Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
XICULULU . CIII

TEMPOS QUENTES 24.04.2019 
MALAWI – NIASSA . No vale do Rift - De várias partes 
Por 

soba002.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 

rift16.jpg Mitologia de terremotos e vulcões ... Mitos, histórias e lendas sobre terremotos e vulcões de todo o mundo podem às vezes ser engraçados e elaborados. Antes da ciência moderna, os vulcões iriam explodir, as tempestades iriam romper-se e os terremotos tremeriam. 
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Tais incidentes hipnotizavam as pessoas, pois não sabiam do por quê e como. Como resultado, histórias para expor esses fenómenos foram desenvolvidas. Portanto, pessoas de todo o mundo têm usado mitos, lendas e histórias para explicar sobre terremotos e vulcões.
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Essas crenças e normas culturais foram à sua vez, uma maneira de tentar entender os poderosos fenómenos naturais que poderiam afectar muito a vida das pessoas. Eles evoluíram ao longo de milhares de anos em várias culturas e foram transmitidos ao longo de gerações.

rift14.jpg Em muitas culturas, no entanto, os animais, incluindo os seres sobrenaturais que vivem tanto na superfície da Terra como no subterrâneo, eram / são de se acreditar, estarem associados com terremotos e vulcões.
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Algumas culturas ampliaram esse tipo de história para incluir muitos animais que compartilham o fardo de carregar a terra. Em N´kwazi, rio Cubango, o Okavango da Namíbia, não muito longe do Rundu, pude saber esta interligação cultural pois que este nome corresponde a uma ave pesqueira e, tem o significado de liberdade. 
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Um peixe-gato gigante encontra-se enrolado sob o mar com uma ilha apoiada nas costas. O bagre, gostava de fazer brincadeiras e só podia ser contido por uma deusa chamada Kashima. 

rift13.jpg Enquanto Kashima mantivesse uma rocha poderosa com poderes mágicos sobre o peixe gato, a terra estava parada. Mas quando ele relaxou sua guarda, o peixe-gato se debateu, causando terremotos.
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A terra é considerada um disco plano, sustentado por uma enorme montanha a oeste e por um gigante a leste. A esposa do gigante segura o céu. a terra treme quando ele pára para abraçá-la. ´esta uma das lendas da África Ocidental. 

rift17.jpg Em Afar, o Vale da Fenda é todo coberto de pedras vulcânicas, o que indica que a litosfera é tão fina que pode estar a ponto de romper. Quando isso acontecer, um novo oceano começará a se formar pela solidificação do magma no espaço criado pelas placas quebradas.

rift15.jpg Eventualmente, em um período de dezenas de milhões de anos, o oceano vai se espalhar por todo o Vale. Por fim, a África ficará menor, e uma ilha gigante surgirá no Oceano Índico. Embora o processo seja acompanhado de terremotos, na maior parte do tempo ele se dará de forma silenciosa, sem que ninguém se aperceba.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:02
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
MU UKULU – XX

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.04.2019 
MUXIMA DA MAIANGA . FEROMONAS DA VIDA
- Saber do passado para melhor se entender o futuro... 
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil 

zeca00.jpg Jose Santos - No M´Puto... 

luua32.jpg Não estava destinado hoje falar de FEROMONAS DA MAIANGA mas, e porque recebi uma Mokanda escrita na forma daqueles idos tempos, não resisto transpô-la para aqui porque isto era, foi o nosso Mu Ukulu da Luua. Na forma de introdução direi que mais de 99 por cento das espécies de animais, entre estes nós humanos, plantas, fungos e micróbios dependem exclusivamente ou quase, de uma série de substâncias químicas chamadas de FEROMONAS, para comunicar com membros da mesma espécie. 
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Assim agradecendo falei: Meu kamba-maior de coração invulgar num nome comum de Jose Santos, tuas amêndoas são sempre gostosas... Pena que andas sempre nos Kissama estudando os carrapatos do salalé e vires aqui mais vezes saudar teu mano! Catravês ficas na desculpa porque és meu ávilo de candengue do tempo tão antigo que nem a Joana Maluca recorda mais lá no seu cúbito do céu... Ver-te-ei com muita brilhantina na TiMatilde...
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A mokanda começa assim e no respectivamente, continua:
TONITO (soeu)......No meu mukifo, aproveito desta tua uuaba Moamba....te mando minhas amêndoas de múkua...para tu bué chupar...como nos mu ukulu dos candengue...porque os kumbu, malé dos amêndoas dos pula....Tambula conta! Xé! É meu agrado pra teu Dia de Páscoa com Ibib, teus monas teus ávilos keridos...

negritas.jpg  Teu mano ZECA nos Kissama, nos estudo pra os creme da pakassa para os salalé dos longevidade dos kota....mazé cheio dos comichão que os tuje faz bué...e borta kubata.....
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TONITO...UUABA PESSOA!!!. Tu num fica zangado com soeu porcauso do meu paragem dos escrito comentário, gosto e dos kandandu? Agora me dá n´guzu te pescar o teu peixinho os MISOSO os cacusso e botar na minha lagoa!!! 
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Te confesso....mazé cadavez os meu inama, os mãos....os n´guzo nos escrito os misoso dos face mazé é desigual do igual dos antigamente malé mesmo, porcauso os vapor nos inicio do Kurikutela butava fumaça bué! Aiué deixou de passar na cidade alta do nosso bairro da Mayanga, os território sagrado dos nossa uuabuama n´denge! 

caricocos.jpg  Então, duns tempo para cá....te digo que todos tão nos mesa dos concertação....dos sindicato nos tactoatacto, matacocommatako matacusentado! Ué! Te digo os lápis, os caneta e também os tinta qué nos tinteiro dos porcelana da Anchieta, colégio moderno, colégio João das Regras, katé os pequeno barril acabou....! Agora todos botaram essa confusão e ameaçam ir no palácio mostrar os indignação..!
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Os tuje querem mais cumbu e diz que tão sem os proveito dos fazer face nos custo dos vida. Assim, diz que nos bolso os cumbu baza logologo acabou katé num dá pra beber copinho do abafado no Rato, Morais, Hernãni da minina Alice ou no Reinaldo...!!! Malé, mesmo...

FRANCES2.jpg Cigarros francês

Então me diz..., tu licenciado katedrático do Rio Seco, Rua dos José Maria Antunes, que ainda continua a ser, se os despesa kiavuluvulu aguenta sem os produção num aumenta kiavulu....Tu sabes, o meu edição, já não tem os subsidio de produção do antigamente...! Tambula conta! Katé escapei katé os camenemene bué de vezes os dias meses anos, fazer o uafo..., porcauso os rolamento dos mutue os esferinha começou a sair, como diz os pula especializado na oficina do Baleizão do ávilo Taric..., diz que diz, ficou gripado!!! Tó lixado...
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Então, me diz só, como os quê ah vou voltar!, Ah! Há os budget assimassim e não podem na Rebita do Deve/Haver ter os massemba nas inana das barona dos bife dos profit...? Então assim num dá para aguentar os despesa .....porque os lucro baixou....porque Lello, os ávilo agora nos moda dos época vem pra fora fumar átoa os negrita, caricoco e deixa as beata pirisca no chão..., 
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Falta só mesmo átoa pra ir no kinaxixi buscar os mercearia; batatadoce, peixe seco, óleo palma, quiabos, jindungu, sal do Cacuaco, azeitonas da Leba.... Agora tu tens os meu parabéns....tu tens o teu n´guzu de torresmo de lagartinha Mopane....,e todos dias botas cada misoso bué comprido....! 

zeca01.jpeg Zeca com Mano T´Chingange  - TiMatilde

Amam´iéé! Tu como consegues ter tanto n´guzu...., os vontade de encher na Kizomba os teu misoso os escrito mais os foto bonitinha....?! Então tu "esqueleto pessoa, menos barriga de ginguba" és igual soeu!!!! Me diz só; tu fumas macanha, bebes maluve, marufu, botas gemadas de avestruz com os aguardente Pitu velho Chico 1935? 
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Temos de combinar de novo ir no Pica no Chão da Libata de granito de Póvoa de Lanhoso...., com os nosso kerido ávilos do Rio Seco...Então, faz tempo, e num quero chorar mais dos pensamento dos cagaço..., meu olhos tão seco....
BOA PÁSCOA ABRIL 2019
Kandandu Zeca 20190421
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Eu, logologo, respondi respeitosamente ligeiro de reco-reco de saudade: Tu - José Santos de um paludismo especial da Jihenda kaluanda - N´zimbos de fabricar missangas como sótumesmo sabes fabricar... que sótu sabes fazer. Te formaste na Universidade do Rio Seco da Luua. Meu mano de matar matrindindis zarolhos quando sóeramos matumbos do primeiro circulo...Aiué...

zeca5.jpgZeca fazendo banga

Vou-te falar nos finalmente: Se a cultura é uma invenção, ou uma construção de actos históricos, nós gente do Rio Seco, feito mulola, katedráticos de muitas estrelas, podemos afirmar que nossas falas, têm de ser colocadas no mausoléu sputnik do nosso Mar da Samba. Isso! Na gaveta mitologia antropológica, porque nós merecemos generalato! - Muito mais que as matubas do mais-velho de Catete. Juro! Vou te botar na estória do MU UKULU como o maior missangueiro do reino da Matamba... 
Igual a tu, só TU... um T´CHIKUKUVANDA ...

GLOSSÁRIO:

Mokanda - Carta...Kamba- amigo...Kissama- parque ou reserva animal...Salalé- formiga térmita...Catravês- então; por conseguinte...ávilo-amigo...Candengue moço, rapaz, pivete...Cúbito- lugar...Mukifo-quarto, recanto, lugar íntimo...Uuaba - assombrosa, espectacular... Moamba- condimentos, comida...Múkua- fruto do imbondeiro... kumbu-dinheiro... Malé - nenhum, nada..Xé- admiração...kandandu- saudação, abraços... N´Guzu-força, potência... Pacassa- búfalo, boi...Pula- português, do M´Puto...Baza- vai embora, foge, afasta-se...Tambula- toma atenção, anota, repara...Konta- atençaõ, ficar de olho...Missosso - conto curto, pequena estória, crónica...n´denge- carinho...espaço mítico...Mazé- expressão de talvez com admiração e dúvida... Cacussu- peixe do rio...Kurikutela- comboio fumaça a apitar, lançar fagulha...Mataco, Rabo, cú, bunda...Ué- exprssão de admiração, é possível?...Tuge-meda, excremento de pessoa...Kiavuluvulu-aumentando, crescendo,subindo...Camenemene- abandonados, relegados...Mutue - de motor com biela e segmentos...Massemba - jeito, trejeito forma de tocar... Inama, perna...Barona- mulher de destaque, m´boa...

kisan1.jpg Mopane-lagarta...Átoa- de qualqueR modo...Macanha- maconha, liamba, fumo forte, canábis...Marufu-vinho de palmeira...Libata-casa...reco-reco- raspando, instrumento de fazer barulho...Kaluanda- de Luanda...N´Zimbo-concha, bivalve sem bicho...Jihenda- saga, luta, forma de acção...Matrindindi- tipo de gafanhoto...Matumbo-burro, no sentido de inculto, tapado...Sputnik - monumento do Agostinho presidente dos mwngolês, gracioso quanto ao desplante ...Missangueiro- que trabalha com missangas...Matamba- Reino antigo de N´Dongo....T´chikukuvanda- lagarto de cores várias
Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:15
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Sábado, 20 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXV

N`ZINGA E O FALA KALADO 
de Várias Partes – 20.04.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)

massau5.jpg Ele, Fala Kalado, quis sabe de mim, do porquê de eu ter saído da Caála de forma quase abrupta. Reporta-se aos últimos dias do mês de Julho do ano de 1975. Tive de lhe explicar que tendo eu nesse então levado minha sogra a Luanda a fim de seguir para Lisboa com seu filho Honório Mestre, por pouco, não éramos fuzilados. Como assim!? Exclamou FC. Pois foi! Fomos em um autocarro da EVA - Empresa de Viação de Angola e no lugar de Muquitixe, a terra dos abacaxis, um controle de estrada mandou-nos parar. 
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Era um desses aleatórios controles que surgiram por toda a Angola e, normalmente feito por militares ou ex-guerrilheiros do movimento que era influente em essa zona. Não vou aqui dar todos os pormenores porque tu, sabes bem o que isso foi, o que isso era! Aquele, tratava-se de uma barragem montado por pseudo soldados impreparados para tal função; era um afecto ao MPLA mas, até podia ser da UNITA ou FNLA - todos se comportavam de uma forma despropositada. Era o poder a chegar impreparado e, a quem nunca o poderia vir a ter .

guerri4.jpg Estes controles eram já feitos à revelia de qualquer fiscalização por parte das autoridades portuguesas. Por vezes pediam os crachás do movimento a que pertenciam e isto era bem perigoso! Mesmo que o tivessem ninguém o mostrava por medo de reacções adversas assim fosse de quem ia connosco, ou deles. Um imbróglio de todo o tamanho e da qual nenhum de nós poderia ultrapassar por si só! Não existia legislação para isto, nem bom censo. 
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Era um "seja o que Deus quiser"! Era perigoso insinuar-se e, ou dar indicações de camarada, de irmão ou mostrar qualquer trejeito de desconformidade. Um cigarro por vezes, era uma boa oferta e, porque todos fumavam, assim se abria uma porta de boa vontade. Parece pouco mas, um cigarro poderia valer uma vida!

gurra10.jpg Foi assim que interpretei na altura porque aqueles militares de faz-de-conta estavam cheios de droga; via-se isso nos olhos, no cheiro, nas atitudes e, qualquer fagulha poderia fazer fogo. Com o autocarro estacionado na berma, mandaram descer todos os passageiros e que ficassem ali encostados na parede de uma casa recentemente incendiada. Iam fazer uma revista minuciosa às nossas bagagens!
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Felizmente que ia ali um Furriel Negro, fardado ao jeito de um qualquer tropa de então em exercício no exército, talvez saído da Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA) aonde também eu tinha andado e, este apresentou-se como sendo do MPLA, mostrou seu crachá-cartão do movimento ou algo semelhante o que resultou em reunião. 

papalagui11.jpg Fosse como fossem as falas deles resultaram em deixar-nos ir via Luanda sem revistar nada. Num toca a subir de mim para comigo e todos num aijesus, Deus nos acuda - Foi um Milagre! Mas, a partir dali, foi um choque de arrasar: Casas e carros queimados ou desventrados, tudo parecendo abandonado sem gente a mexer-se; nenhum lugar para se comer o que quer que fosse. 
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A cidade do Dondo parecia abandonada - um holocausto! Seguiu-se-lhe todas as outras terreolas com idêntico aspecto,: Zenza do Itombe, Maria Teresa, Cassoalála, Cassoneca, Calomboloca, Catete, Viana e arredores de Luanda. Ver isto, foi o princípio do fim! Dali para a frente podíamos adivinhar: iríamos ficar sem médicos, enfermeiros, veterinários, gasolina para o carro, e técnicos nas várias áreas. 

modas4.jpg Sem escolas a funcionar, sem géneros para subsistir, tudo era muito arriscado e, havendo outra saída plausível seria o mais indicado - ponderar pela segurança! E havia: O Quadro Geral de Adidos para funcionários. Foi quando o pensamento como ao sabor do ar quente, rumou para nuvens menos escuras - Largar tudo e ir para o M´Puto, a metrópole, Lisboa, aonde quer que fosse, mesmo que começando tudo de novo e como órfãos da terra.
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Por muito que amasse Angola, este amor não seria nunca comparável ao da família, mulher e dois filhos. Como eu, estavam bem mais de meio-milhão. Um cunhado mais ligado às instâncias politicas do M´Puto pois que era natural da mesma região, o Ribatejo com os oficiais de Abril, tais como Otelo saraiva de Carvalho entre outros: Metalúrgicos de pensamento de esquerda, organizados por Karl Marx ou Lenine via PCP. Avisado, o Branco de nome e tez, disse-me que saísse de Angola enquanto era tempo. Só que eu queria ficar! Mas, ele estava com a razão... 
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIV

O LIVRO ESCOLHIDO - 18.04.2019 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo... estávamos em meados do ano de 1975 - Cada qual fazia o que lhe dava na veneta desde que tivesse uma Kalash à mão... 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

guerra01.jpg Já no epilogo dum sonho chamado Angola, o ronco profundo e cavernoso do Niassa fez-se ouvir, minutos antes da meia-noite. Ao bater da meia-noite, o céu da Luua iluminava-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola. Mais a Norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, as armas pesadas faziam sangue que tingiam o rio que pensávamos ser de todos, mas não era. 
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Aquele ditado de se dizer "quem beber água do Bengo, tarde ou nunca dali saí - Angola" - uma inverdade somada com cânticos de "Angola, é nossa" e tantas outras ilusoriamente fabricadas. Mas isto foram coisas que paulatinamente foram sucedendo desde o "vinticinco" (de Abril de 74) de engano em engano por via dum livro que insurgiu um novo "Portugal e o futuro" escrito por um senhor vaidoso e tinhoso que ascendeu Nas chamas mais vermelhas que não eram as nossas.

guerri7.jpg Nos meses que antecederam o Novembro da Luua, o sol inclemente, humidade a oitenta por cento, o corpo encharcado, a camisa que se torcia e escorria suor feito água, o cheiro a catinga, a cansaço, a medo, o perigo que espreitava a cada passo, a cada instante, traziam uma pessoa em alerta permanente. 
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O medo era medido por musseque, depois por casas, depois por bairro, por rua, por bairro, por atitudes irracionais, nos prédios nas cidades do Norte do Centro e depois do Sul. Ligar o rádio era ouvir um chorrilho de raivas acumuladas, frustradas, provocando uma torrente de violência. 

guerra19.jpg Assim como um acidente de viação sem estória se resolvia aos tiros, uma simples discussão sobre futebol podia destruir um bar. Parece que já ninguém media consequências, que a moralidade era uma mandioca. O Mundo ia caindo aos poucos à nossa volta.
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Luanda estava escaldante, e a cabeça quente gerava inconsequências, insegurança generalizada, sintomas de uma sociedade à beira da loucura colectiva. O MFA, o COPLAD - Comando Operacional de Luanda, os militares oficiais Tugas, os pioneiros do Poder Popular, o MPLA, a FNLA, a UNITA e os misteriosos traidores, viciavam nossa adrenalina envenenando-nos vontades. 

guerra1.jpg Havia inconfessáveis esquemas; havia também muitos estudantes portugueses contagiados pelo espírito revolucionário, branquelas, burgueses encarando com desprezo seus patrícios. Como uma fruta de época, apodreciam as relações entre brancos e pretos, uns idiotas úteis à revolta. 
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Ainda andam muitos destes, por aqui e por ali, justificando-se por vezes com falas gastas, transviadas em subtilezas, falando com sufisma; não tendo mesmo a coragem de se explicitarem...  Se tu sabes e eu sei, cala-te tu, que eu me calarei! Trancas e ferrolhos na porta, sempre salvaguardam as aparências, provocando ainda a desordem nas cabeças de muitos outros. 

guerra22.jpg Do desespero palpável que se abatia inexoravelmente sobre Luanda, pegajoso, sujo, desorientado, também ela assim ficava numa tensão sempre crescente. Por aqueles dias, o aeroporto era um dos locais mais concorridos da Luua. O outro, era o porto da cidade - toda a gente queria sair dali para fora. 
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Durante décadas, o regime de partido único, o MPLA mantém-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje, depois de um golpe de estado e de uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Malheiro Savimbi. Os desmandos continuaram, continuam e continuarão até um dia, roubando quanto podem. Isto é actual - todos o sabem! Mas, um dia, tudo mudará!...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:17
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Terça-feira, 16 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXIV

N`ZINGA E O FALA KALADO  – 5ª de Várias Partes – 16.04.2019
Por

soba15.jpgT´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
Depois de falarmos do calor, da brisa e tempestades, um pouco por todo o lado, Fala Kalado iniciou suas confrontações: - Estás gordo, meu! Gordo e velho - já somos dois, deixa para lá! Interessante tu ainda te recordares de Kalacata!? Já andava ansioso para te rever, depois daquele encontro em São Paulo mas, os motivos ponderosos estavam escaldando. Felizmente já me libertei desta carga. Assim com um chorrilho de perguntas, afirmações e interrogações, ambos fomos sublimando nossa empatia. Curiosamente, achei-o muito sereno, aliás surpreendentemente sereno para um morto.

 

kilo8.jpg Muito de cautela perguntei-lhe: - FK, como consegues conciliar tua vida depois de reviveres de um modo assim tão vivo, tua morte. Recentemente soube que um tal de Luís Neto Kiambata, dirigente do teu defuntado MPLA da LUUA, declarações à imprensa - uma palestra sobre “A Vida e Obra de Nelito Soares”, no âmbito do 27 de Julho de 1975, que assinala a tua morte... Ele fez menção de que não chegaste a ver a independência no dia 11 de Novembro.

missosso9.jpg FK, fez todos os possíveis para não me interromper pelo que continuei: -Até recordaram o 4 de Junho de 1969, por acaso dia do meu aniversário; falaram até em Diogo de Jesus, afectos ao MPLA, de quando desviaram para a República do Congo um avião da DTA, coisa já aqui falada, a predecessora das Linhas Aéreas de Angola (TAAG). 

missosso3.jpg Precisamente na altura e neste dia comemorava os meus anos no Miconge, lugar conhecido por Sanga Planicie. Mas diz qualquer coisa! Com um enorme trejeito de desagrado ao ponto de fazer tremelicar sua orelha esquerda de plástico falou: -Pois! - Esse tal de Nélito morreu mesmo. Vais desculpar-me mas terei de ficar mesmo calado nesta matéria de recordar o que não quero lembrar e, em verdade já nem me lembro porque virei matumbola.

missosso6.jpg OK! Se queres, assim será; para mim és o Coronel Fala Kalado e não se toca mais neste periclitante assunto. É melhor! - Diz ele assim na forma de muxoxo carregado de naftalina misturada com creolina; deu para notar que era mesmo um ponto morto, morrido, defuntado. Bem! Fazia-te em Curitiba, Poconé mas, nunca aqui. Falei assim para quebrar qualquer gelo metido nas frinchas enferrujadas e ainda não sublimado em nós.

missosso4.jpg Em verdade estive naquele lugar do qual te dei um cartão que dizia. Terei de aqui recordar: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais.

missosso7.jpg É certo! É FK que retoma as falas dizendo: Esse é o lugar de contacto que ainda se mantém mas, em realidade os matumbolas kiandas de Hoji-ya-Henda e Monstro Imortal, heróis da guerra do Tundamunjila mais a Rainha N´Zinga estão descansando sua eternidade junto dos seus antepassados, em um quilombo situado perto de Poconé, capital do garimpo.

missosso12.jpg Eles fizeram questão de ali permanecer junto a seus próceres de N´Gola preservados no tempo em um estado quase puro. Ficaram em uma especial Cubata - Jango no quilombo de Urubama. Tudo porque existe ao redor muitos outros com nomes bem curiosos tais como: Aranha/ Cágado/ Campina de Pedra/ Campina - Canto do Agostinho/ Capão Verde/ Céu Azul/ Chafariz .
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E porque são tantos enumero mais alguns para teres ideia de como ficam bem acompanhados: Chumbo/ Coitinho/ Curralinho/ Imbé/ Jejum/ Laranjal/ Minadouro - Monjolo/ Morrinhos/ Morro Cortado/ Pantanalzinho/ Passagem de Carro/ Pedra Viva/ Retiro/ Rodeio/ São Benedito/ São Gonçalo/ Sete Porcos/ Tanque do Padre Pinhal/ Varal. Acho que chega, não!?

missosso11.jpg Para teu sossego e conhecimento, o Brasil tem uma Portaria, incluída no Decreto Presidencial nº 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação e reconhecimento destes quilombolas.  A referida Portaria destaca em seu artigo Art. 2° - Para fins desta Portaria consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnicos raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajectória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com formas de resistência à opressão histórica sofrida. (FCP - Portaria 98/2007) . Como vez, não poderiam ficar em melhor lugar... 
( Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:21
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Domingo, 14 de Abril de 2019
MU UKULU – XIX

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu44.jpg  Li uma tese da análise da Unicamp em Brasil e achei interessante continuar este tema sobre a instalação de uma fábrica de ferro na região da Ilamba, no interior de Angola. Na segunda metade do século XVIII, a partir do ponto de vista das sociedades africanas, as mudanças nas relações de trabalho foram bem impactantes. Acabaram assim, por deslindar haver modos de exploração do trabalho dos Ambundos, para além do da escravidão.
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O estudo das faces normativa e prática dessas transformações impostos desde a conquista, trazem para o centro da narrativa os problemas de se ser subalterno a um processo alheio à sociedade. Os representantes da elite política africana, reivindicavam seu estatuto de vassalos para denunciar abusos que sobre eles cometiam.

Mu Ukulu02.jpeg Outros aspectos das relações coloniais manifestos durante a construção da fundição de Nova Oeiras foram os conflitos em torno de minas e terras mais o controle da fabricação e comercialização de objectos de ferro. Esses recursos naturais e utensílios de ferro, tinham já para os africanos significados distintos do económico. 
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Os ferreiros e fundidores da Ilamba produziam um ferro de alta qualidade em fornos baixos, com seus instrumentos rústicos. Sua trajectória, enquanto grupo de artesãos, foi o fio condutor da pesquisa, pois permitiu compreender as disputas, e conflitos de poder. Costumes e tradições envolvendo tanto as estratégias do domínio colonial português, quanto as formas de resistência a ele. Daí a invenção de novas práticas, com elaboração de discursos articulados subjacentes à sua emancipação. 

