Terça-feira, 4 de Setembro de 2018
CAZUMBI . LI

O TEMPO - Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol … 04.09.2018

kimbo 0.jpg As escolhas de Kizomba

Por :::canhot2.jpg::: António José Canhoto - O genérico James Spencer

IMG_20170902_113837 (2).jpg Ao longo da minha vida sempre lutei com falta de tempo, passei longos anos numa corrida desenfreada, andei apressado, assoberbado, sobrecarregado, pois apesar de todos os meus esforços para tentar racionalizar o tempo este nunca chegava e dificilmente conseguia geri-lo adequadamente pois as solicitações eram muitas e a minha omnisciência limitada. Cheguei a pensar que desde a criação do mundo tinha havido um tremendo erro na configuração do tempo e da forma como o mesmo tinha sido congeminado. Os dias eram pequenos, as horas passavam depressa, o prazer era efémero, a vida curta e as noites demasiado longas.

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Mas com o decorrer dos anos as minhas prioridades começaram a mudar a minha selectividade sobre onde e como aplicar o tempo alterou-se, os meus critérios e opções refinaram-se, de modo que fui chegando a conclusões diferentes sobre a utilização do tempo. As pessoas têm opiniões diferentes como aplicar o tempo, para alguns, o tempo é dinheiro, para outros utilizam-no apenas para prazer, gozar e viajar, outros dedicam-no a deuses e religião, política ou enfiados em bibliotecas a adquirir conhecimento. O tempo foi alocado às pessoas para que estas o utilizem o melhor que podem e sabem, mas é preciso evitar matar o tempo, pois ele é uma dádiva, um presente, por vezes envenenado, outras vezes muito saboroso, que nos é concedido diariamente, mas perecível pois não volta atrás nem pode ser revivido.

matipa-tipa.jpg O tempo, não pode nem deve ser esbanjado em projectos fúteis e inconsequentes ou com as pessoas erradas, pois infelizmente é algo que não podemos conservar indefinidamente. O jamais volta atrás, poderá eventualmente ser comprado ou vendido quando se é contratado com tarifa horária, mas não pode ser parado ou guardado para ser usado mais tarde. O tempo esgota-se como grãos de areia fina metidos numa ampulheta posta a funcionar para contar o tempo de um exame oral. Nesta provecta idade que atravesso, tenho todo o tempo que preciso e quero, para viver e sonhar. Também dar a volta ao mundo no meu barquinho de papel numa poça de água deixada pela chuva.

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Nunca fui escravo do tempo, usei-o para me enriquecer academicamente, culturalmente, financeiramente, socialmente e ideologicamente. Hoje em dia permito-me passar alguns dias de verão á beira-mar construindo castelos na areia com os meus amigos, e em qualquer competição ou desafio que aceite não irão para além do jogo do avião, malha, escondidas, berlinde ou pião. Quero a todo o custo voltar a acreditar no poder dos sorrisos, dos abraços, dos afectos, ternuras, beijos e carinhos. Quero voltar a acreditar nas palavras gentis, na solidariedade e condição humana, na fraternidade, na justiça e exclusão social, pois tudo isso tem muito mais valor do que todo o dinheiro do mundo.

flor de maracuja1.jpg Hoje, seja qual for o tempo de vida que me resta e espero que ainda seja muito, cá o vou triturando ao meu ritmo e no meu “timing” numa contagem inexorável e decrescente como se eu fosse um foguetão na rampa de lançamento aguardando a contagem para a minha partida, não para a estratosfera numa viagem de dias, mas para a eternidade num crematório a fim de ser reduzido a pó. A existência ou não de deus é algo que não me preocupa pois não lhe reconheço existência, portanto prefiro como herege e impio não ter que prestar contas a ninguém e muito menos de me preocupar se irei para o paraíso ou para as profundezas dos infernos.

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Nunca fui santo e como pecador as minhas fraquezas não foram relevantes. Nunca me coibido de fazer o que me agradava vivendo intensamente a vida de acordo com as minhas convicções e valores morais. Tudo o que fiz, foi de forma consciente o que eventualmente me levou a incorrer na fúria de terceiros por não obedecer ou cumprir dogmas religiosos, políticos, culturais ou tradicionais seguidos pelas maiorias. Eu sei, reconheço e tenho consciência absoluta de que em muitas ocasiões os meus pés de barro cederam e fraquejaram perante a luxúria e outros pecados veniais, pois as tentações eram de tal modo irresistíveis que acabei por soçobrar às ofertas tentadoras que me fizeram e, esse foi o meu calcanhar de Aquiles, contudo não lamento nem alteraria o meu procedimento se pudesse recuar no tempo.

acácia1.jpg Passados alguns anos quando o vento finalmente amainou dentro do meu coração, e, o calor que me corroía as entranhas se acalmou depois de me ter rasgado como raios as penumbras do meu ser queimando a fogosidade que me consumia pelas minhas viscerais paixões passei para uma fase de reflexão contemplativa e mais humanista e os arrebatamentos episódicos de rebeldia deixaram de tomar conta da minha existência. Metaforicamente, poderei dizer que os meus pecadilhos foram escolhidos a dedo como um cliente escolhe as mercadorias mais caras de um supermercado, foram transgressões escolhidas pelo exotismo das fragâncias perfumadas que atiçavam a libido, pelo sabor obtido por deixar viajar a nossa língua pelos locais mais recônditos dos corpos, estimulando a sensualidade e volúpia.

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Estas infracções não deixaram nodoa, rasto ou nexo de casualidade, contudo ficaram coladas á minha pele por muitos anos. Não tenho feitio para autoflagelações nem para me deixar imolar nos altares ou templos dos críticos raivosos e invejosos do meu sucesso. Quando a minha consciência toca a rebate eu paro para pensar, pois é sinal que estou a percorrer caminhos perigosos ou a ter comportamentos desviantes o que implica que retroceda reparando os danos causados. Tempos houve em que a minha vida era conduzida a alta velocidade, mas essa fúria de viver e coleccionar histórias passou, contudo, o meu instinto predatório ainda reside e resiste nas profundezas do meu ser controlado e açaimado.

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Esta alquimia que se processou na mente, corpo e sexo, era composta de ingredientes e componentes inflamáveis os quais podem ainda ocasionalmente a espaços incendiados. Na vida não há empates como no futebol, ou se ganha ou se perde. Não devemos nem por brincadeira esconjurar o demónio sem sabermos como terminar a missa negra. Usando letras para formar palavras, e juntar palavras que que de forma harmónica traduzem ideias ou pensamentos, tento contextualizá-las de forma a sublimar as minhas paixões ou a extravasar a bílis nas decepções.

grafonola2.jpg O que a grande maioria do mundo anda agora a ver ou viver já eu o fiz há muito tempo, e, isso, torna-me quase que insensível às convulsões do quotidiano, pois são apenas, reconstruções, simulações, imitações das verdadeiras e originais situações que já enfrentei no passado. A vida de uma pessoa pode alterar-se ao voltar da primeira esquina, por alguém que nos roube a carteira ou o coração, portanto devemos estar prontos para reagir a qualquer eventualidade antes de aceitarmos “Bona fide” as intenções de intrusos nas nossas vidas.

António José Canhoto.... 3-9-2019



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:27
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