Sábado, 19 de Novembro de 2011
LIMITAÇÕES DA VIDA . IX

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

LIMPOPO

 Limpopo . Ponte

De volta a Joanesburgo, pela segunda vez leio o livro ”As vidas de Chico Xavier” de Manuel Souto Maior e, estando agora na terra distante de Macia de Gaza em Moçambique, resolvi ir ao Xai-Xai gozar do Índico e comprar peixe graúdo o que, veio a acontecer com a compra de uma garoupa e um xareu após busca, perguntando aqui e mais além. Mas, aconteceu que em cima de uma lomba na ponte do rio Limpopo, um distraído bateu no meu carro com um estrondo anormal; neste pequeno contratempo de ligeiro machuco recorri à serenidade de Chico, saí do carro, verifiquei os estragos e a uma pergunta minha o infractor falou: Desculpa patrão, aconteceu-me uma infelicidade (morte de um parente) e distraí-me no acontecido! Na mira de não ficar com o prejuízo todo ajuizei pedir 1000 meticais ao infortunado e a um pedido de rebaixa afirmei-lhe que isto era um monto por baixo mas, num avanço e recuo do preço acabou por me dar aquilo que ele disse só ter, seiscentos meticais.

 Xai-Xai

Aquela irrisória indemnização ficou traduzida em combustível no extremo da ponte e ao lado da casa da portagem; Que podia eu fazer para aligeirar o assunto sem maior intempérie? As coisas resolveram-se à maneira de Chico. Em paz, um graveto grave virou pó dissolvendo gravidades. Cada vez mais no tempo e à semelhança dele, aprendi a viver com o necessário na importante graça de aceitar os percalços sem perder as estribeiras, doando bom senso prático na ocasião. De que vale o perfume preso em um frasco se não o usarmos naquele tempo e espaço próprio, doando as dormências do mal. Numa vasta planície aonde o Limpopo transborda seu leito quando abunda a chuva, a natureza trata de si: morre um capim, nasce outro. Silenciando alguns instantes, abasteci de calma o estouro da ira neste pequeno contratempo; nesta pequena coisa, Chico Xavier, possivelmente neutralizou-me os actos com seu perfume.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:25
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
FRATERNIDADES . IV

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

NA ROTA DAS MASSALAS

 MASSALA . MABOQUE

A partir dos sessenta anos, as pequenas coisas da vida gratificam a continuidade; é o cheiro matinal do café que fumega, o sol que nasce com quentura por detrás de um trilião de acácias, a luz fumegando o branco frio do capim, rolas que gemem, capotas que riscam chão de onde se desprende calor ondulado. É a África dos grandes espaços, mulheres curvadas plantando milho nas machambas contornadas com verdes arbustos de massalas. Como um patrão do Limpopo, sandálias no pé, calções e chapéu de sarja, seguindo o rumo do vento da monção cheguei com o tempo fugindo para a noite à cidade de Macia. Após ter percorrido uns duzentos quilómetros a passo de caracol, seguindo carrinhas de caixa aberta com suas cargas de colchões, cadeiras de plástico, penicos e plásticos surrados encimados por bicicletas; tudo querendo saltar pela força do vento com areia quente das terras sem chuva.

Bilene

Nas cidades, ao longo da via principal e demais artérias, desordenadamente vende-se de tudo, coisas de comer do lado esquerdo e apetrechos de casas ou indústrias artesanais do lado direito, tudo se encontra exposto ao tórrido sol. Peixe seco, batatas, quiabos, pimentos e demais géneros são amontoados em bacias, ex-baldes de tinta ou amachucadas latas de azeite galo com preço certo facilitando trocos; ao lado dos moveis um mukifo de esteiras, outro mostrando quadros com queimadas do mato, moldes em ferro para fazer tijolos em barro ou argila, pneus usados já com jantes e por detrás de tudo um amontoado de carcaças de velhos carros indicando haver ali um mecânico. Esta África tem estas indefinições para baralhar o turista habituado a ver uniformidade na urbanidade. Estamos na Macia, cruzamento para outros lugares rumo a Norte além Xai-Xai e Limpopo e as lindas praias do Bilene de infra-estruturas incipientes.

 Macia . E.N.1

Um prego no pão por cinquenta meticais, uma água grande cinquenta, e uma cerveja 2 M ou laurentina entre os cinquenta e sessenta meticais. Não é assim tão barato mas, a beleza da lagoa vendo ao longe as duna divisoras do Índico tormentoso com choupanas penduradas nas encostas, ressalvam o caro das serventias. E, podiam ver-se farmeiros “Bohers”, Sul-Africanos ou Rodesianos das bandas do Zambeze resistindo no tempo, fazendo turismo junto ao mar; continuam grandes, gordos, de olhos azuis vivendo seus costumes de andar descalços, como que atestando ser esta a sua terra. Também aqui estava verificando ao pormenor condições de aconchegar a velhice pisando areia burilada entre casuarinas. E, elas, as casuarinas, sopraram-me em segredo que este era um bom sítio para repousar.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:08
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011
FRATERNIDADES . II

{#emotions_dlg.xa}AS ESCOLHAS DO KIMBO

                          “Coisas boas”

Stella Pugliesi Stella Pugliesi

Às vezes precisamos que alguém nos cuide, ás vezes somos carentes demais. Todo mundo precisa de carinho, porque caminhar sozinho cansa E tem momentos em que precisamos só descansar nos braços de alguém." Este trecho dessa mensagem mostra o quanto precisamos uns dos outros, que gentileza gera gentileza... que amor só traz amor... Creia, não existe nada mais maravilhoso mais gostoso, mais prazeroso que gostar de alguém... Claro que queremos amar e ser amados, mas o que importa mesmo é saber que ninguém, tenha certeza, ninguém nos amará sem que nós nos amemos primeiro. Só existem dois momentos nas nossas vidas em que nada pode ser feito: - um foi ontem, já passou e o outro é amanhã que ainda não chegou, por isso, hoje é o dia mais importante das nossas vidas, o dia para encontrar o grande amor das nossas vidas... NÓS MESMOS !

 

 Coisas lindas . Picaço

Um rei que não acreditava na bondade de DEUS. Tinha um servo que em todas as situações lhe dizia: Meu rei, não desanime porque tudo que Deus faz é perfeito, Ele não erra! ... Um dia eles saíram para caçar e uma fera atacou o rei. O seu servo conseguiu matar o animal, mas não pôde evitar que sua majestade perdesse um dedo da mão. Furioso e sem mostrar gratidão por ter sido salvo, o nobre disse: Deus é bom?... Se Ele fosse bom eu não teria sido atacado e perdido o meu dedo. O servo apenas respondeu: Meu Rei, apesar de todas essas coisas, só posso dizer-lhe que Deus é bom; e ele sabe o porquê de todas as coisas. O que Deus faz é perfeito. Ele nunca erra! Indignado com a resposta, o rei mandou prender o seu servo. Tempos depois, saiu para uma outra caçada e foi capturado por selvagens que faziam sacrifícios humanos. Já no altar, prontos para sacrificar o nobre, os selvagens perceberam que a vítima não tinha um dos dedos e soltaram-no: ele não era perfeito para ser oferecido aos deuses.
 Gente . Malangatana
Ao voltar para o palácio, mandou soltar o seu servo e recebeu-o muito afetuosamente. Meu caro, Deus foi realmente bom comigo! Escapei de ser sacrificado pelos selvagens, justamente por não ter um dedo! Mas tenho uma dúvida: Se Deus é tão bom, por que permitiu que você, que tanto o defende, fosse preso? Meu rei, se eu tivesse ido com o senhor nessa caçada, teria sido sacrificado em seu lugar, pois não me falta dedo algum. Por isso, lembre-se: tudo o que Deus faz é perfeito. Ele nunca erra! Muitas vezes nos queixamos da vida e das coisas aparentemente ruins que nos acontecem, esquecendo-nos que nada é por acaso e que tudo tem um propósito. Toda a manhã ofereça seu dia a Deus. Peça para Deus inspirar os seus pensamentos, guiar os seus atos, apaziguar os seus sentimentos. E nada tema, pois DEUS NUNCA ERRA!!!
Gentileza de Stella Pugliesi (Brasil)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:48
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
CAFUFUTILA . XVI

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

”Confusão de gato”


Falando só por falar, Armando jardineiro, diz a Celeste que o vento norte é desarrumado, que mexe com as folhas enchendo o gramado e a piscina de folhas amarelas; entretanto parece dançar sobre ele uma dança inventada revirando os pés em compasso com a vassoura de dentes ralos enquanto amontoa os restos da capinagem. Celeste escapuliu-se para lá da paliça depois de pendurar roupas escorrendo a lavadura; não tem tempo suficiente para esbanjar conversa. De auscultadores gigantes nos ouvidos, Armando gingava-se sozinho no meio do gramado fazendo lembrar os baticuns de candomblé em dança de iaô de Oxóssi. Armando, anunciando vender alegria em saldo, crepúscula mazelas do dia a dia filosofando poesia de granel a Celeste que no entretanto reviengou seu percurso.

 Candomblé . Kavungo

O que estou lhe dizer

é que confusão de gato  

não é solução

para questão de rato

e que panela sozinha

não melhora o funge (upo com tapioca)

que se cozinha

e que solidão

no mar ou floresta

se estamos perdidos

não presta

 

Isso que estou lhe dizer!

 Preta Velha - Lavadeira

Armando, gosta de música brasileira e, o dia todo tem colado ao ouvido os sons da macumba da Bahía. A marrabente, não é o seu primeiríssimo ritmo; está explicado!

 

NOTA: Adaptação de mussendo ao verso de Zé Cahango, o Soba de Portimão do Puto.

