Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015
KISANJI . XIV

ANGOLA - DESTINOS . PÁSSARO DE MEL - Morre um capim, nasce outro…

Por

DY0.jpg DY – Dionisio de Sousa (Reis Vissapa)   Sempre Angola e a sua magia

brig1.jpg O Unimog da brigada dos rios ziguezagueava as margens do Cunene, deixando as esplendorosas quedas do Ruacaná para trás dirigindo-se para a foz do rio dos elefantes, onde tencionavam montar o nosso acampamento. Por idade foi-me reservado o lugar da carroçaria e os meus gritos para o Monteiro Ferreira abrandar o andamento dando-me tempo para me desviar das espinheiras e manter o equilíbrio, se chegavam aos seus ouvidos ele não ligava peva. Quando estacionámos num idílica clareira que marginava o rio cristalino, todos os arranhões das unhas de gato deixaram de arder com o bálsamo que aquele éden emanava. Os silvos competiam em beleza com os mutiátis e mulembas de porta altivo rodeando um círculo de terra perfeitamente calcado e acolhedor.

brig2.jpgUm frémito de prazer percorreu-me o corpo e o sangue parecia acalentar-me as entranhas. Ali estava eu aos dezassete anos, deslumbrado com aquele paraíso perdido nas terras do Cuanhama. Os dias deslizavam fascinantes pelos meus olhos quando medíamos a profundidade do Cunene espiando-lhe os contornos do leito com uma vara hidrométrica. Vogávamos pelos seus braços num Zodiac pneumático, rodeando ilhas de encanto e descendo rápidos imprevistos onde as águas saltavam em novelos de espuma alva. Verde de mil matizes coloria as margens povoadas de águias pesqueiras e íbis elegantes e, de longe-em-longe encontrávamos caíndes de invulgar delicadeza, dessedentando-se nas águas frescas. O meu periclitante calendário precisava cerca de um mês naquele lugar onde a mão de Deus se esmerara.

brig3.jpg Aos fins de tarde descansávamos o corpo exausto nas cadeiras articuladas de lona verde usufruindo o fabuloso espectáculo de uma família de hipopótamos que desde o dia que ali havíamos chegado se instalara no remanso que distava meia dúzia de metros da margem. O macho e a fêmea brincando com a cria em cabriolas ágeis e surpreendentes para o avantajado dos seus corpos! Vamos ter visitas - Murmurou o Ferreira, quebrando a magia do instante. Achas? Perguntou fleumático o Negrão. O Artiaga no seu habitual pragmatismo acrescentou: – Só se forem algumas muximbas que venham montar aqui as suas cubatas. Tirando as idas do Esteves ao Chitado para renovar o rancho, nada nem ninguém aparecia por ali.

brig4.jpgUma avezinha graciosa batia asas pairando quase por cima das nossas cabeças, chilreando aflita como se quisesse comunicar algo. É o pássaro-do-mel, comentou o Alfredo com o cachimbo fumegante na boca. Este aqui? - Sim esse que anda aqui por cima de nós. E então? - Vem anunciar visitas. A descrença lia-se no olhar dos meus companheiros de brigada, mas ninguém ousava pôr em dúvida a experiência do Ferreira, no que dizia respeito a assuntos de mato. Se calhar! Disse o Blandira. O experimentado caçador, remeteu-se a um mutismo próprio dos homens que conheciam África e os seus segredos, só quebrado pelo  Boa noite, durmam bem! Quando nos fomos deitar.

brig5.jpg O pássaro-do-mel não mentira ao Alfredo. Tivemos na realidade duas visitas em vez de uma. Por volta das quatro da manhã uma restolhada assustadora pôs todo o mundo fora das tendas num abrir e fechar de olhos. O Monteiro estava cá fora com a Winchester 73 que o Jonh Wayne usara no filme do mesmo nome e que nós chamávamos de “Trinta x Trinta”. Xíííuuu… Elefantes! Murmurou baixinho para mim. Onde estão? Não os ouves!? Oiço mas não vejo. Mas eles vêem-te, podes crer. Não foi grande ideia ter montado o acampamento no trilho deles, não estão nada satisfeitos.

brig7.jpg Mas foi o Alfredo que escolheu este lugar. Pois foi isso que o pássaro de mel me veio dizer, retorquiu. Os elefantes ainda reclamaram por algum tempo a sua passagem, mas a fogueira ainda flamejante e o barulho que fizemos levou-os a irem beber ao rio por um atalho. Já o sol se aproximava do meio-dia quando o Comandante Reis, chefe da Brigada dos Rios, chegou ao acampamento numa visita inesperada.

brig6.jpg No advento da televisão e do telemóvel, lembro-me vezes sem conta do meu Pássaro de Mel. Espero ansioso que ele me faça uma visita alertando-me para uma manada de elefantes que vêm repreender-me por ter feito o meu acampamento no sítio errado. Acho que o Monteiro Ferreira os levou a todos para parte incerta, pois tal como eu não gostava de telemóveis. Por onde andará ele agora, mais os elefantes e a alegre família de hipopótamos que morou ao meu lado quando eu tinha dezassete anos! Lá longe no Cuanhama.

Kissanji: -  Instrumento musical - tábua de forma rectangular, onde se fixam umas palhetas de metal que accionadas transmitem sons (Angola).

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:57
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