Terça-feira, 9 de Março de 2021
LAGOA DO PUTO . VII

Fábrica de letras da kizomba (Kimbo - M´Puto) - 07.03.2021

Crónica 3125 . “ A presa da Moura e seus cazumbis do GARUM” Em tempo de pandemia. Meu passeio de hoje, para espairecer…

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Por soba24.jpg T´Chingange – No Al Gharb do M´Puto

Este passeio pela orla algarvia do M´Puto, já é uma rotina de longos anos e, é sempre muito agradável vivificar a natureza acompanhando o rendilhado de falésias definindo a fronteira sul com o oceano. Subindo e descendo por entre fragas e milhares de flores de variadas plantas, carrego as energias tão desmilinguidas por via dum vírus COVARDE XIX que nos tolhe ao confinamento de nossa kubata, nosso mukifo.

Desta feita e no correr do sotavento pude rever sítios já conhecidos mas que, sempre renovam nossa vontade de observar e cheirar dando felicidade à vida… Em tempos, já vi por aqui raposas mas com o alastramento da urbanidade, foram desaparecendo; vê-se sim caganitas em restolhos de coelhos. Desta feita vou repor aqui o já descrito em parte e, em tempos com outras novas falas de minha lavra, para ginasticar a mente a modos de não criar mofo nela, em demasia ou avondo como se diz por aqui entre linguajares marafados.

LAPA02.jpeg Nesta pequena bacia dos barrancos de Vale da Lapa, há no “reino da aroeira”, a palmeira anã, a erva rasca, trevisco, arruda, zimbro, os gladíolos e tantas outras a que chamamos no seu todo de carrascos, resistindo ao calor tórrido de verão pela brisa húmida do mar que entra no lugar da presa, junto à praia. Se houver consciência na preservação dos coutos, reservas naturais e legados históricos, poderemos ainda passear por este património ecológico pertença dos mourinhos, gralhas, melros pegas e cucos. Até há bem pouco tempo havia zorras (raposas) mas, nos últimos sete anos, deixei de as avistar

Foi a partir do século VIII que as lendas das mouras encantadas que guardavam tesouros, se associaram florestas, rochedos, serras e fontes, numa tradição oral. Cultura que prevalece nos cultos pré-cristãos, chegando até os nossos dias. Podemos assim encontrar lendas de mouras em toda a costa Sul da Ibéria como a lenda da Moura Salúquia por exemplo e, que em 1554 deu origem à actual cidade de Moura. Depois da invasão árabe, entre a lenda e a história, constatou-se em vários lugares a importância duma Moura.

LAPA1.jpeg Desta feita irei descrever esta “Presa da Moura” no lugar de Vale da Lapa que advém de umas quantas levadas nas encostas pedregosas, construídas desde então, que serviam para irrigar pequenas hortas dos socalcos separados por muros de suporte, em pedra solta. Estas levadas terminavam nos barrancos existentes, agora uma densa mata de mato de aroeiras, tomilho e arranha-cão. Creio que a água armazenada nesta represa daria para gerir durante todo o ano as irrigações dos produtos hortícolas numa fase recente e, lá longe em tempo de Romanos, lugar de tratamento de conservas.

Dos vestígios da ocupação romana, neste litoral algarvio, talvez as mais emblemáticas sejam estes tanques em forma de represa para lhes garantir a salga e conservação de peixe associados à produção do tão apreciado GARUM, um condimento confeccionado a partir da salmoura de sangue e vísceras de atum ou cavala, triturado com crustáceos e moluscos. A represa da Presa de Moura (salmoura), teria sido o apoio ao complexo industrial de salga e conservação de peixe, com estruturas de apoio hoje desaparecidas em consequência do recuo da linha da costa.

LAPA01.jpeg Anda se podem ver nos topos das falésias lajedos formando poças de água e, aonde se desenvolvem plantas como a beldroega e poejo; lugar de bebedouro de coelhos e outros pequenos rastejantes. Aqui teria sido construído um paredão com uns 3 metros de largura na base tendo blocos irregulares de calcário do tempo miocénico marinho e cimentados com uma argamassa muito dura de cal e ouros aditivos. Pelas argamassas usadas juntando as pedras, ainda visível no pequeno troço existente, tudo leva a crer remontarem a esse período de dominação romana. As técnicas usadas em construção nos séculos I a III antes de Cristo e o coliseu de Roma que se manteve em funções até à queda do Império no ano de 476, são em tudo semelhantes a esta argamassa.

Esta, tinha em sua composição uma percentagem de gesso e cal aérea ao que se juntava aditivos de gordura animal, ceras e resinas do látex da figueira que aqui havia em abundância. Pode perfeitamente ter sido construída quando das reconquistas de localidades importantes tais como Évora, Beja, Badajoz e Sevilha. Originalmente deveria ter uns seis a sete metros de altura o que me leva a supor pela sua bacia, provocar uma reserva de 15.000 metros cúbicos de água potável.

LAPA4.jpeg Porque a costa era frequentemente fustigada por ataques de mouros, leoneses e portugueses da Lusitânia; como um primeiro aviso às invasões por mar havia as vigias, “as torres de vigia”  que se alinhavam ao longo da costa em toda a bacia Sul do Mediterrâneo e costas da Ibéria. Em caso de ataques vindos do mar eram atiçadas fogueiras de aviso aos militares olheiros e à população. Com estes avisos os populares refugiavam-se em castelos ou lugares de resguardo; Esta costa era em tempos muito dada a ataques de corsários com intuito de roubar depósitos de frutos secos e vasos dessa tal conserva chamada de GARUM mas, e também para fazer escravos e abastecerem-se de cereais       

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:15
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