Segunda-feira, 11 de Maio de 2015
MISSOSSO . XV

NAS BARROCAS DA LUUAMaianga com seu Rio Seco, um lugar notoriamente ecológico e sustentável.

Por

soba0.jpg T´Chingange

surucucu5.jpgPorque tinha de arranjar maneira de me entreter, procurei entre meus mofados escritos, alguns acontecimentos milagreiros ou milagrosos para nosso Jesus o Nazareno, poder apreciar em seus mais aborrecidos tempos. E como de toda a vida é a infância aquela que mais merece chamar-se vida, terei de ir ali beber meus mais alegres ócios, bocadinhos de coisa alegre e fidedigna que só podem ser escritos em língua morta, assim comos os escritos do antigamente, os apócrifos. E, porque agora andam todos à pancada e também porque Deus, sendo omnipotente não faz a todos acreditar na mesma coisa e, embora eu goste das diferenças, respeitarei a cultura monoteísta por uma questão de princípios, embora tenha notado que ele, o Nosso senhor de Nazaré anda muito distraído com muita gente morrendo à toa e, sem ter feito mal a quem quer que seja.

Um dia de primavera, tempo chamado de cacimbo, eu e meus ávilos mais próximos candengues, apetrechamo-nos de palhinhas longas e suficientemente duras para apanharmos grilos, ralos e gafanhotos. Com uns caniços entrelaçados em mateba fizemos umas gaiolas para aprisionar estes ditos bicharocos. Fizemos um concurso de para ver quem caçava mais grilos e qual deles viria a ser o mais cantador. Todos nós a concelho de Zeca Mamoeiro armados de zingarelhos e acessórios lá fomos para as barrocas da Luua, um sítio chamado de bananeiras do Rio Seco porque era um lugar notoriamente ecológico e sustentável.

surucucu01.jpgTratando-se de uma caçada, houve quem levasse comidinha roubada em suas casas como arroz e batatas mas, eu e Zeca levamos tirinhas de mamão entremeado com jindungo de Zenza-do-Itombe, fanado. No nosso pensar, os grilos, antes das cantorias celestiais e nupciais, abancavam-se com pedaços de fruta e cereais variados como a massambala e girassol. Nesta feita, o Zeca, mais entendido nestas paragens de barrocas era o chefe; bom, também só eramos dois mas ambos tínhamos postos e nome por causa da inveja, ele era o chefe e eu, o subchefe.

Convém aqui descrever que o Zeca que conhecemos hoje como um conceituado póetólogo um katedrático da Universidade do Rio Seco, mesmo em pivete, já era uma espécie de professor Pardal, que parecia viver sempre em um mundo separado, o da Luua. Usava calções de caqui e um quico na cabeça com uma pena vermelha de cardeal entalado na letra G doirada nos dizeres “Eu sou um génio” e, era mesmo! Só que um pouco desengonçado! Já nesse tempo falava pelos cotovelos numa forma só dele, sua peculiaridade de kimbundêz amilongado com a sua, nossa mulola.

surucucu1.jpgPor vezes tinha um tique aristocrático, um trejeito soluçado, assim de como um jigler de carro entupido, que lhe nascia no esófago e lhe explodia atabalhoadamente nos beiços enrubescidos; uma pomposa atitude assim na forma de meio indígena meio alienígena, marciano mesmo e, todo ele amissangado de banga, um estilo que soele sabia fazer. Esta banga, conseguiu mantê-la até agora já século! As garinas adoravam isso e enroscavam-se nele como lapas: Fala só pra mim Zeca! Aquela Luua de feitiço do seu Rio Seco encafifou-o perenamente.

Voltando à caça. Nesta feita Nelito e Zorba levaram bocadinhos de toucinho enfiados ao jeito de espetadas. Pica e Rente levavam suas varetas palhinhas untada de visgo para colarem os bichinhos e na ponta colocaram uma maça-da-índia. Enfim, cada grupo levava seus unguentos e mixórdias mais variadas na perspectiva de serem eles os campeões. Necas, o gândula era o fiscal inspector-geral das verificações. Naqueles dias todos os momentos eram especiais mas a caminho da nevrálgica zona dos fuca-fucas e grilos entretivemo-nos a ver os escaravelhos egípcios transportando bolas de merda-seca para os seus armazéns. Bom, aquele lugar por especial, era também retiro de escapatória assim uma retrete arejada para os candengues e não só, se aliviarem.

