Domingo, 10 de Agosto de 2014
MUSSENDO . VII

UM ÓBITO NO HUAMBO - Jaka Kapiango, a vida, só lhe castigou

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola) durante o tempo colonial (Arnaldo Santos foi seu 1º mestre).

Por

   T´Chingange

Esta estória é já uma segunda versão com ligeiras alterações para recordar e dar continuidade falando de tempos mais antigos; do tempo do sargento Canas,  das pedras de Nganda la Kawe dos sobas  Huambo Calunga e Cunhamgâmua e sua filha com pretensões de vir a ser branca, uma gweta assim como o mwana-pwó Canas. Uma homenagem aos meus auxiliares em campo da Câmara Municipal da Caála: - Pumuma, Jamba, Otaca, kumuna, Botomona, Francisco e Zacarias. A ferrugem do tempo calcinou projectos ali ao lado da pedra dde Nganda la Kaweo aonde o sargento Canas também foi enterrado; fica a caminho do Quipeio e, a ilha dos amores. O presidente Casimiro Gouveia nunca soube que era o Caluviáviri.

 Jaka Kapiango num mês bolorento, muita chuva, pouco dinheiro, maka na família, dívidas sem pagar no senhor Zeca gweta da loja do kimbo lá na Vila Flor. Teve de dar nome na administração aonde devia impostos de cubata; quinze dias depois, seguia de contrato para a roça em Samtomé no vapor “Mouzinho”.

 Na vida dele toda negra, só engordoreceu vontade de fazer seu sonho pois,... Só ajuntou o insuficiente para comprar uma junta de bois. Nem quase só, nenhuma coisa mesmo, nada ki kima n´go; foi no Longonjo trabalhar terreno bom no plantio de milho mas, a velhice chegou antes do tempo certo. Ele, só desconseguia viver melhor do que queria; sempre escorria sua fraca sombra fazendo encontro com o sonho que tinha andado dormir no seu coração. O tempo foi comendo lembranças da roça lá no Samtomé que, de muita sorte voltou no seu kimbo, suas botas, sua lavra, sua primeira, segunda e terceira mulher.

 Num dia mais tarde Jaka Kapiango foi ficar só envelhecido de seco, castigos e fomes. Seu nome ficou de sucesso no livro de contratados no angariador da administração; um exemplo de sucesso apontado na palavra do senhor governador de distrito na Nova Lisboa. Jaka morreu contraminado sugando cinzas em estória de saudade antiga, sua dicunji dos mares verdes de Samtomé; uma vida de nó em três voltas. No Samtomé já só juntou mesmo chuva grossa mais mil chuvisquinhos e berros do capataz tuga peidador de bufas importadas do Puto. Por muitas vezes saiu voando sombra negra de raiva no toque, zunido e uivo dum longo chicote; lentamente ia-se morrendo.

 Seus kambas kwachas lhe lembraram, boa pessoa, inchados de bolunga doce e t´chissângwa fermentada  com paracuca a acompanhar.  Neste entretanto, o choro de lágrimas encarquilhava mulheres de velhos rostos carpidando, simplesmente. Sai só falando calado “ m´bika ia kaputo, caputo ué”. O Sol de Jaka se apagou entornado de escuridão que lhe torceu por demais seu coração.

Glossário: m´bika ia kaputo, caputo ué: - escravo de branco, branco é!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:29
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