Mu Ukulu27.jpg Nota-se que as determinações locais tiveram peso tão ou mais significativo nas decisões tomadas na sede do Império em Lisboa. As ideias surgem ilustradas na principal fortaleza colonial para marcarem esse período. Fortaleza de São Miguel, baluarte de poderio Luso. Como podem deixar agora arrefecer estes relacionamentos que determinaram a nação presente. Como podem agora desclassificar e menosprezar a gesta Lusa que também foi heróica. Aqui se forjaram ideias e ideais que simplesmente não podem ser arredados.
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Os embates entre as personagens do Sertão de Angola - sobas, os filhos, capitães-de-mato, ilamba, imbari, negociantes, pumbeiros, ferreiros e fundidores - todos, guiaram as directrizes governativas em Luanda e enfatizam, talvez sem o saber as complexas redes hierárquicas nas relações de domínio, embora o sendo no auge do negócio negreiro . 

Mu Ukulu43.jpg Por fim, na base de uma leitura das fontes que privilegia o ponto de vista africano, propõe-se uma nova interpretação sobre as narrativas dos fracassos de Nova Oeiras, considerando que os Ambundos elaboraram estratégias bem-sucedidas para manter em seu poder os conhecimentos e os benefícios que a metalurgia lhes conferia.
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Haverá dignidade na menção, porque em pleno século XX o Governo de Lisboa ainda tinha aversão a tudo o que fosse cultura em Angola. O revolucionário empreendimento de Inocêncio de Sousa Coutinho, foi liminarmente abandonado, e intencionalmente esquecido. Em Novembro de 1772, após 8 anos fecundos e únicos na governação de Angola, depois da sua partida para Portugal o que o sucedeu; o Governador António de Lencastre, simplesmente, ignorou toda a sua obra.

Mu Ukulu29.jpg  A fundição de Nova Oeiras, uma homenagem ao primeiro ministro de Portugal Conde de Oeiras depois Marquês de Pombal, acabou por se transformar num local turístico que desperta nostalgia a todos os estudiosos e desejosos de verem aquela terra como sendo de todos que nela nasceram sofrendo também tantas tragédias, abandonos e descaso ao ponto de serem relegados a coisa nenhuma. 

Mu Ukulu45.jpg Esta fundição foi a primeira em África, à frente de quase todos os países europeus. E, ainda existem canhões fundidos naquele tempo para falar verdades de trovão; a pura palavra de se dizer: A verdadeira vontade de fazer progredir Angola. Não basta dizer que a cerca de 150 km do Dondo entramos no reino da Rainha Ginga . Nossa memorias vão mais além dessa sintetica negritude que por ironia, nos querem tatuar na pele para enfatizar...

NOTA FINAL AO JEITO DE COMENTÁRIO

-Sempre vinco o direito da nacionalidade como nascimento ou por obras meritosas feitas e para Angola! Ao invés de proporcionarem este principio, os ditos angolanos "genuínos" que se dizem ser no topo da escala, desmereciam ser angolanos porque açambarcaram para além do poder a economia roubando desmedidamente.

Houvesse gente interveniente aqui que não se limitasse a dizer "esta bem" ou clicar no "gosto" para se apelar ao governo de Angola que: - Eram mais merecedores serem angolanos aqueles colonos que tanto labutaram, do que estes ladrões que açambarcaram por graciosidade de Portugal tamanha responsabilidade.

Quisesse eu ser um sociólogo, pegaria nisto para me tornar doutor por tese. Talvez Fernando Vumby na Diáspora possa pegar nesta matéria e dar-lhe o devido relevo... Ou também o professor Júlio César Ferrolho ou Edgar Neves entre outros .... GENTE DE CRÉDITOS E ACREDITADA...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:10
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Sábado, 13 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIII

De novo, estou com o nº DOIS - livro do Agualusa - A tua pele tem um cheiro estranho - cheira a sonhos... 
No Morro da Barriga... 13.04.2019 
Por 

soba001.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira. 

cazumbi2.jpeg::::224
A cadelinha, um animal mutilado sem as patas traseiras, o tronco preso a uma pequena plataforma com rodas. O meu novo amor, não é fofinha? Euclides, o jornalista benguelense diz que sim! Que se lembra do bicho ao lado de um homem gordo, em Ipanema. Encontrei-a à porta do meu prédio; a bichinha passava o dia inteiro ali, uivando, chorando que fazia dó.
:::::225
A cachorrinha tinha o nome na coleira: Maria Bonita, pode?! A moça do biquíni negro exaltando a brancura, fala: Felizmente achei você! Conversa puxa conversa e vem à baila o medo que que anda solto cheirando as emoções: - O presidente José Inácio continua preso. O Brasil mudou muito nos últimos tempos; o Comando Negro chamou a atenção do Mundo e nas eleições escolheram Bolsonaro! Espero que endireite este país - pois, que ele possa cheirar as emoções ...
:::::226
Muita desgraça junta diz. Barragens a deslizar, corpos por encontrar, chuvas a levar o o lixo pró mar, muito lixo, prédios que caem, corpos que não aparecem: Um cadáver faz muita falta; sem ele não há subsidio, não há renda, não há jurisdição. E, Jararaka desapareceu, sabes!? 

araujo169.jpg :::::227
Alguém disse que o viu a beber suco de acerola na Feira de Gravatá; mas na segunda roda de perguntas, os policias já tinha duvidas se não seria em Caruaru, na festa do Jesus de Nazaré na Nova Jerusalém. Outro foi dizendo que até conversou com ele num acampamento dos Sem Terra, no Espírito Santo; lugares bem distantes um do outro. 
:::::228
Um grupos de seringueiros tem a certeza de que o viu em Xapori, sublevando índios, numa aldeia dessas do Alto Xingu - está virando folclore disse a moça sorrindo num riso tristonho. Euclides sabe o que ela quer dizer: mula-sem-cabeça, caipora. Ela passa os dedos pelos cabelos, pelos olhos e fala em seguida 

araujo160.jpg :::::229
Vigora ainda uma espécie de desleixo socialista, sabes? Hó se sei, diz o benguelense: Como eu conheci Angola em outros tempos, quando NADA era de ninguém - e, portanto ninguém se preocupava com o que quer que fosse, NADA. 
:::::230
A moça, a brasileira, continua intensa e gloriosa, um pouco triste, diga-se mas por vezes sua voz perde o brilho, tem momentos de ausência, há uma espécie de cansaço ou de desengano, na forma de como fala no futuro. Continua a haver muitos feminicidios, muitos assaltos, muita ausência de justiça. 
:::::231
A brasileira debruça-se sobre a mesa pousando a mão na dele. Àquela hora havia mais gente a tomar o café da manhã. Que pensarão os demais clientes. Sabes do que vou ter mais saudades para além da tua companhia - Do grito da cuíca... das batucadas em caixinhas de fósforos.
:::::232
Com uma lágrima nos olhos ela disse assim sem pensar, até: - Lá em cima tem! Você acha? - Claro! Não é o Céu? E, acha que tem tapioca, banana assada com canela e açúcar ? Tem tudo diz ela como para o consolar - Até tem escolas de samba... A voz de Martinho da Vila faz-se ouvir : « Zumbi, Zumbi, Zumbi dos Palmares, Zumbi...Os grandes ideais não morrem jamais».

beldr7.jpg :::::233
Tens razão! A morte é uma bela aventura. Peter Pan! Não era ele que dizia isto? - Acho que sim, devia ser. Ele voava, lembras-te? Eu sempre quis seguir o Peter Pan. O jornalista benguelense fala pela última vez: - Tens razão - Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores
(FIM - para o livro DOIS) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:07
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Quinta-feira, 11 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXIII

N`ZINGA E O FALA KALADO – 4ª de Várias Partes – 10.04.2019
Por

soba15.jpg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
Nélito Soares foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974, ainda debaixo da Administração de Portugal. Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro entre o T´Chingange e o tal de FALA KALADO no aeroporto Internacional e do Terminal Doméstico numero DOIS de Guarulhos de São Paulo.

missosso2.jpeg E, graças ao “Morro da Maianga” consegui descortinar um pouco mais a minha alhada aqui comentada no meio de uma fricção ficcionada… Uma meia inventação em que só o tempo descortinará como verdadeira, essa morte do Nélito Soares, o mesmo FALA KALADO dos MISSOSSOS a virar lenda.
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Quanto ao Coronel FK, aparecerá nos próximos episódios mas em tempo de malembe malembe e da frente para trás porque os acontecimentos andaram muito mais rápidos do que a minha escrita e, recordar o passado, é forçosamente como fazer reverdecer erva sintética - uma trepanação complicada. 

oscar4.jpg Nesta tarefa de dar vida aos matumbolas plastificados, só mesmo o MPLA se pode considerar perito de primeira. Naquele então de 1974 e 1975 estes e os Tugas foram especialistas de dez estrelas. Mas, e, também porque nossas vidas assim foram determinadas, andarem para trás como o caminhar dum caranguejo robotizado. E, há muitos que continuam assim, robotizados, amaciando a podridão duma nação...
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Assim, só poderei dizer que FK (Fala Kalado) ingressou na UNITA posteriormente à sua própria morte (aparente) e tomou o nome de Fala Kalado (Fala como agradecimento às Forças Armadas de Libertação de Angola - FALA e Kalado por ser sua condição "sine qua non" secreta). 

paulo7.jpgAinda não eram seis horas da manhã, o sol estava erguendo-se ao nível do horizonte mas ia já nas silhuetas dum sexto andar e, eu na água fazendo exercícios. Hoje excepcionalmente fui abordado pelas alforrecas, águas vivas roçando seus fios raivosos nas minhas duas quinambas; coisa suportável e, segundo se diz benéfica para reduzir a artrite.
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Estive bem perto de duas horas dentro de água falando com um casal vindo de Pacatu de Minas Gerais, enquanto me mexia. Já sentado no banco corrido de cimento cru e à sombra dos coqueiros do calçadão, bebo minha água de coco comprada ao Jefferson. É bom lembrar aqui que este cidadão antes de iniciar suas tarefas e ainda, estando eu na água, correu a dar um mergulho de corpo inteiro. 

tonito16.jpg Jefferson após o mergulho levantou as mãos em adoração para o céu, orou ao seu Deus, ou ao paínho Cisso cantando um oração; de onde eu estava os dizeres eram monossilábicos, parecendo uma zoada carregada de muitos amém e estando eu assim pensativo nestas minudências da vida, aproximou-se um senhor já velho, camisa florida, cor e jeito de um cubano Caribenho.
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O chapéu de matuto do sertão não lhe conferia um esmerado gosto; fazia rodar em sua mão esquerda umas missangas feitas de pequenos búzios; Era assim pró moreno e dum perfil ginasticado, embora um pouco encarquilhado no rosto e na orelha esquerda. Sentado a meu lado e depois de uns curtos suspiros pude ouvir: Têm noticias de Kalacata? Não havendo mais ninguém ao nosso lado, deduzi que a pergunta era para mim.

nasc2.jpg Num repentemente minha massa encefálica, despertou meu astigmatismo e como um raio lazer caiu na realidade do nome afiando-me os olhos num só. Kalacata foi alguém de minha intimidade de quando eu fui Secretário de Informação e Propaganda do Comité da UNITA na Caála, também chamada de Robert Williams. Assim brutefeito, olhei para ele mais de frente e, tive um susto: - Era ele, o FK!
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Ambos nos levantamos e, sem nada dizer, nos apertamos num longo abraço. Minha cabeça convulsionava-se em desespero para entender este encontro assim tão inesperadamente esperado - tão súbito! Em verdade, sempre o seria em qualquer momento - estava ali a fera! O FK...

IMG_20170823_142728.jpg Titubeamos aos poucos as falas, assim como um motor com falta de ar no carburador e, desengasgando coisas recentes falamos coisas menores, como que a apalpar terreno e, lá me pediu desculpa por não me dar a atenção devida no aeroporto de Guarulhos. Disse-lhe que isso não era assim tão importante.
Em realidade mentia, agora com a fera ali tudo era importante. E, com tanta coisa para dizer, saímos dali para dar continuidade em outro lugar. Não é de admirar que estejam curiosos porque eu, também estou - e muito!
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:31
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MOAMBA . XXIV

HOJE É DIA DE LA LYS ... 10.04.2018
CHOVEU MAIS DE DUZENTOS MILÍMETROS DE ÁGUA NO RIO DE JANEIRO - UM CAOS... E, CONTINUA A CHOVER... NOSSO SENHOR ABRIU A TORNEIRA DO CÉU...
Por

t´chingange2.jpg T´Chingange - No Nordeste brsileiro

araujo181.jpg Já tinha escrito: A FÉ E O TRIBALISMO... Estivesse eu na Lagoa do M´Puto e iria depor uma coroa de flores a todos aqueles e, foram muitos os que tombaram na guerra. Na madrugada de 9 de Abril de 1918, (há 101 anos) dezenas de divisões alemãs irromperam pelo sector português da frente, defendida pela segunda divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP). 
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Em poucas horas, os portugueses perdem 7500 homens entre desaparecidos, mortos, feridos e prisioneiros, naquela que ficaria conhecida pela batalha La Lys. Um oficial escocês, escreveria uma longa carta elogiando as acções de um soldado chamado Milhais. 

lys1.jpg Pelos seus actos recebeu a Ordem Militar de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Depois de receber a condecoração, seu nome mudou de Milhais em Milhões. É nele que penso mas e também, em todos os que no Rio de Janeiro e no dia de hoje, sofrem uma crise de chuva... Uma batalha de vida que toca também a milhões...
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Nos lugares aonde se ministra a palavra de Deus, tornam mais suportáveis a tirania, a guerra, a fome, a chuva ou seca, bem como as piores catástrofes naturais. Tragicamente, as grandes religiões são também uma fonte de incessante e desnecessários sofrimentos pois que, constituem um entrave à compreensão da realidade.

lys02.jpg E, a realidade é tão necessária para se compreender e resolver a maioria dos problemas sociais em nosso mundo real. Não há como satisfazer a alma tendo tantas definições e tanta confrontação entre as "Igrejas" - umas contra as outras e, como se tudo na historia ou estória, fosse um simples tribalismo com criações fantasiosas.
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A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelas pessoas sábias como falsa, e pelos governantes como útil. A aceitação por parte de um crente de uma dada estória da criação, e dos relatos de milagres que esta outorga, dá-se-lhe o nome de FÉ.

lys3.jpg A FÉ religiosa oferece aos crentes enormes benefícios psicológicos: Fornece-lhes uma explicação para a sua existência e, faz com que se sintam mais amados e até protegidos do que os membros de qualquer outro grupo tribal. Tudo isto para dizer que a causa do ódio e da violência é a FÉ contra a FÉ. Um verdadeiro instinto tribalista... Embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não nos ver, fazendo-nos sofrer por culpas alheias.

lys2.jpg Teremos por isso de ficar nesse estranho silêncio, uma forma de ver, obedecendo ao princípio do NADA, esperando as mudanças no tempo ou do bom censo, deixar acalmar o pó fino dos caminhos aonde existem sonhos feitos becos, um sítio sem saída... Esperando o tempo...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:49
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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019
MULUNGU . LXII

TEMPOS CUSPILHADOS 
A GUIANA JÁ FOI PORTUGUESA - 09.04.2019
Mulungu: Pode ser árvore de grande porte com flores grandes e vermelhas e homem branco em língua Xhossa 
Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

caiena1.png Por aqui ando esticando os ossos, entre ave Marias encavalitadas de prefácios que se baralham mas, que logologo se esquecem. Em finais do século XVIII e inicio do XIX, a colónia francesa situada ao norte da América entre o Suriname e o Brasil, na fronteira com o Amapá, possuía uma população rarefeita, concentrada em Caiena, a Capital. Com uma economia esclavagista, era voltada para a produção de cana, um, café, algodão, canela e outras culturas tropicais.
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Sendo um ponto de penetração francesa na Amazónia e litoral norte brasileiro, foi sempre alvo da acção diplomática portuguesa no sentido de garantir a fronteira ao longo do rio Oiapoque. O Tratado de Utrecht de 1713, proibia o comércio entre o Pará e essa região. Portugal mantinha-se atento por via de os franceses fazerem incursões de pirataria a fim de surripiarem madeiras nobres e fazerem candonga.

caiena2.jpg  Havia um comércio incipiente em que a Guiana exportava escravos e cavalos recebendo em troca farinha de trigo, vinhos e outros produtos da região. Este fraco comércio não resistiu ao processo revolucionário francês porque desde o anos de 1801, a conjuntura se tornou desfavorável a Portugal. Após a chegada da corte portuguesa ao Brasil, D. João VI decretou a invasão em Março de 1808, ou seja há 211 anos atrás. 
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Não obstante Rodrigues de Sousa Coutinho se preocupar com Guiana, não foi suficiente para que o rei se desmobilizasse no vincular de sua atitude como uma declaração de guerra à França de Napoleão Bonaparte. Embora esta acção tivesse algum planeamento inglês, D. João VI manteve-se fiel a si mesmo sabendo que a pretensão inglesa era não permitir qualquer devaneio em se servir de Guiana para reconquista das Antilhas inglesas.

caiena3.jpg Assim, a 14 de Janeiro de 1809, Caiena foi ocupada por uma expedição anglo-lusa, maioritariamente com efectivos portugueses. A Corte portuguesa decidiu administrar este território como dependência do governo do estado do Pará. Foram nomeados: como comandantes das força - Manuel Marques como governador militar e, o intendente João Maciel da Costa para a justiça e Administração Civil, subordinado ao Capitão-Geral do Grão-Pará e Rio-Negro.
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A Inglaterra desejava arrasar as fortificações francesas na região de Guiana para não poder ter modo de ser reutilizara pelos francos mas, os portugueses por ordem de D. João VI, como é dito em item 5, não o permitiram. 

caiena9.jpg  As consequências da invasão resultou na libertação de todos os escravos que aderiram à nova administração; as propriedades aonde ocorreu resistência foram queimadas e saqueadas; três naus francesas com suprimentos foram apreendidas e os bens dos ausentes sequestrados. Os moradores da Guiana continuaram regidos em suas relações civis pelo Código Napoleónico.
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Foram preservados seus usos e costumes nunca tendo a Guiana sido declarada como parte integrante de Portugal.o Império Português. O Conde de Galveas da Corte indignou-se pela libertação de escravos mas, a maior preocupação de D. João VI era não onerar os cofres da Fazenda Real. 

pedras 002.jpg Pois recorde-se que para suprir o Banco Brasil de carências, vendeu avulso e por bom preço títulos de nobreza. Foi esta acção que deu maior consistência a tão grande país. Foi ali incentivada a importação de especiarias e da cana de Taiti que se passou a chamar de caiena - um jindungo, pimenta de especial qualidade utilizado para controlar a pressão arterial.
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Ocorreu também o envio de mudas para os Jardins Botânicos do Rio, de S. Paulo e de Belém no Pará. Em 1814, com a queda de Napoleão estabeleceu-se pelo acordo de Paris, devolver a Guiana à França. Em 1817, por via de novas negociações e devoluções, foi efectivada a linha de fronteira definida pelo rio Oiapoque. 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:02
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXI


-A cigana leva as mãos a cheirar e: Cheiram a fumo, a pólvora. Cheiram a sangue! - «Eu sou daqueles que vão até ao fim.» ...

Recorda ele só para si a frase de Mário de Sá Carneiro em carta a Fernando Pessoa... 04.04.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassuma criar loja virtual.
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira.

rio8.jpg ::::::204
De novo volto à escolha do livro DOIS do Agualusa, e entro num lugar da Luua com Euclides, o benguelense a espreitar através da janela do tempo e, ainda a tempo de ver os garotos (pioneiros do PP - Poder Popular) pontapeando o corpo do comerciante. Era na avenida Brasil da Luua. Outros candengues saem de dentro, carregando caixas, biscoitos, fruta e latas de refrigerantes.
:::::205
O adolescente que parece comandar o assalto arranca uma pequena placa branca de um passeio, num vaso já seco que em tempos tinha um ibisco vermelho e, pôe-se a dançar com ela. Nesta placa tem escrito em tinta negra: «Cuidado - Veneno». Debaixo destas palavras distingue-se o desenho de uma caveira com duas tíbias cruzadas. 

rio11.jpg :::::206
As parecidas tíbias com o sonho, que acabou em NADA naquela terra que nem madrasta foi, foram vistas por mim em 2002 além Sumbe, além Kanjala. Nossa cor denunciava-nos sobremaneira como os "filhos do colono" - Se não foste tu, foi teu pai! Tudo vinha ao de cima na forma de raiva, por via dos contratos das roças, das grilhetas passadas, das cangas, masmorras e tangas feitas quando no mundo, ainda tudo era feito de cipó e giesta de matebeira. 

soba03.jpg:::::207
Aquilo era Luanda. Na pele do Anjo Azul, de tão translucida viam-se as veias como rios à deriva. Palmares, o supranumerário da rede de candongueiros e vendedores de armas ligeiras, pesadas e de com e sem recuo, segue mansamente, com a ponta do dedo. Descobrindo-lhe as origens vai soletrando pensamentos em voz alta: Kwanza... Tombo... Cunhinga... Sumbe... Cabo ledo... Kangala.
:::::208
O Anjo Azul Cubana, ri-se. Assusta-a o mistério daquelas palavras - O que significa isso? - Estou a cartografar-te. Esta é a costa angolana. Do outro lado fica o Brasil. Aqui está agora o Japuará... o São Francisco... Piassabuçu... Jaraguá... Pajuçara... Jacaressica... Guaxuma... o Xingu

rolam0.jpg :::::209
O Amazonas perde-se na mata Atlântica húmida como um sexo.
Palmares beija-lhe o sol rodeando o umbigo. Porque não deixa tudo e fica só comigo, diz o Anjo Azul fervendo em calores - fica só assim, me abraçando... Assim de fervuras arrepanha-lhe os cabelos encaracolados do aconchego. 
:::::210
-Você tem de me dizer que me ama com convicção! Não é só dizer que me acha gostosa, não, visse! - Acho-te lindíssima...Tenho medo de me apaixonar por ti - diz isto de olhos fechados... Quando os reabre ela está em pé diante dele - É melhor você não aparecer mais aqui. Está bem, foi a resposta. 

sol4.jpeg :::::211
Palmares olha suas mãos. As palmas claras, a linha da vida quebrada a um centímetro do pulso; um perfeito M na antiga escrita romana. Uma vez, em Lisboa, uma cigana tentou ler-lhe o futuro. O que quer que tenha visto assustou-a. Perplexa olhou-o gritando: « Popilas - poças - cunkatano! Este Gajo não existe!» 
:::::212
A cigana leva as mãos a cheira e: Cheiram a fumo, a pólvora. Cheiram a sangue! - «Eu sou daqueles que vão até ao fim.» Recorda ele só para si a frase de Mário de Sá Carneiro em carta a Fernando Pessoa. Parece que nem falas nem pensamentos são seus porque o NADA, de novo se verificou nas muitas averiguações. Mas eu, não fui - Juro!

tabaibos estofo.jpg :::::213
Um rapaz de de grandes olhos negros, aliás, todo negro e com um chapéu de feltro na cabeça, encara-o com uma expressão gelada. Fala. Há uma voz de velho, kota e rouca, e aos soluços sibilantes: - Não há ninguém aqui...

tenerife7.jpg Do T´Chingange: - A vida é feita de NADAS, de grandes serras paradas à espera de movimento. Searas onduladas pelo vento... Relembro as palavras de Torga numa terra pintada de branco, barras azuis com cheiros de poejos...
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:30
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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019
XICULULU . CII

TEMPOS QUENTES03.04.2019 
MALAWI – NIASSA . No vale do Rift - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios – Cada qual tem o seu Rift... 4º De várias partes
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Os Angolanos que nunca querem ficar atrás nestas descobertas, numa conversa de cacaracá, o Boniboni disse: - Têm que vir aqui nas barrocas da Luua destabilizar os defuntados ossos dos mais que passados primos da Luzia porque aqui, tem por demais, montes de ossadas pré-históricas meu... (é um comentário pouco sério! Não façam caso!). 

rift12.jpg Nós, os TUGAS, somos, em verdade, ainda, um enigma indecifrado. Só sei que os Angolanos nunca provarão que os Tugas, nunca por ali passaram, que nada por ali, fizeram - por mais que tentem!... Do já dito em 3ª parte, conclui-se haver no Vale do Rift evidências de que as depressões já está ocorrendo quando a crosta terrestre se estica e se quebra.
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Segundo David Ferguson, na região distante do norte da Etiópia, centenas de falhas e fissuras se têm formado ao longo do tempo. O continente africano está-se dividindo em dois à medida que a costa leste da África se rompe lentamente do corpo principal do continente - o magma que se ergue para dentro da crosta continental acima, estende-se até o ponto de ruptura.

rift11.jpg A África está literalmente sendo dilacerada pelas costuras enquanto falamos; não pela guerra, mas pela tectónica de placas. O resultado acabará por ser um enorme novo continente, deixando a África sem o seu Chifre. A razão é a de que um desejo geológico da falha, corre pelo lado leste do continente, que eventualmente será substituído por um oceano.
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Com o tempo isto resultará em um novo continente que levará consigo a ilha para Madagáscar. Acredita-se que, talvez daqui a 10 milhões de anos, toda a fenda tenha sido inundada, separando a porção mais oriental da África em um continente inteiramente novo. À medida que a placa africana se rompe lentamente, várias depressões e falhas dentro da fenda leste-africana já foram preenchidas pelos mesmos lagos maiores e mais profundos do mundo a saber: Tukana, Albert, Victória, Tanganyca, Rukwa e Malawi ou Niassa.