Cafufutila: -farinha de mandioca simples misturada com açúcar; falando de boca cheia lançam-se falripos dessa farinha, fuba ou bombô que perturba o interlocutor; perdigotos secos; upo: - galinha em landim de Moçambique; mussendo:  -forma de conto popular (Angola)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:32
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
MOKANDA DO SOBA . VII

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

"Malbaratando o tempo"

 Benoni . Plot dos leões

Malbaratando o tempo, negligencio nobreza olhando a primavera reflectida nos albricoques, pêssegos, maças e peras que à mistura com borbotos floridos crescem indiferentes às negligências do mundo; escrito, falado e escarrado em orgias de injustiça da crise, que toca a quem tão arduamente trabalha para obter um inverno mais reconfortado, ter dinheiro para gastos e alegrias transbordando amor. Nos passos tão vigorosos desta dança do mundo, cujos instintos sempre rosnam nos dramas, viajo para não definhar rápidamente. Hoje, Benoni de Johannnesburgo, cuspindo soltas palavras dum insípido inglês, amanhã chupando caju numa terra por conhecer, macia de nome e pulsar, encaro a vida como descreve Pablo Neruda em seu poema de libertação a desejos reprimidos. Sonhando com visão de inesperados nadas ou desejo de nova força. O peixe fresquinho pescado na lagoa do Bilene de Moçambique, do funge regado com dendem na companhia duma fresca laurentina de Maputo, maneios hipnóticos dum porvir. Talvez!

 Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja,

Quem não lê,

Quem destrói o seu amor-próprio,

Quem não se deixa ajudar.

          Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,

          Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,

          Quem não muda as marcas no supermercado,

          não arrisca vestir uma cor nova,

          não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,

Quem prefere o “preto no branco”,

e os pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,

justamente as que resgatam brilho nos olhos,

sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

          Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,

          Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,

          Quem não se permite,

          Uma vez na vida, fugir dos conceitos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da

Chuva incessante,

Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,

não perguntando sobre um assunto que desconhece

e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

          Evitamos a morte em doses suaves,

          Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o

          simples acto de respirar.

 Formiga Pixixica 

 Larvas de mopane

Hoje, um dia como outro qualquer mas chamado de “todos os santos”, ou dia de lembrar finados, sinto-me como a formiga “pixica” que criada sobre folhas de cacaueiro, extermina as pragas sem fazer mal à árvore. Esta simbiose simples e sustentável pode ser a fortuna planeada do futuro; sobreviver comendo ácaros ou mopane, nefastos como se, camarões fossem.

Glossário: Pixica: formiga protectora dos cocos de cacau nos cacaueiros; mopane: larva comível da àfraica austral

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:13
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Sábado, 6 de Agosto de 2011
CAFUFUTILA . XV

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MIA COUTO - UM EXERCÍCIO DE HUMILDADE

Moçambique

O principal escritor moçambicano diz que é mais velho do que o seu próprio país. Mia Couto, ou António Emílio Leite Couto, nascido em 1947, uma das vozes mais originais da literatura de expressão portuguesa contemporânea, é também biólogo de formação. Militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) desde a sua fundação, com a qual lutou pela Independência, pratica o exercício de humildade que é fazer literatura de ficção no seu país, Moçambique. O nascimento desta sua literatura é contemporâneo ao nascimento de Moçambique. Senhor de muitas profissões, nunca quis ter nenhuma como verdadeira; uma estratégia de não ser coisa nenhuma porque, pois que sendo biólogo, escritor, jornalista ou outra qualquer coisa, fecha janelas para o mundo real, uma relação que depois se encaminha sempre por aí... Resumindo,... não quer ficar prisioneiro de si mesmo.

Mia Couto

Mia Couto tinha idéia de que poderia ser psiquiatra mas, depois, apercebeu-se de que a imagem que tinha de psiquiatria era muito romantizada. A realidade que chegou a ver mais tarde, era um mundo horrível, um mundo de prisão, que o levou ao desencanto. O ser mais velho que seu país, proporcionou-lhe naturalmente uma singular estória, pois que assistiu ao parto da sua nação fazendo poesia panfletária; usou para o efeito uma dicção original trespassando a própria fronteira da modernidade e, de uma maneira empolgante, deu realeza à suas ilusões. Em 1983, pública seu primeiro livro de poesia em que fala de amor; um lirismo medroso de quem se quer libertar das limitações políticas de então. Diz ele que não se sentou para pensar o assunto, foi acontecendo sem reflexão nem fruto, divertindo-se e aprendendo que cada um e, cada coisa, tem o seu próprio lugar.

 Malangatana . Mulheres

As particularidades de Moçambique ajudaram-no em muito a tomar consciência de que ser escritor é uma coisa pequena, mas que faz muito bem ao ego. Os escritores pensam sempre que são muito importantes, que o mundo depende do que eles estão fazendo mas em Moçambique aprende-se que isso não é assim tão importante porque o universo dos que lêem é demasiado pequeno. O livro circula em áreas tão pequeninas que se torna uma espécie de aprendizado da humildade, que faz bem! Tu, na área de comunicação, se queres contactar com outros, não podes depender do livro, diz ele e acrescenta: Eu comecei a envolver-me com grupos de teatro, a trabalhar na rádio, na televisão e isso foi muito importante porque o escritor aprende a não ser escritor, deixar de o ser, usando dessa humildade, tão caracteristica do povo moçambicano.

Blogue de consulta: - Marilene Barbosa de Lima Felinto - É escritora, autora de "O Lago Encantado de Grongonzo"; colunista da "Folha de S. Paulo" - Brasil

(Segue...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:44
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Sábado, 30 de Julho de 2011
CAFUFUTILA . XIV

AS ESCOLHAS DO KIMBO

"Plastificar Maputo?" - POR MIA COUTO

Num país em que as pessoas morrem por doenças de fácil cura, a morte de uma palmeira é completamente irrelevante. Mesmo que, em vez de morte, tenha havido assassinato. E mesmo que, em vez de uma palmeira, tenham sido assassinadas dezenas de palmeiras. Maputo fez-se bonita para a Cimeira da União Africana. Palmeiras foram adquiridas (e não foram nada baratas) para embelezar a mais nobre das avenidas da cidade. O cidadão comum sabia que esse dinheiro saía do seu bolso. Mas estava até feliz por colaborar no renovar do rosto da cidade. Da sua cidade. As palmeiras reais vieram e fizeram um vistaço. Os Maputenses passeavam-se, com acrescida vaidade, pela larga avenida. Mas as palmeiras têm um enorme inconveniente: são seres vivos. E pedem rega. Apenas depois de terem sido plantadas é que se iniciaram obras estranhíssimas de abre-e-fecha buraco, põe-e-tira tubagem. As palmeiras, pacientes, ainda esperaram. Mas estavam condenadas à morte. Uma a uma, começaram a secar.

 Palmeiras 

Durante meses (e até hoje) ficaram os seus cadáveres de pé como monumentos à nossa incapacidade. Não houve sequer pudor de lhes dar destino. Elas sobraram ali, como provas de um criminoso desleixo. O cidadão que, antes fora iluminado por súbita vaidade, agora se interrogava: ali mesmo nas barbas da Presidência da República ? A morte destas palmeiras interessa, sobretudo, como sintoma de um relaxamento que atingiu Moçambique. A folhagem seca dessas palmeiras é uma espécie de bandeira hasteada desse abandalhamento. Não se trata, afinal, de uma simples morte de umas tantas árvores. Não tarda a que Maputo receba um outro evento internacional. Compraremos outros adereços para a cidade. Uns para embelezar de raiz, outros para maquilhar as olheiras de Maputo.

 Maputo

Dessa vez, porém, compremos palmeiras de plástico. Ou plastifiquemos estas, já falecidas, depois de lhe passarmos uma demão de tinta verde. Ou, se calhar, nem disso precisaremos: à velocidade com que espaços que deviam ser verdes estão sendo ocupados por placards e anúncios publicitários não necessitaremos de mais nada. Aliás, qualquer dia, Maputo nem precisa de vista para o mar. Esta cidade que sempre foi uma varanda virada para o Indico está prescindindo dessa beleza. Locais cuja beleza advinha da paisagem estão sendo sistematicamente sendo ocupados por publicidade de tabaco, bebidas alcoólicas e bugigangas diversas. Um dia destes, nem necessitaremos de ter mais cidade. Trocamos a urbe por propaganda de mercadorias. Depois, queixamo-nos da globalização.

Savana Maputo - 20.02.04 - Mia Couto

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O Soba T´Chingange

 

 

 

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 04:59
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Sábado, 25 de Junho de 2011
DO BRASIL AO NAMIBE . I

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"O LADO DESCONHECIDO - D. PEDRO I - D. PEDRO IV"

 D. Pedro - Imperador do Brasil

Os livros didácticos mostram D. Pedro I do Brasil numa pose sizuda, porte imperial, pouco atraente nas estampas e, mal conservado como estátua duma qualquer praça pública, mas em realidade, há uma outra face dele bem menos conhecida no Brasil e pouco explorada nos círculos da Lusofonia. "O Libertador Luso" do Brasil e de Portugal por via de acabar com a monarquia absolutista, merece à distância temporal, ser relembrado sem aquela picardia mordaz tão própria de uma rebeldia emancipalista. D. Pedro de Alcãntara e ectcetares do Áquem e Álem Tejo, Álem Mar, foi na Europa, até 1834, ano em que faleceu com a idade de 35 anos, o simbolo da moderna liberdade. D. Pedro que em Portugal se tornou o 28º Rei por sete dias no ano de 1826 com o nome de D. Pedro IV, abdicou no Brasil em nome de seu filho D. Pedro II e em Portugal a favor de sua filha D. Maria I. Foi considerado na monarquia de então, o percursor das ideias liberais; o mesmo que deu o grito às margens do riacho Ipiranga, tornou-se um consultor das cortes dominantes, que vieram de certa forma a tornar as leis no mundo, mais justas.

