Sábado, 23 de Dezembro de 2017
MALAMBAS CLXXXVIII

MOKANDA DO DIA – 23.12.2017 – Tukeya. V - Nas falas do fim-do-mundo (Leste de Angola), apaziguando rijezas adversas com a singularidade do mundo.

Por

soba0.jpegT´Chingange

Disposto a escrever a crónica Tukeya V, coloquei o rato do microondas (leia-se computador) em cima de uns escritos amarelecidos no tempo, coisas minhas do antigamente. Pude ver em letras maiúsculas ”A CHUVA BATE NA PELE DO LEOPARDO, MAS NÃO TIRA AS SUAS MANCHAS”. O mesmo deve suceder com a gata “princesa” que dorme aqui a meu lado no sofá. Recordo agora que este regalo de falas foi-me enviado pelo nosso Kimbanda Ninja para que constasse na Torre do Zombo do Kimbo e anexos da Kizomba.

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Estes dizeres são em realidade um mítico provérbio africano aonde para além da onça, do leopardo e da chita existem a hiena e o mabeco que também as têm tal como a gata princesa que em seus primeiros dias dormia no dorso do faísca, o cão-aviador que já morreu em terras do moçárabes. Com a zebra ocorre o mesmo fenómeno de manter suas riscas, mesmo que chova muito mas, com esta, acontece um outro pormenor.

tukya13.jpg As riscas irregulares das zebras são para fazer com que o leão fique tonto ao persegui-las perdendo a noção e desequilíbrio. Pois, muita gente não sabe, mas o leão ao fim de algum tempo de perseguição, e por via de sua fixação em uma, fica com tonturas acabando por desistir. O facto de todas correrem em simultâneo causa o efeito psicadélico e, o que era, fica turvo com tantas riscas a se moverem.

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A natureza ensina muito a quem se detém a observar os mistérios tão perfeitos dela. Mas lá terei de voltar à tukeya e com Dom António o primeiro governador do distrito do Moxico achador de um vasto campo com milhões e milhões de peixinhos empoleirados nas árvores. Na verdade, as árvores não eram árvores, senão arbustos ou, por outro dizer, bissapas comuns e capim alto, a normal vegetação das chanas do Leste de Angola.

tukya14.jpg Dom António mandou dois escravos que fossem buscar algumas daquelas coisas prateadas que se viam à distância. Entretanto, abandonou a tipóia onde se fazia transportar, estirou as pernas, erguendo seu comprido pescoço sobre a vegetação. Quando, por fim, pôde tomar nas mãos os peixinhos, viu que estavam secos, mumificados pelo sol. Procurou entender o fenómeno e interpretar o confuso palavreado dos vassalos. Parece ter entendido alguma coisa entre o cazumbi das falas  com eles, seus monangambas.

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O que é isto? …Vozes: - «Tukeya, patrão!», responderam-lhe (…) E «tukeia», é o quê???!!!(..) Monangamba - «Tukeia», não vês patrão, é mesmo os peixe! Dom António: - Peixe, como? Os peixes ficam em cima das árvores como passarinhos, é? Uma voz: - (Dirigindo-se aos monangambas) - Oh pá... Esse n´gajo tá falar  só átoa. Ele está só maluco dos cabeça n´dele, pôssa, pah! É peixe, mesmo. Outro monangamba: - É, não siô! Eu não… Si siô. É mesmo os peixe. Não vês, patrão? São mesmo os peixe de comer. VOZES – Eh, eh, eh...

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Os peixe sai atão em cima dos pau? Oh! Você viu? «Ombise, o kanjila ko? Aieku, ué!» Os peixe não é os passalinho, não…Todos opinavam mas ninguém explicava a razão pela qual havia peixinhos pousados nas folhas e a discussão não terminava. A caravana aproximou-se da misteriosa esteira prateada que o sol retocava de reflexos azuis. - «O aroma é pestilento. Só se pode andar por aqui com o nariz tapado» - anotou Dom António em seu canhenho de viagem.

MIRAN2.jpg Rodeado de peixinhos e opiniões, queria entender o desentendível e o diálogo generalizado não lhe dava informação compreensível ou válida. O exame mais atento dos peixinhos tampouco! Tinha visto tudo isso com os próprios olhos mas, estava convencido de que o feitiço daquele mato era mais poderoso, porque criava peixes nas bissapas e peixes que tampouco bebiam água.

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Das anotações à teoria dos peixes voadores foi um passo. Para melhor conclusão faltava, apenas, encontrar o rio ou lago de onde partiam os cardumes... – «...Cardumes ou enxames?», interrogava-se o governador. «Nadam ou voam? Quanta distância? Qual a altura? E, por que razão aterram ou caem todos juntos? Acidente ou suicídio colectivo? Sobre os arbustos vêm-se nuvens de peixinhos prateados, ressequidos, tão extremadamente delgados que, em vida, são tão leves que podem deslocar-se pela planície, voando como enxames de gafanhotos, até caírem exaustos sobre as plantas».

tuiui3.jpg Nunca regressou ao lugar e, morreu anos mais tarde sem desvendar o mistério ou os feitiços da «tukeya». Contudo a sua fantasia não andava longe da verdade. A «tukeya» brota do chão como as nuvens de gafanhotos. Este peixe minúsculo nasce na anhara, nos lagos de curta vida que a água das chuvas forma, todos os anos. Nas gretas de lama seca, no fundo, ficaram depositados os ovos que produzem miríades de peixinhos de crescimento alucinantemente rápido.

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Em dois meses cumpre-se o ciclo vital e começa a desova. A forte evaporação devida à secura do clima e o baixo nível das águas obrigam à concentração dos cardumes, facilitando a tarefa da recolha. As mulheres da região chegam em grupos, empunhando cestos com aspecto de raquetas enormes. Entram na água juntas, formando parede e avançam umas ao lado das outras, repetindo canções de técnicas seculares. Agitam os cestos com movimentos de baixo para cima e atiram os peixes ao ar, para que caiam sobre as plantas. Dias mais tarde, voltam à anhara, desta vez com kindas e juntam a «tukeya», como quem colhe frutos do alto das bissapas. Na próxima crónica saber-se-á de onde advém a palavra Moxico…..

tukya1.jpg

 Nota: 1 - Muitos dados, foram retirados das Crónicas de Kandimba de Sebastião Coelho; 2 - Somente na crónica final será publicada o glossário de palavras não habituais na língua portuguesa…  

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:50
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