Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXXI

ANGOLA . LUBANGOOS TRÊS DA VIDA AIRADA

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

 África, é uma bênção e um veneno.

Eram tempos de juventude em festa, esses inesquecíveis em que convivi com o Manuel e com o Orlando. Estou a ouvir Charles Aznavour a cantar “Bon Anniversaire” enquanto escrevo e estou a viajar no tempo, a conduzir o meu mini ABS-05-61, e o Orlando Lourenço que Deus o tenha a conduzir o seu ABS-05-62, iguais como duas gotas de água na cor e tudo. Quanto ao carro do Manuel Sá só ele pode dizer a marca que a minha memória não chega a tanto. Um delapidar de gasolina em busca de corações perdidos nas ruas do Lubango. Éramos amigos e como tal partilhávamos segredos nos cadeirões do Hotel Metrópole na companhia do cafezinho que o velho Santos tão bem loteava. – Quem era aquela que ia hoje no teu carro? Não sei onde vais descobrir esses borrachos? – Querias saber tanto como eu. – É a Miss Safari. – Como é que sabes? – Partilhamos os mesmos caminhos. E era assim. Dávamos nomes quase codificados às jovens e mulheres que partilhavam o assento do pendura. Uma corrida rápida à Capelinha e no seu testemunho mudo beijos trocados à socapa no ardor maior da juventude. Música Francesa, Italiana, Espanhola, Mexicana etc, etc.

 Ao contrário dos dias de hoje que a americanice e a língua saxónica domina. Virámos todos “Beefs”. Graça a Deus o Brasil salva-nos e podemos ouvir a sua linda música de ontem e de hoje num hino à latinidade. Aos fins-de-semana bebíamos os nossos copos nos bailaricos limítrofes ao som dos Acústicos do Bossa Nova e do velho Blue Star. Era assim uma orgia de companheirismo e permanente boa disposição vivendo um dia de cada vez. O Orlando e eu com óculos de dioptrias tipo caco de garrafa. Foi preciso chegar a velho e ficar de vez sem óculos nem cataratas. O Manel, de caracóis negros um galã a rondar o Dean Martin. Mas ninguém se queixava. Chegava para todos e posso dizer que havia uma espécie de código ético entre nós no que respeitava às “Muchachitas”. Os minis iguais haviam de dar lugar a um incidente em que quase fui preso. Parte sempre por elo mais fraco. Era o casamento da filha do Governador, a Né, com um alferes qualquer, o Franco é que sabe alcunha que eles lhe deram. Tinha emprestado o meu mini ao Alferes Cabral para ele ir ao casamento do colega. Tipos como eu não eram convidados para esses eventos. Vou para o adro da igreja onde a maralha se juntou para assistir.

 O trânsito tinha sido vedado à populaça e era proibido estacionar pois os lugares estavam destinados só para convivas. Quando lá cheguei já lá estava um mini azul eléctrico igual ao meu, o pai do Orlando o administrador Lourenço tinha chegado cedo para o evento. Coloquei-me deliberadamente perto do carro. Eis senão quando surge o Guarda Polainas e sem bom dia nem nada rosna. – Tire já esse carro daqui, imediatamente! – Esse carro não tiro de certeza absoluta. Retorqui. – Ai, isso é que tira; ou tira ,ou vai já para esquadra. E dizendo isto chamou a atenção a outro polícia para levar a dele avante. Entretanto o maralhal juntou-se à nossa volta para ver em que é que aquilo dava. – Porque raio não tira o c.... do carro daqui? Gritou apopléctico. – Porque o carro não é meu. Respondi-lhe em ar de gozo. Ficou roxo de raiva e a gargalhada foi geral. Tal gracinha custou-me um carradal de multas e perseguições ferozes.

 Mas tinha uma grande amiga que era quase tão doida como eu e era filha do Governador de Serpa Pinto, Moita de Deus. Ía em direcção à Senhora do Monte e juro que não era nada de mal, éramos mesmo bons amigos. Pelo retrovisor vejo o polainas a acelerar a moto atrás de mim e a mandar-me encostar. Ela sabia da história toda e não o deixou falar. Passou-lhe uma caixa de charutos e ameaçou-o de fazer queixa ao pai. As multas acabaram; ela partiu não sei para onde, nunca mais a vi e o polainas encontrei-o uma vez nas Caldas da Raínha mais o meu grande amigo polícia pai do Esteves; julgo que era ele mas, não tenho a certeza

Fui para Luanda trabalhar e encontrei lá o Orlando funcionário no BCA. Foram meses de glória nos cabarets e na noite de Luanda. Eu trabalhava no Porto de Luanda e vivia num quarto na marginal.

 Dormia das cinco da tarde à meia-noite hora em que ia buscar o Orlando para a “Night” e ele tinha a mesma rotina. Copacabana, Estoril, Bambi e outros do género, seguindo-se fado no Retiro da Saudade e no final a Casa Portuguesa. Café e mata-bicho no bar do aeroporto e pé na tábua para o porto ainda empinocado da night. Armazém 6, o chefe Adelino a olhar para a minha indumentária mais própria para um baptizado. – Dionísio, chegaram uns fardos de roupa para o Quintas e Irmão, pode ir dormir para lá. Eu agradecia e ia! Não havia complicações, era tudo simples como um grão de arroz, boa gente. Após seis meses mandei-me de novo para Sá da Bandeira, a vida era dura em Luanda. O Orlando também voltou e casou com a Ilda. O Manuel casou com a Marieta e eu também acabei por casar deixando para trás amores vadios que por vadios foram espectaculares para todos nós.

Reis Vissapa

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:26
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