 Simon Bolivar

No Brasil, novas pesquisas biográficas revelam-o como um fascinante homem e político culto que conseguiu transformar a América Lusa em uma única nação, destino bem diferenta da América espanhola que se fragmentou em várias repúblicas. Em termos de vastidão de território a repercução deste libertador Luso, pode equipaear-se a Simón Bolivar por ser um diplomata à altura de gerir turbulências de revoluções permanentes sem fragmantação; teremos em abono de verdade, de considerar estes dois libertadores na mesma tribuna honorífica de George Washington. Passados já longos anos daqueles periclitantes periodos da história, os brasileiros deveriam mostrar-se mais maduros no entendimento dos factos, abandonando aquela torpe insubordinação de maldizer com escárnio dos seus ascendentes; vêr com orgulho os episódios sem incutir neles a devassa ideia de que tudo foi fruto duma indisposição após se ter comido sururu impregnado de tóxinas à beira dum rio com o nome de Ipiranga.

 George Washington

Não posso sentir alguma repulsa quando a maldade da picardia, menospreza monarcas que foram os progenitores da pátria segundo os conceitos hodiernos, ridicularizando-os como estadistas, monarcas ou simples homens. Como venho relembrando, nos dias de hoje, deveria coexistir uma ambiência cordial entre os países de Língua potuguesa, dissolvendo arrogâncias. Estou a avivar a memória dos Angolanos, Brasileiros, Moçambicanos e Tugas entre os demais, que de igual para igual, têem de dialogar sem a prepotência "patriota" fantasiando a história num corriqueiro piquenique, fanatizando inverdades, deformando consciências ou avivando torpes preconceitos com um riso de pedófilo sarnoso. Não se pode apear a história como se fosse um conjunto de gente feita pedra ou um pedaço de pedra feita gente.

(Continua...)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:59
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Sábado, 11 de Junho de 2011
PAPALAGUI . XVI

{#emotions_dlg.meeting}AS ESCOLHAS DO KIMBO

       “A visão do Papalagui” - Visão de Tuiavvi *

 ESCULTURAS DE AREIA

Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. Em vez de ter dó dessas grandes cabeças, o Papalagui respeita-as sobremaneira. As aldeias elegem-nas para seus chefes. Se houver, numa aldeia, uma grande cabeça, logo ela se sentirá no dever de comunicar os seus pensamentos a todos os presentes, que os admirarão e com eles se deleitarão. Quando uma grande cabeça morre, todo o país fica de luto e lamenta sua perda. Talham então na rocha uma imagem da grande cabeça e expõem-na à vista de todos, no largo do mercado. Para que a gente do povo possa admirar bem essas cabeças de pedra e isso as leve a reflectirhumildemente na pequenez da sua, talham-nas em tamanho muito maiordo que o que na realidade tinham. Quando se pergunta a um Papalaghui: «Porque é que pensas assim tanto?», ele responde: «Para não ficar estúpido!».

 MALANGATANA . HOMENAGEM

o Papalagui atribui a sí próprio o qualificativo de "investigar", Este investigar quer dizer: ter uma coisa tão perto da vista que se pode tocar-lhe e meter lá o nariz, a mania de penetrar e esquadrinhar tudo com uma paixão desprezivel e de mau gosto.Ele agarra uma escolopendra, uma espécie de centopeia, trespaaaa-a com uma pequena azagaia e arranca-lhe uma pata: « O que é que parece esta pata, assim separada do corpo? como etava ela agarrada ao corpo?» E parte a perna, para ver a sua espessura, os ossos e nervos, p'ara ele, é importante , é fundamental .Tira da pata uma parcela do tamanho de um grão de aereia e coloca-a debaixo de um grande tubo possuidor de uma força misteriosa, que permite aos olhos verem com mais nitidez. Com a ajuda desse grande e potente olho, esquadrinha tudo - uma lágrima, um pedaço de pele, um cabelo - tudo, absolutamente tudo .Vai dividindo todas as coisas que vê, até chegar a um ponto em que já não pode parti-las nem subdividi-las mais.

PAPALAGUI: - Homem branco; *Tuiavvi: - Chefe de tribo das Ilhas Samôa que visitou a Europa no primeiro quarto do século XX e descreveu o que viu desta forma. As adulterações estão referênciadas.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 03:09
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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011
MOAMBA . III

{#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

       "OS MUXOXOS DA CULPA

 

O sentimento mais difícil de combater é o da culpa, mesmo quando esta é baseada em em factos falsos; o que sobra no fim é uma enorme sensação de ter sido impotente e mesmo incompetente para lidar com o ocorrido. Muita gente esqueceu e, a maioria dos retornados de África tentou ultrapassar esse desaire a que se chamou descolonização exemplar; neste episódio triste da história recente, mais de um milhão de portuguêses do álem-mar foram manobrados e explorados sem nunca se lhes proporcionar qualquer hipótese de serem indeminizados de tudo o que lhes foi tirado. As informações ao longo do tempo demonstraram que a maioria, nada tinha feito de errado lá aonde quer que estivesse. Os retornados, tendo perdido tudo continuaram vulneráveis na sua vida quotidiana em sua terra madrasta. Sem lideres e com os orgãos de ataque governamentais do PREC a serem bem acolhidos pela população de Portugal, esta gente tratada de "vira-latas" foram paulatinamente sendo acantonados nos becos do desespero tuga ou diáspora. Havia e há um preconceito muito forte da população contra essa gente que humildemente vivia sem se aperceber dos meandros podres da geoestratégia comandada por diabólicos politicos . O boicote contra estes cidadãos "estereotipados" fizeram-se sentir, sendo-lhes muito difícil sair dos becos pela via de métodos de seleção restritiva. Os "esploradores de negros" por mais explicações dadas resignaram-se a assumir culpas pagando um alto preço revolucionário ao qual estavam alheios.

 

 Malangatana . Homenagem

 

Um amigo próximo, refere-se amiúde a esse lado negativo de gente dita exploradora vindo ao de cima o tão propalada pelos meios de informação; esquecendo-se a propósito das nuances diferenciadas na qual me incluo, bate demasiadas vezes na mesms tecla de minha mente. Resignadamente abano os ombros fazendo-me desentendido dos argumentos que regeito por serem inverdades grosseiras, claro! Para mim, foi o começo do recomeço repetido em mergulhos de solidão, uma fuga para dentro da alma, aonde averdade se esconde dos argumentos. O "escândalo da descolonização" tornou-se uma fita de cinema sem diálogo, cansativa de ser endurecida sem que se exija dinâmica; um veneno do qual provo todos os dias sem esperança de ser ressarçido da verdade, um processo crime na qual as vitimas são defenitivamente bandidos. Todos os santos dias busco uma reparação moral mas, sinceramente não me revejo na mentira mas, também não me é permitido iniciar o processo de reconstrução da minha imagem. Como eu, muitos mais se assemelham. Não tivemos defesa nem nunca seremos absolvidos; teremos de continuar a "muxoxar", abanar os ombros, e conviver resignadamente com a condenação geral. 

 

O Soba T´Chingange




PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:47
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
XICULULU . X

AS ESCOLHAS DO EMBAIXADOR DO KAKUAKU – “Boniboni”

       “O PRIMEIRO BRANCO” de MIA COUTO – 3ª Parte

 

 Mia Couto


“XICULULO: -Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo”

Mantive-me português de nacionalidade mas, sou moçambicano de alma e coração. E, não tenho e não quero ter quaisquer certezas neste assunto! Quando estou em Portugal, sinto saudades de Moçambique, quando estou em Moçambique, sinto saudades de Portugal. E sinto-me bem quando estou com angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, timorenses, macaenses e portugueses da Europa. Se isto é mau? Não me parece. Se isto poderia acontecer se o rumo da História tivesse sido outro, também não me parece. Em minha casa, o inglês era a segunda língua (às vezes, alguns da família também se entendiam em ronga). É um paradoxo, uma vez que o meu bisavô participou, activa e definitivamente, na definição das fronteiras do Moçambique que conhecemos, em disputa com os "amigos" ingleses após a designada crise do mapa cor-de-rosa.  

 Moçambique 

Às vezes sinto que alguns de nós prefeririam ter sido colonizados por outros povos. Este é o problema. Não me parece que tenham presente que, de uma forma ou de outra, todos os povos foram invadidos por outros e, ao contrário do que se diz, quando isso aconteceu, não existiu substituição de uns por outros. A grande maioria dos que lá estavam ficou e misturaram-se com os que chegaram. Isto também se passou com os ingleses e basta ir hoje ao reino Unido (a designação não poderia ser mais acertada) para verificar o que se está a passar.   Portugal, dada a sua localização geográfica, está à frente da criação do homem do futuro (alguém chamou o "homem de bronze") há muito mais tempo que os outros.


O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:37
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
XICULULU . VII

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

“AUNGUS (pirão)”

ANGU,FUNGE,PIRÃO

“XICULULO: -Olhar de esguelha, mau olhado, olho gordo”

No início do século XIX as quitandeiras reuniam à sua volta o tabuleiro do ANGU; era comida barata para acudir aos negros libertos da escravidão de poucas posses. Esta prática passou a ter lugar em casas de telha, chapa ou capim a que se chamava a “Casa do Angu” que no Brasil se passou a designar de ZUNGU. Nestas casas organizavam-se batuques ou rebitas para alegrar gente carecida vindas do kimbo, sanzala ou quilombo ainda não acostumados à vida de liberdade. Como animais da selva, depois de estarem em cativeiro tinham alguma dificuldade em se readaptar a uma vida independente. Na regência do Brasil por D. João VI havia posturas a proibir essas casas havendo além de multas, oito dias de prisão efectiva para os donos de tais casas; em caso de reincidência, a prisão passava para os trinta dias.  Isto tinha por fim controlar as revoltas dos escravos alforriados ou fujões que um pouco por todo o lado no Brasil se fazia sentir. Embora ouvesse comportamentos análogos tanto no Brasil como em Angola ou Moçambique, era no Brasil que esta prática mais se fazia notar pois que, o movimento dos abolicionistas era ali mais reinvindicativo, militante e lutador.

