Segunda-feira, 4 de Junho de 2018
MALAMBA . CCV

TEMPO DE CINZAS ANTIGAS. 04.06.2018

-Ser cleptomaníaco é ter a doença de fanar aquilo que não é seu, um jeito de gamar; A nomenclatura  do M´Puto faz isto com tecnicidade de gula, e nós nada! …

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Em Coimbra

Estamos a 4 de Junho de 2018, o dia em que nasci lá para trás num tempo de há 73 anos. Não digo o sítio verdadeiro porque sou mazombo e a estória quer que se perdure a ideia de que nasci a bordo do vapor Niassa. Minha vida de tropeço em cavandela foi adicionando dias até que fizeram de mim um Camões. Estudei na Escola João das Regras da Maianga da Luua; andei no Colégio Moderno em frente ao café Bracarense mesmo ao lado do Sinaleiro da Maianga e na 4ª classe andei na Escola de Aplicação e Ensaios no Largo D. Afonso Henriques próximo do Teatro Nacional e tendo em frente o Sindicato dos Metalúrgicos de Angola.

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Assim crescendo na perspectiva de ser um Niassalês sigo minha vida normal estudando na Escola Oliveira Salazar da Luua que entretanto passou para Escola Industrial de Luanda. Trabalhei como brigadeiro nos Caminhos de Ferro da Luua desenhando quilómetros de perfis na Brigada de Caminhos de Ferro do Norte.  Querendo subir na vida tiro o Curso de Topografia e Agrimensura na Escola dos Serviços Geográficos e Cadastrais no Largo Bressane Leite aonde tinha funcionado a primeira Escola Industrial…

toledo8.jpg Como topógrafo sou colocado na Cidade de Robert Williams, mais conhecida por Caála e o Abril de 1975 apanha-me ali passando Demarcações Provisórias de terras que afinal nem eram nossas. Só vim a saber isto ao certo, quando da guerra do tundamunjila tudo entrou em alvoroço e era muito perigoso ser-se branco!  Fizeram uma ponte aérea e recambiaram-me para o M´Puto com um voo grátis só de ida! Depois assisti de longe, lá no M´Puto entre o esbracejar dum tal de Vasco Gonçalves que o barco Niassa traria o último nosso património, a bandeira das quinas verde e vermelha com uma esfera e castelos em amarelo.

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Dei voltas pelo mundo com um imbondeiro de Angola às costas e já convencido das inverdades, tomando o calor na lareira do Alentejo, uma terra perto de Panoias, fico conhecedor de outras estórias; de gente que nunca andou por essas enviesadas picadas do Mundo. E, é assim que surge a verídica vida dum senhor que nem conheci de nome Manuel Fonseca -um senhor que tinha a doença de roubar.

soba03.jpg Manuel Faneca nasceu com essa doença de cleptomaníaco, isso de não resistir à tentação de roubar as coisas dos outros, de fanar aquilo que não é seu, um jeito de gamar com gula de mais-valia p´ra ficar o rei do pedaço, o maior, talvez, sei lá! Há muita gente assim que nem desculpa tem por ser doente a propósito e porque lhe convêm, é ladrão mesmo! Faneca, regenerou-se após uns dez anos de cadeia aos soluços e num vai e vem periódico na ramona da Guarda Nacional Republicana.

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Ele, efectivamente tem essa doença mas, de vontade própria, forjou uma maneira de se enganar; fora de horas mandava seu chapéu de feltro para dentro do quintal do vizinho ou alheio e depois saltava o dito cujo, para subtrair o seu próprio pertence. Chico Torrica é uma outra típica figura duma outra pequena vila alentejana; ainda jovem namorou uma catraia bonita de encantos de pasmar rouxinóis mas, sendo ele lavrador dum monte, ficou surpreso quando Felismina sua deusa, num repentino fim-de-semana foi vista a passear bamboleando-se com um brasileiro carioca.

tonito9.jpg Esse carioca, um emigrante bem-sucedido era muito cheio de graveto. Felismina não resistiu à lábia escorregadia do linguajar do bonitão, vestido de popelinas e sapatos brancos mais o seu chevrollet descapotável, rabo de peixe de reluzentes cromados e um verde de constante tentação. Tudo isso relampejou na cabecinha loira de Felismina. Isto não caiu bem a Chico Torrica que de encucamento soluçado e repetido, resultou em uma depressão sem tamanho que nada tinha de platónico. Esta situação perdurou por algum tempo vindo a piorar quando já muito mais tarde lhe mostraram uma foto de sua perdida amada remetida de Cuiabá do pantanal brasileiro.

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A foto mostrava Felismina escanchada em um alazão, algures numa cordilheira de Poconé e, tocando um corno retorcido a que ali chamam de berrante. Isto, na santa terrinha da falsa estepe foi motivo de troça ao já consumido Torrica; por via das falas indicarem que aquele corno de chamar boi tresmalhado era seu maldito chavelho. Esta dolorosa pedrada na já débil cabeça de Torrica deu em o enlouquecer de vez.

tonito10.jpg Torrica deu em maluco, passado dos carretos como dizia a canalhada, pivetes sem sensibilidade para tal dor de chifre e assim, quando lhe dava na veneta desviava as pedras dos caminhos durante a noite e, não raras vezes ia ao monte, igreja de Nossa Senhora da Assunção e retirava lá de dentro todos os santos nos vários altares. Dizia ele que era para apanharem ar.

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Dispunha os santos em círculo e, ao relento sereno de Agosto, fazia-lhes grandes, eloquentes e entorpecentes discursos, bem à sua maneira. Eram o Santo António, Nossa Senhora da Assunção, Nossa senhora do Ó e do Parto mais o São Jorge de que tanto gostava! – Mas que jeito, estarem vosmecês sempre fechados! Gostam de ser coitados como eu? Passam ali meses e anos sem verem a luz do dia, sem ar nem nada e tudo-o-mais! … Dizia ele, Torrica sozinhado consigo, falando prás sombras escuras da noite.

tonito11.jpg Torrica assim ficou para todo o sempre virgem na sua solteiríssima pureza de mente descalabriada. Conta-se que por muitas vezes o tentaram internar no Júlio de Matos mas, desistiram porque sempre conseguia esgueirar-se regressando à sua linda terrinha cheia de branco com barras azuis. Numa dessas vezes disse para quem quis ouvir: - Pois, … aquilo lá naquele hospital é tudo doido varrido! …

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Vejam só que me mandaram tirar água dum poço com um cesto igual a este; disse isto apontando seu cesto de vime que acartava no outro braço, feito de vime entrelaçado e, logicamente muito cheio de buracos naturais de seu cabaz de levar pasto de palha seca a sua égua. Aonde já se viu tal coisa? Retorquía ele esgueirando-se num inocente riso trocista de sublimada lucidez. Isto do sublimado, digo eu, mas em verdade sua estória metia dó. Bom! A minha tal como a de tantos outros também deveria meter mas, o Mundo anda por demais esquecido. Nem nunca nos vão ressarcir. Ele, …há coisas! …

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:03
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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