Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
MALAMBAS CLXXXIV

MOKANDA DO DIA – 14.12.2017 Tukya. II - Peixe da chana

- Apaziguando rijezas adversas, perfilando anjos com a singularidade do mundo. É o nosso pensamento que cria a nossa realidade…

Por

soba15.jpgT´Chingange

E, por que razão se contrabandeava o peixe seco? Simplesmente porque a secagem e o transporte estavam regulamentados, obedecendo a regras claramente estabelecidas pelo Estado e aplicadas pelo Grémio das Industrias de Pesca. E tudo era assim para assegurar a sanidade e impostos. Quem se desviasse destas regras passava a ter actividade marginal pelo que seria perseguido. Sucede que o não cumprimento da lei dava lucro fácil e volumoso. Quem assim procedia recebia o nome de candongueiro, que corresponde a negócio ilegal.

peixe seco1.jpg Havia em volta deste negócio de peixe seco em fardo, intrigas delações e até lutas ferozes. Os camiões deveriam transitar por caminhos maus e normalmente desconhecidos pelos fiscais. Deveriam escapar-se a corta mato por caminhos abertos pelos rodados atravessando as vastas anharas de Benguela. Ora sobre areias ora sobre terra barrenta aonde se atascavam, curvas e contra curvas só conhecidas por eles e os santos protectores da candonga.

tukya2.jpg Quem tivesse dinheiro para empatar neste negócio teria de à partida dispor-se a enfrentar polícias e ladrões! Os camiões teriam de ser novos e no agir deveria haver rapidez; deveriam saber manejar armas de fogo e ficar preparados para qualquer eventualidade; poder sair das encrencas. O peixe era comprado em qualquer pescaria situadas ao longo da costa maioritariamente entre Benguela e Baia dos Tigres, que o vendiam por cumbú vivo.

tukya02.jpg O cheiro desta mercadoria permanecia no ar durante quilómetros pelo que não havia processo seguro de ocultação. Todas as noites havia em qualquer lugar do mato e sem testemunhas, estórias bravas de perseguições com roubos, tiros e por vezes mortes. Se alguém ficasse no terreno muito rapidamente os leões, mabecos ou hienas se encarregavam de limpar o terreno… Havia máfias de candonga e máfias da fiscalização e por vezes associações das duas máfias.

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O peixe seco fazia parte obrigatória da ração dos contratados que deviam receber em cada dia - uma caneca de fuba e um peixe seco, o salário da fome que enriquecia fazendeiros, madeireiros e outros roceiros. Convêm dizer aqui que o termo de contratado era um substituto do termo escravo, trabalho compelido a que os africanos nativos estavam sujeitos nas roças e fazendas durante a época colonial do Estado Novo do M´Puto e, mais propriamente até 1964.

tukya001.jpg A fuba, farinha de milho, mandioca ou massangano, era o preparo para se fazer o pirão, alimento tradicional de Angola. Milhões de pessoas que viviam no interior não conheciam o mar; a guerra prolongada no após independência fez deslocar milhares de seres para as zonas costeiras ao mar e, ao chegarem viram-se na presença duma grande cacimba! Quanto a mim via já ao longe a silhueta dum grande vapor de nome Niassa que viria a ser a minha pátria!

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E, vinte e sete anos depois, fui encontrar-me com esta muita gente vinda dos matos e, pude ler até em uma escola de gente saída do Huambo com o título escrito na frontaria ”Havemos de Voltar”. Nunca soube se voltaram à sua terra do planalto e, nem eles sabem que eu também não voltei para a minha Luua. Quando o Niassa apitou lá longe um último sopro de “vrruumm”, pude escolhe-lo como meu berço; foi ele que fez vibrar no meu coração o enjorcado fascínio do mítico Robinson numa terra de São Nunca e, com um amigo certo chamado de Sexta-feira.

etosha4.jpg Para mim o mundo era tão simples que fantasiava-me em estórias de Emilio Salgari e, a guerra do Tundamunjila (vai embora gweta) apanhou-me tão desprevenido que só neste após me considerei um inocente t´chindere (branco)! E, foi a partir daqui que dividi o mundo em duas partes: - As feras ou monstros e os inocentes como eu! Até então as feras eram o leão, a pacaça, o elefante ou o mabeco que sempre andavam no mato. Os inocentes eram a galinha, o chuço ou o kandimba que davam de comer aos outros. Foi aqui que me vislumbrei um kandimba ou coelho nas falas lusas. Não tive espaço ainda para falar do peixe dos capins – a tukya! Fica para a próxima….

Nota: Alguns dados, foram retirados das Crónicas de Kandimba de Sebastião Coelho

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:27
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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