Claro que os maleducados do Prenda, Maianga e Catambor em seus trumunos de futebol de areia ai se refugiavam em escapadas chamando àquilo genericamente de mato. Os trabalhadores mwangolés, albanis de obras em execução por perto também iam ali obrar. Eu e Zeca recolhemos umas bolas de tuge já confeccionadas e juntamos às fatias de mamão com jindungo como complemento ao engodo, assim pensamos e assim fizemos.

surucucu2.jpgDepois de se atribuir a cada par suas áreas de caça, estipulamos por estatuto meia hora para o feito e, cada qual foi para a sua falésia, duna ou savana dar cumprimento ao regulamento previamente elaborado. Para que conste o regulamento tinha 5 itens e porque é bem transcendente aqui se mencionam: -Paragrafo único - Duração de meia hora; 1º - Os grilos valiam 5 pontos; 2º - Os fuca-fucas (formiga leão) valiam 4 pontos; 3º - O louva-a-deus valia 3 pontos; 4º - Os ralos valiam 2 pontos; 5º - as carrochas de chifre valiam um ponto.

Meu parceiro Zeca, um experimentado caçador de xirikwatas, celestes e rabos-de-junco e, também conceituado pescador dos mares da Samba, despertou-me a atenção para um buraco mais especial, mais redondinho e com uns ossinhos de rato ali por perto. – Vamos apanhar um grilo pré estórico, disse ele! Eu nem sabia nada disso do pré estórico, uns tempos antigos de mais para lá do Jurássico, um tempo muito antes de Cristo aparecer na Galileia! Um puto assim tão esperto, este Zeca era um mestre de mulola sem salalé; eu só podia mesmo seguir suas ensinações. Juro que estava meio desconfiado mas, acabei por concordar.

surucucu8.jpgMetemos a palhinha mais comprida com uma fatia de mamoeiro com o tal de jindungo do Zenza do Itombe; já me esquecia deste pormenor, na ponta da palhinha espetamos um olho de sardão seco para dar sorte; o jindungo foi fanado das bikuatas do meu pai Manel cabeças e Zeca, neste entretanto rolava num cada vez e, parava e no depois prosseguia a palhinha com todos os cuidados, malembe-lembe ela foi entrando. – Olha só! (suspense silencioso) … Disse Zeca! Parece mesmo que aqui tem grilo gigante! Parece que neste entretanto sentiu qualquer movimento paleolítico. Os dois ficamos mirando o buraco com espectativa e, ei que…!? Putaquepariu, assim tudo junto, cada qual com seu grito, cada qual com seu medo de acagaçado! Saiu de lá uma surucucu gorda que nem um mostrengo do lago Ness.

Abuamados, ambos tropeçamos na confusão em cima duns biscoitos malcheirosos ainda frescos e demos às de vila diogo, berrida memorável! Tremendo de bravura, naquele pequeno planalto de argila rasgada pelas águas, os outros putos fidacaixas, candengues de tuge, riam só á toa apontando nossas habilidades emborradas.

surucucu6.jpgEscusado será dizer que não ganhamos o concurso. O regulamento não previa cobra mas, nossa valentia ficou reconhecida, lavrada em cachimónia até aos vindouros e hodiernos dias. Aquele buraco, bem feitinho enganou-nos. Mas, Zeca e Tonito que soeu, passaram a ser vistos como os candengues mais desaprumados daquele bairro. Nesse lugar das barrocas, vivem agora os mwangolés de banga, que mandam mais nos outros que neles mesmo. Chama-se Alvalade talvez em homenagem aos leões que por ali andaram nos tempos de Cristo da Galileia.

MISSOSSO: Conto de raiz popular que em Angola teve seu criador e percursor o escritor Óscar Ribas. Neles, há diálogos com espíritos, calungas ou kiandas e animais que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

O soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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