rift10.jpg No Quénia, o vale é mais profundo a norte de Nairobi, e exibe lagos pouco profundos mas com elevado conteúdo mineral. Por exemplo, o lago Magadi é quase soda sólida (carbonato de sódio) e os lagos Elmenteita, Baringo, Bogoria e Nakuru são todos extremamente alcalinos. O lago Naivasha tem fontes de água doce, o que lhe permite ter uma elevada biodiversidade.
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Andei por aqui recentemente e pude verificar na topografia algo que indicia o que se obtém nas várias informações. A parte final do vale junta-se formando o lago Niassa, um dos mais profundos do mundo, alcançando os 706 metros. O lago separa o Malawi da província moçambicana do Niassa chegando ao vale do Rio Zambeze, onde o vale do Rift termina. 

rift01.jpg Levanto aqui a questão se estas actuais mas, cíclicas tempestades, furacões do qual originam grandes inundações não o serão por via destas lentas depressões. Dentro de alguns milhões de anos, a África Oriental será inundada pelo oceano Índico tornando-se uma grande nova ilha na região da costa leste de África. 
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No vale do Rift têm-se depositado, ao longo dos anos, sedimentos provenientes da erosão das suas margens e este ambiente é propício à conservação de despojos orgânicos. Por essa razão, tiveram aqui lugar importantes descobertas antropológicas, especialmente em Piedmont, no Quénia, onde foram encontrados os ossos de vários hominídeos.

rift9.jpg Pensa-se serem estes, antepassados do homem actual. O achado mais importante, de Donald Johanson, foi um esqueleto quase completo de um australopiteco, o, que foi chamado "Lucy" já mencionado aqui. Tive pena de não ter descido desde Dar-es-Salan passando o rio Rovuma a fazer fronteira entre a Tanzânia e Moçambique mas, os Boco Harans andavam por ali fazendo disparates; o medo falou mais alto.
(Continua...)
O Soba T´Chingange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:21
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Terça-feira, 2 de Abril de 2019
MALAMBAS . CCXVIII

ORFÃOS DA TERRA - 02.04.2019
Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Encorujado nos meus farelos antigos, queimo as pestanas na praia da Pajuçara com sol intenso!… Sim! É tudo mais do mesmo! As algas, o mar verde e azul e edeceteras... Mas hoje passeando no calçadão, já quase chegando à Jatiuca um felizardo da terra todo vestido de azul, sapatos e meias azuis, calções e flanela azuis, chapéu tipo boné quico azul e, até uns óculos reluzentes azuis alocromáticamente fosfóricos, faz-me um rasgado cumprimento: - Bom dia Major!...
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Não é a primeira vez que o vejo sempre contente e falador saltitando passos com a ajuda duma muleta - no lado esquerdo. Seria falta de cortesia não responder com um Bom Dia mas, a chuva em verdade começava a cair de mansinho.

spi3.jpg Este tipo deve ser portista! disse cá para mim na certeza de que seria um outro clube aqui da terra do Brasil com ascendentes de dragão, bichos de cuspir fogo parecidos com outros pré-estóricos pintos da costa - dromedários o quanto baste para serem genuínos camelos.
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Nesta capacidade de repetir discursos já gastos para que tudo fique na mesma e, porque tenho ideias e ideais, passei o tempo da vida a perder amigos. Quando tudo me leva a crer que os amigos são o que penso, normalmente, a determinada altura já têm respostas para as perguntas que eu ainda não lhes fiz e isto, indispõe-me sobremaneira. 

spi0.jpg Por vezes também é o contrário disso sem eu ter as respostas adequadas ao momento. Assim com o meu peito séptico dispus-me a fazer o trajecto de hoje caminhando no calçadão contemplando as imprevistas contrariedades que sem culpa formada me fazem passar o tempo. Os sofistas sempre me desnortearam... E, assim fui galgando metros.
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Passei por muita gente de tanga e sunga que gozam sua vida em qualidade de 30 graus centígrados e, creio também até muita desta gente, ruminava como eu silêncios pelos erros alheios de muitos e zelosos assessores. Assim, entalado na charneira de entre a raiva e o vazio derramava-me aos poucochinhos perfilava-me assim como aquele outro cocho de mente azul, por cinco quilómetros. 

morte3.jpg Assim compenetrado no distraimento, ouvi de mansinho uma voz que sinceramente, não reconheci. Era um vulto com contornos de gente camuflado de assombração e com um monóculo encaixado na orbita ocular do olho direito: “ O destino faz muitas armadilhas à volta da gente e das suas intenções impedindo-as de se poder fazer o mais desejado”.
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Caramba! Era mesmo o autor de “Portugal e o futuro”, o livro premonitório do Vinticinco de Abril, isso mesmo! António de Spínola sem tirar nem pôr e até trazia uma boina e um pingalim, espécie de bengala flexível, de couro ou rabo de raia com a ponta a terminar em uma aselha de cabedal; spinolando o ar, batia seu pingalim, punho com mão e repetia; um gesto que me dava uma desconcertada indisposição. 

sorte4.jpg Gostava de saber a razão que leva alguém a usar um monóculo? É que, até um indivíduo que é cego de um olho, usa óculos normais! Interroguei-me sem levantar questão! Ora! Tarde piaste! Logo agora aparecer-me este general vaidoso para me relembrar as merdas que tanto quero esquecer. Não pode Ser! Você é o general Spínola? 
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Cá para mim o que o homem queria era ganhar carisma… Primeiro foi a boina! Mas, teve necessidade de um monóculo. Em termos práticos para que serviria? Para ver ao detalhe as minas e armadilhas ou para intimidação dos inimigos? Ando deveras preocupado porque parece que isto, só sucede comigo. 

sorte2.jpg Depois, só para chatear, mais tarde decidiu usar um pingalim! E, luvas de couro preto! Este absurdo só pode ser mesmo uma assombração! Pois bem, se o é, vá-se embora de vez porque o que tenho lembrado de si em filme e a preto e branco está descolorido e, até desfocado! Depois, a mesma vozinha falou: “Sabes! O passado vem sempre ajustar as contas antigas!” Disse isto, sem mais explicações, como se eu não o soubesse. Bem feito seu cara de pau.
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Tal como veio, assim se escafedeu! Ouvi assim uma chiadeira irritante como um berro de osga languinhenta a rir-se e, a figura difusa foi-se, como se foi no seu real pós-guerra de tugi, criando em nós, babancas, um orgulho nacional. Merda de orgulho este que me tornou num ORFÃO FORA DE PORTAS.

geringonça1.jpg Apeteceu-me perguntar-lhe: Viste a merda que fizeste? Mas, entretanto já nada ali estava, só pude ver o farol raiado de branco e vermelho na Ponta Verde a recordar aos patrões-de-costa e afins que ali há rochas chamadas de recifes. 
Tudo ficou assim, sem mais nem porquê!? Abril....
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:38
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Sábado, 30 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XX

- O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira - 29.03.2019 
Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
::::: Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassuma criar loja virtual.
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira.

 booktique17.jpg::::::195

Juazeiro do Norte - Terra do Padre Cícero - "Uns doze graus abaixo da Linha Equinocial, aqui onde se encontra a Terra do Nordeste metida no Mar, mas entrando-se umas cinquenta léguas para o Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte, num planalto pedregoso e espinhento onde passeiam Bodes, Jumentos e Gaviões sem outro roteiro que os serrotes de pedra cobertos de coroas-de-frade, mandacarus e babaçus. 
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- A bênção seu padre?! - Deus a abençoe,"Sia Aninha", como vai passando dos seus achaques? - Não vou muito bem não; Seu Padre não me ensina um remédio?...ensina a todo o mundo, mas a mim não ensina e eu tenho muito desgosto disto; queixava-se a pobre velha olhando vagamente, pois era cega, para o lado de onde partira a voz do sacerdote. O padre, sorrindo baixinho e olhando-lhe os olhos sem luz, disse, em tom de gracejo: " É Sia Aninha - santo da casa não obra milagres, mas, mesmo assim, vou ensinar-lhe um remédio.

pombinho3.jpg:::::197 - Pintura de Manuel Pombinho
Um diálogo assim servindo de prologo é um niquinho da descrição em notas que expressam a verdadeira história de Juazeiro no longínquo ano de 1910, ano em que se implantou a Republica em Portugal... Ano em que o Algarve passou a ser integralmente português. Mas, aceitando a opinião do escritor cearense João Brígido ficamos a saber que o Cariri foi principiado a povoar por aventureiros baianos chegados até ali através do Rio São Francisco, lá pelos anos de 1660 a 1662
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Mais tarde o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves teve apenas dois reis, Dona Maria I e Dom João VI (que, antes da sua mãe, a Rainha Dona Maria I morrer, já governava como Príncipe-Regente). A capital do reino era a cidade do Rio de Janeiro, à época chamada apenas de Corte. A soberania de Sua Majestade Fidelíssima era exercida sob todas as colónias do Ultramar Português.

pombinho14.jpg :::::198 - Pintura de Manuel Pombinho
Narra o escritor Brígido que um negro escravo da "Casa da Torre" uma fazenda às margens do São Francisco fora raptada pelos índios Cariris; este que soube ganhar afeição dos selvagens adquiriu sobre estes uma notável ascendência pelos hábitos contraídos em suas relações com os brancos pelo que, no conhecimento perfeito de certas artes, levou estes ao caminho das terras boas da montanhas do Cariri. 
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Este invasores eram nem mais nem menos que os descendentes do Caramuru, o português que escapou de um naufrágio de uma nau francesa; livrou-se de ser devorado por captar nos índios a admiração com assombro pelo uso de seu fusil, bacamarte com que matou em voo, um peru do mato com estrondo deles desconhecido.

quipá0.jpg :::::200
E foram os descendentes do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro que fizeram assento da sua ancestralidade: serem descendentes da linha directa de Caramuu, Diogo Alvares Correia que casou com uma das filha do Cacique Cariri, chamada Catarina Paraguassu. Assim se destacam o casal João Bezerra Monteiro E Caetana Romão Romeira Rodrigues de Sá, ambos naturais de Pernambuco.
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Foi este casal, os primeiros donos do Engenho Moquém, situado nas vizinhanças do Crato, cidade póxima a Juazeiro. Fixaram ali residência na Fazenda Zorés, no Município de Icó. Eles, eram a décima descendência do Diogo Alvares Correia natural de Viana do Castelo.

roxo109.jpg :::::202
O Reino do Brasil desmembrou-se com a independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, proclamada pelo filho do Rei Dom João VI, D. Pedro de Alcântara de Bragança (futuro imperador D. Pedro I do Brasil e Rei D. Pedro IV de Portugal), que, antes da independência, era o herdeiro do trono como Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. 

cicero1.jpg :::::203
O Reino do Brasil, independente em 1822 e, por conseguinte, desmembrado do império ultramarino português, torna-se Império do Brasil em 12 de Outubro de 1822, com a coroação do Imperador D. Pedro I, confirmado em 25 de Março de 1824, com a outorga da Constituição brasileira de 1824. Assim, pouco a pouco lá chegaremos à vida do Padre Cícero, muitos anos depois do tal Caramuru e seus descendentes...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:51
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Quarta-feira, 27 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIX

PEDRA DO REINO de Ariano Suassuma - 25.03.2019
O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta Brasil – Género Romance, fantasia épica do Nordeste brasileiro - 1971
Por

soba0.jpeg T´Chingange - Com Suassuma - No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassuma 

bordalo2.jpg:::::184
Estamos em Março de 2019 com talvez menos de dez milhões de Portugueses e, o estado vive cada vez mais à míngua sugado por corruptos e corruptores. As conquistas do povo foram direitinhas para a nova casta de políticos que dividem hoje, o bolo por quotas, tanto para ti, tanto para mim. Afinal, de nada valeu aquela caçada nos tempos loucos de agarrar fascistas. 
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Ainda hoje me arrepio de tal façanha vivida por mim com pesar e, em euforia de Abrilada pelos demais, mais que muitos, infelizmente! Acabei por me desterrar, abalado para um lugar distante chamado de Venezuela, mais tarde Brasil aonde estou por algum tempo - nada é eterno. Os tempos passaram mas os anos prósperos foram por má gestão mandados pró galheiro. Sebastião I de Portugal - Foi o décimo sexto rei de Portugal, cognominado O Desejado por ser o herdeiro esperado da Dinastia de Avis, mais tarde nomeado O Encoberto ou O Adormecido. 

 xique xique0.jpg:::::186
Assim fala Suassuma: -A qualquer momento, a Onça-Malhada do Divino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrar pela destruição. É meio-dia, agora, em nossa Vila de Taperoá. Estamos a 9 de Outubro de 1938 (Um ano antes da morte de Lampião, o Virgulino, no lugar de Angico, perto de Piranhas – Sergipe). É tempo de seca, e aqui, dentro da Cadeia onde estou preso, o calor começou a ficar insuportável desde as dez horas da manhã. Pedi então ao Cabo Luís Riscão que me deixasse sair lá de baixo, da cela comum, e vir cá para cima, varrer o chão de madeira do pavimento superior, onde funcionava, até o fim do ano passado, a Câmara Municipal. 
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D. Sebastião, os 14 anos assumiu a governação. Solicitado a cessar as ameaças às costas portuguesas e motivado a reviver as glórias do passado, decidiu a montar um esforço militar em Marrocos, planeando uma cruzada após Mulei Mohammed ter solicitado a sua ajuda para recuperar o trono. A derrota portuguesa na batalha de Alcácer-Quibir em 1578 levou ao desaparecimento de D. Sebastião em combate e da nata da nobreza. Isto, levou Portugal à perca da independência para a dinastia Filipina e ao nascimento do mito do Sebastianismo. 

quip´02.jpg :::::188 
O Cabo Luís Riscão é filho daquele outro, de nome igual, que morreu, aqui mesmo na Cadeia, em 1912, na chamada "Guerra de Doze", num tiroteio da Polícia contra as tropas de Sertanejos que, a mando de meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, atacaram, tomaram e saquearam nossa Vila. Tem, portanto, o Cabo todos os motivos de má vontade contra mim. Mas como sou "de família de certa ordem" e lhe dou pequenas gorjetas, abranda essa má vontade de vez em quando. Hoje, por exemplo, quando fiz o pedido, ele me concedeu o cobiçado privilégio de preso-varredor. 
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Mesmo fora de água, não é muito diferente do que se pensa dentro dela, em que ninguém quer saber da azáfama dos outros, cada qual por si. …iam destemidamente dar cabo dos Mouros, os hereges infiéis, Berberes e Tuaregues que não perfilavam com o Cristo e seus seguidores arianos. Alá, já nesse então, nada o fazia alinhar com o deus ariano que desfilava amor com armas em forma de cruz estilizada, a espada.

xique xique5.jpg :::::190
Assim fala T´Chingange: - Oxalá deles, mouros, não tinha seguramente o mesmo sentido que nós arianos lhe dávamos. Os jovens assediados pelo jovem rei D. Sebastião, com ele foram mas, jamais voltaram; por lá ficaram em Alcácer Quibir encharcando a terra árabe com seu sangue num amontoado de corpos. O vento Suão nunca os trouxe de volta e, por eles muitas mães choraram, muitas noivas enviuvaram prematuramente carregando dos pés à cabeça seus lutos. 
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- Esta aventura de conquista e submissão de África continuou através dos tempos e séculos. A riqueza soberana do M´Puto, era nesse então e, sempre, pequena demais para as ansiedades do povo Tuga e, foi assim que muitos dos nossos ancestrais, nossos avôs e pais se aventuraram a iniciar novas vidas para além do desconhecido em um terra que diziam também ser a sua. Tal como eu, branco de segunda, muitos foram o fruto desta estória sem agá, Angola, Moçambique, Guine entre os demais. Por má gestão e usura, nossos ditos irmãos deixaram-nos ao deus-dará; um dia a história fará justiça.

xique xique3.jpg :::::192
Diz Suassuma: - Abriu a porta de grades enferrujadas, trouxe-me para cá, deixou-me aqui sozinho, trancado, varrendo, e foi-se a cochilar na rede da sua casa, que fica no quintal da Cadeia. Aproveitei, então, o facto de ter terminado logo a tarefa e deitei-me no chão de tábuas, perto da parede, pensando, procurando um modo hábil de iniciar este meu Memorial, de modo a comover o mais possível com a narração dos meus infortúnios os corações generosos e compassivos que agora me ouvem. Pensei: - Este, como as Memórias de um Sargento de Milícias, é um "romance" escrito por "um Brasileiro". Posso começá-lo, portanto, dizendo que era, e é, "no tempo do Rei". Na verdade, o tempo que decorre entre 1935 e este nosso ano de 1938 é o chamado "Século do Reino", sendo eu, apesar de preso, o Rei de quem aí se fala. 
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Depois, porém, cheguei à conclusão de que, além de anunciar o tempo, eu devo ser claro também sobre o local onde sucederam todos os acontecimentos que me trouxeram à Cadeia. Não tendo muitas ideias próprias, lembrei-me então de me valer de outro dos meus Mestres e Precursores, o genial escritor-brasileiro Nuno Marques Pereira. Como todos sabem, o "romance" dele, publicado em 1728, intitula-se Compêndio Narrativo do Peregrino da América Latina. Ora, este meu livro é, de certa forma, um Compêndio Narrativo do Peregrino do Brasil. 

xique xique2.jpg :::::194
Por isso, adaptando ao nosso caso as palavras iniciais de Nuno Marques Pereira, falo do modo que segue sobre o lugar onde se passou a nossa estranha desaventura: "Uns doze graus abaixo da Linha Equinocial, aqui onde se encontra a Terra do Nordeste metida no Mar, mas entrando-se umas cinquenta léguas para o Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte, num planalto pedregoso e espinhento onde passeiam Bodes, Jumentos e Gaviões sem outro roteiro que os serrotes de pedra cobertos de coroas-de-frade e mandacarus e babaçus.
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:20
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BOOKTIQUE DO LIVRO . XVIII

MIAÍ DE CIMA . CORURIPE - 27.03.2019 
Lugar aonde os índios Caetês comeram o primeiro bispo do Brasil - SARDINHA! - Também com este nome!? - estava a pedi-las...
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores … Ariano Suassuma...
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira

miai0.jpg :::::174 - O Bispo Sardinha caricaturizado pelos seus, no Vaticano
Estávamos a 24 de Março deste ano de 2019 - um dia calorento, sem brisa, nem cheiro dela! Recordo! Fui em tempos como romeiro a Juazeiro e até se deu um milagre... dele falarei lá mais para a frente. Posso adiantar que havia no meio da clareira uma mulher integralmente nua, de cabelos pretos escorridos pelas costas e até quase à cintura. De cor morena e olhos de uma grandeza impressionante que rodava sua juventude.
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Assim esbelta girava ao redor do único salão disponível; talvez uma clareira, um simples terreiro. Não pode ser! Havia bananeiras a contornar a natureza. Só poderia ser mesmo um salão de um imenso tamanho, do tamanho do Mundo. No encontro da noite com a manhã, um "bem-te-vi", despertou-me da realidade ou para a realidade. Aquela mistura maluca de seiva de cacto com jenipabo fez-me viajar por muitos e variados lugares como um supremo e eterno jogo de amor, nuvem com donzela parda do Agreste. Pópilas, era mesmo vontade de mijar! Para vocês, desconsigo mentir - acontece!...

miai01.jpg :::::175 
Foi assim que sucedeu com todos os portugueses. Os Caetês comeram o primeiríssimo bispo do Brasil com o nome de Sardinha. Pode existir assimilação mais completa, pode!? Aplicando todos os impensáveis princípios de fraternidade, Sardinha e mais de oitenta marinheiros naufragados nesta costa aonde me encontro, foram comidos depois de esbracejarem auxilio aos índios. Eu nunca li assim deste jeito uma tão tamanha fraternidade. Agora, bem que poderíamos ser, todos uma única raça: -Brasileiros.
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Pois! Os Portugueses iniciaram este país, afinal, deixando-se jantar pelos índios. Pela quantidade foi mais que um jantar, um café da manhã com almoço prolongado e ceia lá pela noite adentro. Depois disto fomos nos comendo uns aos outros e, eu acho lindo! Mas, sabe o que aconteceu? Alguns de entre nós descobriram-se negros e desataram a reclamar da cor. De repente cada qual começou desatando seu pavio e rápidamente já eram todos a reclamar casa, bolsa família e o escambau!

guerra22.jpg :::::177 - Pioneiros do MPLA - 1975
Os negros reclamavam de que não os deixavam ser brasileiros: Jacaré por exemplo veste uma camiseta preta com a inscrição "100% Negro". Euclides, o benguelense, pensando nisto,fala missangas com o General Catiavala. Este, vestido com o uniforme camuflado do Exército Angolano, suspira: - O senhor conhece Benguela de antigamente? Eu agora vivo só de lembranças, sabe? Já somos dois! ... os passeios nocturnos à Massangarala, ao Bairro do Benfica, ao luar - Tudo era bonito naquele tempo...
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Até o Salão Azul dos cubanos e o Lanterna Vermelha, o dancing do Quioche. Sabe aonde havia a melhor quissângua de Benguela? Euclides fala, fala sem obter qualquer muxoxo, qualquer resposta audível e plausível. Um dialogo chato de se fazer. Pois eu por detrás do bairro do caminho de Ferro, quando a gente ia na escola...lembra! Sem resposta, o jornalista ia ficando no pensamento dos tamarindeiros em flor... 

guerri6.jpg :::::179
Morrendo apenas, é que tudo acaba. O carro desliza através da tarde imóvel. Ao jornalista benguelense parece-lhe que estão parados - que é a cidade que desfila diante deles - um filme mudo. O Cristo Redentor de braços abertos continua de costas. Vai se entretendo a ler as placas das lojas e restaurantes: - Mocotô de Caetês,... grão de bico com bacalhau do M´Puto,... Sardinha grelhada à Coruripe.
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Pensa em outras tardes semelhantes àquelas, no Huambo, no Alto Hama ou em Benguela, assim mesmo de quando o tempo se aquieta no silêncio vastíssimo ou no meio da poeira vermelha da picada, apenas de onde o vento vira a curva, vindo de muito longe; lugar aonde se ouve o desespero dum motor, uma GMC ou Magiros, Scânia ou até uma Ural feia de assustar crianças. O desespero de um camião na picada.

guerri2.jpg :::::181 - Soldados do MPLA - 1975 
Porém, o país que amas, talvez já nem exista mais. Neste item, pode-se-lhe adivinhar os pensamentos na perfeição. - Você não tem saudade dos passarinhos, das flores da nossa terra? Isto da "nossa" é uma forma de dizer mas, lembro-me sim, dos rabos-de-junco, dos bicos-de-lacre, das celestes,, canários viuvinhas ou dos plim-plau cantando nas acácias rubras da minha rua. Às tantas nem sei se o cara fala comigo ou se só pensa.
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Eram tempos do visgo da mulembeira que a gente punha nas figueiras, umas palhinhas a colar as patas dos bichinhos - os siripipis de Benguela. Um dia, quando voltarmos, se voltarmos algum dia, haverá ainda acácias rubras florindo nos quintais? Ou estará tudo feito um cortiço de gente entaipada àtoa. Recordo ainda a fúria que esperava por alguém numa esquina. Não importa qual a esquina e quem era! Era alguém que na Luua, escuta violento rebentamento, violento estilhaçar de vidros e, logo a seguir a massa convulsa dos jovens pioneiros que gritam ódio.

savi6.jpg:::::183 - Jonas Savimbi - morto
Gente que faz tiros, que leva as balas directamente do produtor ao consumidor. Depois! Depois surge um homem ajoelhado no asfalto. Para aqui! Um adolescente alto e magro, de bermudas, uma camiseta com o rosto de jacaré e o título de seu disco - duma canção que editou "Preto de nascença". O candengue alto e magro, de bermudas descoloridas, sapatos quede, encosta uma pistola à cabeça do gordo e, dispara...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:51
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Segunda-feira, 25 de Março de 2019
MOKANDA DO SOBA . CXLVIII
CARTA ABERTA... De T´Chassanha
Com 4 adendas de T´Chingange (t) - 20.03.2019

t´chassamba1.jpgUrbano T´Chassamba (T) - O verdadeiro comandante das FALA 

t´chingange 0.jpg- T´Chingange (t) na Diáspora  (Miai de Cima de Couripe- Brasil)

-Em ANGOLA o racismo oriundo da burrice (matumbice) é que nos remete ao estado de miséria que vivemos .Você não sabe que para ser Angolano Genuíno é primaz nascer em solo pátrio e não ser, negro, branco,mulato ou cor de rosa.Um negro que nasce na Inglaterra é Angolano? Deve ser Africano!!

:::::t2

Obrigado brigadeiro T´Chassanha, sabe-se o quanto foste um combatente pela democracia. O verdadeiro comandante das FALA. Não desista, não deixe que os outros façam o que o senhor brigadeiro deveria fazer.
:::::t3
Não deixe que os oportunistas tomem o seu lugar. O Sr. é um herói vivo. O grande problema, e deve ser dito, é a incompetência de muitos quadros dirigentes. Cada um quer apenas estar nos lugares elegíveis na lista de deputados.
:::::t4
Deixam para traz os verdadeiros filhos de Angola que deram tudo que tinham para que a Unita fosse o que é hoje. Enquanto a ambição pessoal estiver acima da ambição colectiva, não haverá mudança.

arau45.jpg CARTA DE T´CHASSANHA  Carta Aberta aos militantes da UNITA e aos Angolanos em Geral - Angola não pode esperar mais...

