Domingo, 14 de Fevereiro de 2016
MISSOSSO . XXVI
OS MIRANGOLOS DO DY UM CONTO ANTIGO Nas terras altas do Lubango...

Por

DY00.jpg  Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - Um Chicoronho de 2ª geração… Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer.

UM CESTINHO DE MIRANGOLOS

MIRAN1.jpg Desde que começara a dar os primeiros passos que se aventurava pelos arredores deixando os passinhos marcados no pó fino que cobria os carreiros trilhados por pés caminhantes. Milhares de latas de águas transportadas à cabeça tinham fornecido o pequeno aglomerado onde vivia. Eram provenientes da lagoa que dormitava a menos de meio quilometro e onde bagres irrequietos perturbavam o silêncio da mata. Aquele era o mundo dela, o mundo onde crescera e onde aprendera os segredos das matas. Ali sentada à beira de água conversava consigo própria e deixava voar os seus sonhos com as neblinas matinais que se desprendiam como fantasmas das águas serenas. Formulava desejos e deleitava-se com o despertar do sol e os seus olhos brilhavam de contentamento quando os raios douravam as águas. Aventurava-se pela madrugada para se encontrar pelo caminho com aquelas avezinhas acocoradas ao solo com os olhos arregalados pelo crepúsculo matinal. Saltitavam quando tentava agarrar alguma delas e lembrava-se que avó Felícia lhe contara a lenda que originava o seu aparecimento apenas ao escurecer.

MIRAN2.jpg Não acreditava muito que uma avezinha tão meiga tivesse cometido um pecado tão grande ao ponto de ser amaldiçoada e condenada à escuridão. Confundiam-se com os gravetos acinzentados do solo e um dia encontrara um ninho com dois filhotes esganiçados clamando comida. Achava que havia uma ternura esquecida nos olhos delas. Já de dia a menina percorria os mirangoleiros esparsos pelos arredores e carregava um cestinho de mirangolos para avó que começava a sua lide diária no arimbo e o bater ritmado do pilão moendo grão. Não se lembrava da mãe que partira ao alvorecer tal como os noitibós e que nunca mais voltara. Interrogava-se se não fora ela também destinada a viver na escuridão. Acalentava a esperança de um dia a encontrar acocorada num dos carreiros, esperando por ela. Um dia de regresso a casa estranhou não ver a avó Felícia na sua tarefa habitual. Deu com ela enroscada na samacaca de tons azuis na esteira de caniço.

MIRAN3.jpg Colocou o cestinho ao seu lado e amedrontada reparou que não dava sinal de vida. Um seminarista da missão mais próxima encontrou-a ali aninhada junto avó. Levou a menina para a missão e Padre Fortunato deu-lhe guarida e alimentação a partir dessa data. Nos serviços dominicais interrogava a Virgem Maria sobre o paradeiro da mãe e da avó. Não obtinha qualquer resposta da Senhora de olhos meigos que a olhava misteriosamente do altar do templo. Resolveu começar a escapulir-se de madrugada para visitar os seus amigos noitibós e quando de regresso deixava um cestinho de mirangolos aos pés da Virgem Maria e em jeito de prece questionava a Senhora da razão da condenação da avezinha. Intrigado com as dádivas diárias o Padre Fortunato resolveu investigar quem seria o autor ou autora das mesmas.

MIRAN4.jpg Nas confissões obrigatórias o velho padre inquiriu a menina sobre a razão de deixar um cestinho de mirangolos aos pés da virgem. – A minha avó sempre me tratou bem, me alimentou e acarinhou. Em paga, eu sempre lhe ofereci mirangolos. – A gratidão é uma virtude muito linda. – Congratulou-se o padre. – Mas qual a razão de os ofereces à Virgem? – Interrogou de novo. – Para não condenar a minha mãe e a minha avó à escuridão. – O padre explicou-lhe que a condenação do noitibó era apenas uma lenda inventada há séculos e que todas as criaturas terrenas são filhas de Deus. A menina ouviu encantada a explicação.

MIRAN5.jpg O tempo passava e sempre que podia ia ao seu recanto preferido para ver as avezinhas e apanhar os suculentos frutos. Foi então que encontrou dois noitibós que se deixaram apanhar pelas suas mãos carinhosas. Fez-lhes festas nas diminutas cabecinhas e depois soltou-as. O sol nasceu, colheu os mirangolos e de regresso à missão as duas aves faziam curtos voos no carreiro por onde caminhava como querendo alisar-lhe a caminhada, indiferentes ao brilho do sol. Os anos passaram e foi-se tornando mulher. Estudou e aprendeu as coisas da vida e um dia as duas avezinhas deixaram de aparecer. Percebeu que era altura de voar também. Que ninguém era condenado à eterna escuridão por Deus ou pela Virgem. Só vive na escuridão quem quer.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:32
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