Segunda-feira, 28 de Setembro de 2015
MOKANDA DA LUUA . XL

ANGOLA - O EMBONDEIRO MÁGICOÁfrica, é uma bênção e um veneno!

Por

DY0.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - África, é uma bênção e um veneno! - Foi dele que ouvi esta verdade tão marcante em nossas vidas! Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

Foi dos contos que mais gostei de escrever.

embo0.jpg Do meu pai herdara metade da cor da minha pele, o desapego total pelo dinheiro, um profundo amor por África e uma Bedford velha. Da minha mãe a outra metade da cor, o conhecimento das mil mezinhas possíveis de fabricar com a flora africana e o gosto pelo encantamento dos matos, dos rios, das aves e dos animais selvagens e o Molas sobrinho da minha velha e ajudante do meu pai. O meu velho deixara uma terriola no Alentejo profundo no princípio dos anos vinte e com quinze anos rumara para Angola com uma carta de chamada na mão. – Esta é a minha terra, a minha família e o meu sonho de menino. Dizia isto denotando um profundo desinteresse por Portugal e nada do que lhe dizia respeito o emocionava. A minha mãe teimou toda a vida, contra a minha vontade em chamar-me. - Menino Rodolfo para aqui, menino Rodolfo para ali -Dava a ideia que eu não tinha saído das suas entranhas. Quando o velho ficou entravado, tratou dele com um esmero e um carinho inultrapassáveis.

embo1.jpg Foi nessa altura que peguei na carripana e comecei a transportar malas de peixe seco do Tombua para o Cuanhama. Ainda hoje não percebo porque diabo era proibido a sua comercialização e éramos perseguidos ferozmente pelos fiscais do governo. O meu pai ensinara-me como trocar as voltas a esses “Tratantes”, epíteto dos mais meigos que ele usava quando se lhes referia. Usávamos picadas alternativas onde a fiel Bedford resfolegava como um cão com asma, gemendo desesperada no barro negro. Foi numa dessas viagens em que num repente o céu azul se transformou num amontoado de nuvens negras que pronunciavam chuva da grossa que o diferencial foi à vida, algures entre a Cahama e o Katekero. O Molas com o desalento de negro que leva “ tampa” em rebita, tirou o arame que prendia a porta do seu lado e com metade de um saco de farinha a servir de capa confirmou a desgraça.

embo2.jpgO barro peganhento tinha derrotado a tenacidade da velha camioneta, que jazia como um couraçado semi afundado no lago de lama e água barrenta em que se transformara a picada. O Molas não perdeu tempo e agarrou nos “Nonkakos” e zarpou em direcção ao Chipelongo para conseguir ajuda. À segunda noite abandonei a cabina e munido do kamberiquito instalei-me num embondeiro de dimensões inauditas. Um raio cavara-lhe uma pequena gruta no tronco grotesco e rugoso e ali me aconcheguei com a natureza. A lua prateava-me o abrigo improvisado quando ele entrou lindo de morrer, os olhos fitando-me com uma ternura indescritível sob as pestanas sedosas. O pelo argênteo realçava-lhe a elegância dos quartos traseiros e quando se enroscou com terna confiança junto às minhas botas parei de respirar com medo de quebrar a magia do momento.

luis7.jpg Foi então que entrou a fêmea, uma Caínde temerosa abanando a cauda com o nervosismo de quem olfacta o desconhecido. Dormimos os três na cumplicidade daquele embondeiro mágico. Enterrei o meu pai e a minha mãe um quase a seguir ao outro, e a velha Bedford desfez-se em ferrugem no telheiro improvisado no quintal da casa dos meus velhos, lá para os lados do Chipelongo. O progresso, o asfalto, e os interesses abomináveis de alguns mataram a aventura da picada e do peixe seco tal como tantos outros pecados cometidos pelos senhores continentais que ditavam a lei e a impunham a seu belo prazer. Em consequência levei uma sova sem saber porquê de um grupo de libertação que saqueou a loja e matou o Molas com uma coronhada por me querer defender e me fez embarcar um mês mais tarde num avião da cruz vermelha, rumo a Portugal.

dyo01.jpgO meu pai e a minha mãe esqueceram-se de me instruir sobre esta selva e assim vegetei de árvore em árvore no Rossio, entre o Nicolas e os Restauradores, dormindo ao relento onde calhava. Uma noite a chuva e o frio atiraram-me para um alpendre sem kamberiquito. Por volta da meia-noite um casal jovem albergou-se também ali, debicando-se na boca com suspiros de prazer. Lembrei-me dos caindes e do embondeiro mágico, não me mexi durante toda a noite. Pela manhã parti para a vida, para desbravar a selva urbana e tentar amá-la tal como o meu pai amara aquela outra do outro lado do mar. Não consegui! Faltam-me os caindes, faltam-me os embondeiros, faltam-me as picadas, falta-me um peixe seco na brasa com um prato de pirão, mas arranjei dinheiro para a passagem.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:30
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