QUITANDEIRA

O batuque, barulho, falatório e rixas de negros perturbava políticos da nobreza e gente da corte que fazia valer a sua posição de status passeando honrarias de peito feito, inchado de medalhas honorificas num qualquer calçadão, largo, praça e demais lugares públicos de exposição social.

A referida imoralidade das gentes marginais dos ZUNGUS tomando em conta os muitos relatos de cariz oficial e, naquelas casas, era comparado aos cortiços de vagabundos e criadagem aonde, mesmo assim sentiam melhoria de vida, namorando a folga de exclusão entre homens e mulheres desavindas de fortuna e farturas de amor. Ali podiam encontrar abrigo temporário, hospedagem, aconchego solidário, diversão, festa e consolo de suspiros enroscados em troca de alimentação barata, carne de charque, tripas ou peixe salgado e, até consolo religiioso p´ra colmatar aflições. A dinâmica de dominação escravista era contemporizada entre o interesse senhorial e a ideologia de novas mentes anti-esclavagista tornava-a  promíscua na vigilância tutelar, escassa,  anárquica, negligente e até  nefasta . A prática do Angu ou Zungu que deriva da língua bantu, ainda se pode observar na periferia de Salvador da Bahia, Fortaleza, Aracaju ou nos musseques de Luanda, Benguela, Bissau ou Maputo.

Preto kota fujão

Por carências afectivas, os terreiros da Umbanda foram transformando esses lugares em cultos variados tendo as Kiandas, Iemanjás, Calungas ou oxalás com pretos velhos ordenando rigores novos de cazumbis ou maracatus.


Em 1854 podia ler-se um Edital dando alvissras de 50U000 Rs para quem entregasse um “CRIOULO FUGUDO”, assim: Crioulo de nome Fortunato, fugido desde 18 de Outubro de 1854 – de 20 e tantos anos de idade, com falta de dentes na frente, com pouca ou nenhuma barba , baixo, picado das bechigas que teve há poucos anno, mal encarado,falla apressadoe com a boca cheia olhando para o chão; às vezes anda calçado intitulando-se forro, dizendo chamar-se Fortunato lopes da Silva. Sabe cozinhar e entende de plantações da roça.Quem o prender, entregar à prisão e avisar na corte ao seu snhor Eduardo Laemmert, rua da quitanda nº 77, receberá 50U000de gratificação. CARTAZ . 1854, RIO DE JANEIRO

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:03
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011
XIPALA . I

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

XI.LUNGUINE “O Maputo também tem papoilas?”

Crónica dedicada à Fidalga do Ferro-Agudo, que se ausentou para parte incerta. Vamos recordar AMÁLIA com aquele ramo de rosas, um agraciamento singelo do Soba em recentes tempos e que ficou registado na Torre do Zombo e, nos nossos corações.

PAPOILAS DO CAMPO

Passando o mercado das calamidades de Maputo, quatro quarteirões mais acima, subindo a avenida Kim-il-Sung fica a casa do Sol, hotel untuoso de pintura desmaiada burrifado de picadelas barrentas grafitadas de sujo. Ali no cruzamento entre a dita avenida e a esburacada avenida Mao-Tse-Tung sucedeu o encontro com o meu amigo, viajante de muitas façanhas amigo de longa data, fumador de bom charuto cohiba. Desta vês, acompanhei-o no vício do fumo com um bom café. Ali no “Afeganistão” estava combinado que naquela tarde iríamos falar de coisas, só por falar, sem premeditação de posturas nem temas, só mesmo para falar e... Na resposta da pergunta e vice-versa as coisas banais tornaram-se interessantes e vai daí lancei o desafio de ele pôr em escrito a estória rocambolesca do seu pai, destemido sertanejo colonial. A aguçar o desafio dei-lhe o mote da crónica; teria de magicar a envolvência dos factos, jogar com as palavras à semelhança do nosso comum amigo, o xiritung-da-xirgósia malabarista da escrita. Este meu amigo, Repsina de nome, filho dum cabo-de-guerra de linhagem castrense, recto na postura de comportamento, frontal e super verídico, dias mais tarde acabou por me entregar a crónica; praticamente um estudo duma planta que não é assim tão ruím para alguns e, desta feita, o escrito que segue é da sua autoria. Um desassossego espalmado em pó lá nas lonjuras do inframundo chingrilá não deveriam ser motivo de ternura mas, assim é a crónica:


- A papoila pertence a um género de plantas herbáceas da família das ”papaveráceas”. A sua contextura encerra uma boa quantidade de sementes que depois de amadurecidas produzem um óleo saudável e benéfico, que é transformado em rações para a alimentação de gado. Também é usada para dar cor a certos vinhos, medicamentos e para tingir lãs e malhas. As sementes são utilizadas para dar sabor a saladas de fruta, tartes, pastas, etc. Esta planta possui propriedades sedativas, anti-tússicas, sendo utilizada no fabrico de xaropes. As pétalas das flores podem ser usadas em tisanas misturadas com outras flores. A planta é ligeiramente tóxica. O seu habitat é em terrenos baldios, campos e pastos, beiras de caminhos tendo como origem a Ásia, África e Europa. A Planta herbácea, vivaz, cultivada como anual ou bianual, de porte erecto ou em forma de tufos, pode atingir uma altura de 20-60 cm. A tendência é para terem uma folhagem basal da qual as flores se erguem em hastes finas. As folhas são de cor verde-claro a verde médio, pubescentes ou mesmo cerdosas, grosseiramente dentadas ou recortadas. As flores de Papoila são solitárias, delicadas, com pétalas muito finas e brilhantes agrupadas num botão floral, podendo ser singelas ou dobradas e de várias cores desde o vermelho, rosa, laranja, branco, púrpura, amarelo, algumas com manchas negras na base das pétalas. Nos Himalaias há muitas papoilas azuis. A flor das Papoilas tem pouca duração mas rapidamente crescem outras. As sementes minúsculas estão fechadas numa bonita cápsula espalhando-as como os pimenteiros. Planta atractiva para abelhas e borboletas.

Metamorfose da Papoila

Na Grécia Antiga esta flor era dedicada a Hipnos, o Deus do Sono e a Morfeu, o Deus dos Sonhos. As estátuas de Demétrio eram decoradas com papoilas. Os Romanos dedicavam esta flor à Deusa Ceres. Segundo a lenda, Ceres vagueava pela Terra e não conseguia encontrar o que procurava. Então os outros Deuses decidiram cultivar papoilas. Certa vez a Deusa colheu as papoilas e caiu num sono profundo, quando acordou reparou que havia ainda muitas para colher. Desde então que o florescimento das papoilas está relacionado com a época das colheitas. Os Ucranianos consideram a flor como sendo o símbolo do Amor e da Beleza. Os Alemães como sendo símbolo de Fertilidade. Os Siberianos espalham papoilas nas pernas dos recém-casados, para que tenham uma família feliz e muitos filhos. Mas, na China as papoilas estão relacionadas com crenças más.


FERRAGUDO . TERRA DE NATÁLIA

A tarde ia adiantada e despedi-me desconvindo; este não foi o pedido que fiz a Repsina mas ele, creio, quis esquecer coisas menos boas nas suas recordações. Não era bem esta cena a pretendida mas, de todo o modo aqui fica a homenagem viva ao meu amigo Repsina, modesto senhor da sabedoria, pensador encantado, companheiro de muitas imaginadas viagens.

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:07
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Domingo, 15 de Agosto de 2010
LIMITAÇÕES DA VIDA . VI
 {#emotions_dlg.xa}FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

EMBORA NINGUÉM POSSA VOLTAR ATRÁS E FAZER UM NOVO COMEÇO, QUALQUER UM PODE COMEÇAR AGORA E FAZER UM NOVO FIM

 CHICO XAVIER 

Afinal, quem foi Chico Xavier? Um génio, um predestinado ou um precursor?

Ao longo das sessões espiritas em diferentes anos, surgiram Eça de Queirós com o crime do padre Amaro, Guerra Junqueiro, as "Cruziliades", um novo poema épico de Luis de Camões zarolho e ressecado de amores e Oliveira Martins, um entendido em operações financeiras no início do sécloXX.

Chico, iniciou sua actividade espírita no Centro Espírita Luiz Gonzaga em Pedro Leopoldo, depois devido a uma insistente labirintite mudou-se para Uberaba já com 17 centros Kardecistas; ali Chico pensava estar mais protegido espiritualmente.

Uberaba é uma cidade agora bem conhecida porque ferroviários, jogando algures pétanca com uma bola de pedra, um paleontólogo pediu para verificar a "pelota" com 15 centimetros de diâmetro tendo concluido em análises laboratoriais ser um ovo de Titanossauro; dali sairía um bichinho que em adulto pesaria mais do que quatro elefantes. Em realidade a terra tem os seus segredos e nós gente de sangue vermelho passamos nele em menos tempo do que proferimos um aaaiii.

Chico Xavier para qualquer problema recorria ao Envangelho segundo o Espiritismo e, sempre dizia humildemente ao povo: - Esqueçam esta ilusão de que nós podemos voar. Isso, é tudo mentira.

OS AMIGOS EM S. VICENTE NA BUSCA DE CHICO XAVIER . 24 ABRIL DE 2010

Um dia dois jovens fazendeiros do Sertão pegaram Chico Xavier de surpresa apavorados que estavam com a grande quantidade de cobras cascavéis em suas terras provocando muitas baixas nos cavalos e já sete tentativas em ataque a seu pai sendo a última quase fatal; Chico Xavier pigarreou ao revelar sua receita que resultou: - Coloquem nitrato de prata aos montinhos nos lugares aonde é hábito elas aparecerem; isto às vezes resulta, disse. Os homens fizeram o que Chico ordenou e, em presença de um benzedor e foi remédio santo, desapareceram as cobras .

