Sexta-feira, 20 de Junho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXV

ANGOLA . LUBANGOFloripes, a namorada de Cristo…

Por

 Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa

Esta estória é para recordar essa época em que éramos obrigados a aprender o Pai-Nosso a Ave-maria e até a Salve-rainha, numa daquelas escolas com uma professorinhas do antigamente.
Foi ela que me ensinou a dar os primeiros passos na língua do poeta Camões que via mais com um olho do que nós com os dois. Não me ensinou mais nada pois tinha uma total falta de vocação para outros ensinamentos que não fossem o “Bê-Á-Bá e todas as orações que eu era obrigado a decorar por via de uma educação ancestral católica! Estas lições obrigaram-me a desembolsar parte do meu precioso tempo infantil na catequese e outra parte numa luta inglória com a cultura. Se havia pessoa que eu respeitava tanto como a minha mãe, era a menina Floripes, no entanto, uma era a antítese da outra. Enquanto a menina Floripes me perguntava com uma meiguice tão grande no semblante como o olhar de uma cadela vadia à procura de dono, porque razão tinha faltado à catequese, a minha velhota que não era de modas primeiro chegava-me a roupa-ao-pelo e só depois é que perguntava onde andara eu a vadiar. A menina Floripes era mulata, esticava o cabelo encrespado para a nuca onde culminava num totó que parecia um rilhete feito com aqueles funis com saco de pano para enfeitar os bolos com glacê. 

 Uma doença infortunada em pequenina, deixara-lhe a pele morena das faces cheia de pequenas crateras variólicas que apagavam parte da beleza dos seus olhos verdes e doces. Para além disto nem Nossa Senhora de Fátima tinha tanta pureza na maneira de vestir, de brancura imaculada com saia larga em godé com as tradicionais pregas. O corpete com uma fiada de botõezinhos nacarados em forma de esfera que o decote só deixava ver a maça de Adão. Manguinhas tufadas até ao cotovelo e sapatinhas rasas de enfermeira de dispensário. Deslocava-se com a suavidade dos tufos de sumaúma quando esfarelávamos o fruto e espalhávamos as sementes brancas pelo ar.  Cá para mim, foi a professorinha mais linda e mais bondosa que tive em toda a minha vida. A beleza vinha de dentro dela como as estrelinhas da varinha de condão da fada que transformou uma abóbora no coche da Gata Borralheira; serena e ofuscante. Só me lembro de uma professora que me fez oscilar nesta análise que foi a minha professora de inglês que quando se debruçava na minha carteira para ver se eu escrevia “Yes” com um “i” ou “y” eu ficava embasbacado com os seus mamilos cor-de-rosa. Foi uma recaída séria que me fez chumbar a inglês dois anos seguidos. Houve quatro coisas, pelo menos, que eu nunca vi à menina Floripes; um momento de mau humor ou zanga, um namorado, os joelhos e os mamilos. As más-línguas da terra diziam que ela era uma beata, uma rata de sacristia e não sei que mais, todos estes adjectivos apenas porque era ela que engalanava o altar de Jesus Cristo para os serviços religiosos. Ramos de flores que arrancava do seu próprio jardim e que colocava nas jarras esguias da mesa do Senhor, com a ternura de rosas a desabrocharem.  
 Começou a circular pela cidade o boato que a Floripes mantinha longas conversas com Jesus e havia mesmo quem afirmasse que Ele um dia se exaltara e levantara a cabeça coroada de espinhos para lhe murmurar algo. Eu pessoalmente não acredito nisso mas houve alturas em que o Senhor me pareceu verdadeiramente agastado com alguns dos paroquianos engravatados e de ar respeitoso, as suas mulheres pavoneando os vestidos da moda e olhando de soslaio para as outras comadres em termos comparativos. Eu acho que Ele não gostava mesmo daquelas mexeriquices tipo revista Maria feitas no adro após terem batido vezes sem conta com a mão no peito.  Estive tentado a perguntar à minha professorinha se era verdade, que ela mantinha de vez em quando um bate-papo com Jesus mas acabei por não o fazer por achar que essa curiosidade era imprópria. Alguns coleguinhas meus chamavam-lhe a namorada de Jesus quando ela passava de olhos postos no chão e, eu pensei para comigo que era melhor que ser a namorada do diabo como a Dores mulher do Emiliano que namorava às escondidas o guarda Linhares. Esse sim, um verdadeiro Mefistófeles que nos perseguia de cassetete em punho por dá cá aquela palha
.
 A minha curiosidade ficou satisfeita certo dia quando me pediu para a ajudar a colher as flores para a igreja. Quando agarrei na tesoura para cortar uma molhada de “Bocas de Jarra” ela voltou-se para mim e disse: - Essas não, Jesus disse-me que detesta bocas de jarra e para não voltar a colocar tal flor no seu altar. -Abri os olhos de espanto com as palavras dela. - Então sempre é verdade que a menina Floripes fala com Nosso Senhor? - Indaguei curioso. - Falo com ele mas não é da maneira que as pessoas pensam. Tu gostavas de estar pendurado numa cruz anos a fio rodeado de flores de cemitério? E além disso gostas daquele perfume horroroso da madame Barata que deixa a casa Dele empestada durante uma semana? - Perguntou com a sua habitual candura. Eu não “Sopessora”, e até evito ficar na igreja ao lado da dita senhora que me dá uma grande agonia. - Respondi concordando com ela no tocante à miscelânea de perfumes que se entrecruzavam na igreja aos Domingos.   Ao fim de uma hora a menina Floripes tinha composto uma série de ramalhetes alegremente coloridos de rosas, gipsófilas e umas tantas dálias anafadas acasaladas com cravos de burro. Acho que não vou levar nenhuma descompostura desta vez. - Confidenciou-me com o ar mais sério deste mundo.
 Morreu aos trinta e nove anos de uma doença estranha a que chamavam leucemia. Foi definhando gradativamente e eu fui visitá-la com assiduidade até ao dia que partiu para perto do seu suposto namorado. - Quando eu partir não te ponhas a chorar baba e ranho de todo tamanho, que parto para melhor; solicitou-me quase em segredo. - Como é que sabe que é melhor, menina Floripes? -Foi Ele que me disse e, acrescentou. - Não leves bocas de jarra para a minha campa que Jesus não gosta dessas flores. Se levares vais ver que numa hora ficam murchas e amarelas. - A primeira ameaça séria que ouvi da sua boca.
Sempre fui curioso e desobediente e como tal resolvi confirmar a veracidade das palavras da menina Floripes. Coloquei dois ou três ramos de Bocas de Jarro nas jarrinhas da lápide dela e prometi a mim mesmo lá voltar uma ou duas horas depois para verificar se tinham murchado ou não. Pronto não digam mais nada, já sei que Nossa Senhora não chora lágrimas de sangue, que as chagas do Crucificado não sangram a torto e a direito, mas uma coisa é certa o Namorado da Floripes não gosta de bocas de Jarra, prefere mesmo aqueles malmequeres campestres misturados com “Beijos de Mulata” que eu comecei a colocar na campa dela. Coisas simples sem ostentação ou vaidade e pelo menos não murcham tão rapidamente.

Reis Vissapa

Ilustrações de Costa Araújo Araújo

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:55
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