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Próximo de completar dois anos de mandato, Sua Excelência o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço parece ainda não ter percebido que a sua campanha eleitoral já acabou há muito tempo. Com o país atolado na pior crise económica de sua história – herança maldita da gestão criminosa do MPLA, (não apenas de Eduardo dos Santos) – esperávamos, que o Presidente da República descesse da tribuna e começasse a governar de facto.
:t´chassamba01.jpg::::T2
Esperávamos também que assumisse o papel principal na construção de consensos com os diversos Partidos representados na Assembleia Nacional e a Sociedade Civil para as reformas tão necessárias ao desenvolvimento de Angola. Por outras palavras, uma Angola para todos os seus filhos independentemente das suas filiações partidárias; independentemente de serem pretos ou brancos.
:::::T3
Se João Manuel Gonçalves Lourenço continuar teimosamente a fazer o papel de “eterno surpreendido” perante as provas incriminatórias da gestão danosa do seu Partido ao longo dos anos, demonstra, aliás como já vai sendo notório, que a estratégia dele, consiste apenas, num acerto de contas, no seio do MPLA, matando logo à partida todas as expectativas que criou, ao nos deixar sonhar por um lapso de tempo, que estávamos perante um presidente de todos os angolanos e que dali para a frente iria exercer uma governação participativa e inclusiva.
:::::T4
Se quem tem o poder para tomar providências continuar insistindo em não fazer nada, que mude o rumo do País de facto e de jure, será muito tarde. A delapidação do património público ocorreu sempre a olhos nus e já não surpreende ninguém. É, pois, confrangedor ouvir Sua Excelência o Sr. Presidente da República, sempre com o ar mais surpreendido do mundo dizer: Isto é repugnante!

t´chassamba2.jpg :::::T5 - Drs Jonas Savimbi e Carlos Morgado

Neste particular, o seu desempenho, Sr. Presidente, não augura nada de auspicioso...Mas, como diria alguém: - aqui não há inocentes! E outros mais, acrescentam: Faz parte do ADN do MPLA!
:::::T6
Nós não acreditamos que todos sejam culpados nem que a corrupção e roubalheira façam parte do ADN de todos os do MPLA. Porém há uma verdade que tem que ser dita com a máxima frontalidade possível: Angola não é o MPLA!
:::::T7
Angola que não pode esperar mais: espera acções concretas por parte da oposição e sociedade civil para mobilizar todos os Angolanos de Cabinda ao Cunene e na Diáspora, no sentido de Angola sair, já e agora, do Eixo do MPLA. Sim! Todos aqueles que nela nasceram! A Pátria não pode continuar refém da agenda de um único Partido ad eternum.

t´chassamba3.jpg:::::T8 - Adalberto da Costa Junior

A Angola que não pode esperar mais: esperou em vão por um pronunciamento acerca de uma eventual ALTERAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO com Despartidarização do Aparelho de Estado, mas infelizmente as notícias não são as melhores, pois não se vê nos referidos discursos destaque significativo para as questões relacionadas especificamente às reformas esperadas e/ou à modernização do estado. São sempre discursos genéricos, que inviabilizam uma análise mais apurada sobre o que realmente se pretende.
:::::T8
O tão propalado programa de estabilização macroeconómica, aprovado no ano passado, além das expectativas que criou, nada de substancial gerou que se reflectisse na vida dos angolanos. Não existe, pelo menos visível, uma estratégia em que o sector privado possa substituir o papel do governo como principal empregador do País, criando assim condições para que economia florescesse ao mesmo tempo que desemprego fosse debelado pouco a pouco.

t´chassamba4.jpg :::::T9 - Jonas Savimbi

Vivemos numa alegada transição em que se apregoa a transparência, mas que em contrapartida continuamos fechados às questões essenciais de interesse do País e continuamos a ter uma Presidência da República que tem uma ascendência notória sobre os outros poderes instituídos. Alguém por esta altura ainda duvida, que a partidarização está a destruir a qualidade e a independência da administração pública?
:::::T10
Mas a Angola que não pode esperar mais: pergunta se será possível resolver este tipo de casos, sem uma oposição e uma sociedade civil fortes? A Angola que não pode esperar mais: exige da oposição uma conduta exemplar na defesa intransigente dos princípios que norteiam um Estado democrático e de Direito sem quaisquer subterfúgios, nem hesitações.
:::::T11
A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA deixe de sistematicamente alegar fraude em todas as eleições e seja suficientemente forte e tome providências para que elas, as eleições sejam organizadas de fio a pavio dentro das normas estabelecidas. Dizer que o bolo está envenenado para comê-lo em seguida não dignifica e demonstra uma falta de seriedade a toda a prova.

t´chassama6.jpg:::::T12

A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA se deixe de desculpas e sem mais delongas, humildemente, mas com firmeza se coloque na dianteira de todos aqueles, Angolanas e Angolanos que pugnam por um País Livre, Democrático e Desenvolvido.

t´chassama5.jpg:::::T13 - Samakuva e José Cat´chiungo

A Angola que não pode esperar mais: pede, suplica, implora a Isaías Samakuva que dê lugar às gerações mais jovens e que não aceite ser o empecilho que inviabilize o projecto de transformar Angola num local aprazível onde todos as angolanas e angolanos se sintam em casa. A continuada intransigência de Isaías Samakuva de não clarificar se pretende ou não manter-se à frente do Partido impede que a UNITA se organize e se transforme no instrumento capaz de conduzir todos os angolanos sem excepção à Liberdade, à Democracia plena e ao Bem Estar Social.
Catumbela, 20 de Março de 2019
Urbano  T´Chassanha


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:17
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Quinta-feira, 21 de Março de 2019
MU UKULU – XVI

MU UKULU...Luanda do Antigamente21.03.2019

Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg  Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Na Luanda antiga, as máquinas de lavar roupas eram desconhecidas e o emprego da selha ou do tanque de lavar eram acessórios indispensáveis a qualquer lar. Os barris de vinho importados de Portugal, eram cortados a determinada altura da base mantendo no mínimo duas a três aduelas de chapa de ferro para manter sua estabilidade, obtendo assim a selha usada com uma tábua solta de lavar, adicional; nesta, eram feitas as ondulações necessárias para nela se esfregar a roupa ensaboada.

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Consoante a sujeira da roupa, operações diversas eram praticadas para lhes dar o acabamento final de roupa bem lavada e cheirosa. O sabão mais usado era o azul ou branco da Congeral que todos conheciam por sabão macaco. Mais tarde surgiu a marca clarim, um sabão com outro potencial de cloro e usado na lavagem de roupa oleosa, fatos-macacos e outra de trabalhos oficinais; Era feita uma barrela ou posta a corar, sendo necessário um coradouro. Este era construído em madeira em um espaço de quintal solarengo, um quadrado do tamanho de quanto bastasse com rede de galinheiro.

Mu Ukulu32.jpg Ali era estendida a roupa a ser corada; o conjunto era suportado por caibros que apoiando no chão dando consistência ao andor de forma horizontal ou inclinada a gosto e em conformidade com a incidência do sol. Par evitar que a roupa secasse alguém da casa deveria regá-la de vez em quando, evitando que a mesma secasse ensaboada. Claro que esta tarefa era por norma feita pela mãe de família, cultura ancestral reservada à mulher que para além disto tinha a tarefa de cuidar dos filhos, assim como fazer comida para todos.

Mu Ukulu35.jpg As mulheres brancas ou de um estrato social mediano, tinham uma lavadeira que fazia este serviço por ela a troco de um salário normalmente baixo; estas, comiam normalmente do rancho da família ou levavam consigo alguma funje ou milho cozido no carolo para se alimentar; por vezes faziam-se acompanhar de um filho de tenra idade que nas costas dormitava conforme o movimento de esfrega-esfrega, da mãe. Por vezes levava mais um ou dois filhos por não ter com quem ficarem lá no musseque.

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Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha. Para que estes charutos durassem, fumavam com o lume para dentro. De quando em vez lançavam uma baforada de cheiro intenso que se impregnava nas roupas  no nariz; creio que isto afugentava os mosquitos que eram muitos lá pelos anos ou até 1950.

Mu Ukulu37.jpg O Município de Luanda, por esta altura tinha várias equipas técnicas a lançar fumo DDT por todos os bairros periféricos e também no centro da cidade; os candengues conheciam o trabalhar dos carros-do-fumo TIFA que surgiam periodicamente. As donas de casa abriam janelas e portas para que este fumo se entranhasse por tudo quanto era canto e refúgio dos pernas-longas que provocavam o paludismo.

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As roupas já secas eram recolhidas e, na varanda ou em um espaço anexo, eram passadas a ferro. Antes do surgimento da corrente eléctrica, eram usados uns ferros fundidos ou forjados para passar lençóis e, toda as outras peças de vestuário. Estes ferros na forma de uma caixa pequena de sapatos terminando em quilha como se um barco fosse; embora pequeno, tinham superiormente uma tampa pivô que permitia a alimentação com carvão vegetal que depois de acesos aqueciam a base bem mais grossa que o resto do corpo.

Mu Ukulu38.jpg Estes artefactos com uso até a metade do século XIX, tinham umas quantas aberturas para manter viva a queima dos tições de carvão e, de vez em quando a engomadeira – lavadeira soprava por aí para avivar as brasas. Sua base era bem lisa. Na tampa existia um pegador tipo asa que servia para transportar e fazer correr o ferro para a frente e para trás no acto de engomar. Havia quem usasse um abanico de mateba para assoprar as brasas em substituição do sopro que por vezes intoxicava as mucosas e os olhos provocando um choro fungoso de como quem tem uma rinite persistentemente chata.

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Nos modelos mais avançados, tipo xis-pê-tê-hó para a época, tinham na parte frontal um tipo de chaminé de boca larga, o suficiente para que ao abanar o mesmo num vaivém balançado no ar, este, entrasse pela frente mantendo as brasas ao rubro e soltasse as cinzas acumuladas. Este objecto pesado requeria do manobrador alguma habilidade no seu manuseia. Era assim usada uma chapa suficientemente arejada para os descansos e entretantos parados do artefacto. A tarefa era bem cansativa.

Mu Ukulu36.jpg Haveria que se ter em atenção não deixar as brasas cair na roupa pois que obviamente as poderiam queimar. Havia necessidade de se calcular a temperatura ideal para passar cada tipo de roupa e, a técnica empregada, era passar rapidamente o dedo indicador pela base do ferro; nesta operação deveria sempre, molhar-se o dedo, na língua – é obvio que sem qualquer cuspo a humedecer o dedo, este se poderia queimar. Por vezes até se sentia o frigir das borbulhas como coisa crocante.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:02
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Quarta-feira, 20 de Março de 2019
XIPALABOOK . 3

Xipala é rosto, é cara e, book é livro. 20.03.2019

Eu e Mery, convivemos acumulando experiências como quem junta pacotes de arroz carolino e feijão preto, por via de uma qualquer revolução que possa surgir. Com sucesso, mudamos de rumo provocando barlaventos ocasionais nos pontos cardeais de nossos mistérios…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

bookttique0.jpg  Minha empregada Mery de Campala anseia ir para sua terra e gozar o seu lar, doce lar. Dá-me a impressão que todos os dias de manhã se sente estéril fora da sua Uganda porque, tudo tem um porquê, embora ela, nada diga; sinto ou pressinto nela um espaço cinzento com um sorriso suficientemente grande para se iluminar e criar empatia ao seu redor. Por vezes somos muito íntimos e, até ficamos empolgados com nossa imaginação compartilhada e, que muitas vezes nos atormenta.

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Normalmente, acompanhamos nossas falas com um gim e água tónica, costume dos fins de tarde em áfrica para afastar mosquitos; eles, os mosquitos não gostam do quinino da água tónica que se nos mistura no sangue. Por vezes levanto um sobrolho interrogado em expressões de objectar pelo que, ela diz numa forma não surpreendida fazendo-se de boa ouvinte e, passando também a sacolejar pensamentos, inclina-se num vazio de sotavento.

CUBA LIBRE.jpg Faz tempo que Mery quer rever sua família e amigos do Uganda. Como eu, nasceu em quatro de Junho, uns anos posterior ao meu, sem isso impedir de juntos aprendermos a viver mantendo uma filosofia de sempre aprender. Apreender a sermos felizes o quanto baste. Pois assim é, para convivemos acumulando experiências como quem junta pacotes de arroz carolino e feijão preto e, também, por via de uma qualquer revolução que possa surgir; um aditamento permanente na nossa última vez relevando sempre o agora.

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Por vezes fala do Idi Amim, das convulsões desse então no seu Uganda. Idi Amin Dada foi um ditador militar e o terceiro presidente de Uganda entre 1971 e 1979. Amin juntou-se ao King's African Rifles, um regimento colonial britânico, em 1946, servindo na Somália e no Quénia… Tento disfarçar dizendo a ela que também nasci num mar turbulento num barco chamado de Niassa mas, ela sem o dizer nunca acreditou em pleno mas, o objectivo é alcançado. Para ela eu sou NIASSALÊZ – com sucesso, mudamos de rumo provocando barlaventos ocasionais nos pontos cardeais de nossos mistérios.

booktique13.jpg Repito: -mudamos de rumo provocando barlaventos ocasionais aos pontos cardeais de nossos mistérios. Como eu, ela também espera boatos contaminados e, até os contamos como se fossem missangas de caurins enfiadas num fio.

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Contou-me que muitas vezes lá na terra dela, comeu matooke, uns hambúrgueres feitos com vermes muito estrugidos com cebola, chamados de mopane, umas lagartas muito nutritivas sem dentes nem cascos duros e, que ficam junto com a cebola crocantes! Também entra nisto, alho, gengibre, jindungo, alface e jimboa. Parece que na tua terra, isso tem o nome de catato, ouvi algures, alguém dizer! Disse isto, assim de corrida misturando anseios com afirmações e desejos…

mopane19.jpg Pois, comi isso no IN-DA-BELLY vendo as Cataratas Vitória, ainda nem faz seis meses, um restaurante situado no conjunto de bungalows do Zimbabwé! Até que gostei disso, disse eu numa forma de quem faz um recado para si mesmo tirado da caixa postal do seu baú – nosso correio. Quem nunca provou pode arrepiar-se quando vê devido ao seu aspecto. Meus companheiros de viagem arrepiaram-se; admirei-me pois que eram portadores de bilhetes de identidade tirados na Luua (angolanos de gema). O Chinguiço gabarolas, tenho de dizer isto aos soluços: até se dizia ser, o melhor condutor de áfrica, ora bem…

booktique16.jpg Não obstante a má aparência, este bichinho raras vezes tocam no chão durante a sua vida que é feita em cima de certos arbustos alimentando-se de suas folhas com o mesmo nome mas, não exclusivamente; algo parecido com a lagarta ou bicho-da-seda que só come folhas de amoreira. Em Angola, esta espécie encontra-se nas províncias do Uíge, Malange e no Lubango, sendo esta última a origem dos catatos da D. Joana, que os cozinha e vende na praça do Prenda em Luanda. Uma boa ocasião para a Kianda  Roxo provar.

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Mery, ficou encantada com meus gostos “de preto” no dizer dela e lá tive de dizer como isto se prepara: - “Primeiro coze-se o catato e deixa-se a secar, depois de estar seco faz-se um refogado com cebola, óleo e bastante jindungo numa frigideira. Depois disso, está pronto para comer.”- Foi D. Joana que me ensinou; compra o produto nas mumuílas que vêm do Lubango. D. Joana, ao lado da bacia vermelha que tem por cima da banca de madeira, tem dois copos, um pequeno e um maior, o mais pequeno, cheio, custa 50 kwz e o maior custa 100 kwz.... Custava, conclui eu. Agora não sei…

booktique14.jpg - Tu, falando assim para mim, disse Mery: a felicidade connosco nunca petrifica; a felicidade brilha como a areia nas nossas mãos. Falando assim, até parece que os africanos têm um só progenitor – um pai sem cor. – E, tu vês-te assim na tua Kúkia de Campala? Perguntei de rompante. A resposta veio tão rápida como um qualquer relâmpago: - bazungus e negros vêm ao mundo pálidos como o gelo – quando crescem, uns ficam enigmáticos e outros querendo ser brancos, jogadores de futebol ou basquete. Cada qual fica uma fábrica de falas; porque dizem que só assim é, quem andou na melhor universidade de África – a universidade de Makerere!  

booktique15.jpg Não querendo deixar-me apodrecer entre linhas perguntei: Mas, que universidade é essa de que falas, essa de melhor de África?  Foi aonde estudei. E, é o que todos dizem, especialmente aqueles que nunca lá puseram os pés. Eu sorrio sempre concordando com eles, embora o edifício esteja a cair aos pedaços. Estendendo o braço ofereceu-me e, eu comi: -Dentro de uma folha de bananeira, um pacote de formigas, deliciosas enswa. Embora a folha estivesse amassada, recordei as tanajuras que em tempos comi em Colatina do Espirito Santo… Vais querer saber mas, isso só mesmo para outro capítulo…malembemalembe. Mery, assim ficou, com o sobrolho descaído…

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:19
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Terça-feira, 19 de Março de 2019
N´GUZU. XXXIII

CONHECER O BRASIL  – Recordar o que são os TROPEIROS

- Parte TRÊS … 19.03.2019

TROPEIRO, o herói, quase um bandeirante que enfrentava onças. SERTANEJO com lagartos e carcarás nas bordas dos caminhos ou lodaçais secos que nem tabletes de chocolate…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Numa sã convivência, é meu hábito relembrar os velhos tempos dando a conhecer a alguns aquilo que foi ou ainda o é, a maneira de se viver, os hábitos e alguns costumes fora de portas habituais aos demais, brasileiros, portugueses, sul-africanos e, ou angolanos. Esta iniciativa é acarinhada por uns e considerada foleira para outros mas, não virá mal ao mundo considerar ou não, outros conceitos!

tropeiro13.jpg Tenho uma amiga, minha empregada ugandesa, que nasceu em Campala que sempre fica extasiada com meus contos de cordel, minhas estórias encantadas do Xingó, do Xingrilá ou coisas do sertão africano, terra da qual ela tem muita saudade…Há entre os meus amigos um engenheiro especialista de obras feitas e carris paralelos de trem ou comboio, que sempre surge dando uma de sabichão, falando palavras de Domingos e quase desconsiderando minhas formas de expor. Nem se lembra ele, que fui eu que lhe ensinei a calcular volumes de terras, entender e ler os perfiz e, até saber na perfeição qual a função das solipas.

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Falando de tropeiros, sua figura ensimesmada, soturna, seria pouco integrada ao amanho do campo e, menos ainda à balburdia das cidades. Um pequeno artigo de jornal, com este mesmo nome, intitulava de “transportes arcaicos” recuperando-o como elo de aproximação entre o mundo rural e urbano, um carteiro portador de notícias variadas e recados, Novos modismos de caminhantes com gosto pela natureza, patrulheiros ou pombeiros modernos a comparar com os actuais aventureiros ou escuteiros e à semelhança das criações de Robert Baden-Powell

tropeiro14.jpg  Ter em conta que Baden-Powell aproveitou e adaptou suas experiências na Índia, na África entre os Zulus e outras tribos do sul da África e as guerras dos bóeres; Estes colonos de origem holandesa e francesa, opuseram-se ao ao exército britânico, que pretendia apoderar-se das minas de diamante e ouro recentemente encontradas naquele território. Em 1896 dirigiu uma expedição contra os Matabele em Rodésia. Desconfio bem que este novo conceito de estar também passou pelas áreas dos Pampas e Cisplatina.

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Todos estes modismos serviram para educar e adestrar os rapazes, a serem espartanos, antigos bretões, ou peles-vermelhas; Também aqui encaixam perfeitamente os tropeiros do Brasil. Procedimentos que foram renovados por Hitler com sua juventude higienista ou mesmo a Mocidade Portuguesa do tempo de Salazar em Portugal. Estes procedimentos com valores ao culto foram-se deteriorando no tempo pelo surgimento dos jogos virtuais, computadores e robótica que, cada vez se agudiza em nossa sociedade, de forma tão globalizada pelos jogos de mata-mata…

tuiui2.jpg Não é de admirar o que hoje se vive um pouco por todo o mundo: jovem que surgem apetrechados para a guerra e matando, simplesmente matando sem um proposito, como um jogo! Mas e, quanto aos tropeiros, foi nos lombos das mulas que a maior parte da produção agrícola chegou aos portos, para exportação ou consumo interno; isto alastrou-se por todo o Brasil. Em meados do século XIX, as tropas de mulas, foram um avanço no transporte do açúcar; cada mula podia carregar com sacos entre os sessenta e oitenta quilos.

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Em Minas, sem saída para o mar nem caminhos fluviais, todo o comércio era feito por mulas, inclusive o de produtos de difícil transporte, como o vidro. Por via deste s itinerários muares, surgiram estalagens nos caminhos, rústicos barracões abertos dos lados e sustentados por pilares. Ao redor destas infraestruturas acolhedoras, criaram-se roças de milho, plantio de feijão e comércio de outros géneros alimentares, vendas de tecidos e coisas a granel; sapatarias e afins de vestir com coiros e outros produtos da terra.

tropeiro12.jpg Os núcleos de população iam surgindo com necessidades de escolas, barbearias, ferradores, drogarias e casas de pasto. A partir de meados do século XIX, as topas de mulas sofreram a concorrência das carroças que se faziam locomover em picadas, como a estrada de Santa Clara, pioneira com seus 170 quilómetros ligando  a colonia de Filadélfia, em Minas Gerais ao litoral, iniciativa de Teófilo Ottoni  e a União Indústria, ligando Petrópolis a Juiz de Fora.

tropeiro10.jpg As estradas foram surgindo macadamizadas com pedra britada, aglutinada e comprimida. Surgiram as pontes e aquedutos em rios ou pequenos córregos com manilhas manufacturadas em novos estaleiros, os percursores da Odebrecht com novas engenharias misturando interesses com sabedoria financeira, corruptelas e manobradores de interesses dando gasosa como suborno e formas sociais criadoras de inveja, poder e manobrismo nas adjudicações; mais valias e caixa dois e até caixa três adulterando nossas vidas e criando falcatruas bancarias – a crise e o escambau como se diz aqui entre os vendedores camelós; práticas bem dificel  de se mudarem num Brasil que fez da corrupção um esquema modelo de gestão.    

tropeiro11.jpg Claro que tiveram de criar estações de muda, gabinetes de recursos humanos, um jeitinho daqui e outo de acolá e a necessidade de prisões para nela meterem os ladrões de alto coturno, descamisados e outros inocentes injustiçados. Pois! Sugiram as pontes metálicas, a industria dos interesses, o juro, os altos salários, os salafrários e vendedores da sorte, do bicho e da sogra - Também as ferrovias, as ciclovias, o lazer e os motéis de beira de estrada com Boralá, o Cêksabe, o fodaki entre outras inventações muito peculiares.  Um putedo carnavalesco de durar muito mais mais do que  quatro entrudos…

FIM

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:18
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Segunda-feira, 18 de Março de 2019
MOKANDA DO SOBA . CXLVII

ANGOLA DA LUUA XLVIII - TEMPOS PARA ESQUECER – 17.03.2019
Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, sentado na praia de Pajuçara, ouvi um sussurro de voz: -Ainda contínuas de pé!?… Era Tiago Rebelo, o autor do “Último ano na Luua”. 
- Estava a pensar em ti, disse-lhe numa sobressaltada estranheza…
Por

soba15.jpg T´ChingangeNo Nordeste do Brasil
Tiago Rebelo é o autor “ de “O Último Ano em Luanda”. Efectivamente pensava em publicar o epílogo de seu livro em BOOKTIQUE e, assim terá de ser por via deste desassossegado encontro mas, desta feita inserido nesta MOKANDA. Olhando as cordas de chuva a despejar no horizonte azul pensei: - É estranho pensar, de que nunca fomos os donos daquela rua, daquela cidade, daquele bairro, daquele país! Pois! Quem ouvisse os discursos de Agostinho Neto ou um qualquer quadro de destaque do MPLA, verificaria sem esforço no prevalecer das palavras de ódio contra os brancos, ovambos ou afectos à UNITA.

tiago1.jpg Também é estranho que todos se virem para o outro lado (até o presidente de todos os portugueses), peidando completamente à vontade esquecimentos profundamente adormecidos. Um mundo de sonâmbulos que só falam a dormir! Antes de se escafeder, ainda lhe disse: - O teu romance da Luua é muito real, vou ter de copiar teu epílogo porque a dizê-lo eu, seria igualito ao teu! Foi quando uma abelha escura esvoaçou em frente ao meu nariz deixando um cheiro a áfrica, um misto de formiga cadáver com lavanda (só poderia ser o Tiago). 

tiago2.jpg NOITE DO ÚLTIMO DIA EM LUANDA NO ANO DE 1975: - Estão todos presos – ouviu o comandante das FAPLA dizer: - Não estão nada presos – retorquiu Antero, adoptando um tom autoritário logo a abrir as hostilidades. – Eles são portugueses e vêm comigo para bordo. – Quem disse? – Assanhou-se o comandante (um antigo cabo refractário do exército tuga). – Digo eu, que sou capitão do exército português. – Você já não manda nada aqui. 
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- Mando, mando. A Independência só entra em vigor à meia-noite. Até lá, o senhor vai libertar estas pessoas e ordenar aos seus homens que se retirem desta base. Estamos entendidos? Não estavam. Formalmente, Antero teria razão, mas na prática o comandante das FAPLA tinha as suas ordens e elas eram muito específicas no que se referia a ocupar a base naval que os portugueses haviam abandonado. 

rev6.jpg O ronco profundo e cavernoso dos motores do NIASSA fez-se ouvir minutos antes da meia-noite daquele onze de Novembro. Levantava ferro. Nuno recolhera à enfermaria do navio assim que embarcara, mas depois insistira em subir ao convés para assistir à partida e ver Luanda pela última vez. Agora, ali estava em silêncio, um braço por cima os ombros de Regina, uma mão apoiada na amurada. A frota seguiu para norte em comboio. Ao bater da meia-noite, o céu de Luanda iluminou-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola.
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Mais a norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, os fogos das armas pesadas era a sério. Nuno e Regina testemunharam a batalha na linha da frente, vendo o céu iluminar-se com explosões no horizonte, como se fosse uma noite de trovoada. Silva Cardoso tinha-se sentido impotente para resolver os últimos acontecimentos; seus subordinados estavam de mãos dadas com o MPLA. Tudo continuaria a ser assim… Nuno desviou os olhos para Regina e viu o rosto dela iluminar-se com os clarões, também mantinha sim, um sorriso agradecido. Estamos vivos! 

silas2.jpg Naquele mês de Novembro, o MPLA venceu a batalha de Luanda e, com a logística militar portuguesa e dados do reconhecimento terrestres e fornecimento de armamento pesado, com a ajuda das topas cubanas e o apoio bélico da União Soviética, neutralizou a FNLA e empurrou as topas sul-africanas e zairenses para fora de Angola. 
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Durante décadas, o regime de partido único manteve-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje a um golpe de Estado e a uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Savimbi (Sua localização foi denunciada por via de utilização de um sofisticado celular ofertado por seus amigos americanos…).

niassa0.jpg Para a estória, ficaram anos de combates, as negociações de paz mal resolvidas (a preceito de Portugal, diga-se) e as eleições patrocinadas por mediadores internacionais, cujos resultados pouco ou nada valeram para acabar com o conflito armado. Lembro-me bem, em Muquitixe já tinha visto as estrias duma kalashnikov! E o soldado ébrio segurando a arma de forma desajeitada deu-me o alerta final! Vai-te embora branco… Esta não é a tua terra! E quem vai dizer o contrário com um canhangulo nos olhos… 

cos3.jpg A maior vitima dos erros da descolonização conduzida com leviandade pelos responsáveis portugueses, da intervenção militar de potências mundiais e regionais a pedido de Portugal e, finalmente, do egoísmo inveterado dos governos angolanos, foi sempre o povo, o qual, com guerra ou sem guerra, continua a soçobrar numa miséria e numa violência nunca vistas nos quase quinhentos anos de soberania portuguesa em Angola. O Niassa e o Uíge, acabaram por virar ferro velho, vendidos a peso pelo preço de saldo - muitas vidas, uma faustosa desilusão.
(Continua…)
O Soba T´Chingange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:48
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Domingo, 17 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVII

PEDRA DO REINO de Ariano Suassuma - 17.03.2019

O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta Brasil – Género Romance, fantasia épica do Nordeste brasileiro - 1971

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores … Ariano Suassuma

xique xique0.jpg :::::164Ariano Suassuma nascido na Vila de Taperoá sentindo-se só em um momento de sua vida imaginou-se ser um rei - um lindo devaneio, diga-se! Também se imaginou ser um grande apreciador do jogo do Baralho (Cartas de Sueca, bisca e burro em pé). Talvez por isso, o mundo lhe pareça uma mesa e, a vida, um jogo, onde os fidalgos se cruzam como Reis-de-Ouro com donzelas Damas-de-Espada, onde passam Ases, Peniscas e Curingas, governados pelas regras desconhecidas de alguma velha Canastra esquecida.