Na noite de 28 de Julho de 1971, Chico Xavier no espírito de Emmanuel teve o seu maior embate com o povão; Responsável então por quase 107 livros ditados por quase 500 defuntos, submeteu-se via satélite a um estrondoso auditório televisivo na TV Tupi. Entrevistado por três jornalistas no programa "Pinga-Fogo", esteve dbaixo de fogo por três horas. Nesta entrevista insurgiu-se contra o "delito do aborto" usando a expressão " assassinio de crianças" e, referindo sempre de forma diplomática ter imenso respeito pela Igreja Católica " em cujo seio formei a minha fé" disse, e defendeu a homossexualidade e a bissexualidade como "condição da alma humana", que não deveriam ser encaradas como "fenómenos espantosos, atacáveis pelo ridículo da humanidade".

  MASSALA . MABOQUE

 

Ausentei-me momentâneamente para saudar com um d´zixili (bom dia) à negra (miama) Anita Moçambicana e, num curto espaço de tempo cruzei conversa com ela a recordar antigas lembranças de Xi-Linguine (Maputo), coisas do matope (lodo) nas terras fartas em mariscos graças ao N´kulo Kulo (Deus em Zulu) ou T´Chikwemo (Deus no dialeto marronga) e, de quando por lá passei num mês de Fevereiro expressamente para beber "canhu", a bebida típica dalí

Ali, eu não era um T´Chingange, era sim um Mulungo mulandi (branco mazombo) Muloi (feiticeiro).

Depois de recordar as picadas poeirentas do Inhassoro a caminho da Beira Ibib que estava a meu lado recordou-me do vinho duma árvore sagrada que bebi numa caneca de esmalte esmurrado e sujo de meter medo a qualquer mulungo, gweta como eu. Nesse então, seguimos viagem até à Beira carregados de massalas enormes, maiores que os de Catete em Angola, só que lá, tinham o nome de maboque. Antes de cruzar o rio Limpopo bebi vinho de cassoneira, conhecido por marufo ou malavo, também por um caneco amachucado e sujo. Mesmo com a colera à vista matei saudades sempre naquela de que o que tiver de acontecer, acontece.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:39
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
CIMEIRA DA CACHUPA

   FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

              A turma da Galera do Paraíso

 

Em terras de Vera Cruz reunidos que estavão condições para formar uma Assembleia digna da Globália deu-se alvissaras aos emissários originários de Cabo Verde, Moçambique, Angola, Portugal, Brasil e Itália.

Esta amálgama de gente designada de “Turma da Galera” após um entretanto do Soba  T´Chingange após a chamada “por badalo”, acharam por bem dar conhecimento ao Reino de Manikongo, ao seu rei D. Grafanil I, a toda a nobreza, clero e Kimbanda, deste modo.

Em quórum unissono tomaram a decisão de que este Akto ficasse registado nas gavetas de jatobá da Torre do Zombo com a chancela de D. Rosa Comendadora das terras do Paraíso e Massagueira.

Assim, a representante de Cabo Verde Leonor, tendo ofertado uma cachupa com todos e a todos, foi-lhe atribuido o galardão maior das terras de La Mancha com a postura duma medalha em seu peito: “D. Quixote com lança, montado num gerico com seu auxiliar Sancho Pança  ao lado”.

Miguel Cervantes idealizou uma guerra de vento tendo moinhos como guerreiros inimigos. Aludindo a essa guerra sem sangue, retribuimos o agradecimento a Leonor com o seguinte documento:

 

         cachupa de Cabo Verde

ALVARÁ DA CACHUPA

 

A vida sem amigos, é um céu sem andorinhas.

A turma da GALERA  DO PARAÍSO, neste dia da graça de 15 de Novembro de 2009, explorando os recantos da amizade que existe em cada um de nós, reunidos em Assembleia no lugar do Francês em Alagoas do Brasil com uma mui digna representação nas pessoas de Dona Rosa, Comendadora da Galera, Senhor Tulio, Emissário do imperador defuntado Nero, Senhor Aristides Arrais, Donatário da Lagoa Azeda e seus mangais, e os Exmos Antónios I, II e III respectivamente  Embaixadores da Calábria, da Guarda e Allgarves, com suas Exmas Esposas, vêm neste singelo Akto, agraciar a Exma Madame Dona Leonor, como a Princesa da Cachupa.

Extraindo alegrias das pequenas coisas, com Ela, queremos fazer da vida um espéctáculo permanente revelando-nos: - Ás vezes o maior inimigo que temos, somos nós próprios.

Porque estamos aqui reunidos fazendo um hino à vida, vamos recordar este agrado rindo dos nossos anceios e outros absurdos obstáculos com a humilde chancela que nos foi legada: - O Nome, Sobrenome  e, Cognome.

E, para que este acto conste em registo de memórias e emoções, com Ela, a Princesa da Cachupa, soltamos as depressivas visões omissas, compartilhando o caminho e o carinho aos vindouros. 

Encarquilhados num feitiço louco, subscrevemos esta dita cuja.----

 

 

A Agraciada:__________Leonor   Jordão  

  

Os Agraciadores:_____ Toda a Turma da Galera do Paraíso

 

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:21
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
ALHAMBRA DE GRANADA . III

   FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO

5º encontro com a  kianda Januário Pieter

Um verdadeiro N´Zambi N´kuluculu

 

 

MERCADO DO XIPAMANINE . MOÇAMBIQUE

 

 

Demos um forte abraço, convidei-o a sentar-se mas ele continuou de pé como a mostrar a sua nova indumentária e postura. 

O penteado de Januário Pieter era um frizado afro com uma trança a retorcer no cocuruto  por uma abertura do seu chapéu, uma quijinga do tipo Cumba-yá-lá tendo uma faixa zulu a contorná-la. Da  orelha esquerda pendia um dente de facochero enquanto que a contornar o pescoço havia dois colares formando um conjunto colorido de missangas e n´zimbos; um destes tinha um circulo de madeira de pau preto com um desenho curioso de uma ranhura curva ascendente que entroncava numa helicoide de três circulos num crescendo para a direita e fechando por um cemi-circulo mais alongado indo quase fechar no mesmo sítio de início.

Esta enigmática figura, ficou no meu consciente para mais tarde me ser decifrada.

Nos pés, trazia umas sandálias em tiras de cabedal e atilhos que se iam amarrar a meio da canela. Vestido, tinha umas calças de vermelho berrante às bolas brancas; nas bolas brancas de forma estilizada aparecia aquele símbulo de curvas em elipse de caracol que quase fechando no mesmo lugar, mais parecia um  bico aberto de papagaio.

Eu estava estupefeito com tal estilo. Por cima das calças folgadas tinha uma camisa liláz com desenhos na forma de cornos de palanca de cangandala sem cinto a prender, tipo balalaika e, por cima de tudo isto tinha uma espécie de túnica com folhos brancos no fnal de umas largas mangas.

Aquela túnica de uma seda especial tinha as cores preta e rubra como a bandeira de Angola e o mais curioso é que tinha em lugar da catana e a roda dentada, a esfinge de josé Eduardo dos Santos.

Háka! Eu estafa burro-feito com todo este aparato de n´kondi.

Pieter estava um verdadeiro espantalho Xis-pe-te-Ó, super moderno e práfrentex. Até as sandálias estavam feitas em um cabedal firme, reviradas para cima como uma meia lua na forma dum genuino aladino. Aquilo era demais, uma verdadeira mumia rejuvenecida de kalungas encrespadas. Um extra e vistoso camacoza carreagado de zingarelhos.

Mas, após a minha mirada, Kianda Pieter falou:

- Meu camarada, mano kamba, como estás? Tu, continuas um tipo fixe!

Seguiu-se uma pausa sem muxoxo, só por respeito com medo.

Pieter mudou mesmo! Arrepiei-me. Que era isto?  O kota estava no literalmente.

- Sabes meu, rejuvenesci à bessa, uns anos mesmo. Vou até te  contar só.

- É mesmo! Como foi isso? Perguntei engalfinhado em susto.

- È asim, começou ele : - Estive na festa da Muxima, no entretanto esquindivei Kwanza acima, Kwanza abaixo relembrando meus tempos de candengue. Até fui numa rebita mas, mais tarde eu conto só.

E Pieter confinuou falando. Tinha muitas mucandas na cabeça para contar.

- O mais importante nesta minha vida de matumbola mutalo, passou-se em Maputo. Eu explico: - Por recomendação dum kamba muxiluanda, fui num vai-vem minkisi vip ao Xipamanine, lavei-me na água de cu-lavado de defunto albino preto e cambuta, com a benzedura no N´zambi N´kulukulu, dos miamas de Xi-Lunguine. Estás aver Meu !?  O resultado é isto!

Eu, só abanava a cabeça.

E, ao dizer isto pieter, fez um gesto longo com ambas as mãos envoltas nos folhados brancos, de cima abaixo indicava  o estafermo de figura excêntrica numa simultânea adoração ao tal N´kuluculo.  

- Pópilas... Eu, estava feito um plimplau.

 

Glossaário:

Quijinga: - gorro de autoridade tradicional

Cumba-yá-lá: - ex- governanta da Guiné-Bissau

Facochero: - javali preto com dois pares de dentes salientes

N´zimbo: - concha, dinheiro antigo do reino de N´gola da ilha Mazenga

Palanca: - animal de grande porte e com esguios e longos chifres; simbolo de Angola (Quase em extinção)

Cangandala: - local reserva natural em Angola

háka: - Irra!,Caramba!, porra!

n´kondi: - poder da magia em fetiche, boneco de maldades

kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral

camacosa: - maltrapilho

kamba: - companheiro, amigo, camarada (de guerra)

muxoxo: - sílvido produzido pelos lábios de vento aspirado entre dentes, estupfacto ou sinal de desprezo, sinal de desencanto

esquindiva: - fazer revianga, finta, fazer piruetas, bazar dalí

candengue: - moço, rapaz, pivete (Brasil), puto (Portugal)

rebita: - baila na sanzala ou kimbo, dança de umbigada com as garinas

mucanda: - carta, missiva, relatório

matumbola: - morto vivo, uma assombração

mutalo: - espíritos mortos sem ordem de n´zambi (Deus)

muxiloanda/o: - natural de Luanda, camundongo, (quem bebeu água do bengo e apanhou paludismo ainda candengue)

minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado

cambuta: - homem baixo, atarracado

N´kuluculu: - N´Zambi, Deus na língua Zulu

Miama: - preto na língua Zulu

Xi-lunguine: - nome aoriginal de Maputo

Pópilas: sáfa! Caramba!, c´os diados!

