Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015
MISSOSSO . XI

ANGOLA . LUANDA “A BICHA DA PEDRA”

Por

  Dionísio Dias de Sousa     Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

- Vai sair, vai sair, vai sair. - O moleque Gindungo, arauto destas palavras apregoava com os pulmões no máximo da performance a notícia que inundava os ares de Luanda de pós independência e que se propagava a uma velocidade estonteante como suiuio (piolho) em penugem de galinha pedrês.

- Vai sair mais o quê Gindunguinho? Interpelou-o a vovó Mariquinhas ao mesmo tempo que ficou com parte do colarinho do Gindungo na mão na tentativa vã de filar o moleque e obter explicações mais latas sobra a notícia, algo que não se notou pois a dita camisa só tinha uma manga e ali perto do ventre um buracão onde espreitava um umbigo mal-amanhado no parto.

- Me larga vovó tenho de desavisar aí o povo todo de Luanda do desacontecimento. – Estrebuchou esgueirando-se das mãos da Mariquinhas. – Me fala só o quê moleque. – Voltou à carga a vovó com pelo menos meia centena de compatriotas já em seu redor. – Não sei não, mas vai sair amanhã na padaria Violeta daquele tuga qui foi no M´puto, o Venceslau.

Dy4.jpg  E desatou a correr Luanda fora alertando os transeuntes. Com esta informação adicional Mariquinhas desatou a pedalar as pernas franzinas e já meias trôpegas em direcção ao largo do Quinaxixe onde se situava a dita padaria seguida por uma multidão que engrossava a olhos vistos. Nesta época em que bens de consumo eram raros na capital de Angola tal notícia dava azo a um corrupio excitado para o estabelecimento onde o evento iria acontecer pela manhã do dia seguinte.

- Tobias, tu sabe o que é mesmo que vai sair amanhã? Perguntou o Paulino ao seu companheiro de andança. – Não mano Tobias, desconsegui de saber mas alguma coisa vai sair para o Gindungo gritar assim. – Então vamos lá para colocar os nossas pedra para marcar o lugar. – Incentivou o Tobias que já não comia um funge há vários dias, acelerando o passo. – E tu calcula mais o quê que é Paulino? – Não sei não Tobias, da última vez eu pensava que era os cúria do farinha ou batata e levei para a minha Julieta vinte rolos dos papel dingiénico. – Ai é? – E então Paulino? – Julieta me perguntou para quê tanto do papel, se a gente não come vai limpar os mataco de quê.

Dy5.jpgJesuíno que galopava ao lado deles interveio dizendo. – Não me falam disso, manos. Na última vez que houve um desavisamento desses esperei dez horas na bicha de pedra pois ia sair um conduto qualquer para calar a minha barriga que andava a roncar como o porquinho da mana Gracinda. – E então o quê mais aconteceu Jesuíno? – Perguntou o Tobias. – Aí não me recorda essa maka que já tinha esquecido. Muito estalo na bicha da pedra e a mana Josefa desencarapinhou a tia Clotilde por causa dos pertença da pedra. Eu me virei na confusão e finalmente consegui entrar na antiga farmácia do velho Fagundes e levei para o meu mokifo dois estalos, os beiça rebentada e duas caixas de chocolate gostoso que a minha Marilda que está grávida se lambeu depois do feijão com lombi. – Mesmo assim tu tiveste sorte Jesuíno, chocolate é para gente fina. – Comentou o Paulino. – Sorte mesmo, mano? Até hoje a Marilda está a gritar, está a sair, está a sair, que eu acho mesmo que foi do tal chocolate Broklax . – Lamentou-se o Jesuíno com ar condoído.

Dy6.jpg Chegaram à padaria Violeta como uma manada desencabrestada que vai beber ao rio. No passeio junto ao estabelecimento uma rimada de calhaus de todo o tipo estavam alinhados como rilhetes em mata de goiabeira. Os lugares marcados para a bicha matutina atingiam já uns bons duzentos metros. – Essa pedra aí é minha vovó Mariquinhas. – Advertiu alguém que a viu tomar à má fila o lugar marcado. – É tua como? Eu já coloquei a pedra faz já mais de uma hora. – Retorquiu a Mariquinhas com ar assanhado. – É minha mesmo vovó, não fala maka por causa da pedra vovó. – Estas discussões já aconteciam um pouco por todo o passeio e algumas a ultrapassarem o limite da tolerância. Finalmente os recém-chegados colocaram as pedras de marcação o que lhes dava direito a estar na bicha pela madrugada.

Dy7.jpeg

 

Na sofisticação da marcação no outro dia havia marcação personalizada; tinha chinelo, sapato velho, tijolo, tronco de kibaba, tacho, chapéu colonial, cabaça e entre os edecéteras estava uma velha bíblia de capa despolida, uma boneca sem braço e um fiel cachorro de verdade chamado de Adão; sei seu nome porque seu dono de nome Abraão me confidenciou entre muxoxos e cuspidelas coloridas.

 – Então Tobias, tu sabe o que vai sair amanhã? Perguntou o Paulino – Não sei mesmo mano, mas vou levar….

Missosso: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador.

As scolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:32
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