Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015
MUJIMBO . CVIII

ANGOLA . NAS CICATRIZES DO TEMPO40 anos depois, “Não podemos fugir à história e pensar que um dia pegamos numa borracha e apagamos tudo”

kimbo 0.jpgAs escolhas de Kimbo Lagoa

Por:

Elias Isaac.jpgELIAS ISAAC - DIRECTOR DA ONG OSISA

“O que Angola está a tentar fazer é a transformação social com uma minoria que vive nos condomínios, tem acesso ao crédito bancário, a bons empregos, enquanto a grande maioria que já no passado viveu excluída continua excluída nos musseques.”

eleuterio3.jpg No Sambizanga, “não há muitos mulatos nem brancos”. É um dos maiores musseques de Luanda, um bairro de lata onde muita gente tem medo de entrar. No centro, a enorme estrada foi transformada em rio devido às cheias. Os vendedores assam comida em frente a lixo, galinhas passeiam-se entre escombros, há lixo de todo o tipo nos telhados. Há no ar um cheiro nauseabundo. Os musseques foram crescendo como zonas separadas, quase exclusivas para os negros durante o período colonial.

eleuterio2.jpg Os brancos ficavam no centro da cidade. “Proporcionar as comodidades da vida na Europa à comunidade não era tarefa simples numa colónia parcialmente povoada por condenados. O abastecimento de água foi, durante séculos, um problema tremendo”, lê-se em História de Angola, de Douglas Wheeler e René Pélissier. O facto de a população dos musseques ainda hoje ser maioritariamente negra é visto como consequência da separação racial do tempo colonial mas é sabido terem vivido ali muitas famílias brancas de baixo poder económico. Não é legítimo dizer-se haver fronteiras, dum lado brancos e do outro pretos, porque tudo era uma questão de sustentação económica.  

eleuterio4.jpg As relações raciais definem-se por quem controla quem, quem exclui quem e quem se vê excluído, comenta Elias Isaac, 55 anos, director da Open Society Iniciative of Southern Africa (OSISA) em Luanda. Hoje em Angola a questão das relações raciais aparece de forma subtil, continua, na sede da ONG, que fica num dos prédios novos de Talatona. Talatona é um bairro onde ficam muitas empresas, é também uma zona residencial da classe média alta e o trânsito de manhã e ao final do dia é compacto.

eleuterio5.jpg No quotidiano, os angolanos negros na maioria, os mestiços (cerca de 2%) e os brancos (1%) convivem, estão nos mesmos restaurantes, estão nas mesmas discotecas, defende. Mas se aprofundarmos: “Nos subúrbios mais pobres, só existe um tipo de gente, os angolanos de raça negra. Nos condomínios, nos bons subúrbios, há angolanos de raça negra da elite, com angolanos de raça mista, de raça branca ou povos de outras nações. Por isso digo que (o racismo) não aparece de forma tão expressiva na sociedade, mas subtilmente.”

Ilustraçõe de Eleutério Sanches

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:36
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