Plimplau: - pássaro saltitante, irrequieto

 

(Continua ... Alhambra de Granada IV)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:48
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
MAPUTO . OUTROS TEMPOS

                  

                                                               victória falls

            XI.LÍNGUINE 

            NA ROTA DOS ELEFANTES

 

Na rota dos elefantes, de Maun cruzei o Choba como um pioneiro caçador de marfim. Corri o mato longínquo alimentando-me a carne seca de kudu e  chá rooibos até que parei de espanto nas cataratas Victória falls, um magestoso volume de água caindo em turbilhão. É o Zambeze rugindo, entalado entre o Zimbawe e Zâmbia.

Xi.línguine entra nesta estória porque eram  os comerciantes monhés que adquiriam os dentes de elefantes para serem revendidos por um alto valor em Diu, ou Goa  expandindo dali o negócio para para a restante India.

Era no bairro das Fontainhas do Maputo, antigo Xi.línguine que o meu fantasma feito caçador, numa geração passada, ia vender este marfim. Era um recanto de Goa em África com a azáfama de baneares e mouros em armazéns térreos e prédios com cimalhas, janelas estreitas e portas grossas.

Por entre pátios estreitos, telheiros de quintal acanhados, muros grossos, escadinhas e anexos cubiculos, no acto de negociar a bom preço, os aromas orientais, cheiros doces de especiarias fortes, embotavam-me a perspicácia do negócio de marfim.

Os armazéns de chifres e panos dispunham-se laterais ao pátio dos fundos, quartos detráz a dar para os jardins com mamoeiros e plantas aromáticas.  A mercadoria confundida com as tarefas da familia empilhavam-se a forrar as prateleiras  da loja até acima.

O retalho no armazém misturava-se com chifres de elefante.

Este meu fantasma de à cem anos atráz não chegou a fazer fortuna porque era uns mãos largas com as meninas da Delagoa bay. Era um verdadeiro aventureiro.

Os monhés, com talento de negociantes, tenás trato, solicitos ou submissos, regateavam até ao ultimo suspiro.

- Eu, vai comprar  mas têm vender barato sinhô.

-Muito caro sinhô, melhor é trocar por este pano bonito, chegou ontem. O sinhô ganhar bom dinheiro, levar no Puto, nós fazer negócio.

- Não quero, são ciquenta libras. Não têm mais conversa.

- Vem cá sinhô, vamos dididi, eu dar quinze libras e mais este e este retalho bonito.

O meu passado fantasma fartou-se, e lá acabou por ficar meio por meio na divisão de libras e panos da India.

- O raio do paquistanês, levou a melhor.

Naquele então a vida ainda era mais difícil.

O Soba T´chingange

                                                                



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:34
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008
CONHECER MOÇAMBIQUE . I

Antiga “Xi.lunguine”

MAPUTO

          

           Era um vasto campo  com ar de  arrabalde  com casas  dispersas feitas em taipa, grandes quintais cercados de arame e de ripas ou paus tortos que defeniam limites de vizinhos ou ruas imaginadas de muita areia.

Com a solenidade de um tiro de peça, no hastear da bandeira branca de Portugal, dezassete pessoas deram, sem o saber, ao início da futura cidade de maputo com o nome de Xi.lunguíne. Era o ano de 1788 e o governador Alferes Luis José, tinha sómente vinte anos.

Em 1799, construiu-se o armazém Real a pedra e cal, coberto a capim; ali se guardavam os saguates de panos, aguardentes, barricas de missangas, farinha de pau, feijão e milho.

Havia no meio do terreiro de areal uma grande mafumeira aonde à sua sombra funcionava a alfândega em dias de são vapor. Seguiu-se o presídio e a casa amarela, residência dos governadores.

Era na casa amarela que se recebiam embaixadores de régulos até que, a 23 de Agosto de 1885, na recepção ao governador que chegara de outras soberanias, sucedeu grande escaramuça. Os homens de Xerinda, da Zixaxa, de Maota e de Manhiça, que vinham armados ao etilo de guerra com insígnias, zingarelhos, penas, peles, zagaias e machadinhas, desataram em pancadaria de rancores vivos, originando grande mortandade.

Andava qualquer coisa de errado por aqueles matos; as tribos desavindas e um tal de N´guni  N´Gungunhane feito imperador de vários reinos Vátuas, desafiava a instituição militar da bandeira branca desde sua choça na Manjacaze, lugar de  Chaimite.

Em 1895, Mouzinho de Albuquerque trouxe o “imperador” rebelde manietado até ao terreiro daquela mafumeira e, em frente à casa branca dos governadores lavrou-se um auto de deposição com pompa, para o povo vêr seu “m´fumo” submetido. O Leão de Gaza das margens do Limpopo, ali estava prostrado de valentia parda, sem pinta  ou juba de bicho rei. A Zululândia do reino de Manicusse tinha os dias contados.

No primeiro vapor, o deposto imperador-régulo de Chaimite, seguiu para Lisboa do Puto para que as potências de então  e imprenssa internacional tivessem conhecimento do mando de Portugal naquelas paragens.

 

N´Gungunhane como prisioneiro, sofreu as agruras de vexame exposto, como um simples e descalço negro. 

Os expedicionários, esquadão de lanceiros oriundos de Chaves do Puto, a mando de Mouzinho, exibiram o "imperador" em sua sede, o torreão do castelo de Chaves. Para perpetuar tal feito, ali ficaram suas  largas roupas em museu, aonde ainda hoje, se podem admirar. 

N´Gungunhana  veio a morrer em exílio no Monte Brasil em Angra do Heroísmo na  ilha Terceira dos Açores.

Lá no Xi.lunguíne os portugueses adaptavam-se cada qual como podia, com os velhos instintos lusos; entre quartos de vigia e entretantos de palhota, trocavam-se panos garridos e missangas por milho, cabra ou marfim para forrar o lucro do regresso ao puto.

Na Ponta do Catembe, as duas margens e a ilha da Inhaca foi comprada com bugigangas dos Xi.lunguínes.

Até ser estabelecida a primeira colónia agricola em 1829 pelo Capitão-General Paulo Miguel de Brito, os Ingleses mantiveram-se sempre acossando régulos, Mefumos e Vátuas contra os portuguêses do Xi.lunguíne. Por mar os ingleses dificultavam por investidas, os povos já submetidos à bandeira branca, enquanto que por terra, os Vátuas orientados por N´Gungunhana e outros régulos à sua ordem, tornavam impossivel o cultivo das terras.

Corriam tempos difíceis para portugas e gentes do mato, até que um dia, um rei cançado da luta, quiz andar calçado com segurança.

O rei Doroza, em troca de proteção doa as terras de Magaia, recebendo em troca de saguates, Zuartes, chelas e missangas no valor de 78 panos e ainda utensílios de cozinha, um chapeu europeu, um par de sapatos e 7 canadas de cachaça (bagaço do Puto). Também se combinou o envio de 415 cartuchos para socorrer o régulo Papalana, dando-se a este, 2 almudes de aguardente, umas quantas porcelanas e instrumentos de cozinha.

Macazana, que tinha bom entendimento com um tal capitão Inglês de nome Owen, também acabou por ser assediado pela diplomacia da boa pinga do Puto; E, assim se veio a concretizar as terras de Maputo.

"Lá nos sertões de áfrica, a diplomacia de alguns, cachaça de outros e  soldados lanceiros, ergueram o orgulho de então".  A gazosa continua...

 

Obra consultada: Lourenço Marques de Alexandre Lobato

Literatura do  Soba T´chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:30
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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008
MOÇAMBIQUE NA MACHAMBA

 

                                  MACHAMBA

No país das capulanas


 

Lussinga Kalahári, sombreada de amargura arredondava entendimentos no meio do deserto que lhe deu o nome; estava habituada a lidar com milhares de pedras, as mesmas que formavam um mar de areia.

Continuava preta, tinha um corpo prematuramente envelhecido debruado de sumaúmas, os seios ainda arredondavam a blusa marcando competente presença sensual. Sombreada de amargura, inalava léguas e léguas de desolação numa aridez preocupada mas, o calor da amizade continuava imune.

Kalahári sentia-se deslocada em terras do Limpopo mas estava ali cumprindo um compromisso de promessa ao seu marido defuntado em terras do Orange River.

Pernoitamos no Inhassoro em casa do China, embalsamador de aves e escultor de sonhos.

Rodeados de carcaças de búfalos e antílopes vários, espalhados pelo quintal, podia ver-se ao longe a ilha de Bazaruto. Na penumbra matinal entre cajueiros e mangueiras misturavam-se os aromas mas, o do café sobresalientava-se; Após o mata-bicho seguimos via norte cruzando pequenas povoações reunindo pelo caminho massalas, cocos, abacaxis e verduras várias.

Surge o rio Save e naquela curta ponte tivemos de pagar a respectiva "quinhenta", portagem estabelecida por quem de direito, fazendo justiça à nobreza do rio adicionando carecidas necessidades.

Em Chiboma paramos p´ra fazer necessidades e meter conversa com amigos de tempos passados. As mulheres de capulanas garridas cercaram-nos oferecendo produtos vários, o negócio sobrepunha-se à vontade de comer, talvez sim, ou não, porque elas estavam em algazarrada diversão; no chão estavam desordeiramente expostos os produtos da Machamba.

Foi aqui que deichamos a Lussinga, um mistério de mulher procurando o fantasma de seu marido e familia só falada.