:::::165

Também como ele, eu, que não sou rei nem pretendente a acender a qualquer trono, incompreendido, agora que os anos me deram o trampolim da sabedoria, venho com meus sonhos, com conhecimento e os instrumentos de informação avançados pretender ser escutado. Se assim não for que seja como em Abrantes, tudo como dantes. Ambos, cada qual em seu tempo, nos preocupamos com os muitos e fúteis devaneios que no dia-a-dia observamos das gentes envolventes ao nosso quotidiano mundo Terráqueo - desta galáxia.

xique xique01.jpg :::::166 - Teremos de voltar lá atrás ao tempo de D. Sebastião quando por volta de 1569 quis, em um acto de foito jovem imberbe, recuperar as praças de África perdidas e abandonadas por seu avô D. João III. Suassuna, é inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilómetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião - transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África (Batalha de Alcácer-Quibir): sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força.

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De insensatez em desvario e antes de morrer em Alcácer Quibir, ofereceu os préstimos de Portugal a D. Carlos IX de França para combater os huguenotes (Mafulos). Entre méritos de dilatação do império e da fé, a França ficou só por aí, porque entretanto os Calvinistas acabaram por tomar o poder do reino de França. Veio em seguida a tomada de possessões portuguesas pelos huguenotes holandeses (os tais Mafuls) após a queda do reino para os reis Filipinos. Os países baixos estavam em guerra com os reinos da Espanha com sede em Burgos e, como tal, criaram a companhia das Índias Orientais e Ocidentais para açambarcar todo o espólio português que nesse então formava a Ibéria com os reis Filipe I, II e III.

xique xique1.jpg :::::168O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, Brasil, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei (juro a pés juntos que desconhecia – pensei que estas maluqueiras eram só vistas no M´Puto). Ariano Suassuna iniciou o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, seu nome completo, em 1958, para concluí-lo somente uma década depois, quando o autor percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade

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A vulnerabilidade das possessões portuguesas tendo no comando os reis espanhóis, deu azo aos huguenotes holandeses, franceses e judeus perseguidos pela Santa Inquisição a que formassem a tal Companhia das Índias, Orientais e ocidentais, uma forma de através de corsários se apropriarem da soberania desguarnecida nesse tão vasto mundo que hoje conhecemos. Juntaram-se a estes corsários ricos judeus de Antuérpia e Roterdão que dominavam o mundo do negócio de especiarias e exotismos distantes. O mundo europeu exortava em luxúria entre lustre de diamantes e ouro Inca e tantas novas coisas. Mais tarde, dias de quase hoje, tudo isso se entregaria sem contrapartidas fruto de traições, um desmoronamento sepulcral (uma tragédia que o tempo despolitizará) …

xique xique6.jpg :::::170 - Também, uma tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna, e a redenção do seu "rei" – uma reacção contra o conceito vigente na época, segundo o qual as forças rurais eram o obscurantismo - o mal, no urbano e no progresso - o bem. A história, baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, é dedicada ao pai do autor e a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, António Conselheiro e José Lins do Rego…

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Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme e alta pedra que lhe dá nome, todos envoltos na CAATINGA , um  termo tupi-guarani. Perto, no leito seco do Rio Taperoá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, cobertos de Marmeleiros secos e Xiquexiques (cactos).

xique xique5.jpg :::::172 Surge então o Conde Maurício de Nassau chefiando aquela forte Companhia das Índias, e que com forte armada debanda os Tugas de então de Olinda que fica sendo um seu bastião em terras de Pernambuco; estava em causa desbravar o interior profundo duma caatinga agreste e infestada de gente brava que comia seus inimigos para ainda ficar mais forte; os caetés e tapuias. Finalmente dizia assim: - Para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nossa Vila e cercados, eles mesmos, por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhados de negro e ferrugem;

xique xique4.jpg :::::173 Lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Carcarás, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo. Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o Sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da Justiça. As estórias sempre se repetem…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:09
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Sexta-feira, 15 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVI

-Este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua** - 15.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange ...(ADENDAS). No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 

 2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

:::::154valentina3.jpg Euclides, o jornalista benguelense sai aturdido do Clube Francês, lugar da conferência de imprensa com negociações. Nesta zona libertada pelo CV – Comando Vermelho, Ernesto, o motorista, espera-o estendido de costas no passeio, uma garrafa de whisky servindo-lhe de almofada, as mãos cruzadas sobre o ventre. Nestes dias tumultuosos já quase não circulavam táxis nas ruas da zona Sul do Rio, zona libertada para o Comando Negro.

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(O Rio estava a passar por uma situação muito parecida com a Luua do ano de 1975, tempo do Poder Popular com intervenção dos Pioneiros, uma Criação dos Comunas Tugas como Rosa Coutinho e outros FDP, para Angola e, que resultou na fuga dos gwetas colonos – O medo aqui tal como lá, dissuadia o cérebro… Foi o que eu, relator anotei por ter ouvido e, que não vem escrito neste Zumbi que tomou o Rio.)

angola4.jpg:::::156 - Eu gostava de ser negro – diz o jornalista benguelense. Na sua voz melancólica pressente-se um arrebatamento que é nele pouco comum: - Sou sincero. Gostava de se um Leopold Senghor, um Aimé Sesaire ou mesmo Sam Nujoma. Gostava de saber dançar como um negro, ao som da música de Louis Armestrong… Entretanto a cidade ia ficando anoitecida; sombras remexem-se ao redor num bailado de espectros. Ao longo da praia, de quando em quando, as fogueiras tremelicam a escuridão. São as luzes dos soldados do morro; do CV – Comando Vermelho.

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Nas esquinas das ruas o lixo acumulado desprende um fedor insuportável. À medida que se aproximam da linha da frente da Glória – Frente Leste, surgem mais fogueiras, em pleno Calçadão multiplicando-se em número de homens armados. Um grupo de guerrilheiros com aspecto muito jovem, pioneiros afro-ameríndios-descendentes (de indígena do continente americano) manda parar o carro. Apontam a lanterna para o rosto de Ernesto: - Onde tu tá pensando que vai?

IMG_20170721_124807.jpg :::::158 - Euclides mostra a carteira de jornalista. Estende-lhe uma nota de cinquenta reais. Seguem. Quinhentos metros à frente a estrada, está cortada por pneus, rolos de arame farpado, uma cancela improvisada. Cinco ou seis carros aguardam na fila a vez para passar. Do lado de cá, formou-se uma feira livre, com gente a assar frango, em largas grelhas de ferro, a vender pasteis e cachorro-quente, cerveja fria e água - uma por três reais e duas por cinco.

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Vários jovens candengues, quase todos com uma metralhadora ao colo, estão sentados no asfalto diante de uma televisão. Há gente a jogar às cartas como se nada se passasse de anormalidade.  Do outro lado o rugido de um gerador, fazia-se ouvir por detrás dos mukifos, um zumbido que parecia meter pregos mas, que davam luz em holofotes resplandecendo dezenas de carrinhas da Policia, ambulâncias e quatro blindados.

dia143.jpg :::::160 - Euclides, o benguelense jornalista, salta do carro. Sabe que embora a fila de carros seja curta, a negociação de paz entre o Governo Estatal e do Rio com o Comando vermelho, pode demorar. Dois soldados do morro discutem com um policial. Escassos metros os separam. Toda uma vida parada num ritual de passagem: - Nós não somos o inimigo, não, malandro. Tu és bem pretinho, tu és um fodinha, feito agente… Com fobia de ser mulato, o benguelense ouvia já na dúvida de se era bom ser assim – um preto*.

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- Calma aí! Sou negro mas não sou bandido não. Trabalho duro. Não me meto em baderna (amigo de farra, considerado um inútil, desclassificado…*). Um outro policial, um tipo muito alto, rosto coberto por um capuz preto, apenas com uma estreita abertura para os olhos, aproxima-se do primeiro segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido. O soldado do Comando Negro provoca: - Vais ser sempre um pau mandado do branco!? Se liga, meu, tu tá combatendo tua própria gente. Não ouviu o que o teu chefe Weissmann anda dizendo, não? O cara quer mandar todos os crioulos para África…

moka31.jpg :::::162 - O CV contínuo: - Teu chefe gweta vai ter de encontrar um barco do tamanho do Brasil… Dito isto ri com gosto levantando o punho esquerdo desenhando um “C” e o direito fazendo um “V”*. Euclides fica na dúvida pensando - este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua**… E, assim no meio destas periclitãncias vê que o policial encapuzado reage enraivecido. Grita com um forte sotaque gaúcho, voz roca de muito “chá-mate”*: - Está rindo de quê seu banana!? Vou aí e quebro a tua cara, sua bicha*!...  

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Bartolomeu Katiavela surge nesse momento, vestido com o uniforme de general do Exército angolano, repreende o rapaz. O policial governamental volta-se contra ele: - E tu, porque não vais fazer a guerra no teu país? Katiavala enfrenta-o. Está ali tão firme, tão íntegro, tão prepotente, que parece ter sido aparafusado ao chão. Entretanto ainda ouve o outro a dizer: - Quanto dinheiro esses filhos da puta*, esses marginais estão te pagando? A voz de Katiavala, límpida e sem esforço, assim como a de Net King Cole, sai com decibéis, sotaque coimbrão, acima do ronco do gerador Honda: - Porque não tira essa mascara? – Assim como está, parece um bandido.

( Continua…)   

Notas: *Item da autoria de T´Chingange; **gweta é branco; cangundo é branco de baixa condição, do musseque…

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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Quarta-feira, 13 de Março de 2019
SKUKUZA . I

Skukuza fica no Kruger National Park na África do Sul13.03.2019

Um santuário de animais em liberdade…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

Há exactamente quatro meses e três dias, estava em fim de passeio por oito países africanos a saber: - África do Sul, Namíbia, Botswana, Zimbabwé, Zâmbia, Tanzânia, Malawi e Moçambique. Por convite do melhor condutor de África, assim relaxado na confiança alheia, fui andando na esperança de chegarmos a Dar és Salaam mas, o medo dos Boko Haram fizeram com que na Tanzânia inflectíssemos para sul atravessando o bonito país com o nome de Malawi.

SKUKUSA1.jpg As mensagens do M´Puto chegavam até nosso guia-condutor alvoraçadas em forma de raptos e comportamentos próprios de grupos rebeldes que actuavam supostamente nas zonas do rio Rovuma; haveríamos que correr riscos atravessando o rio em jangada e nada era abonatório, o medo chegava em mensagens empoladas de raptos de mulheres na fronteira entre a Tanzânia e Moçambique.

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Do que vi e vivi, posso dizer que os chineses estão chegando em força àquelas paragens, lugares aonde judas perdeu as botas. Lugares de cú-de-judas mal definidos no GPS, nomes diferentes, de escassa orientação ou insuficientemente credibilidade. Lugares esquecidos pelos próprios colonizadores, agora diversificados num novo arco-íris de raças. Lugares em que a tensão racial se torna no dia-a-dia agravada por discursos empolgados de maus lideres, pretos racistas.

SKUKUSA3.jpg Lideres que curiosamente clamam uma coesão racial nada virtuosa nem tão perfeita como seria desejável. A relação entre negros e brancos, sempre foi uma relação violenta, historicamente muito impregnada de expropriações desumanizadas e, isto é sempre profundamente brutal. De lamentar que os negros, não obstante não se terem conseguido organizar no quanto baste ser suficiente para dar uma resposta política, ainda ficam feridos quando são chamados de “negros”.

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Precisam continuar caminhando no sentido de se aceitarem a eles próprios como pretos. Obviamente que há segmentos de negros organizados buscando equacionar o problema racial mas nem todos formulam seus propósitos numa perspectiva pacifista; muitas vezes insinuam-se como tal mas, de suas bocas saem monstruosas atrocidades. Muitas vezes empunham armas brancas, catanas ou outras, para gesticularem a paz.

SKUKUSA6.jpg A sociedade nem sempre responde da forma mais concertada, também não se vislumbra de todo, impedimento a outras formas de luta. E, nem sempre o é de legitima defesa ou em salvaguarda de um princípio nobre, ou suficientemente plausível a esse entendimento. Desconhecemos em pleno e, assim, o que as próximas gerações vão responder a tamanha adversidade e, ou exclusão.

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Eu, que sou branco, sinto-me muitas vezes excluído por pensar e dizer o que sinto. Nunca me ofendi por me chamarem branco mas, reconheço que nos dias de hoje ser preto e pobre, é foda! Mas, também o será ser branco e pobre mas, nem isto se fala nas palestras com gente dita erudita, sábia e o escambau. Se porventura uma guerra estalar eu sei de que lado, vou estar. Não me pintarei de preto como tantos parecem indiciar, insinuar; nem tampouco deixarei de chamar preto ao negro! Estou-me pouco lixando nas regras ou leis descabidas…

fotos ZÂMBIA 037.jpg Não andarei à busca de um termo supostamente menos chocante como é agora tão comum quando arranjam estratagemas de afrodescendentes entre outras hipocrisias. Eu não sou euroafricano, sou branco! Nem tanto – sou só um pouco tostado do sol Não posso estender o céu, torcê-lo, sorvê-lo ou adaptá-lo no meu pedaço de raciocínio porque aqui e além, o sangue espirra e alastra, até se derramar em chuva dum fim de mundo sobre as ruas, as casas os bairros. Bairros de brancos e pretos – de gente!

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Posso espreitar tudo isto por um binóculo, posso chorar ou reclamar mas, pouco adiantará; não sou ninguém para alterar o curso da vida ou da estória de alguém. De mãos limpas e pés polidos dou-me a tréguas em desejos de somente resistir aos desmandos que me podem contagiar na mente ou no físico! O que posso garantir é de que nosso cérebro é verdadeiramente brilhante.

SKUKUSA4.jpgLi e entendi tudinho o texto que se segue: - 35T3 P3QU3NO T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 WO5T4R C0W0 4 N0554 C4B3Ç4 CON53GU3 F4Z3R CO1545 1WPR35510N4NT35! R3P4R3 N1550! NO C0M3Ç0 35T4V4 M35W0 C0WPL1C4D0, M45 N35T4 L1NH4 SU4 W3NT3 V41 DEC1FR4ND0 0 COD1G0 QUA53 4UTOWAT1C4W3NT3. 53W N3C3551T4R P3N54R WU1T0, C3RT0? P0D3 F1C4R B3W 0RGULH050 N15T0! P4R4B3N5! E5T4  53W 4LZE1W3R!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:20
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Domingo, 10 de Março de 2019
N´GUZU . XXXII

CONHECER O BRASIL

BRASIL – Recordar o que são os TROPEIROS - parte DOIS … 10.03.2019

Construiu-se no tempo uma imagem romântica de tropeiro, o herói, quase um bandeirante que enfrentava onças e outros animais entre agrestes caminhos ou lodaçais descritos e esboçados em livros de bandas desenhadas…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Analisando a zona cafeeira do Vale do Paraíba, pode avaliar-se o tropeiro como hierarquicamente inferior e dependente do proprietário de terras, posto que, itinerante, precisava dele para manter seus animais nas pastagens das fazendas. Os condutores de tropas, fariam parte do pessoal da fazenda, levando a produção de café até aos agentes intermediários em vilas ou cidades e, voltando com mercadorias para o bom funcionamento da fazenda, ficando assim mais subordinado ao proprietário, major, capitão ou até major segundo a gíria local que com o tempo se tonou regra.

tuiui3.jpg Fica assim incerto no tempo se o condutor, como “homem livre do povo”, seria comerciante ou tropeiro. Mas, no entanto nas funções de tropeiro, encontram-se pessoas de fortunas variadas. Para além de do comércio de muares e fazer frete de mercadorias, poderiam ser proprietários de terras e escravos, comercializando seus produtos muitas vezes conduzindo pessoalmente sua tropa.

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Reconhece-se a dificuldade de o tropeiro ascender socialmente a cargos públicos que lhe valesse prestígio, dada a extrema mobilidade de sua actividade embora alguns o fossem: abastados. Era evidente haver tendência para ocultar essa actividade segundos relatos biográficos descritos por homens cujas famílias “enobreceram”. Ser-se tropeira tinha com conotações com o ser-se pobre, coisa bem relegada ou escondida como uma pobreza nada enaltecedora ainda nos dias de hoje.

tropeiros5.jpg O crisma de se ser pobre é como uma doença cancerígena que se pega e, daí o querer parecer outra coisa num faz de contas. Por isso o garçon chama para agradar a todo o cliente: Siô Dôtor! Quem não conhece este tipo de comportamento social que tudo faz para parecer o que não é! Quantas desilusões têm, um ou outro, com gente que não valendo um caracol sem bicho, se arma e sobe na sociedade fingindo-se! Ninguém quer ser pobre, é uma realidade e, os tropeiros tinham também esta dificuldade de vencer noutras áreas sociais.

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A actividade de transporte de mercadorias assim como o comércio em si, no século XIX, ainda permaneciam malvistos. Quando D. João VI pôs em leilão a venda de títulos nobres com o fito de fazer nascer e crescer o banco do Brasil, foi um Deus nos acuda na pretensão de se ter um título e, assim foram vendidos escalões de nobreza distribuindo pelo Brasil a envaidecida vontade de se ser alguém: -Conde, Barão, Duque entre outros.

tropeiros2.jpg E, foi assim por algo quase fútil ou no mínimo curioso que se deu solidez ao grande país que é hoje sem se dividir em uns quantos fragmentos, outros tantos possíveis países tal como os demais existentes de língua espanhola do continente Sul-americano. O poder foi aparentemente distribuído por senhores que no tempo se iam debatendo por si próprios originando áreas de influência que mais tarde se tonaram estados como se condados o fossem e que hoje formam o Brasil, uma federação de Estados.

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No Brasil e desde tempos antigos, todos os que trabalham com as mãos, são considerados como portadores de “defeito mecânico” e, contra este preconceito nem os políticos de primeira linha, os pseudo nobres trabalham para se fazer a mudança, dando a si mesmas regalias majestáticas. Não é sem razão que existem descontentes formando gangues de mando nos arrabaldes, nos lugares de favelas, cortiços ou quilombos que traficam desde droga a coisas de primeira necessidade como gás ou água ou cobrando taxa de segurança a quem labuta em quiosques mercados de pouca monta, como se fosse um jogo de bicho.

tropeiros3.jpg Na função de tropeiro havia a agravante de alguns dos chefes de tropas serem ex-escravos; por isso ser tropeiro e mais tarde carreteiro, condutor de carretas com bestas ou motorizadas, chegando ao pau-de-arara, caminhão de caixa aberta fazendo de táxi colectivo, não era e, ainda não o é, um motivo de orgulho. Mas como já disse muitos ficaram ricos – ter dinheiro dava a condição de poder vir a ser nobre. Em verdade D. João VI foi de uma visão extraordinária mas, e infelizmente, é conotado como o rei da “coxinha de galinha”.

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Dois casos são exemplares, apesar de excepcionais. O barão de Iguape, António da Silva Prado (1788-1875) do Estado de São Paulo, provavelmente foi um dos maiores comerciantes de animais do século XIX; com seus negócios em Minas Gerais, chegou a actuar como arrematador de impostos de animais em Sorocaba. Tornou-se grande empresário, cafeicultor e patriarca de ilustre família paulista. Entre seus netos destaca-se o conselheiro, senador e ministro do Império, António da Silva Prado – entre 1840 e 1929.

lampião8.jpg David dos Santos Pacheco (1810-1893), que foi barão dos Campos Gerais, enriquecido com terras de invernada d animais no Paraná e pastos em Grande Rio do Sul e Sorocaba. Ele próprio conduzia as tropas no começo de sua actividade, tendo depois delegado a terceiros. Seu maior fornecedor de animais era também o barão de Jacuí. Construiu-se assim uma imagem romântica de tropeiro, o herói, quase um bandeirante que enfrentava onças e outros animais entre agrestes caminhos ou lodaçais.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:05
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Sábado, 9 de Março de 2019
XIPALABOOK . I

Xipala é rosto, é cara e, book é livro - 06.03.2019

Minha cara é um livro aberto – É assim que se diz mas, nem sempre o que parece ser, o é...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

sacag1.jpg Esta palavra aglutinada espacial, foi inventada por Maria João Sacagami, uma insigne psicóloga dedicada às coisas do paralém, que trata os mistérios duma forma imperceptível num tu-cá tu-lá. Ela que Saca e interpreta a fúria das nuvens cavalgando nelas assim na forma fácil de como eu navego sentado num chassi vruum vruum como se fora uma zundap. Um especial veículo cabo de vassoura de pura piaçaba, volante cabo de pau-rosa e com um quase imperceptível motor movido por salalés…

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Pois! Uma coisa de outro mundo que nem o chefe da suprema corte do Xingrilá consegue definir na torpitude dum surreal quadro. Salalés de áfrica que zundrapão movendo seus pistons ortorrômbicos no eixo longitudinal e, usando óleo de amendoim reforçado com óleo fino de carnaúba espacial e, ainda mais uns aditivos e aplicativos tirados duma galáxia ainda não inventariada nos longínquos arrabaldes da Xirgosia.

sacag3.jpg Aparatos e zingarelhos, que se movem no retrogrado sentido do escape tardoz, muito recheado de minúsculos chips. Posso reler-me na contraluz do espelho convexo do veículo, uma muito complicada figura de muito para lá do paratrás, algo quase desentendível dum vulgar humanóide terreno. Relembro assim perturbado, minha singela proposição de quando só era um soba sem coturno, um sem eira nem beira, uma singularidade quase imperceptível com a presente figura plasmada.

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E, vi-me lá longe no início do meu funil do tempo: Assim vestido a rigor de cerimónia, com um manto adornado de conchas, vários colares com dentes de leão, contas de vidro missangando o pescoço, uns chifres de pacaça duros e pesados a fingir de cornos na dianteira testeira, dois olhos ressequidos de facochero colgando das orelhas – um em cada uma delas.

143.jpg Pude rever-me aqui, um soba de categoria super tutelado por N´Gola Kiluanji, meu rei saído dum raio de sol, duma kúkia manobrada com fumaça por N´Gola M´Bandi, o Kimbanda tribufu do meu Kimbo ancestral, pensava eu! Afinal era o fim da kúkia dele – Kiluanji, morreu todo inteirinho… Bom! Falando de mim, ao redor da cintura, uma pele de cobra surucucu simbolizando meu estatuto de soba. Como se tudo fosse pouco ainda tinha um chapéu tipo cartola, alto e, ao qual estavam presos pequenos ossos talhados, saídos da falange falanginha e falangeta do King Kong, algo inexplicável…

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N´Gola M´Bandi batendo palmas, cai um silêncio quase sepulcral, tal o respeito que dava para se sentir emanando daquele personagem tão cheio de estralhos e outros menores aplicativos sem descrever ao pormenor suas salientes tatuagens envolvendo seu umbigo do tamanho dum abrunho preto. Uma indumentária só mesmo de um Kimbanda supra numerário do reino. Logo a seguir vinham seus guardas pessoais, suas mulheres e filhos, uma multidão ao som de timbales e marimbas.

sacag2.jpg N´Gola sentou-se pesadamente no cadeirão bem no topo da encosta e depois de todos ficarem em silêncio pela segunda vez, após segunda batida de palmas. O que conto a seguir até a mim me repugnou. Após a secreção de sua laringe lhe afluir à boca, um dos seus atentos macotas aproximou-se, ajoelhou-se e á sua frente com os braços bem no alto e suas mãos abertas em forma de concha, aguardou que N´Gola, com um potente ronco e um rápido movimento de língua, projectasse nas mãos daquele seu vassalo uma massa viscosa verde que este recebeu com muitas seguidas vénias.

