Quarta-feira, 4 de Junho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXIV

 

 

ANGOLA  O TABAIBO ALBINO DO LUBANGO – Me chamam assim…

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa)           

Quem o alcunhou desta maneira tinha um carradal de razões, eu pessoalmente nunca cheguei a saber o seu verdadeiro nome nem sequer se alguma vez o teve. Escorreito como uma maçaroca, a carapinha loira, as pestanas e sobrancelhas quase invisíveis na moldura facial avermelhada, umas calças sem cor onde faltava metade do tecido numa das pernas e uma espécie de camisola de linha que deixava dúvidas se era mais buraco que pano. Encontrámo-nos nuns terrenos que ladeavam a antiga estrada para a Mapunda ali para os lados onde morava a Laurinda, rapariga que embora não tivesse sido bafejada pela mão de Deus em matéria de beleza já tinha uma aceleração invejável para a época. Habitavam ali em harmonia umas tantas tabaibeiras namorando mirangoleiros de frutos negros que sobressaíam por entre as folhas do arbusto espinhoso. Por alguma razão que desconheço o Divino sempre colocou alguns entraves na obtenção dessas frutas exóticas. Eu bem queria chegar às frutas em forma de barril de cor amarela pôr-do-sol que se encontravam no alto do cacto mas sem sucesso.

Pedrada e uns paus secos de maior dimensão não lograram atirar nenhum dos tabaibos ao chão. Foi quando ele se aproximou de mim com um ar de cachorro vadio, empunhando uma vara de cerca de cinco metros com um prego ferrugento espetado no extremo mais delgado. – Não faz assim, eu ajudo-te a apanhar. Disse-me com um sorriso tímido quase evaporado no seu rosto onde sobressaíam aqui e ali pequenas escamas. Após estas palavras elevou a vara por cima da tabaibeira e espetou o prego no topo de um dos barrilinhos tentador torcendo-o e trazendo-o em seguida para o chão. Dirigi-me ao fruto com sofreguidão quando ele avisou. – Não pega que tem picos vou-te ensinar como é. Fez rebolar o fruto com a sola do pé no capim rasteiro e eu pensei para comigo que ele era capaz de apagar beata com toda a descontracção. Retirou um canivete do bolso que milagrosamente não estava roto, fez dois lenhos nos extremos do fruto e um corte na transversal e ofereceu-me a polpa tentadora recheada de pequenas sementes na palma da mão. – Tive um momento de hesitação perante o estado da sua mão semelhante ao da face. – Eu lavei as mãos na mulola, podes comer à vontade. Disse-me percebendo os meus receios.

 Comi aquele e muitos mais e arranjei um entupimento que só voltou ao normal com Broklax um laxante que em tempos e por ter sabor e parecenças com o chocolate me fez correr para a sanita durante dois dias seguidos. Além disso arranjei um amigo. – Como te chamas? Perguntei-lhe já com o bandulho atestado. – Me chamam de Tabaibo. Disse-me tranquilamente. - Tabaibo? Não te deram outro nome? Perguntei com alguma ironia. – Não sei se deram, todos me chamam de Tabaibo. – Então o teu pai e a tua mãe? – Insisti. – Minha mãe morreu há muito tempo parece que foi quando eu nasci e o meu pai, eu não conhece mesmo. Não houve qualquer mágoa ou ressentimento na resposta. – Então onde é a tua sanzala? – Era lá na serra ao pé da capela de Santo António mas já não é mais. – Informou-me encolhendo os ombros. – Já não é mais porquê? Voltei à carga curioso. – Me expulsaram quando eu era mais pequeno. Disseram que eu dou mesmo má sorte porque nasci assim albino e ninguém queria chegar perto de mim e assim eu vim embora. – Disse-me com o ar mais natural do mundo. – Então onde moras agora? – Moro mesmo por aí. Disse-me estendendo a mão para o mato circundante. – E então comes o quê? – Eu como tabaibo, mirangolo, goiaba, nocha e às vezes caço uma rola ou uma tchirikuata com a minha fisga ou apanho uma sardinha ali na mulola. - Mas olha lá tu não me disseste o teu nome. – Interpelou-me. - Tens razão, olha o meu nome é António Rocha mas os meus amigos só me chamam de “Nocha”, acho que é porque eu tenho esta cara redonda e a pele assim meio escura.

 Sorriu achando piada à minha alcunha e rematou. – É isso cada um tem a pele que Deus lhe deu mas parece que a minha dá má sorte. – Não dá nada Tabaibo. Então se tu não tivesses aparecido eu não tinha comido o monte de tabaibos que embuti. – Confortei-o. – Bem eu não sei se amanhã tu vais pensar o mesmo? Advertiu-me perante a minha gula. Claro que sentado na sanita pela décima oitava vez recordei o meu novo amigo mas não me passou pela cabeça deitar-lhe as culpas pela minha oclusão intestinal. Fomos amigos durante alguns anos e ainda lhe perguntei se ele não queria ir trabalhar para a minha casa. - Podias ir buscar o “Terno” à pensão da D. Júlia e ajudar nos recados. Mas olha: - Disse-lhe eu depois da oferta de emprego. - Não podes ficar a jogar à bola de meia lá com os outros kandengues e a marmita ficar esquecida no capim. Adverti na brincadeira. – Obrigado Nocha mas nem os meninos pretos nem os brancos jogam à bola comigo, sabes…, dou azar. Hoje lembro-me do Tabaibo, da sua simpatia num rosto de má inspiração, da segregação e penso para comigo, afinal cada um nasce com a pele que Deus lhe deu, cabe a todos nós ler-lhes a alma.

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:41
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1 comentário:
De Noelma Teixeira a 16 de Setembro de 2014 às 16:11
Penso que as goiabas é que causam oclusão... o tabaio favorece o transito intestinal. a mim fá-lo trabalhar, até bem demais!!!


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