Esquecidos do tempo e da cólera, sob telhado de zinco salpicado de ferrugem ondulada, saboreamos o frango de espeto no pau e batata doce; P´ra refrescar tivemos umas cervejas M2 (mak mahom) de 10 mil míticais.

Desde o rio Save que o todo terreno quatro por quatro vem surfando a estrada; espectaculares saltos fazem cair em cima de nós, malas, corotos e abacaxis.

   Há no ar resquícios de guerras passadas, cubatas descascadas a tiros de guerrilheiros da Renamo, Portugas e da Frelimo.

De vez em quando a paciência esgotada transborda da via principal e circunda pelo pó envolvendo espinheiras e embondeiros (baobá) e arbustos de massala.

Depois do cruzamento que dá para o Chimoio e Gorongoza a situação melhora. Pela tarde adiantada chegamos ás machambas férteis da Beira.

O Xai Xai ficava 1000 km lá mais a sul; Entre lá e cá não vi outro tipo de bicho diferente de mim; confirmei no regresso de machimbombo a Maputo, após 18 horas contínuas de viagem.

Da simpatia de todos resta a saudade, o calor humano de muitas e incógnitas gentes das vastas planícies e áridas anháras tão cheias de zumbis.

O Soba T´chingange


 


 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:08
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
ANGOLA . NAMIBE - Como tudo começou

 

                                                  

                                          N´DIGIVA  -  3ª parte

                                                                                                                

O Cunene, inicialmente foi tomado como sendo o grande Zambeze; da costa Atlântica não se via a sua foz e, Diogo Cão, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama não chegaram a dar indicações precisas aos vindouros; O Cunene junto à foz, perdia-se nas areias do Namibe formando lagoas aonde o boi cavalo, hipopótamo, procriavam sem grande altercação; era vê-los como pedras, aos montes, entre a vegetação de mangue e caniços.

 Botelho de Vasconcelos, governador de Benguela descreveu em 1779, que o rio Cunene nascia no Huambo, passava por Caconda e Quilengues e que se metia em Cabo Negro lançando muitas trombas mas, foi só em 1851 através dum tal Galton, de Ondângua, na Namíbia, que se  consegue chegar ao conhecimento com descrições ao pormenor em que o grande rio, depois de desaparecer num espaço de terra arenosa,  termina naquela grande lagoa.

Por alturas de 1880, ainda andavam desbravando terras e, no mapa de então, havia suposições que originaram erros grosseiros. A pressa de afirmar “isto é nosso”, levou a que os Portugueses reivindicassem o Mapa cor de Rosa pois que, aquele suposto rio Zambeze ia desaguar ao Índico, em Moçambique, paragens já habitadas e creditadas à coroa  Portuguesa.

Os rios Cuando e Cubango, (Okavango) também foram objecto de confusão pois que, não desaguavam no mar;  iam ter a um  grande  e disperso lago, que se veio a chamar, o Delta do Okavango, só que, nesse tempo julgavam que era um permanente afluente do Zambeze.

O rio Zaire ou Congo, com a sua grande largueza na foz, em 1480, também enganou Diogo Cão que, numa primeira análise pensou ser ali o cabo da África e que aquela seria a passagem para o Oceano Índico; este engano, touxe-lhe contratempos mais tarde  na relação com o rei D. João II, no entanto, serviu para fortalecer ligações com o reino de Manikongo e posteriormente o  reino N´gola. Este falso cabo das tormentas só o foi em realidade para Diogo Cão.

As dificuldades em manter este mapa desmistificado pelos novos sertanejos, veio a resultar em cobiças que, sem fundamento, criaram dificuldades diplomáticas com desencontros entre os pontos de vista nossos e os novos países emergentes, entre os quais a Inglaterra; esta nação dita amiga, fez valer o seu princípio por força dum ultimato no ano de 1890.

 Portugal, levado por incúria impregnada de medo, no reinado de D. Carlos I, não faz respeitar o convénio Luso Alemão firmado em 1886.

As coisas da administração Portuguesa corriam tão mal que levaram o Coronel Maria Coelho a ter a seguinte afirmação: -“Desgraçadamente as nossas coisas em Angola são uma miséria, tal faz desesperar,.... parece que o luxo da nossa administração consiste em acumular loucuras sobre loucuras,... o desleixo cobre-se de incúria em palavras redundantes e, sem sentido,...”

Na posse de territórios em África, muitas mentiras passam a verdades por posturas diplomáticas. A fortaleza duns, definha em covardia a braveza Lusa de tempos idos; um exemplo notório é o de que 292 anos antes de Stanley ter descrito as cataratas do Congo, já Duarte Lopes o tinha feito e, não obstante a evidência, a conferência de Berlim em 1885 deu aquele território ao rei Belga para governar. O Zambeze conhecido, desde a Lunda até muito  para além das cataratas Victória, por Silva Porto, o seu reconhecimento foi dado, não a este, mas a Livingstone.

E, não é tudo,... na costa Namibiana Luderitz tomou posse de toda a Damaralândia num jogo de sujo e ditatorial diplomacia de Bismark, o líder alemão que fazia crer aos Portugueses não estar interessado naquelas terras, repticiamente fazia-nos a vida negra armando o chefe Mandume, o tal chefe do povo Ovambo (Kwanhama), que deu muita luta para a tomada de posse daquela fronteira sul de Angola, ligando o Cunene ao Cubango.

( Continua...4ª Parte )

O Soba T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:32
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008
Moçambique

 

 

 

 

 

                                  

                                         por terras de LIMPOPO

                                         Xipefo na Gorongosa

Roça Boa Esperança

Respirando a noite em calções de caqui, o bafo quente de África contorcia-me a mente como num remoinho de orgasmo. O encanto do mato, seus cheiros e ruídos, em África, são tão especiais que ofuscam a mente com espíritos.

As vozes rugosas entrecortadas com choros de hiena e latidos de mabecos arrepiavam ao cair da noite; sem pálpebras no olhar o escuro da Gorongosa era mais inebriante   que qualquer outro; a chuva miudinha fazia levantar um aroma extasiante, a luz difusa do xipefo tracejava ondulante cacimbo além do mato cerrado. A cagufa para lá desses matos latejava-me nas temporas amargando a boca de gosto rançoso de guerra.

 Como um porco facochero o negro turra da Renamo esburacado de balas mantinha-se em pé; largou a arma e, segurando as tripas escuras desatou a correr até perfurar o embondeiro, esfumou-se na árvore como se fosse feito de sombra. Nunca pude entender tamanha sublimação daquele negro e naquela árvore gorda de pernadas ao ar, de dedos disformes.

Aquele embondeiro era de guardar respeito e medo.

Ele, o negro, estava agora alí como um alien fosforecendo presença na luz do xipefo feito um fantasmagórico  olograma relembrando a guerra de entre o Zambeze e o Save.

As luzes do jeep viam-se ao longe e, o ruido rouco do motor com altos e baixos invadia a quieta mata; Caputo chegou batendo com o chapéu no joelho levantando o pó da picada. Com um gesto rasgado de amizade saudou-me enquanto lançava ordens ao cozinheiro para retirar as biquátas trazidas do Inhassoro.

M´pumalanga do Nascimento, ruminou umas palavras ao seu ajudante Xinguço de Nada para levar primeiro as coisas de comer, depois o querozene para o ximbeco do armazém. Este nome do sub-auxiliar é desconcertante pois que é Xinguço por parte de mãe e de Nada por parte do pai que desconhcia completamente.

Caputo trazia novas do China embalsemador; apresentou-me a cabeça de Pacaça devidamente empalada com seus cornos grossos e foi dizendo que para terminar a obra do Cudu necessitava duns quantos miticais, porque tinha de comprar produtos lá no Maputo.

Eu e Caputo ficamos ali um tempo estirando preguiça, bebendo umas laurentinas e trincando jinguba da ilha de Bazaruto.

Depois de jantarmos bife de Olongue com jindungo bravo, deitamos um pouco de conversa fora e cada qual se escanchou em seu colchão de suma-uma; tinhamo-nos de levantar cedo pois que ambos iriamos ao Chimoio levar o motor de arranque da GMC, à estação dos caminhos de ferro; aturar o chato do chefe Simões e, continuar viagem para o Zimbabwe do Mugabe.

O velho tira cabaços Xafundanga, aposentado da roça, seguiu conosco para ir ao médico. Tinha um inchaço anormal nas partes e não podia deixar-se cair em descrédito.

O Soba T´chingange  

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:39
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
CHICOXANA NO ZIMPETO

                 Moçambique 

             Maning boé no kruger – ( 2ª parte )

 

Nesta curta paragem ensombrado por uma marula tree,  dissecava a noticia fresca do jornal Savana de Moçambique que Kastarina me tinha dado; a notícia em tons redondos dizia que a avenida “Julius Nyerere”, era branca; os pretos que por lá passam ou são criados ou empregados domésticos. Um letrado  professor saído da Universidade Eduardo Mondlane indagava sobre os avanços da revolução; que os moçambicanos, (com m pequeno) estavam gradualmente a ser acantonados no Zimpeto, um bairro periférico de Maputo, sem que previamente tenha ali havido  preocupação em criar infra-estruturas; afinal quando noutro tempo, brancos e negros viviam harmoniosamente naquela zona “chique”, hoje, os primeiros levam a melhor, por causa da exclusão social.

Blá,...blá,...blá.

E,... reli de novo Savana que, mais à frente dizia:

- A desunidade nacional manifesta-se na construção de ideias sobre os pretos, de que são incapazes e, de que, os brancos são uma virtude e a salvação do país.

- É incrível que, ao longo destes longos anos, os etnocentrismos herdados do colonialismo português estejam presentes e actuantes. Vejamos por exemplo, no caso da exclusão, a estratégia das chaves ( entenda-se por trespasse ) está de novo, a tirar o direito de habitação condigna aos moçambicanos ( com m pequeno ) e a racionalizar a cidade.