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Com um ar compungente, e logo após aquela viscosa massa ser guardada em um recipiente em forma de cabaça muito ornamentada, falou: “Por muito que me custe, terei de resignar-me aceitando a missão dos meus antepassados. Eu serei o rei que todos desejam!” – Ouviu-se um trovão saído do meio das bissapas, um fumo branco e em seguida um tremendo clamor sido de todos em uníssono. Estava concluída a tomada de posse do novo rei…

capeta0.jpg  Os músicos, marimbeiros e tocadores de tambores recomeçaram o batuque; é curioso referir aqui que até um chifre curvo apareceu tocado na forma de berrante, algo curioso que eu tinha assistido no paralém do futuro em uma terra distante aonde havia muito gado. A multidão dançava em círculos batendo os pés na terra e em simultâneo fazendo uma perfeita coreografia de tantãn zulu. Ainda bebi vinho das cabaças e até sangue de boi a borbulhar mas, num repente minha cor começou a ficar branca e sem mais, tratei de me por ao fresco. Bazei!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:53
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Sexta-feira, 8 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXV
TEMPO DE CINZAS – MALAMBA é a palavra – 07.03.2019
Marcelo do M´Puto ganhou a alcunha de Tio Celito na primeira vez em que esteve na Luua, na tomada de posse de João Lourenço, em 2017. Regressa agora para consolidar a reputação e a normalização luso-angolana. Tomara que seja…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Foi a 15 de Janeiro do ano de 2007 que eu e minha sobeta consorte, passamos a noite na Residencial Camões, bem perto da praça com o mesmo nome da cidade de Lisboa e, mesmo em frente da Embaixada do Brasil aonde iríamos obter o visto de residência permanente. Ficamos na Rua do Poço, um lugar em que os criados escravos e as escravas negras, do fim do século XIX levavam em baldes a merda e o mijo de seus nobres senhores moradores neste Bairro Alto de Lisboa, para um tal poço.

poço1.jpg Mas, esta rua é muito antiga! Antes disto e exactamente a 13 de Novembro de 1515 – século XVI, ou seja trezentos e muitos anos antes desta minha dormida em Lisboa, pode ler-se em arquivos da Torre do Tombo em uma carta regia de D. Manuel I escrita em Almeirim e dirigida à cidade de Lisboa, sobre a necessidade de se construir um poço para depositar os corpos dos escravos mortos. Salientava que haveria que se evitar a todo o custo os tão habituais surtos epidérmicos.

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As barricas de penicadas do século XIX, eram despejadas neste poço ou directamente no Rio Tejo. No ar daquele então, havia um constante cheiro nauseabundo de merda e coisas putrefactas. O panorama era todo muito igual em Paris, em Londres, Madrid ou Roma. Esta é uma das razões porque os franceses têm dos melhores perfumes do Mundo. As pessoas não tinham o hábito de se lavar com frequência.

poço2.jpg Basta recordar a Catedral de Santiago de Compostela aonde desde a idade média se juntavam peregrinos idos de toda a Europa. O Bota-fumeiro gigante balouçando no átrio principal-altar da Catedral, era nem mais nem menos para fazer desaparecer o cheiro nauseabundo que acompanhava os viajantes. Hoje, não podem imaginar o fedor que soprava por entre aqueles antigos prédios das muitas cidades, do estrume acumulado nas travessas, becos com matilhas de cães mordiscando restos como se abutres fossem; também das centenas de carroças despejando toneladas de excrementos que por ali iam sendo pasto de milhares de moscas com milhões de bactérias.

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D. João VI fugiu para o Brasil com sua corte levando consigo muitos inúteis nobres que viviam à sombra da linhagem. As moscas através do tempo mudaram bastante, mas há outro tipo de bosta nos dia de hoje, a dos comportamentos, da falta ou descuido dos políticos de alto coturno - o de não se manter o desejado nível de seriedade ou aprumo no trato entre nações que deveriam fluir tranquilidade. Terei de mencionar a falta de decoro nas relações diplomáticas fazendo de casos menores como o da JAMAICA uma empolgante notícia e, aonde ambos os países, Angola e Portugal terão de se sair envergonhados.

modas0.jpg Um pela descabida prepotência e o outro pela falta de decoro subestimando-se de forma pouco enaltecedora. O Portugal de hoje com um governo tripartido e descrente e a Angola actual do MPLA, desrespeitadora de princípios básicos de solidariedade. Se não houver comportamento de estadistas, se prevalecer a bajulação encardida de hipocrisia o quanto baste, quebrando algum do nosso orgulho, sempre subsistirá raspas de azedume. Nas bocas do povo surgem comparações com países de quarto mundo – é a JAMAICA mas poderia perfeitamente ser o Haiti… Angola e Portugal, no correr do tempo e consonante a evolução e relacionamentos em princípios sociais, não podem alinhar nesta diapasão de acasos destemperados.

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Pode concluir-se que a ignorância de muitos, apazigua os espíritos duns quantos que se submetem, que se subestimam, que quase se poem de joelhos a pedir desculpas – desculpas indevidas! Haja paciência! Esta é outra merda - uma empobrecida quietude, morna quanto baste para aquietar expectativas de mudança. Triste realidade de submissão com fantasmas fabricados num passado: Angola – Portugal… quanta desilusão!

saramargo03.jpg Diz a carta de D. Manuel I, que os escravos eram mal sepultados e, muitos seriam mesmo lançados (...)"na lixeira que está junto da “Cruz da Pedra” a Santa Catarina (actual Rua Marechal Saldanha) que está no Caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos, ou para a praia onde ficavam à mercê da voracidade dos cães.

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Para evitar as deletérias consequências de tantos cadáveres não sepultados, achava o Rei, "que o melhor remédio será fazer-se um poço, o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais conveniente, no qual se lançassem os ditos escravos" e para ajudar a decomposição dos corpos, dizia ainda que se deitasse " alguma quantidade de cal virgem" de quando em quando.

poço6.jpg Tal medida seria cumprida pela Câmara que o teria mandado fazer no referido caminho para “Santos”, descendo a actual Calçada do Combro conhecido por "Horta Navia" (nome de uma divindade indígena após a ocupação Romana). A actual localização perdeu-se, mas a aproximação geográfica do antigo Largo do Poço Novo (actual Largo Dr. António de Sousa de Macedo) ao fundo da Calçada do Combro, nome que já nos aparece na segunda metade de “quinhentos”.

poço5.jpg Com as novas posturas do século XXI, ficamos na expectativa de não existir entre países irmãos, a tristes relações de estado originando um sintoma da maior frustração, para quem dali saiu com um tão grande sentimento de injustiça pela descolorida descolonização. Neste enredo carnavalesco de relações internacionais não podem agora à semelhança da idade média cagar-se no orgulho parecendo ser a dado momento a merda dum cenário, um enredo nada agradável a reviver para reforçar nosso desenraizamento ou um simples alheamento.

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:08
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Terça-feira, 5 de Março de 2019
N´GUZU. XXXI

CONHECER O BRASIL 05.03.2019
BRASIL – DIA DE CARNAVALNa passagem do primeiro para o segundo tempo* na vida do BRASIL, irei recordar o que são os TROPEIROS- parte UM … 
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

tropeiro1.jpg Aqui na Mata Atlântica à beira mar, no Agreste e depois no Sertão, pode-se comer como acompanhamento a qualquer prato, a farofa, o pirão de mandioca aguado, arroz e feijão preto. Entre muitas das iguarias tem um especial acompanhamento que é o feijão tropeiro. Recentemente, provei um prato de costeletas de vaca ou boi como aqui se diz, feito bem à maneira tropeira. Só carne com salsicha na proporção de um para meio, feito na panela de pressão em vinte minutos. 
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Convêm meter no fundo da panela umas quantas rodelas de cebola para não torriscar a carne em caso de descuido, cozida em lume brando e também para lhe dar um certo sabor. Em verdade pode-se acrescentar outros legumes para variar o gosto mas, este é o modo mais simples de se cozinhar. O tropa condutor de mulas não tinha muito tempo para cozinhar sofisticação; o lema dele era chegar ao destino no mínimo tempo levando seus muitos animais e sua carga variada, para as vendas de comerciantes situadas bem por detrás de morros, charcos ou serras medonhas difíceis de transpor. 

tropeiros2.jpg Ora é por aqui que teremos de explicar o que é isso de TROPEIRISMO. Na historiografia o termo é referido por via dessa actividade estar relacionada desde o século XVIII, com tropas de mulas, animais criados nos campos do Rio Grande do Sul, onde havia uma salinização natural nos pastos, condição de sobrevivência para esta espécie existente tanto aqui nas pampas, terras de Cisplatina, de aquém rio da Prata, ou mais a norte, no Vale do Rio de São Francisco. 
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As mulas xucras, percorriam em grande número, por vezes mais de dois mil quilómetros, passando por invernadas, sobretudo nos campos do Paraná, até chegarem às famosas feiras de Sorocaba, na região de São Paulo. No início do século XIX, calcula-se que cerca de vinte mil muares eram anualmente negociados em Sorocaba, passando para cerca de cem mil, na década de 1850 e, declinando para dez mil a partir dos anos 1880.

tropeiros01.jpg No ano de 1817 foram importadas cerca de doze mil bestas destas para Minas Gerais. O percurso era trabalhoso, e as tropas eram compostas pelo condutor-chefe, camaradas e cozinheiro, além de cães amestrados que evitavam a tresmalhação dos animais, bem à maneira dos cães da Serra da Estrela ou Caramulo do M´Puto que juntam o rebanho de ovelhas ou cabras. Éguas madrinhas, experientes, enfeitadas com arreios de prata de Cisplatina, guizos no peitoral e Chapéu de pluma na cabeça, dirigiam os lotes de muares. 
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Os rebanhos de ovelhas em transumância entre as lezírias e pastos tipo savana do Alentejo, num Portugal de há setenta anos atrás, também eram enfeitados os animais mais nobres do rebanho. Levavam grandes chocalhos a fim de assinalarem o caminho na deslocação para as terras férteis mais a norte das Serras de Montemuro, Leomil, Lapa ou Marofa entre outras e, cada lote demarcado por sinais de ferro eram enfeitadas com duráveis serpentinas nos chifres, também no intuito de as distinguir; estas eram de fulano, aquelas eram de beltrano e as outras eram de sicrano…

tropeiros6.png A dieta dos condutores consistia fundamentalmente em carne seca, charque ou de sol, feijão, angu de milho, fuba – farinha de mandioca, café e açúcar, produtos transportados em sacolas de ráfia, piaçaba e outras fibras do mato, por mulas cargueiras. É assim que chegamos ao tão conhecido “feijão tropeiro” e o “ carreteiro de charque”. A cachaça sempre presente, era mais usada para evitar gripes do que propriamente para ser bebida avulso; tudo isto era consumido tendo no final uma passa de fumo, para falar bem à maneira moderna; fumo de rolo que funcionava como emplastro contra picadas de insectos e cobras.

tropeiros9.jpg A expressão “tropeiro” em verdade, abriga tipos sociais muito diferentes a saber: - o condutor de topas de mulas, eram assim chamados ou também de “peões de conduta” atrás descritos; o negociante era conhecido por isso mesmo, “negociante de tropa”, “solta” ou “carregada” – isto quer dizer que negociava toda a tropa com carga ou o animal solto de carga ou ainda, de só um ou mais animais com sua carga. Havia também o “dono de tropa de mulas” que cobrava pelo frete, assim como se fosse uma companhia moderna de ónibus, autocarros.
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Deveria ser uma vida bem difícil, andar dias e dias em sinuosas travessias e a partir das terras a Sul, terra de Gaúchos. Levar à semelhança dos pastores de ovelhas de Portugal agasalhos, mantas coloridas de Minde e ou mantas de trapos da Beira Alta, pesadas para xuxú, para resistirem às intempéries. 

tropeiros3.jpg Água ardente feita do bagaço da uva para desinfectar a goela e as feridas. Levar chapéus-de-chuva ou capas feitas em palha para poderem prosseguir andamento debaixo de chuva, nevoeiro e assim aguentar os contratempos; largados das famílias por espaços longos no tempo. Recordo de ainda puto, candengue, pivete, rapaz, observar atrás dos muros, pequena fragas empilhadas a circundar caminhos poeirentos, na espreita a ver longos rebanhos que levantavam pó; levavam horas a passar, uma alegria diferente, com cheiro e sabor…

tropeiros4.jpg Eram chocalhos e guizos – eram gritos e apitos no meio dos pinhais das terras altas do M´Puto. Homens encorpados com vestes fortes levando aos ombros mais mantas e até por vezes um cordeiro de tenra idade, balindo por sua mãe no meio do rebanho. Cheiros tão antigos que já poucos se lembram – Tempo do Zé do Telhado lá no M´Puto e do Lampião aqui das terras do Nordeste. Em homenagem a estes homens ainda tomo uma pinga de cachaça no café Santa Clara, uma pinga de aguardente – Que sabor tão divino. Que o diga meu amigo Arrais de Bustos que por aqui anda à bem mais de uma vida vivida…

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Nota*: O Brasil tem dois tempos distintos no ano: - Um ANTES e o outro DEPOIS do CARNAVAL… Bem dizia o Presidente De Gaulle: O Brasil não é para ser tomado a sério… 
(Continua…) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:40
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Domingo, 3 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XV

“Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas, trauteei!? Reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo – Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. - 03.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

agualusa2.jpg :::::144 

Eram 5.55 horas deste dia. O telefone tocou!... Preparava-me para ir à Praia da Pajuçara - deposito a xicara de café Santa Clara ainda muito quente no balcão de granito preto. Surpreso pela hora tão matinal e com o carnaval a desfilar na televisão tão cheio de cor no sambódromo de São Paulo penso: Quem será!? Vou atender pensando ser a Margarida a dizer que afinal, mesmo depois de passar a noite na refrega do samba do Jaraguá, sempre vai à praia. Atendo com um alô, alô! … Num espanto de quase susto, ouço: Sou o José Agualusa, o dono do Zumbi!... E, segue-se um espaço descolorido em cima dum branco fosforescente… Caramba é ele, o próprio! - Mas que prazer, disse assim meio tremendo de emoção com um formigueiro nos gémeos das quinambas. O José Agualusa!?

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Mas que prazer, repeti de forma escusada, meio encafifado e, ainda tendo na cabeça a musica “Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas,… trauteei!? Não! Diz Agualusa meio a rir-se de meu titubear feito bobagem de susto!  Não, diz ele do outro lado da linha… (uma pequena pausa, creio que um gole de whisky, dum surdo e insuspeito gluk…gluk…) É para te agradecer pela propaganda que tens feito do meu livro do Zumbi!   

agualusa1.jpg :::::146

Também para te desejar um bom carnaval!... Estou em Curitiba num “Work Shop literário” e ontem vi alguém que tu descreves nas tuas mokandas do Kimbo! Também na Kizomba! Alguém que anda por aqui a farejar negócios - reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo, disse isto como se eu apreendesse a mensagem vendo a figura. Não sei do que falas nem de quem falas! Disse eu, muito verdadeiro na surpresa. Nem tampouco conheço quem tenha uma orelha postiça. Pois, eu assim disse: - Não sei de quem falas amigo? Ele, o Agualuza, tinha sido meu vizinho lá no Huambo, podia dar-me a estas íntimas aproximações… Afinal quando ele cresceu, eu estava na Caála (Robert Williams).  

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Resposta rápida: Do teu personagem Coronel Fala Kalado, o morto vivo! Pópilas… (eu, no discurso directo) nem sabia que assim era! Às tantas até tem uma perna de pau que vira metralha ou catana em casos de periclitãncias e, eu sem saber. Pois é! O cara andou por aqui rondando. Não fosse eu saber de vossas relações e nem te iria perturbar a esta hora! Assim, como quem demonstra estar muito ocupado e após um Hic…Hic… xuk…xuk…krás…krás disse: - Fui! E, foice, digo foi-se mesmo!

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E, eu que fazia o Coronel emérito das FALA estar bem perto de Poconé a traficar armas em troca de pó feito chocolate de canábis lá para os lados da Bolívia. Assim confuso, resolvi desvendar um pouco mais de sua escrita matrix das guerrilhas do Morro da Rocinha, lendo e relendo sem conseguir atinar na quietude do desassossego. Como é que descobriu meu telefone deste mukifo? Coisas por desvendar. E, que quereria ele dizer-me com esta descrição do cara ter na cara uma cicatriz bem por debaixo da orelha esquerda que era falsa. Vou-te contar (disse de mim para comigo mesmo!)

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RIO DE JANEIRO, IPANEMA, CLUBE FRANCÊS, NOITE – Na zona do CV – Comando Vermelho; Euclides, o jornalista, levanta a voz: Ouviste o que te disse? – Ouvi. O Presidente baicou… (morreu…) - E não te interessa? Francisco Palmares franze as sobrancelhas. Toda a sua atenção está concentrada no grande mapa da sala de comandos. Coloca e retira alfinetes. Desenha círculos a tinta vermelha em redor de determinadas posições. Enlaça os dedos e estala-os. Finalmente volta-se para o jornalista: - Então o velho baicou? Morreu como? – Faleceu durante o sono, enquanto fazia a sesta, ele era do tempo em que ainda se fazia a sesta. Ataque cardíaco. Foi Monte quem o encontrou… (parecem referir-se ao JES, o dono d´Angola)

matrindindi1.jpg :::::150

- Monte? O nosso amigo tem um talento especial para encontrar defuntos… Diz isto distraído e retoma o trabalho. O destino de Angola já não o entusiasma. Euclides senta-se numa cadeira. Abana a cabeça. Afaga perplexo o farto bigode. Aborrece-o o alheamento do outro: - Pensei que te agradaria a notícia. A morte do Velho vai abrir caminho para a democracia plena. O regime está a viver os seus últimos dias. Se a vossa aventura tiver um final feliz, entendes?, se o Governo aceitar as vossas condições … (este governo, é referente ao Brasil do tempo do PT - José Inácio, ainda liberto…) Pois tu não entendes, coronel?!...

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Se o José Inácio amnistiar toda a gente, podes depois regressar à Luua (Luanda). Francisco Palmares enfrenta-o de novo. Desta vez olha-o com intensidade. Pousa a mão nos ombros dele. Euclides sente-lhe a febre. Uma serena tristeza: - Eu já não volto meu kota. Não terei a alegria de morrer na Luua. Primeiro porque encontrei o meu destino. E depois, talvez nem se chegue a um acordo com o Governo (de novo o Brasil), talvez não haja um final feliz. A coisa aqui está a ficar preta (feia)… - O que dizes? Tu sabes que temos problemas…

araujo53.jpg :::::152

Começa a faltar comida na cidade e, como dizia a minha avó, em casa que não tem pão todos ralham e ninguém tem razão… Há divisões no movimento (do CV-Rio - Comando Vermelho), tem gente que quer assaltar os supermercados, os armazéns…Está a ser difícil lidar com algumas pessoas… O jacaré!?... Olha, por exemplo, o Jacaré. Muito destes mwadiés não têm formação politica. Em Angola vivemos um processo semelhante, não foi?, em setenta e cinco, quando o partido do M decidiu recrutar o lumpens (?),  a bandidagem dos musseques, gente habituada a fazer tiros… Mas não eram militares, faltava-lhes a disciplina… (refere-se aos pioneiros e outros desclassificados). E a seguir, ainda por cima, para saldar a dívida, deram-lhe cargos de responsabilidade… (de cabos fizeram generais num piscar de olhos).

café da avó1.jpg :::::153

- Pareces o teu pai… O meu Pai? O erro do meu pai, kota, aquilo que o perdeu, foi nunca ter sido capaz de passar das palavras aos actos. Democracia plena em Angola? Não, não penses nisso. Vai ficar tudo na mesma. (já Agualusa feito osga, estava a ver o filme bem afrente, com o laranja JL…). Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. Como assim? – Em Angola talvez seja possível derrubar o regime, mas não vai mudar nada. Aqui (Referia-se ao Brasil), ao contrário, podemos até perder esta batalha. Mas, depois da nossa derrota, acredita, nada será como antes. Mesmo derrotados, teremos vencido.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:08
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Sábado, 2 de Março de 2019
MU UKULU – XV

MU UKULU...Luanda do Antigamente02.03.2019

Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos, símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

muralha10.jpg Ainda como adenda a livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1910 em Angola e zonas de influência. O lingote era vertido em nó de caniço, uma forma manejável de um metal pesado, monetário ou não. No entanto a forma cilíndrica, ou vergalhão, era a mais espalhada pela África austral, tal como o material para a confecção de manilhas na forma de mutsuku, os “cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo”.

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Cada manilha era equivalente a 133 gramas de metal, o preço de uma enxada de ferro. Os tamanhos mais pequenos deste lingote, lembram as orelhas de um martelo: foi um tal Bent que primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruinas do Zimbabué em Fort Victoria e, de que Hall and Neal em 1903 encontraram o molde feito em talco xistoso, na estação de U’Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e “um jogo de bolinhas de talco xistoso”.

Mu Ukulu30.jpg Outros 12 moldes conhecem-se de Elizabethville e da Zâmbia; 21 espécimes foram encontrados por António Joaquim da Rocha “em Gwengue, junto ao rio Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva”, província de Manica e Sofala em Moçambique.

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A cruzeta era em tudo igual à cruzeta dos povos primitivos da Europa. Os mutsuku já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional quando os Venda bantos ali chegaram no século XVIII. Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena – mineiros do estanho do Rooiberg, distrito de Waterberg no Transvaal – em moldes cavados em areia ou talco xistoso.

Mu Ukulu19.jpg Lombongo – De libongo, nome dado em Angola ao “paninho” tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em N´Gola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de cinco reis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o autor, o termo é crioulo, derivado do kimbundo m’ilambongo, “uma quantidade de imbonge” (sing. m´bonge, ou ‘bongue’) coisa de contar, como o nó do caniço.

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Significa hoje, simplesmente, “dinheiro”. Macuta – do kimbundu makuta, plural de likuta, o nome quicongo dos célebres “panos”, tecidos de fibras vegetais que correram como moeda em Angola até 1694. A partir deste ano, correram principalmente moedas de 10 reis produzidas para “o Brasil e Guiné”, querendo ‘Guiné’ dizer todas as possessões portuguesas.

mucu2.jpg As macutas, com o dístico “África Portuguesa”, só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do marquês de Pombal. Conheceram, porém, uma grande distribuição no reinado de sua filha D. Maria I. Houve emissões em 1783 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata; 1 macuta, em cobre), 1784 (6 e 4 macutas, em prata), 1785 (1, ½ e ¼ macuta, em cobre), 1786 (1 e ½ macuta, em cobre), 1789 (12, 8, 6 e 4 macutas, em prata; 1, ½ e ¼ macuta, em bronze) e 1796 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata portuguesa correndo em toda a costa ocidental de África.

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As macutas foram desvalorizadas 50% sob o regente D. João, em 1814 (carimbadas nas missões até 1816), e não tiveram novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria foram de novo desvalorizadas em 20%, mas houve novas emissões em 1848-51 e em 1853. Sob D. Pedro V houve emissões das moedas de ½ macuta (1858) e de 1 e de ½ macuta (1860).

mucuisse.jpg No reinado de D. Luís I houve um ensaio de nova moeda para Angola: as moedas de 20, 10 e 5 reis de 1886 substituiriam as macutas, mas nunca foram produzidas. Assim, as macutas correram em Angola até à implantação da República em 1910, durante, portanto, 148 anos e 9 reinados.

