entaipado.

Gente de beira de estrada, esfrega-se na vida como pode numa confrangedora provisoriedade em terras do erário público, mal vigiadas a propósito, ou por endémico desleixo público.

É esta precariedade permanente que proporciona as vigorosas altitudes nas grandes urbes do sul brasileiro; as favelas que cercam os arranha-céus de coberturas opulentas de São Paulo ou Rio de Janeiro provocam medo aos condóminos.

A rebelião, incêndios de ónibus, assaltos, roubos de esticão, raptos e tantas outras tropelias fazem do crime uma guerra cruel, sem rosto; é aqui que convém comparar a violência entre o mundo do cangaço dos fins do século XIX e meados do século XX, para se concluir que os métodos mudaram, mas a contestação é a mesma. Pobreza!

Deitar fogo a um ónibus cheio de gente com uma garrafa de querosene ardente, não é um acto de coragem nem pode ser enaltecido; é um bando de rufias sem eira nem beira inebriados por droga que vingam a sua própria existência. Ou é um desespero ou, doença a ser extirpada mesmo que, para isso, seja forçoso eliminar sumariamente os culpados, sem aquelas tricas morosas e benevolências de que os legisladores ou políticos habitualmente usam e abusam.

Nos tempos do cangaço matava-se friamente mas, havia sempre uma vingança a cobrar, um claro objectivo do acto; não, a selvajaria infra-humana com um impacto de barbaridade cruel, de desprezo pela pessoa humana em que a maldade domina, neste inicio de século XXI.

O Soba T´chingange

 


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PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:54
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