Pelo que li em Savana, a vida vai maning boé para os moçambicanos (com émes de todo o tamanho). Vende-se as chaves duma casa nacionalizada ou descolonizada aos mesmos brancos, que anteriormente as habitavam como donos.

É lavagem de maning negócio de bafunfeiros,... dizem os cakuanas!

Estreitando a visão após Ressano Garcia, caveiras pintadas em placas davam indicação de minas por rebentar; o maximbombo moderno ”pantera azul” com serviço a bordo por uma maxim-moça, levou-me até Maputo.

Passei uns dias numa casa situada não muito longe do hotel Polana, na rua “King el Sung” pagando 85 dólares por cada dia. Quase vizinho do café e restaurante “Pik-Nik”,  fui ali almoçar um churrasco de galinha, que pela vontade de comer me soube no melhor dos pitéus. O empregado de mesa com uniforme vermelho foi servilmente atencioso o que me surpreendeu pelo profissionalismo; ao deslocar-me ao banheiro para lavar as mãos não pude deixar de reparar em algo que me pareceu insólito, as peças sanitárias, lavatório e retrete estavam envolvidas com uma forte corrente, presa a um grosso grampo de verguinha chumbado ao chão com cadeado.

 Ficou-me na retina este pormenor de como sobreviver num país em construção.

 

Glossário: chicoxana - ancião com sabedoria, século (Angola) Xipamanine – mercado, zona de Moçambique; maning – muito; boé - bom; bafunfar – dar-se ares, importante; cakuana – avô; marula tree – arvore frondosa que dá um fruto na forma de baga com o mesmo nome; Cassoneira – palmeira de onde se extrai vinho marufo, maximbombo: - autocarro, ónibus (Angola)

    

      O Soba T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:25
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
CHICOXANA NO ZIMPETO

            

 

 

              CHICOXANA DO ZIMPETO 

           Maning boé no kruger – ( 1ª parte )

 

  O chão estava molhado e naquela curva a seguir às bissapas, um búfalo olhava-nos de frente com uns olhos vermelhos de meter medo. O bicho grande fitou o nosso DKV fumegante e num pedaço de curto tempo deu uma guinada, mais uns quantos pinotes, estancando lá mais longe junto a uma cassoneira; olhando desafiadoramente para o nosso invólucro forrado a lata castanha, fazia levantar desespero na forma de pó pateado.

Após as primeiras chuvas, o pó em África, tem um cheiro de terra especial; quem o não cheirou, não consegue conciliar os sentidos inebriadores duma mistura de capim, folhas, estrume, pólenes e odores de mato em inverno de Agosto.

Em Skukuza tomei palavra com Kastarina com Kapa, Moçambicana de há muito tempo e que, atravessando a reserva do Kruger tomou cidadania a bafo de leão; subiu no pau e, de lá foi tirada por uns guardas da reserva que afinal, até  tinham algum parentesco; daí, conseguir desenrascar cidadania em Graskop junto de uma matrona que a declarou como filha.

 Pelas palavras do Juka Balaio esta senhora perdeu a conta dos filhos que tem; ela não tem pinta de mentirosa mas, a troco duns Menticais ou Randes, a verdade fica mais sólida naquele registo.

Se, for negro, ali naquele registo,  só interessa saber  dizer Good Morning para figurar como adultero cidadão.

Kastarina com Kapa contou-me das alegrias da independência clarificando-se quando disse que lá no bairro do Xipamanine comeram a festa em três dias; o peixe seco que tinha em armazém foi todo vendido como aperitivo às cervejas 2 M ( Mac Mahom ).

E,... palavra puxa conversa, fui desviando paleio para outras novas mais recentes, ou defuntas.

Para Kastarina, o Cunhal de Portugal não lhe dizia nada; quando lhe disse que tinha falecido ela desconheceu-o plenamente e verteu ali mesmo assunto de cassete; falou da grande figura de Samora Machel, depois das menores virtudes do Chissano e do actual Armando Guebuza, patrício do Xipamanine maning de boé, chicoxana  mais revolucionário que o Lenine e Estaline juntos.

Enquanto falava com Kastarina, ia besuntando-me com “foge tudo” para me proteger do sol, produto revolucionário que também matava mosquitos; na embalagem dizia que se um mosquito incomoda muita gente, mil mosquitos incomodam muito mais!

E depois daquela conversa revolucionária, pus o meu chapéu do Karoo, montei o DKV e rumei para Nelspruit; fiz uma paragem no rio Sabie que estava inundado de hipopótamos e uma outra no Crocodile River para refrescar-me com uma Windhoek  lager.

Continua... 2ª parte)

O Soba T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:39
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
XIPAMANINE- 2ª parte

 VUZUMUNANDO SINDROMAS – 2ª Parte

 A vida no Xipamanine

 

Estava quase a chegar ao Ndumba Nengue quando um desempoeirado polícia vestido a caqui azul e cinzento bamboleando o cassetete fez parar o  Juka .

-Que levas aí nesses garrafões? Perguntou, sabendo de antemão que aquilo só podia ser água de defunto

Nos entretantos da averiguação o polícia queria mesmo adquirir aquela água milagrosa para adormecer a dona Josefa, mulher de muitos atributos que lhe espicaçavam vontade. Josefa na recusa permanente de curtir a lua com luar de janeiro, só lhe deixava esta saída, usar o dormente liquido misturado a água de rosas que dias antes  lhe tinham dado no hospital José Macamo. Ali a água de lavar defunto ficava maning de caro.

Por detrás de todos os acordos e calamidades, ao povo resta sempre usar a imaginação dum mercado livre, sem impostos e paixões descabidas.

- Porquê? - Porque por detrás de todos os acordos de enfáticas qualificações a ideologia, torna-os sempre em empréstimos faustosos de caras banalidades, servidões em que o povo fica simplesmente ausente. Eles, não sabem que efectivamente assim é; só ficam agradecidos pelas alegrias e tristezas do que lhes acontece na vida e naquele momento.

As altitudes ocidentais às vezes descabidas, perante alguns países de África, parecem sempre obedecer a um esquema de paternidade normativa. Têm sempre como base não o aspecto cultural dum qualquer povo  mas, os reais recursos materiais destes.

Afonso Dhlakama, representante da Renamo, que perdeu as eleições obtendo somente 31,74 %, disse que Armando Guebusa seria um espelho do seu antecessor Joaquim Chissano e acrescentou:

- “As riquezas do país continuarão adormecidas, privilegiando a ajuda da comunidade internacional, o que, não é correcto, porque um Estado  não pode ser independente apenas politicamente, quando economicamente estende a sua mão para resolver os problemas do Povo”.

 

Glossário: Vuzumunando – contemplando, zurzindo; txova xitaduma - carro de mão - (Moçambique); Xipamanine – mercado; maning – muito; boé - bom; mufana – rapaz, jovem; mafureira – árvore, o mesmo que mafumeira; bafunfar – dar-se ares, importante; cakuana – avô;  madala – homem idoso; chicoxana – ancião com sabedoria, século (Angola); bassela – gorjeta; Ndumba Nengue – feira da ladra, confiar no pé e correr (produto roubado), maleita da descolonização; xipefo – candeeiro; bicuatas – tarecos (Angola). 

 

Escrito em  10 de Fevereiro de 2005

O Soba T´chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:05
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2008
XIPAMANINE

  VUZUMUNANDO SINDROMAS – 1ª Parte

  A vida no Xipamanine

 A diáspora lusófona no 4 de Fevereiro de 2005

 

Na avenida Julius Nyerere em pleno Maputo Juka Lilás, encardido de rugas em pele mulata, empurra o seu txova xitaduma a caminho do Xipamanine, mercado das calamidades, maning de coisas boé; nas tampas laterais do veículo, podia lêr-se a vermelho importado a palavra “fragile”.

Fininho, como um pau de coco, torce-se todo e, em esforço de boi esganiçado sopra palavras ininteligíveis para o mufana wakuluka (gordo e ainda  jovem) que lhe entorpece o andamento raspando gordura sobejante.

Durante os dias entretidos da campanha para eleger Armando Guebuza, Juka Lilás, aproveitou-se do espírito aberto das promessa eleitorais para recolher novas expectativas de igualdade; fraternalmente com transparência e honestidade, adquiriu com crédito alargado, um conjunto de coisas úteis aos seus velhos amigos ainda do tempo da luta armada.

Parou de cansado na sombra de mafureira numa rua transversal e, assim teve que ser porque dali para a frente a polícia não deixava passar; via-se gente varrendo a avenida, regando o jardim central e aparando o capim, enquanto outros empoleirados,  prendiam fitas verdes, azuis, amarelas e pretas a condizer com a bandeira de Moçambique. Por ali vai passar o novo presidente Guebuza com maning de motos à frente e uns quantos mercedes atrás bafunfando estilo estiloso. 

Naquela mafureira, Juka, frequentemente dava espreguiçadas conferências aos amigos, estripando estórias antigas que ouvia falar aos cakuanas, madalas e chicoxanas. A mafureira, já falava sózinha de tanta sabedoria ali contada; no tempo de quando ainda se podia cortar carapinha com gilette reforçada a caco de vidro!

-Verdade mesmo, patrão! Afirma o guarda do Xipamanine, contando os meticais da bassela  e, que num repentemente ficou meu amigo.

 O cajueiro falante que havia ali, tinha sido cortado ainda no tempo colonial pois era sítio de muita confusão nos cabeça rapada, um grupo de dissidentes que só botavam fala boé de ruim com alambazada desgraça.

Com destino ao Ndumba Nengue, levava em cima do seu txova xitaduma, pneus  com acessórios de jantes, baterias de etiqueta tudor, xipefos com botija acoplada, uma ventoinha a estrear e um sem fim de bicuatas e mais dois  garrafões cheios de água de lavar defunto, já usada.

 (Continua.... 2ª Parte) 

Escrito em Johannesburg, 10 de Fevereiro de 2005

                         O Soba T´chingange                                 

                                     



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:23
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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