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A terminar esta longa conversa sobre dinheiro na forma de n´zimbos, depois caurins, mais tarde panos libongo, colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes de cingir a garganta ou os pulsos de mulheres e homens, fazendo realçar o ébano da cútis, acabamos nas macutas e angolares. Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

mucu3.jpg De salientar que no Bié, a principal unidade de troca para alimentos e quaisquer outros produtos, exceptuando o marfim os escravos, era o pano. Cada pano media uma jarda, equivalente a 14 mm e, cujos múltiplos eram: a beca com duas jardas, o lençol com quatro jardas e a quirana com oito jardas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:31
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIV

VIDA DE EMIGRANTE NO BRASIL - 26.02.2019

Bertoleza, como toda a cafusa, não queria sujeitar-se a negros; instintivamente procurava o homem numa raça superior à sua – umbigou-se com João Romão o português dono da venda… 
Escrito por – Aluísio de Azevedo
Por

soba0.jpegT´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho
10 – O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil
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João Romão* foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhava nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda como o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro vivo.

cortiço6.jpg :::::135
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo de travesseiro um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
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Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia ungu*, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria*. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

cortiço4.jpg :::::137
João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos acontecimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. “Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr´ali, todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro vivo”.
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E segredou-lhe então o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos. Daí em diante, João Romão torna-se o caixa, o procurador e o concelheiro da crioula. Ao fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais.

cortiço3.jpg :::::139
Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu João”, como ela dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel pardo se lia, mal escrito e em letras cortadas de jornal: “Activo e passivo de Bertoleza”.
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E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procura-la, ia logo direito a João Romão. Quando deram fé estavam umbigados.

booktique10.jpg :::::141
Ele propôs-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeita-se a negros e procurava instintivamente o homem de uma raça superior à sua. João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza.
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Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor, um baú grande de couro cru tacheado, dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um formidável cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita. O vendeiro nunca tinha tido tanta mobília. Agora, disse ela à crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vai ficar forra; eu entro com o que falta…

araujo190.jpg :::::143
Assim, recordando o meu avô que também emigrou para o Brasil, ainda lembram as memórias que ele era bem-apessoado e, o que ganhava como caixeiro, gastava no pagode com as Mariquinhas e outras desclassificadas crioulas. Neste meu quase sonho crepuscular, após ler o Cortiço, posso encavalitar aleatoriamente os acontecimentos dentro e fora do tempo dos muitos forrobodós de intensa refrega nos fins-de-semana, dos bailes pé-de-serra e carnavais de estalar quenturas. Aos poucos, António Lopes Loureiro foi substituindo os tamancos da Beira Alta por chinelos de matuto do agreste, abertos, ventilados quanto baste para poder deslizar nos térreos caminhos, feito um Lampião* - dos salões da surumbanda, samba e capoeiragem com patuscadas.

booktique12.jpg Notas* João Romão- Poderia até ter sido o Senhor António Loureiro, meu tio-avô por parte de minha mãe Arminda que depois de deixar duas filhas em sítio incerto do Brasil, nos anos trinta do século XX, rumou de novo para Portugal, regressando brasileiro, com sua santa “Nossa Senhora da Aparecida”, sem uma cheta, tísico chupado das mulatas, como se dizia nesse então; Ungu – Comida barata para gente sem eira nem beira; terreiro de reunião ….Alforria – passagem de estado de escravo a liberto; alguns escravos compraram a seus donos a liberdade – foi o caso de Bertoleza aqui descrita e, que umbigou, alambou ou amigou com o Vendeiro João Romão…
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:04
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2019
N´GUZU. XXX

CONHECER O BRASIL 24.02.2019
Brasil - Os Cortiços vieram a seguir às casas de Bangu e batuque – repotreando-me na minha cadeira de balouçar, rindo forte, e sem calar a boca, a camisa a espipar-se-me pela braguilha aberta e piscando o olho à Rita Baiana…
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil
Cortiços - Tipos bastante variados de habitações colectivas que abrigavam os segmentos pobres da população urbana, moradores sobretudo do Rio de Janeiro e, a partir de meados do século XIX. O aumento populacional que se vinha incrementando desde 1808 com transferência da Corte portuguesa, tornava-se cada vez mais expressivo por via do aumento dos fluxos migratórios, sobretudo de portugueses.

cortiço0.jpg Com a diminuição do número de escravos em função da extinção do tráfico africano, por volta de 1850, e apesar da crescente ampliação da estrutura urbana, as oportunidades de emprego mantinham-se reduzidas, agravando as condições de vida da maior parte da população. Em alguns lugares do Brasil, as coisas não mudaram tanto assim pois continuam a ver-se muitos camelós zurzindo suas vidas rebocando cangulos com cinco e mais caixas de isopor ou montras de muitos e fosfóricos óculos de sol, adstringentes e até fosforescentes… 
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O fenómeno não era só brasileiro pois que em Argentina podia encontrar-se também esse mesmo tipo de habitação urbana. Em “El Caminito” de Buenos Aires havia o mesmo tipo de construção agregando gente que vinha da Europa na busca de uma nova vida; ainda hoje podemos ver a combinação de materiais adaptados à construção barata com varandas ripadas e cores variadas dando assim, mais harmonia ao conjunto habitacional, um amontoado de mukifos atravancados a eito. Ainda se vê disto em Viñas-del-Mar e Valparaiso.

cortiço6.jpg El Caminito é uma rua-museu e um logradouro tradicional, localizado no bairro de La Boca (Do Boca Juñior Club), junto ao estádio de futebol na Cidade de Buenos Aires. O lugar adquiriu significado cultural devido a ter inspirado a música do famoso tango Caminito trazido pela comunidade italiana também em meados do século XIX. Tanto portugueses como Italianos vinham em vapores destinados a trabalhar nas fazendas de café ou canaviais a fim de substituir os negros escravos que por lei, iam sendo libertos.
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Para além das dificuldades de acesso à alimentação, o problema habitacional tornava-se cada vez mais grave. Em 1868 o Ministro dos Negócios do Império regista a existência de 642 cortiços na cidade do Rio, distribuídos por diversas paróquias. Em 1888, já existiam 1331 cortiços, alguns já com características de estalagem sendo que a maior concentração se verificava na paróquia de Santana.

cortiço2.jpg Proliferavam assim estas habitações colectivas aonde residiam não só os livres e libertos pobres como e também, ganhões ou camelós que ganhavam a vida como ambulantes à mistura com emigrantes que iam chegando com uma mão à frente e outra atrás tendo de viver sobre si mesmos, vendendo o que desse e aprouvesse; costurando em plena rua e remendando os sapatos debaixo de um esporádico toldo ou mesmo a simples sombra de uma árvore…
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Em princípios da década de 1870, o termo cortiço adquiriu um sentido cada vez mais estigmatizador das habitações colectivas. Estas tornaram-se o alvo dos defensores do higienismo que determinaram por posturas proibir a construção em áreas nobres ou centrais do Rio de Janeiro. Isto veio a colidir com uma grande camada de pequenos investidores que controlavam as vendas a crédito, os donos das tabernas, tascas e quiosques que ali laboravam numa forma de consórcio ou rodízio. A vida ia rolando…

cortiço4.jpg Os Cortiços estavam por assim dizer e, também associados à malandragem, às promiscuidades e epidemias com desordem social, locais privilegiados aos zeladores da trambicagem, quase tudo em igual como muitas das favelas actuais aonde fecundam as hordas de marginais que vivem de expedientes, vendendo gato por lebre ou dedicados ao jogo do bicho, ou outras manigâncias de obter dinheiro fácil.
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Era o lugar de mestiçar a raça numa miscigenação que provocou genericamente a raça humana, furta-cores que derivou a se acabar com as cores natas com o ADN do arco-íris perfeito preconizado por Thomas Robert Malthus no seu puritanismo de higienismo racial. 
Um tal que foi considerado o pai da demografia por sua teoria para o controle do aumento populacional, conhecida como malthusianismo. 

cortiço3.jpg Felizmente que este Malthus não teve grande sucesso aqui no Brasil. Nos cortiços foram iniciados laços de solidariedade que preconizaram um modo de vida diferente dando origem a várias estratégias de resistência sem a necessidade de lamber a tão proclamada independência de outros povos que pela prática se vê hoje seguirem rumos de muito difícil adaptação aos conceitos da pele, originando preconceitos e paradigmas desvirtuastes; estou a referir-me à Angola que simplesmente rejeitou milhares de cidadãos que a ela pertencem por nascimento por via do “MATUMBISMO”…

cortiço01.jpg Quem ler o Cortiço de Aluísio de Azevedo vai entender na perfeição as virtudes e desvirtudes dos conjuntos sociais que originaram a vida de hoje em condomínios fechados. Estou a ver-me já desengravatado e com os braços à mostra, dum vermelho lustroso de suor, intumecido de vinho do M´Puto, vinho já baptizado com água benta e cachaça, esperando o leitão no forno, repotreando-me na minha cadeira de balouçar, rindo forte e sem calar a boca, a camisa a espipar-se-me pela braguilha aberta e piscando o olho à Rita Baiana que canta ou tentava cantar o novo desfado; assim, a dar para os bestialógicos arremedos da minha santa terrinha.
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:58
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
MISSOSSO . XXXIII

N`ZINGA E O CAVALO ALADO – 4ª de Várias Partes – 23.02.2019
Rodando a bobine em paratrás, voltei às notícias de Brazaville: Há quase 55 anos atrás desse tal de Nelito - Fala Kalado, receber instruções de Che Guevara 
Por

soba15.jpg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
O curioso desta estória é de que em vez de andar para a frente anda para trás pois que só assim entenderão o que vem mais lá para diante e, que eu próprio nem sei! Nelito Soares* foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974. Os registos são dúbios embora pense que teria sido um ano depois naquelas lutas de kwata-kwata aos dois movimentos genéricos de Angola. Era assim que estavam e estão conotados os pensamentos burgueses da Nomenclatura actual dos criadores dos “Pioneiros”

che guevara1.jpg Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro que agora é revelado a T´Chingange por Dreke, o médico Cubano que acompanhou "Ramón" até à Republica Popular do Kongo. "Esta é a história de um fracasso" importado por Cuba com a sua solidariedade internacionalista e, que muitos nem sabem porque, ou não querem saber, ou porque se estão nas tintas.
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É assim que Che Guevara, inicia o seu relato sobre o movimento guerrilheiro que ajudou a organizar na República Democrática do Congo, em 1965, um supositório chamado de MPLA antes de ser morto na selva boliviana. A estória que me foi contada está registada no livro “Passagens da Guerra Revolucionária” que se tornou em nossos tempos em apenas uma nota de rodapé em minúsculas letras.

che0.jpg Na biografia do líder guerrilheiro Che Guevara de nome Ramón, surge numa outra perspectiva nas palavras de Victor Dreke. Este General aposentado com mais de oitenta anos, foi subcomandante do médico argentino, o Ché, na primeira operação cubana de apoio aos movimentos de libertação africanos.
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Ché Guevara, prestigiado pela actuação na suposta “LCB - Lucha Contra Bandidos” entre os anos de 1959 a 1965, ficou assim como coisa ensombrada conhecido no combate a opositores financiados pela CIA. Nestas coisas sempre surgem americanos a confundir nossas verdadeiras estórias; os mestres da “Intelligentsia” no disfarce e os maiores troca-tintas impingindo-nos grafitis como sendo as verdadeiras estória do Mundo. 

cuba libre1.jpeg Pois então, não foram eles que ofereceram um rádio com tecnologia de ponta e que levou à morte de Jonas Savimbi no ano de 2002!? O Mundo não sabe porque não quer saber. Dreke servia no Exército Central, na cidade de Santa Clara, quando recebeu uma proposta que o levaria a África. Aceitou participar sem saber do que se tratava. 
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O pedido veio directamente de Fidel Castro: comandar uma missão especial e recrutar 100 jovens soldados que seguiriam para um destino ainda desconhecido! Eles surgiriam no momento certo! No envelope havia passaportes falsos, missivas diplomáticas e dólares verdes com a esfinge de George Washington, cabeça grande - "Havia uma instrução importante: deveriam ser negros, bem negros". 

eseves2.jpg Dr. Dreke achou aquela referência racista mas já habituado a tropelias conta hoje com algum desencanto entremeada com picara graça. E, repete por várias vezes: - Isto decorreu na embaixada de Cuba, em Bruxelas. Mas, antes, o veterano frisa: -Quem aceitava, deveria dizer à família que iria para um treino na União Soviética, edecéteras e tal que não é para aqui chamado. Isto passasse na “Isla- lugar de El Pinar”. Esta descrição confunde os lugares e de repente, misturando Bruxelas com El Pinar lança-me em dúvidas periclitantes. Mas a coisa dada não se deve reclamar; isto para mim já era uma grande notícia.
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Durante algumas semanas, os cem homens prepararam-se numa zona de mata sem acesso a energia eléctrica recebendo visitas frequentes de Fidel. Na véspera da partida, uma surpresa: Ele, Dr. Dreke militar, foi informado de que não estaria mais à frente da operação. Por ordem de Fidel, daria lugar a um comandante de nome Ramón, de quem o experiente militar nunca ouvira falar.

moka23.jpg -"Pensei que fosse um soviético, porque éramos poucos comandantes naquela época, e eu nunca tinha ouvido falar de Ramón algum. Achei estranho, mas aceitei sem relutar", comenta Dreke. Vou ter de deixar o resto da estória para mais tarde pois que a polícia aqui do Bairro da Pajuçara no Nordeste brasileiro já fechou o trânsito na rua - não demora, irá passar o “Pinto da Madrugada” na orla da avenida, o calçadão. 

guerri4.jpg O Carnaval aqui, é assim meus amigos! Fiquem aí sentados. O Fala Kalado um ex-falecido de nome Nelito Soares* e hoje Coronel, vai andar com o Che num lugar perto de Ponta Negra chamado de Luvungi da RPC- República Popular do Congo lá para trás nos anos de 1964 ou 1965. É aqui que encontra o Jonas Savimbi, um negro bem negro e, os rumos, lentamente, viram azimutes. Ainda não tenho bem a exacta certeza de como tudo acontece mas e como diz Murphy, o que tiver de ser, assim será…
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Nota* Nelito Soares era funcionário da Imprensa Nacional de Angola – Cidade Alta da LUUA…
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:58
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIII

 COMUNICADO DO CV -  Comando Vermelho -19.02.2019

O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube militar de Luanda - CML
O ano dos COMUNICADOS em Luanda . 1975 
Escrito por – José Eduardo Agualusa
Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

araujo 25.jpg Pude ler nas páginas 232 e 233 do livro de Agualusa uma réplica da proliferação de COMUNICADOS à imprensa de então no ano da Luua em 1975 e em Angola - emanados do COPLAD, do MFA, da FUA dos MOVIMENTOS de libertação para tranquilidade de toda a população. Foi de uma tranquilidade de espanto – a guerra do TUNDAMUNJILA…Sem aquela inquietude de afligir o próximo, ou ficar num estranho silêncio, esperamos as mudanças no tempo e suas modas adaptando-nos ao luto de preto, que faz muito tempo atrás era branco. 
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Eu quis saber do porquê de cada homem ou de cada mulher, nascer com a verdade dentro de si e só para si! Assim e, porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Angola foi uma mentira, uma farsa, uma gigantesca farsa…

agualusa1.jpg Julho de 1975 - Em Muquitixe estive encostado a um muro velho com minha sogra idosa! Fazia o percurso de Nova Lisboa (Huambo) para Luanda. Não se sabia o que poderia sair daqueles drogados que revistavam o autocarro aonde seguíamos. Podíamos ter sido ali, metralhados, como num filme de revolução, cuja morte parece sempre surgir junto a um já esburacado muro! Isto simplesmente, não aconteceu. Ninguém se culparia e nem haveria de jurar a alguém! Parecia não haver esse tal de alguém; simplesmente, assustador! 
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Ouve combates no morro do Rio de Janeiro do Brasil e do livro do Zumbi: Mas que porra é aquela? Jararaca fala à imprensa em negociações! Vai dai elaboram um COMUNCADO «O Comando Negro exige do governo federal: 
Ponto 1 – Uma ampla amnistia para os soldados sob sua direcção, (* -trata-se dos revoltosos do morro) aqueles que estão detidos, e todos os heróis que desceram hoje dos morros para combater a escravidão.
Ponto 2 – A imediata demissão do ministro da Defesa, general Mateus Weissmann.
Ponto 3 – Uma indemnização simbólica a todos os brasileiros de ascendência africana e um pedido público de desculpas pelos séculos de exploração e opressão.
Ponto 4 – A introdução de um sistema de cotas para afrodescendentes, nunca inferior a quarenta por cento, não apenas nas universidades e repartições públicas, mas também para cargos superiores na Polícia e no Exército, e candidatos a deputados estaduais e federais.
Ponto 5 - Durante as negociações com o Governo todas as unidades das Forças Armadas estacionadas no Rio de Janeiro devem recuar para fora das fronteiras do Estado e não interferir.»

mocanda11.jpg O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube Militar de Luanda. Jorge Velho reconhece os símbolos- o punho negro, a metralhadora, a estrela amarela sob fundo vermelho (* - A variante da Luua tinha uma roda dentada e uma catana em diagonal) -, porque já os viu inúmeras vezes em bandeiras e cartazes ou pintadas nas paredes das favelas (* - musseques), mas é incapaz de decifrar a sigla, CML.
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Jararaca, tem ao pescoço um colar de missangas vermelhas e negras… Olha de frente para o mundo. Conclui solene e desafiador: «Estamos voltando hoje uma página na História do Brasil. Este país nunca mais será igual. Bom dia, Liberdade!» Cala-te. Ouve-se alguém a gritar: «Corta, porra, corta logo!» (* -eram imagens para a TV). Ele levanta-se e a imagem desaparece. Surge uma fotografia com o clássico cartão postal, com o Pão de Açúcar em primeiro plano (* - fim de citação ao livro…).

cabo ledo3.jpg Poderíamos perfeitamente dizer que assim se passava no dia-a-dia da Luua nos anos de 1974 e 1975, a Emissora Oficial de Angola a dar comunicados atrás de comunicados. Com eles soaram as cantigas de permeio recordando os heróis de Valódia, Monstro Imortal que os pioneiros cantavam nas ruas vezes sem conta; nas ruas de todas as cidades! Olhando o passado víamos ali “Nossos versos de Carnaval”. Entretanto havia filas quilométricas de refugiados que em alguns casos eram escoltados pelas tropas portuguesas e também do MPLA numa já perfeita parceria de zelo de Estado.
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Era criado ao acaso um autêntico corredor entre as cidades do Centro e Norte até Namacunde, no extremo sul do “Sambódromo Estado de Angola”- ao longo da estrada principal. A falta de gasolina, água e alimentos tornava-se cada vez mais dramática pela carência. Trocavam-se contos ao desbarato por tambores de gasolina. A tropa portuguesa assistia agora à fuga de milhares de ex-colonos e naturais com um sentimento de impotência, coisa confrangedora para alguns – não tanto para outros.

louva7.jpg Não haveria desculpas para essa corja de militares de aviário, os cérebros do Concelho da Revolução e muitos civis que se ufanavam deste feito como sendo exemplar. Puta que os pariu! Prometi recordar estas tristes passagens, tempo de tão mau augúrio para um Império que ruiu da pior forma, sem dignidade; tudo feito por empedernidos fanáticos que a troco de uma centelha ideológica empederniam-se num regime despótico e anárquico entregando as gentes ao descaso, aos entretantos …Ou mato, ou morro!

Nota* - Esclarecimentos de T´Chingange
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:24
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
MISSOSSO . XXXII

N`ZINGA E O CAVALO ALADO3ª de Várias Partes 19.02.2019

Rodando a bobine em paratrás, voltei às notícias de Cabinda: Há quase 50 anos atrás - A 04 de Junho de 1969, três kaluandas desviaram um DAKOTA DA DTA – Divisão dos Transportes Aéreos de Angola pertencente aos SPCTFA – Serviços de Portos e Caminhos de Ferro e Transportes de Angola, para Brazaville

Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)

Porque sou da MAIANGA da LUUA, tenho de aqui referir a fonte da notícia no Blogue MORRO DA MAIANGA. Pois na busca da origem do Coronel FALA KALADO, com quem me deparei nos terminais UM e DOIS de Guarulhos de São Paulo do Brasil, conforme o já descrito, fui ao meu baú da “Torre de N´Zombo” recolher dados que num repentemente surgiram na minha cuca. No dia dos meus anos, a 04 de Junho de 1969 e estando em Serviço Militar no quartel de MICONGE, antiga Administração de Sanga-Planície, tenho conhecimento de um desvio de avião com destino a Brazaville.

angola6.jpeg O cartão de rico timbre, que mantenho comigo diz no canto superior esquerdo: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito das FALA), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais. Indica três telefones, um deles com o DDD da cidade e estado – CUIABÁ.

Memória - Há quase 50 anos um avião da DTA era desviado para o Congo-Brazaville. Foi no dia do meu aniversário, como iria esquecer estando eu naquela selva do Maiombe com o posto descrito pela rádio como Furriel Mike! Verdade que tudo fiz para isso, mas desaconteceu! Afinal, o 4 de Junho, que também faz parte da trajectória da libertação e independência em Angola, simplesmente ninguém refere este acontecido! É o kamba Reginaldo Silva do MM que o diz.

araujo1.jpg Os factos que são para aqui convocados aconteceram há quase 50 anos, quando os angolanos afectos ao MPLA, Loló Kiambata, Nelito Soares* e Diogo de Jesus desviaram para o Congo-Brazaville um avião da DTA, a predecessora da Via Airlines TAAG. O 4 de Junho de 1969 é mais uma data esquecida pelos que fazem a história oficial de Angola e, de acordo com as suas conveniências político-partidárias.

Como é evidente a história oficial não tem nada a ver com a história real de Angola e dos angolanos que ainda não está elaborada, sendo muito difícil que o venha ser, enquanto a partidarização da nossa sociedade se mantiver como a orientação maior do próprio Estado que é o que tem acontecido… A data que marcou uma das mais espectaculares e mediáticas acções de luta contra o colonialismo português entrou para a história com o significado desmerecido; o esquecimento!

DTA1.jpg Numa altura em que Angola e os angolanos já não queriam mais viver sob domínio colonial português, não se compreende que o 4 de Junho de 1969 nunca tenha merecido a importância devida por parte da direcção do MPLA, porque foi uma iniciativa saída da sua base clandestina da Luua. Pois assim, apanhou completamente de surpresa os “camaradas” no bombom de Brazaville.

A informação que a PIDE fez circular pelas mais altas esferas da governação Tuga da época, referia que “no dia 4/6/69, pelas 15.30, o avião C-3 matrícula CR-LCY, da DTA, da carreira Luanda/Sazaire, com 5 tripulantes e 12 passageiros a bordo, foi obrigado a mudar de rumo para Ponta Negra. Tal acção foi levada a cabo por três criminosos armados, a saber: -LUÍS ANTÓNIO NETO, o “Lóló”, solteiro, estudante, nascido a 4/11/ 47, natural de Luanda.

DTA2.jpg A informação em letra romana continua: -DIOGO FERNANDES JACINTO LOURENÇO DE JESUS, solteiro, funcionário do Laboratório de Engenharia de Angola, nascido a 2/11/942, natural de Luanda, filho de Jorge Jacinto de Jesus e de Ana Lourenço de Jesus e residente em Luanda e, MANUEL CAETANO SOARES DA SILVA, solteiro, funcionário da Imprensa Nacional de Angola, filho de Luís Gomes Soares da Silva e de Isabel Luciana Soares da Silva e, residente em Luanda.”

Ainda de acordo com esta informação “ o assalto teve início a meio do percurso Ambrizete/Sazaire, quando Manuel Caetano Soares da Silva entrou bruscamente na cabine de pistola em punho e intimou a tripulação a seguir para Brazaville. Ao mesmo tempo, o Luís António Neto, de frente para os passageiros, ostentava uma GMO, (granada de mão ofensiva) fazendo menção de lhe tirar a cavilha de segurança.

DTA3.jpg Nesta altura, porém o passageiro Mário Gameiro envolveu-se em luta para lhe tirar a granada, sendo auxiliado pelo radiografista Luís Torres e Arménio Mata, 1º subchefe da PSP. Entretanto, o assaltante Diogo Fernandes Jacinto Lourenço de Jesus, que se encontrava na retaguarda dos passageiros, ordenou a Luís António Neto, o “Lóló”, para lançar a granada, sublinhando a ordem com dois tiros de pistola que perfuraram o tecto do avião”.

Dos três kamundongos nacionalistas que participaram nesta acção de luta contra o colonialismo português, apenas Luís Neto Kiambata se encontra vivo, tendo Diogo de Jesus e Nelito Soares*, que por ironia do destino, foram mortos pelas tropas Tugas e poucos anos depois em circunstâncias distintas.

arte3.jpg O Diogo de Jesus, foi atingido por um obus no leste de Angola antes de 74 e o segundo, Nelito Soares* foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974. Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro entre o T´Chingange e o tal de FALA KALADO nos aeroportos Internacional e do Terminal Doméstico numero DOIS de Guarulhos. E, foi, e ainda o é graças ao “Morro da Maianga” que consegui descortinar um pouco mais a minha alhada…uma meia inventação.

DTA4.jpg Nota*: Esta é uma estória inventada no que concerne às mentiras… Só com o tempo se descortinará a verdade dessa morte do Nelito Soares, o mesmo FALA KALADO do  MISSOSSO. Quanto ao Coronel, creio que aparecerá nos próximos episódios…

O Soba T´Chingange com o Morro da Maianga (meu bairro…)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:07
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
XICULULU . CI

TEMPOS QUENTES 17.02.2019

MALAWI – NIASSA . No vale do Rift - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios – Cada qual tem o seu Rift... 3º De várias partes

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Nordeste brasileiro

rift01.jpg O Grande Vale do Rift, também conhecido como Vale da Grande Fenda, é um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria até ao centro de Moçambique, com uma largura que varia entre 30 e 100 km e, em profundidade de algumas centenas a milhares de metros.

Este tema despertou-me curiosidade porque por ali passei recentemente descendo da Tanzânia. No 23º dia da “Odisseia potholes – haja paciência” pernoitei em Karonga a pensar neste hífen da viagem periclitante, coisa pouca a comparar com a fractura do RIFT da África. Pernoitando também em M´Zuzu no dia 14 de Outubro de 2018, pude alheando-me do cicerone chato como a potassa e, apreciar todo o lago Niassa ou Malawi em toda a sua costa ignorando-o.

rift3.jpg Este Grande Vale do Rift, tem a característica de ser considerada como uma das maravilhas geológicas do mundo, um lugar onde as forças tectónicas da Terra estão actualmente tentando criar novas placas ao separar as antigas. Mas, como é que essas fendas se formaram? Uma revista de publicação local, diz-me que o mecanismo exacto da formação correta, é um debate contínuo entre os cientistas.

No modelo popular para o EARS - East African Rifts, assume que o fluxo de calor elevado do manto está causando um par de "protuberâncias" térmicas no centro do Quénia e na região Afar do centro-norte da Etiópia. De anotar aqui que a história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo. Recorde-se Lucy, esse achado arqueológico importante que desvenda nossa natureza humana, descoberta no Vale de Awash nessa mesma região - Afar da Etiópia.

lucy1.jpg À medida que a extensão continua, a ruptura litosférica ocorrerá dentro de 10 milhões de anos, a placa somali se romperá e uma nova bacia oceânica se formará. Aquelas protuberâncias podem ser facilmente vistas como planaltos elevados em qualquer mapa topográfico da área ou visualmente como o é este presente caso. À medida que essas protuberâncias se formam, o trecho e fractura da crosta exterior quebradiça, origina uma série de falhas normais, formando a estrutura clássica de vales e fendas.

