Domingo, 25 de Maio de 2014
KIANDA . XLIX

T´CHIKUKUVANDA. Mistérios do Pungo Andongo

 Pedras-de-Calundus … Pedras com espíritos…

Por

   T´Chingange

 Em minhas viagens por Angola, ainda nem se falava em independência, resolvi um dia ir com a família à procura das pegadas da rainha N´Zinga. Subindo e descendo pedregulhos de tamanho descomunal, pisei uma enorme pedra lascada que soou a oco; Fixei-me no ponto e assinalei-o com três pequenas pedras a formar uma pirâmide e na peugada da régia patada de N´Zinga lá fomos até chegar àquela que dizem ser a sua. Cheirando o ar impregnado de chulé, até acreditei nesta mentira e, foi quando reparei na concentração de pequenas púpias, fósseis de bitacaia na forma de caganitas nos muitos outros semelhantes pés; ficou ali retido o cacimbo da noite formando pequenas poças de água com cor de urina, mijo mesmo; deduzi que ali havia esquilos e, vi até a esgueirarem-se nas fendas vultos de roedores do tipo dassie (rock hyrax) da Table Mountain da Cidade do Cabo. No ar havia até um forte cheiro de catinga á mistura com odores de azeviche e funcho, algo raro para estas paragens de África.

Perante as minhas duvidas um kota que por ali estava, salientando-se de rugas adiantou que aquele pé era mesmo o da sua antepassada rainha e os cheiros que se sentiam também eram os próprios dela e mais os milongos que ela usava para enfeitiçar seus inimigos. Este kota cabobo que saiu do nada, parecia saber muito e, dando-lhe toda a atenção foi me dizendo que ela, a rainha N´Zinga vinha até aqui fazer feitiços de cazumbi depois de consultar os t´chikukuvandas, os sardões reais das pedras de Pungo Andongo. Aqui, fiquei espicaçado de curiosidade e por querer saber mais, fiquei atento ao kota século. – Sim! Ela vinha aqui tomar-se de sol, fazer sexo e aconselhar-se com os lagartos que se abrigam aqui por debaixo, ela batia com seu bordão, cuquiava-os na rocha por cinco vezes e os sardões apareciam, disse ele. Espicaçado por saber, dei uma gasosa ao velho Pumuma (era seu nome) e desloquei-me àquele sítio que tinha assinalado quando do tal toque oco. Sexo com lagartos!? Isto há coisas! … Matutava eu em jeito de matumbo e, assim fiquei.

Com um calhau arredondado e, naquele tal sítio da pirâmide, dei cinco pancadas fortemente e foi neste então que surgiu não um, mas cinco lagartos, os tais t´chikukuvanda e, dispostos em arco um deles, o maior, com sua cabeça balouçando em vaivém de fazer susto me perguntou. Ui!... Fiquei espantado! Estupefeito! Boquiaberto! – Este lagarto fala!... Dando um certo trejeito ele o lagarto, cuspiu para o lado uma nojenta bisca, deu uma lambidela ao seu beiço superior do muzumbo e perguntou-me em forma de xingamento entredentes e, em kimbundêz: - Que queres de mim t´chindele cangundo? – Oi… Ai-iu-é! Sukwama!? Sundiameno!? Falei! -Tu és mesmo um matumbola, fala então como vai ser o futuro de N´Gola? – Ele, surpreendentemente deu uma risada cavernosa e disse: Nos onze de Novembro, a kianda da N´Zinga vai aparecer com cara de homem feio e de nome Tótila Neto... um descendente da gloriosa família. Parou um pouco e, em um feio trejeito de engolir milongo do ar, acrescentou: - Esse Tótila Quinza Neto vai cantar independência com uma quilunza Kalaxenikove, vai quituxiar os t´chindele cus quizango n’dele fazer vutucar os brancos no m´putu. Antes de sair dali dei uma boa porção de matipa-tipas bem maduras aos coloridos lagartos tugas e saí sorrateiramente sem mais nem porquê. – E, … não é que aquele t´chikukuvanda tinha a sabedoria toda. Ainda hoje me sinto confuso, xinguilado com aquele passado que até parece mentira. O curioso de tudo isto é que estes sardões tinham as cores da bandeira portuguesa do m´putu, vermelhos na cabeça, amarelos junto ás patas e com o resto do corpo verde. Como podia eu naquele então saquelar esta quissanguela!

 

 

Ilustrações de T´Chingange

Glossário: Bitacaia: matacanha, bicho de pé; Cuquiar: acordar, despertar; muzumbo: nariz; xingar: injuriar, ofender; Kimbundêz: mistura de kimbundo com português; t´chindele cangundo: branco ordinário; Sukwama! Minha nossa, filho da mãe! Caramba! Matumbola: um vivo-morto, assombração; N´Gola: Angola; Tótila: Rei, doutor; milongo: remédio, mistela; Quinza: meio onça, meio homem na mitologia popular; no jeito de hiena; Quilunza: arma de fogo; Quituxiar: punir, maltratar; Quizango: feitiço, azarar; Vutucar: regressar; M´puto: Portugal; Matipa-tipas: fruta phisális; Xinguilar: ficar em transe, ficar incorporado de espírito, Saquelar: adivinhar; Quissanguela: associação, junção de factos (eventos); Cabobo: sem dentes.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:05
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