Sábado, 26 de Setembro de 2009
CAFÉ AMBOIM

 FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

        Roça Boa Lembrança

 Gabela GABELA DOS ANTIGAMENTE

 

Cafufutila era alcunha do capataz! Os negros referiam-se a ele com esse nome porque, de dentes ralos lançava ao falar muitos gafanhotos; quando chispava braveza era uma saraivada de impropérios e chuva de espuma enraivada.

No dizer dele, aquela terra tinha peçonha, feitiço de preto quimbanda mandrião!

O descontentamento de José dos Reis era quase permanente naquela figura atarracada de moiro Algarvio; a todo o momento afirmava gostar daquela gente como ele dizia, daqueles cabrões cheios de Cazumbi.

A frouxidão dos negros dava-lhe amiúde fernicoques de autoridade e barafustava carinho esbracejando a todo o momento.

Cheguei àquela roça grande no ano da graça de 1956; Chamava-me Faustino e, logo ao terceiro dia já me tinham rebatizado com o nome de Camundongo; só porque tinha vindo de Luanda, minha terra adoptada ou, então porque me assemelhavam a um rato.   

A minha lua de mel naquela Boa Entrada decorria com normalidade

Naquela roça grande da Gabela conjuguei o verbo amar.

No despertino viscoso, e húmido lusco-fusco viam-se vultos fora das libatas; com tocos de pau mole esfregavam enérgicamente dentes brancos sobressaídos dum negrume geral; higiénicamente cuspiam golfadas prás bissapas; surgiam em seguida com xícaras fumegantes não sei se de chá se, de leite. Matabichavam!

A casa grande do capataz dispunha-se a um só piso; na frontaria uma comprida e ampla varanda abria-se assim a norte; dali sentado na cadeira de Kibaba podia-se admirar a azáfama do vai vem do gentio Umbundo. 

 

Era só abrir o sol, a neblina descolava das frondosas árvores.

Daquela varanda podia ver homens de peito nu, rolando para cá e para lá os grãos ainda verdes; revirando-os constantemente!

Roça rodeada de verde era preta de labuta, o mulherio descalço passava gritando entre elas e as crianças que giravam ao seu redor; algumas de pequenas, iam escachadas nas costas, seguras por garridos panos, nas cabeças, grandes cestos de mateba cheios de bagas verdes que despejavam nos espaços ainda vazios do terreiro.

No ar a azáfama emanava catinga!

Entre os contratados Caluviáviri era o mais rezingão; vindo do planalto central à força dos cipaios e a mando do administrador, revelava-se um revolucionário militante; falava-se de uma revolta ocorrida no ano de 1917 creio que por um imposto de cubata mal aceite.   Cafufutila tinha algum receio da sua braveza mas nunca houve motivos de facto, só o mantinha debaixo de olho.

Ainda hoje sou envolvido por aquelas montanhas, do vale que se abre em forma de leque e, lá longe o horizonte que  confunde mar com céu e, o apito de comboio nas terras de Benguela Velha (Porto Amboim) e Sumbe.   

 

O ano de 1956 está agora demasiado longínquo, mas só no espaço temporal; as imagens das roças Amizade, Africana, Maria Emília embotam o pensamento de brancura como a flor dos cafezais. O velho “Dodge” que nos levou às nuvens de penhascos verdejantes além do rio N´hiwa ouvia-se lá fora; o toque da buzina chamou-me à realidade. Estava na Lagoa do Puto tomando daquele café cheiroso, voando entre colunas, caserio e pingos de chuva. Comprei um pacote avulso.

Encostado ao balcão, percorro o olhar pelos quadros que mostram alguma história na labuta do café desde a plantação, recolha, secagem, descasque e ensacagem. Pergunto ao dono daquelas memórias se tinha algum aparentado com o tal capataz da roça Boa lembrança.

- Que eu saiba não, embora me chame Reis e continuou, conservo este espólio de latas, moinhos e gravuras como um tesouro de velharias que me são muito gratas. O meu pai deu início a este negócio em 1940, é só o que eu sei.

 

- Para mim também são gratas! Digo eu, duvidando que a conversa ficasse por aqui.

Este meu interesse deflagrou não um tiro mas, uma explosão de entusiasmo, de tal forma que se esqueceu dos demais clientes, contornou o balcão e sentou-se ali em frente de cartucho rodando na mão explicando:

- Ainda bem que você ( referia-se a mim ) se interessa por isto. Os mais velhos são ainda os que sabem o que é bom; são os que dão preferência a este espaço. A esta mistica.

O cheiro  daquele  cartucho, mistura de café da Gabela com São Tomé, registou com agrado o aroma da memória. Vozumunei alegrias passadas que agora só esquindivo. È de todo o modo uma Boa Lembrança.

Dei volta à roda do moinho; embrulhei a vontade num saco de sarapilheira aonde ainda perdura aquele cheiro.

E foi assim ao sabor de uma chávena de café de São Tomé que tudo aconteceu!

 

O antes Faustino e agora,

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:28
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