O pensamento geológico mais actual sustenta que as protuberâncias são iniciadas por uma “superpluma”, uma seção gigante do manto da Terra que leva o calor de perto do núcleo até à crosta e fazendo com que ele se expanda e se fracture. Este riff é indicativo de mudanças, acontecendo nas placas que transportam o continente, uma vez que é formado onde a crosta do coração, ou camada mais externa, se está espalhando ou se separando.

quipá0.jpg Só recentemente os cientistas começaram a descobrir precisamente o porquê de esses dois grandes blocos de terra se estarem a separar. Paralelamente a estes estudos de alterações tectónicas da terra, o homem redescobrindo-se, leva a que no ano de 2002, com técnicas sofisticadas e fidedignas, confirmarem a deslocação de gente vinda de África Central e do Sul, acerca de 7 milhões de anos e que, atravessaram pelo sul do Mediterrâneo, a seguir a Ásia e através do estreito de Bering desceram desde o actual Alasca à América Central, chegando consequentemente ao Brasil que hoje se conhece e, aonde me encontro.

Na década de 1997, encontraram um crânio feminino com cerca de 11.500 anos; referiram este achado com o nome de Luzia (Lucy), uma mulher dos seus vinte anos, olhos grandes e nariz achatado do tipo negróide. O terem chamado de Luzia a estas ossadas, é uma evidente referência ao fóssil de mais de três milhões de anos encontrados na Tanzânia em 1974, de características muito próximas àquele achado arqueológico da Lucy.

lucy3.jpg Recentemente, novos vestígios foram encontrados na serra de Capivara no Piauí, Nordeste Brasileiro. Foi sem dúvida o início da caça ao tesouro a comparar com as novas modas de Indiana Jonas. Machados e artefactos indicam que eles, os pré-históricos manos e primos de Luzia, viviam na idade da Pedra Polida entre 12 mil e 4 mil anos Antes de Cristo.

Nesta interpretação com busca do mundo, da globalidade e, de tratar o globo como se uma ervilha fosse, sabe-se que o dinamarquês Peter Lund, descobriu em meados do século XIX e, no Brasil, 12 mil fósseis, um cemitério de 30 esqueletos humanos ao lado de mamíferos de grande porte do tipo gliptodonts, uns tatus com cerca de um metro de altura. A estes achados, foi designado o período da pré-história Brasileira, em realidade, o continente da América do Sul.

lucy2.jpg Antes da escrita, há outras histórias que explicam as origens do ser humano. É a história, antes da história. Os arqueólogos, descodificando novos achados, analisam com testes de carbono e outras supostas verdades. Foi assim que olhando pinturas rupestres em Boqueirão da Pedra Furada na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, com a exploração de mais de 200 grutas, decifraram os vestígios dum anterior passado, antes dos Egípcios que também se acredita terem aqui chegado e, mais recentemente os Tugas (portugueses) com todas aquelas escondidas diplomacias de Papas e poder Régio da idade média definindo fronteiras ao tratado de Tordesilhas criaram uma nova raça: “O Brasileiro”…

moka25.jpg Mas, os Angolanos que nunca querem ficar atrás nestas descobertas, numa conversa de cacaracá, o Boniboni da Catumbela em Angola, um ilustre amigo meu, um vizinho ocasional do M´Puto, disse sobre isto com um linguajar simples e pícaro, o seguinte: - Mazé, esse tal de “Peter não sei das quantas”, tem que vir aqui nas barrocas da Luua destabilizar os defuntados ossos dos mais que passados primos da Luzia porque aqui, tem por demais, montes de ossadas pré-históricas meu... (é um comentário pouco sério! Não façam caso!). Nós, os TUGAS, somos, em verdade, ainda, um enigma indecifrado. Só sei que os Angolanos nunca provarão que os Tugas, nunca por ali passaram, que nada por ali, fizeram - por mais que tentem!...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:24
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BOOKTIQUE DO LIVRO . XII

O Último Ano em Luanda . 1975 – UMA TERRA A FERRO E FOGO - 16.02.2019

Escrito por - Tiago Rebelo

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

booktique00.jpg Andei neste reencontro com os livros do criado mudo entre as páginas 360 e 363 do romance de Tiago Rebelo e, do que li posso garantir que não é propriamente um romance. É a realidade já aqui descritas por mim em Mocandas do Soba e, mais ou menos com a suficiente cordialidade em entender o impossível, a MERDA DA DESCOLONIZAÇÃO. Aos portugueses do Ultramar, não obstante tratarem-se, na sua maioria, de modestas famílias que ganhavam a vida nas indústrias, nos serviços ou na agricultura, tinha-se colocado o rótulo de colonialistas exploradores, por via da propaganda dos sectores radicais de esquerda que dominavam o governo de Lisboa.

Eles, os radicais de esquerda que eram mais que muitos e, que ainda o são (estamos em Fevereiro de 2019) queriam e, assim foi, deixar Angola nas mãos de Moscovo. Os brancos ultramarinos não estavam definitivamente, nas boas graças da opinião pública portuguesa. Desamados pelo MFA, desconsiderados por Lisboa, sentiam-se abandonados por todos e, até mesmo por familiares directos; este triste fado tem andado a ser cantado como um “desfado”, tratado como coisa pouca mas assim, não o foi!

moka17.jpg Em Luanda apenas um punhado de bravos efectivos do COPLAD, fieis ao Alto-Comissário, defendia a vida e os bens dos portugueses. Na Avenida Brasil e na dos Combatentes da Luua, as principais sedes dos movimentos foram destruídas entre si, a tiro e, com elas, os edifícios onde se situavam, alguns com dezenas de apartamentos trespassados por balas perdidas, por tiroteio assassino e negligente. O último grito em armamento eram os canhões sem recuo contra viaturas blindadas.

Os pseudo guerrilheiros do MPLA, sempre criativos em assuntos bélicos, davam uma nova utilidade a esta arma visando o seu poder de fogo para literalmente demolirem as sedes politicas dos movimentos rivais a saber, UNITA e FNLA. Os estragos, como se poderá imaginar, eram astronómicos, e punham em perigo milhares de civis. Na população branca, dissolvera-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.

moka18.jpg Esta batalha, a de Luanda, não se cingiu somente à capital. Alastrou por todo o Norte com desmandos brutais num preparado plano de tundamunjila pelos comandos Tugas do MFA aos brancos. Os brancos sem amas, sem apoio, sem a mínima hipótese viram-se numa de “ou mato, ou morro”. Como formigas salalé e em desordem fugiam com algumas imbambas daqui para ali mas e, principalmente sempre para Sul e, ou a Capital.

Assim, os últimos portugueses no Interior de Angola, formando comboios de carro puseram-se a caminho da Luua, atravessando perigosas picadas e outras estradas aonde pululavam guerrilheiros de faz-de-conta impregnados de muito ódio ao branco; muito cheios de vingança e com a cabeça cheia de fumo, liamba e bebidas desinibidoras, faziam a seu bel-prazer a justiça ocasional. Por dá-cá-aquele-palha, um cigarro, uma cerveja, um qualquer cobiçado traste, podia ser motivo de morte.

moc2.jpg Assim e correndo grandes perigos, procuravam o lugar de embarque na já tão falada ponte aérea; num desespero e abandonando tudo, fugiam simplesmente daquele inferno. Era o que preconizava Rosa Coutinho e seus guedelhudos do MFA - os urubus ou corvos, como queiram; Tropa fandanga nunca reconhecida traidora pelos muitos governantes de Portugal no após 1975. Com três semanas de combates arrasadores, nunca o MPLA acudiu aos apelos de Paz faltando a todas as reuniões do comando unificado da Luua. A Emissora Oficial de Angola era simplesmente ignorada pelo MPLA.

O MPLA venceu a Batalha de Luanda expulsando a UNITA e a FNLA com a inequívoca ajuda do glorioso MFA do M´Puto. Em verdade a Batalha de Luanda resumiu-se ao duelo entre MPLA e a FNLA, enquanto os soldados e militantes da UNITA, sem armas para retaliar, se tinham simplesmente resignados a fugir. Os que não puderam fugir, foram simplesmente massacrados aos milhares (maioritariamente negros mas e também, alguns brancos). Recordem-se do massacre na sede Pica-Pau em que abateram homens quase desamados, mulheres e muitas crianças…

silva p0.jpg Onde quer que uma pessoa se encontrasse escutava o inevitável fragor dos combates, o rebentamento de obuses e também, observar no céu colunas de muito fumo. O medo sentia-se no ar! Camionetas passavam com feridos e mortos em direcção ao hospital e à morgue largando rastos de sangue pelo asfalto; Tem-se agora a certeza de ter sido de propósito para provocar o pânico entre os brancos. Está escrito! Mas, sempre haverá muitos dizendo ter-se esquecido; que talvez não tivesse sido tanto assim; sempre a tentar lavar o sarro de tanta hipocrisia. Sinto-o!

Mas, não obstante tanto esquecimento, confirma-se ter sido o MFA o principal comando de tudo – o autor da logística! A bandalheira do exército do M´Puto estava institucionalizada. Nas ruas da Luua viam-se soldados regressados do Norte de Angola sem qualquer aprumo, barbas desgrenhadas, ao estilo de Ché Guevara, o revolucionário do estilo, da época. Época nada digna. Os brancos estavam entregues a si próprios; ando a remoer o passado para não me deixar consumir por rancores inúteis… Ou mato, ou morro!

O Soba T´Chingange



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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019
MU UKULU – XIV

MU UKULU...Luanda do Antigamente15.02.2019

Entre Monomotapa e Catanga corriam entre as classes dominantes dessa região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu26.jpg Tomando como base o livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1693, moedas-mercadoria que vigorariam desde a chegada dos portugueses à Ilha da Mazenga ou das Cabras e, que nos dias de hoje se chama somente de a ilha de Luanda. Será por assim dizer uma adenda a complementar o que se sabe daquele sistema monetário controlado pelos reinos de N´Dongo e Kongos e outros, em África.

Mu Ukulu25.jpg Em sequência temos os zimbos, n´jimbu, pequenas conchas, propriedade do rei do Congo que apareciam por toda a costa de N´Gola mas com os mais belos exemplares colhidos na ilha de Loanda pelos m´bikas às ordens dos chefes m´fumos. Estes, mergulhavam na contra costa da ilha retirando-os por meio do arrastamento com cestos estreitos e compridos chamados “cofos”. Dos mesmos eram recolhidos os zimbos que podiam totalizar em média e por cofo, uns dez mil.

No correr do tempo foram surgindo outros meios de permuta tais como o sal, a cera, o cobre, os panos ou libongos, marfim, mel silvestre, as cruzetas e os escravos saídos das guerras entre tribos e depois entre estes e mercadores negreiros. Mas, sabe-se por ensaios numismáticos-arqueológicos que entre Monomotapa e o Catanga corriam entre as classes dominantes desta região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA, (ref.ª de Octávio de Oliveira na revista Notícia do ano de 1966).

Mu Ukulu27.jpg A palavra banta HANDA significa clã entre os ovimbundo e outros povos de Angola; por outro lado, Octávio de Oliveira refere que Leo Frobenius, explorador e fundador da etnografia belga, chamava aos mesmos objectos “handacreuse”, que poderá ser heterografia da palavra flamenga handelkruis, “cruzeta de comércio” ou “cruzeta de cobre”, uma provável origem deste termo.

Quanto ao sal era retirado das minas com o auxílio de escopros e cinzeis nas regiões de entre o baixo Kwanza e o médio Cuango aonde viviam os ambundos, falantes de língua kimbundo. Extraiam este cloreto de sódio das terras da Kissama, do Libolo, da baixa de Cassange e junto aos rios Quionga e Lutoa. Estas minas que eram controladas por chefes, sobas locais, consideravam o sal da Kissama como sendo de qualidade superior aos dos baixios da costa.    

Mu Ukulu28.jpg Teremos de falar de cruzetas ou lingotes indo à raiz da palavra Jimbamba - Palavra crioula e, referida pelo autor, Octávio de Oliveira como formada de jimbo, o nome dado em kimbundo à cíprea angolana (o zimbo, que corria até ao Catanga como moeda) - quantidade de zimbos, coisa de valor. Acrescente-se que o termo perdura no português falado em angola como “imbamba”, os pertences de alguém. Jimbo – do kimbundo yimbu, do Quioco N´zimbu, moeda; palavra que deu origem a jimbamba.

Curioso é o de referir que quando o governador Henrique Jaques de Magalhães fez circular esta primeira moeda em Angola, já ali corriam moedas de 20 e 10 reis – situação que originou um motim entre a soldadesca brasileira situada na guarnição de Luanda. Os luchazes eram hábeis na confecção de manilhas, usavam o cobre que os lobares lhes levavam da Lunda para permutar com cera.

Mu Ukulu29.jpg O mais característico destes objectos foi a “lucana-bua-mwano” que circulou em N´Gola e no Kongo, peça com configuração da Cruz de Santo André com tamanho e espessura variadas. Foram produzidas e usadas a partir do século VIII e, utilizadas como moeda de troca em permutas comerciais, pagamento de impostos, tributos ou alambamento por uniões matrimoniais de umbigamento. Circularam por toda a África até finais do século XIX.  

Depreende-se do trabalho de pesquisa em referência que o lingote de cobre africano ocorre em três formas: a barra cilíndrica, o “H longo” em forma de astrágalo – o “jogo das pedrinhas” – o objecto monomotápico assim denominado por Theodore Bent em The Ruined Cities of Mashonaland, e a cruzeta. E, nesta busca surge o Lerali - uma barra cilíndrica de 45 cm de comprimento com um cone de 160º tendo numa extremidade decorações protuberantes em forma de chifres.

Mu Ukulu23.jpg Libongo foi o nome que veio a ser dado em kimbundo ao “paninho” tecido originário do Loango ou palmeira-bordão, semelhante ao “paninho do congo” ou likutu que circulou como moeda no princípio do século XVII; acrescente-se que é palavra do kimbundo calunda lu m´bongu,”moeda – m´bonge”. Um libongo valia 5 réis em 1695. O libongos de N´Gola dividiam-se em “bongós, sangos e infulas” enquanto os do Kongo eram chamados de “panos lim´kundis. Os panos conhecidos por sambu ou nollolevieri, tinham a condição de objecto-moeda e serviam apenas para vestir os nobres africanos.  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:23
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019
N´GUZU. XXIX

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL 13.02.2019

Angola e os Quilombos – CASAS DE ZUNGU E BATUQUE …

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Zungu – uma palavra de evidente origem africana com significados nas línguas bantos, deriva do nome “casas de angu”. Era nas casas de ANGU onde escravos e libertos buscavam acolhida com alimento barato e ligado às suas tradições alimentares. No início do século XX, as quitandeiras reuniam em torno do seu tabuleiro o ANGU; desta forma simples iam organizando os chamados refeitórios “casas de angu” ou “casas de zungu”.

zungu0.png Uma postura municipal da cidade do Rio de Janeiro publicou pela primeira vez no ano de 1833, século XIX, a proibição destas casas conhecidas e vulgarmente chamadas de zungu e batuque. A penalidade para além da multa estabelecia era de oito dias de prisão para os donos ou chefes destas casas; em casos de reincidência poderia o prazo aumentar para trinta dias. Pode dizer-se ser naquele tempo, que era nestes lugares que se fermentavam as “makas” tal como hoje se designam.

Segundo as autoridades responsáveis pela segurança pública, tempos marcados pela instabilidade política no período regencial, permitia-se avaliar o perigo dessas casas para a ordem esclavagista. Por via da conjuntura de uma corte frágil, anulava-se assim e á partida, eventos sugestivos à revolta de massas populares. Podemos perfeitamente comparar estes lugares de zungu com improvisadas cantinas em lugares de muitos trabalhadores braçais verificáveis um pouco por toda a Luanda, os chamados estaleiros a construção civil, quando do surto de desenvolvimento e, a partir de meados do século XX.

zungu1.jpg Os jornais brasileiros desse então expressavam apreensão, aliadas aos preconceitos que as elites políticas e letradas nutriam em relação aos ZUNGUS. Estes lugares eram associados a barulhos, bebedeiras e falatório, desordens e rixas de negros com prejuízo para os patrões, fazendeiros ou comerciantes fubeiros dos musseques, favelas ou cortiços. Portanto, não seria muito diferente da gestão colonial em Angola pelas administrações; estou a recordar-me do chefe POEIRA que estava no mando do posto Administrativo de Belas.

Podia assim considerar-se este conjunto social como cortiços de negros ande se reuniam vagabundos ou gente dada às imoralidades. No século XIX as casas de zungu começaram por ser importantes espaços criados por escravos, libertos e livres pobres como lugar de convívio, busca de trabalho mostrando indícios de uma maior autonomia com melhoria de vida a substituir o quadro de cativeiro e exclusão. Ali poderiam encontrar abrigo temporário, base para fugas longas, hospedagem e solidariedade.

zungu2.jpg Logicamente que na união de vontades, surgia a diversão, o jogo, a festa, a rebita, o forró, não raro o consolo religioso de um pároco mais foito a acudir às aflições quotidianas. Todo o zungu tinha obviamente a cumplicidade senhorial no encobrimento a escravos não alforriados. Também na já flácida dominação escravista, muitos senhores liberavam seus escravos para folgarem à noite e até dormirem fora.

Em algumas regiões do Brasil, como Pernambuco ou Pará, próximo a estes lugares de “casas de zungu” foram identificadas manifestações clubistas definidas por folcloristas, capoeiristas e, ou linguísticas sob a denominação de “calogi”. Nos musseques envolvendo Luanda, capital de Angola observavam-se manifestações idênticas, lugares aonde gentes do povo de raça negra se embebedavam com aguardente, vinho do M´Puto, T´chissângwa, kimbombo ou uma qualquer bolunga de preço mais conveniente.  

zungu3.jpg Negreiros, funantes, pombeiros, fazendeiros e fubeiros quer no Brasil quer em Angola, foram deixando rasto contado por séculos e sobas e, escritos de padres, missionários, aventureiros ou administrativos. Estima-se em mais de cinco milhões de pessoas transladadas de 1519 a 1867 como escravos, para o Brasil e, a uma média anual de 12 500 almas. A quarta parte morria entre a captura e o porto de embarque ou na travessia do Atlântico.

Numa qualquer duna de São Luís do Maranhão, ou no interior de Poconé de mato Grosso do Norte, gente encarquilhada na idade, ainda hoje, se sentam no terreiro que cultivam os oxalás, ou orixás; negras deitando fumo pelas orelhas, ou jogando búzios, antigos n´zimbos de seus passados kotas, ou caurins dos Pais de Santo falando banto em imaculado branco ou linguarejando ao deus N´zambi ou até N´Kulukulu, levando-nos a ver o forró numa qualquer aguarela tropical. A lavadeira que andava em áfrica, lá na Luua com meu filho M´fumo Manhanga fumava assim um troço de tabaco com a cinza e fogo para dentro; dizia assim: -Patrão, é para durar!

O Soba T´chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:42
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N´GUZU. XXVIII

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL13.02.2019

Angola e os Quilombos - Na Cerca dos Macacos…

Por

soba15.jpgT´Chingange – No Nordeste do Brasil

aqualtune.jpg Estive lá no dia 14 de Março de 2009 (há dez anos atrás), na Serra da Barriga e, do que vi e li, concluí o que antes e a seguir descrevo. O termo de Muxima que é a saudade dos mwangolés - quimbundos, pode ler-se no quadro de entrada na Serra da Barriga: “Muxima dos Palmares é uma homenagem aos Comandantes-em-Chefe que formavam o Conselho Deliberativo do Quilombo dos Palmares - São eles: Acaíne, Acaiuba, Acutilene, Amaro, Andalaquituche, Dambrabanga, Ganga-Muiça, Ganga-Zona, Osenga, Subupira, Toculo, Tabocas, e seus principais lideres: -Aqualtune, Ganga-Zumba e Zumbi, Banga, Camoanga e Mouza, que resistiram depois da morte de Zumbi, aqui também são homenageados, assim como todos os negros e negras, guerreiros e guerreiras.

Todos aqueles que ao longo de quatro Séculos lutaram (e ainda lutam) pela liberdade racial”. Uma outra placa com fundo preto e letras salientes reconhecido no final pelo Governador Alagoano, Engenheiro Ronaldo Lessa a 20 de Novembro de 2002: -“Homenagem aos Heróis Quilombolas que tombaram lutando pela liberdade em 06 de Fevereiro de 1694: Ganga Zumba, Dandaro, Acotirente, Andalaquituche, Aqualtune, Gana Zona, Ganga Muiça, Acaiúbo, Toculo”.

arau44.jpg A SERRA DA BARRIGA - “CERCA DOS MACACOS” O termo Sanzala ou Senzala em Angola é um povoado normal enquanto que no Brasil está conotada com as casas de tortura, da canga, dos grilhos, da chibata, da bola, da máscara de sino e correntes. Kimbo é o nome de sanzala na região de fala Umbundo em Angola, planalto Central com suas casas, libatas como montar uma loja virtual ou embalas.

Todo este trabalho de pesquisa, foi objecto de promessa minha ao fiel depositário do Guardião da cultura em União dos Palmares e Zelador do Museu de Maria Mariá, Senhor Paulo de Castro Sarmento Filho, que teve amabilidade de me mostrar o actual mocambo de Muquém, a Serra da Barriga e descrever o seu trabalho ainda em esboço duma Cartilha Pedagógica, um projecto de cultura viva. Acompanharam-me nesta visita que durou todo um dia, a Dra Rosa Casado, natural daquela cidade de União, e filha de um dos últimos prefeitos de União dos Palmares  de quem me prezo ser amigo. Ficou a promessa de uma futura visita aos mocambos de Cajá dos Negros e Palmeira dos Pretos, povoados em que ainda são visíveis os costumes antigos trazidos de África.

zumbi7.jpg Vivem da agricultura, da venda de artesanato, potes em cerâmica, feitos de forma manual. Estar ali, é o mesmo que estar em qualquer sanzala de Angola nos dias de hoje. Por todo o interior de Pernambuco, perto Guaranhuns e Alagoas em União e Palmeira dos Indios, as características levam-nos à África longínqua

Sintetizo aqui, o essencial com algumas e poucas introduções de meu foro - “A África revelada por Arnon de Mello” e publicado no jornal Gazeta de Alagoas. No século XVII, Alagoas oferece reduto para os negros formarem os inúmeros quilombos que prosperavam em todo o território brasileiro, mas que tiveram na Cerca dos Macacos da Serra da Barriga, nos Palmares, sua maior simbologia. O Brasil foi o país com a maior concentração de escravos negros do mundo com dados indicadores de 3,5 milhões. A liberdade, por meio de fuga, consolidava-se pela anormalidade da vida administrativa e económica da capitania de Pernambuco.

araujo179.jpg Palmares, perdurou por 64 anos, capitulando no ano de 1696. O governador da capitania relata ao rei D. Pedro II, o pacífico, a morte de Zumbi dos Palmares. Senhor - O Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro em carta de 25 de Março deste ano de 1696, dá conta a Vossa Majestade de como se houve a certeza de haver conseguido a morte de zumbi. Para que nenhuma dívida se fizesse, para aquietação dos povos e para exemplo dos negros que o julgavam imortal, e para demonstração do que se diz se envia cópia da acta feita pelos oficiais da câmara de Porto Calvo e, por ela se sabe que o grosso das tropas paulistas na pessoa do Capitão André Furtado de Mendonça que conseguiu a morte do negro no sumidouro que este artificialmente fizera na serra dos dois irmãos.

O corpo que se apresentou aos ditos oficiais, pequeno e magro, em cujo exame se viram quinze ferimentos de bala e muitos de lança vendo-se que o membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiado na boca, também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita; que perante os oficiais da câmara juraram as testemunhas pertencer o cadáver ao negro Zumbi, a saber, um cabo maior que se apanhara vivo na companhia do dito, os escravos Francisco e João, o senhor do engenho António Ponto e o lavrador de partido António Souza, que todos haviam conhecido em pessoa o açoite daqueles povos; que se lavrou na acta do reconhecimento do cadáver do negro Zumbi, e que para que se pudesse isso mostrar ao governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro deliberou-se levar ao Recife somente a cabeça ( Nesse então, era habitual esta prática).

araujo158.jpg Pela impossibilidade de levar o corpo todo; que no pátio da câmara presente todos os oficiais, um negro decepou a cabeça a qual se salvou com sal fino, o que tudo se faz constar na mesma acta, que assim pode ele governador Caetano De Melo e Castro à vista da cabeça e da acta, da câmara ter a certeza da morte do negro que tantos danos fizera à Real Fazenda e aos moradores das capitanias de Pernambuco. Este documento será assinado em Lisboa a 2 de Setembro de 1696 pelo Conde de Alvear, por João de Sepúlveda e Matos e José de Freitas Serrão.

É este, um modesto contributo a juntar à história dos países Lusófonos intervenientes, Angola, Brasil e Portugal. E, para que conste na “Torre do Zombo do Kimbo” aqui ficam os agradecimentos a Paulo Sarmento, Governador Assistente do Rotary Internacional, Distrito 4390 e Rosa Casado, Advogada aposentada, que me proporcionaram horas de encanto e convívio.

Ilustrações de Costa Araújo (Mano Corvo)

Referência Bibliográfica: A África Revelada, ensaio de Arnon de Melo.

Da lavra (n´Nhaca) – 14 de Março de 2019

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:22
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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